Fragmentos de Pensamento e de Paixão

Era uma tépida e encantadora noite de luar. Nos jardins de um parque da grande cidade, se bem que em hora avançada, ainda se demoravam muitas pessoas. Pares de namorados vagavam pelas alamedas. A hora, a estação, o local, tudo parecia convidar ao amor. As estrelas olhavam do céu a sorrir.

Um homem atravessava o parque pensativo e absorto. Talvez fosse o mesmo que conheceramos na história precedente. Resolvido, diante de Deus, o seu problema econômico, pondo a sua riqueza a proveito do próximo e dando à sociedade o seu justo tributo de trabalho, preparava-se agora para enfrentar outros graves problemas.

Enquanto andava por um caminho solitário, vê uma mulher sair da sombra onde se escondera da luz do luar e dos lampiões do parque. Observou-a vindo ao seu encontro, com acenos suspeitos. Ele a olha. É jovem, com um ar embaraçado, como de menina inexperiente que não sabe ainda oferecer-se a todos e não consegue fazê-lo senão com pudor. Ele a observa ainda. Parece que ela tem medo e fome ao mesmo tempo, e que a fome a induz a vencer o medo. Ele, habituado a olhar na alma, compreendeu e sentiu que o seu coração era invadido por infinito sentimento de piedade.

Assim, andaram juntos, sem falar. Ela, vendo-se aceita, seguia tímida, obediente, em expectativa, enquanto ele pensava: "Há realmente injustiças sociais, além das injustiças econômicas. Não existem somente as vítimas das pobrezas. Quantas outras misérias que somente o amor ao próximo pode fazer desaparecer! Eis aqui uma vítima da prostituição, talvez já sacrificada no altar do egoísmo humano. Sou um homem que decidiu seguir as leis de Cristo. Darei o meu óbolo pessoal para atenuar a injustiça da miséria moral, que é a prostituição da mulher. Assim como diante do pobre é o mais rico quem tem mais deveres, diante do inepto é o mais inteligente, assim diante da mulher, a parte mais fraca, é o homem que tem mais obrigações. A culpa da prostituição reside no egoísmo do homem que desfruta da fraqueza da mulher que deve ser sagrada."

Diante daquela infeliz, sentiu vergonha de seu sexo forte, que usa a força para desfrutar o ser débil que se lhe entrega. Suga-lhe o fruto, para depois jogar fora a casca. Nesta casca permanece uma alma desprezada e despedaçada, que o homem tinha o dever de elevar ao alto, através do amor. Ao invés, prostituiu-a com o seu egoísmo. Rugiu no coração daquele homem o sentimento de revolta contra um mundo tão vil, despertando nele outra virilidade bem diferente da que apenas fecunda a fêmea e depois a abandona. Olhou para o céu, dilatou o peito, sentiu-se homem forte, potente no espírito, macho integral, aquele que se aproxima da mulher para protegê-la e não para desfrutá-la como instrumento de prazer, para elevá-la e enobrecê-la e não para afligi-la. O verdadeiro macho fecunda sobretudo o espírito. Decidiu-se. Devia fazer o bem. Devia salvar aquela mulher.

Dirige-lhe a palavra. Palavras simples para iniciar um conhecimento: "Menina, a primeira coisa de que tens necessidade é de restaurar-te. Vamos cear." A mulher aceitou, porque isto fazia parte do ritual, e assim mataria a fome. Entraram num salão resplandecente. Ela escolheu um canto mais afastado, envergonhada de si e do seu vestido simples, sua única riqueza. Não conhecia aquele mundo que lhe pareceu maravilhoso. Admirava os espelhos, as mesas bem arrumadas, as vestiduras finas das senhoras. Sentiu-se invadida por uma onda de bem-estar e fechou os olhos como se sonhasse grande sonho de felicidade. Desejava saboreá-lo, prolongá-lo, prendendo-se nele. Tudo isto contrastava com a triste realidade cotidiana do seu casebre situado nos arredores da cidade, onde não ouvia senão as vozes ásperas de seus familiares. Uma música leve a embalava no sonho. Viver, gozar! Pobre criatura! Parecia-lhe que ali todos eram felizes, porque ignorava a realidade; ainda não conhecia os sutis venenos da vida escondidos sob os esplendores mundanos.

Como pareciam satisfeitas aquelas senhoras! Possuíam vestidos, jóias, eram respeitadas, servidas. Dentro em pouco voltaria a rua. Não tinha direito a nada, nem mesmo ao amor. Devia vendê-lo para comer. Aquelas dispunham também do amor, de tudo. Damas ricas, talvez piores do que ela perante Deus, podiam andar com a cabeça alta, porque possuíam recursos, armadas de legítimas posições formais que as defendem, diante da sociedade, juridicamente colocadas sob as instituições da propriedade e do matrimônio, tendo o direito ao luxo, à liberdade no amor. E sabem como fazê-lo, amparadas por defesas oportunas.

Ela despertou do sonho. Intuía vagamente, sem poder precisar a situação. Nada daquilo que via era para ela, pobre verme indefeso no meio da estrada onde todos pisam. Fumegava à sua frente um prato suculento, de apetitoso perfume, que lhe avivou a fome. Começou a refeição. Comia lentamente, procurando multiplicar o sabor com todos os acessórios ao alcance de suas mãos, condimentos, legumes, para que a ceia se desdobrasse. Saciava o estômago habituado ao jejum. O amanhã era incerto. seu companheiro não a perturbava, evitando conversar; parecia imerso, não nas sensações elementares da jovem, mas num sonho diverso. Também ele observava aquele mundo elegante, mas sem inveja e com piedade. Sabia qual triste realidade se ocultava atrás daqueles esplendores. Verificava que reina na Terra a lei do mais forte e que não existe piedade para os fracos. Entre aquelas damas respeitáveis e a jovem que ele havia recolhido na rua existia uma única diferença: as damas pertenciam à classe dos vencedores; a jovem, à dos vencidos. Somente por este motivo ela não era respeitada: vendia-se porque tinha fome. As outras eram respeitáveis; não se vendiam porque não tinham fome. Permitiam-se o luxo até de pregar a virtude Como é fácil proclamá-la, exigindo-a aos outros! Mas como é dura a virtude exigida de nós mesmos! Pregadores fáceis pululam pelo mundo. Em nome da virtude, podem satisfazer aos seus instintos de agressividade contra o próximo; da condenação deste fazem o pedestal para o próprio orgulho. Desta forma se conduz sobre o terreno da moral a luta cotidiana pela vida, procurando colocar-se em posição de superioridade, como juizes, diante do pecador, para esmagar o rival. Uma mulher poderá esperar bem pouco de outra mulher.

Do homem vil é que se espera o dever da redenção. Para ele, o amor é um incidente. Para a mulher, a vida. É ele que educa a mulher. adaptando-a a si mesmo. É a mulher que, por sua natureza, obedece e adapta-se ao homem. As leis. antes de perseguir a prostituta, que é o efeito, deveriam atingir o homem, que é a causa. É a procura que cria a oferta. Todavia nenhum legislador fará jamais uma lei contra a vileza do seu sexo. Pelo fato de estar junto do homem, se este é um delinqüente, a mulher tentará descer até à sua delinqüência. Se é um santo, ela procurará subir até à sua santidade. A mulher é sempre a companheira menor do homem, fazendo tudo por ele, para que se sinta satisfeito. É capaz do sacrifício de uma vida de desprezo e de abjeção. O grande egoísta esquece os seus deveres: o mais forte deve ajudar o mais fraco e não roubá-lo. Desta forma, o homem educa para si a mulher, feita de astúcia e traição, armas necessárias para a sua defesa. O verdadeiro amor, do verdadeiro macho, não explora a mulher para o seu gozo, mas protege-a, educa-a, fazendo-a sua colaboradora no mais viril e potente trabalho da vida, que é o da ascensão no bem para Deus.

Assim pensava o nosso protagonista, enquanto lambiscava, tomado de imensa piedade pela triste companheira. Deixou que ela se satisfizesse à vontade, que aproveitasse a hora de ilusão. Diminuía o número de pessoas no restaurante, parecendo agora tudo mais calmo. A jovem, atenta ao ambiente que a cercava, não aparentava surpresa diante de um interlocutor tão taciturno. Parecia até evitar este desperdício de tempo na conversação. Comia tranqüilamente enquanto vagamente intuía qualquer coisa que lhe dava um sentimento de confiança. Em poucos instantes, sentiu esvair-se a sensação de desconfiança que lhe havia dado, a princípio, aquele vulto desconhecido. Sentiu-se protegida e fitou-o surpreendida. Ele tomara uma decisão. Seus olhares encontraram-se.

Todavia, ele continua ainda calado. Diante dos seus olhos, uma visão. Via a louca Herodíade que, odiando João, o Batista, por condená-la pela imoralidade, instigava a filha Salomé a pedir a Herodes a morte daquele que resistira à sua beleza Viu-a recebendo da dançarina Salomé a bandeja com a cabeça de João. E quem diria que Herodíade havia de morrer pouco depois, vítima de um cancro na boca blasfema. Nessa época, o encontro do homem com a mulher era brutal. O drama precipita-se num epílogo de destruição para ambas as partes. A adúltera era apedrejada. A Lei era então uma espada que simplesmente cortava e matava. Tempos violentos e ferozes, nos quais os princípios da Lei se proporcionavam à dureza dos homens.

A visão continuava. Cristo fala aos perseguidores da adúltera: “Aquele que entre vós esteja isento de pecado, atire a primeira pedra”. E depois, voltando-se para a mulher: “Ninguém te condenou? Pois bem, nem eu te condeno. Vai e não peques mais.”

Eis uma nova cena: Mulher famosa e pecadora, prostra-se aos pés do Cristo, banha-os com as suas lágrimas, enxuga-os com os seus cabelos, beija-os e unge-os com perfumes. Cristo lhe diz que as suas faltas eram perdoadas porque muito amou. E acrescentou: "Aquele que menos perdoa, menos ama. Vai, perdoados são os teus pecados".

Neste encontro do homem com a mulher aparece uma luz nova, uma espiritualidade antes ignorada, uma amplidão de vista e uma liberdade que antes não se podiam conceber. A reação à culpa é um perdão. Por uma lei mais elevada — o Amor, acima da justiça mecânica — pode-se fazer de uma pecadora uma santa — Maria Madalena. A bondade desponta como função salvadora e criadora, sem a punição que lembra a vingança e prende a alma, para conduzi-la a Deus. Diante deste novo apelo lançado pelo Cristo em direção positiva, a velha atitude do Batista parece qualquer coisa de estéril e negativa.

O nosso homem acorda de seu sonho. Durante o devaneio, firmara a decisão de não odiar o pecado, porque assim acabaria por odiar o pecador. Jamais fazer da virtude um direito para condenar ou instrumento para perseguir. Ter sobretudo piedade do pecado, para se apiedar do pecador. Com a força da bondade, do exemplo, da virtude, com o próprio sacrifício salvar aquele que pecou.

O nosso homem volta-se para a jovem e fala-lhe: "Não é possível amar sem amor, como um animal. Continuarás o teu romance numa bela residência onde eu te deixarei, porque a tua casa deve ser muito longe, se é que tens casa. Dormirás sozinha, com outro Amor que eu te ensinarei e que te fará mais feliz. Amanhã me verás; ensinar-te-ei outra vida, sem humilhação, feita de alegrias verdadeiras." Deixou-lhe o seu endereço. Saíram. Ele a conduziu para a casa de uma senhora amiga que a hospedou.

No dia seguinte, acompanhada daquela senhora, a jovem voltou a procurá-lo. Conseguiu-lhe trabalho honesto na residência de boa família, a cuja amizade soube corresponder. Nesse novo lar, continuou a falar-lhe sobre o verdadeiro Amor, o amor fiel, o amor que existe somente na alma, o único que resiste à desventura, a morte. Ela compreendeu tudo, comovida e grata. Mais tarde se casou, teve a sua família, o seu marido, os seus filhos. O nosso homem desapareceu, porque a sua obra estava terminada.

Não mais a viu. Perdeu-a de vista. Todos os anos, porém, pelo Natal, o carteiro lhe trazia uma carta em que se liam estas poucas palavras: “Não o esquecerei jamais. O senhor me ensinou o verdadeiro amor e salvou-me. Sou feliz com a minha família e esta é a sua obra. Não o esquecerei jamais.”

Ele, em cada Natal, lia esta pequena carta, chorando de alegria. Desta vez o ser, a quem ele havia feito o bem, compreendera e, por meio de uma carta, voltava todos os anos.

O protagonista das duas histórias precedentes, ao pôr-se em contato com aqueles dois indivíduos tão diferentes, havia defrontado os problemas fundamentais do ser humano: o da fome e o do amor. Um dia encontrou-se com outro ser e com outros problemas. Encontrou-se consigo mesmo. Nada de excepcional. É coisa que acontece a todos os homens inteligentes, apenas atingem certo grau de maturidade. Não é, portanto, um caso extraordinário, deve ser interessante falar a seu respeito.

Este outro si-mesmo, calmamente, das profundezas do seu eu, havia observado o pensamento e a ação nos dois casos precedentes, julgando tudo sem falar. E agora, em hora de paz e de silêncio, tomava a palavra: "Amigo, sou o mais profundo de ti mesmo; surjo na tua consciência, vindo daquela infinita profundidade onde, distanciado imensamente da tua consciência normal de homem, Deus está. Apresento-me, porque, da superfície de tal consciência, apta à vida cotidiana de relação, desejaste sondar o mundo das causas. Impondo-te perguntas, desejaste olhar de frente e pesquisar com coragem o pavoroso abismo que esta na profundeza de todos, e de que, entretanto, muitos desviam o olhar, espavoridos. Foi assim que me despertaste e sempre mais me despertarás. Isto custou-te muito trabalho, trabalho considerado inútil pelo mundo absorto em utilidades imediatas. Cometeste grande feito e te julgavas sozinho porque incompreendido e condenado pelos homens. Mas não estás a sós. Das profundezas fala a voz de Deus; tanto mais clara e mais forte quanto mais souberes despertar conscientemente desta profundidade. Escuta-a. É a tua grande amiga que te auxilia a maturação. Tem pena dos teus semelhantes que te desprezam, porque eles vivem de ilusões".

O homem escutava, confortado. Conforto agradável em hora de esgotamento. Estava cansado. A sua natureza humana normal, porém, sofria e revoltava-se. Por que não gozar a vida? Por que lutar tanto e sofrer? Ninguém o prezava por este motivo; era considerado um néscio. Por que andar assim conta a corrente geral? Por que renúncias? Quem lhe pagaria por tudo isto? Não era loucura desperdiçar as suas economias? Não são loucuras a santidade, os ideais, os heroísmos? Não é tudo isso, para a vida, um salto perigoso que o homem de bom-senso deve evitar? De fato, o homem normal ama estas coisas, mas somente como fábula e lenda, sem jamais suspeitar que todos podem e devem realmente realizá-las. Por que continuava ele, ao contrário, fascinado e desejava vivê-las? Não podia ter sido isto, simplesmente, a sugestão de exemplos que eram postos em destaque e utilizados por grupos, como bandeira? Onde jamais o homem faz alguma coisa sem esperar retribuição e exalta o seu semelhante sem um interesse próprio? Cansado e triste, depois dos maiores impulsos e sacrifícios, era às vezes atormentado pela dúvida.

Sacrificar-se pelos outros é duro; todos abusam e desfrutam da bondade, correndo para onde existe o que tomar e somente para tomar. Por fazer o bem tornou-se pobre e como tal foi desprezado. Precisava ganhar a vida na luta cotidiana, pois se colocara entre os necessitados. O mundo lhe mostrava tacitamente a sua desaprovação, abandonando-o sozinho. o mundo não o amava; ele representava uma exprobração e uma condenação com apenas a sua presença, a sua conduta e o seu silêncio. Se todos, desde que o mundo é mundo, tivessem agido do mesmo modo, que revolução não se teria realizado! Por que continuar sacrificando-se pelo bem desta gente que não o sabia interpretar? Sabia que, em casos semelhantes, o reconhecimento não vem senão depois da morte, isto é, quando a homem superior não mais pode falar e agir; e somente então ele passa a servir os objetivos de grupos, transformado em bandeira atrás da qual é mais fácil a defesa na luta pela vida. Se na terra não conseguia nada, conquistaria ele verdadeiramente valores absolutos? E onde estavam eles? Sim! O seu eu profundo falava bem. A sua voz vinha de longe, como se fora um sonho, enquanto a voz hostil do mundo e a dura realidade estavam bem próximas e claramente visíveis.

Tal é o contraste entre a natureza humana e a divina, contraste que nasce em cada homem, quando esta última floresce nele e se faz progressivamente mais forte, até o dia em que o domine e tome a direção suprema. Vejamos em nosso protagonista como as duas naturezas falaram, cada uma por sua vez. Ele havia saído de casa entristecido com uma prova de ingratidão e incompreensão. Sozinho, subira até o alto de uma colina de onde se dominava a cidade, e deste sítio contemplava o horizonte, a paisagem, aquelas vidas cheias de vozes mil. E perguntava-se: "Por quê? Por que corre toda aquela gente, que miragens segue, que realiza e conclui? Cada um possui uma finalidade particular, mas para onde vão? Cada um possui o seu objetivo próximo, imediato, mas conhece os grandes objetivos distantes da vida? Cada gota ignora a grande corrente na qual vão ter todas as gotas. Todos fazem tantas coisas, acreditando alcançar outras depois. Mas, que significa tudo isto, qual o fim de tudo isto?"

A sua natureza humana voltava a falar nele. Valia a pena sacrificar-se por este mundo indigno? O seu sacrifício não se tornava inútil como uma gota d'água no oceano? Como podia a sua revolta abalar o mundo? Não era inútil o seu esforço? Não era isto uma ilusão? Ou antes, não estaria o mundo iludido ao seguir atrás de uma quimera somente para atrair mais dores? Ao invés de condená-lo, não poderiam os outros imitá-lo no dever de salvar a humanidade? Não era o seu sacrifício um dever, não havia um outro mundo de justiça onde ele receberia o prêmio independentemente dos juízos humanos? Mas, quantos amigos possuía que sabiam aproveitar e gozar este mundo! E ele nunca soubera se aproveitar de nada! Gozar, gozar, eis a grande miragem. E ele a destruiu com as suas próprias mãos. Nascera rico e renunciara aos bens de herança, porque achava que o seu dever era viver apenas do próprio trabalho com o qual pagaria o seu tributo à sociedade. Por este motivo foi julgado imbecil. Utilizara a força econômica, que a riqueza lhe proporcionava, não para a sua satisfação própria, mas pelo bem dos outros. Foi considerado um imbecil. Jamais se aproveitara da fraqueza da mulher. Recusara dinheiro ganho num jogo entre amigos, porque não era fruto de trabalho, jogo este imposto pelos próprios companheiros. Classificaram-no como imbecil. Jamais se utilizara da sua inteligência para aparecer em destaque no mundo; da sua posição social, para dominar; da sua juventude, para gozar; mas se desprendera de tudo isto pelo seu sonho de louco — fazer o bem ao próximo. Isolara-se, porque se colocara fora do normal. Para que lhe servia tudo isto? Insensatez sua acreditar poder convencer os homens. Estes riam-se dele e voltavam-lhe as costas. Quando, somente com a sua muda presença mostrava reprovação, com o seu exemplo, o mundo o condenava, respondendo-lhe com rude exprobração. Qual dos dois tinha razão: o seu altruísmo ou o egoísmo dos outros, os homens cheios de direitos ou ele, todo cheio de deveres?

O nosso protagonista sentou-se. Estava cansado. Apoiou a fronte sobre as mãos e chorou. A luta o consumia. Entretanto, ele a amava; sentia brilhar nela centelhas de luz. Apenas voltada a calma, o seu eu profundo falou-lhe de novo: "Amigo, a tua fadiga é a mais proveitosa na vida, a única que produz frutos eternos Nesta maceração que te atormenta, tu te maturas e evolves. Tudo, menos isto, acaba sendo destruído pelo tempo e pela morte. Não te agites, repousa. Fizeste o esforço tremendo para sair da baixa corrente do mundo, a fim de atirar-te numa outra, entre os braços de uma lei mais alta. Esta te prendeu entre as suas espirais, arrebatando-te. Abandona-te nela e deixa-te levar. Deus deixa ao homem a semeadura; resta-Lhe, contudo, como obra Sua, fazer crescer a semente. O bem que fizestes, tanto rodará nos circuitos das forças cósmicas, que voltará a ti. O mal que o mundo faz, tanto rodará que voltará a ele, porque quem faz o bem ou o mal o faz a si próprio. A lei reage conforme nós agimos; e o mal retorna sobre nós mesmos. Coragem! Escolheste a vida mais dura, porém a mais elevada, a mais verdadeira. Deixa gritar o mundo dos inconscientes, que apenas crêem nas vantagens imediatas, esperando a vitória, quando na realidade, estão sendo derrotados. Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Os utopistas que vivem de ilusões são os homens que crêem somente nos poderes humanos e na riqueza, coisas que os atraiçoam continuamente. Prossegue, porque estás no caminho. Não voltes atrás. Não pares. O teu sonho jamais te atraiçoará. O teu sacrifício não proporciona o rendimento imediato e transitório que dão as coisas do mundo. Os teus lucros, profundamente amadurecidos no tempo, serão sólidos e estáveis. Esta é a verdade para ti e para quantos escolheram a tua mesma estrada.

Entre todas as batalhas, tu escolheste a maior da vida, a que exige mais audácia, a escalada para o céu. Escolheste a via íngreme e direta. É natural que seja a mais cansativa. Tu te abrasas na jornada porque vives a evolução em síntese. Os outros vivem-na diluída em longas experiências: avançam e retrocedem a cada passo, vítimas da ilusão em que desejam acreditar. Deixa-os na sua lenta experimentação de análise, num labirinto de particularidades. Arrasta a tua rede e recolhes o pescado, enquanto outros ainda estão começando a tecer a sua. Eles, um dia, após árduas refregas que atenuarão as duras angulosidades do egoísmo, também chegarão, lentamente, descobrindo o roteiro. Tu és um arauto com a função biológica não de conservar o passado, mas de explorar o futuro, de vivê-lo com precursores para fixar na terra a nova lei do Evangelho que, na prática, ainda é desconhecida no mundo."

"Vai. Cada um não pode viver senão segundo a sua natureza. No teu longo passado tu te construíste assim. Fizeste o teu destino com as tuas mãos e agora não podes desertar. É fatal que sofras ajudando o próximo, porque é da lei que quem mais possui mais deve dar. Tu mesmo não podes parar. A tua sede de subir te queima. É fatal esta tua posição. É fatal que se revoltem e te condenem, que se sintam abalados com o teu exemplo, para que assimilem algo e elevem-se um pouco. A condenação que te dão é o preço que tu, mais avançado, tens o dever de pagar para a evolução deles Esta é a tua prova. O trabalho é, contudo, útil para os outros e para ti. Não se pode semear sem sacrifício, mas cada semente germinará numa nova. Que tenhas a certeza disso. Cada criatura que beneficiaste, mesmo se não voltar mais a ti e te cubra de ingratidão, retornará, um dia, porque cada pensamento ou cada ato, após percorrer o circuito das forças cósmicas, tornará à sua causa. Cada exemplo teu foi visto por muitos e permanece escrito no livro da vida. Se foi condenado e afogado na incompreensão, não importa; ele representa um impulso indestrutível que tornará a ti na mesma forma de bem com que o geraste. Exulta na dor, ajudando os outros a redimirem-se; estás redimindo a ti mesmo, criando o teu paraíso".

O nosso homem agitou-se como se acordasse de um sonho. Levantou-se. O lampejo vivo das profundezas da alma o havia iluminado. Nova luz brilhava nos seus olhos. Que potência, então, existia na profundidade do espírito para emergir deste modo e transformar o homem? As suas dúvidas desvaneceram-se como névoas; reencontrara a sua própria consciência. Não se sentiu mais sozinho, nem cansado, nem pobre, nem triste. Deus estava junto dele na pessoa do próximo que ele queria auxiliar. Não sabia contudo explicar por que tanta alegria tinha, de improviso, invadido a sua alma, tanta paz, tanta força, tanta certeza. É árduo, a princípio, aplicar a máxima - "Ama ao teu próximo como a ti mesmo", mas depois o amor retorna de todos os lados, realizando o paraíso. E agora, o amor que ele, incompreendido e condenado, havia dado a todos, voltava-lhe como felicidade, porque é a lei de Deus. Sentiu-se, então, unido ao todo, operário na obra divina.

Levantou a cabeça e sacudiu-a. Confirmou-se na sua decisão. Jamais duvidaria. A potência do espírito vencera para sempre.

 FIM




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