Pietro Ubaldi & Nazarius

"S. Vicente, 27 de março de 1966.

Nazarius,

Só agora respondo a sua carta de 6 de Janeiro.

Li a respeito da enchente, que chegou até sua casa. Somente agora posso contar-lhe o Encontro de Brasília.

No dia 7 de março voltamos da casa de campo, perto S. Paulo, para S. Vicente. Logo depois chegou, de automóvel, o Cônsul com sua senhora, vindo de Montevidéu.

Viajei com eles de avião (os três) de S. Paulo para Brasília, onde ficamos os dias 11, 12, 13 e 14 de março.

No domingo à noite, eu li minha palestra: “A Nossa Simbólica Oferta ao Brasil e aos Povos da América Latina”. Havia no auditório da Escola Parque, onde falei, cerca de 1.000 pessoas. Fui apresentado pelo Deputado Federal Dr. Noronha Filho e o encerramento foi feito por outro Deputado, Campos de Vergal. Tudo foi registrado em 4 gravadores, cada um levando as fitas consigo. Tudo será impresso em nossos boletins. Já temos o de S. Paulo, o de Montevidéu e o mais novo será o de Brasília. Cada um independente do outro.

A notícia do Encontro foi transmitida aos Estados Unidos, Europa e Japão, pela “Internacional United Press”, de Brasília. Saíram artigos nos jornais de Brasília, que farão folhetos das palestras. Estavam presentes representantes de alguns países da América do Sul, chegou um de Miami (Flórida – Estados Unidos). Chegaram telegramas e mensagens de outras cidades brasileiras, de países da América do Sul e América Central, dos Estados Unidos, da Europa e do Japão. Tudo foi lido.

No dia 13 houve uma reunião no Pálace Hotel e troca de idéias e programa de trabalho para desenvolvimento da Obra. No almoço, sábado (12) e domingo (13), éramos 22 pessoas. Alguns chegaram de automóvel de S. Paulo (1.200 km). Assim tivemos 5 carros ao dispor, em Brasília. Sem carro não se pode deslocar, são distâncias imensas.

Fomos recebidos pelo Presidente da Câmara dos Deputados. No hotel, fui hóspede da Prefeitura de Brasília. Tudo fotografado. Havia quatro fotógrafos sempre funcionando. Chegou tambem o Prof. Osvaldo Requião, de Feira de Santana (Bahia), que está escrevendo um livro apoiando a teoria da Queda dos Anjos, para explicá-la aos espíritas, que não aceitaram. Fez um folheto sobre o assunto.

Assim, em Brasília temos outro centro de divulgação da Obra. Vai continuar funcionando com pessoas que moram lá. Estão estudando A Grande Síntese e publicando o nosso Boletim. Foi apresentado o meu novo livro, saído recentemente: Evolução e Evangelho, aqui já está a venda. Está na tipografia A Lei de Deus. Entregarei à mesma A Descida dos Ideais, que iniciei em Grussaí, com cerca de 450 páginas e que sairá no fim deste ano. Agora estou continuando Um Destino Seguindo Cristo, que, também, iniciei em Grussaí.

Como vê, estamos trabalhando. Está pronto, traduzido, e o Cônsul levou com ele, para revisar a língua, o livro Comentários. Saiu, em italiano (Roma), o folheto de 150 páginas: “L’Attuale Momento Storico”; está na tipografia, em Roma outro folheto: “Psicanalisi delle religioni”; ambos são capítulos do livro A Descida dos Ideais. Numa revista, Piacenza (Itália), todo mês sai um artigo meu, desde janeiro de 1965. É uma tempestade de livros, artigos, correspondência etc.

O Cônsul ficou aqui até ontem. Despedimo-nos à noite. Hoje, já está viajando, de automóvel, para Montevidéu, ficando em Curitiba e Porto Alegre, visitando os amigos de lá e organizando naquelas cidades o nosso trabalho. Fez isto também, aqui em Santos e S. Paulo.

Todo este trabalho representa o fato de que a Obra está sendo irradiada do Brasil (Brasilia – capital) para o estrangeiro. Ela entra, assim, nesta fase de maior expansão. No início era só Gúbio. Depois foi Campos, a seguir Rio e S. Paulo. Brasil em 1951, agora, em 1966 é o Brasil mais os outros países. Esta é a fase atual da Obra. O Brasil se torna centro de irradiação, saindo de Brasília, capital.

Neste ano entro nos meus 81 anos de idade. Era preciso entregar a Obra aos meus herdeiros espalhados pelo mundo, encarregados do trabalho de sua divulgação. O meu trabalho, agora, é só mental: o de escrever os meus últimos livros. Cada coisa chega no devido momento. O programa está se desenvolvendo regularmente. Calculo viver até o ano de 1971, para acabar a minha parte que é a de escrever. Para Campos fica sempre a glória de ter sido o primeiro núcleo da Obra. Eu posso desaparecer, para que só a Obra fique.

Peço-lhe o favor de ler esta carta também ao querido Prof. Clóvis e ao Dr. Albano, para que eles estejam a par de tudo. Devo tanto a ambos! Tudo será impresso em nossos boletins.

No dia 4 de abril, às 23:30 horas, falarei uma hora na televisão de S. Paulo, canal 5, sobre meus livros.

Agora, volto ao meu trabalho de escrever livros- da Obra. No inverno se tem um pouco de paz. Aqui, tivemos até ontem um calor louco. Resisti à corrida, às visitas, a tudo. Estou coordenando idéias e coisas.

Saudades ao Clóvis e a Dr. Albano, a todos os amigos de Campos.

Abraços de todos daqui e do seu

Pietro Ubaldi"

COMENTÁRIO

Como vimos nas cartas anteriores, viajar, para Pietro Ubaldi, era quase impossível, devido à idade e ao seu estado de saúde, entretanto, recebeu tanta ajuda espiritual que se sentiu seguro para enfrentar não somente a viagem, mas também um grande público, muitas entrevistas e contatos, durante os 4 dias, em Brasília.

De muitas cidades do Brasil, chegaram amigos e simpatizantes da Obra, além dos estrangeiros. De S. Paulo foram dois automóveis: um com Ferdinando Ruzzante Netto, Sérgio Giulietto e Cláudio Picázio; outro com Oswaldo Bearzi, João Camargo Szymanski e Alfredo Morbin. O primeiro, dirigido por Ferdinando , auxiliado por Sérgio; Ferdinando conseguiu harmonizar a sua chegada à Brasília com a do Viscount da Vasp, às nove horas da manhã, dia 11 de março de 1966. Eles viajaram durante a noite, enquanto o Professor viajou pela manhã. Assim puderam fazer parte da comitiva que estava no aeroporto para receber aquele convidado ilustre.

Brasília, a partir daquela data, começou a fazer parte da Obra de Pietro Ubaldi.

Na Itália, cinco cidades merecem destaques importantes na Obra: FOLIGNO, cidade natal; PERÚGIA (Tenuta Santo Antonio), onde escreveu duas Mensagens, A Grande Sintese, As Noúres e Ascese Mistica; MÓDICA, onde iniciou o magistério e recebeu a “Mensagem da Ressurreição”; GÚBIO, onde recebeu três Mensagens, escreveu os demais livros da primeira Obra e lecionou durante 20 anos; S. SEPULCRO, lá foram escritos a “Mensagem da Paz”, dois capítulos de A Nova Civilização do Terceiro Milênio, “S. Francisco no Monte Alverne”, e um capítulo de Ascensões Humanas, “Ressurreição”.

No Brasil, seis cidades merecem destaques especiais: CAMPOS DOS GOYTACAZES (RJ), porque daí partiu o convite à vinda de Pietro Ubaldi ao Brasil, em 1951, para fazer conferências, e foi a primeira a divulgar a sua Obra, além de sediar o Instituto Pietro Ubaldi, a Editora da Obra e o Museu Pietro Ubaldi; S. VICENTE, onde ele residiu por 20 anos, escreveu a segunda Obra e completou a sua missão; CATANDUVA (SP), onde o Professor esteve por várias vezes na residência de Benedito Zancaner que lhe doou o apartamento e papel para impressão de vários livros do Grupo Editorial Monismo Ltda; SÃO PAULO, pólo de divulgação da Obra; BRASÍLIA, onde fez a “Oferta Simbólica da Obra ao Brasil e aos Povos da América Latina” e próximo se encontra o Memorial Pietro Ubaldi, em uma bela chácara que tem o nome de “Monte Alverne”, COTIA, onde escreveu bastante, inclusive o livro Cristo.

Outras cidades brasileiras também contribuíram e continuam contribuindo com a divulgarão da Obra: BELO HORIZONTE (MG), CURITIBA (PR), GOIÂNIA (GO), PORTO ALEGRE (RS), RIO DE JANEIRO (RJ), RECIFE (PE), SALVADOR (BA), UBERLÂNDIA (MG) etc.

 

"S. Vicente, 26 de agosto de 1954.

Nazarius,

Agradeço o seu telegrama e votos pelo aniversário. Peço-lhe agradecer, novamente, ao bom Norival. Cristo lhe pague. Nunca vou esquecer da bondade desse amigo, pelo que lhe devo material e espiritualmente.

O pó para matar baratas chegou bem. Obrigado, vou usá-lo.

Peço-lhe entregar a carta anexa a Herval.

A luta continua, os bons me ajudam.

Estou gripado e aproveito para escrever.

Não sabendo quando vai ser o casamento de Clóvis, peço-lhe informações para enviar-lhe um telegrama.

Na primeira quinzena de setembro, espero voltar de Mato Grosso.

Gostaria de ir a Campos, mas não será possível, porque preciso ficar a cuidar dos problemas materiais até que eles fiquem resolvidos. Depois desta luta, um ambiente novo vai surgir com amigos escolhidos, bons e honestos, fiéis como você.

Recebi telegrama de Joel e carta de D. Cirene Batista, aos quais envio bilhetes anexos.

Amanhã, dia 27, vou sair daqui para Mato Grosso, com Dr. Albano que chegou domingo, ficando aqui, alguns dias, comigo. Recebi das mãos dele a sua cartinha, a qual lhe respondo hoje. Recebi, também, seu cheque de Cr$ 1.050,00. Minha gratidão a você e a todos que me ajudaram. Se possível gostaria de conhecer o nome de cada um deles, para agradecer, também, pelo presente e pelo futuro. Peço a você que faça isso por mim.

Este é o dinheiro sagrado dos pobres, aquele que tem mais valor, porque é o fruto do sacrifício e do Amor. Aqueles que deram são meus verdadeiros amigos para sempre.

Voltarei de Campo Grande com Dr. Albano, que vai acompanhar-me, até S. Paulo. Ele vai para Campos e eu retorno a S. Vicente.

Não creio que possa escrever-lhe durante a viagem.

Deus o abençoe pela bondade para comigo.

Um grande abraço ao meu querido Nazarius.

Pietro Ubaldi"

COMENTÁRIO

Uma das características das grandes almas é o espírito de gratidão, que se torna cada dia mais difícil no seio da humanidade, mesmo entre filhos e pais ou entre irmãos. Qual o governo que é agradecido ao povo, fazendo uma boa administração, por tê-lo sufragado nas urnas?

A gratidão é virtude que brota do interior, é o resultado de nossa evolução biológica.

É tão agradável agradecer, louvar ao Senhor pelo dia que amanhece, pela saúde que nos dá força e vitalidade, pela doença que nos faz repensar a vida, pelas dificuldades que batem à nossa porta, pela conforto do lar, pela alimentação escassa ou abundante, pelo respeito e Amor que devemos ter ao próximo, pela boa convivência com os vizinhos, pela proteção espiritual que recebemos, pelo conhecimento do Evangelho, pelo desejo de colocá-lo em prática, pela vontade de obedecer à Lei, pelas amarguras de cada dia, pela dor e alegria, por tudo louvemos ao Senhor Deus de toda a criação e de todos os universos.

Pietro Ubaldi sempre demonstrou espírito de gratidão aos seus amigos, por qualquer tipo de colaboração, pequenina ou grande, seguindo o exemplo e os ensinamentos de Cristo que, antes de pedir ao pai a graça para alguém, primeiro agradecia.

A Grande Síntese, “Oração do Viandante”, ensina a agradecer até quando sofremos: “Ora assim, ó alma cansada: “Senhor, bendito sejas, sobretudo pela irmã dor, porque ela me aproxima de Ti. Prostro-me diante de Tua imensa obra, mesmo se nela minha parte é esforço. Nada passo pedir-Te, porque tudo já é perfeito e justo em Tua criação, mesmo meu sofrimento, mesmo minha imperfeição transitória. Aguardo no posto do meu dever a minha maturação. Repouso em Tua contemplação.”

 

"S. Vicente, 18 de agosto de 1965.

Nazarius,

Recebi a sua carta de 8 deste mês. Em todos os lugares ouço pedidos de A Grande Síntese, esgotado. Para atender tais pedidos, não se poderia utilizar a edição espanhola do Cônsul? Se tiver pedidos em Campos ou no Rio (para Nilton Garcez), pode dirigir-se ao Cônsul, até mesmo pedir um estoque para vendê-los, como fez com os outros.

Agradeço pelas boas novas e pelos votos de felicidade ao meu aniversário. Agradeço, também, pelo seu cheque para comprar um presente. Já o troquei num banco, em S. Vicente.

O Cônsul está bom. Enviou-me outro capítulo de A Descida dos Ideais. Remetê-lo-á diretamente para você, alguns por avião e cem exemplares por navio.

Transmiti a Kokoska o resultado do seu encontro com Nilton Garcez no Rio.

Não se preocupe com o artigo no Reformador. A revista é outra, é o Semeador de S. Paulo, já o encontrei.

Aqui saiu o livro Princípios de uma Nova Ética. Temos estoque de alguns exemplares em casa. Você precisa de alguns?

Está na tipografia Evolução e Evangelho. Entreguei, também, A Lei de Deus. No fim do ano estará pronto, em português, A Descida dos Ideais.

Estive alguns dias em Cotia, perto de S. Paulo. Não há hotéis para ficar. São todas chácaras particulares e um posto de gasolina um pouco longe. Também nos arredores só existe um restaurante húngaro, mas o preço é de louco. As refeições custam quatro contos cada uma, é um absurdo. Por isto o nosso encontro deve ser em S. Vicente.

As minhas viagens acabaram. Mas estou sempre mais ativo. Isto significa que o movimento se deslocou do plano físico para o espiritual, como é natural para quem vai se aprontando para uma outra vida, noutro tipo.

Saiu o folheto “La Sintesis Ciência-Religion”, em espanhol. É um capítulo de A Descida dos Ideais.

Junto os últimos impressos.

Saudades a todos.

Seu

Pietro Ubaldi"

COMENTÁRIO

“As minhas viagens acabaram. Mas estou sempre mais ativo. Isto significa que o movimento se deslocou do plano físico para o espiritual, como é natural para quem vai se aprontando para uma outra vida.”

Assim Pietro Ubaldi termina sua carta escrita no dia do seu aniversário, completava 79 anos de existência terrena e se preparava para sua última viagem, sem retorno, fisicamente. As viagens as quais se refere são aqueles a Campos e outras menos importantes. Sua preocupação maior é com a Obra e com a vida depois da morte.

Sentia que seu débito para com a Lei, nesta vida, já estava quitado, restava-lhe apenas completar a sua missão. Nasceu para resgatar uma dívida, cumprir a missão que o Cristo lhe confiou e ser-Lhe fiel até a morte.

Todos somos devedores à Lei, por isto Jesus colocou no “Pai Nosso” o pedido de perdão a Deus: “Perdoa as nossas dívidas” (...). Felizes aqueles que descobrem seus erros do passado e têm oportunidade de resgatá-los. Pietro Ubaldi descobriu onde e como tinha fracassado, compreendeu e sorveu o seu cálice até a última gota.

“Havia cometido, por certo, uma queda, que agora reclamava, fatalmente, justiça e expiação. Um dia foi a Versalhes, para reconstruir, dentro de si mesmo, a torpe frivolidade do mundo de Luiz XV e aquela trágica hora de prostituição do poder e da riqueza, de que nasceram os horrores da Revolução Francesa. (...)

As vibrações mais decisivas permaneciam e lhe falavam. Todo um mundo de loucuras, frívolo e trágico. De Versalhes, ele o seguiu com o pensamento voltado a Paris, às Tulherias, à tragica fuga de Varennes, ao Templo, por fim à guilhotina de Luiz Capeto e de Maria Antonieta. O Delfim desaparecido. Eis o período do terror, os cárceres regorgitantes de aristocratas condenados. Eis Robespierre, elegante, o incorruptível, e Danton e Marat, devorados pela sua própria revolução. Tudo se afunda no sangue. O terror da revolução era seu próprio terror; ao rebuscar-lhe as causas, nas imponentes salas de Versalhes arrepiava-se, como diante de uma sensação real.

Ele se perguntava: que tenho eu com esse mundo, como as suas culpas podem ser as minhas, qual é o significado desta sintonização, que me faz vibrar com os seus episódios, desta atração que me prende, pois tudo isso sinto reviver em mim? Está ali, talvez, a causa da minha atual expiação, que, por isso, adquire forma tão precisa e específica, a ponto de parecer a correção daquelas culpas? Por que uma tal correspondência de sensações e de posições? (...)

Cristo esplendia naquele destino, no seu passado, no seu futuro. Como uma lembrança e com um pressentimento, envolvia-o todo em luz, tanto que o breve espaço daquela vida de treva dolorosa se fechava entre dois esplendores. Aquela luz estava antes da culpa e depois da expiação. Cristo era a sintonização mais palpitante daquela vida e sempre ressurgia diante daquela alma, sempre com profunda emoção! Este era o sulco mais fortemente traçado e que ali se tornara indelével. Parecia, sempre, àquele homem ver a grande e amada Figura andar pelas terras da Galiléia, às margens do Lago de Tiberíades, de Belém a Nazaré, a Jerusalem, da pobre manjedoura ao Getsêmani e ao Gólgota. Segui-La-ia como exemplo, em silêncio, pelos caminhos da vida, amando e sofrendo. Cristo era, para ele, antes do nascimento e depois da morte a última sintese de todos os valores humanos.”

Estes são trechos de um dos capítulos mais belos e mais longos de História de um Homem: “A Procura de Si Mesmo”.

Cabe ao leitor continuar pesquisando e descobrir as demais reencarnações.

 

"S. Vicente, 3 de agosto de 1954.

Nazarius,

Na cartinha que você me deixou, encontrei Cr$ 100,00. Por que fez isso? Fiquei comovido pela sua bondade. Minha família também. Este dinheiro vai ficar comigo como símbolo de bondade, como uma relíquia. Vou trazê-lo comigo e quando estiver triste pela maldade humana, vou pensar: nem todos são maus, tem alguém no mundo, que faz sacrifícios por mim, porque me quer bem.

Hoje, chegou outra prova de bondade de outro amigo. Chegou outra carta registrada do Norival Nogueira, da sua cidade, com um cheque do Banco do Brasil, no valor de Cr$ 9.000,00. Um dia vou mostrar a carta deste homem pobre e simples que me ajudou na hora da necessidade, vou mostrar aos ricos que, nesta hora, não fizeram nada por mim, só promessas não cumpridas.

Agora, peço-lhe entregar a ele a carta anexa, na qual falo ter recebido o dinheiro. Se não for bastante, faço-lhe um recibo.

Em anexo, também, uma carta para Joel Soares, pode lê-la e entregar-lhe.

Aqui a luta é sempre mais gigantesca. O mal é forte e agride, mas o bem é ainda mais forte e vence. Estou no meio dela, o Cristo está comigo. Grandes coisas vão surgir dentro desta tempestade.

Você é sempre o meu fiel Nazarius, ao qual estou sempre tão agradecido pela sua bondade.

Vivi dias tristes e de grande esgotamento físico, também vivi dias de triunfo. A missão é dirigida por Cristo e ninguém pode pará-la. O exército inimigo está forte, mas o meu está também crescendo. Você será um dos meus soldados. Esta é uma guerra espiritual, sem armas, com os recursos evangélicos.

Tudo que o Cristo falou vai acontecer.

É bom que a verdade seja conhecida.

Não gosto de fazer maledicência, outros farão no meu lugar, porque a verdade não pode ficar escondida por muito tempo. Mais cedo ou mais tarde, virá à luz do dia.

Oremos ao Cristo, Ele resolverá tudo.

Não sei como agradecer-lhe e aos nossos bons amigos que planejam ajudar-me. Tem aí o grupo de verdadeiros amigos, aos quais quero muito bem.

Os acontecimentos são tantos que não consigo acompanhá-los completamente.

Fale ao Clóvis que não fique preocupado comigo, porque a quem tem o Cristo consigo nada pode acontecer e meus sofrimentos são necessários para o desenvolvimento da Obra, que está crescendo a cada dia. Um grande exemplo vai ser dado a todos, separando o joio do trigo, os bons dos maus. Os amigos de Campos estão entre os bons.

Saudades e abraços a todos, seu

Pietro Ubaldi"

COMENTÁRIO

Esta carta foi escrita a quem conhece toda a história, aos outros é necessário que os fatos sejam narrados, ainda que resumidamente, para o leitor compreender porque o Brasil passou a ser a Nova Pátria de Pietro Ubaldi. Vamos recordar como tudo ocorreu desde o início:

Em 1910, quando defendeu sua tese de formatura em Jurisprudência pela Universidade de Roma, Expansão Colonial e Comercial da Itália para o Brasil, o nosso país começou a ser apontado como a futura pátria de seu Autor.

Na noite de 6 de fevereiro de 1934, Pietro Ubaldi escreveu “Apresentação” e um parágrafo é dedicado ao Brasil: “Almas distantes, que no Brasil tudo compreen-destes, distantes pelo espaço, mas tão perto do coração, que o meu abraço vos chegue forte, profundo, imenso, como eu o sinto agora, nesta solidão montanhosa de Gúbio, no mais alto silêncio da noite, com minha alma nua diante do Cristo, cujo olhar me penetra, envolve-me e me vence.” Sua missão começou no Natal de 1931.

Quando A Grande Síntese foi ditada em quatro verões sucessivos, paralelamente era publicada na Itália, pela revista Ali del Pensiero, e no Brasil, pelo Correio da Manhã. Em 1937, o livro foi lançado naquele país em um volume de 400 páginas e em 1939, aqui, foi publicado pela Federação Espírita Brasileira (FEB), que já havia divulgado todas as Mensagens recebidas desde a “Mensagem de Natal”, 1931. Assim o Brasil acompanhou a missão de Pietro Ubaldi, a partir do início.

Em 1951, ele veio fazer uma série de conferências, percorrendo capitais e cidades do interior, sempre acompanhado de seu intérprete Clóvis Tavares. No dia 17 de agosto, Francisco Cândido Xavier recebeu uma mensagem de S. Francisco de Assis para ele. Concomitantemente, “Sua Voz” lhe ditava outra mensagem, ambas concordantes. Foi um fenômeno inusitado. Na mensagem de “Sua Voz”, um parágrafo foi para o Brasil: “ O Brasil é verdadeiramente a terra escolhida para o berço desta nova e grande idéia que redimirá o mundo. Agora tua (refere-se a Pietro Ubaldi) missão é acompanhá-la com tua presença e desenvolvê-la com ação, de forma concreta. Todos os recursos te serão proporcionados.”

Quando terminou o giro de conferências, durante três meses de intensa atividade, um grupo formado de líderes espíritas de S.Paulo, entusiasmado com o sucesso do conferencista – falou em Assembléias Legislativas, em anfiteatros, em universidades, em entidades espíritas etc. – e diante das revelações mediúnicas de que ele era a reencarnação de Simão Pedro, convidou-o a vir morar no Brasil acompanhado da família. Retornando à Itália, pouco tempo depois, já no ano seguinte, aceitou o convite, porque na Páscoa daquele ano “ Sua Voz” lhe disse: “Prepara-te. Viajarás com toda a tua família no final deste ano. O próximo Natal passarás no Brasil. É como se tudo já tivesse acontecido.” Adhemar de Barros mandou os recursos necessários e, apesar de enormes dificuldades, no dia 8 de dezembro de 1952, estavam todos desembarcando no porto de Santos, SP, cumprindo-se a profecia.

Diante de tantos fatos e de tantas provas, é impossível negar o importante papel do Brasil na vida e na Obra do missionário de Cristo.

Todas as informações estão contidas nos livros: Comentários, Fragmentos de Pensamentos e de Paixão, Profecias e Pietro Ubaldi e o Terceiro Milênio.

***

Clóvis Tavares fundou a Escola Jesus Cristo em 27 de outubro de 1935 e a Associação Brasileira dos Amigos de Pietro Ubaldi ( ABÁPU ), no Natal de 1949. Naquele ano começou a divulgação da Obra do missionário de Cristo pela ABÁPU, dirigida pelo seu fundador. Quando em 1951 Pietro Ubaldi veio ao Brasil fazer conferências, Clóvis Tavares foi seu intérprete. Além de tradutor de vários livros e primeiro biógrafo, promovia cursos e palestras sobre a Obra. Quando desencarnou, em 13 de abril de 1984, deixou uma classe estudando, também, o livro A Lei de Deus. Em Campos, o conferencista ficou hospedado na Escola Jesus Cristo.

Deixou uma brilhante folha de serviços prestados ao Espiritismo e muitos livros publicados para crianças e adultos. Foi um tribuno como poucos que o Brasil conheceu. Era um espírita de mente aberta e tinha uma sabedoria invejável nos múltiplos campos do conhecimento humano, além de poliglota. Clóvis foi advogado, mas nunca exerceu a profissão. Habilitou-se ao magistério e tornou-se Professor de História, no Liceu de Humanidades de Campos, e de Direito Internacional Público, na Faculdade de Direito de Campos. Era uma personalidade ilustre na comunidade campista pela sua integridade moral e espiritual. Em 1981 foi condecorado com o Pelicano de Ouro, pelos relevantes serviços prestados a Campos.

 

"S. Vicente, 26 de julho de 1954.

Nazarius,

Esta carta é para ser lida no seu retorno.

Cristo está com você, escuta seus pensamentos.

Você faz o bem, começa jovem a fazer o bem, então vai recolher o que está semeando: o bem, o Amor, a bondade. Esta é a Lei, pode ver que é verdade pelo exemplo da minha própria vida. Viu tantas coisas de perto aqui e aprendeu. Guarde tudo no seu coração, observe-o e lembre-se: esta luta, que viu aqui, tem um sentido profundo, evangélico, para todos. Eu lhe expliquei isso.

Você verá que o bem é mais forte e vencerá. Este é o grande ensinamento que você está aprendendo e depois pode controlar, novamente, em sua vida, para ensiná-lo aos outros. Esta é a minha herança.

Assim despeço-me, encerrando este mês com a alegria que você me deu, com a sua presença, no meio desta luta. Ela é triste, mas, a razão, pela qual eu faço, é justa, nobre e espiritual, por isso, transforma-se em bem e é luminosa. Assim, no meio do aborrecimento dos negócios, posso viver uma vida espiritual plena.

Estou agradecido a você. O Cristo o abençoe. Seja feliz. O meu pensamento está com você.

Saudades à sua família e a todos os amigos.

Pietro Ubaldi"

COMENTÁRIO

Quem conhece mais, tem mais deveres e não mais direitos, sempre afirmou Pietro Ubaldi.

Esta carta representou para Nazarius um acréscimo de responsabilidade e de deveres. Responsabilidade diante da Obra, promovendo sua ampla divulgação, vivenciando-a no dia a dia, experiência que deve ser transmitida aos outros; dever de cumprir a Lei e buscar a máxima aproximação de Cristo, sentindo-O presente a cada momento.

Sobre o Cristo, Pietro Ubaldi nos legou profundos ensinamentos:

“ O verdadeiro Cristo é uma realidade e uma sensação imensa, que repele imagens. É um infinito que se conquista por sucessivas aproximações. À medida que o espírito sobe, aos vários planos da consciência correspondem vários planos de conhecimento de Cristo, os quais são uma revelação progressiva de sua essência divina. No plano sensorial, a consciência não supera a representação concreta do Cristo histórico, do conceito encarnado em forma humana. No plano racional, a consciência crítica procura o divino naquela figura, sem conseguir encontrá-Lo. No plano intuitivo, a consciência encontra, por inspiração na revelação, o Cristo cósmico e compreende que coincide com a Divindade. No plano místico, a consciência sente pelo Amor o Cristo místico, em que da concepção de Deus passa à unificação com Deus.

Este Cristo vem, não do exterior, em forma humana; e a sua chegada se dá no interior, no espírito. É fato espiritual, é luz de compreensão e de Amor.” (v. Ascese Mística – “Cristo”).

Esta é a imagem que o Professor procura passar aos seus leitores. Um Cristo junto de nós, dentro de nós, bem em nosso íntimo a Quem se pode falar e de Quem se pode ouvir uma resposta. Muitos místicos conceberam esse Cristo. S. Paulo, há vinte séculos, já dizia: “Já não sou eu quem vive, mas é Cristo que vive em mim.” A Beata Ângela de Foligno exclamava: “ Tu és eu e eu sou Tu.” E tantos outros existem na literatura mística que conviveram com esse Cristo. Isso mostra que o Cristo interior vem desde o início do cristianismo. Esse Cristo nos conforta e nos impulsiona para a frente e para o Alto.

 




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