É possível, mesmo nas condições de ambiente mais simples e vulgar, viver além dos terrenos restritos das pequeninas coisas que nos cercam, num mundo imensamente mais vasto. Não importa tanto a grandiosidade exterior dos acontecimentos que vivemos, quanto a profundidade com que os sentimos. Não nos detenhamos a superfície; é necessário penetrar a substancia das nossas vicissitudes. Então, os fatos mais comuns da vida cotidiana, as infinitas particularidades, imperceptíveis para muitos, revelar-nos-ão a ação das grandes forças do Universo, o desenvolver do nosso destino e a grande meta distante que vai além da vida numa férrea logicidade e justiça. Poderemos, desta maneira, não só transcender livremente a vida comum, mas vaguear no mundo vasto e rico de novas sensações e emoções, expandindo-nos em vida maior. Existe, além das aparências, uma realidade mais profunda nos máximos como nos mínimos fatos. Há na interpretação comum das coisas um sentido que se expande através das causas e se esconde no mistério. Nos bastidores da vida está uma realidade mais sutil, mais verdadeira, que encerra o porquê de todas as coisas. É a realidade do espírito, a verdadeira e eterna realidade da vida. Lá se movem os fios que condicionam os grandes e os pequenos acontecimentos dos povos e dos indivíduos. Lá está o porquê das nossas alegrias, triunfos, dores e derrotas. Pode-se desta maneira dar aos fatos mais simples os horizontes infinitos. Na simplicidade interior vive-se no eterno e em contato com o divino.

Como encontrar esta realidade mais profunda e esta vida maior? Nas regiões do espírito. Ela é um produto espontâneo, oriunda do subconsciente; é o clarão da revelação interior que ilumina tudo de uma luz nova. Traduz-se em dulcíssima revelação de paz, em majestosa sensação de infinito, na contemplação de um panorama imenso. Entramos em colóquio com a alma do criado, privilégio dos artistas; surgem percepções novas de todas as forças infinitas da vida, fortalecendo a alma para a luta; surpreendem-nos confortos e alegrias espontâneas. Os silêncios povoam-se de vozes; as solidões, de movimentos; as dissonâncias se desfazem em harmonias; o sofrimento, em alegria. Então, as portas do mistério se abrem; a nossa pequena vida se dilata na vida maior e olhamos o seu interior estupefatos e inebriados. Vejamos agora até aonde iremos, a última etapa da nossa meta. A alma responde-nos e adverte-nos com aquela sua voz de segurança que jamais mente. Esta voz possui um timbre todo particular que a identifica. Então o espírito articula uma prece na qual não se invoca um Deus externo, para acudir a um interesse próprio e mais ou menos imediato: sente um Deus interior, que se ama sem reservas e se compreende, numa fusão completa.

Eis alguns aspectos individuais da vida maior. O fator psíquico e espiritual é conduzido aos primeiros planos para que se nos proporcione a entonação de toda a existência. Quantos caminhos, porém, para alcançar a compreensão destes estados de ânimo; que profunda educação psicológica, moral e artística é necessária! Posições inadmissíveis para muitos. Entretanto, o futuro da vida é este, estas são as formas buscadas pelo progresso coletivo e pela evolução individual. O progresso do mundo não é somente mecânico, nem colima somente a perfeição mecânica. Atrás deste se encontra um progresso muito mais substancial, que é o progresso espiritual e moral. As conquistas materiais não podem deixar de reagir sobre o espírito. Quanto mais a civilização progride, mais o homem se apercebe de que além existem outros problemas; quanto mais se apura, mais sente a urgência da solução. Quando um dia a humanidade tiver resolvido, de forma universal, o problema econômico, com o domínio das forças naturais, então se disporá a lutar seriamente e em escala mais ampla pelo problema intelectual e moral que hoje é apenas um pressentimento. O futuro do mundo não é como o concebeu Wells — hipertrofia do progresso mecânico — mas a afirmação dos valores do espírito na coletividade

Hoje se luta, lutamos todos, mais do que os nossos avos. Amamo-nos. Odiamo-nos. Em qualquer circunstância, por qualquer objetivo, porém, nos abraçamos. A alma coletiva quer nascer; sempre nos sentimos incompletos diante da necessidade de elaborarmos esta alma. Quanto mais evoluímos, mais nos sentimos sintonizados e mais procuramos no próximo o nosso completamento. Somos compelidos a incluir em nossa vida uma ração sempre maior de altruísmo, pois temos necessidade uns dos outros, se bem que o egoísmo atávico nos divida. Todos sentimos falta de alguma coisa, que pedimos. Todos possuímos qualquer coisa, que devemos dar. Esta compreensão de almas e necessária ao futuro da humanidade; do caos hodierno nascerá um verdadeiro organismo. Somente da compreensão pode nascer a coordenação e desta um funcionamento orgânico. Não se trata somente de questão de psiquismo, de intelectualidade, de saber. O que tem importância, na evolução do mundo, são os fatos interiores, dos quais depende todo o funcionamento social. Bastam poucas idéias simples, mas sentidas e vividas, em larga escala. O que importa são os sentimentos de bondade e retidão que cimentam e consolidam as correlações sociais. As formas exteriores das convenções coletivas não se equiparam aos imperativos morais. Tudo converge para o mesmo ideal: o progresso mecânico nos liberta do trabalho material e embrutecedor; a cultura nos torna mais espirituais; a finura das hodiernas condições de vida sensibiliza o nosso sistema nervoso, que é a base da alma. Uma sensibilidade nova, talvez hipertrófica e mórbida na impetuosidade do seu nascimento, assenhoreia-se do mundo e revolucioná-lo-á. Assim como hoje nenhum ser humano suportaria os sistemas penais fundados na tortura, assim, um dia, não haverá interesse ou vantagem, por mais forte que seja, que obrigue a humanidade a fazer uso das guerras. Estas não desaparecerão, graças a acordos internacionais, que não modificam a mentalidade humana, mas somente em virtude da nova sensibilidade que dará ao homem civil o terror por qualquer ato de violência. A ciência, por seu lado, aumentará a tal ponto o poderio de destruição que o homem será constrangido a desistir da violência, que redundará sempre em dano coletivo e total. A luta subirá, então, para o plano de problemas mais elevados, ainda hoje não pressentidos.

Eis alguns aspectos coletivos da vida maior. Individual e coletivamente, todos somos construtores; o verdadeiro trabalho da vida é a preparação de um mundo maior para os nossos filhos. Preparação que é fadiga e luta. Trabalho demorado que absorve energias e exige sacrifícios, mas que da os resultados mais seguros. Somos filhos das nossas ações. Para colher é necessário semear. O problema da felicidade torna-se sempre mais complexo e é urgente prever. Se a nossa sociedade se sente cheia de preocupações e tão insegura nos seus prazeres, é porque a maior parte das nossas alegrias é de origem precária, filha do egoísmo, lesa as leis do equilíbrio universal. Aquilo que começamos a fazer livremente, depois nos circunda, nos liga e nos escraviza, seja para o alto ou seja para baixo, até as últimas conseqüências. A vida é um caminho; cada volta é uma prova Cada ato possui seu valor moral, cada acontecimento seu significado recôndito, como parte de um esquema maior, que se projeta na eternidade. Ninguém se encontra, sempre, neste mundo, no posto exato de maior rendimento em relação as suas qualidades. A maior parte das energias se desperdiça nos atritos da luta, razão pela qual o que interessa não é a utilização imediata da capacidade adquirida, mas a criação e a aquisição de novas qualidades, através de novas experiências Se olharmos mais profundamente, encontrar-nos-emos no melhor posto, no de melhor rendimento diante do futuro. A verdadeira construção não está mais no efêmero triunfo dos resultados exteriores, senão em nossa alma, como qualidade adquirida e como produto eterno. Esta é a vida maior. Ela não significa obtenção de vantagens, de prazeres; possui limites e fins mais vastos. Contém um programa de criação espiritual, estende-se na eternidade, conquista, além do átimo evanescente e fugidio! a realidade imperecível. Luta e agita-se por uma única finalidade: a realização de um ideal.




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