Pietro Ubaldi & Nazarius

"S. Vicente, 10 de dezembro de 1963.

Nazarius,

Recebi sua carta de 2 de dezembro com o cheque. Vou utilizá-lo para a compra das passagens. Obrigado, mas não precisava.

O Cláudio está encarregado de comprar os dois leitos para a noite de 7 de janeiro de 1964. Ainda não comprou porque lhe disseram que só vendem com 10 dias de antecedência.

Se houver greve de trens, então eu e Alberto tomaremos o ônibus de S. Paulo e você vem nos esperar no Rio, na estação de ônibus. Agora, temos telefone e você poderá saber a que hora estaremos saindo de S. Paulo. Nosso telefone é 8.20.62. A notícia da greve,

saberá pelos jornais. Não pode haver desencontro, porque estaremos perdidos e chegar sozinhos a Campos é uma aventura. No Rio, temos o Nilton Garcez, mas se avisá-lo, ele se comunica com Campos e adeus a paz da praia.

Agora, peço-lhe informar-me se há luz elétrica na casa da praia e se a voltagem é 110 ou 220, para eu levar o aparelho de barbear. Outra coisa, encontra-se leite? Para o meu jantar basta meio litro e pela manhã a mesma quantidade, como você sabe.

Não se preocupe se a casa não é forrada.

Logo que souber o horário do trem lhe passarei um telegrama, avisando.

Quando chegarmos ao Rio, estaremos entregues a você. Pelos seus cálculos, chegaremos a Campos às 21 horas e a Grussaí às 22 horas. Não é tarde demais? Poderíamos comer alguma coisa no trem. Isso deixo em suas mãos.

Alberto agradece pela providência que você está tomando para sua hospedagem.

Não se preocupe, não precisamos de muita coisa.

No Diário de São Paulo aparecem dois artigos na “Coluna Espírita”, do dia 27 de outubro e 3 de novembro, dizendo que a Mensagem ao Congresso de Buenos Aires foi repelida. Mas eu tenho cartas do Presidente e Vice-Presidente dizendo que eles concordam com a Mensagem. Além disso, o Diário de S. Paulo prometeu publicar a repulsa do Congresso, mas se calou e não publicou nada, porque não houve repulsa. Querem condenar-me, como se eu quisesse agredir e destruir o Espiritismo. Estes são os métodos limpos e fraternais!

Obrigado pelo cartão de Natal.

Votos de Feliz Natal a você e a sua esposa, de todos nós.

Aqui o calor já é grande.

Pietro Ubaldi"

COMENTÁRIO

Poucos ficaram contra a Mensagem e houve congressistas que saíram em sua defesa. O Engenheiro José Tagliaferri foi um deles e publicou uma longa defesa aprovando o seu texto. Aqui apenas alguns tópicos para conhecimento de nossos leitores:

“Seu conteúdo, já conhecido pelos senhores delegados, exime-me de repeti-lo em sua totalidade.

Se bem que tenha lido somente A Grande Síntese, em castelhano e Problemas Atuais, em português, devido ao conteúdo desses livros, posso dizer que conheço a sua Obra, em linhas gerais. A Mensagem de Ubaldi é oportuna. Confirmo o que disse, quando me manifestei à Academia Sueca, apoiando a candidatura do Autor ao Prêmio Nobel de Literatura: tenho lido grandes obras de literatura universal e mensagens importantes de transcendência divina que a humanidade recebeu em diferentes épocas e para povos distintos. A Obra de Ubaldi é a que mais me impressionou, porque abarca todos os aspectos do conhecimento, porque se apoia nas conquistas da ciência, porque foi escrita para o homem moderno, porque é a solução dos magnos problemas que afetam o mundo, porque está ao alcance de todos, porque é profundamente humana.

Na mensagem, Ubaldi afirma, com acerto, que “quem fica parado morre, que a verdade não é uma posição psicológica definitiva e estática, ao contrário, é um conhecimento relativo e em evolução.” São verdades evidentes que dispensam comentário. (...)

Nada mais tenho a dizer com respeito a Mensagem de Natal e passo a expor um programa de ação imediata e futura do Espiritismo: Adotar os ensinos que Ubaldi destaca em sua Mensagem e por conseguinte: a) Traduzir e editar a Obra de Ubaldi nos idiomas oficiais para as nações americanas; b) ensinar e divulgá-la por meio de folhetos, cursos e conferências.” (...)

Pelos assuntos abordados, o leitor pode avaliar o conteúdo da Mensagem: “Contribuição do Espiritismo ao Progresso da Ciência”, “A Filosofia Espírita e a Civilização Contemporânea”, “Como Conter o Avanço do Materialismo na Civilização Atual”, “As leis Morais”, “As Ciências Sociais e o Espiritismo”, “Prepara o Espiritismo uma Nova Civilização”? Todos os temas foram desenvolvidos com Amor, respeito e muita sabedoria. É lógico que nem todos pensassem como o Engenheiro José Tagliaferri. Se Cristo não agradou a todos com sua Mensagem de Boa Nova e foi crucificado, é natural que o Seu instrumento terreno tivesse mais um “getsêmani”: “Querem condenar-me, como se eu quisesse agredir e destruir o Espiritismo.”

A missão do professor Pietro Ubaldi foi sempre a de “oferecer, nunca impor a verdade”, princípio anunciado e vivido por ele que distribuiu paz entre os homens de boa vontade. A Mensagem ao CEPA não poderia ser diferente.

Um ano mais tarde a revista La Verdad, de Buenos Aires (Argentina) afirmou: “A era do Espiritismo científico está iniciada e seu artífice originário é Pietro Ubaldi. A dele é uma revelação extraordinária, tão grande como foi há um século aquela de Allan Kardec.” De fato, a Obra de Pietro Ubaldi pode contribuir e muito para o desenvolvimento científico das religiões, particularmente para o progresso do Espiritismo.

13 de março de 1966, em Brasília, quando fez a oferta da Obra ao Brasil e aos povos da América Latina, ele afirmou: “A Obra oferecida se funde, totalmente, no fenômeno evolutivo e no momento histórico em que se realiza e deverá alcança-los, com pleno conhecimento de seus objetivos. O nosso princípio é uma unificação, mas não a de grupo, baseada em sectarismo e proselitismo para lutar, para dividir e vencer alguém, e sim uma unificação com a Lei de Deus, com a Sua harmonia universal e ordem suprema. Ela não pode deixar de ser, como a Ciência, imparcial e universal” (Um Destino Seguindo Cristo).

Com esta filosofia de vida cristocêntrica, Pietro Ubaldi cumpriu a sua missão, deixando uma irreparável folha de serviço prestado à evolução da humanidade.

 

"S. Vicente, 15 de abril de 1964.

Nazarius,

Escrevi-lhe em 26 de março. A minha carta cruzou com a sua de 17, a qual respondo.

Parabéns pela casinha que está construindo em Grussaí e por estar coberta de telhas. É uma maravilha como se constrói rápido.

O Cônsul está ainda aqui. Sairá no dia 19 ou 20.

Gravei 4 horas de fita, com trechos dos livros, lidos por mim em espanhol, assim é a sexta língua que estou aprendendo.

Na semana passada ficamos em suspenso, devido às ordens políticas, porque aqui é um ponto central e não afastado como Campos. Tudo acabou, graças a Deus.

Lembro-me, com saudades, das refeições de luxo e todos os cuidados que vocês tiveram para comigo.

Confirmado com o Cônsul que não vamos em julho a Montevidéu. Ele tem que acabar sua nova casa em setembro. Eu e Agnese iremos em outubro, assim ficou resolvido. Será um trabalho grande para mim com visitas e encontros, também em Buenos Aires. É um novo mundo que está surgindo lá. Mas até setembro, ninguém sabe o que vai acontecer.

Em julho não poderei viajar a Campos, se você puder vir aqui será ótimo. Assim lhe falarei as outras novidades.

Saudades a todos.

Pietro Ubaldi"

COMENTÁRIO

Nazarius ficou tão entusiasmado com a permanência de Pietro Ubaldi em Grussaí, que planejou construir, imediatamente, uma casinha diante do mar para que o Professor viesse veranear quantas vezes quisesse. Planejou e construiu, com apenas dois quartos, um para o gabinete do mestre, forrado de madeira. Na sua visão míope não enxergou que ele já se aproximava dos 78 anos e as viagens seriam problemas. A casa não foi um investimento perdido, porque um ano mais tarde, vendo que a finalidade não fora atingida, vendeu-a e importou uma impressora automática, Heidelberg. Esta impressora fez muito trabalho em favor da divulgação da Obra.

Quando Prof. Ubaldi fala em desordem política, refere-se ao golpe militar em 31 de março daquele ano, com destituição do Presidente da República, fechamento do Congresso e muitas prisões.

É muito natural que as forças físicas tendam a diminuir com a velhice, ainda mais para quem teve uma vida de muita luta e trabalho. Por uma questão de prudência procura manter os hábitos normais, sem dispender tanto esforço, evitando, assim, ao máximo as viagens longas. Não estava tão preocupado com a divulgação da Obra, que deveria acontecer com o decorrer do tempo. Quando os livros entravam no prelo, fazia suas revisões. Sempre encarou a trajetória da Obra diferente da sua. O seu destino deveria ser cumprido, de acordo com a Lei, da qual era instrumento. Quanto à Obra, caminharia com suas próprias pernas. Até hoje caminha, com os homens e apesar dos homens. A Lei tem mil recursos para que a inércia de repouso não se aposse dela. Nasceu de um dinamismo do seu autor, é dinâmica e jamais ficará parada.

No final do capítulo XV de Um Destino Seguindo Cristo, existe uma profecia em relação ao futuro da Obra. O Autor a compara com uma semente que vai germinar, tornar-se árvore e produzir frutos “depois que o idealista tiver cumprido a sua função e morrido: (...); então, numa manhã de primavera, no momento azado, despontará do segredo da terra um broto que começará a crescer. Nesse instante, a onda do fenômeno, depois de ter sido obrigada a imergir na terra, emerge, começa a subir em direção ao alto, seguindo a sua natureza ascensional. Desse modo, a semente desabrocha e o ideal cumpre a sua função. A semente se torna árvore e produz frutos.”

Foi na primavera de 1979 que se iniciou o novo plano de divulgação da Obra, através de uma carta de Nazarius a Dr. Manuel Emygdio da Silva, detentor dos Direitos Autorais.

Essa profecia era desconhecida de todos, naquela época. O livro em epígrafe só foi publicado pela FUNDÁPU, em 1984. Ela está inserida, na íntegra, e comentada em Pietro Ubaldi e o Terceiro Milênio, capítulo “Preito de Gratidão”.

 

"S. Vicente, 8 de outubro de 1964.

Nazarius,

Agradeço pelas suas cartas de 6 e 17 de setembro.

Obrigado por ter entregue as cartas a Dr. Albano e a Clóvis e por ter transmitido a Wilson Werneck meus agradecimentos.

Parabéns por ter-se mudado para uma nova residência, em Campos.

A respeito da viagem a Montevidéu, o Cônsul me escreveu que acabou de construir a casa.

Por isso está planejando chegar aqui de avião e acompanhar-me na ida e na volta. Respondi-lhe que antes das férias não poderei ir.

Há outro fato; temos planejado tudo há quase um ano. Em julho as minhas forças físicas diminuíram e a minha saúde não é mais aquela do tempo de Grussaí. Estou em dúvida se convém arriscar-me a fazer esta viagem. Estou concentrado no trabalho de escrever livros. Qualquer esforço físico seria estragar minhas energias preciosas para serem utilizadas, gota a gota, no trabalho mental. Por isso, não sei se terei forças de chegar até Grussaí, em janeiro. Veremos o que diz o médico.

Ninguém pensa que daqui a pouco entrarei no meu 80º ano. Calculo viver 5 anos mais. Posso continuar correndo o mundo assim? É muito se posso ficar quieto trabalhando. Não acha? Também tenho medo de adoecer longe de casa e tenho que defender a minha vida, porque é preciosa. Em Montevidéu teria que ver muita gente, falar muito, escutar em espanhol, sem entender bem. Não é melhor aproveitar as minhas energias para escrever? A maior parte delas foi estragada em lutas inúteis até os 80 anos. Agora é tarde demais.

Já enviei ao Cônsul 100 páginas à máquina do novo livro A Descida dos Ideais.

Agora luto contra a insônia à noite. Pelo hábito de escrever acabei não tendo sono.

Lembro-me da casinha, da sua Leinha, e de nossas conversas na praia de Grussaí.

Esperamos que até janeiro as condições físicas melhorem e eu possa viajar a Grussaí, como gostaria.

Saudades a todos de Campos.

A você um grande abraço, seu

Pietro Ubaldi"

 

"S. Vicente, 9 de novembro de 1964.

Nazarius,

Envio-lhe as últimas notícias, que amadureceram, nestes dias, para que você conheça o programa do próximo verão.

O Cônsul me escreveu que vai chegar aqui para seus negócios, nos últimos dias do ano e voltará a Montevidéu nos próximos dias de janeiro de 1965.

Propôs-me aproveitar a oportunidade. Acompanhar-me-ia na ida e na volta. Não posso recusar-me à companhia do Cônsul. Assim, apesar da sua casinha estar pronta em Grussaí, não poderemos encontrar-nos. É pena, mas tudo se desenvolveu dessa maneira.

A Obra está se espalhando na América Espanhola. Em S. Paulo, imprimimos dois livros mais, inéditos.

Entregue a Clóvis e a Dr. Albano o boletim de Montevidéu, número 6 e a folha Sartre-Ubaldi. Esta foi impressa em dez mil exemplares em português, castelhano, italiano, inglês e esperanto.

Saudades a Leinha e a todos os seus.

Seu

Pietro Ubaldi"

COMENTÁRIO

O leitor pode observar que a preocupação de Pietro Ubaldi, agora, é com o término da Obra, porque está em contagem regressiva, de acordo com o seu tempo de vida anunciado, pela primeira vez, em 1955, no livro Profecias. Ainda falta concluir A Descida dos Ideais, Um Destino Seguindo Cristo e mais três volumes, títulos ainda desconhecidos, com exceção do último, Cristo.

Um verdadeiro missionário de Cristo não pode descuidar-se de sua saúde; o corpo é o veículo do espírito, para que este possa manifestar-se. Cumprida a missão, o restante é lucro. Pelo plano espiritual só lhe restam sete anos para trabalhar, sem contar os imprevistos, inerentes à vida no plano físico e à divulgação da Obra. Ele procura acompanhá-la, de longe ou de perto, como pode. A Lei vai resolvendo tudo e da melhor forma.

Novamente confirma sua desencarnação aos 85 anos: “Ninguém pensa que daqui a pouco, entrarei no meu 80o ano. Calculo viver 5 anos mais”. Mesmo que tivesse entrado no seu 79o ano, já se considerava no próximo ano. Sempre esteve preocupado com o seu dever e a sua missão: “Qualquer esforço físico, seria estragar minhas energias preciosas para serem utilizadas, gota a gota, no trabalho mental.” Que belo exemplo!

A revista Sabedoria de Carlos Torres Pastorino publicou neste mês de dezembro de 1964 a “Noite de Natal” escrita no Natal do ano anterior, na qual recorda, com emoção, a primeira Mensagem, escrita na Itália, e a última, escrita no Brasil. Mais uma vez, nessa Mensagem, ratifica o ano de sua desencarnação, dizendo:

“Faz hoje dez anos que escrevi a última e, também, é o 33o ano da “Mensagem de Natal”, em 1931. Releio-a comovido. Estava então no começo do longo caminho. Agora estou no final. Ao cumprir-se o próximo decênio, não estarei mais vivo sobre a Terra.” Esta Mensagem encontra-se na íntegra, em Pietro Ubaldi e o Terceiro Milênio. O próximo decênio foi o ano de 1973. Realmente aconteceu, porque desencarnou em 1972.

Sua contagem de tempo neste mundo, agora, é regressiva.

 

"S. Vicente, 21 de outubro de 1966.

Nazarius,

Recebi a sua carta de 15 de outubro e o pacote com os exemplares do Boletim, Avancemos. Material para publicar não lhe falta nos meus livros. Ótimo! Dei alguns a Kokoska para enviar com os livros, os outros enviarei na minha correspondência. Obrigado por tudo. Parabéns pela sua homenagem ao Autor da Obra.

Ótima a sua distribuição. Assim Campos voltou à Obra como foi no início. Agradecimentos de minha parte a todos que contribuiram neste trabalho.

Entreguei a Kokoska o seu cheque de Cr$ 90.000,00 para os livros, falou que está tudo certo e agradece.

Não remeta o Boletim a Dr. Manuel E. da Silva para Montevidéu. Ele vai chegar aqui de navio, em Santos, com toda a família e vai logo para Brasília, onde comprou uma casa e vai radicar-se definitivamente, porque deixou a sua carreira diplomática. Se você quiser corresponder-se com ele, utilize o endereço de Bonifácio. Enviar-lhe-ei o endereço dele quando eu tiver.

Espero-o, quando quiser vir, em dezembro. Ficaremos todos nós até o início de janeiro, depois iremos para Cotia, fugindo do calor e da confusão dos banhistas.

Continuo trabalhando no livro Um Destino Seguindo Cristo. Já estão prontas umas duzentas páginas, batidas a máquina, em italiano. Utilizei as que escrevi em Grussaí.

De nossa conversa sobre o “Banco de Deus” fiz um capítulo e entreguei ao Cônsul para traduzir.

O livro A Lei de Deus vai sair atrasado por falta de papel.

A saúde está boa: diminuindo fisicamente, aumentando mental e espiritualmente.

Lembre-me aos queridos Prof. Clóvis e Dr. Albano.

O livro A Descida dos Ideais já foi entregue, em português, à tipografia. Terá mais de quatrocentas páginas impressas. Estou escrevendo cada vez mais rápido e profundo. Calculo terminar tudo até 1971. Depois estarei livre para desencarnar, não antes. Você, também, na sua homenagem, publicou o que escrevi em Profecias, isto é, que concluirei a Obra até aos meus 85 anos de idade. Tudo está calculado e previsto. Pode ir controlando.

Pietro Ubaldi"

COMENTÁRIO

Comemorando os 80 anos de Pietro Ubaldi, Nazarius lançou um boletim, Avancemos – título escolhido pelo Professor. Este boletim lhe prestou significativa homenagem, da qual destacamos apenas dois parágrafos:

“Estamos com este número de Avancemos homenageando o Prof. Pietro Ubaldi, que em 18 de agosto completou seu 80º aniversário. Atualmente está escrevendo o seu 22º volume: Um Destino Seguindo Cristo.

O místico e filósofo italiano, que assombrou o mundo com seus livros plenos de conteúdo espiritual e filosófico, fixou residência em S. Vicente (SP), desde 1953, quando para cá se transferiu com toda a família, deixando sua terra natal, a pátria de S. Francisco de Assis. Ao contrário de muitos, quanto mais envelhece o seu corpo, mais rejuvenesce o seu espírito. Espera concluir toda a Obra, aos 85 anos de idade, tal qual se encontra descrito em seu primeiro livro escrito no Brasil, Profecias.”

Naquela idade, 80 anos, ele apresentou uma síntese do processo, segundo o qual seus livros são escritos, e que se encontra em “O Meu Caso Parapsicológico”, no primeiro livro citado.

“lsto é o que sucede em nosso caso. Assim, vou aprendendo e assimilando o significado do que escrevo, à medida que faço este trabalho. De fato, trata-se de uma ordem de idéias que aparece no consciente como já pré-fabricada, construída fora dele. Não preparo com esforço consciente o desenvolvimento dos temas, mas me confio a uma corrente autônoma, que me arrasta e eu a sigo. Este é um modo bem estranho de pensar, segundo o qual leio um pensamento já escrito dentro de mim, e que surge á medida que o vou lendo. As idéias nascem espontâneas, como por impulso próprio. E, se intervenho com um ato volitivo, elas se rebelam a cada obrigação e desaparecem. Mas sou eu que as leio, compreendendo-as e depois as expresso em palavras. Portanto, devo estar bem calmo e concentrado, abstraído do mundo exterior, com o ouvido psíquico bem tenso para tudo perceber passivamente, sensibilizado ao ouvir, mas ativo com atenção viva, dinâmico no captar, mas não como vontade de domínio. Neste trabalho tenho a sensação de transferir-me consciente para o inconsciente superior, a fim de captar os resultados de um seu precedente trabalho secreto, mas sem poder analisá-lo, nem dominá-lo, do qual recebo as conclusões elaboradas. Isto dá-me a impressão de possuir um sentido de orientação na pesquisa da verdade. Sinto que a consciência normal irrompe para além dos seus limites, em outro mundo imenso, do qual, primeiro, como num estado de exaltação mística, capto os lampejos, que depois, seguindo um desenvolvimento ordenado, procuro sistematizar racionalmente. Com tal método, quanto mais leio em mim sobre determinado assunto e, familiarizando-me com ele, melhor o compreendo, tanto mais facilmente consigo continuar a ler. Assim fui lendo um volume após outro, como se subisse, degrau após degrau, a montanha do conhecimento, cada iluminação elevando-me em direção a outra mais alta, até encontrar nas mãos a Obra completa.”

 

"Grussaí, 23 de fevereiro de 1964.

Nazarius,

Duas linhas apenas para matar a saudade, na saída.

Quando nos encontraremos de novo? Como agradecer-lhe tanta bondade?

Cada noite oro por vocês, pela saúde e felicidade, e pelos outros benfeitores. Deus os recompensará.

Irei me recordando de nossas conversas na praia. Agora, sentirei falta de sua companhia. Continuarei desenvolvendo a teoria da unidade.

Lembra-se do que lhe falei no trem sobre o destino e suas leis?

Estarei ao seu lado para toda ajuda espiritual.

Saudades a todos. Um grande abraço de despedida. Adeus.

Pietro Ubaldi"

COMENTÁRIO

Como foi planejado, os convidados saíram no dia 07 de janeiro, à noite, de S. Paulo e chegaram no dia 08, pela manhã, no Rio de Janeiro. Nazarius estava esperando-os na Central do Brasil. Os três foram a Copacabana, para o Professor Ubaldi descansar e almoçaram com Neuza Lima, que os hospedou por um dia. Ao entardecer, viajaram de trem, para Campos, chegando às 22 horas. Às 23:30 estavam em Grussaí, na casa alugada para hospedá-los. Uma casa modesta, sem forro (telhado a vista), isolada de outras cerca de 100 m, rodeada de areia por todos os lados, sem muro. Uma casa verdadeiramente franciscana para nossa época. Havia, sim, muito entusiasmo e muito Amor para recebê-los. Pietro Ubaldi retornou a São Vicente em 23 de fevereiro, acompanhado de Nazarius.

Se pudesse descrever todos os diálogos durante aqueles 48 dias que passaram juntos, teríamos mais alguns volumes sobre a vida do Autor de A Grande Síntese. Tarefa impossível, porque muitas conversas foram de foro íntimo. Passaram em revista os 11 anos de contato, as confidências sobre os assuntos mais íntimos, recordaram as tentativas para que a amizade entre ambos fosse rompida, os problemas financeiros, as viagens e as conferências realizadas; nada ficou sem uma análise detalhada, sempre com o espírito do Evangelho, observando de que maneira a Lei funcionou em cada caso. As reencarnações de ambos mereceram atenção especial e a pergunta, “quem sabe se um dia poderemos descobrir quando e onde vivemos juntos?” (cap.3), foi respondida pelas evidências dos acontecimentos, inclusive a permanência do mestre em casa do discípulo, durante aqueles dias.

As duas Obras, italiana e brasileira, foram os assuntos cuidadosamente analisados. O porquê de Pietro Ubaldi ter vindo para o Brasil está ligado à sua missão perante a Lei, ninguém sabia disso. Sem capacidade de ver o lado espiritual da sua vinda para o país, muitos só viam o interesse material; assim, o altruísmo no início deu lugar ao egocentrismo no fim.

O Professor trabalhou muito, escreveu bastante. A tranquilidade era realmente grande. Sua satisfação interior está expressa na carta acima, de despedida, e na mensagem que deixou para a história, inserida em Um Destino Seguindo Cristo, último capítulo.

Ei-la:

“LIBERTAÇÃO”

Encontro-me em plena solidão, numa praia deserta. O mundo, as suas imagens e as suas coisas, tudo está longínquo. Nem o eco dos seus rumores, problemas e paixões, atinge este imenso silêncio. Como o céu, a planície e o mar são infinitos, também aqui os pensamentos se tornam sem limites. Neste lugar, tudo é tão simples e grandioso que parece ter acabado do sair das mãos de Deus. A laboriosa cisão do dualismo, a luta entre contrários, de que é feita a vida, procuram aqui pacificar-se para se desvanecerem na unificação suprema de todas as coisas em Deus.

Aqui existo fora dos confins do espaço e do tempo, porque, no céu, na planície, no mar, não há pontos de referência, e os dias correm iguais, sem medida. Sinto-me fora das dimensões terrestres. Não adianta caminhar, porque o deserto é sempre igual, sob o mesmo céu, em frente do mesmo mar. O movimento tem relação com o limite. No espaço e tempo infinitos, a velocidade nada modifica, anulando-se no vazio. Por falta de um ponto de referência, não havendo ponto de partida ou chegada, toda velocidade é inútil, mesmo o correr do tempo nada muda, porque o espaço e tempo não faltam. Acima de todos esses infinitos – do céu, do deserto, do mar, do tempo – e de Deus contempla, imóvel, ao se fundirem nele.

É uma atmosfera diferente que respiro, outro ambiente em que penetro, outra dimensão em que existo. Superei os limites do plano físico, a barreira da forma, das ilusões, das aparências. Sou apenas um pensamento que observa aquele que se encontra em tudo o que existe. Uma força me arrastou para fora das dimensões terrestres, na vibrante imutabilidade do absoluto.

Vivo em uma casinha humilde onde a vida, tormentosamente complicada pela civilização das metrópoles, tornou-se simples e calma. Assim, o espírito se liberta de tantas necessidades materiais artificiosas e pode viver a sua vida maior em contato com as coisas eternas. Surpreende sentir o pouco de que necessitamos. E que particular sabor tudo adquire quando representa o produto da bondade, da sinceridade e do amor! Então, a pobreza se torna riqueza, enquanto a avareza e o egoísmo transformam a riqueza em pobreza. No meio da pobreza dessa riqueza o espírito se atrofia, se envenena e morre. É no meio da riqueza daquela pobreza que o espírito se expande, vive e triunfa. Pela Lei da compensação, para alcançar e possuir o que se encontra mais no alto, é necessário libertar-se do que está embaixo. É no meio da riqueza espiritual dessa pobreza material que agora vivo como um grande senhor.

É neste vazio das coisas terrenas que atinjo a plenitude das coisas do céu. Quanto mais me afasto do que é humano, tanto mais me avizinho das coisas divinas. Delas se enche esta imensidade deserta, para que se abram as portas do céu e apareçam as grandes visões. Elas constituem já uma aproximação, um antecipar-se da libertação, tentativa e ensaio de uma vida maior que me espera. Nesta paz infinita se vai formando pouco a pouco a grande corrente que se agiganta e se torna poderosa; toma-me, absorve-me em seu seio, depois me envolve como um turbilhão e me arrasta consigo para longe. Para onde? Não sei. Leva-me para outro plano de existência, onde já não sou eu que penso, mas o universo. É a sua vida que pensa dentro de mim, porque não existo mais como eu separado, que vive e pensa isoladamente, mas sou um eu unido ao todo, um elemento que vive e pensa como um momento da vida e do pensamento do existir universal. Encontrar-me, então, verdadeiramente fora do mundo, para além dos seus limites e das suas dimensões.

É uma imersão, fora do espaço e do tempo, no infinito. Não tenho mais consciência do que deixei para trás. Sinto apenas o que me espera pela frente, uma vertigem de vida nova e imensa para a qual me precipito. Eis-me ressucitado mais no alto, transformando em outro ser, perdido numa dilatação sem limites, na vibrante imobilidade do absoluto.

Eis que a solidão deste deserto, do céu e do mar se enchem de vida. Na noite profunda vejo uma luz imensa e a ela me entrego. Leva-me para fora do mundo, onde a visão se torna real, clara, perceptível com novos sentidos. Contemplo-a extasiado. Observo-me para controlar tudo com a razão. Olho e registro em pensamento, transporto tudo o que vejo para o meu cérebro, para as dimensões terrestres, traduzo-o na linguagem humana e por fim o fixo com palavras nos escritos.

Assim vivo nesta casinha à beira do mar, num deserto povoado de pensamentos, no meio do vento e das ondas, hospedado graças à bondade e ao Amor de um amigo sincero. Assim vivo aqui, livre e despreocupado, longe do inferno humano. Passo as noites escrevendo, ocupando-me de Cristo, como O Sinto a meu lado. Ele está me olhando, e eu leio nos Seus olhos o pensamento de Deus.

Quando não me é mais possível encontrar palavras para dizer o que sinto, dominado pela emoção e pela alegria, deixo cair a pena e choro. Paro o meu trabalho, e, sob o olhar de Cristo, o livro continua a escrever-se, sem palavras, na minha alma e no meu destino.”

Não é preciso falar da imensa gratidão de Nazarius e Leinha ao Professor por aqueles dias de convívio, de tanta alegria e felicidade. Ele encontrou, realmente, a bondade e o Amor de um casal amigo e sincero.

 




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