Fragmentos de Pensamento e de Paixão

EM BUSCA DA JUSTIÇA
(TRÍPTICO)
(1953)

Era uma noite de chuva e de tempestade. A cidade imensa repousava, no sono, do seu febril trabalho diurno. A hora avançava; os quarteirões aristocráticos, mais demorados no adormecer, porque menos sedentos de repouso, descansavam em silêncio

Ao longo de uma avenida arborizada  — duas filas de residências de luxo — um homem esgueirava-se como sombra que, no andar desenvolto, sabia esconder, pelo hábito, intenções suspeitas. Vemo-lo agora junto ao ponto desejado. Não é a porta principal do jardim, mas uma outra, para serviço, junto à parede lateral, que se encontra aberta. Ele a transpõe e entra com desembaraço, como se estivesse regressando à  sua casa. Fecha-a e atravessa o jardim.

Uma outra pequena entrada de serviço, no lado posterior da casa, está aberta: ele passa por ela. Conhece a habitação onde já estivera trabalhando para os antigos proprietários, há muitos anos atrás. Com a cumplicidade de um dos empregados atuais que viera a conhecer posteriormente, organizara um golpe.

Como se vê, não existe aqui nenhum mistério policial, nenhum delito macabro, nem caçada para apanhar um criminoso. Fugimos da difusíssima psicologia de criminosos malogrados, e por isso apresentamos o fato como simples e banalíssima tentativa de furto, arquitetado com as costumeiras astúcias, muito conhecidas através dos cinemas e dos jornais. Ao viciado leitor moderno, amante das emoções fortes e intoxicantes dos romances amarelos, isto parecerá qualquer coisa de insignificante e cansativo pelo seu trivial que não excita a curiosidade malsã com psicopáticas complicações e cerebralismos criminalóides. Provavelmente acharão estúpida uma história que não proporciona o arrepio do delito. Aqui, entretanto, conforme veremos, desejamos focalizar outros fatores psicológicos, de muito maior valor, não pertencentes a parte menos evoluída da sociedade humana. Para satisfazer ao seu orgulho de parecer civilizada, enverniza, todavia, os instintos bestiais com a psicanálise, os complexos freudianos, o subconsciente e vários ismos científicos, diabolicamente faminta de destruição. A isso é obrigada até o fundo, até a alma, pela chamada civilização, em busca de psicopatias e de todas as perversões. A sã moral não é criação artificial de uma religião, mas está escrita, para todos, nas leis da vida. Uma imprensa traidora, com finalidade de lucro, desfruta e alimenta tais aberrações; oferece aos instintos bestiais uma satisfação psicológica ideal. Desta forma tudo vai sendo abalado, loucamente. Prossigamos, contudo, a nossa história.

Aquele homem não somente conhecia a casa, onde penetrara com a ajuda do criado, senão também os hábitos do seu proprietário, que era um homem estranho. Vivia solitário naquela rica mansão, desfrutando uma renda que possuía por direito de herança.

Revelava costumes exóticos este homem que, em ótimas condições de saúde e de riqueza, poderia gozar a vida. Pela manhã, passeava pensativo pelo jardim. Fazia as refeições sozinho. Consumia a tarde e a noite escrevendo. Parecia procurar qualquer coisa inatingível no seu mundo, imensamente distante. O seu olhar mergulhava nos outros olhares buscando a alma e se retraía com tristeza. Existia entre ele e os seus semelhantes uma espécie de barreira de incompreensão. No seu meio era julgado como maníaco e tolerado por inofensivo.

O ladrão, ali presente, considerava as coisas sob um ponto de vista inteiramente utilitário. Aquela casa e aquele homem se prestavam a um furto — meio rápido para ganhar sem trabalhar. Verdadeiro tipo de involuído, agradava-lhe o risco, a aventura audaz, o golpe do aventureiro, não o trabalho ordenado do homem acostumado a integrar-se no organismo social. Era um retardatário, mais adaptado a viver com os selvagens, em guerra, entre as feras. Nada sabia fazer senão roubar. Ninguém o educara ou lhe ensinara a realizar algo melhor. A civilização, todavia, proporcionou-lhe alguma coisa, exceto a bondade evangélica do ama ao teu próximo, princípio para ele situado no inconcebível. Havia apenas polido os seus instintos, refinando-os como as feras apuram os sentidos para melhor atacar e vencer na luta pela vida. Era artista do crime. Amava saquear, sem causar danos físicos a vítima, alcançando o útil com o menor aborrecimento e o menor perigo possível. Esta era a única modalidade de civilização que a sua natureza atrasada soubera captar. Na guerra que as nações civis fazem entre si, ele se encontraria bem a vontade e seria talvez glorificado como herói. Mas a guerra não existia para que pudesse explorá-la. Numa revolução seria alguém, e faria boa carreira. Contudo, não havia revolução. Dadas as circunstâncias muito pacificas que o ambiente lhe oferecia, fazia aquilo que podia.

Estes dois homens encontravam-se agora debaixo do mesmo teto, estavam prestes a encontrar-se com a sua psicologia, os seus julgamentos, os seus métodos de vida. O ladrão subia as escadas, cautelosamente. Conhecia todos os recantos. Sabia que, no dormitório, à direita, no patamar superior, o patrão dormia, e que, à esquerda, estava o quarto onde encontraria o dinheiro. O criado deixara as portas abertas, saindo para o seu dia de folga. Sabia, também, por ter verificado da rua, que a luz do dormitório, onde o dono freqüentemente ficava acordado até o amanhecer, estava acesa. Sabia, ainda, que aquele homem era sereno e, por conseguinte, não o intimidava. Agia com segurança absoluta.

Uma vez no patamar superior, entrou no quarto visado, sendo os seus passos abafados pelos tapetes macios. Silêncio. Viu-se num escritório e reconheceu a escrivaninha iluminada pela luz débil da rua, suficiente para o seu trabalho. Aproximou-se e observou. Possuía as chaves das gavetas. Devia ser a terceira ou a quarta, a esquerda, a promissora. Experimentou uma, e depois a outra, revolvendo o conteúdo. Não encontrava nada. Revistou ainda Começou a sentir-se nervoso porque ambicionava a fuga sem ser observado. Mas não encontrava nada. Tentou as do lado direito, abrindo a segunda gaveta, revistando-a. Num gesto precipitado, derruba qualquer coisa que cai no tapete com um baque surdo. O ladrão imobilizou-se, espantado. Estaria, realmente, dormindo o patrão? Teria ouvido?
   
No aposento a direita, outro homem estava em outras lidas. Apagara, havia pouco, as luzes e procurava em vão adormecer, enquanto, num estado de meio sono, o seu espírito continuava a desenvolver a ordem dos conceitos sobre os quais escrevera até aquela hora da noite. Preso aos seus pensamentos, não prestou atenção ao ruído que viera do quarto vizinho. Tinha em mente outras preocupações. De improviso, surgira a solução lógica de um problema que o angustiava havia dias — contraste de conceitos que parecia sem saída. E, agora, repentinamente, da profundeza de si mesmo, quando se ia abandonando ao sono e já não a buscava mais, eis a solução imprevista, como se outro houvera respondido. Sentia-se pasmo e ao mesmo tempo entusiasmado pela beleza e logicidade da solução. Acabou despertando-se, acendeu a luz e levantou-se para ir logo registrar no seu escritório a concepção maravilhosa antes que ela se dissipasse, materializando-a, agora que estava bem clara em sua mente, nas suas particularidades. Sabia que se não a fixasse logo, ela se desvaneceria, reaparecendo depois deformada e estranha. Entrou no aposento contíguo e acendeu a luz. O ladrão ficou em pé, gelado, em plena luz. Os dois homens se defrontaram.

Olharam-se, mas com que olhar diferente! Cada um projetou nele a sua alma. O ladrão, aterrorizado pelo perigo iminente e o golpe fracassado, pensava agredir ou ser agredido. Esta era e lei do seu plano e do seu espírito. O dono, perplexo pela presença de um estranho, e aborrecido com o fato imprevisto, pensava no tesouro dos seus conceitos já em fuga, agora perdidos com o incidente. Habituado ao autodomínio, rapidamente se refaz para enfrentar a nova situação. Olhou para o ladrão com piedade e este, que esperava uma agressão, desarmado por aquele olhar, não agrediu.

Os dois homens permaneceram frente a frente, olhando-se. Dois homens, duas classes sociais, dois extremos opostos, econômica e espiritualmente, dois mundos. Aquele cruzamento de olhares já havia estabelecido uma ponte entre os dois. O proprietário foi o primeiro a dirigir a palavra:

"Amigo, não te atemorizes, compreendi tudo. Afirmo, não temas. Serás hóspede em meu lar, porque és meu semelhante e meu irmão. Não tenho outro desejo senão o de te fazer o bem. Não penses portanto em lutas e agressões. Poderás sair quando desejares, livre, protegido por mim".

"Uma outra coisa porém me impele para te ajudar. Tu te arriscaste muito para vir buscar este dinheiro. É um trabalho errado, mas é também um trabalho. Quanto a mim, não arrisquei nada, não lutei para ganhar dinheiro, porque o herdei. Perante Deus estamos, talvez, nas mesmas condições, se bem que eu esteja protegido pelas leis e tu não. Dá-me a tua mão e dize-me no que te posso auxiliar".

E estendeu a mão ao visitante que a aperta automaticamente, procurando compreender, enquanto escutava. O dono da casa continuou: “Dize-me no que posso auxiliar-te, porque me escravizo a deveres que não possuís. Junto de Deus estamos exatamente nas mesmas condições. Diante de ti tenho uma agravante: é que não me encontro em necessidade. Talvez seja por isso que nunca fui tentado a roubar, enquanto que a ti muitas coisas te faltavam a ponto de te arriscares desta maneira. Todos nós temos, não só o direito, mas também o dever de viver. Sou eu, portanto, que estou em débito contigo e desejo saldá-lo agora”.
   
O ladrão começava a compreender e não conseguia se refazer da surpresa. No seu primitivismo, encerrado na estreita psicologia do egoísmo, suspeitou, a princípio, que tais incríveis palavras poderiam esconder uma trama e aguardava o aparecimento de uma arma ou um movimento de assalto. Mas, nada disso surgia. Como não se sentia ameaçado, foi esporeado pela curiosidade e pela esperança de poder receber dinheiro daquele louco, não obstante a sua triste posição; continuou escutando, divertindo-se com a cena, mas sempre atento ao seu desenvolvimento.

Sentaram-se. O dono da casa prosseguiu: "Amigo! suponho que sejas comunista ou pelo menos simpatizante. Não imaginas que eu também o sou; como vês, de forma diversa da tua e que não entendes. Desejo que saibas: a justiça social é a grande idéia para a qual o mundo caminha. Quem usa a espada morrerá pela espada, e quem usa a violência será destruído. Os nossos dois comunismos são antípodas. O teu parte dos direitos; o meu, dos deveres, de que não cogitas. Usas a violência e por isto estás aqui; eu uso a bondade. É verdade que nem todos os homens da minha classe social são como eu. Nisto crês, isto autoriza-te a violência. Verdade é que tens também deveres, mas não pensas senão nos direitos. Como é possível uma sociedade que só alegue os seus direitos? Não seria um organismo, seria um bando de lobos que se entredevorariam. Por que não pensaste no dever de trabalhar; de dar qualquer coisa a sociedade da qual exiges o necessário? Por que, antes de roubar ou exigir com a violência, não pensaste em ganhar com o trabalho? Eu mesmo trabalho, no campo do pensamento, mas trabalho. A minha vida dá fruto à sociedade. Tu. és um parasita. Por que não aprendeste a: respeitar o fruto do trabalho e da inteligência dos outros? Quem possui nem sempre é parasita; às vezes  um centro de atividade fecunda para muitos. E tão bestial este ódio de classe, indiscriminado, agressivo, buscando conquistar a riqueza sem o trabalho e sem a inteligência, mas pelas vias da violência! Não sabendo respeitar o fruto das atividades alheias, como poderá esperar que, em idênticas condições, fosse respeitado o fruto do teu trabalho?"

O larápio, sem se interessar em absoluto por tudo que estava ouvindo, aguardava a conclusão do discurso. O dono da casa compreendeu que havia ido muito longe nas suas explicações teóricas e regressou aos limites psicológicos do seu interlocutor, isto é, ao problema próximo e pessoal e disse-lhe: "Concluindo, amigo, a ti não interessa se eu trabalho e se neste momento me libertarei das riquezas para mim supérfluas, ou se as conservarei para que frutifiquem, sobretudo para o bem dos outros. Este é um assunto meu. Interessa-te somente resolver o problema da tua vida. Quem possui mais meios, mais inteligência e cultura, tem mais deveres. Sou eu, portanto, quem deve ir ao teu encontro. Desejavas apoderar-te do dinheiro que se guardava nesta gaveta. Não o encontraste, porque estava sobre a escrivaninha onde eu o deixara, depois de ter dado uma parte a outrem. Este já se destinava aos pobres. Portanto, é teu.. Estava diante dos teus olhos e procuravas em outro lugar. Ei-lo, e que te ajude a viver. Emprega-o bem, para que possas subir. Podes ir, és livre. Ninguém saberá que estiveste aqui."

Enquanto assim falava, colocou o pacote de dinheiro em suas mãos, o mesmo que o ladrão queria roubar. Desta maneira, o furto que poderia perder um homem, transformou-se em auxilio capaz de redimi-lo. Foi assim que o padre Myriel salvou o forçado Jean Valjean em Os Miseráveis, de Vitor Hugo. O ladrão apanhou o dinheiro, obtido por uma via tão estranha e imprevista. De qualquer modo tinha alcançado o seu objetivo. E isto era para ele a coisa principal. Se o outro era louco, não lhe importava: o dinheiro estava em seu bolso.

O dono da casa o examinou por um instante, pôs uma das mãos sobre o seu ombro, e assim concluiu suavemente: "Agora vai, amigo. Quem sabe quantas más lições recebestes? Utiliza esta advertência; que ela te acompanhe e te auxilie a redimir-te. Vai, mas lembra-te de que estou aqui para continuar a auxiliar-te e assim completar a obra. Não esqueças o teu novo amigo. A minha casa está aberta. Volta quando desejares. Este dinheiro não durará sempre. Entretanto, procura lembrar tudo que te falei, mudando de vida. Se desejas fazê-lo, volta e ensinar-te-ei como viver honestamente do seu trabalho. Somente quem não pode trabalhar tem direito à esmola. O teu direito de homem sadio está somente no trabalho. Vai, amigo. Estarei sempre às tuas ordens, quando desejares vir espontaneamente".

O ladrão compreendeu que desta vez passara sem castigo e que, embolsado dinheiro, não tinha nada mais a fazer naquela casa. Balbuciou confuso qualquer coisa. Vendo o caminho livre, ganhou rápido as escadas; pelas mesmas portas abertas, alcançou a rua, num átimo. Ali, a passos rápidos, deslizou, como uma sombra, na noite.

Passaram-se meses e anos. Aquele senhor esperou. Mas o ladrão jamais voltou.

 

Os êxtases musicais, como a visão do místico e a contemplação do pensador, são portas abertas ao infinito. Quando o gênio cria, a existência revela-se, então, inegável, porque naquele momento ela se acha visivelmente em ação. Escutamos estupefatos aquela voz que não possui timbre humano surgindo do mundo do eterno. Nos arrebatamentos, o pensador sente a verdade; o místico, a bondade e o amor; o artista, a beleza. O arrebatamento, porém, é sempre o mesmo e constitui a nota fundamental do mesmo fenômeno, um ausentar-se da terra e um atingir outras esferas, manifestações que parecem sonhos irreais, porque são super-reais; mas, verdadeiros, pois a alma humana as tem admirado em todos os tempos, prendendo-se-lhes irresistivelmente.

Todas as altas revelações do espírito, por enquanto tidas pela ciência como anormais, somente porque são supranormais e não produto da cinzenta mediocridade, indiscutivelmente exercem fascinação mesmo no ser mais involuído. São centelhas descidas diretamente do céu sem o uso da razão. A alma as reconhece e as absorve na sua avidez: servem-lhe de alimento.

A alma humana tem de ser analisada, não no tipo medíocre onde permanece adormecida, em estado embrionário, mas no gênio, que prepara a sua maturidade e a excede, ultrapassando muitas vezes os limites do concebível. Somente neste ela se manifesta em toda a sua plenitude, conseguindo superar a vida orgânica, separar-se do corpo e enfrentar o além. É assim que o gênio, seja artista, místico, pensador, seja musicista, santo, herói ou condutor, encontra-se, no momento em que age como tal, num estado de ativa e consciente mediunidade.

Quando Chopin compunha ao piano maiorquino os famosos prelúdios na Cartuxa de Valdemosa, com certeza via fantasmas vagando de cela em cela, talvez os monges do velho convento. George Sand escreve: "Ao regressar as dez horas da noite, encontro-o pálido, os olhos cerrados e os cabelos sobre a testa, diante de seu piano. Era necessário algum momento para se reconhecer a si próprio. Fazia esforço para sorrir; e tocava coisas sublimes que havia composto durante nossa ausência... Executava o seu prelúdio, chorando. Quando nos viu entrar, soltou um grito estranho e disse, depois, com ar confuso e tom misterioso: — Ah! eu sabia perfeitamente que vocês estavam mortos! . .. Não distinguindo mais o sonho da realidade, acalmou-se e quase adormeceu ao piano, persuadido de que também ele estava morto". O eco da tempestade dos elementos se transformava na sua alma em tempestade de idéias e de sentimentos. Naquele estado de transe, a sua alma alcançava as raízes da vida e a profundidade dos fenômenos, onde se encontra a essência onde o todo é UNO.

Quando Chopin improvisava, sempre em presença de um restrito público de amigos, mandava reduzir as luzes, recolhia-se e procurava a nota azul que se pode chamar a nota de sintonização entre a sua e a alma alheia.

Notamos a paralisação do fenômeno inspirativo diante de um público heterogêneo e de estranhos não sintonizados, dos quais Chopin sempre fugia, fenômeno esse semelhante ao do círculo mediúnico. Daí deveria resultar a música.

A mediunidade física é um estado de passividade diante das forças do além, que interferem quando e como desejam, dominando o fenômeno; a mediunidade inspirativa é, ao invés, um estado de máxima atividade e consciência perante as forças que ela penetra e domina. São os dois extremos. O médium ativo, consciente do próprio trabalho, dono das forças que governa ativamente, ousa bater às portas do mistério para interrogá-lo. Elas não se abrem freqüentemente a não ser diante de um apelo desesperado ou de uma paixão violenta, capaz de romper os segredos zelosamente defendidos pela Lei.

É necessário, muitas vezes, a coragem insensata, a vontade desesperada, o impulso frenético da uma dor imensa, o ímpeto da fé que não mede a profundidade do abismo. Então apenas as portas se abrem as fronteiras do concebível apresentam dilatações repentinas, quase tímidas, o gênio, num gesto supremo, levanta-se sobre as muletas da dor, sofrendo; vacilando na figura gigantesca, fixa o olhar no inconcebível e vê. Ele mesmo ignora a sua grandeza, no átimo da concepção, porque se unificou com o Todo. O seu gesto potente assaltou de improviso o coração do mistério que estremeceu e respondeu à voz da dor e do amor. Então um rasgo do infinito lampejou sobre a terra.

Desejaria passar em revista a vida de muitos gênios para demonstrar que este tipo de mediunidade consciente e ativa, a mais alta e a mais verdadeira, e, neles, normal. A maturidade avançada desses seres, completa desde a mais tenra idade, explosiva no seu aspecto típico, sem a preparação humana, antecedente a qualquer experiência e a qualquer tirocínio, mostra-nos a sua preexistência em outras formas de vida. Períodos de formação sem os quais nada se cria, por uma lei de proporcionalidade entre o efeito e a causa. O atavismo é absolutamente insuficiente para demonstrar tais florescências de exceção num campo de mediocridades. Tudo isso reforça o conceito e oferece a prova de que a vida não é senão a passagem da alma proveniente de algum plano, em direção a outro plano. Os medíocres não conseguem encontrar estas provas, em si tão evidentes, porque são os verdadeiros cidadãos da terra, suficientemente selvagens e insensíveis para viver nela, comodamente.

Por que a vida dos gênios é freqüentemente argamassada na dor? Por que o destino se lhes apresenta como inexorável concatenação de provas convergentes muitas vezes sobre o ponto mais vital do seu próprio gênio? Talvez porque este é também o ponto de maior força, de provas maiores do que as médias para que a alma possa encontrar uma resistência adequada a sua grandeza, um testemunho proporcional à sua elevação. Provas específicas para que a alma se exercite pelo lado de sua maior potência. Certamente, estas explanações não se alcançam pelos conceitos comuns de uma vida exterior que visa apenas o prazer. Somente assim podemos explicar a surdez de Beethoven, a tuberculose de Chopin, a cegueira de Milton, um Leopardi disforme e sofredor, um Schubert um Mussorgsky atormentados, um Nietzsche e um Poe loucos. Convido a ciência para explicar-me porque a moléstia, a deficiência orgânica possa dar tanta força ao espírito, tanta fecundidade ao pensamento, tanta saúde e potência a personalidade. Ou, em outros termos, porque razão o patológico pode conter o supranormal. O conceito de uma crueldade do destino e, portanto, blasfêmia contra a Divindade; o conceito de uma insuficiência diretiva ou de uma casualidade caótica é simplesmente pueril num organismo universal tão preciso. Explica-se tudo, porém, pelo conceito ainda mais amplo: a dor e a estrada mestra de toda a ascensão espiritual, que não pode ser conquistada sem fadiga. A dor prepara o caminho às profundas introspeções; revela o que se encontra além da superfície; desperta o espírito que poderia, fatalmente, adormecer no bem-estar; submete-o a contínua ginástica que lhe desenvolve as melhores qualidades. Embora a natureza humana inferior sofra e se revolte, a dor é, todavia, salutar e fecunda maceração que purifica e multiplica todas as forças do espírito. Somente a dor sabe desnudar a alma, e arrancar-lhe aquele grito que não admite mentira. A reação à dor é certamente diferente em cada indivíduo revelando-lhe sempre a natureza íntima.

Das três cruzes iguais sobre o Gólgota partiram três gritos diferentes. No bruto o grito é brutal; no grande o grito é sublime. Então a dor é santa e abençoada, porque revelou a beleza de uma alma.

Desta maneira, a dor martela os espíritos gigantes com força gigantesca para levá-los a ascensão gigantescamente pura. Ressonâncias profundas devem produzir nestes hipertróficos do pensamento e do sentimento os golpes duríssimos do destino. Evidentemente suas obras foram criadas entre os espasmos de uma grande dor. Por isso, puderam dizer: "eu espero que a minha dor venha, porque somente ela me poderá arrancar o grito da alma".

Sentimos em tudo isso a força da criação, que tem na dor um açoite: flagela o espírito, impede qualquer repouso, excita-lhe as mais profundas reações, valoriza-lhe o poder de ação. Assim se compreende a transumanização que a dor, e somente ela possui. Para o gênio, a vida humana não é senão preparação para uma vida mais alta; os mesmos clarões que os cegam, a nós também nos atingem. A realização da vida não está aqui, em baixo, na morte, que não é o fim, mas libertação.

Os gênios podem inverter os nossos conceitos humanos, porque pertencem a raças super-humanas, que não aparecem na terra senão como exceção. "Pobre Beethoven", conforme escrevia ele sobre si mesmo, este mundo não te proporciona felicidade e somente nas regiões do ideal podes encontrar a paz Que diferença entre o homem abençoado e o de sentimentos saciados.

Nós, homens comuns, possuímos e sentimos mais fortemente no mais baixo do mundo animal, feito de lutas cruéis e violentas. Carregamos a verdade atávica do corpo, a tão conhecida lei da natureza; somente secundariamente e com esforço alcançamos a mais alta verdade do espírito, que é para os gênios, a verdadeira e a espontânea lei da natureza. O tipo médio, debatendo-se nas formas inferiores de atividade, poderá criar, qualquer que seja a condição humana ou a riqueza, poderá saciar-se, por um momento, de toda a vaidade que a sua inexperiência deseja.

Permanecerá, porém, sempre ligado e condenado a essa vaidade, fechando-se-lhe o acesso a outra alta esfera do pensamento, da qual o gênio, por mais trespassado e crucificado que se encontre, olhá-lo-á sempre com piedade. Quanto mais merecemos o céu tanto mais incapazes e infelizes somos sobre a terra.

A dor, nos grandes, assume também a forma de renúncia, que é o arrebatamento das formas superadas. O destino a impõe com inúmeros dissabores para que se acelere a evolução espiritual e se opere a transformação do amor humano em amor divino. O Calvário é a base natural do fenômeno da sublimação dos grandes. A Renúncia dos prazeres humanos não é senão a expansão dos horizontes espirituais. O destino não é cruel, quando inflige a morte para dar vida maior e luminosidade à  alma.

"Durch Sturm empor", ("arrastado para o alto pelo vendaval") dizia Beethoven, no meio do furacão, sempre senhor do seu destino, mesmo no mais profundo do sofrimento. O homem é verdadeiramente grande e viril nas lutas contra as forças titânicas do seu Carma; nunca porém nas lutas contra os seus semelhantes. O destino da grei humana é freqüentemente incolor; há, entretanto, no alto, destinos titânicos que nos proporcionam o arrepio do infinito, destinos que sobrepairam abismos nos quais se alternam regiões de terror, de paixões e de angústias, nos quais ribomba a tempestade de Deus. Destinos que os gigantes souberam agarrar pela goela para entrar em luta digna da sua grandeza.

Eles podem dizer: "Venha, oh! luta, para que eu possa bater-me e vencer

(1927)


Seja-nos permitido falar de São Francisco, não como fenômeno histórico ou religioso, mas unicamente do Santo de Assis como fenômeno espiritual, como fato psicológico daquilo que não é lenda, erudição, culto, mas drama da alma, a tremenda realidade interior, realidade que transcende os limites do ambiente histórico no qual se manifestou. Realidade sempre presente, atual e vital, o fenômeno que supera o tempo e situa-se na eternidade. Pode-se chegar a São Francisco utilizando-se, além dos meios usuais da análise histórica e do sentimento coletivo da religião, a via inusitada da intuição pessoal.

São Francisco não é, de fato, filho exclusivo de seu século, mas de todos os tempos; vive também hoje, entre nós, sem anacronismo. Se o desejamos entender, não como pessoa, mas como conceito, sentiremos que Ele é permanente, atua em nosso meio como força social cuja função histórica não se exaure jamais. Existem, na intercadência16 das perecíveis formas relativas, postulados eternos e absolutos, que superam a morte e nunca se esgotam completamente. Há movimentos psicológicos, individuais ou coletivos, que volvem em ciclos como se fossem fases da vida coletiva, como se possuíssem um significado biológico, como se fizessem parte integrante do movimento harmonioso e equilibrado das leis evolutivas da grande vida da humanidade. São Francisco, assim considerado, é um fenômeno atual que se acha sob as nossas vistas e que podemos observar diretamente. A semelhança de Cristo, é um conceito que jamais morre. Não morre nunca porque o ideal faz parte integrante da vida humana, que tende, através dos séculos, a fazer-se cada vez mais espiritual.

Se o materialismo floriu e a civilização mecânica frutificou, não saciaram a nossa alma que, cheia de fome e de nostalgia, esmola entre as velhas muralhas o perfume de uma fé que parece perdida para sempre. A humanidade tem fome de ideais e está presa pela preocupação econômica e mecânica. Não é lícito, nem mesmo por inconsciência, esquecer que as leis da vida procuram um equilíbrio e que qualquer abuso é logo corrigido com uma reação. O premente mistério da vida ensinou ainda uma vez que a alma individual e coletiva, para viver, têm necessidade destas inelutáveis aspirações sem as quais elas não se governam, não caminham e não podem enfrentar confiantes o problema do futuro. A riqueza e a vertiginosa atividade dos nossos tempos dissimulam uma dolorosa miséria interior, uma espécie de impotência espiritual para a elevação moral. Afogam-se todos num imenso pântano de materialismo, onde jazem mortas as grandes alegrias da alma. O nosso progresso é aleijado; é hipertrofia econômica e mecânica, que não compensa a atrofia espiritual, o grande mal dos nossos tempos. Diante desse mal agudo, voltamos as nossas vistas para a fé dos tempos distantes e tenebrosos da Idade Média, para as austeras e antigas catedrais que parecem, somente elas, depositárias de algum segredo. Triste e bela a humilde e nostálgica procura da fé nos séculos mais bárbaros do que o nosso. Tornamos a exumar avidamente, para interrogá-las, as desajeitadas figuras trecentescas, formas toscas, filhas de uma técnica primitiva, de cujo estilo talvez nos ríssemos, se não houvesse tanta fome de fé. Interrogamos a História e os documentos para reconstruir e reviver aquilo que perdemos. A misteriosa alma distante do Santo de Assis pedimos, sobretudo, o segredo da sua paz que há muito não possuímos.

A figura de São Francisco, assim concebida, não no limitado fundo histórico do seu século, mas no fundo apocalíptico da História da humanidade, é de uma grandiosidade imponente.

Na intimidade desse fenômeno psicológico sente-se o drama do espírito, individualmente vivido, antes de tudo, pelo Santo de Assis que, num paroxismo de paixão, sozinho, elevou à  onipotência a alma humana, fortaleceu a mente e o coração. Seja-nos permitido observá-lo, como fato individual, no seu primeiro e excelso representante, assim como nas tentativas e reproduções individuais dos sectários e imitadores. Permita-se-nos perguntar, com aquela franqueza que os nossos tempos exigem, sem os ornamentos da retórica e o peso da erudição, que significado teria, na alma do Santo, a sua psicologia de exceção, e como o entenderá aquele que intente imitá-lo.

A figura de São Francisco representa, por outro lado, um fenômeno psicológico coletivo; transforma-se em conceito que supera o tempo e é sempre atual; torna-se símbolo de idéias e tendências da sociedade humana, fazendo parte das leis do progresso. Em suma, uma força biológica evolutiva na história da humanidade.

Este exame será conduzido por ministério de conceitos absolutamente modernos e científicos, como se se tratasse de fenômeno eterno e permanentemente verdadeiro, embora "traduzido" na linguagem diferente da psicologia moderna. Somente assim poderemos atingir o alvo que colimamos: reviver na atualidade a palpitação de um fato distante, misturando o fenômeno psicológico da vida interior de um Santo com a nossa vida interior, individual e coletiva.

Para isto é necessário um trabalho de apuração. É preciso abolir, por um momento, os sete séculos que nos distanciam do drama real; os séculos que o observaram, interpretaram e sentiram, diversamente. A nossa interpretação será mais rude, mais franca; sem dúvida, mais profunda. O clarão rápido do gênio foi assimilado durante longos séculos pela alma coletiva. A tradição, a literatura, a religião partindo de pontos de vista diferentes, construíram um edifício cujo peso a força de um só homem não pode suportar jamais. Façamos abstração, por um momento, de tudo isto, porque o monumento grandioso e de imenso valor, nos impede de ver a nudez do conceito originário, impede-nos de ver com os nossos olhos, de sentir com a nossa alma, de julgar com a nossa mente, por inadaptação às necessidades dos nossos tempos. Examinemos a psicologia do Santo de Assis com o olhar mais penetrante do que o dos séculos passados, e talvez sintamos em nossa própria alma o arrepio de um drama que, posto a nu, será mil vezes mais verdadeiro e maior. São Francisco não será o fenômeno histórico ultrapassado, mas um ser que vive conosco, que palpita com os tormentosos problemas da nossa alma e os resolve. Observemos a paradoxal negação dos instintos humanos, o radical trasbordamento dos valores que, seguindo as pegadas do Cristo, foi São Francisco. Aquilataremos, então, sua influência revolucionaria nas almas individuais e na alma coletiva.

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Quando São Francisco, reeditando o Cristo. aconselhava a pobreza, a castidade, a obediência, punha neste ideal a negação absoluta dos instintos fundamentais da vida, dos instintos que o homem não inventou para si livremente, mas que lhe são herança da longa evolução biológica. Instintos naturais, isto é, dados por uma lei da natureza — culpas e baixezas de que o homem se deve despojar para ascender. São Francisco substituiu por três renúncias, por três votos e por três negações o programa da vida secular, universalmente pregado, em todos os tempos, em nosso mundo. Por que tão radical e sistemática destruição da natureza humana? Podemos revogar as leis da vida, quaisquer que sejam, em nosso planeta? Aonde se deseja chegar com isto, e que se poderá colocar no lugar daquilo que se renegou? Quem é o Santo, e que pretende ele das grandes massas humanas, inertes como montanhas? O que representa na História da humanidade a figura deste pioneiro do ideal, que caminha na vanguarda do futuro?

Perguntas as quais o homem de outros tempos não sentiu necessidade de responder e que nós nos fazemos angustiosamente. Certamente, é necessário um esforço para sair do dilema da interpretação dos séculos. A figura do Santo forra-se a nebulosidade do misticismo e as concepções tradicionais da fé, para viver no mundo objetivo e positivo das leis biológicas. Para expor um conceito novo é sempre necessário construir desde os alicerces. Vias ousadas, vias perigosas, é evidente, mas vias novas, audazes e mais profundas que terminam na eterna apoteose do Santo.

Firmemo-nos em critérios e conceitos objetivos, cientificamente, a fim de que a nossa fé não seja uma sentimentalidade pessoal e evanescente, mas possua, ao contrário, as bases sólidas da razão e da indagação positiva.

O século dezenove criou, com Darwin, a teoria da evolução, demonstrando-a no campo biológico. O Cristianismo já o havia afirmado no mundo espiritual, falando-nos da escola da dor e fazendo objetivo da vida o aperfeiçoamento moral. Os dois conceitos que, no último meio século, foram considerados opostos e inimigos, constituindo pomo de discórdia entre duas escolas de pensamento que se guerreavam, o materialismo e o espiritualismo, não são senão o mesmo conceito de progresso, tão espontâneo e instintivo, que se nos imprimiram no corpo e na alma. Biologicamente, o homem é o resultado de longa evolução animal. Espiritualmente se afastou do mundo animal do qual emergiu, graças ao sistema nervoso, à  psique, ao espírito à  alma. Compôs o quarto reino — depois do mineral, vegetal e animal, — o reino espiritual, uma raça que possui em si o divino; um divino ainda não emancipado da animalidade, mas que, por esta emancipação, e somente por ela, luta, desesperadamente, todos os dias.

Basta isto para integrar em nossa mentalidade cientifica a concepção do fenômeno da santidade. Em que pese a Lombroso ou à medicina moderna, o santo é um ser superior, não um anormal ou um doente às voltas com a neurose; não um expulso da vida, um pária diante da normalidade medíocre, vil e inepta, que se julga com o direito de decretar as leis da conduta humana. Tal conceito é antivital, é monumento da imbecilidade humana. O santo é o supremo ideal, o pioneiro do futuro, uma antecipação no tempo, uma perfeição ainda não alcançada pela mediocridade humana mas somente pelos maravilhosos e singulares seres de exceção, já no ápice da escala evolutiva. O santo é um herói e um mártir, porque sacrifica todas as suas alegrias e toda a sua vida para realizar de forma concreta as instintivas antecipações do futuro, que são os ideais; arrasta, não com palavras vãs, mas com o exemplo de um caso vivido, as grandes massas humanas ignorantes, vis e inertes, pela via dolorosa e luminosa do aperfeiçoamento e do progresso. O santo é um gênio. Há-os especializados no campo do pensamento abstrato, da arte, da ciência; grandes, mas unilaterais, incompletos. O santo é grande no campo ético, lá onde se alcança à última síntese de todas as aspirações humanas individuais e coletivas, o ideal que mais interessa à humanidade e comove os séculos, porque é o resumo de todas as conquistas humanas, na peregrinação para o Alto.

O    santo se nos apresenta na ribalta da vida, levando consigo uma concepção própria. Vimos o que é o santo em si. Observemo-lo agora em relação aqueles que se chamam, individualmente, os seus semelhantes, em relação aos homens que estudam a nova e estranha psicologia. Admirando-se por não encontrarem igual ressonância da lei dentro de si, chamam-lhe louco, escarnecem dele primeiro, para depois ficarem atônitos e maravilhados, terminando sempre na veneração. O santo combate todos os instintos e tudo renega para reafirmar-se no mundo superior, obediente à nova natureza e segundo nova lei maior e mais livre. O santo ousa, sozinho, rebelar-se contra as forças tremendas que são as leis da natureza, as leis da animalidade ainda não superadas e vencidas. Ele, neste sentido, é o maior lutador e triunfador, porque não escolhe para inimigo os homens, como o fazem os lutadores da Terra, mas as forças cósmicas. Não conquista os povos, mas muito mais, as leis biológicas. É reformador e revolucionário porque revolve, destrói e reedifica a própria natureza humana. É o libertador, no sentido biológico, o único verdadeiro; é o redentor da humanidade. O Evangelho do Cristo e a vida de São Francisco não são senão o código e a experiência deste superamento biológico da redenção.

A virtude representa a norma desta redenção, o artigo do novo testamento e da lei nova que conduz à vida superior. O santo realizou-se, enquanto a humanidade, indolentemente, prefere vencer distâncias incalculáveis, em caminhos errados. A lei atroz e feroz do egoísmo e da luta pela vida é substituída pela lei da bondade e da justiça.

Não mais a força, mas a justiça como irresistível necessidade da alma humana. Não nos damos conta da negação cotidiana que a realidade opõe ao ideal. O ideal existe e vive da forma no espírito, potente e indestrutível. Não nos preocupamos se a prática desvirtua o significado da virtude. Onde domina a amarga lei do mais forte e as aspirações são muito vãs, cada um exige virtude no próximo, porque a negação e a renúncia constituem nele um estado de debilidade, que é para o mal um estado útil à sua expansão. No mundo triste da realidade humana o bem é útil; faz-se da virtude do próximo um alvo para agredi-lo com o melhor proveito, e não como meio de ascensão espiritual. Conforta-nos a esperança ao transformismo do bruto presente. A divina justiça, mesmo no mundo inferior, reina em perfeito equilíbrio; a despeito de tudo, o esforço individual para evolver é sempre possível, e isto basta.

As virtudes franciscanas são três: pobreza, castidade e obediência. São um trasbordamento de todos os valores humanos; a renúncia completa, que antes de ser redenção e reconstrução do super-homem, é a negação absoluta do homem. Fazem um vácuo pavoroso lá onde se move toda a psicologia humana e se agitam os mais profundos instintos. O santo pode não sentir a vertigem desse vácuo, mas o que sentirá o homem comum? Este utiliza-se, como a raça animal, dos instintos da fome e do sexo, e, como animal luta pela nutrição (continuação da vida individual) e pelo amor (continuação da espécie). A sua escola é a psicologia do egoísmo; a sua lei, a feroz e desapiedada luta pela seleção do mais forte, em nível de vida baixo, que não imagina sequer poder superar. O homem neste estado é extremamente lento na evolução. O pendor pelas coisas baixas e a ignorância das altas o tornam indiferente diante dos problemas mais substanciais. Eis que aparece o santo e sulca o céu como um meteoro luminoso, deixando atrás de si um rasto de luz. Mas quem observa, quem compreende, quem jamais pode imaginar uma fuga da Terra? O homem observa indiferentemente e volve a olhar para baixo a fim de acariciar a matéria. O prato que a pastagem oferece é, para a ovelha, todo o universo.

Então, entra em cena a dor porque, no equilíbrio da vida, necessitávamos de uma força capaz de prover à elevação humana. Dor sapiente que transpõe todos os umbrais, penetra todos os corações, sem que a sabedoria, a riqueza ou o poder possam resistir-lhe. Onde quer que surja, abala e destrói; a sua escola, consegue amadurecer todos sem distinção, ponderadamente, e segundo as forças de cada um! A dor, força providencial, impõe a todos um mínimo obrigatório de aperfeiçoamento. É a primeira prática da virtude, direi quase forçada, um mínimo de renúncia às alegrias materiais que nos encaminham à grande renúncia e ao grande superamento do ideal franciscano.

Daquele mínimo obrigatório a este máximo voluntário existe uma série de lutas e de esforços em todos os níveis, com infinitas gradações de velocidade, de acelerações sobre o caminho da evolução. Há o que vai lentamente e o que tem pressa. Há o que desejaria voltar atrás para revolver-se na lama e o que segue em marcha forçada, ardente e consumindo-se na avidez espiritual. Tanto aspira ao Alto que tenta quase forçar as leis da vida para chegar logo Cada um executa o seu trabalho segundo as suas próprias aspirações e recursos.

Observemos um instante a fatigante ascensão do homem curvado sob o peso da própria evolução. O espetáculo desta pobre raça humana assediada por milhares de necessidades, atormentada pelos próprios instintos inferiores, sujeita a uma implacável lei de feroz vigilância e que deve, portanto, purificar-se, inspira, algumas vezes, sincera piedade. Constrangida pela dor, deve separar-se de tantas alegrias que, em suas mãos, se tornam ilusões. Deve elevar-se percorrendo de novo a via de glória, perdida num átimo de rebelião, tal qual o anjo soberbo no longo caminho dos milênios. Que atroz condenação ter na pupila o sonho de uma felicidade completa e senti-la sempre imensamente distante. São Francisco, como o Cristo, deseja auxiliar a humanidade a fim de elevá-la à redenção. Fá-lo porque tem conhecimento da distância que separa o ideal da realidade, assim como a consciência do imenso esforço requerido ao homem, tal como ele é. Este contraste entre o ardor da própria paixão inferior e a resistência passiva da humanidade atrasada; este frenético e inútil embate da própria alma veemente contra a apática alma cega das grandes massas humanas; esta humilhação do próprio espírito, humanamente cansado, no limiar da grande redenção, deve ter sido o verdadeiro drama da alma do Santo de Assis, quando na plenitude da luta e no fervor do maior sacrifício. Somente quem viveu tais conceitos e bradou ao vento, inutilmente, o grito de uma grande paixão incompreendida, pode conhecer a razão e sentir a impressão causada pelo drama espiritual, há sete séculos distante de nos.

Existe, efetivamente, tão enorme distância entre a psicologia franciscana, que ensina ao homem a conquista de si mesmo, e a psicologia corrente, que a primeira parece utopia, tal o contraste que a separa. Podemos, todavia, perguntar o que representa a psicologia comum para arrogar-se o direito de infalibilidade, somente por ser produto da maioria. Podemos perguntar ainda se os seus conceitos não são, ao invés, muito relativos e discutíveis, ou pior, se não são, deveras, a codificação dos instintos atrasados, a norma de vida pouco nobre que somente o baixo nível de vida do homem pode considerar conveniente. Duvidamos de tudo isto e entregamo-nos ao ceticismo, hoje em moda, destruindo a fé íntima para a queda no nada. Invade-nos, então, o terror do vazio e a necessidade de modificarmo-nos. Permanecemos inertes e vencidos, a olhar de longe, desanimados, a rocha inacessível da santidade. Somente poucos espíritos gigantes completaram a rebelião total e souberam reconstruir, realizando, num salto milagroso, o esforço titânico de superar as leis humanas e viver uma lei de ordem superior. Para nós, pobres mortais, o ideal é belo, fascinante miragem distante que olham os enlevados, emudecendo e suspirando. As férreas leis da natureza estão prontas a nos arrastar no seu ciclo e a nos disputar à  angelitude. O homem vacila nesta bifurcação entre humanidade e divindade; tenta o vôo e cai dolorosamente na terra. Eis o grande drama psicológico do santo e o drama humano, triste e piedoso.

Os dois dramas se olham e se fundem na tremenda luta apocalíptica entre o bem e o mal, sintetizando o momento biológico do nascimento do anjo no homem.

As três virtudes franciscanas representam o ciclo da redenção, isto é, a destruição completa do homem e a reconstrução total do super-homem. Elas desejam, antes de mais nada, destruir profundamente a animalidade humana, desferindo-lhe um golpe mortal, a fim de eliminá-la. Pobreza, castidade e obediência são para o homem comum uma espécie de morte, pois são a negação absoluta dos instintos básicos da personalidade humana. Sobre as cinzas desta destruição se inicia o longo trabalho de reconstrução. A abjuração é apenas transitória, um meio para alcançar a mais potente afirmação do eu. A renúncia não é senão a primeira fase que preludia a perfeição. Deve ser, com certeza, bem triste esta negação tão completa de si mesmo para quem não possua no próprio temperamento os recursos espirituais com que preenchê-la e substituir por algo melhor a destruição da própria natureza inferior. Destruir sem saber reconstruir é criar dentro de si um vácuo triste como a morte e que será ainda mais pavoroso se tentarmos preenchê-lo com os mesmos instintos sobreviventes, adaptados pela hipocrisia. O significado da renúncia está todo na reconstrução. Reconstrução é a chave do enigma; sem ela o ideal franciscano é uma loucura. A grande dificuldade e o grande triunfo residem no reconstruir mais alto.

São Francisco, grande senhor de recursos espirituais, foi um mestre de reconstrução. Completa é a concepção que ele viveu; antes de ser crítica ou demolidora, é reedificadora. Não tanto a negação do humano, quanto a afirmação do divino, um verdadeiro domínio da natureza. Ele teve a coragem heróica de viver a sua reconstrução de homem no meio de uma humanidade espiritualmente bárbara como a nossa; de viver a lei de ordem mais elevada que os seus semelhantes não podiam compreender e que julgavam loucura. Onde nós, pobres mortais, devemos contentar-nos com insignificantes aproximações, ele obtém a plenitude da realização. Não desejou destruir no homem senão o que havia nele de baixeza e de animalesco; não combateu tanto a atividade dos sadios instintos humanos quanto os seus abusos; não perdeu jamais de vista o objetivo principal que é a reconstrução de um homem melhor. Combateu o amor, mas apenas na sua mais baixa forma de sensualidade, deixando-o sobreviver, fomentando-o mesmo, como ímpeto de altruísmo em relação ao próximo, como ímpeto de alma para Deus. Combateu do mesmo modo a riqueza e a propriedade no seu sentido de cobiça, de avidez, como fontes de tantos ódios e de tantas dores, mas jamais no sentido de trabalho. Desejou, antes de mais nada, a atividade fecunda e depois a distribuição dos bens com probidade e altruísmo. Adversou desta maneira a expansão da personalidade humana somente no seu aspecto inferior de orgulho, violência, avidez de domínio, deixando-lhe em compensação uma afirmação muito maior e mais completa no campo do espírito. Desejou, em suma, a transfiguração do homem.

Eis a importância individual e o significado de cada uma das virtudes franciscanas. Individualmente, elas significam progresso espiritual. O superamento da matéria, a libertação das formas de vida inferior, a emancipação do homem da animalidade e das suas leis cruéis e ferozes de luta pela seleção do mais forte. A atividade, num campo mais alto, a conquista de uma forma superior de vida mais completa, mais livre e mais intensa. Os ideais franciscanos auxiliam a alma humana a sair da sua crisálida de animalidade, onde se encontra presa, debatendo-se dolorosamente, e guiam-na para o único e real progresso que tende para aquela felicidade superior dada somente pelo domínio das forças inferiores. Uso e gozo de uma consciência vasta e de uma paz mais profunda.

Tudo o que age no indivíduo não deixa também de produzir suas repercussões no caráter coletivo. O benefício dos ideais franciscanos é grande até mesmo no campo social. As verdadeiras revoluções são as que partem do coração de cada um; as que atingem a substância e deslocam a posição da alma individual; as que representam a soma da mudança íntima, individual. Para reedificar a coletividade é preciso antes reedificar o homem. Que sociedade maravilhosa aquela em que o indivíduo fosse moralmente bem mais forte.

Participamos de uma grei que não pode oferecer nenhuma segurança à alegria e nenhuma confiança à felicidade. Uma legalidade forçada, mais repressiva do que preventiva, não pode, senão relativamente, dominar a alma humana onde está a fonte do bem e do mal. O indivíduo não possui, como defesa contra todos, senão o hábito das próprias energias de guerrear. Um instante de fraqueza pode perdê-lo, tornando tudo sujeito às contingências da vida. Onde não há segurança, que bem pode ter valor? Eis a revolta do Santo. Unicamente o amor ao próximo valoriza todas as lindas e infinitas maravilhas da terra e agita-nos na conquista deste amor, base principal da estrutura social, porque sem ele não pode existir um verdadeiro organismo coletivo. Temos, então, o Santo de Assis, o primeiro Cavaleiro armado pelo amor, encabeçando a nova Cruzada, tendo como lema a Fraternidade, a fim de lutar contra o interesse, o egoísmo, e tudo aquilo que constitui a traição humana e força desagregante da sociedade.

Do outro lado, o quadro de uma sociedade fundada sobre princípios diferentes — o sonho do Santo realizado. O primeiro clarão interior é a necessidade de ser pobre, a necessidade de morrer também de fome para não ser preso como escravo na engrenagem das atrações humanas. O trabalhador livre do ideal afasta-se dos profanos, dos interesseiros, dos negocistas, dos produtores de dinheiro, que atropelam porque não vêem as delicadíssimas flores do pensamento e do sentimento. A necessidade de afastar de si a triste população agressiva e sem escrúpulos impõe-se ao homem idealista para que possa dar o fruto da sua vida. É um fruto amadurecido pelos tormentos, que a humanidade colheu sem pagar, ou pagou somente com glória póstuma. A grande batalha tem início contra a própria natureza humana e contra a psicologia coletiva, por meio de um exemplo concreto, uma realização vivida pelo ideal. O mundo, a princípio, olha, depois despreza, e, em seguida, devagar, compreende; liberta-se e afinal se prepara para seguir o exemplo. Esta assimilação do ideal por parte da alma coletiva é uma prolongada luta secular, porque se traduz numa cadeia de grandes homens que se dão as mãos e sucedem-se, traçando a estrada. Há uma série de tentativas e de esforços que a humanidade faz para concretizar o pensamento, lentamente, arduamente, até á realização completa. A vitória pertencerá à humanidade futura. São Francisco é ainda hoje o símbolo da sociedade em formação, representando uma tendência, uma esperança, uma expectativa, um trabalho a cumprir. Neste sentido, está vivo ainda hoje, como sempre, entre os homens.
   
Pobreza é a virtude que tende o subtrair da alma humana, onde se encontram as suas raízes, as rivalidades entre ricos e pobres, estimuladoras de tantos estudos, de tantas tentativas de reformas econômicas, de tantas lutas políticas inoperantes e estéreis. A pobreza franciscana é, antes de tudo, um ensinamento de renúncia aos ricos, o uso parco e nenhum abuso dos próprios bens. Aos pobres, que não são nada mais do que ricos sem dinheiro, aconselha igual renúncia. Nenhuma inveja. Paciência nas privações. Ensina a ambos a vitória sobre a avidez que os separa, armando uns contra os outros, com tanto dano comum; pede a abdicação dos baixos apetites e a formação de valores mais altos que saciam, alimentam e são gratuitos. Advoga a destruição de uma fome vulgar e a excitação de um desejo mais nobre, passível de ser saciado.

Castidade é a virtude que tende a suprimir da alma humana os mais degradantes instintos, a explosão cega das forças naturais, tudo o que nivela o homem à besta. A castidade franciscana é, antes de tudo castidade no espírito, que confere ao indivíduo a posse de si mesmo, o domínio sobre as leis da natureza, o uso inteligente das forças biológicas. Esta virtude não propende à destruição do amor, desta grande força de coesão que domina o Universo. Não impõe a morte do amor, mas a purificação de suas formas inferiores. Torna-se mais consciente, mais elevado e mais profundo. Perde a significação de função animal com objetivo de reprodução, como ato individual de expansão egoística, para ser um ato consciente das finalidades da raça, consciente das exigências da coletividade, um amor disciplinado, moral e subordinado a ideais superiores. Sublimá-lo significa ainda mais: significa consciência das necessidades e das exigências alheias; respeito pela liberdade do vizinho; altruísmo, amor ao próximo, fraternidade, coordenação da atividade individual. Eis o milagre: evolução do amor; fê-lo força imensa de coesão social. Mas isto não basta. Elevado ao máximo de altruísmo, de universalidade, de dedicação é de sacrifício, elevado aos mais altos vértices da perfeição, o amor é o amplexo da alma a todas as criaturas. Deixa de ser a negação separatista representada pelo egoísmo: é a expansão completa do eu em tudo o que existe, a fusão da alma com Deus.

Obediência, no mais amplo sentido, é humildade; é a virtude que suprime a exagerada consciência e expansão do eu, o qual propende a lutar, sem escolha de meio, contra a expansão da personalidade do próximo. Neste mundo em que ninguém olha o próprio semelhante como a um irmão; em que a infelicidade alheia possui em si a medida da própria expansão, em que a agressividade inconsciente e mútua tende a expandir-se ao infinito, a virtude da humildade franciscana é o mais enérgico e salutar corretivo. Antídoto de toda a desordem, de toda a insubordinação, de todo arrivismo; canalização do indivíduo nos moldes da reciprocidade social, exercício de cada um para eliminar instintos atávicos de agressividade que retornam cada vez mais débeis, mais coordenados com o organismo coletivo, tornando-se mais aptos a viver na sociedade. As células do organismo coletivo tornam-se mais aptas a viver na sociedade. As células do organismo social não possuem coesão sem aquele cimento psicológico — a consciência que o indivíduo tem da coletividade. Apenas a superior virtude franciscana nos pode dar a subordinação do eu ao todo, a extinção do fermento deliqüescente do egoísmo, a realização de uma consciência coletiva. Não mais um sistema de agressão, mas de coordenação, tão indispensável ao progresso social.

Eis o grande mérito das virtudes franciscanas na coletividade. Todas elas tendem ao mesmo fim — a formação das mais harmoniosa e elevada estrutura social. Elas, antes de tudo, agem sobre o homem, melhorando-o, transformando-o em cidadão de crescente dignidade para uma sociedade mais digna. Agem também desta maneira sobre a coletividade, transformando-se em força de progresso social. O indivíduo, por sua vez, encontrará sempre mais facilmente a posição que corresponda às próprias necessidades e ao valor intrínseco que ele representa, isto é, uma porção sempre maior de felicidade. As virtudes franciscanas, como tudo o que é progresso, conduzem à realização deste grande sonho humano, a felicidade.

É consolador, diante da dolorosa realidade da vida, considerar esta concepção de uma humanidade superior, bem mais civilizada e bem mais consciente, dona de si mesma e das forças que contém. Jamais devemos ser pessimistas, porque a vida é um organismo que funciona de modo sabiamente complexo; alimenta-nos a esperança de ver realizada aquela concepção. A humanidade pode e deseja subir. As leis biológicas o exigem. Havemos de subir, com ou sem São Francisco, em obediência a leis inflexíveis da vida. Em qualquer estado social, em qualquer momento histórico, agora e sempre, somente nos elevaremos através da experiência que nos herdaram as virtudes franciscanas.

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Acabamos de analisar os ideais franciscanos de aperfeiçoamento moral sob o ponto de vista individual e social, interpretando, através da nossa mentalidade moderna, a grande psicologia de exceção, na qual encontramos uma afirmação lógica, racional e profunda. Repousemos a nossa mente na contemplação da sua grande beleza moral, uma criação estética inteiramente do Cristo e ignorada pelos requintados gregos. São Francisco é uma figura maravilhosamente complexa, figura que resume em si todo o homem, feita de pensamento e sentimento, de cérebro e coração. Observemo-la com aquela paixão e aquela pureza próprias das almas simples.

São Francisco é cérebro, São Francisco é coração. É profundeza de conceito, é intensidade de paixão. Ele é a grandeza completa. Não é, como muitos gênios, o unilateral, o hipertrófico, ou do intelecto ou o sentimento. O pensamento é é luz fria que pode iluminar esplendidamente a estrada mas opera sem o calor do sentimento, que reconforta, aquece e consola.


São Francisco é cérebro. O seu idílio, o seu sonho, a sua paixão são baseados numa concepção profunda, potente, audaciosamente projetada no tempo. Ele foi, acima de tudo, um grande pensador, precisamente porque não se estendeu pelas vias da análise, alcançando tudo, rapidamente, pela intuição. Foi um prodígio do pensamento, justamente porque apanhou as conclusões num átimo. Das mesmas conclusões que a ciência moderna tarda muito para alcançar deu-nos ele a síntese no início de sua vida. Os santos, que são os trabalhadores do ideal, no exercício de suas elevadas missões, devem possuir, ao contrário da nossa ciência, a segurança e a rapidez das conclusões. A sabedoria da intuição é a sabedoria simples e profunda das grandes almas, a que resolve, inocentemente, e com a simplicidade de uma criança, os maiores problemas da vida, diante dos quais a ciência se cala e o homem abaixa a cabeça, desanimado.  É grandioso agir desta maneira, sem ostentação e sem erudição, humildemente e quase sem aparecer, com osproblemas mais altos e mais profundos. São Francisco, humildemente, apoderou-se dos problemas dos povos e dos séculos; viveu conceitos universais; solucionou questões de psicologia coletiva, de ordem moral, econômica e social, questões que os grandes homens, na prática, ainda não resolveram definitivamente. Tudo isto São Francisco viu e sentiu; brindou-nos com as suas conclusões; viveu-as, sobretudo.

São Francisco é coração.  É muito mais do que um grande conceito: é uma grande paixão. O trabalho do cérebro precedeu claramente ao do coração, especialmente no período juvenil da crise psicológica. Foi um trabalho intuitivo, rápido e conclusivo, uma breve síntese posta à frente de uma vida de realizações. Quando, tempos depois, numa triste tarde de inverno, cheio de júbilo, entendia- se com aquela flor, e assim, em toda a sua simplicidade, quase sem dar conta, lançava a concepção mais ousada que a humanidade conhece, esboçava e explicava também, numa forma sublime, a natureza da sua grande paixão de elevar-se e de amar, exaltada na sua veemência e capaz de consumir as forças insuficientes do organismo humano. Esta paixão lhe proporcionou a força tremenda para impor-se às leis inferiores da natureza, para subordinar-se às necessidades de uma lei superior, mostrando-nos realizada a altíssima concepção do ideal. Esta paixão fê-lo viver e morrer; proporcionou-lhe o frenesi de elevar-se; tornou-o santo no sofrimento; fê-lo triunfar do grande terror dos homens — a dor — e depois consumiu e destruiu o débil arcabouço humano. Andou sempre cantando o seu sofrimento interior na forma mais doce e mais gentil de sua primorosa sensibilidade; perfez a sua vida dolorosa, em nossa terra, cantando sempre. A sua paixão era amor. Quando o amor é muito grande, as formas humanas não lhe bastam mais, o ponto de vista comum não mais satisfaz e a alma o rejeita com repugnância. Procura abraçar todas as criaturas, mesmo o bruto, mesmo o inimigo. Esforça-se por achar alegrias mais profundas e uma união que somente pode ser completa se existir o amplexo supremo da alma com Deus. Ele levou sempre consigo este amor tão vasto e tão novo, padecendo e esmolando, de porta em porta, um pedaço de pão. Não sentia, todavia, fome de pão, mas do amor puro e verdadeiro da alma que, para ele, existia em pequena dose sobre a Terra! Viveu com a sua paixão num mundo repleto de ódios e cobiças, tão diferente das necessidades da sua alma e que, num dia de sua juventude, se lhe devia afigurar venenoso ou envenenado. Viveu num mundo frio e hostil que não oferecia nenhuma oportunidade aos seus desejos mais ardentes. Mundo incompreensível e divorciado dele, onde todos facilmente apenas se encontram a si próprios. Neste mundo não se lhe deparou outro trabalho a não ser o heroísmo do sacrifício. Faminto de amor, com o qual revestia cada ato de sua vida, implorava-o humildemente por esmola. Vestiu-se de pobreza, nutriu-se de renúncia, até a apoteose do Alverne e ao sacrifício da vida, até a extrema abnegação e ao máximo de doação de si mesmo, até o êxtase sublime, no amplexo sobre-humano no qual a alma se funde com Deus.

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16 Intercadência: Falta de continuidade; interrupção.

O Problema da Vida e do Além no "Fausto" de Goethe

(1931)


O encontro inesperado, em plena maturidade espiritual, com a gigantesca visão goethiana, sentindo-a, com a alma vibrante da luta cotidiana, no seu aspecto mais profundo de ascensão espiritual, revivendo-a em seguida, ao alcançar, por outras vias, como Fausto, todos os quadros da vida até a última síntese — eis uma experiência tremenda que não mais desaparece da alma, à maneira de todas as impressões que são eternas e infinitas.

Eu que havia admirado, sem paixão, Shakespeare e Milton; que em Vítor Hugo quase me cansava do estilo muito frondoso de retórica superabundante, reencontrei em Goethe a emoção que somente Dante já me havia dado, a vertigem das grandes alturas, porque a alma treme somente diante de uma arte que nos transporta às origens da vida.

A peregrina beleza do Fausto reside em que a realidade profunda da vida, aquela que raros espíritos vêem e vivem, é elevada aos primeiros planos como substância do drama. Goethe sentiu, instantaneamente, por intuição, a concepção filosófica, da qual participaram Buda e Cristo, que se completará em forma dedutiva e analítica na síntese científica dos séculos futuros.

A tragédia de Fausto é a maior tragédia humana, a da ascensão do ser, não mais aos níveis da evolução orgânica, mas na sua manifestação mais alta, na evolução espiritual. Em Fausto a vida se dilata na eternidade e completa-se, além dos limites humanos do nascimento e da morte, no absoluto, onde encontra a valorização do nosso mundo relativo e transitório; a vida aí é a do espírito no infinito. Do infinito, seu elemento desce ao finito, numa encarnação variável, em que a fantasia como que se realiza na forma e a irrealidade parece enquadrar-se no conceito; em que as ilusões de todas as nossas vicissitudes humanas são reduzidas ao seu verdadeiro valor, representando uma série de provas, logicamente ligadas, segundo um desenvolvimento que se chama destino, tendentes a um objetivo para o qual ascende e que se coloca além da vida. Os quadros de Fausto são as experiências da nossa existência; a eternidade os atravessa objetivando o nosso aperfeiçoamento por isso é que Goethe concebeu as provas em forma de gradações e de progressões. Desta maneira, no Fausto, esta forma da ascensão humana, que é a prova, decorre mutável e progressiva, numa série de esplêndidas visões, para expressar-se tão humanamente como de fato acontece na vida, isto é, no seu termo final, na tarde da velhice. É mais linda, mais profundamente verdadeira a concepção da vida na sua forma de luta, incerta e susceptível de quedas, mas capaz de vitória; na sua forma de conquista dinamicamente titânica, no contraste apocalíptico entre o bem e o mal, do que na sua forma pacífica de conclusão agradável, como o fez Manzoni, de modo tão cristãmente tranqüilo. Não se trata somente desta particularidade; a prova é concebida segundo a psicanálise, com indagações sobre o subconsciente e sobre o desenvolvimento da consciência, em contato transitório com o ambiente. Desde que se repitam, certas posições do espírito, aprofundando-se do consciente ao subconsciente, geram por assimilação contínua do exterior, novas capacidades, atitudes, qualidades e potência do eu. Um processo que é desenvolvimento de consciência, formação e dilatação da personalidade, meta última de todas as ascensões — a que somente pode, na vida, justificar o erro e a dor.

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Goethe pinta sobre a tela desta profunda tese filosófica os sonhos ousados de vasta fantasia, usando consumada arte de poeta. O espírito viaja de visões em visões, perseguindo as figuras de uma esplêndida fantasmagoria de quadros. Todo o mágico poder de Mefistófeles não é, no fundo, senão uma extraordinária capacidade criativa de representações interiores, que nos conduz desta maneira a pleno mundo astral. Faz-nos viver na parte mais profunda do eu, no subconsciente, onde a imagem é realidade, realidade dinâmica e ágil, como o é toda a visão profunda do espírito, realidade liberta de todos os férreos liames das leis da matéria, mais livre e móvel, como a lei do imaterial. Os contatos com o além, que emerge da sombra, fazem-se aqui mais vivos e imediatos. No drama goethiano nós lhe transpomos o limiar. Não ha contudo partida sem regresso. Todo o drama flutua além do mundo humano, no grande mistério do Além, sem todavia abandonar a Terra. Regressa, a cada passo, à nossa vida e ilumina-a toda com a luz do eterno. Não é um abandono, um ausentar-se; mas um interpelá-la, um explicá-la, para agigantá-la no infinito. O Além se nos penetra para elevar o sentido das nossas vicissitudes até um significado altíssimo. O eterno desce e concentra-se no átimo fugidio; este expressa e abraça todo o eterno; os dois grandes aspectos complementares, como as duas metades de um todo, dois extremos da vida se fundem no amplexo de uma única visão. No drama goethiano a comunicação entre os dois mundos se efetua a todo instante; o Além, não mais velado e distante, aparece-nos próximo a palpitante. É esta tragicidade no supranormal o que mais perturba e arrebata.

Se bem que o mundo, na época da lenda do Fausto, palpitasse ainda com os diabólicos terrores medievais (o Fausto de Goethe descende diretamente do Doutor Faustus, de Cristopher Marlowe, cuja comédia foi levada da Inglaterra para a Alemanha, no século XVII, por artistas ambulantes), estando Cagliostro próximo da ciência espiritualista, como no Geiterseher, de Schiller; se bem que tal lenda confinasse com o charlatanismo e fosse amálgama de neurose e de fanatismo religioso, desconhecida ainda a função da mediunidade, Goethe, entretanto, com o seu gênio, intuiu com clareza o aspecto de alguns fenômenos, como a desmaterialização, que é continuamente trazida à cena, recordando o dissolver-se de Katie King, de William Crookes. Assim Euphorion e Helena se dissolvem, o Pudel toma-se um "fahrender Scholastikus". Os atores, em cena, parece que escolhem o movimento vertical com a mesma desenvoltura com que os mortais se movem horizontalmente, dando-nos a impressão de uma quarta dimensão. Movendo-se os atores somente no espírito, a viagem de Fausto não se realizou no espaço.

"Afunda pois! Poderei também dizer-te: sobe! É o mesmo", diz Mefistófeles a Fausto, ao indicar-lhe a estrada do Além, aonde estes vão à  procura da bela Helena e de Páris. O mundo mitológico da Grécia clássica, estranhamente sonoro para nós, latinos harmoniosos, é todo revivido na sobrevivência do Além, no áspero verso germânico. Multidões de espíritos invisíveis, sem outra manifestação a não ser um pensamento e uma voz, tomam parte a todo instante no drama que está repleto de personagens incorpóreos. E para aqueles que possuem um corpo é um aparecer e desaparecer, um concretizar-se e um dissolver-se contínuo, um fazer-se e um desfazer-se sucessivo da forma exterior. Os personagens, à guisa de materializações espíritas, talvez em virtude do imenso poder mediúnico de Mefistófeles, despem com toda a desenvoltura as suas vestes corpóreas, com a facilidade com que se muda de roupa, e continuam declamando no Além. Goethe mostra-nos um tipo estranho de ator, um ator sem corpo ou que, se o possui, não se preocupa em perdê-lo, porque nada perde com este da sua parte mais verdadeira e mais profunda, a sua personalidade. Sublime ingenuidade cênica que esconde um profundo conceito filosófico! A identidade imutável do espírito através de qualquer que seja a mudança de forma, o eu que permanece inconfundível e inalterável através de todas as aparências humanas. Margarida morre, mas o seu espírito e a sua voz continuam. E chama, num doce apelo: Henrique! Henrique Estamos em pleno mundo mediúnico, sensível na veste palpitante do drama, fundido com a mais profunda concepção filosófica.

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O    conteúdo dramático do Fausto não é entretido com choques de paixões humanas, como o é, por exemplo, prevalentemente, em Maria Stuart, de Schiller, iluminadas por um conceito ascensional de redenção; é um contraste imensamente mais vasto, dado pela luta apocalíptica entre as duas maiores forças da vida, o bem e o mal. Fausto é o símbolo do homem que se agita entre estas duas forças. Ascende em Dante, redime-se em Vítor Hugo e santifica-se em Cristo, o símbolo do homem que luta e, lutando, evolve até a última síntese. Mefisto é o espírito que nega: "Ich bin der Geiút, der stets verneint! Ein Teil von jener Kraft, die stets das Böse will stets das Gute schaft". (Eu sou o espírito que sempre nega! Uma parte dessa face que sempre quer o mal, mas de que resulta o bem.) Ele é a negação de tudo o que possa ser bem, verdadeiro, belo, sublime, puro. É a antítese, a sombra do bem, é a contradição que condiciona o triunfo do verdadeiro. Esplêndido contraste de treva da qual nasce a luz. Em Goethe os personagens são símbolos, são a representação de uma força cósmica. Mefistófeles sintetiza a mentira, a traição, a destruição. Externamente, é todo luzidio e refinado, cortês e atraente: internamente, é o egoísmo a maldade, a baixeza, um tipo que a sociedade humana conhece bem. Mefistófeles é uma força que, para demolir tudo, demole antes de mais nada; a si mesma. É um gigante que contradiz logo a sua grandeza e torna-se falso e ridículo. É um herói, o mais fraco e o mais miserável dos heróis, que inspiraria piedade se não provocasse aversão. Mefistófeles não é a dor que laboriosamente edifica no eterno, condição transitória de uma felicidade imperecível, mas é a alegria fácil, usurpada, imerecida, que logo desaparece para conduzir ao sofrimento. É um falso prazer, pronto a desagregar-se a cada instante e a transformar-se em dor. Estamos nas estradas da descida, da involução para a animalidade, em antítese à via ascensional onde o espírito triunfa.

Do outro lado as forças do bem (ainda que não sejam no Fausto tão estritamente caracterizadas como se apresentam em Mefistófeles as forças do mal) não são todavia menos poderosas. Se são concebidas de maneira mais impessoal é para exprimir a sua universalidade, é para dizer que o bem é a regra, o mal a exceção. O que condiciona e limita o mal é o bem, lei universal. O bem não se localiza, não se personifica, porque é o hálito de todo o universo, abraça no seu âmbito todo o mundo do mal. Mefisto encontra os seus obstáculos e não pode transpô-los. Como princípio, é tolerado; mas como condição e como explicação, possui o seu campo limitado. No prólogo no Céu, as duas grandes forças olham-se face a face, por uns instantes, sem véus:

"Der Herr.  — So lang er auf der Erde lebt,
So lange sei Dir‘s nicht verboten.
Es irrt der Mensch, so lang‘er strebt.
Und steh beschamt, wenn du bekennen musst
Ein guter Mensch in seinem dunkeln Dranges
Ist sich des rechten Weges wohl bewusst."

("Senhor. — Durante a tua vida na terra,
Isto não te era proibido.
O homem erra enquanto luta pelo progresso,
Envergonhando-se quando é obrigado a confessar.
Um homem bom está ciente do caminho certo,
Mesmo quando os impulsos contrários o açoitam.‘t)

E o bem que abandona o Fausto ao mal, porque ele o acolheu; e Mefisto, cônscio da sua posição subordinada, pede-lhe permissão: Wenn Ilhr mir die Erlaubnis gebt. "("Quantas vezes me dão permissão") Somente depois desafia e o desafio é tremendo. A voz do bem, pressentindo todavia a derrota final do mal, adverte-o e o confunde.

Surpreendente conceito, soberano, dominante, se não no pormenor, indubitavelmente nas grandes linhas do funcionamento orgânico do universo, conceito de um equilíbrio admirável, tão anti-schopenhaueriano, otimista e completo que sobressai com evidência em Goethe. Esta devia ser a concepção filosófica da sua vida, que Fausto interpreta e resume. Revela a idéia de Deus-Lei, organismo de leis absolutas e invioláveis, segundo as quais todas as forças do universo se movem incessantemente no transformismo fenomênico, no seio de um equilíbrio espontâneo e supremamente justo. Como em nosso Dante imortal, o drama goethiano é o drama do universo. Que contraste com o: "To be, or not to be, that is the question17", que pôs o problema, sem resolvê-lo: ("puzzles the will, and makes us rather bear those ills we have than fly to others that we know not of." ("confunde o desejo, e faz-nos antes suportar os males que possuímos do que voar para outros que desconhecemos".) Que impotência filosófica nesta incerteza, que não conclui! Que distância da alma carducciana18! É o eterno que transparece e lampeja a cada passo em Goethe, mostrando-nos uma beleza substancial que sozinha pode valorizar o esplendor das formas e nos dar a profunda poesia do conceito, no qual somente reside a verdadeira arte.

O    Céu e a Terra assistem, no Fausto de Goethe, ao grande drama do bem e do mal e intervém nas agitações das ascensões humanas. Os coros dos anjos, contrastando com as falsas insinuações de Mefisto, acompanham todo o conflito espiritual que turbilhona na alma de Fausto. E surge a hora pavorosa e turva do mal, não um mal como o da agonia do Getsêmani, mas um mal na plenitude do seu efêmero triunfo. Nada se podia imaginar de mais tremendamente macabro do que o vertiginoso pandemônio da Walpurgisnacht19 sobre o fundo do Brocken20. Talvez somente a áspera lenda germânica, referta de bruxas e de diabos, de terrores e de trevas, poderia fornecer-lhe motivos. Nem Goethe, que conhecia perfeitamente a Harzgebing e as regiões de Schierke e Elend, poderia encontrar um fundo mais tétrico e desolado para a sua representação, que depois o nosso Boito21 devia reproduzir tão magnificamente em forma musical. A festa agita-se nas danças sapateadas; é toda pompa e alegria, culminantes num triunfo que revela grandiosidade. É sem dúvida uma festa, um triunfo, mas como tudo é alterado e falso, pervertido e ridículo! O brilho é treva; a música é fluxo de estridores; a multidão é estranha, sórdida e vil; o triunfo é insulto e ludíbrio. Que canalha infernal de espíritos imundos e caricaturais! Que áspera e tétrica sinfonia aquela espantosa fila de bruxas nórdicas, em fuga, todas nuas, cobertas de ungüento, cavalgando vassouras, pela pavorosa charneca de Brocken, enquanto a música louca do sabá, digna de Berlioz, bate o ritmo de uma satisfação feroz! O espírito que nega, nega, antes de tudo, a si mesmo. Na festa de Walpurgisnacht existe a manifestação de uma força que se anula na impotência, um aparato de glória que é todo um escárnio, um tripúdio que é triste como uma condenação, um grito de satisfação que é um ulular de desespero. A Walpurgisnacht é a personificação das forças do mal no seu efêmero triunfo; é o mais desconjuntado canto da vida que submerge num desprezo louco de destruição. É a involução, a descensão efetivada, o regresso rumo a animalidade, é o triunfo da besta feroz, é o inferno onde o espírito está morto. É uma humanidade que delira, louca e embriagada, ávida e falsa, como a nossa. Desejaria rir com Goethe pela sátira esplêndida.

As forças da vida estão vivas em Fausto; agitam-se galopantes como no mar tempestuoso; condensam-se num vórtice para arrastar o homem e arremessá-lo depois ao alto, para o céu. O turbilhão desencadeado do mal tem a sua hora e deve resolver-se numa função do bem. A doce e ingênua Margarida, uma das mais belas criaturas goethianas, encontra-se, enquanto ora no grande templo gótico, em pleno poder do triste espírito que lembra traição:

“Böser Geist. Wie anders, Gretchen, war dir’s,
Als du noch voll Unschuld
Hier zum Altar tratst.”

("Espírito mau: como te sentiste meiga Margarida,
Quando ainda completamente inocente
Te aproximaste deste altar.")

Na alma desolada da aflita ressoa:

"Dies irae, dies illa
Solvet saeclum in favilla."22

Mas, a crente que havia rezado tanto: "Ach neige, Du Schmerzenreiche, Dein Antlitz gnädig melner Not! ("Oh! vinde a mim, Vós que sofrestes tanto, tende piedade do meu padecer!"), volta-se a moribunda para o supremo tribunal e uma voz do alto anuncia: "Ist gerettet!" ("Está salva!"). A presa escapa, então, das garras de Mefisto que, desesperado, volta a reafirmar a Fausto o seu poder. Mas também ele se libertará. É sobre a sua cabeça que mais tremendamente se desencadeia a tempestade. Já ia levar aos lábios o cálice fatal para libertar-se do peso da vida, envenenando-se, quando ressoa o canto salvador da ressurreição, no alegre repique prolongado da Páscoa:

"Christ ist erstanden! Selig der Liebende, der die betrübende, heilsam und übende Prüfung bestanden". ("Cristo ressuscitou! Salve o Amado que foi submetido a tão triste e santa provação".)

Fausto está salvo. Mas logo é cercado e preso nos enredos do mal, que. concentra nele todas as suas forças. O pacto é firmado com sangue. Mefisto entra logo em ação numa fantasmagoria de criações e de vitórias que enfim se desfazem no erro. Qual é, todavia, o ponto fraco, a pilastra. que faz ruir todo o edifício? Quanta astúcia no negociar, quanta finura psicológica no enlaçar sem ser notado, no fingir-se de santo e de homem honrado (como o fez junto de Marta) e que artista da mentira e da traição era Mefisto! A sua habilidade reside na minúcia a sua finíssima lógica é a mísera lógica da astúcia que edifica sobre o terreno inseguro da falsidade. A orientação do seu sistema é errada, porque o egoísmo e a mentira são forças essencialmente desagregantes, desprovidas de capacidade coesiva e construtiva, enquanto o amor e o sacrifício, tão inermes e débeis na aparência, possuem a potencialidade dinâmica das grandes obras. Não o amor, mas o prazer trai Gretchen; não o trabalho, mas a especulação simbolizada na invenção de Papiergeld e semelhantes convenções financeiras, é que conduzem à ruína. Fausto, entretanto, oscilando de prova em prova. e de ilusão em ilusão, continuamente ascende. A sua longa viagem foi no mundo espiritual. No último momento, quando, rejeitadas as propostas corruptas, pede um trabalho honesto e fecundo, Mefisto consente, sem suspeitar o início da reabilitação de Fausto: o diabo acaba sendo enganado. Pouco a pouco, o deserto e a desolação, simbolizados na Walpurgisnacht, se transformam, por obra do trabalho e do amor, em estado de fecundidade e de bem-estar. Fausto encontrou finalmente a estrada das ascensões humanas e a libertação da dor e do mal. A estrada não estava nas alegrias fáceis da Averbach Keller, em Leipzig, nem na riqueza, nem no poder, nem na glória (vaidade napoleônica), mas além de tudo isto, além de todas as ilusões humanas onde existe uma fonte de pureza capaz de dessedentar todas as bocas:

"Das ist der Weisheit letzter Schluss:
 Nur der verdient sich Freiheit wie das Leben,
 Der täglich sie erobern muss."

("Isto é a última conclusão da sabedoria:
Somente aquele que conquista diariamente
A sua vida merece a liberdade.")


Enfim, o equilíbrio, temporariamente perturbado, restabelece-se. O mal volta à sua prisão, Mefisto precipita-se no seu reino e Fausto ascende na sua apoteose:

"Gerettet ist das edle Glied
Der Geisterwelt vom Bösen:
Wer immer strebend sich bemúht,
Den können wir erlösen."

(“O nobre companheiro está salvo
Do mundo dos espíritos do mal:  
Aquele que sempre se esforça incansavelmente,
Podemos libertá-lo para a sua ascensão.”)

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17 “Ser ou não ser, eis a questão” (N. da E.)

18 Referência ao poeta italiano Carducci, Giosuè (1835-1907)

19 Walpurgisnacht — "A Noite de Valburga" era na Alemanha medieval, segundo as crendices populares em voga, aquela em que se reuniam os Espíritos malignos e as feiticeiras, no alto do Brocken.

20 Brocken (ou Brock) — elevada e granítica montanha, na Alemanha, onde conforme as superstições medievais, imperava o chefe das forças do mal, "o Senhor Uriano" (Herr Urian) na versão do Fausto de Goeth

21 Boito — Referência ao grande poeta e compositor italiano Arrigo Boito (1842 -1918). Escreveu libretos para "La Gioconda", "Otelo" e "Falstaff" (estes dois últimos musicados por Verdi) A ópera mais famosa de Boito é justamente "Mefistófeles". (N. do T.)

22 "O dia da ira, aquele dia Em que (o Senhor) dissolvera o mundo em cinzas". — Referência à Justiça Divina, conforme várias profecias, em versos de um hino religioso, atribuído ao primeiro biógrafo de São Francisco, o frade Tomás de Gelano. (N. do T.)

Um Grande Erro Psicológico

(1930)


Revi hoje a nova cripta do túmulo de São Francisco. O olhar espiritual, habituado a localizá-lo naquele ambiente onde o mundo o viu durante cem anos, ficou surpreso e desorientado. Não se trata de discutir aqui as linhas arquitetônicas, as proporções, o estilo, as cores ou coisas semelhantes. Sob o ponto de vista artístico e segundo os conceitos atualmente em voga, não se teria, talvez, podido desejar nada de melhor. Harmonizou-se o estilo da cripta sagrada com o de todo o imenso edifício das duas igrejas. A sinfonia arquitetônica dos três templos, sobrepostos como três vozes presas no hino da rocha emergente para o céu, é magnífica. O simplismo oitocentista, com a sua ingenuidade artística de querer inserir o estilo clássico no coração de uma basílica trecentista, é uma dissonância que fere a nossa mais refinada sensibilidade estética.

Tudo isto é indubitavelmente verdadeiro. Embora eu me sentisse otimamente predisposto — não obstante a recordação do traçado da igreja, já observado com satisfação outras vezes — provei uma desilusão diante da realidade da cripta refeita. Por que?

Uma primeira sensação, digamos de óptica, exterior, de vastidão e de solidão nasce das razões seguintes.

A cripta é maior, o que diminui a importância da coluna central onde está o túmulo, reduzindo-lhe a imponência. As paredes, diferentes das antigas, agora se aproximam pela cor escura e pelo material de construção (pedra) da cor e do material da coluna central, de que resulta menor realce ao túmulo.

Mas estas impressões de óptica podem ser colocadas em segundo plano diante da sensação principal, a mais forte, de caráter espiritual, a sensação de frio, de vazio, de desolação.

Uma riqueza preciosa demolimos e perdemos irremediavelmente com a interposição desse estilo anacrônico — a aura psíquica do santuário. Lá onde o espírito sentia calor, agora sente frio. Lá onde havia a enchente de sensações, agora é a vazante. Tanto mais sensível quanto o espaço material é atualmente maior. Lá onde nos sentíamos irresistivelmente arrebatados por um ímpeto de fé, agora é palidez e desolação.

Eu sei que tudo isto é sutil, evanescente, impalpável para alguns, e que deveria parecer desprezível em nossos tempos práticos e concretos. Disto não cuidam comissões de arte ou de arquitetos, naturalmente porque assim pensa o nosso século.

A culpa, portanto, não é de ninguém em particular. Mas não justifica o maior erro psicológico na reconstrução do túmulo de São Francisco. A fé é fenômeno psicológico. É necessário tomar em consideração, sapientemente, as leis complexas e delicadas deste fenômeno, todas as vezes que desejamos retocar um lugar desta natureza. Para evitar danos irreparáveis, tal como se se alterasse, sem atenção para as finíssimas delicadezas acústicas, a forma do Scala de Milão ou o feitio de um precioso estradivário. A fé, como todos os fenômenos, possui as suas leis e estas devem ser respeitadas.

Tirou-se ao túmulo de São Francisco a sua característica mais preciosa e mais bela, ou seja, a alma do lugar, aquele imponderável e invisível que atraía o mundo. O ruído de demolição e reconstrução em torno do túmulo do Santo já foi uma profanação.

Dois preliminares importantíssimos foram menosprezados: — 1. Um lugar sagrado é mais do que um recinto de arte; qualquer dissonância artística pode ser largamente compensada por uma harmonia de fé; — 2. A grandeza de um recinto de fé é absolutamente independente da arquitetura ou da suntuosidade e muitas vezes esta na razão inversa destas. Freqüentemente, alcançamos efeitos indesejáveis com muitas reconstruções, ampliações e embelezamentos de recintos sagrados. Conforme demonstrou Cristo, e depois São Francisco, a fé reside na intimidade do templo do coração e das obras. Somente, por último, nos majestosos edifícios.

Na reconstrução do túmulo de São Francisco, tudo foi sabiamente executado no que se refere à arte, ao trabalho, enfim, ao que o dinheiro pode realizar, tendo sido, porém, destruído aquilo que era o sentimento do santuário, o que nos convida a orar e abrir a alma a Deus.

É certo que modificar alguns lugares santos; onde a alma humana se refugia para se encontrar a si mesma, e, no milagre da fé, penetrar o mistério, com o tato do artista ou do gênio é assunto para arrepiar os cabelos de qualquer homem consciencioso, pois se trata de um problema que sobreexcede em importância qualquer questão de arte.

Num santuário há algo mais do que as linhas arquitetônicas, os preciosos afrescos ou quaisquer tesouros de ouro e gemas. Alguma coisa o torna diferente de um recinto de arte, muito maior do que o possamos encontrar alhures, valendo mais do que tudo e bastando por si só para fazer dele o lugar para onde convergem as gerações.

Este quid imponderável forma-se lentamente com os séculos e é mais complexo do que a chamada pátina do tempo. Esta se deposita igualmente sobre os edifícios profanos.

Para formá-lo é necessária a visitação das multidões genuflexas transmitindo e acumulando numa dada ordem as vibrações, as quais se manifestam na ação sugestiva do lugar.

Ao transpor a nova cripta, senti que todo aquele perfume espiritual se desvanecera. A bela pedra esquadrejada e sabiamente disposta podemos colocá-la em qualquer subterrâneo; é uma pedra ainda muda e assim permanecerá até que gerações e gerações a consagrem, dando-lhe uma voz que por enquanto lhe falta.

Perguntei a mim mesmo se os afrescos poderiam modificar a impressão. Imitar ricamente vale tanto quanto imitar pobremente. No hodierno retorno ao estilo trecentista predominam as imitações, as quais, quando exageradas, fazem o olhar do observador desejar outros estilos.

O    estilo trecentista é lindo, mas no seu século. Agora, é um anacronismo. Construções feitas em estilo trecentista, quando os materiais e as necessidades eram tão diferentes, executadas em pleno século vinte Não sei o que dirão os pósteros desta imitação, que demonstra a incapacidade de criar um estilo próprio, como todos os séculos o possuíram.

Respeitemos, veneremos o estilo antigo, restaurando, retocando e, sobretudo, conservando. Abandonemos a idéia de poder fabricá-lo hoje como qualquer produto industrial. Se certas pinturas e arquiteturas nos atraem hoje é devido à maravilha do tempo que as dignifica. É que neste período histórico denso de paixões andamos à procura de uma fé perdida.

Agradam-nos por certas linhas, que pareceriam ingênuas e primitivas, se executadas hoje. Se isto, no geral, é verdade, de capital importância será para os lugares sagrados, onde a exigência artística é subordinada ao fator muito mais importante — ao fator psicológico. Repito: o que torna grande os santuários não é tanto o vulto, a beleza das construções, a perfeição da arte, quanto a presença deste imponderável acumulado, alimentado pela crença dos povos, reservatório de onde lhes emana a fé.

Este imponderável será inconsciente e irremediavelmente prejudicado, ainda quando obedeçamos as melhores intenções e aos critérios artísticos mais perfeitos.




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