Fragmentos de Pensamento e de Paixão

Assim como se experimenta no laboratório científico, pode-se experimentar no campo espiritual e moral. Os elementos de que dispomos aqui para a investigação fenomênica, os fatores que se combinam são fornecidos pela personalidade humana e pelas condições de ambiente. Entre aquela e estes se produzem contatos, choques, reações e combinações não já de caráter molecular, mas moral, com as características de resistência, consumo dinâmico e, sobretudo, de desenvolvimento lógico que obedece a uma lei suprema de equilíbrio, própria do mundo químico. Aqui o fenômeno se eleva a um grau altíssimo e desenvolve-se como se fora um drama guiado por suprema lei de justiça.

Aquele que não vive tão-somente a sua própria existência vegetativa, mas também esta segunda e maior vida, que é a vida do espírito, realiza dentro de si, continuamente, tais experiências espirituais. Seu material de observação é o próprio eu que se agita nas infinitas circunstâncias da vida. É difícil observar e experimentar sobre os demais, seja porque quase todos vegetam na superfície e não perquirem a vida no seu verdadeiro significado, seja porque raras vezes é possível penetrar no íntimo da alma alheia. É mister, portanto, a auto-observação. Isto não basta, pois são casos de caráter particular ou relativos a uma pessoa, a determinado tipo de personalidade humana em restrito momento de sua vida e no desenvolvimento de seu destino. A realidade não é nunca uma abstração de caráter geral. Em compensação, o fenômeno é "verdadeiro", ou melhor, existiu e foi vivido. É um fato concreto. Mesmo quando se apresente como um fato "pessoal", pode interessar, como acontecimento susceptível de investigação, a uma determinada ordem de pessoas, podendo-se deduzir do mesmo conseqüência e conclusões de ordem geral.

Do relativo ao particular podemos alcançar a melhor compreensão das leis universais que tudo regem, pois sempre as veremos resplandecer ainda que sejam nas menores experiências espirituais do mais obscuro entre os homens.

Este prólogo era necessário para explicar que, ao desejar relatar aqui experiências de ordem espiritual, não posso falar com a certeza de quem viu e provou a não ser as minhas experiências pessoais. Trata-se de um caso "vivido" que pode tornar-se extensivo a casos parecidos e afins. O leitor tratará de encontrar nele algo de sua personalidade e compará-lo com as suas próprias realizações espirituais. Poder-se-á, por último, inferir do mesmo uma dedução importante, ou seja, que as coisas mais simples da vida podem assumir um aspecto distinto e um significado muito maior, observadas em profundidade, relacionando-as com os infinitos elementos de que se compõe a. vida do espírito, imensamente mais vasta.

Vejamos o fato, nada importante, por certo, se considerado superficial e exteriormente, como em geral se observam as coisas, mas de grande valor se analisado interiormente, tal como eu o vi, e como agora passo a expô-lo.

Aos 43 anos de idade5, eu compilava, por fim, como último termo e fecho de um largo período de árdua investigação, a “minha” síntese da vida, a “minha” visão universal, que me brindava com a solução dos grandes problemas filosóficos e com a paz. Tinha de buscar e encontrar a minha verdade, conquistar a minha fé. Sintetizei-a rapidamente num artigo. Era a minha premissa inicial inaceitável para mim sem um conceito, sem um ideal, sem materialização em instintos, interesses, prazeres e ilusões, como o é para muita gente. Para concluir com conhecimento, devia primeiramente investigar e saber tudo e assim o fiz. Foram vinte anos de estudo e de lutas, especialmente de luta e de dor, pois tão-somente a luta e a dor nos proporcionam uma síntese completa. Fruto da vida, nela me reintegrava para viver. Não era uma abstrata construção ideológica. Eu nada havia perdido do juvenil "instante fugitivo" ansiado vãmente por todos os humanos. Nunca tive que me afligir, porquanto aí, onde muitos encontram, na sua madureza, na culminação das realizações sonhadas, no fundo das coisas, a sensação de transitoriedade do resultado e a presunção do esforço, eu, em troca, havia descoberto uma vida que não teme a morte e acumulado valores imperecíveis que nenhum ato de vontade humana e adversidade alguma jamais me poderiam arrebatar.

Uma das conclusões deduzidas dos princípios por mim identificados, a que mais imediatamente correspondia á realidade da vida, era a que o homem que desejasse viver segundo a justiça não podia viver senão do seu próprio trabalho. Este era o meu dever. Na fase de atuação prática, sucessiva à da investigação, surgia bem nítida a impossibilidade de usufruir os bens hereditários para as necessidades da vida, mesmo quando reduzidas às mais indispensáveis, a fim de deixar o maior lugar possível as necessidades do espírito. Aos trabalhos de ordem espiritual, ignorados pela maioria, que justificavam em mim esta satisfação, tinha que acrescentar os que demandavam a necessidade de ganhar a vida, e buscar os meios. Não era loucura. São Francisco tinha ido muito mais além, levando as coisas ao extremo de reduzir-se a mais completa pobreza.

Eu queria demonstrar-me que esta concepção, considerada pelo nosso mundo moderno como absolutamente utópica e irrealizável, era possível pô-la em pratica, pelo menos em parte.

Como Zaratustra, eu baixava do Olimpo dos meus estudos. Seria possível enxertar um ser absolutamente "self-made"6, ausente da vida concebida pelo mundo, dotado de muitas preciosas qualidades mas praticamente inúteis por não serem comerciais nem lucrativas, seria possível enxertá-lo, dizia, na férrea engrenagem econômica da vida moderna? O problema pode ser exposto em termos mais vastos. Que possibilidades sociais oferece hoje a humanidade civil a um intelectual puro, conhecedor tão-somente dos problemas espirituais, armado para a tremenda luta pela vida somente de bondade e de justiça, ou seja, completamente desarmado por estas?

Nenhuma possibilidade. Eis a resposta.

Suas concepções projetam-se séculos além da psicologia atual, para poder estar em contato com a mesma. A sua hipersensibilidade redunda toda ela em prejuízo. A sociedade moderna somente admite a quem saiba ser uma roda da máquina coletiva. Expulsa do seu seio, colocando-o a margem, junto com os enfermos, os idiotas e os anormais, todo aquele que não dê um rendimento concreto e imediato. A sociedade exige a normalidade; equipara a exceção destoante à insuficiência evolutiva Vive do presente e os valores de rendimento distante escapam à  sua orientação psicológica.

Há indivíduos cujo ambiente espiritual é o supranormal, cuja atividade se dirige para o inexplorado e que sentem estar no mundo somente de passagem para realizar ideais que quase não interessam a ninguém. Percebendo uma vida muito mais vasta, não podem absolutamente tomar a sério os instintos, os interesses e as paixões que hoje agitam o mundo. Hipersensitivos que não vivem de cálculos e de raciocínios, mas de intuição, contendo em si todos os extremos de luz e de trevas, nos quais sofrem e ardem de uma febre de criação contínua, não fazem cálculos e nem tiram proveito de seu próprio trabalho. Estes desafortunados pioneiros de um mundo futuro estão vergados sob o peso de um ideal, sustentam sozinhos, sem que ninguém lhes enxugue uma lágrima, todo o trabalho da semeadura, e passam incompreendidos, presos à  visão interna que os espicaça inexoravelmente, que lhes absorve todas as suas energias, tirando-lhes toda recompensa material. Estes desterrados, aos quais cabe na vida missão muito diferente da do homem-máquina, estes, a sociedade os põe à margem!

Não são admitidos, como pretenderia a atual sociedade humana, mas ela não é tudo.

O que é esta pequena psicologia humana diante das forças imensas do Universo? Sem que o saiba, é a estas forças que obedece a psique coletiva. O empuxo mais ativo, o que determina os acontecimentos humanos, deriva sempre dos imponderáveis. Estes nascem e desaparecem, não se sabe como  É um erro grave dos assim chamados homens de ação o desconhecimento das forças invisíveis e imponderáveis da vida, das quais estão dependentes. Nosso mundo percebe somente as causas próximas; mas as crises e os revezes nascem de causas remotíssimas que correspondem a um maravilhoso mecanismo de leis, ainda ignoradas e não tidas em conta pelo homem. É pueril acreditar na possibilidade de uma preparação imediata e próxima dos sucessos, quer sejam coletivos, quer individuais. Tudo responde a uma lei, a um equilíbrio, a uma justiça. O destino de todas as coisas segue um caminho lógico que não é possível improvisar.

Eis aqui, pois, como este tipo de homem também pode entrar em combinação com o mundo humano, não porque este o admita, mas pela imposição de uma força superior. Aqui intervém um fator novo. O homem verdadeiramente justo e honradamente espiritual, qualquer que seja a sua fé, dispõe para a sua ajuda de forças muito poderosas que pertencem ao mundo invisível, e que invisivelmente penetram e governam tudo. Estas forças podem realizar o milagre de fazer vitoriosa uma vida que é baseada também sobre a luta; mas luta que se utiliza das energias dos indivíduos que não agem humanamente, pois tais energias possuem outro endereço. Tal é o homem justo. Para ele não existem margens, nem atalhos. Estaria destinado freqüentemente ao fracasso, se aquelas forças não interviessem em seu auxílio.

Não há de interessar ao leitor conhecer qual tenha sido a forma exterior da luta sustentada por mim através desse mecânico atarefar-se do corpo e da mente, que hoje se chama “trabalho”. Preferirá conhecer minha visão interna, a observação do fenômeno realizada por mim sob ponto de vista bastante insólito, situado nas profundidades do meu eu e que penetra as profundidades das coisas. Interessa-lhe o testemunho, que aqui lhe outorgo, da contínua sensação por mim experimentada acerca da presença dessa força e a maneira como ela incessantemente me guiou; a visão claramente percebida da ação desta grande lei de equilíbrio e de justiça, que nunca se me havia manifestado mais patente, que nunca se me afigurara de tamanha missão interventora. O resultado tangível foi, para mim, uma posição econômica conquistada em breve tempo, depois de vencer á grandes dificuldades com meios absolutamente inadequados para a luta. Mas, a imprevisível e de todo inesperada sucessão de acontecimentos tendentes em massa para o resultado obtido, poderia ser um simples caso fortuito. O que me surpreendeu, e não se pode chamar acaso, foram as previsões realizadas, a estrada que me foi constantemente assinalada sob a forma de inspiração e que me orientou no caminho a seguir. A lei que, na ação, se converte em força (aquilo que comumente se chama Deus, Divina Providência etc.), assumia no meu caso a forma de personalidade, ou seja de consciência inteligente e volitiva. Eu percebia a aproximação da mesma, graças a uma espécie de tato psíquico ou espiritual, e sentia a sua presença, não mais ao lado, mas dentro da minha consciência. Nascia em mim a idéia que devia desenvolver — a inspiração. Essa personalidade me fazia companhia, dava-me valor, muito mais do que qualquer amigo ou pessoa querida deste mundo, com a qual a união espiritual nunca é completa, enquanto que a nossa fusão era íntima e perfeita. Nos momentos decisivos, quando urgiam a ação e a decisão, essa personalidade agia e falava por mim que, abatido e desalentado, comportava-me como um autômato.. Manifestou-se- me, por último, em forma.. de uma voz interior que eu escutava incessantemente e com a qual sustentava colóquios e discussões, uma vez que sempre desejei discutir racionalmente todo ato,. sem jamais me abandonar ao fanatismo. Eu discutia. E quando me recusava a obedecer, porque a razão e o bom-senso assim me aconselhavam, então a voz se tornava mais límpida e forte. O conselho se convertia em ordem, a ponto de não me deixar em paz até obedecê-la. Em seguida, os acontecimentos imprevisíveis davam-lhe razão. Como sensação, não era uma voz sonora que impressionasse o ouvido por meio de ondas acústicas, mas voz de pensamento que chega ao espírito por meio de ondas psíquicas. Estas sensações da alma não se percebem segundo nossos sentidos corporais, mas se manifestam numa só palavra: sentir. Como conteúdo, dizia-me: "Atenção Dentro de um ano ocorrerá isto; nesta data te encontrarás em tal situação". Para aquele que, como eu, viu logo realizar-se tudo aquilo que, algumas vezes, parecia impossível como um sonho, este pressentimento do futuro não deixa de ser impressionante. Para os demais, não posso oferecer outra prova que a sinceridade de minhas palavras, a ausência em mim de qualquer outro fim fora da investigação desinteressada e o objetivo de fazer, possivelmente, o bem. A minha própria convicção transluz na franqueza com que redijo este escrito. Ofereço a todos o que prometi: observar a fenômeno refletido na minha consciência.

Examinemos juntos, com a maior intimidade, as características destas manifestações.

Aquela força, concretizada sob a forma de uma personalidade, exteriorizava-se e interferia tão-somente quando urgia uma necessidade suprema e uma finalidade de bem. Portanto, nada de supérfluo ou superficial ou por simples curiosidade de experimentação. Manifestava-se e intervinha em circunstâncias graves na urgência imperiosa, na extrema necessidade. Somente então intervinha, deixando-me, para o demais, livre com as minhas abundantes forças humanas. Devia encontrar-me em perigosa encruzilhada do meu destino; teriam que se decidir, através das minhas pequenas vicissitudes humanas, acontecimentos importantes, concernentes à minha vida maior, (como a temos todos), na eternidade. Era preciso o perigo que, por minha ignorância e debilidade, pudesse comprometer meu futuro nos séculos. Então, na luta titânica entre o bem e o mal, aquela força intervinha para restabelecer o equilíbrio. Nestes momentos de perigo, em que a luta, por ser superior às minhas forças, ameaça esmagar-me, sou libertado delas, e como todos, devo carrear a minha carga de deveres com a mais completa responsabilidade.

Essas forças somente se me manifestaram com finalidades para o bem. A sua intervenção tendeu sempre à prática do bem. Fazem-me o bem e impõem-me, por sua vez, o mesmo procedimento.

Onde existe o mal, ela jamais se encontrará; e quem obra o mal nunca a conhecerá, nem a possuirá.

Por estas características, que a convertem em algo estreitamente inerente à vida e suas contingências, vemos que esta força desaparece, e é, desta maneira, impossível observá-la quando nos aproximamos dela com a mentalidade imbuída de puro cientificismo, ou pior ainda, com a curiosidade do "diletantismo". Estes fenômenos são novos; é necessária uma nova ciência que inclua, entre os elementos que geram o fenômeno a observar-se, um fator que hoje e incrível: nada menos do que a pureza de intenções e a elevação moral do investigador. Se essa força se nega a manifestar-se com o objetivo único de experimentação, a não ser nos grandes momentos críticos de algumas vidas, infere-se que resulta ser quase impossível observá-la à vontade. Não se pode prefixar, artificialmente, o fenômeno, nas investigações científicas. Trata-se, portanto, de fenômenos susceptíveis de observação, quando se produzem espontaneamente; mas não susceptíveis de experimentação.

A manifestação dessa força corresponde, pois,. a um princípio de necessidade; logo, a um princípio de bem. Observemos agora a sua maneira de se conduzir.

A sensação de sua presença nem sempre era nítida em mim. O atordoamento do organismo, a percepção mais viva das coisas mais próximas e imediatas, a preocupação do meu espírito que tomava parte ativa no esforço da luta, tirando-me a tranqüilidade, perturbavam as faculdades receptivas do meu ser, impedindo-me freqüentemente de sentir. Então, aos períodos de luz de uma alegria extraordinária, à sensação de força e expansão que me infundia essa nova faculdade sensorial do meu espirito, seguiam-se períodos de ofuscamento, de solidão desconsolada e de abandono às minhas paupérrimas forças humanas, das quais sempre duvidei muito. Naquela ocasião, tudo parecia destruir-se, como se meu espírito não resistisse amplamente ou não pudesse, senão por momentos, manter-se naquele estado de sensibilidade especial. A força, entretanto, não se afastava de mim, pois antes que volvesse a senti-la diretamente, eu percebia a sua presença nos efeitos da sua obra, num acontecimento predisposto, num problema inesperadamente resolvido, numa dificuldade repentinamente vencida, num fato que advogava a meu favor. Em seguida, a voz voltava, às vezes confundida com outras parecidas, que fingiam aconselhar-me, mas que eram frívolas, falsas e malvadas. Desmascaradas por isto, fugiam logo. Somente o bem atrai a voz verdadeira. O bem é necessário à minha consciência, para que esta não perca a sua limpidez, como um estado habitual, uma capacidade de sutis vibrações, indispensáveis para perceber estas coisas. Essa força me deixava sozinho por momentos, não por minha culpa ou incapacidade, mas porque a sua intervenção devia limitar-se às ocasiões necessárias. Nunca representou para mim uma ajuda supérflua ou um convite à indolência, e sempre cuidou de nada fazer por mim, se eu podia fazê-lo com minhas próprias forças.

Algumas vezes permaneci como que perdido, sujeito às forças inimigas que pareciam satisfeitas em destruir. Por que essa força que queria salvar-me, conforme me havia assegurado, me abandonava? E por que a sentia então dentro de meu ser dizendo-me: "Oh! homem de pouca fé!"? E por que, durante toda a minha vida, tão pronto o perigo era realmente grave e minha barca parecia a ponto de se afundar, aquela força voltava e, como por encanto, a tempestade se acalmava?

Que são, pois, estes tremendos dramas interiores, turbilhões de sensações extremamente invisíveis, estas angústias e estes triunfos no mundo do supra-sensível? E o que desejava de mim essa força?

Desejava não somente o êxito daquele determinado acontecimento, mas, e principalmente, meu esforço, meu esforço todo. Desejava que me acostumasse a dar todo o meu quinhão, tão necessário para temperar meu espírito, plasmá-lo em qualidades mais elevadas, indispensáveis à minha ascensão. Impunha-me luta contínua, sem possibilidades de descanso ou triunfos imerecidos. Eis aqui a vida concebida como uma série de provas, irreais no mundo exterior, reduzido a um cenário em contínua mutação, mas reais no espírito, onde se gravam eternamente em formas de novas qualidades. Provas que passam, investindo terrivelmente como um furacão, mas que desaparecem espontaneamente tão logo as tenhamos vencido. O segredo está todo em não recusá-las, mas aceitá-las, tratando de aproveitá-las para o nosso progresso espiritual.

Que concepção nova da vida nos proporcionam estas observações, e como se modificam radicalmente as nossas mais costumeiras apreciações das coisas! A própria luta que se encontra em todos os setores e é a nota dominante da vida humana, sofre uma revolução. Freqüentemente ela nos torna malvados, armando-nos uns contra os outros, como lobos famintos, e oprime-nos como maldição. Quando concebermos a vida, fora dos estreitos limites do mundo humano e das nossas realizações humanas, pueris e ferozes, como criações que desafiem o tempo, então as nossas perspectivas serão mais vastas, e, para alcançá-las não será necessário que apelemos para todos os mesquinhos meios da agressividade e da traição, dos quais o homem lança mão para assegurar o prazer de um dia. Poderemos viver e vencer sem lutar em teor tão baixo, agindo de comum acordo com a grande lei de justiça no caminho do triunfo.

Sei bem que é difícil aceitar uma luta tão áspera. A lei pode parecer, no princípio, um peso oneroso, mas logo será uma força imensa à nossa disposição. A lei de justiça nos ata as mãos, impondo-nos comedimento na vitória, manutenção em equilíbrio constante, que não devemos alterar, animados pela vantagem imediata, mas fazer sempre o melhor uso possível das nossas forças. É uma atadura, uma passividade, Por isso o homem justo, que jamais agride ou atraiçoa, aparece em nosso mundo como um ingênuo, um inerme, destinado a ser rapidamente vencido. O justo é um desarmado, enquanto que o forte sem escrúpulos, aguerrido e agressivo, chega mais rapidamente à meta. Mas este, por abusar da sua liberdade, tende continuamente a ultrapassar os limites da grande lei de equilíbrio; mesmo quando goze das vantagens imediatas está usurpando, porque lança mão, antecipadamente, de seu futuro. Os adiantamentos somam-se no Deve que cada dia vai aumentando, mas que inexoravelmente terá que ser saldado. Ante a lei de justiça, o mal é um peso moral que gravita sobre a personalidade, dificultando a ascensão do espírito para o Alto, onde se encontram a libertação e a paz. Em compensação, o justo sustenta, tolera, sofre. Praticando o bem todos os dias, vai acumulando em seu Haver, atraindo para si as forças do bem que irresistivelmente o elevarão, assim como retrogradará aquele que é dominado pelo mal. Por uma lei inviolável e fatal, o bem recai sempre como chuva de bênçãos sobre aquele que o praticou, enquanto que o mal cai sobre o seu autor como chuva de maldições. São créditos e débitos que a grande lei de justiça, que é Deus, não pode deixar de conferir. E deve fazê-lo para não se contradizer a si mesma: não violar o equilíbrio que é a sua essência, nem desviar a corrente, de acordo com a qual, todo o Universo se move. "Humilha-te e serás exaltado". "Os primeiros serão os últimos". Cristo mesmo enunciou a lei de equilíbrio. Praticai o bem! Isto será o único seguro, a melhor inversão dos nossos capitais humanos. A força tremenda do justo inofensivo será somente esta, a sua justiça. Sutil na sua elevadíssima potencialidade, que esmagará um Napoleão e fará de Cristo um deus nos séculos. Esta é a força que pode realizar o inacreditável, o absurdo social, em nosso mundo de violências e abusos, ou melhor, que vencerá aquele que não luta no sentido humano. Esta é a força que nos pode auxiliar a realizar o milagre da supressão da luta brutal, ou seja o milagre do superamento da animalidade, o milagre da redenção. Se o homem pudesse compreender que peso tremendo exercem sobre a realização dos acontecimentos humanos estes impulsos que vêm do invisível, ao que em geral não leva em conta, por certo tremeria. Impulsos invisíveis, mas tão poderosos que, irresistivelmente, dobram indivíduos e forçam acontecimentos. Podem penetrar, porque são invisíveis; fazem curvar, como se fossem palhas, os chamados "fortes" da vida.

De tudo isto podemos obter esta importante conclusão: a luta pela vida, na forma brutal usada pela sociedade civil moderna, não é de nenhum modo uma lei inflexível da natureza. As guerras, as rivalidades comerciais, a competição individual e coletiva de todas as espécies não são mais do que a conseqüência da baixa lei animal, preferida sempre pelo homem, dada a sua psicologia.

Não é certo seja necessário que toda a coletividade compreenda e siga uma lei mais elevada para que resulte possível a cada indivíduo realizá-la. A lei sempre existirá, e mesmo quando apenas um a siga, ela está sempre pronta a se lhe manifestar, ainda que toda a humanidade a ignore.

A observação destas minhas experiências espirituais proporciona-me outra consideração. Quando penso de que intrincadas séries de fatos, contingências e fatores os mais imprevisíveis e imponderáveis, como são os psíquicos, surge um acontecimento humano, não posso crer que a nossa vontade, por mais forte que seja, nem que a nossa inteligência, mesmo quando agudíssima, possam ter uma participação preponderante e decisiva em sua preparação. Não! Nos sucessos humanos, em todas as contingências da vida, existe um imenso  “imponderável” que cobre três quartas partes do problema e que se nos escapa quase por completo. E este “imponderável” não é o acaso e nem o caos, nem a desordem, mas um novo e mais profundo equilíbrio que eu percebo e que possui suas nascentes distantes na estrutura do nosso próprio destino, tal como nós o forjamos com as nossas obras. É este o maior drama que vi através desta minha última experiência espiritual. Esta a visão que se me revelou durante a minha luta. Minha vida — um momento do meu destino — é consciente em relação com a eternidade em que estou vivendo, dando-me conta de todo o seu significado. Das minhas observações não se deduz a importância do meu destino, mas a possibilidade, por mim entrevista, de contemplar a estrutura de qualquer destino no tempo, ou seja, de prever o futuro.

Quando digo "prever o futuro", refiro-me não a um futuro genérico ou universal, mas ao de um caso determinado, de uma determinada vida ou destino. Estou convencido de que um universo onde tudo é lei, equilíbrio e ordem, e onde cada fenômeno se desenvolve de. acordo com uma proporção exata de causas e efeitos, e nada acontece por acaso, tão pouco o destino humano pode estar sujeito à sorte, mas a uma férrea e matemática concatenação de ações e reações, em equilíbrios constante. O fenômeno da vida, com todas as suas alternativas materiais ou espirituais, se desloca sempre, avança, mas mantendo-se em equilíbrio. Nestas condições, o que não ocorre por uma casualidade, mas de acordo com uma lei,. pode ser previsto quando se conhece essa lei. O destino está todo contido, tal como o é, no presente, no passado e no futuro; está contido, embrionariamente no estado de causa — no presente. Se soubéssemos observá-lo bem, poderíamos ler neste, rapidamente, todos os elementos de seu próximo desenvolvimento. É aqui, aliás, onde reside a dificuldade. Quem se conhece a si mesmo? Para um estranho resultará muito mais difícil penetrar, de fora, nas profundezas desse "si mesmo". Quem conhece a lei do próprio destino, ou seja a sua natureza, a sua tendência dominante, o seu tipo? Cada homem traz consigo, com determinado modelo de personalidade, e uma dada espécie de destino, a tendência para certas provas, perigos, triunfos, alegrias e dores. Mas ignora facilmente tudo quanto para o seu próximo vai cooperar em torturantes problemas. Para conhecer tudo isto, seria necessário tomar em consideração outras causas que hoje o homem, a sua ciência e as religiões ignoram. Como seria possível, conhecer tudo isso, num mundo onde os problemas da personalidade humana apenas começam a ser estudados, onde muitos crêem que a vida termina com a morte física, e muitíssimos ignoram que, antes de seu nascimento físico, tiveram um passado que é justamente o que devem recordar e meditar pois encerra a chave do presente e do futuro? Somente quando tenhamos sob as nossas vistas uma parte considerável da nossa vida maior e pretérita, que se perde na eternidade, tomaremos posse dos elementos que predeterminarão o futuro. Eu o digo a todos, impulsionado pela voz interior da qual vos falei, que estes são os únicos e os verdadeiros problemas do futuro, aqueles aos quais se dirigirá a mente humana nos próximos séculos, e cuja solução redundará no real e no mais autêntico progresso. Muitas outras coisas, que parecem mais importantes, não o são, na realidade. Todos gozamos ou sofremos, felizes ou desgraçados, sem saber por quê. Opomos à  dor reações inconscientes. Somos uns pobres míopes, já que nada vemos além da morte, e semeamos a esmo o bem e o mal. No passado eterno, que ignoramos, demoram as causas do presente. Nossos próprios atos semearam as dores que sofremos Pelo bem que praticamos seremos recompensados. Construímos no passado, livres e responsáveis, a nossa personalidade atual, como seus instintos, tendências, aspirações boas ou más. Assim como o caracol constrói a sua carapaça, nós nos construímos um determinado tipo de destino que se nos adere como vestimenta. Este é o “fado”, nosso fado particular, invencível, tirânico. No lento transcurso dos séculos, repetimos os nossos atos, assimilam-lhes as conseqüências, até que se tornam irresistíveis e fatais. Foram obra nossa; com justiça gravitam hoje em torno de nós mesmos. Nossa obra hoje é lei de divina justiça e não pode ser modificada. Contrastando com o campo de determinismo absoluto criado pela trajetória percorrida e por todos os atos do passado, estão o nosso presente e o nosso futuro — um campo de livre arbítrio absoluto — em que a vontade age, em que é possível a correção contínua, um endireitamento de rota no sentido que livremente desejemos. Da ação combinada de todos os nossos atos do passado, já fixados em nós, e desta contínua retificação que nos é possível fazer, resulta o futuro, e o nosso futuro que é, deste modo, constituído por dois elementos: um fixo, já cristalizado, e outro móvel, devido á nossa vontade que continuamente se sobrepõe àquele, modificando-o. Da influência recíproca destas duas forças, uma passiva e outra ativa, resulta a trajetória do futuro, o qual, desta maneira, pode ser conhecido, devido também ao fato de que, em parte, poderemos querê-lo e criá-lo.

Porém, quem se rege hoje por esta ordem de idéias? Para poder efetuar investigações introspectivas tão profundas, é necessário uma grande limpidez de espírito e um poder muito forte de visão interior. É mister mover-se numa atmosfera espiritual elevada, ser iluminado por uma luz interior, que se não pode improvisar, nem explicar ou ensinar, porquanto somente a compreende quem a possui. É preciso uma contínua retidão na prática e pureza de consciência, já que somente neste estado os órgãos da percepção anímica se afinam até alcançar a sutileza e a sensibilidade necessárias para perceber certas delicadas sensações interiores. Tesouros imensos, revelações inauditas, faculdades grandiosas encontram-se em nosso espírito. Nada, entretanto, é tão pouco apropriado para no-los mostrar como os sistemas turbulentos, prepotentes e materiais da nossa moderna civilização. Certos fenômenos não se dominam mediante hipóteses engenhosas, habilidades cerebrais, força da mente. Freqüentemente o mistério não abre as suas portas a não ser àquele que humilde e profundamente ama, mas ama no sentido mais alto e espiritual.

Conclusão. Com este escrito deixo o meu testemunho. Tive que obedecer à minha voz interior, sob cujo ditado escrevi, rapidamente, sem refletir, a ponto de que não sei se me compete referendar este artigo com a minha assinatura.

Torno a afirmar a objetividade das minhas observações, a sinceridade das minhas palavras. Sempre concebi a vida como uma experiência espiritual que tende a uma conquista moral. Este conceito, levado agora ao mundo prático da luta pela vida, proporciona-me ótimos resultados. Estas experiências espirituais, que acabo de expor, reafirmaram a minha fé. Sinto que somente as almas puras e justas, onde quer que se encontrem no mundo, poderão compreender-me. A elas, o convite para ensaiar estas maravilhosas experiências espirituais que comprovam o triunfo do bem. Para elas, o augúrio que o seu destino contenha, pelas forças do passado, as mesmas forças que devem elevá-las cada vez mais. Para elas o meu cumprimento fraternal e o voto de que a aquiescência que nelas possa suscitar a palavra de fé que me anima, resulte-lhes em consolo e ajuda no terrível momento da luta e da dor que a todos igualmente nos espera.
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5 - Em 1929
6 - "self-made man" - expressão Inglesa que designa aquele que se fez por si mesmo, pessoa que alcançou determinada posição pelo próprio esforço. (N. do T.)

Delineamos, na primeira parte deste estudo, a existência de uma evolução espiritual, que se manifesta especialmente no atual momento histórico, como resultado de dois fenômenos; a madureza psíquica do organismo humano que conduz à superação da animalidade, a transformação biológica do homem em super-homem; a maturidade do pensamento coletivo da humanidade, que ascende, através da evolução das religiões, para uma consciência universal

Duas madurezas: madureza de órgãos psíquicos, que determina a capacidade de concepções, e madureza de produtos conceptuais do pensamento coletivo Duas madurezas que se pressupõem reciprocamente, se ajustam e se sustêm mutuamente para levantar a humanidade ao plano da linha de evolução espiritual, conduzindo-a a um estado de consciência nova e mais elevada. Na terceira e última parte deste escrito veremos qual é esta consciência. Antes de chegar a este ponto, observemos, nesta segunda parte, quais são os caminhos que conduzem à  realização da evolução espiritual.

Denominei-os, ex-professo4, “caminho da libertação”, para indicar de quantas qualidades humanas e subumanas devemos — como almas em expiação libertar-nos antes de alcançarmos o reino do super-homem. Grandiosa ascensão humana que, partindo do inferno da animalidade (o mundo da besta), atravessa o purgatório da dor que redime (o mundo humano), para chegar ao paraíso da realização do divino (o mundo super-humano). A lembrança da trilogia dantesca e da fé — que não pertence somente ao Poeta, mas a toda a Idade Média e à maior religião do Ocidente — na ascensão espiritual — nos fará uma boa companhia neste estudo que pretende ser uma demonstração racional do espiritualismo. Demonstração daquela mesma fé, porém de acordo com os conceitos da ciência e da psicologia modernas; uma solidificação dos fundamentos desta eterna e imprecisa aspiração da alma para o Alto, batendo-a sobre a bigorna da observação objetiva; elevação, ao mesmo tempo, do materialismo para o espiritualismo, continuando e completando o primeiro, justificando racionalmente o segundo. Não mais ecletismo, mas fusão entre estes dois extremos do pensamento humano, inconciliáveis tão-somente na aparência e transitoriamente; e, mais do que fusão, fecundação, já que de sua união nasce uma criatura nova, um espiritualismo científico, que é a verdade mais completa do futuro. Não sendo materialismo e nem espiritualismo, os partidários de ambas as escolas ficarão insatisfeitos, porém não importa. Entretanto, projeta-se uma luz nova sobre os eternos problemas, agrega-se algo às filosofias do passado. Uma fé viva, que não está fossilizada nas mentiras convencionais a que hoje ficaram reduzidas as mais altas idealidades, uma fé mais próxima da nova psicologia dos tempos, exerce forte pressão, e aquele que — como eu — possui uma fé, é mister que dê o testemunho da mesma.

Volvamos aos conceitos com que iniciamos este estudo, e que deixamos no meio da primeira parte para estudar a evolução das religiões. A minha insistência sobre esta ordem de idéias poderia fazer-me taxar de materialista. Fi-lo assim deliberadamente, entretanto, porque o julguei necessário para lançar bases mais sólidas ao edifício do espírito, e, dai, libertar-me num impetuoso vôo para as mais altas ascensões humanas.

Delinearei, desta maneira, novos aspectos da evolução espiritual.

Existe na Terra  sem ir buscá-lo em outras partes — um inferno constituído pelo mundo animal e subumano no qual tomam parte a besta, o homem de raça inferior e amiúde também o chamado civilizado. Este mundo possui a sua lei e os instintos ferozes destes seres são os artigos escritos nas formas de vida daquela lei. Aí reina, como valor supremo, a força. Cada ser é uma arma, um assalto contínuo, ameaça incessante para todos os demais seres. Cada vida não pode aí existir se não se impõe a todas as demais pela força, como uma extorsão. O indivíduo, para afirmar-se, deve semear a destruição ao seu redor. Para viver, deve matar. Resulta disso um estado de agressividade e violência, de incerteza e de luta sem descanso. a fase involuída na história da vida, na qual as distintas formas, todavia, não se organizaram em simbiose, e lançam-se desordenadamente à conquista do predomínio. Se o homem mesmo, desde há muito tempo, empreendeu esta luta, vencendo-a, como vencedor, corresponde-lhe organizar em nosso planeta uma forma de vida diferente, sobre a base de coordenação e não de agressão. Contudo, é muito recente a recordação e ainda muito fortes os baixos instintos, de modo que ele vive, geralmente, naquele mundo selvagem que desejaria apagar. Submerso em seu próprio egoísmo, não enxerga mais além do que o espaço que ocupa e sua miopia psíquica o faz crer possível a separação do bem-estar próprio do bem-estar coletivo. Tão-somente o interesse desperte seu desejo, dispõe-se à ação; a miragem do lucro o impulsiona, lançando-o à conquista. Deste modo ele projeta, ensaia, exercita e tempera suas forças, progredindo, se vence, e sucumbindo, se perde. E o sistema da seleção que premia o mais forte, graduando a recompensa em proporção à  força. Existe uma justiça também nos mundos inferiores e, mesmo quando seja por meios ferozes, dignos por certo de quem os escolhe — também os ínfimos podem realizar um progresso.

Há, pois, uma lei, e nesta lei uma série de princípios: da involução deriva a ignorância,  desta o egoísmo;  do egoísmo, o sistema da força; desta a seleção e o progresso de um lado, e o mal e a dor, do outro.

Este mundo de leis naturais não conhece a justiça, que é conceito novo de um mundo mais elevado. A força, defronte à lei moral, é violação e injustiça. Entretanto, esta injustiça que parece não possuir limites  porquanto a força pode tudo e tudo poderia destruir e usurpar, impondo-se desmedidamente — tem um freio em sua mesma lei: a força que se desencadeia dos egoísmos limítrofes, uma tentativa de equilíbrio, um rudimento de justiça que — mesmo tomando por unidade de medida a injustiça da força — garante a cada ser o que lhe corresponde, e através do equilíbrio de tantas injustiças, consegue uma espécie de justiça primitiva, o máximo que é possível conceber naquele nível de vida.

Poderá parecer difícil o perguntar-se como num mundo — no qual o devorar-se reciprocamente é uma necessidade primordialmente orgânica, e os vários graus de evolução uma necessidade lógica — como conseguiu — dizíamos — nascer e afirmar-se o conceito de altruísmo, bondade e justiça, tão prejudicial para o eu, tão antivital, porquanto se estriba no abandono de todas as ofensas e defesas. Um conceito de vida que revoluciona todos valores anteriores, e que significa uma negação tão completa de tudo quanto pode ardentemente apetecer a natureza. O que este conceito representa na economia. da vida até pareceria absurdo.

Há um meio-termo — o reinado do Direito — onde se acha a verdade. Em seu nome, alguns homens se atreveram a rebelar-se contra tudo o que signifique vida em nosso planeta, vivendo fora das leis da animalidade, sem sucumbir mesmo quando se haviam despojado das armas de ataque e defesa, antes triunfando, já que eles foram gênios e santos. Qual era, pois, essa força que os sustentava? Existe, então, uma ainda mais sutil e mais potente, uma força mais "forte" do que aquela indispensável para a vida, capaz de impor-se a todos, mesmo renunciando à luta?

Normalmente, de acordo com a lei da força que domina a Terra, o sistema de altruísmo, bondade e justiça vale menos do que um escrúpulo inútil. É verdadeira passividade, é gravame que trava, e — pior ainda — é sinal de debilidade que preludia a derrota. Aquele que renuncia agredir e defender-se, aquele que oferece a outra face as ofensas — como quer o Evangelho — aquele que se recusa a afundar suas garras na carne alheia para alcançar uma vantagem e, por princípio, não quer obter pela força todos os infinitos prazeres da vida, é derrotado, reduzindo-se a uma existência de dor por expansão ilimitada, é um vencido à margem da lei, um desterrado do mundo, uma nulidade que se destrói. Aquele que segue os ideais superiores, observado pelo reino da força e com a psicologia da força, parece inerme, indefeso, ridículo Aquela o assalta facilmente, aniquila-o sem esforço, quase por gracejo. E, entretanto, o vencedor, nesse mesmo instante, assim como os que crucificaram Cristo, sente naquela derrota, naquela debilidade, o mistério de uma  força maior, que surge de longe como um estrondo de trovão, despertando um eco terrível nas profundidades do espírito. Um relâmpago arroja um facho de luz em sua alma cheia de trevas, revelando o ignoto, e ele pressente a realização de vidas mais vastas, intui o que é justo. Assim, o vencedor, no mesmo instante de sua vitória, experimenta a sensação da derrota. Então, num calafrio de espanto, treme e foge, ou melhor, permanece e venera. O vencido olha do alto como um vencedor, e tal o é, pois descobriu e revelou uma forma de vida mais elevada e nela triunfa.

As forças naturais emudecem, desconcertadas, ante este estranho ser sem armas, que proclama uma assombrosa lei nova e parece pertencer a outro mundo. Qual é esta força, tão inexorável, esta nova lei ante a qual o mundo natural treme e se dobra? Existem, por acaso, dois sistemas de vida possíveis, duas leis, dois mundos, próximos e em luta, entre os quais oscila a vida do homem?

O querer concluir desconhecendo a importância da força na economia da vida seria, quando menos, apressado. Foi a força bruta quem realizou e segue realizando a seleção no reino animal. Este é também um modo de progredir, um tipo de técnica evolutiva, mesmo quando implique a gênese da dor, um aspecto da grande lei de ascensão, se bem que nos graus mais baixos. A justiça divina — equilíbrio universal — também se manifesta nela, já que no choque de forças inimigas em processo de contínua agressão, a ação e a reação se neutralizam. O desequilíbrio do pormenor se equilibra no conjunto e de uma soma de injustiças resulta — como dissemos antes —  uma primeira forma de justiça. Nele a força encontra dentro de si mesma uma primeira limitação. Ademais, foi a força bruta que cumpriu a grande função, na história do homem, de levá-lo a afirmar-se como primeiro campeão do reino animal. Foi a prepotência — carência de escrúpulos e de piedade — que criou os povos dominadores e vitoriosos. A força, pelo menos nas circunstâncias em que se encontravam em seu primeiro período de desenvolvimento, era-lhes necessária, e, muito, sem dúvida, criou. Observamo-lo na antiga Roma e na América de nossos dias, seleção dos indivíduos mais ousados, mesmo quando menos escrupulosos, mais ricos de energias ativas e construtivas do que da perfeição moral tão ambicionada pelas velhas civilizações. Porém, se a força criou muito, também destruiu muito, e um mundo que se fundasse somente na força, acabaria por se destruir a si mesmo. Junto a todo vencedor há sempre um vencido que lembra, melhor do que aquele, esta destruição. Todas as experiências da vida se gravam na alma humana. As impressões volvem na raça, o instinto recorda, formando-se, assim, a par com o sentimento de admiração e respeito pela força, também um sentimento de repugnância e de ódio, porquanto no vórtice humano que se renova incessantemente, o vencedor se transformou, amiúde, no vencido, e todos experimentaram quantas dores acarretou a força quando utilizada em sua própria vantagem.

São assim as raças velhas que, por terem vivido muito, cansaram-se da luta até a neurose; são elas que mais detestam e querem eliminar o uso da força. Este ódio, este desejo de suprimi-la, nasce da necessidade e do interesse que cada qual possui em destruir o exercício daquela por parte dos demais, para conservá-lo tão-somente para si. Sendo de todos em particular, converte-se em desejo da coletividade e a repressão da força se generaliza a tal ponto que se torna hábito, converte-se primeiro em lei religiosa e depois civil dos povos. A humanidade cumpre, desta maneira, uma espécie de rodeio a fim de expulsar de seu seio aquela audácia, à qual ela deve tanto e que é o sangue de seu sangue, para, entretanto, ir afastando-a paulatinamente, circunscrevendo-a cada vez mais e contendo-a por todos os meios ao seu alcance. É deste modo que assistimos a um espetáculo bem estranho: a força que, através do uso, tende a eliminar-se a si mesma. Ela, a medida que a civilização organiza a sociedade humana, tornando-a mais homogênea, vai perdendo cada vez mais sua importância, manifestando-se somente nos indivíduos atrasados, o que é sinal de regressão, como o seu desaparecimento o é de maturidade. Tudo tende a exclui-la. Os ideais de justiça e liberdade se fazem sempre mais necessários. A diferenciação dos tipos humanos, produto da evolução da vida, a especialização para as aptidões psíquicas, outorgadas por acumulação de experiências, traria o afastamento dos vínculos e a desagregação social, se não os aproximara outra necessidade, e outra força não reorganizara estes especializados em um organismo coletivo mais vasto, onde a atividade de cada um segue as linhas de maior rendimento, dado pelo trabalho no campo das faculdades adquiridas. Esta força são os ideais que, em oposição à violência, constituem o cimento precioso que amalgama os instintos egocêntricos e exclusivistas em um organismo coletivo maior e mais potente. É assim que os ideais — enquanto satisfazem uma necessidade e alcançam um benefício — abrem passagem e traduzem-se em realidade. Eis aqui uma segunda restrição que a força encontra em si mesma. Ela é um fator de evolução que se manifesta para destruir-se, ou, em outros termos, é um fator transitório na grande rota da libertação. Se a força possui um valor imenso em determinadas circunstâncias de. vida e ambiente, conserva seu domínio até que o exijam as supremas necessidades do progresso. A série dos abusos e das violações tende, através de um. mecanismo de reações e choques, a alcançar um estado de equilíbrio mais firme e mais perfeito, e, por evolução, se cumpre o milagre da transformação da força em justiça. Prova evidente da relatividade e da mobilidade continua de todas as posições da vida. Prova de um transformismo ascensional de tudo e de todos. Prova de que a vida é possível em formas e em níveis distintos, a cada um dos quais correspondendo um organismo de leis e todo um mundo. Um mundo que se transforma em outro sem destruir-se, e do qual o ser vem tomar parte à medida que afloram nele as aptidões para saber viver nele e as faculdades de sabê-lo sentir.

Tudo isto demonstra a contemporânea existência de dois mundos distintos, de duas leis, a força e a justiça, o reino da besta e o reino do super-homem, entre os quais o homem oscila e se debate, cumprindo um passo que significa transformação e criação biológica.

A fim de não me estender demasiadamente, delineei as duas leis sob o aspecto de força e justiça, que constituem sua característica essencial. Em um sentido mais vasto, a primeira compreende o mal, o vício, a violência, tudo o que na evolução significa atraso e no homem recorda a besta; a segunda compreende todo o edifício das virtudes que as religiões e as leis se esforçam por inculcar no coração do homem. As duas leis são o bem e o mal. O mal é o passado, e o bem é o futuro. A passagem cumpre-se por evolução e dela nasce o conflito, que é contínuo, entre as duas formas. Portanto, o mal e o bem são relativos ao indivíduo, à raça, ao grau de evolução. Isto anula o conceito de culpa, a menos que por culpa se entenda a ignorância que nos faz preferir a desvantagem de retroceder ou retardar a evolução, ou seja buscar uma forma mais completa de felicidade. Estes conceitos éticos sobre bases racionais e científicas se afastam muito das normas dos códigos penais religiosos e civis, os quais, se resultam explicáveis em sua gênese como reação e como defesa, carecem de significado no mundo superior da justiça e devem ser relegados ao do egoísmo e da força.

Quantas vezes, observando a alma humana, perguntei a mim mesmo como é possível a existência contemporânea de duas normas de vida tão diferentes, como podem estas pretender impor-se simultaneamente, e o porquê deste conflito, desta coexistência de afirmações opostas, desta contradição no coração mesmo do homem... Eu sentia seu duplo imperativo em cada ato, e em cada ato havia uma luta. De um lado, o sonho do ideal, tão belo, tão puro, tão perfeito, e, do outro, o proveito imediato do utilitarismo. De uma parte, a eqüidade consagrada oficialmente por todas as leis religiosas e civis, e da outra, coroada pelo êxito e apreciada incondicionalmente em privado, a força, como tal, sem escrúpulos. Na prática (o que é escusável, às vezes, se se tem em conta a opressão das necessidades materiais, as exigências da vida e a miragem de uma utilidade mais tangível por estar mais ao nosso alcance) eu via que os ideais, os princípios, a utilidade maior, porém, mais remota, eram tidos em menor conta, como uma realidade desagregável que se desvanece no mundo dos sonhos. Via, as vezes, acender-se a luta, e não sempre para optar pelo útil, relegando o ideal entre as belas formas de retórica, entre as indiscutíveis verdades, julgadas como mentiras convencionais, um vínculo do qual, na prática, é mister desligar-se como de uma posição desvantajosa. Via o anjo alado, de fronte radiante, sempre em luta com a fera audaz e selvagem. Em cada ato, dois caminhos opostos, uma teoria e uma prática, um modo de dizer e outro de agir, uma mentira muito cômoda e uma realidade muito árdua para seguir. Não compreendia como era possível, para o mesmo indivíduo, existir contemporaneamente em dois mundos opostos e cumprir duas leis contrárias. A explicação do absurdo somente me poderia oferecer a teoria evolucionista: uma duplicidade contemporânea de leis somente é possível num regime de evolução, como trânsito de uma para outra fase. Somente o ocaso de um período e o alvorecer de outro podem produzir tais contrastes. Somente o homem os conhece, não mais a animalidade inferior que descansa satisfeita na plenitude de sua fase.

O homem vive, pois, em formas de transição, em níveis distintos segundo os casos, que vão da besta ao super-homem. Vive em parte no passado, e em parte se projeta para o futuro, ensaiando e explorando o passo para formas mais elevadas.

Restaram de tudo isto vestígio nas oscilações seculares das religiões, das filosofias, das leis, das instituições, oscilações que poderiam parecer incertezas, mas que são evolução. Normas e imperativos que queriam ser absolutos e perfeitos, mas que são aproximações progressivas de perfeições cada vez maiores. Este passo é uma superação biológica, a transformação do homem no super-homem, o maior acontecimento da época moderna. Realizar esta marcha é a necessidade mais viva, o objetivo supremo da vida individual e coletiva. Apressá-la, se fosse possível, para alcançar uma felicidade mais estável e completa, é a mais profunda aspiração da alma humana.

A busca dos meios para realizar e acelerar esta passagem constitui o objetivo deste capítulo.

Temos estudado a evolução espiritual, primeiro no homem como evolução de seu organismo psíquico, em seguida como desenvolvimento de concepções na evolução dos ideais. Observamo-la agora em seu aspecto mais universal e grandioso, como uma sucessão de mundos e organismos de leis, onde o homem vive sucessivamente a sua gloriosa ascensão.

Esta marcha, da qual queremos estudar os aspectos, as leis e os resultados, é um fenômeno susceptível de um estudo positivo, porquanto admite a observação e a experimentação. É um fenômeno natural no sentido de que se realiza por si só, em forma espontânea, diria quase automaticamente, por um jogo de forças irresistíveis e fatais, porque é a vontade das grandes leis e a necessidade mais potente do ser; porque o mover-se, e mover-se ascendendo, está na essência íntima do Universo.

Pode, porém, produzir-se também racionalmente, ou seja, primeiramente compreendido e depois desejado e conduzido pela inteligência humana, sem que tenhamos de estranhar esta intervenção do homem na conduta e na utilização das leis naturais. A inteligência humana é por si mesma uma força criadora e das mais poderosas. Pode, portanto, não somente entrar em combinação fecunda com as outras forças, senão também até certo ponto, assumir sua direção. Movem-se tais forças de acordo com leis que, embora sejam algo adiantadas, não alcançaram totalmente a perfeição; acham-se sujeitas ao esforço do ensaio e ao perigo do erro, mesmo quando corrigido e compensado. Se o equilíbrio se restabelece de pronto e o progresso se manifesta em seguida, a prova contém sempre um desgaste que a inteligência pode evitar, estudando o mecanismo das leis que tudo regem com precisão matemática, orientando as energias e dirigindo o esforço para obter um rendimento maior. Deste modo o homem pode progredir no saber, se conduzir o grande oceano de forças, que é o Universo, para conseguir, em vez de dano, vantagem. O ignorante, por não saber mover-se no meio delas, por desconhecer o efeito de seus próprios atos, pedindo o que o equilíbrio universal não pode e nem quer absolutamente dar, choca-se de contínuo contra reações dolorosas, crendo possível, pela violência, forçar as leis para iludi-las. Tenta substituí-las pelo impulso insignificante de sua própria vontade, rebela-se contra a corrente de todo funcionamento orgânico do Universo, e a corrente o arrasta. O sábio, ao contrário, pede harmonicamente só aquilo que é lícito pedir, e o obtém. Deste modo, se pode realizar racionalmente, com o máximo rendimento e a maior aceleração possível, a ascensão de um mundo a outro.

É bem certo que, por outro lado, estas coisas são tão velhas como o homem. Repito-as numa forma nova de objetividade analítica, mais verdadeira e mais palpitante, para que recuperem a vida da qual pareciam haver se afastado. As religiões e as filosofias, e todo o pensamento humano acumulado no passado, concordam com a crença moderna mais evoluída. As maiores inteligências, assim como a alma amorfa das grandes massas humanas, elaboraram-nas, buscando e experimentando todos os dias, através de vários sistemas, em todos os lugares da Terra, com todas as aproximações e resultados possíveis.

É mister explicar e afirmar aqui a existência de um organismo de leis; movem-se de acordo com elas, jamais ao acaso, todas as forças do Universo, leis que são uma vontade e um conceito que é como a alma da criação. Seu imperativo expressa-se sempre nas coisas reais da vida, é sempre um fenômeno em ação, e encontramo-lo invariavelmente no fenômeno, ligado à matéria, como a alma ao corpo. O conceito existe detrás das coisas, oculto na profundidade do mistério, manifestado tão-somente em suas conseqüências últimas, e é por sua vez também vontade e ação, assumindo a personalidade do eu que pensa, quer e age, divindade invisível porém onipotente e onipresente. Esta concepção naturalista não diminui e nem anula, senão agiganta o conceito da Divindade. Poder-se-ia traduzir, com as mesmas palavras da Gênese bíblica, o conceito antropomórfico: "o homem criou Deus à sua imagem e semelhança". É natural que, com o progresso da sabedoria humana, este conceito se engrandeça. Cada profeta, cada fundador de religiões, já nos proporcionou uma, aproximação maior. Logo, com a evolução da ciência que continua a evolução das religiões, a alma humana vai cada dia, sondando e decifrando um novo artigo da lei, cumprindo relativamente a si mesma uma contínua e progressiva revelação da divindade. A evolução, a elevação desde o âmbito de uma lei a outro mais alto, cumpre cada dia no ser uma progressiva realização da divindade.

Encontramo-nos, pois, perante uma grande transformação que o homem pode executar em si mesmo. Dirigindo-a racionalmente em harmonia com todo o funcionamento orgânico do Universo. O trabalho de compreender e o ainda maior de realizar o complicado fenômeno tendem, por certo, a uma utilidade final, obrigando-nos a perguntar qual pode ser esta. Falei de utilidade que justifique o esforço, o compense e nos faça decidir a intentar a difícil prova, porquanto sei por experiência que o prêmio e o objetivo final de tudo isto não é uma quimérica idealidade, um vão espiritualismo, senão uma vantagem de poder alcançar a mais completa felicidade. É um eterno problema que nós outros vamos encarando, problema real, fascinante, que emana de uma necessidade imperiosa do espírito, de um instinto misterioso que outorga ao homem o direito de pretender e a certeza de obter, em um futuro mesmo que distante, uma satisfação absoluta. Este problema que estamos estudando, se bem que o mais difícil, é também o mais radical e o mais positivo para alcançar a meta desejada, já que não se estriba no sobrepor exteriormente a si mesmo todos os possíveis domínios e possessões transitórios e ilusórios, senão na transformação da maneira de ser numa profunda e definitiva renovação do eu. Trata-se de uma transformação da lei, da fuga de um mundo inferior, da libertação, enfim, de todas as dores que o povoam. Se aquele que vive no nível da lei subumana permanece isolado em seu egoísmo e deve lutar sem descanso contra todos, quando ascende no âmbito da lei super-humana já não necessita lutar e nem esforçar-se, e poderá, coisa absurda no mundo inferior, depor evangelicamente as armas de ataque e defesa e, com estas, a angústia da incerteza e da derrota, porque existe uma força mais poderosa sob cuja proteção se colocou e que espontaneamente o protege. Ele se encontra no meio da corrente e a corrente o leva. Sua lei é a grande lei, sua vontade é a grande vontade. Já não lhe é mister o esforço para impor-se como exceção, pois vive harmonicamente com a vida universal. Sua sorte converte-se num equilíbrio estável, que tende a permanecer estável em forma espontânea, porquanto não é produto da força, precário e combatido. Desce uma paz imensa sobre todo o ser, um gozo difícil de compreender e. de expressar, que é, porém, o mais profundo que o homem conhece. A alma humana, invadida pela febre atual do trabalho e da riqueza, exige resultados menos efêmeros, necessita, para satisfazer-se, de valores indestrutíveis, algo que através do tempo não mude e nem se desvaneça como uma ilusão. Dada a transitoriedade de todas as coisas humanas, somente a evolução, no vórtice de um incessante transformismo pulsante de vida e de morte, constitui o que jamais será destruído. O tempo mede, porém não toca este transformismo, que se muda na forma, se renova sempre sem perder nada na substância que vibra no ritmo grandioso de sua ascensão. Esse movimento incessante, que no mundo inferior é destruição e tormento, é deste modo guiado para a felicidade e se converte em meio de conquista de afirmações eternas.

Se os resultados são esplêndidos, o atalho é áspero, difícil de achar e demanda enorme esforço. Porém, não há conquistas grandes sem grandes esforços. Aqui o homem deve medir-se em uma luta titânica, não já contra os seus semelhantes, senão contra as leis naturais poderosas, invisíveis, tenazes, que estão dentro dele, e são a sua própria personalidade que ele deve, por sua vez, destruir e reedificar, matar e ressuscitar. Esta destruição de si mesmo é o primeiro sofrimento que lhe incumbe enfrentar. Não discerne, de imediato, o verdadeiro caminho, seu impulso para a felicidade é, em geral, cego e recai sobre si mesmo inutilmente. Acredita poder agarrá-la em forma estável, usurpando-a com uma violação de equilíbrio, crê possível o absurdo no mundo de leis naturais e que possa se obter o que não se tenha merecido. A força é um atalho cômodo que produz efeitos imediatos, mas também equilíbrios instáveis que prontamente cedem à reação natural. Daí o acervo das desilusões humanas, riquezas de energias, porém grande miopia. Estimulada pela sede dos gozos — enquanto que a minoria preferiu a estrada mais longa e escabrosa, porém mais segura — a maioria se consome e se revolve na lama a fim de pedir aos prazeres do mundo subumano um pouco mais de felicidade, numa luta encarniçada em redor de resíduos mesquinhos. Não só insatisfação, mas sempre novas derrotas na inexorável balança da justiça. Quem, em troca, trabalha na senda do bem, vai acumulando créditos; um dia, daquela mesma lei, lhe manará espontaneamente a felicidade. Não se atendendo a este equilíbrio, nem à voz misteriosa da consciência que nos admoesta, nem ao furacão de reações que as forças das leis podem desencadear, algo se vai sacrificando cada vez mais ao destino inexorável. A cadeia transmite-se de geração a geração e o déficit acumula-se até esmagar-nos. Então, no fundo de um céu tempestuoso, aparecem os profetas bíblicos que convocam à penitência. Estalam cataclismos que são como banhos de dor, e a humanidade sai purificada como se somente na dor readquirisse seus direitos e somente atrás de um salto tão terrível volvesse a encontrar a possibilidade de retornar ao caminho interrompido de sua evolução.

Eis aqui a função da dor. Ela, no Carma, destino inexorável, provê a quem saldou as dívidas do passado, individuais e coletivas, dívidas que é mister haver expiado antes de poder iniciar a ascensão para uma felicidade maior. A dor, pois, não é somente um fenômeno de reação orgânica e psíquica, senão que responde a uma lei de equilíbrio moral. Promovida de expiação a renúncia, é um meio para a conquista da felicidade, é o instrumento da grande transformação, o caminho da libertação que nos conduz ao mundo super-humano. Eis a reabilitação pela dor que purifica e equilibra, que eleva e avança, que cria acima do instante fugaz.

Observamos as condições de vida nos baixos níveis de evolução para encontrar aí a origem da dor. Este é o último elo da cadeia — involução, ignorância, egoísmo, força, luta, seleção — cadeia que, se por um lado termina na dor, representa também um lento caminho ascendente; este transforma o homem em super-homem, a força em justiça, o mal em bem; realizando a evolução, destrói as condições de vida inferior onde nascia a dor Em outros termos, transmuda também a dor em felicidade. Assim como, com o uso, a força tende a uma auto-eliminação e desaparece, quase reabsorvida em si mesma, mudando-se em justiça, desta maneira a dor, com a evolução, tende a desvanecer-se, porquanto também ela, como o regime da força, é um fator transitório, inerente a uma fase de evolução, destinada a ser vencida. As leis de um Universo, no qual a dor e a maldade fossem incondicionais e definitivas, não poderiam ser havidas como correspondentes a um conceito de equilíbrio e justiça. A existência seria um delito se não encerrasse, junto com aquelas, uma força para destruí-las. Esta força é a maior de todas: a evolução, destinada a transformar o mal e a dor que não são senão involução, em bem e felicidade. Processo espontâneo e inexorável, porém lento, se efetuado com a técnica defeituosa da tentativa, do erro e da emenda. Rápido, ao contrário, se, conscientes da rota e das forças, tratamos de acelerá-lo, guiando-o.

A dor nasce do regime de força e de luta necessário para a seleção e o progresso nos mundos inferiores. Não esperemos até ver-nos compelidos por esses estímulos, mas esforcemo-nos para progredir até onde nos seja possível; anulemos, impondo-nos formas mais elevadas de vida, a fase subumana e humana, e teremos eliminado a dor.

O valor prático e tangível da evolução, o significado deste conceito de evolução que temos elaborado até agora, reside todo nesta anulação. Estas superações de formas de vida, de fases de progresso, são vitórias sobre a dor. O problema da evolução converte-se desde este momento em problema de felicidade, e assim o temos de conceber. Nossa meta será a destruição da dor. Todos os meios que realizam a evolução conseguirão esta destruição que significa libertação. Na evolução está, portanto, a libertação; em tudo o que represente um meio de evolução temos de ver um caminho para a libertação. Os caminhos da libertação são múltiplos; estudemo-los rapidamente.

É mister, em primeiro lugar, uniformizar-se à lei do mundo superior que se deseja alcançar: portanto, retidão em todos os atos, como princípio, para alcançar a nobre finalidade da vida; para acelerar, mediante o esforço da vontade, a realização em si mesmo de uma lei mais elevada. É necessária a inteligência para a compreensão da vida, da missão e do trabalho que nos corresponde. É necessária a vontade para seguir o que a mente viu e não o que o interesse e o prazer quiseram. Não se requerem grandes heroísmos, senão a disputa lenta, constante e quiçá mais heróica das provas cotidianas, aquelas que vão cavando na alma o sulco de novos hábitos. Uma vez assimilados no instinto, formarão uma nova personalidade. É necessário o esforço, o trabalho da evolução, especialmente no princípio, para passar do mal-estar à adaptação e desta à necessidade, por costume, do novo estado. Desta maneira eliminam-se a tentativa e o erro que engendram a inacabável série das decepções humanas Constituem o sofrimento maior e mais penoso com que a lei, em sua reação, impõe o progresso. Queira-se ou não, a evolução é a lei, dura, porém justa, e é mister cumpri-la. Esta é a corrente da vida que arrasta a todos e arrebata os rebeldes. Esta é a vontade suprema. A lei reage contra aquele que resiste, infligindo-lhe a dor como castigo e acicate. Para quem a observa, lutando e vencendo, a dor vai desaparecendo gradualmente. A felicidade, se é uma necessidade absoluta e um direito sagrado de todos, tem de ser conquistada com trabalho e este trabalho é uma ordem. As leis da vida não admitem ócios, usurpações e nem arrivismos, e dão a cada um o seu justo salário. Mais vale aceitar com satisfação a sua parte proporcional de trabalho do que aguardar que nos seja imposto duramente. A evolução é um trabalho tremendo, mas cria, em troca, os maiores valores, o somem e a sua felicidade, conseguindo o incrível, a destruição da dor desde que se trabalhe adequadamente. É necessário realizar a justiça com a retidão, e a justiça somente pode ser criada com o esforço humano. Não pode ser reforma social se antes não foi reforma pessoal e íntima.

A renúncia é outro meio de evolução e outro caminho de libertação. Se a retidão é a afirmação da nova forma de vida, a renúncia significa o abandono da velha forma que se deseja vencer. Para esta antecipação de nova vida, o nascimento do super-homem, é mister que se acabe a natureza inferior, que pereça o homem com tudo quanto de baixa animalidade haja nele. Transe laborioso, luta tremenda do espírito para separar-se da matéria e elevar-se à vida autônoma. Não é um conceito novo, este da renúncia, já existente nas religiões que altamente o proclamaram, sem conter, aliás, aquela explicação que a moderna psicologia científica requer e que tratamos de dar. A renúncia pela renúncia é um aniquilamento insensato da personalidade, não se justifica como meio de evolução tendente à destruição da dor e ao ressurgimento da felicidade. É melhor, entretanto, deixarmos o desenvolvimento destes conceitos na Parte III, quando estudarmos o ingresso do homem no reino super-humano, onde a dor desapareceu e cumpriu-se a criação do novo ser.

A libertação da dor pode ser obtida também em uma forma que parecerá impossível à maioria, por falta da penetração intelectual das causas primeiras, que não ultrapassa o cego instinto de evitar aquilo que desagrada. A dor vence-se por meio da dor; destrói-se pela aceitação, assim como se dobra um inimigo, abraçando-o. Por uma lei universal de equilíbrio, de ação e reação, em um mundo onde nada se cria nem nada se destrói, também no campo das sutis qualidades morais não se neutraliza um efeito senão reconduzindo-o à causa para que aí encontre a sua compensação. Não se anula uma qualidade se não for reabsorvida pela vida. A dor pode desaparecer com a única condição de ser saldado o débito à eterna lei de justiça; no campo moral, social, histórico, econômico, físico e químico, é sempre a mesma lei, a. mesma vontade, o mesmo Deus. Somente a ignorância pode pretender o absurdo de enganá-la, esquivando-se à sua reação. Não se defrauda a lei, e quando se pecou mais vale neutralizar o mais depressa possível a reação, sofrendo e pagando, pois, mesmo que fujamos, aquela nos alcançará sempre e onde queira. A fim de não agravar o desequilíbrio, nunca devemos rebelar-nos para não excitar a assim chamada ira divina, ou seja, o mais rude contragolpe, pois a elasticidade da lei (a divina misericórdia) por ser tão grande que contém todo o livre arbítrio humano, acabaria por nos vencer, como um destino inexorável.

A dor, pois, eliminando a reação, saldando a divida, obra a progressiva harmonização e efetivação da lei no eu, ou seja, determina a evolução. Vimos também que existe nos estados inferiores como conseqüência do regime de luta e de força; pode ser eliminada, superando aqueles estados. A evolução elimina-a. Paralelismo de ações e reações, de cuja mútua penetração surge a criação de uma forma mais elevada de vida, baseada na destruição da dor por meio da própria dor. Eis aqui como é possível considerá-la como um dos principais meios de libertação Eis aqui o progresso e a dor estreitamente ligados. Eis aqui explicada a utopia do sacrifício e do martírio. Cristo que morre na cruz, redimindo com a sua paixão a humanidade, é o símbolo grandioso que re- sume este conceito.

Sem este conceito da evolução espiritual, a dor é um crime, como no pessimista caos schopenhauriano. Enquadrado neste conceito eleva-se a instrumento de criação e de redenção, como na visão de Os Miseráveis, de Vítor Hugo.

Concebo a dor como a reação de uma lei que tende a restabelecer o equilíbrio perturbado pelo erro, uma lei que, respondendo a um supremo conceito de justiça, possui a função, por meio de reações, de ensinar ao homem, se bem que respeitando a sua liberdade, os verdadeiros caminhos da vida. O homem possui um instinto seguro que o guia para a felicidade e que é o indicador de sua meta. Ele ensaia todos os caminhos, primeiro os mais absurdos, os que conduzem ao gozo imediato e não ganho, os da força e da violação, e encontra-os todos cerrados pela reação natural da dor que lhe inibe o passo. Até que o destino o obrigue, por trás de infinitas tentativas e erros, a tomar o único atalho possível, o do próprio progresso. Em outros termos, é necessário harmonizar-se com a lei para eliminar cada vez mais a reação constituída pela dor, até que nos graus superiores ela se transforme em renúncia voluntária, ou seja, na aceitação livre do trabalho a que a evolução nos obriga.

Quando a unificação do eu com a lei é perfeita, desaparece toda a possibilidade de reações e a dor é vencida. Concebo a dor como um mal transitório que se esgota em sua função, que existe para devorar-se a si mesma, assim como um desacordo é um instrumento para conseguir a harmonia, um meio educativo; um acelerador da evolução, um sábio mecanismo pelo qual a liberdade do ser se vê forçada a integrar-se no progresso.

Assim entendida, não é uma abjuração, mas pode ser um grande triunfo, máxime se soubermos utilizá-la como instrumento de ascensão. Mesmo em suas formas materiais, onde com maior evidência parece uma derrota, como no mundo orgânico, a dor pode desempenhar função criativa, como é lógico em um Universo em que tudo possui um significado e um valor para alcançar o bem. Um mal físico tem função criativa no mundo moral porque se transforma, destilado, em instrumento de renúncia e de ascensão. É a insuspeita função biológica do patológico Eu digo aos que sofrem: Valor! Porque o vencido da vida é amiúde um grande batalhador.As horas mais dignas e mais fecundas são as da dor; em todos os seus graus revela o máximo esforço do ser humano. Eleva-o, ilumina-o e outorga-lhe o direito de olhar a face de Deus.

Eis a minha concepção da dor, em oposição à negativa subtração da vida que é o Nirvana budista, em oposição, sobretudo, a essa fuga vergonhosa que significa a concepção utilitarista moderna. A dor é energia, luta e criação; tudo aceita para ressurgir numa felicidade maior.

O conceito que nos dá o moderno materialismo científico, que é a base psicológica de nossa civilização, é muito diferente. No materialismo a dor não pode possuir funções superiores; é um inimigo e um mal, contra os quais só uma posição é possível, a de defesa. Esta defesa está habilmente organizada pela ciência e pelo trabalho, armas poderosas, mas de concepção unilateral e insuficiente. Não obstante a luta contra a dor seja levada a uma tensão limítrofe do terror, a sua ameaça é incessante e está oculta atrás das grandezas do nosso progresso. A espantosa série de todos os experimentos sociais e econômicos a nada conduz; o homem, ante a desaparição fatal e angustiosa de todas as suas aspirações e ilusões, conserva em seu olhar o sonho vão da felicidade jamais alcançada que se esconde em uma realidade mais profunda e que ele não vê.

Entretanto, nunca foi mais ardente a ânsia de viver do que agora. A ciência faz-nos entrever a possibilidade de um paraíso sobre a Terra. Nunca houve tensão coletiva mais frenética para o prazer. O homem que invoca e ensaia todas as liberdades ignora os caminhos da libertação. Busca a felicidade, em baixo, aumentando seus atributos exteriores, e não as qualidades interiores. Não. A dor não é um acontecimento acidental, efeito de causas próximas e suprimível com estas, mas possui raízes profundas em um mundo onde a ciência ainda não chegou, e responde a funções fundamentais de equilíbrio na economia da vida.

Sendo base do progresso humano, está enxertada na vida como um fator de importância excepcional. É o trabalho necessário da evolução que é a essência e a razão de ser da existência. No equilíbrio exato das leis a dor é indispensável à vida do Universo. A mentalidade moderna, absolutamente ignorante de tudo isto, faz o irrisório jogo da supressão das causas próximas da dor. Homens, classes sociais e nações barganham entre si este lastro pesado que dá volta entre eles e permanece sempre igual, porque ninguém o absorve. Tal um cogumelo maléfico, a dor volta sempre a brotar sob novas formas, apesar de tanta riqueza, de tanta civilização e tanto progresso.

É mister um jogo mais complexo para suprimir a dor e conquistar a felicidade. É necessário subir com Cristo à cruz e refazer sobre outras bases a vida individual e coletiva. É preciso encontrar na dor uma força amiga cuja função se compreenda e se utilize para a sua própria ascensão. O que interessa não é acumular poderes, mas fazer o homem. É inútil predicar, ou pretender forçar a história e a evolução; é inútil pedir à alma coletiva uma consciência imediata e provisória, que somente poderá fazer amadurecer provas e as grandes dores, tão-somente quando este nosso sistema nervoso, que é o substrato do organismo mais profundo — a alma — desenvolver-se tanto que a máquina animal, para cujo serviço se lhe converta em cárcere, a tal ponto que terá franqueado as suas barreiras, somente então o homem "perceberá" também as leis morais, assim como hoje, com suas descobertas, começa a vislumbrar as leis da matéria. As leis morais existem, mas estão ainda a espera de seu Newton que as demonstre. Um dia a vida do justo ser uma necessidade universal, porque conseqüência de uma lei demonstrada e palpável, com suas sanções comprovadas, com seus efeitos insuprimíveis, e que, como tal, governará na realidade a vida imposta como uma obrigação a todo ser racional. Então, ter-se-á completado a educação da besta humana. Não será mais necessário este pobre e único meio de que hoje se dispõe para domar o homem inferior, que é o terror do sobrenatural e do mistério, a idéia de uma divindade que se vinga e castiga, divindade que os fortes se atrevem a desafiar e a que os débeis se curvam por medo, enganando-a com os subterfúgios de uma consciência acomodatícia. Então se verá claramente a lei sábia e terrível, mais inexorável porque despojada dos véus e do mistério; um Deus novo, mais próximo e real, porque estará dentro de nós mesmos, em todas as causas, contra o qual não é possível a rebelião e nem a felonia.

Na civilização moderna, contudo, já se está levando a cabo um intenso trabalho de progresso, ainda que com orientação e concepção da vida de todo diferente. Estes são: a ciência e o trabalho, instrumentos de evolução que também devem ser incluídos no rol dos caminhos de libertação.

Que valor possui o frenético bulício da vida, palpitante de problemas e de lutas, ansioso de conquistas, triunfante com suas descobertas científicas, transbordante de energia tão juvenil e de uma fé tão diversa, sem dúvida cheio de beleza, ainda que primitiva e brutal? Ao som deste grito a alma, já farta de tudo isto e madura, não sente ter encontrado a vida em outras partes?

O leitor perdoará se corto e abrevio porque me impus ser conciso.

Encontramo-nos diante de dois conceitos opostos: o primeiro se detém nesta vida e neste mundo, onde pretende realizar um paraíso que é sua única meta. Com a ciência estuda detidamente os meios, e com o trabalho os põe em prática. É todo um fervor de investigações e de ação, um assalto da inteligência às leis ignoradas da criação para submetê-las ao seu próprio gozo e ao seu próprio egoísmo. Um esforço de vontade para dominar o mundo exterior e convertê-lo em um meio para o seu bem-estar. Este conceito tende a plasmar o ambiente de acordo com uma idéia e efetivamente o transforma de maneira assombrosa para fazê-lo a morada imperial do homem. Porém, se transforma a Terra, não transforma o homem. Se faz progredir tudo, descuida o valor maior que permanece ignorado, ou melhor, permanece subjugado ao progresso material que, de meio, trocou-se em fim. O espírito triunfa sobre a matéria. Há, porém no perfeito equilíbrio das leis, uma espécie de desforra daquele que, mesmo cedendo o seu poder, absorve toda a atividade do espírito e escraviza-o, pois o prazer que experimenta para a satisfação dos desejos é efêmero, desvaloriza-se com o hábito e consegue somente aumentar as necessidades que converteram o homem em máquina de trabalho. O bem-estar material é uma arma de dois gumes que, se facilita a vida, é também uma cadeia que a oprime. Depois de haver pedido o sacrifício da mais alta atividade que cria os valores morais, tão indispensáveis para a vida, deixa o espírito no vácuo, desorientado, pois carece da paz interior que só deriva da consciência de um fim. E sobretudo não destrói a dor cuja ameaça permanece mais perceptível do que antes.

O progresso material pode, pois, ter o seu valor, porém somente quando considerado como necessário ao progresso espiritual. Do contrário, os caminhos da libertação se tornam caminhos da escravidão.

O outro conceito, inconciliavelmente hostil à vida presente e ao mundo exterior, aparta-se deles como de um mal irremediável, que se toma em consideração para ser evitado. Descuida do ambiente exterior, não se preocupa em melhorá-lo, considerando-o não mais a realização de um desejo próprio, mas apenas uma necessidade para harmonia universal. Alheia-se, assim, da exterioridade do mundo, sonhando com uma vida diferente e distante, numa aparência de passividade. Sua alma vigilante percebe e sente uma realidade e nesta encontra novos poderes, mais vasta percepção; domina forças sutis e maiores, cria os valores morais que regem o mundo, realiza uma expansão e uma afirmação, perante a qual todas as afirmações exteriores resultam irrisórias.

Duas concepções diferentes que correspondem a duas evoluções, a da matéria e a do espírito. A primeira e conquista científica, conquista econômica, o aperfeiçoamento das relações sociais, o progresso lento da coletividade, um trabalho grandioso de organização e de cooperação cuja importância seria néscio negar. A outra é conquista interior que aperfeiçoa um único valor, a consciência humana, sistema radical para quitar os males da vida; sistema árduo reservado a poucos espíritos de vanguarda.

Duas riquezas e duas misérias: miséria econômica que pode ser largamente compensada por uma grande riqueza; ou miséria moral que riqueza alguma conseguira remediar.

Seria exclusivismo o querer valorizar mais uma coisa do que outra, detestando o progresso econômico que pode, por sua vez, constituir o primeiro passo para o espiritual. Seria visão incompleta apreciar o lento e complicado progredir da grande alma coletiva que se projeta mais para o exterior do que para o interior do indivíduo. Cada um, por si, é elemento insuficiente para o conjunto da vida. São elementos complementares. Duas formas de evolução, o progresso material e o espiritual que se complementam e se condicionam, tendendo a duas criações distintas: uma exterior e outra interior, que se valorizam mutuamente, quase sustentando-se para ascender juntas.

A hipertrofia, de um e a atrofia de outro, como acontece na sociedade presente, são o mesmo índice de desequilíbrio.

Se os dois conceitos parecem excluir-se por um inconciliável antagonismo devido à inversão dos valores, na realidade eles não são mais do que duas metades de um mesmo conceito. Dois pólos do pensamento humano, como quem dissesse a alma masculina — concepção ativa e positiva da vida — e a alma feminina do Universo — concepção passiva e negativa — destinadas a uma completação fecunda. A própria humanidade parece distribuída como em um equilíbrio de partes, segundo as duas metades deste pensamento. Possuímos no mundo dois tipos de civilizações: a ocidental e a oriental. Possuímos presentemente o moderno Ocidente europeu-americano, ativo, rico, poderoso e oco espiritualmente, e o antigo Oriente asiático, inerte e pobre, mas forjador de religiões, de filosofias e de crenças: a luz do mundo.

Dir-se-ia que a humanidade tivesse querido olhar contemporaneamente a vida em duas direções opostas, seja para realizar tudo no presente, ignorando o mais além, seja adiando toda a realização de felicidade para o futuro. Existe em todo caso, um trabalho, pois segundo a lei, todo progresso e todo bem-estar tem de ser ganho mediante um esforço adequado. Para que a matéria evolua é necessário o trabalho. Para que o espírito evolua é mister a dor que, no fundo, não é mais que um trabalho diferente, assim como o trabalho não é senão uma espécie de dor. O deus utilitário da Civilização Ocidental o impõe diariamente, assim como o deus espiritual do Oriente impõe todos os dias uma renúncia.

A verdade parece dividida em dois aspectos que são duas metades da Terra; nenhum deles esgota todo o pensamento nem satisfaz a todas as necessidades humanas. Unificados, porém, são uma só aspiração, a ascensão para a felicidade. O Oriente já não vive mais aqui em baixo, mas aguarda e prepara-se. A par de um enorme tentáculo projetado no mistério do mais além, respira, ébrio de sonho, outra vida mais distante. Esta idéia da função evolutiva da dor, da criação espiritual através do isolamento, não parece brotar senão nos povos maduros. A última flor, talvez, e a mais bela da vida... Quando se atingiu uma certa altura, parece que o ambiente terrestre já não pode mais responder ao grau alcançado; da impossibilidade de adaptação nasce um desdém pela vida presente, uma necessidade de superação e de elevação para encontrar no outro lado uma vida mais pura. A iminência de uma realização maior sugere, então, o pressentimento da vida nova, invisível; para os demais. Declinando e desaparecendo neste mundo, a alma lança o grito de sua ressurreição. Uma vida maior, convivência com distintos organismos em ambiente extraterrestre, cuja existência a astronomia começa a vislumbrar, talvez no mistério da subconsciência e do supranormal. Nossa civilização ocidental, com suas máquinas, suas riquezas e sua matéria moral, choca-se com as velhas civilizações asiáticas, sem compreender. Estas cansaram-se de todas as experiências a ponto de ter já perdido a esperança de uma felicidade terrena. Aquela, transbordante de dinamismo e de ingênua fé. Esta incompreensão de ideais de raça provocará choques formidáveis, e destes brotarão a compreensão e a unificação que compendiarão todo o progresso humano.

Resumindo, os caminhos da libertação são, antes de tudo, de ordem moral: a retidão que conduz à justiça, a renúncia que leva ao isolamento e à superação, a dor que, expiando, neutraliza a reação da lei e conduz ã felicidade; secundariamente, são de ordem material a ciência e o trabalho, que tendem ao domínio material do mundo.

Estes são os meios da evolução espiritual.

Este artigo — um desabafo de paixão ajustado a um desenvolvimento racional — aproxima-se de seu fim. Desentranhando conceitos em contínua transformação, da exposição preliminar dos princípios gerais nos acercamos das conclusões. Seguimos o fenômeno da evolução espiritual como um imenso drama através do qual a humanidade ascende desde a força à justiça, desde a dor à felicidade, desde e mal ao bem, desde a matéria ao espírito, desde o ódio ao amor, desde o inferno ao céu. Assistimos às cenas finais. Está por se resolver o grande fenômeno espiritual. Atravessa-se o momento crítico da superação biológica, pela qual o homem entrará em uma nova vida. Quem sabe ler mais profundamente perceberá neste escrito, junto às argumentações que se coordenam, uma tese, algo mais, como seja, uma declaração de fé, uma confissão, porventura um testamento espiritual. É o relato de outro drama tempestuoso e. vivido, que culminasse na morte, onde tudo o que é humano se funde. Minha alma aflora, sangrando, porém, ágil e madura parte ao próximo impulso a que chamo "Ressurreição".

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4 Como quem conhece a fundo a matéria ou assunto; magistralmente.

Sintetizo alguns conceitos fundamentais a fim de enquadrar o argumento em minha concepção cosmogônica. Não é agora a oportunidade de entrar em explicações, nem muito menos em demonstrações, que nos poderiam levar muito longe.

Tudo quanto podemos perceber no Universo resume-se a três elementos fundamentais:   Matéria, que é a sua estrutura esquelética, o Universo físico e o dinamismo mecânico que o sustém; Vida, um dinamismo mais complexo, concebida, porém, num sentido imensamente mais vasto, desde o mineral ao homem, existente também em outros corpos celestes; Pensamento, um dinamismo ainda mais elevado, representado pelo psiquismo humano, através dos nervos, cérebro e espírito.

É difícil separar um elemento do outro, pois a passagem se efetua por evolução, sem solução de continuidade. No fundo, trata-se de uma mesma substância, cuja maneira de existir é o transformismo evolutivo contínuo, e que, portanto, se nos manifesta sob forma distinta. Se a consideramos em uma primeira fase, que vai da nebulosa a origem da vida, conceba-la-emos como matéria; na segunda fase, que parte do início da vida ao nascimento do psiquismo humano, chamar-lhe-emos vida; no terceiro período, no qual este psiquismo se torna autônomo e cria um novo ser e uma nova vida, teremos o pensamento.

O Universo se nos manifesta, desta maneira, uno, ao mesmo tempo composto: três universos concêntricos que se compenetram e se encontram intimamente ligados uns aos outros, pois se sustêm mutuamente para elevar-se um sobre a outro — a vida sobre a matéria, o espírito sobre a vida; encontram-se em relação de filiação ou gênese sucessiva, por evolução.

O Universo assim concebido pode definir-se como um físio-dínamo-psiquismo. Se indicarmos com M, matéria, com V, vida, com P, pensamento e com S, substância, poderemos explicar-nos também com esta equação:

(M=V=P)=S.

ou seja, para significar que estes três elementos, transformando-se por evolução um em outro, equivalem-se como formas sucessivas na mesma e única substância

Sem nos determos em convalidar este conceito com argumentações científicas, comparando-o com a idéia de "Trindade-Una" que se encontra em muitas religiões, interessa-nos agora destacar esta circunstância fundamental: que a forma de existência única, indestrutível é, e não pode ser outra, a de um incessante transformismo progressivo, quase uma irresistível necessidade inerente à  natureza mesma.

Chegamos assim ao conceito de evolução: evolução da matéria, evolução da vida, evolução do espírito. Eis-nos aqui ante a evolução espiritual, que é o nosso tema.

Observemo-la agora mais de perto, relacionando-a com a evolução orgânica tal como foi exposta por Darwin, de que ia se falou bastante. O conceito, lançado por Darwin, da evolução da vida, foi, logo, ampliado, concebendo-se uma evolução (cósmica, geológica, química) da matéria.  Não necessitamos voltar a estes conceitos, ia aceitos pela ciência, os quais nos servirão de ponto de partida para proceder ao exame de uma nova evolução — a espiritual — ignorada em grande parte pela ciência, ou — quando menos — ainda não admitida oficialmente por esta.

O fenômeno da evolução espiritual somente se manifesta no último escalão do reino animal que, no conjunto, se encontra muito distante dela, observando-se unicamente no homem. Se o homem, como um microcosmo, reflete em si a construção do Universo e é uno em sua personalidade num organismo tríplice, composto de uma estrutura óssea (matéria), de um conjunto muscular (organismo, vida), e de um sistema nervoso-cerebral (organismo psíquico), três partes que se sustêm e se erguem uma sobre a outra, interessa-nos não tanto pelo que representa seu passado, mas porque, encontrando-se no alto da escala de evolução, deixou de construir-se como matéria e como vida, e na sua fase atual obra e cria no campo da evolução espiritual.

Com efeito, a evolução orgânica no nosso planeta superou o período de maior impulso e de novas criações, permanece estável, tal como, já anteriormente, se havia estabilizado a evolução geológica. Estabilizar-se significa equilibrar-se em formas definitivas ou quase, que não tendem a novas transformações radicais, por ter alcançado forma de maior rendimento. Assim como um dia se detiveram os grandes movimentos da massa terrestre e a crosta do planeta se solidificou em forma quase definitiva, cristalizando-se os organismos na individualidade alcançada, tal como hoje os vemos. A evolução orgânica, tendo cumprido seu enorme trabalho para chegar ao homem, deteve-se. Deteve-se? Porém, o transformismo ascensional é inerente à existência mesma. Os seres continuaram e continuam existindo. Existir significa progredir. Onde? Se não é possível que a evolução se detenha, qual a nova forma a assumir, especialmente para o homem, que se encontra no ponto mais elevado da escala?

Darwin demonstrou ao mundo científico a evolução orgânica do mundo animal até o homem. Com isso, ilustrou todo o passado, toda a história do organismo humano. Porém, depois?... Atingido o homem, Darwin calou-se, não se atrevendo a olhar o futuro, não sentindo e nem intuindo nada mais além da evolução orgânica já cumprida pelo homem.

Sem embargo, se existe um caminho ascensional já empreendido e que não pode deter-se, é lícito inquirir qual forma tenha de assumir a continuação deste caminho, este incoercível e progressivo transformismo ascensional que é a evolução; sobre que parte do organismo humano há de intensificar preferentemente sua ação evolutiva, esta grande elaboradora de formas que é a Vida?

A ciência moderna já considerou como insuficiente o sistema darwiniano de matar a vida para estudá-la, ou seja de examinar nos animais, anatomicamente, as partes de um organismo morto, não como cadáveres dissecados, porém como seres vivos e em função, com o propósito de observá-los sob outro ponto de vista, analisá-los mais profundamente, descobrir seus instintos, penetrar no mecanismo quase psíquico que os anima e os vivifica, intuindo que tudo isso constitui uma forma de vida muito mais importante do que a orgânica.

Se esta mudança de observação foi necessária  para com os animais inferiores, que devemos inferir para com os homens que os supera a todos? Para o homem, o estudo anatômico dos órgãos poderá revelar-nos seu passado, mas não sua verdadeira natureza e o segredo do seu futuro. Sua natureza e seu futuro são um psiquismo cada vez em maior desenvolvimento e que tende a libertar-se cada vez mais de todo o suporte orgânico.

Se o sistema nervoso e cerebral é ainda seu órgão principal, este é levado pelas condições da vida moderna, tão distinta da primitiva, a funcionar com tal prevalência sobre todos os órgãos   e portanto a elaborar-se com tal rapidez   que mui prontamente há de invadir todo o campo da vida. Resultará daí um psiquismo tão intenso e preponderante, que em breve dominará todo o ser, revestindo e definindo toda a sua individualidade, constituindo-lhe uma forma de existência nova, refazendo-o e transformando-o em um ser diferente. Tal como se fosse uma nova potência espiritual  que exista e evolucione, separada independentemente de seu último sustentáculo material, o sistema nervoso e cerebral. Este psiquismo, pois, se por um lado terá como base um sistema que é, por sua vez, o produto mais, alto de toda a anterior evolução orgânica, tenderá, por outro, a separar-se cada vez mais do mesmo, iniciando uma nova evolução autônoma e típica: a evolução espiritual.

Se queremos, pois, buscar no futuro a continuação da evolução orgânica cumprida no passado, se queremos definir a forma da futura evolução humana, devemos dizer que esta, logicamente, não poderá ser senão psíquica: evolução espiritual, continuação lógica da evolução orgânica.

A vida do homem moderno já não tende mais, através da luta e da experiência, a construir órgãos físicos. Com a sensibilidade nervosa e psíquica, assimilará novas idéias que, depois, serão inatas, novos hábitos que hão de transformar-se em atitudes morais, elaborando este novo organismo psíquico humano, que é a personalidade. Será ainda possível, sem dúvida, uma transformação orgânica, não mais, porém, como fenômeno principal que somente intente algum primeiro esboço de psiquismo, senão como fenômeno subordinado, com efeito de caráter secundário dependente da evolução psíquica e que o há de guiar como dona, considerando-o como meio para seus fins.

Deste modo, o homem atende, vivendo, a construção de sua alma, ou seja, de uma alma sempre mais complexa e potente; e em tal sentido a alma pode dizer-se um produto da vida. Um organismo novo tende a adquirir uma autonomia cada vez maior, que se cria continuamente e cada dia aumenta, enriquecendo-se com todas as experiências pelas quais atravessa. Certamente, é o mais alto produto da vida, o que representa o futuro da raça humana.

Temos chegado, assim, ao conceito da evolução espiritual, e o temos delineado. Observemo-lo ainda mais de perto em suas características.

Pouco ou nada se tem falado no passado com referência á evolução espiritual, porque o homem ignorou e nunca, anteriormente, viveu coletivamente em vasta escala este fenômeno. O passado não registra movimentos espirituais de massa que possam ser comparados com os atuais; não conheceu senão casos esporádicos de seres intelectual e moralmente adiantados, pioneiros do futuro que viveram isolados, e apenas muito tarde, e incompletamente, foram compreendidos. Somente os tempos presentes conhecem o despertar em massa da alma humana, e isto e justamente sua característica principal. Por isso a evolução espiritual pode considerar-se como fenômeno eminentemente moderno  e, indubitavelmente, o fenômeno do futuro.

Tenho a mais viva sensação de que a humanidade está hoje ensaiando os primeiros esboços de novas formas do ser; formas de personalidade que serão as individualidades espirituais do futuro. E que se voltou com ardor e firmeza à elaboração de organismos novos de uma constituição totalmente distinta, obediente à mesma lei que forçou a natureza a ir buscar, através de repetidos ensaios, nos albores da vida, as primeiras formas orgânicas, hoje desaparecidas, reveladas pela Paleontologia   Pelicossauros (Permiano), Pterossauros (Jurássico, Cretáceo), Plesiossauros, Ictiossauros, Dinossauros, os mais gigantescos, entre eles o famoso Brontossaurus.

Eram formas estranhas, mastodônticas, incompletas, destinadas a desaparecer logo através da luta pela seleção, estabilizando-se outras formas em novos equilíbrios. Presentemente, tenho a sensação de uma igual efervescência de luta, de um mesmo fervor de criação, de uma mesma rapidez na aparição e na desaparição das formas intentadas: monstruosidades grotescas, organismos espirituais anormais, almas estranhas, rapidamente eliminadas pela seleção.

Sem dúvida, a evolução humana passa hoje por um período crítico. A evolução (em sua primeira forma de evolução da matéria, seja cósmica — na história do sistema solar, seja geológica — na história do planeta, seja evolução das espécies químicas, — na estequiogênese) completou-se: vale dizer que alcançou seus graus máximos. A evolução orgânica ato fundamental na história da vida sobre nosso planeta —  também se completou, ou quase, e deteve-se. Em sua forma espiritual, a evolução inicia hoje um novo caminho com a criação de novas espécies psíquicas, ou seja individualizadas e distintas pelas características morfológicas de natureza prevalentemente psíquica. Este representa o fato fundamental na história da humanidade.

Classificá-lo-emos — num sentido mui lato — um fenômeno biológico, porquanto a evolução espiritual, não sendo senão a continuação da orgânica, é sempre vida, se bem que em forma diferente. Este fenômeno aguarda hoje um homem de ciência e de fé que o divulgue e o demonstre, assim como fizera Darwin com a evolução orgânica; aguarda o apóstolo que o defenda, e o gênio que o revele, não já com os métodos da intuição, patrimônio de alguns eleitos, senão com métodos racionais da ciência moderna, acessíveis a todos.

É indubitável que a alma humana, que começou a despertar-se, depois de um sono de quase vinte séculos, apenas consolidadas hoje as suas primeiras conquistas das grandes unidades nacionais, posta em contato com uma nova realidade criada pelos assombrosos descobrimentos da ciência moderna, está a ponto de afirmar-se definitivamente como organismo autônomo. Esta, que podemos chamar a gênese do psiquismo, representa um acontecimento novo na história do nosso planeta e da vida; um fato que recorda, em sua grandiosidade, o primeiro condensamento da matéria nas formas planetárias e o aparecimento das primeiras individualidades orgânicas da vida.

Trata-se de uma grande revolução da ordem, daquelas que explodem na natureza quando um fenômeno alcançou sua madureza, depois de um lento período de incubação silenciosa. Trata-se de uma revolução biológica, ou seja, da criação, por evolução, de um novo ser, de uma superelevação da vida, da formação em massa de seres mais evoluídos, até constituir uma nova super-humanidade do futuro..

O homem não foi no passado — espiritualmente falando — senão uma criança em sua grande maioria, e demonstra-o o fato de que a humanidade, até agora, nunca encarou a solução dos grandes problemas do conhecimento de forma racional, porém, acreditou no que os grandes, isolados e mais adiantados, haviam visto por si sós e revelado. Somente hoje a alma humana ousou caminhar sozinha, coordenando os esforços de todos, com métodos externos acessíveis a todos, e não revelados nos arcanos misteriosos dos templos: em uma palavra, elevando-se em massa para uma vida autônoma e constituindo-se em coletividade consciente e independente.

Estas últimas observações nos revelam um novo aspecto da evolução espiritual. Depois de tê-la estudado como evolução de órgãos e capacidades psíquicas, apercebo-me que a posso considerar também sob um ponto de vista distinto ou seja como a evolução de pensamentos e ideais. Tratando-se de um fenômeno sumamente interessante, e sobretudo de igual maturação, iminente no atual momento histórico, é mister não descuidá-lo para chegar ao fundo da questão.
   
Suspendamos, pois, por um momento — voltaremos a este tópico, mais adiante, na segunda parte (Métodos de Realização) — o estudo da evolução espiritual, considerada como superação biológica e gênese do psiquismo, e observemo-la sob outro ponto de vista, ou seja como desenvolvimento do pensamento coletivo da humanidade.

Chegamos assim às portas de uma nova ordem de conceitos que nos transferirá para um campo totalmente diverso: o estudo comparado das religiões. Com efeito, o pensamento coletivo do passado está contido, em grande parte, nas religiões. Para traçar a evolução espiritual, sob seu aspecto de "evolução de pensamento", é mister seguir a evolução das religiões. Encontraremos relações tais entre estas, concatenadas quanto ao mesmo fim no seu desenvolvimento que nos será dado ver e reconstruir a evolução de um conceito único e constante, que permanece fundamentalmente idêntico, ainda quando cresce e se aperfeiçoa continuamente até alcançar, nos tempos modernos, uma madureza de grandes proporções.

Poderemos, desta maneira, observar os antecedentes históricos que prepararam a atual maturidade espiritual, até o triunfo da ciência de nossos dias. Se ligamos este estudo a outro anterior e paralelo, o conceito de evolução espiritual, esclarecidos sob seus distintos e vários aspectos, parecer-nos-á mais completo e porá termo à primeira parte. Na segunda, voltaremos ao ponto de vista anterior, para desenvolvê-lo ainda mais e tratá-lo mais miudamente: falaremos assim dos métodos para realizar e acelerar este novíssimo fenômeno da época moderna que é a transformação do homem em super-homem, e a passagem para uma ordem de vida e de leis superiores.

A importância das religiões, como expoentes do pensamento coletivo, não pode ser posta em dúvida As religiões são as grandes filosofias coletivas, as únicas nas quais tomaram parte as massas humanas, e se dão as mãos e se unem como se fossem a ciência progressiva da humanidade. O pensamento delas se enriquece, adquirindo potência e profundidade, à medida que, com a evolução, aumentam a capacidade e o poder da alma humana. Intuições progressivas da verdade em forma sempre mais vasta e completa, relações de homens com o divino por obra de alguns eleitos e clarividentes, foram comunicadas, reveladas a uma humanidade que compreendeu e pôs em prática o que pôde, e que, absolutamente ignara em relação às concepções supranormais do subconsciente, aceitou-as na forma psicologicamente passiva da fé cega, a única possível, dado o nível espiritual da coletividade.

Sigamos, através da história das religiões, o desenvolvimento deste conceito único e fundamental, e encontraremos uma religião muito mais vasta, única e universal, e seguiremos sua evolução, que é a evolução do pensamento humano. Religião que vai desde o Vedantismo ao Bramanismo, a Buda, se difunde pelo Egito, chega ao Mosaísmo, para dilatar-se no Cristianismo até à ciência moderna. Avança em vagalhões, como um oceano em tempestade, agitado e impelido pelo sopro do Eterno. Sobre esta crista espumosa das ondas relampejam pensadores, mártires, profetas de todos os tempos e de todos os povos. Cada uma de suas formas é um esforço do pensamento humano para evoluir; é uma aproximação maior da verdade; é uma tentativa da alma humana para erigir-se em tipo de espiritualidade cada vez mais perfeita. Não é possível, neste escrito, seguir detalhadamente a história de todas as religiões da humanidade; será mister fazê-lo sinteticamente, limitando-nos às principais.

A evolução espiritual da humanidade pode dividir-se em três grandes etapas: o Budismo, o Cristianismo e a ciência moderna.

Na antiquíssima Índia, o Bramanismo, filho da sabedoria védica, havia realizado — ainda quando pelo sistema de iniciação secreta — a ciência do espírito, a que seguia com métodos de meditação e de disciplina ascética, chamados Ioga. Nas profundidades do mundo interior descobrira alguns grandes conceitos, com os quais havia resolvido os mais vastos problemas do conhecimento. Tudo isto, porem, em uma humanidade ignorante, havia quedado necessariamente como privilégio de uma casta e segredo de poucos iniciados. Somente com Buda — última flor do gênio hindu, surgido quando a civilização bramânica, esmagada sob o peso de seu passado, começava a cansar-se e a declinar — realizou-se publicamente o que o Bramanismo havia realizado em segredo, e lançou ao mundo — fazendo-a pela primeira vez patrimônio de todos — a mais profunda filosofia da vida. Foi este o primeiro passo.

O    Budismo divulgou dois grandes conceitos: tão grandes que ainda hoje não se extinguiu o seu eco na moderna Europa. Estes conceitos são: reencarnação e carma: Reencarnação significa uma série de vidas humanas sucessivas para a mesma personalidade espiritual. Carma significa encadeamento, sucessão lógica dessas vidas, seu desenvolvimento no tempo de acordo com uma lei de causalidade que, com perfeita justiça, cria o destino individual. Foi assim, através do Budismo, que esta grande idéia da evolução espiritual começou a formar-se na consciência coletiva.

Afirmada a existência desta evolução com os conceitos de reencarnação e carma, o Budismo começou a realizá-la seja com a renúncia, como meio de libertação e ascensão, seja com os métodos de introspecção e análise por intuição. Conduzindo a novas formas de visão psíquica e percepção espiritual, revelando e aperfeiçoando os misteriosos poderes do espírito   — que ainda hoje permanecem vivos e vitais, em um mundo tão diferente — volvem a influir até entre os pregadores do materialismo científico, causando perplexidade ao homem moderno, acostumado a perceber tão-somente com os sentidos e a investigar, exclusivamente, com a observação e a experimentação.

O Cristianismo dá um passo ainda mais gigantesco Se o Budismo viu, na evolução espiritual, a fase da destruição da animalidade (supressão do desejo, renúncia), o Cristianismo observou a sua fase sucessiva, a reconstrução do super-homem; se Buda disse: "a evolução espiritual existe (reencarnação, carma); buscai-a em vós mesmos" (introspecção), somente Cristo traçou no campo desta evolução a realização completa de nosso progresso. Porém, a distância que separa o Cristianismo do Budismo se evidencia toda no problema da dor. As religiões, realizando a evolução, não são mais do que formas de luta contra esta grande inimiga, já que a missão da evolução é suprimi-la, embora ela signifique instrumento de felicidade, progresso e até bem-estar.

No fundo, Buda e Cristo partiram da observação desta lei atroz e própria da animalidade, da qual não está isento o homem, e que foi definida por Darwin "a luta pela seleção do mais forte"; luta que não conhece piedade, necessidade inevitável no nível das formas inferiores de vida, e que engendra, como mal irreparável, a dor. Buda, movido por uma imensa piedade, foi o primeiro que expôs o problema de sua supressão e buscou um sistema que cortaria o mal pela raiz, no afogamento do desejo na aniquilação a vida. Por último, numa renúncia completa que culmina no Nirvana, na paz absoluta da libertação. Uma fuga da vida, para libertar-se dos males que lhe ao próprios; uma negação global das dores e prazeres, no estacionamento sublime da imobilidade.

Assim a luta, que é a causa da dor, é atacada no desejo, sua primeira raiz posta no coração do homem. Sem dúvida, com ele o problema da dor é enfrentado com toda a energia.

O Cristianismo, mesmo quando segue e completa o mesmo conceito, chega muito mais longe: o problema é exposto e resolvido em forma distinta e mais radical. Se o Budismo, para destruir a causa da dor, se conforma — mediante a supressão do desejo — com o aniquilar a natureza inferior no homem, o Cristianismo —  conduzindo-o de todo a outro nível biológico   — fá-lo ressurgir em um mundo novo onde a lei atroz da luta pela seleção do mais forte — lei bestial da injustiça e da força — é superada, e com esta a dor acaba definitivamente vencida. Se o Budismo se limita a explicá-la, e justificá-la, chegando, através da introspecção, aos conceitos de reencarnação e carma, e ensina, pela renúncia, o modo de evitá-la, o Cristianismo, dizendo paixão, redenção e ressurreição, ensina a utilizá-la e amá-la como um precioso instrumento que serve de alavanca para evoluir e edificar-se em uma vida mais elevada.

No Cristianismo, a dor já não é a ameaça e o terror do homem, o inimigo contra o qual se luta; até que seja — por assim dizer  domesticada e se converta em força amiga e útil para realizar a evolução espiritual, ou uma aproximação cada vez maior da felicidade. Ao inimigo do homem não se pode vibrar golpe mais rude.

A transformação da dor, de instrumento de pena em um meio de felicidade, não só é concepção nova na história do pensamento humano, senão também uma estrepitosa vitória, a maior revolução moral que jamais haja existido. Tudo isto não é senão a boa nova predicada por Cristo. Nesta valorização da dor reside o significado do Cristianismo: este é a apoteose da dor e baseia-se sobre a vida do Cristo, que foi o poema da paixão. Buda não teve paixão: ele adormeceu tranqüilamente no Nirvana. Eis aqui o profundo significado do drama da cruz: elevação, até os mais altos graus dos valores humanos, de tudo o que havia de mais abominável  — a dor; cruz que se converte em símbolo de uma religião, santificando o que o homem havia temido e odiado.

Vencer a dor, abraçando-a e amando-a, e ao mesmo tempo utilizá-la como o mais ativo fator de evolução, como um meio sempre ao alcance da mão para fazer do homem um ser novo que vive uma vida mais elevada, mais santa, mais feliz: este é o significado da redenção e da ressurreição cristã. O Budismo, embora o largo caminho já percorrido, não pudera de nenhum modo chegar a uma tão profunda Interpretação da vida: movera todas as forças da inteligência, porém somente o Cristianismo movimentou todas as forças do coração. Somente o Cristo ressurge. O Cristianismo é uma elevação imensa e cálida para a vida, entendida em uma forma mais digna. As paixões humanas não são destruídas senão em sua forma inferior, e subsistem e se levantam para um nível mais alto; o paraíso cristão não é somente o descanso que deriva da negação da dor e do mal, mas é uma nova forma de vida da qual o homem se expande depois de sua reconstrução espiritual, que é a sua ressurreição e sua redenção.

Não devemos, por isso, conceber um antagonismo entre Budismo e Cristianismo. Haverá, no máximo, contradição nas formas e exteriormente, porém na realidade não se trata de uma verdade colocada à frente de um erro Nenhuma religião constitui um erro, se ocupa o seu lugar. O Cristianismo é, simplesmente, mais evoluído e mais completo do que o Budismo, é sua continuação lógica, a evolução de. um mesmo conceito que, uma vez iniciado avança consegue uma perfeição maior. Relação entre o menos, que prepara o mais, e o mais que pressupõe o menos; uma complementação recíproca de elementos, indispensável para formar uma religião completa; um Cristianismo explicado pelo Budismo naquelas partes (reencarnação e carma) que o Cristianismo esqueceu em seu caminho; um Budismo completado pelo Cristianismo (redenção através da dor). Duas concepções não contrárias entre si, pois a maior compreende a menor em seu seio; dois métodos, sendo o segundo mais completo do que o primeiro; duas filosofias progressivas que marcam duas etapas no caminho da evolução espiritual da humanidade; dois graus na mesma escala do progresso humano; duas revelações aparecidas em distintos momentos históricos nos quais a humanidade se encontrava em diferentes graus de madureza; dois ideais de diferente potencialidade que se subseguem no mesmo caminho.

Deixei de mencionar, por brevidade, as outras religiões do passado, que podem vincular-se a estes dois troncos principais, como ramos laterais de uma mesma árvore: seja a egípcia, que possui muita afinidade, em suas concepções da vida, com a antiga civilização da Índia. A religião de Israel não é senão a preparação do terreno em que devia nascer o Cristianismo. Estas religiões se auxiliaram e se sustentaram mutuamente, confiando-se a custódia dos grandes conceitos que se deviam conservar, maturar e assimilar, transmitindo-os para que fossem aperfeiçoados ainda mais, uma vez cumprida sua própria função histórica. Assim, profetas e povos foram elaborando, pouco a pouco — como a construção de um grande edifício — a trama de uma religião mais vasta, que se levanta sobre os alicerces de uma verdade única, que se mantiveram constantes através das formas mais diferentes dos tempos e lugares, manifestando-se cada vez mais luminosamente.

Não falo da antiga Grécia fenômeno espiritual mais complexo, que, se por um lado contém e transmite os germes conceptuais do Oriente ao Ocidente, por outro pode ser considerado — na perfeita realização conseguida do divino no humano, na mais harmônica fusão alcançada entre o espírito e a matéria — como um descenso daquele nesta e uma pausa no caminho da evolução espiritual. Especialmente se vinculamos o Helenismo à antiga Roma (que careceu de conceitos espirituais, pois não podia possuí-los o ideal do domínio material do mundo conseguido pelo sistema da organização da força) encontraremos nele a elaboração de um conceito distinto: aquele ao qual, mais tarde, devia nascer o materialismo utilitarista moderno. Trata-se de um materialismo primeiramente helênico, depois romano, e em seguida moderno: uma concepção pagã da vida que difere das concepções religiosas do ciclo examinado na evolução espiritual, porquanto não se propõe — como aquelas — realizar a felicidade no mundo interno, não desenvolvendo, mas dominando o mundo e a natureza com a inteligência e a força. Estes são os dois extremos do pensamento humano: espírito e matéria, paganismo e Cristianismo. Ocidente e Oriente —  o Oriente permanece indiferente ante o mundo exterior, esquivando-se ao seu contato para dedicar exclusivamente no aperfeiçoamento da personalidade humana, e o Ocidente que triunfa hoje na moderna civilização européia-americana, segue o ideal oposto. As duas concepções, no Oriente e no Ocidente, também hoje se encontram frente a frente: o alcance da felicidade, através da evolução do mundo exterior, apegando-se cada vez mais a este. Em outros termos, dois métodos — renúncia e conquista, dor e trabalho; dois adversários que se excluem, destinados, porém, quem sabe, a unir-se e a colaborar. Levar-nos-ia muito longe, porém, a explicação das complexas funções destas forças colaterais que atuam nestas civilizações de tipo distinto. Não nos cabe falar das ramificações mais recentes que se diferenciam do Cristianismo tão-somente em pormenores; volvamos, pois, ao argumento interrompido.

O    Cristianismo não se detém no caminho da evolução espiritual. A idéia de Cristo sobre a redenção do homem apenas se lançou na história do mundo. Em dois mil anos a humanidade assimilou somente uma pequena parte, permanecendo pagã e politeísta como antes. Fixaram-se apenas, — e nem sempre em forma estável — alguns conceitos nas instituições que hoje constituem o patrimônio da civilização moderna, que é a civilização cristã. Estamos ainda longe da realização completa da idéia de Cristo, aquela que os Evangelhos chamam a “vinda do Reino dos Céus”. Para realizá-la, importaria que a moral de Cristo saturasse totalmente as instituições, que se formasse uma humanidade organizada sobre bases distintas e radicalmente diferente sobretudo nos instintos, nas normas de vida, na fé dos indivíduos. A evolução espiritual  tem, pois, largo caminho a percorrer..

Entretanto, um fato novo surgiu neste último século: a ciência. A ciência representa, depois do Budismo e do Cristianismo, um novo grande passo a frente no caminho da evolução espiritual. A ciência moderna, se bem que tenha começado excedendo-se, no afã de concluir, arrastada pelo entusiasmo de seu primeiro aparecimento e também por uma natural reação corretiva do abuso que as religiões praticaram; se bem, apenas nascida, fundira-se no materialismo, infectando o mundo de utilitarismo, fazendo retrogradar o homem àquela animalidade na qual somente o havia estudado, e produzindo — como última repercussão — desastres coletivos dos quais a Europa ainda demorar-se-á para se refazer, apesar de tudo —  dizia —  a ciência moderna constitui um acontecimento novo na história da alma humana. Se a necessidade de se afirmar levou-a a exagerar desde o princípio, e engendrou a atual civilização utilitária, necessariamente truncada e unilateral, entretanto este esforço de pensar por si, com que a humanidade demonstra ter ultrapassado para sempre a idade menor da fé na revelação, é maravilhoso. Até então a verdade — como já disse antes — era oferecida, já plasmada, pelos grandes solitários, os quais, tendo-a intuído com meios próprios e excepcionais, comunicavam-na em seguida a uma humanidade que, sendo incapaz de encontrá-la por suas próprias forças, aceitava-a passivamente. A humanidade, hoje; rechaça esta forma primitiva de conhecimento, ousando olhar de frente, unicamente com suas próprias forças, o mistério. É uma humanidade em marcha para a sua idade adulta e que deseja olhar o mundo. Com seus próprios olhos. Eis o grande passo para a frente que a humanidade realiza hoje no caminho da evolução espiritual: progresso, porquanto, todos são admitidos na investigação e colaboram na mesma com métodos novos: a observação e a experimentação. Todos aqueles que desejam e sabem, podem conduzir o seu grão de areia na construção do grande edifício da verdade, e os resultados são acessíveis a todos, através das formas de vulgarização do saber e a democratização dos conhecimentos anteriormente ignorados.

Isto há de conduzir a humanidade para a sua madureza intelectual, a fim de seguir, sem antagonismo, o caminho empreendido pelo Budismo e pelo Cristianismo. Sem antagonismo e, se os teve e todavia os possui, são transitórios e relativos. O objetivo fundamental da verdadeira ciência é o mesmo que o das religiões: a busca da verdade; e à força de a buscar, esta ciência terá de chegar necessariamente onde nunca tivera suspeitado chegar: a demonstração da idéia de Cristo. É natural que se encontrem na meta, que é a mesma, porquanto são somente distintas as rotas seguidas para alcançá-las: por uma parte a revelação, por outra a observação. A verdade, que é una, não pode variar pelo fato de ser alcançada por vias diferentes. Esta é, justamente, a função histórica da ciência moderna, e não mais a utilitária, que apenas possui como fim a realização de uma felicidade material. Este é seu significado como nova etapa na estrada da evolução espiritual do homem: a demonstração das verdades, até então somente conhecidas por revelação, contidas nas religiões.

Estas perderão seu aspecto misterioso e inacessível que tanto fatiga a mentalidade moderna. Preencherão suas lacunas, desaparecerão seus antagonismos exteriores e aparentes e suas discrepâncias com várias filosofias. Adquirirão, com a demonstração cientifica, a evidência, a tangibilidade que hoje atormentam e as imporão — por assim dizê-lo — a todo ser racional. Assim, a ciência moderna, seguindo a estrada e completando a obra do Budismo e do Cristianismo, assinalará a chegada do Reino dos Céus, ou melhor, oferecer-nos-á o super-homem espiritualizado do futuro e realizará uma fase ainda mais avançada da evolução espiritual.

Resumindo: o mérito de haver primeiramente afirmado a existência da evolução espiritual corresponde ao Budismo; ao Cristianismo o de haver ensinado os meios para realizá-la. Corresponderá à Ciência o de demonstrá-la, divulgá-la e, em seguida, realizá-la.

Observamos, realmente, em nosso mundo civil, um fato sintomático de primordial importância para a história da evolução espiritual Na Europa moderna, cadinho das idéias do mundo, em um período febril que quase raia ao neurótico, em um momento espiritualmente critico como o atual, no qual parecem agitar-se as grandes idéias da História e das correntes espirituais da humanidade, nesta Europa dizia encontramos reunidas as três grandes formas do pensamento humano: o Budismo, o Cristianismo, a Ciência. O Budismo antigo, ressurgido no moderno movimento teosófico, representa a idéia de reencarnação e carma, o conhecimento de métodos para encontrar uma consciência interior através das escolas do pensamento, e uma primeira forma de purificação espiritual por intermédio da renúncia. Estes conceitos profundos da antiga sabedoria hindu são necessários para explicar e completar a filosofia cristã que, com o correr dos séculos, os ia perdendo. A teosofia neobudista está, desta maneira, confiada uma grande missão na reconstrução espiritual da Europa moderna. O Cristianismo, nas formas de Catolicismo, Protestantismo e outras afins, representa a idéia da função criadora da dor no mundo espiritual, o conhecimento dos métodos de evolução das paixões e dos instintos, métodos tendentes a realizar a transformação biológica do homem no super-homem, isto é, o aparecimento do novo homem espiritual: missão de reconstruir a humanidade, reconstruindo o indivíduo. A ciência, em suas infinitas ramificações, representa a função da demonstração racional das verdades reveladas, e, com isto, a obra de divulgar as idéias contidas nas religiões e de realizar na vida os postulados das mesmas: fecundação das idéias dos grandes solitários mediante o esforço da série infinita dos indivíduos, missão de realizar a evolução espiritual.

Se, porém, cada uma destas três grandes forças espirituais representa uma idéia, uma tarefa, um trabalho próprio, as três juntas tendem a um fim muito maior que é o de conseguir a fusão de todas as concepções em uma concepção única e mais ampla, fusão que será a unificação espiritual de religiões, filosofias e ciência, síntese de todo pensamento humano, nova religião do futuro, na qual todas as sucessivas e diversas aproximações da verdade, conquistada paulatinamente pelo homem, encontrarão seu lugar, completando-se e fundindo-se numa só verdade universal.

Temos notado, através do desenvolvimento da idéia religiosa da humanidade, a presença de um pensamento constante, mesmo quando se vai transformando no tempo, em um conceito único e universal, se bem que plasmado diferentemente pelos distintos temperamentos dos povos. Existe, pois, apesar das distâncias de tempo e espaço — uma concordância de princípios fundamentais, uma relação de partes, um aumento contínuo e do mesmo núcleo primitivo que não deixam lugar a nenhuma dúvida.

Não devemos alarmar-nos pelas aparências, isto é, se aparentemente estas três grandes forças espirituais se encontrem em conflito, se tendem a excluir-se, se estão continuamente em luta. Lutam pela necessidade mais urgente, que é a de afirmar-se a si mesmas, se bem que separadamente, ou seja, de defender antes de tudo a sua própria existência. Sentindo-se cada uma delas um elemento vital, indispensável ao futuro do pensamento humano, defendem-se desesperadamente, como se tivessem o terrível pressentimento de que seu próprio fim poderá prejudicar a reorganização futura dos mais altos destinos do espírito humano. Este instinto de conservação individual é natural e providencial. Todavia, no fundo, se as três forças se chocam entre si, é também para que se conheçam melhor, é porque, na realidade, buscam-se para tocar-se, para sentir-se, para encontrar um encaixe que lhes permita, algum dia, a fusão. Se a preocupação pela própria integridade e conservação é, como no indivíduo, a mais pertinaz, não é menos viva, se bem que menos visível, a de poder achar um meio de uma fusão futura. Estes três princípios, o Budismo, o Cristianismo e a Ciência, acabarão por fundir-se na Europa moderna, transbordante de idéias, que continua sendo o cérebro do mundo, se bem que esteja bastante cansada pelo muito que lutou e viveu.

Nesta Europa ultramadura, a civilização fartamente avançada, para que não deva iniciar sua regressão, antes de extinguir-se, deseja brindar ao mundo a maior criação do pensamento humano: a religião sintética do futuro. Outros povos do Ocidente americano, mais jovens e mais aptos para a luta, herdarão — como já vêm herdando toda a nossa civilização a nova grande fé, e viverão para levá-la mais adiante. Todavia, mesmo que a Europa tivesse vivido tão-somente para realizar esta criação, não teria vivido inutilmente.

 

Ressurreição! O homem, libertado, ressurge. A evolução espiritual se cumpre. A grande lei da vida triunfa. Percebo o rugido da maré que avança dos mais profundos abismos e impele os seres a uma corrida desenfreada de ascensão, e que é o hálito da vida. Sinto a grande lei, princípio e força que anima o Universo, apressar, com o movimento lento e fatal de todo o seu complexo organismo de formas e de conceitos, este momento supremo para onde converge todo o transformismo fenomênico, para este ponto culminante que é a superação biológica, a transfiguração no super-humano. Toda a vida se acha empenhada no esforço de forjar seu produto mais elevado no grande trabalho da última síntese. De um mundo de luta e de dor a alma renasce em luz nova e respira a atmosfera rarefeita das grandes alturas.

Antes de empreender o grande vôo, há um ponto no qual a alma se retarda em vacilação e incerteza, o ponto neutro do transformismo. A vida se desenvolve, então, como um canto cheio de nostálgica tristeza, formada por todos os sonhos dispersos no vazio do nada, e, como folhas murchas do outono, caem uma após outra as ilusões e as miragens. O canto morre em nostalgia sem nome, apaga-se quase em calafrio mortal. Extraviada em deserto desolado e sem fim, a voz retumbante do eu se desvanece em canção lamuriante de sonho. Com a entonação doce e triste da recordação, a alma canta desconsoladamente. Seu canto é triste como um suspiro; gemendo, afasta-se da Terra. O eco distante dos amores perdidos ainda vibra no ar solitário, música doce dos sentidos que se extinguiram para sempre. Recordação dolorosa. Numa angústia mais profunda, que transborda do mistério, o último adeus à vida flutua largamente como que suspenso no vazio; em seguida, lentamente, desce para desvanecer-se num aniquilamento, que já não possui voz, mas tão-somente um latejo de vibração interna. A vida humana dissolveu-se instantaneamente: eis o nada. Algo delineia-se naquele vazio, como uma nebulosa, e se vai dilatando e transbordando em outro esplendor. Uma estranha vida renasce nas profundezas; uma sensibilidade anímica, novo meio de percepção, abre de par a par as portas ao eu esmagado que vislumbra uma visão semelhante a um sonho. Eis aqui o supranormal inexplorado, em cujo umbral a alma assoma estupefata, e sobre o qual se manifestam as pseudo-neuroses incompreendidas do gênio e do santo. Eis aqui o super-homem solitário e sofredor, enfastiado dos ídolos das multidões, aturdido pelo bulício da vida, abstraído e inepto porque seu espírito nada faz senão escutar atentamente uma canção sem fim que se levanta de seu interior e sobe de encontro ao infinito. Na sua hipersensibilidade torturante reflete-se o tormento sagrado da criação, em que se desnuda a beleza luminosa da alma. Estranho sonhador, absorto nos ócios fecundos que amadurecem sua ânsia interna invisível, padece uma paixão que não se endereça mais ao homem, porém ao universo. É heróico arcar com o peso de uma idéia grande. Este peso, que esmaga, assusta e oprime com uma sensação de desproporção e de miséria.

Como se poderia calcular o custo destas conquistas, como descrever o drama terrível que vivem estes espíritos doridos que levam dentro de si a ânsia de criação? Enquanto nós outros gozamos os frutos humanos que aplacam e dispersam as forças do espírito, eles se reconcentram para intentar o esforço sobre-humano, vivem de coisas imensas, de esperanças e desalentos inconcebíveis, empenhados em lutas titânicas contra forças titânicas; pedem à vida aquele quase impossível que é a realização do ideal, sem descansar em prazeres fáceis, sem possibilidade de jamais se conformar com a mediocridade, empurrados como num turbilhão, por um trabalho incessante de evolução. Como descrever o terror de quem se assoma sozinho ao abismo dos grandes mistérios e percebe, sobre o limiar do supranormal, a visão de novas realidades sem limites? Como conceber a sensação de vertigem que dão certas alturas à  natureza humana e a triste solidão da alma diante da desmesurada inconsciência das massas, mercê da insuficiência de um mecanismo sensorial e cerebral que não consegue agarrar a parte mais verdadeira e mais profunda da vida? Depois, a luta para ascender sozinho, a desvinculação atroz dos laços da animalidade que com freqüência constituem integralmente a vida; o esforço, às vezes perigoso e malogrado, para forçar a aceleração do processo evolutivo. Atrás de cada vitória, a vertigem de uma altura maior, até que apareça um novo mundo de grandiosidade arrebatadora. Dores e angústias recompensadas não mais pela humanidade, mas pelas forças biológicas. Dores necessárias para a criação de valores maiores, os espirituais.

Depois do exame da evolução espiritual como conceito, desde o ponto de vista científico até o religioso; depois do estudo dos meios para realizá-la, sob o ponto de vista social e espiritual, consideremo-la, agora, com um ritmo mais rápido e vibrante, como um impulso de paixão, na plenitude de sua realização. Completaremos, desta maneira, mudando continuamente de perspectiva, o quadro desta concepção que é uma filosofia universal e completa da vida.

Vimos que os caminhos da libertação nos conduzem ao reino do super-homem, a cujos umbrais chegamos, onde se efetua a superação biológica. O nascimento do super-homem pressupõe a morte do homem, ou seja, um isolamento e uma luta. É o isolamento do mundo inferior, é a luta entre o espírito e a matéria, entre o ser novo que se liberta e ressurge e a animalidade que não deseja e, entretanto, deve morrer. Na desvinculação entre espírito e matéria, na libertação deste novo ser que, impulsionado pela lenta maturação do tempo, surge estranhamente num mundo novo com novos sentidos, instintos e conceitos. Aí existe todo um esforço de ascensão, laboriosidade do parto, ânsia de criação, isso depois de uma incubação milenária, a força de acumular experiências e aptidões, crescendo e aperfeiçoando-se com o trabalho da vida. Há algo que recorda, se bem que muito longinquamente, o glorioso nascimento da vida no mundo orgânico — uma grande conquista depois de enorme trabalho e prolongado esforço.

O    homem, já chegado ao máximo da evolução terrestre, avança ainda mais além, apartando-se da animalidade que lhe era própria, superando-a totalmente com novas e mais vastas aptidões, até revolucionar a vida.

O    espírito, aprisionado pela matéria, já antes de nascer, no período penoso do ensaio, se debate dentro do organismo corpóreo insuficiente e preguiçoso como entre paredes de um cárcere. Urge-lhe crescer, e o mecanismo sensorial já não responde mais a crescente vontade de perceber e de viver. Este novo organismo, que é a alma, deseja romper a carcassa para expandir-se na luz do Sol; deseja superar o passado e abrir-se nas rotas da vida ressurgindo no júbilo de uma renovada juventude. Este é o significado íntimo dos fenômenos metapsíquicos, que tendem a normalizar-se e das manifestações cada vez mais claras do subconsciente na realidade cotidiana. Existe dentro de nós mesmos, e se vai definindo cada vez mais, uma personalidade ansiosa de vida própria. Grita sempre mais forte e golpeia desesperadamente o nosso interior, como se fora porta cerrada de um cárcere. Cada dia é mais castigada pela estreiteza dos limites do mecanismo sensorial. Quanto mais naturalmente se dilata, busca lançar-se fora nas realidades novas e mais vastas, para a conquista de uma vida independente.

Encontramos descrita perfeitamente esta luta e este esforço em muitas passagens psicológicas da literatura mística, como por exemplo, no sonho relatado no Capítulo XXV de I Fioretti, de São Francisco, para demonstração de que os "santos", seres biologicamente "adiantados", viveram realmente este drama íntimo: o espírito ensaia vôos e cai. Depois se purifica, cobra forças através de outras provas para volver a reiteradas tentativas. Caindo e ensaiando de novo, consegue, finalmente, o vôo vitorioso.

O    espírito sofre na longa espera, mas o futuro lhe pertence. A matéria é tenaz em sua opressão, mas como filha do passado fenece com este.

O    homem atual oscila entre as duas fases contíguas, num dualismo de formas de vida que evidencia o transformismo ascendente, dualismo que observamos em todos os valores humanos e que agora volvemos a encontrar no homem. Apresenta-se-nos, assim, uma duplicidade de organismos em um único ser, conexos e distintos ao mesmo tempo, juntos mas não fundidos, distanciados por uma rivalidade que é uma guerra sem quartel para conquistar todo o campo da vida; corpo e alma, matéria e espírito, os quais, assim como a força e a justiça, a dor e o prazer, o mal e o bem, somente representam, no caminho da evolução, o passado e o futuro. Nada importa se a existência do espírito, essência destilada de todas as experiências da vida, que tudo compendia e conserva eternamente, por ser uma entidade sutil e impalpável, foi negada. Não importa tampouco se, em muitos casos, a alma silencia, pois o seu componente físico é débil. Para outros, ela é uma realidade contínua, evidente, indiscutível; se não é ainda possível, para a sua demonstração, executar uma exata anatomia espiritual, é devido tão-somente a falta de meios sutis de investigação. Quem busca provas racionais para encontrar a alma atesta a sua própria involução. A alma, como Deus, não se demonstra; é sentida e é alcançada dentro de nós mesmos por intuição e não por um esforço exterior de raciocínio.

Em alguns seres avançados, nos quais o espírito se sente maduro para uma vida própria e reclama a sua afirmação em contraste com um organismo que não quer ceder seu campo e perecer, a luta pode chegar a ser terrível. Aquele organismo, se está destinado a eliminação para ser inexoravelmente vencido com o tempo, resume toda a animalidade e é a cristalização de um passado que representa, pela sua massa, uma força e um impulso imensos. À chama ardente do espírito a matéria opõe a inércia das grandes massas, agarra-se, como pesado lastro, ao anjo alado que se atrasa na impaciência do vôo. Podemos imaginar a vida não mais como um ponto, mas como um rasto que vai crescendo até cobrir um bom trecho do caminho da evolução.

O    espírito é o seu limite extremo avançado, a locomotiva em marcha que devora distancias, ou ainda, o chefe que vê, guia e manobra. A matéria é massa que, se gravita por inércia, garante a estabilidade, é um corpo que, mesmo dificultando, também assimila, fixa e conserva as conquistas realizadas ainda quando se estenda ao limite oposto do qual a vida se vai afastando cada vez mais. O espírito, que marcha a frente, em processo de contínua e progressiva criação, ansioso por viver "mais além", tem a seu cargo todo o trabalho da marcha e é o inimigo natural de tudo quanto vem atraindo atrás de si. A matéria, em compensação, é um organismo animal feito para abastecer-se a si mesmo e não as criações espirituais, um organismo cujas células estão construídas para as trocas comuns e não para suportar as tempestades do espírito. Este organismo é o inimigo natural do espírito que, para afirmar-se a todo o transe, lhe impõe um trabalho pesado e até o agride, como para matá-lo, a fim de libertar-se dele. Daí esse desequilíbrio que se quis incluir no patológico e que somente é um deslocamento de centro de vida, a aparência exterior de um intenso trabalho de criação. Dentro da vida se encontram o enorme trabalho do renascimento e a dor da morte. O espírito é organismo em crescimento contínuo que no seu incessante renovar-se vai matando cada vez mais a besta no homem. Cada segundo é fração de transformismo evolutivo, no qual uma parte do ser morre e volve a nascer; desloca a vida para dá-la ao espírito, subtraindo-a a matéria. Nenhuma criação é possível sem trabalho e sem dor. Uma parte de nós outros, dada a autoridade da lei que é um impulso irresistível de evolução, deve separar-se para ser abandonada e substituída de outro modo. A natureza inferior está obrigada a este trabalho típico de reparação do mundo de hábitos e instintos que foi seu e que deve extinguir-se. Isto não quer dizer que ela, sentindo-se desfazer pelo ímpeto da borrasca, não resista por instinto de conservação e não se rebele para não perecer. Apertada em engrenagem que a vai esmagando cada vez mais, presa por uma sensação de asfixia e de terror da morte, luta desesperadamente. Daí essa batalha interior, verdadeiramente épica, e que é a maior de todas as glórias humanas. Drama laborioso e fecundo através do qual resplandece a função evolutiva da dor.

Existe um duplo trabalho: o florescimento do espírito, órgão novo que intenta alcançar cada vez mais solidamente as futuras formas; o sofrimento e a morte de um organismo que se sente limitado em suas expansões máximas, formado e afirmado solidamente nos séculos vividos, sob a presidência da mesma lei que agora o mata. Esta morte daquela parte de nós mesmos, que em geral é a mais sólida, pois data da herança dos instintos mais antigos, é o maior tormento. É o justo preço da conquista da evolução.

É bem certo que o caminho da superação, por ser feito de renúncia, é o caminho da tristeza e causa horror, encerrando, todavia, uma alegria que compensa. Não sofre o ser em sua totalidade tais restrições, mas somente o organismo inferior, o único que grita, enquanto a parte mais nobre do eu goza e se alegra ao vislumbrar nova e ilimitada expansão.

Encontramo-nos também aqui na frente de dois conceitos inversos e complementares: a função da dor, que no mundo animal é destrutiva e se inverte no mundo espiritual em função criadora. O que para os instintos inferiores significa terror e morte, para o espírito é gozo e vida, e ao contrário. A evolução impõe-se sempre dentro de perfeito equilíbrio de justiça; não é possível se esquivar a um sofrimento, assim como não se pode recusar uma alegria. Quem se entrega aos gozos do espírito deve sofrer o tormento da carne; e quem se entrega aos da matéria sofre um contínuo desassossego, o remorso da consciência, que não é possível abafar, pois despertará quando cair a ilusão. Parece impossível uma posição de ócio, porque a evolução é lei inexorável que nos impõe a conquista de nossa felicidade.

Espírito e matéria representam duas formas de vida tão diferentes que o ser não pode contê-los ao mesmo tempo sem dar a um deles a primazia com menoscabo do outro. Dois amos, dizia Cristo, aos quais não se pode servir ao mesmo tempo   Deus e o Diabo.

A natureza do espírito é positiva, ativa, criadora. Sua necessidade suprema é dar e doar-se. Seu gozo é o altruísmo, o sacrifício.

A matéria, ao revés, é negativa, passiva, inerte; para suster-se necessita receber, absorver continuamente do mundo exterior; o acumular constitui seu gozo primordial. Cega e muda por natureza, não pode viver se não for fecundada e plasmada pela potência do espírito e reanimada incessantemente por seu abraço vivificador. Daí o egoísmo, a avidez de sua pobre vida reflexa, o insaciável desejo de posse e de domínio. Se o espírito é tão inesgotavelmente rico que pode dar sempre sem se acabar jamais, a matéria é tão pobre que nada pode dar sem sentir-se morrer. Sempre sedenta e famélica, ela é toda garras para pegar, feita para agarrar e entesourar, pois nos mundos inferiores o dar importa em diminuição e autodestruição.

Disto nasce a sua atitude contraditória. O que para o espírito representa a separação dos vínculos de um mundo inferior e a libertação, para a matéria é a desesperação da morte. Agarra-se ao espírito, disputando-lhe qualquer ascensão e intentando melhor sujeita-lo aos seus fins. Estabelece-se desta maneira entre os dois uma luta pela vida, luta que será tanto mais árdua quanto mais forte e atrasado for o nosso eu inferior.

Não atendamos à sua voz desesperada. Deixemo-lo, heroicamente, gritar e perecer, vencendo a resistência que aperta cada vez mais as cadeias de nossa escravidão. Se soubermos superar o primeiro esforço, que é sempre o mais penoso, experimentamos no espírito, de imediato, uma sensação de bem-estar, uma alegria em nossa consciência que irá aumentando à  medida que avançamos para o progresso, até que se forme em nós o hábito do mando. A cada vitória, a matéria mais debilitada afrouxara o seu apertão e o sofrimento perderá cada vez mais algo de sua intensidade. Se é doloroso matar a natureza inferior, este é o único meio para matar também a dor que, como vimos, desaparece com a libertação, pois a pena da separação deriva totalmente da natureza inferior e não existe para o espírito que se tenha liberto da mesma. O sofrimento reside todo na imperfeição, na impotência, nas limitações que são inerentes à matéria enquanto que, para o espírito, esta é a rota radiante da redenção e da vida.

O fenômeno da superação biológica que nos conduz ao reinado do super-homem assume, pois, a forma de uma luta entre o futuro e o passado, entre o espírito e a matéria, e efetua-se mediante a renúncia, que poderíamos já definir como o processo de realização do transformismo evolutivo. O problema transfigura-se de superação em luta, de luta em renúncia. A renúncia manifesta-se-nos sob dois aspectos distintos. Para o ser ignorante e passivo, que não se move senão sob o empuxo da lei, há uma renúncia forçada, imposta pela evolução, inexoravelmente — a dor — o caminho das grandes massas inconscientes, lento mas inevitável, o caminho de libertação que já examinamos. Existe a renúncia voluntária, caminho rápido, consciente e livre, reservado para aquele que sabe e se lança espontaneamente, sem aguardar imposições, na corrente da evolução e segue-a ativamente, acelera o seu curso, buscando-a e utilizando-a como um instrumento no caminho da libertação a que aludimos e que estudaremos aqui. Duas escolas diferentes de progresso, igualmente necessárias, das quais não se escapa a não ser para sair de uma para a outra. Ou a dor ou a renúncia. Eis a exigência da evolução e a evolução é a vida.

Dor e renúncia não são, pois, senão duas fases desta operação. Tocam-se como fenômenos contíguos que tendem, de pontos diferentes, a um mesmo fim, — a libertação. Volvamos ao problema da dor para ver como esta se transforma gradualmente até resolver-se no problema da renúncia. Chegaremos assim a explicar-nos o significado deste conceito da renúncia, absurdo e inadmissível, se o separarmos do da evolução que o utiliza como instrumento de superação e ascensão. Estudaremos uma questão mencionada anteriormente, a da renúncia como meio de libertação; veremos como deve ser usado este meio, qual é o dinamismo de seu funcionamento que nos conduz ao reinado do super-homem, onde, finalmente, se realiza a evolução espiritual tão amplamente preparada.

Deixei de enumerar entre os caminhos da libertação os sistemas de Ioga, escola de pensamento e desenvolvimento espiritual, a ciência oriental da evolução, não só porque este estudo nos levaria demasiado longe senão também porque estes sistemas são adequados especialmente aos que podem viver em isolamento monástico. Limitamo-nos, deliberadamente, a uma ordem de idéias ocidentais e científicas e chegaremos à  realização do Ioga com os meios da nossa própria psicologia.

A dor, contra a qual de nada valem a riqueza, a ciência e o poder, entra inexoravelmente em todos os lugares e sabe fazer-se sentir também naqueles que ignoram sua função evolutiva, impondo-se incondicionalmente a todos. Em contato com ela, o eu, saturado do mundo exterior, sente-se sacudir em suas fibras mais íntimas, por uma sensação estranha. A dor oprime, cerra todas as vias de expansão para o exterior, obriga o impulso da vida a retirar-se em ordem sobre si mesmo para buscar novos refúgios em outras direções, usando rumos inexplorados. As forças, que de outro modo se dispersariam se se lançassem para o exterior, acumulam-se e concentram-se para dilatar-se, em compensação, interiormente, numa expansão diferente. O progresso e a conquista de bens são os primeiros instintos da vida e a felicidade de que o homem necessita. Tudo que os limita lhe causa pena, pois toda a diminuição de si mesmo é dor. O eu que se encontra rodeado pela dor, sofrendo-a, agita-se freneticamente sob o apertão que o sufoca, preso de desespero pela necessidade insatisfeita. Vê-se induzido a intentar outros meios para realizar aquela expansão que é a sua própria vida. Se está maduro pelo sofrimento e pelo conhecimento, ao defrontar a barreira inexorável que o destino opõe ao seu fácil crescimento externo, com um supremo esforço se rebela contra tudo o que é do mundo exterior, buscando outro caminho em si mesmo. O impulso da vida toma assim outra direção, para o interior. A expansão encontra a maneira de igualmente realizar-se, mas para uma realidade de outra ordem, saltando por cima das várias lisonjas e gozos. Deste modo, o sofrimento da dor se modifica em um mal benfeitor, porquanto sem o seu aguilhão não teríamos buscado o novo caminho. Uma vez orientada neste rumo, a personalidade traça, então, novo itinerário. Avançando gradualmente descobre que a vida humana não é a vida integral, e vislumbra, mais além da mesma, um mundo imenso. Ocorre um fato estranho: a cada golpe que parece acarretar a ruína, algo ferve e emerge do mais fundo do eu. Cada vez que a dor aperta e parece reduzir a vida, algo se reconquista numa forma diferente que, em compensação, a engrandece. Percebemos que a dor nos separa e nos livra de um invólucro denso de apetites e sensações; que a alma se levanta para um mundo maior, à medida que nos vamos despojando da animalidade; que se dilata numa potência mais vasta de percepção, numa forma de vida mais intensa, numa realidade cada vez mais profunda. Do mistério do ser afloram novas faculdades na consciência. Eis porque uma vida de provas pode conter grandes compensações no mundo do espírito, e, como recompensa, estimular essas grandes criações interiores que, na arte, na fé, na ciência, nascem sempre de uma grande dor. Seu valor como instrumento de evolução provém deste seu poder de penetrar e revolucionar, de provocar uma reação. A dor é, desta maneira, um grande estimulador e excitador de rebeliões nas quais a vida espiritual se revela.

No mundo subumano, ali onde a dor é derrota sem piedade, o ser sofre na sombra, cheio de ira. em estado de absoluta miséria de consolo, de luz e de vida. E a dor do condenado sem esperança. O homem é sempre livre para usar, com responsabilidade própria, as forças naturais, podendo retroceder até o abismo se não quiser esforçar-se pessoalmente para realizar sua libertação. Somente no mundo humano o eu se reconcentra em si mesmo e pondera.

As experiências se acumulam; o instinto registra; assimilam-se melhores hábitos; criam-se aptidões e capacidades espirituais; a alma começa a sua expansão. No mundo humano o espírito pressente uma recompensa e uma liberação e leva consigo um raio de esperança. É a dor tranqüila de quem expia e sabe. Mesmo quando a alma conserva uma aspereza exterior, encontrou uma rocha onde aquela não chega, outro mundo onde se refugiar. Arte de saber sofrer conscientemente, vencendo a vida. Deste modo a dor recebe um valor totalmente novo, porque a mente a analisou, descobriu as suas causas e estudou as suas leis. Consciente de sua função evolutiva, achou-a justa; num ato livre e voluntário, em vez de evitá-la, aceita-a. Conhece a sua finalidade e utiliza-a. Sabe que não é senão um trabalho mais intenso e fecundo, convertendo-a em instrumento de redenção. Estamos num mundo novo onde as leis biológicas se transformaram e a dor, o terrível inimigo, perdeu muito da sua virulência.

Passamos, assim, ao mundo super-humano onde a dor, de fator negativo e maléfico, se transforma em prazer de criar, em amiga querida dos grandes, em alavanca poderosa que regenera o mundo, em uma corrida para a vida. Soa o hino da redenção. Felizes os que choram. Aqui a dor não é mais dor. A lei permanece, mas é a lei santa do sacrifício. O conceito de "dor-mal" e "dor-dano" se transforma no de "dor-redenção", "dor-trabalho", "dor-útil", "dor-gozo", "dor-bem", "dor-paixão", "dor-amor", por graduações sucessivas numa contínua ascensão, até o absurdo aparente do martírio, até uma Santa Teresa, um São Francisco, um Cristo. A dor, então, transfigura-se. Parece esfumar-se na mais profunda sensação da lei, como um eco de mundos inferiores que aí em cima, na glória da alma, não pode chegar.

O milagre da superação da dor, através da evolução, realizou-se. O eu e a lei uniram-se em harmonia perfeita, sem possibilidades de violações, de reações e de dor. Esta já não existe aqui como mal ou expiação, mas somente como trabalho livre e consciente, transbordante de prazer de criar valor maior: o homem e sua felicidade.

É neste ponto que a dor se torna renúncia, a fase mais elevada da superação. Agora poderemos compreender o significado deste conceito do qual esta cheia a vida dos "santos". Aqui esta como a renúncia deve ser incluída no número dos caminhos da libertação, porquanto significa isolamento da vida inferior, sendo desta maneira uma condição para ascender até um mundo melhor.

Como tudo se transforma subindo a escala da vida! Como sofrem diferentemente os seres nos mais variados graus de evolução, cada um  sua maneira: este, maldizendo; aquele, expiando; esse outro, bendizendo e criando!

Depende de nós o saber ascender para vencer a dor, o saber sofrer reagindo na forma mais elevada, extraindo do tormento da vida o proveito máximo do espírito. Saber reagir, aí esta o segredo. Certamente é mais fácil afirmar-se e vencer o mundo mediante uma reação de força e de ódio, mas só a justiça e o amor são as reações dos grandes. Se o ser inferior não sabe rebelar-se senão manifestando a sua baixeza, quem possui uma alma responde com uma rebelião que é um impulso que o levará mais além dos confins da vida Só, contra todos, mas grande.

É uma experiência — que é a eterna filosofia da vida — a que nos ensina a vencer a dor seguindo a evolução, superando as formas inferiores, afastando-se daquele centro de atração de todos os nossos desejos e paixões que é o mundo exterior, ao qual inexorável transformismo evolutivo se opõe como um furacão, convertendo-o em abdicação de formas transitórias e efêmeras para enriquecer o próprio eu de realidade mais profunda, mais concreta, mais estável. A criação dos valores será definitiva, o resultado intangível e invulnerável. Conquista-se uma fortaleza dentro do próprio ser, refúgio supremo para as dores da vida, onde tudo, finalmente, se encontre na paz. Tudo isto é uma atrevida exploração no mundo ignoto das forças mais profundas do ser humano. Não é fácil aventura espiritual, mas transformação de consciência, transportada com medo mais além da vida, no supranormal. Pode parecer fuga e destruição, e o é. com efeito, mas fuga para subir mais acima, destruição para reconstruir melhor. Pode parecer uma espécie de mutilação de aspirações e de vontade, uma supressão de sadias energias ativas num estado de passividade vazia do fecundo fermento da paixão, tal como o é na, atormentada degeneração neurótica de algumas religiões do Oriente. Mas é sublimação da vida numa forma de ação mais enérgica e mais viril do que o desgaste inútil da comum agressividade desorganizadora, numa forma de ação mais ativa porque consciente das forças naturais no meio das quais opera.

Meu ideal humano não é o super-homem de Nietzsche, figura primitiva do herói da força, mas o super-homem em quem a vontade do dominador, a inteligência do gênio, a hipersensibilidade do artista, e, sobretudo, a bondade do santo, se tocam e se fundem. O lutador sobre-humano que se digna lutar tão-somente com as forças biológicas e as vence. Um ser que é quase de uma raça nova. É o lutador da justiça, o senhor de todas as forças de sua própria personalidade com o auxílio das quais sabe lutar conscientemente para o bem individual e coletivo.

Existe no mundo um ideal: sacrifício, dor voluntária e jucunda, aceitos como instrumento de grandes criações espirituais, ideal formidável que relampeja no Budismo e no Cristianismo acima do árido conglomerado de dogmas e catalogamento de atos que, se para o vulgo são uma necessidade, para quem se eleva são cárcere da consciência. Este ideal me diz: sofre para criar, morre na matéria para renascer em espírito, sozinho e grande, age preso de uma sagrada paixão de evoluir, divino dom, raro entre os homens. É o conceito da felicidade perfeita exposto em I Fioretti de S. Francisco, repetido como máxima das mais profundas filosofias, desde Cristo para cá, em todas as formas e que   incompreensível para a mentalidade moderna — intentei repeti-la usando os termos do positivismo materialista.

Tenho a confirmação daquele fato indiscutível que é a experiência vivida, com poderosa fé, por esses homens de vanguarda que são os santos, os quais seguiram este método para realizar sua ascensão, glorificada pelo assentimento dos povos e a veneração dos séculos. Se tudo isto é uma utopia, se a santidade é uma aberração, se a humanidade não está louca, e se desejamos, para venerar, antes de tudo compreender, esta concepção sintética é indispensável. A santidade pode existir também no mundo moderno. Se esta chama de vida espiritual assumiu, nos séculos passados, a forma religiosa monástica, à base de isolamento e contemplação, nas ferozes condições da época que faziam necessárias essas fugas; se hoje para a nossa mente aquela santidade se nos afigura uma utopia por estar cristalizada em formas que já não se usam, ela, entretanto, não morreu. Coma eterno fenômeno indestrutível terá que subsistir, invariável em sua substância, mesmo quando mude de formas, de acordo com o progresso e mentalidade moderna. Uma santidade nova, culta, consciente, direi quase científica, uma santidade que, liberta das estreitas fórmulas medievais, surja à luz do dia no meio de nossa turbulenta sociedade. Um santo novo é necessário no mundo moderno, o super-homem, síntese viva dos mais elevados conceitos, surgido do Budismo, do Cristianismo e da Ciência, consciente de todos os valores morais que compendia; de sua força biológica, de sua função evolutiva; um santo que, superada a forma, liberto do passado, dono do futuro, volte a lutar em nossa vida, com nossa psicologia, “dominador” em perfeito equilíbrio entre tantas forças diferentes; e que suporte heroicamente o choque das almas rebeldes e jovens; Se hoje o emblema é "força", que seja a força superior do espírito, seja a beleza espiritual que se anime a manifestar-se e viva no mundo como um desafio para que o mundo, se não as compreender, se dilacere e, dilacerando-se, aprenda.
   
Vimos o processo genésico da santidade, o vasto processo de transformação que conduz o homem até os umbrais do reino do super-homem. Existe, na realidade, este momento crítico em que, depois de uma larga maturação de um novo psiquismo, o ritmo fenomênico se precipita na fase típica da crise espiritual: a conversão. Um quid novo, nascido do trabalho profundo do espírito, está pronto. O transformismo evolutivo com a sua marcha inviolável, medida pelo compasso do tempo, chegou. Instante decisivo do deslocamento de equilíbrios, quando a indecisão entre os dois mundos, o humano e o sobre-humano, já não é mais possível. Este momento psicológico, que é o ponto crítico em que se resolve o fenômeno espiritual, não é, por certo, um conceito novo. As escolas do pensamento chamaram-lhe "umbral"; as religiões ocidentais "a graça". Termos imaginativos para descrever, o primeiro, um ingresso em um novo mundo, ingresso impedido pelas paixões e instintos do passado que, erigidos em vontade autônoma, funcionam, como seres vivos, como guardiões. O segundo, um descenso do sobrenatural no humano para levá-lo, num abraço fecundo, para o alto.

Os estados psicológicos característicos deste momento que preludia o renascimento da superconsciência parecem estranhos. Depois da grande luta, toda a vontade parece ter-se acabado. O ser, presa de um total decaimento, extraviada a razão, destruída a consciência e esgotada toda energia vital num estado de passividade que parece inércia e não é mais do que a receptividade que alcançou o grau do hipersensível, então, o eu mais profundo da superconsciência desperta e se manifesta.

É surpreendente a mudança (tal como uma criança que se converte em homem) verificada nesse tipo de consciência, que, entre as sensações de morte, renasce tão diferentemente. Surpreendente porque contraria todos os cânones da ciência médica: um organismo que parece finar-se, precisamente durante o seu descenso vital, se vitaliza e se sensibiliza, se aguça e se dinamiza perceptivamente, engrandece-se espiritualmente tal como se se nutrisse em mananciais de energia de natureza extra-orgânica. Todo o mundo das sensações reaparece, mas tão fora do habitual e tão incontrolável a princípio, que assume as aparências incertas de sonho. Então, a percepção, antes insegura, incompleta e, às vezes, errônea como no recém-nascido, se vai precisando, fazendo-se mais luminosa e consciente. Período de controle, como de regulagem destes novos meios de percepção à realidade externa. Período em que a consciência, ao mesmo tempo que se alegra por sua acrescentada potencialidade, por outra parte se assombra por estranhos extravios, provocados por deslocamentos de sensibilidade, o que constitui o seu maior tormento, pois sente que se perde neles tudo quanto havia conquistado. Vislumbrar por um instante um mundo novo e, em seguida, como cego, não ver mais nada. Sentir possuir novas faculdades perceptivas e de chofre não as saber usar mais. Ter provado o êxtase e senti-lo desvanecer. Tudo isto. é característico desse período de transição e possui toda a incerteza da tentativa e toda a voluptuosidade do desenvolvimento.

Todavia, gradualmente, a percepção anímica se vai estabilizando, e o eu se orienta. A mudança de consciência se afirma e o novo eu, dono de novos meios, retorna à direção da vida em forma diferente, já sem forçar a vontade, num estado de sinceridade absoluta, como um eu, diferente que já não diz mais eu porque se integrou no todo; que não possui órgãos sensoriais e entretanto tudo sente; carece de organismo material, entretanto vive e age; não possui voz, entretanto fala; não raciocina com a lógica humana retardada e analítica, mas conclui instantaneamente com esta faculdade mais rápida, profunda e sintética que é a intuição. Já não se desdobra em um comando de vontade, nem se consome num esforço de energias, mas que “é” imediatamente tudo o que quer. A percepção, então, se realiza totalmente em forma de vozes e visões, por sensações que vêm do interior e que — seja do interior ao invés do exterior, impressionando o nível sensório dos centros nervosos, seja que se elevem a uma ordem superior e própria jamais alcançada por aqueles meios — sempre dominam a consciência com força tal que as sensações transmitidas pela via fisiológica- nervosa-cerebral do mundo exterior passam, como ofuscadas, à segunda linha. Daí a diminuição da sensibilidade e algumas vezes a invulnerabilidade à dor que muitos acreditam milagrosa; daí o sentido profético, telepático, as visões, os êxtases, que sem dúvida encerram um mistério, que as hipóteses patológicas não explicam suficientemente. Estes estados escapam por certo à analise objetiva, pois somente se chega a eles pela introspecção. Não se trata de um fato exterior por analisar, que se possa dirigir a observação, mas de uma mudança de consciência, ou seja do próprio instrumento de investigação. Depara-se-nos a falência da psicologia analítica, racional, exterior, que é considerada a arma de compreensão universal. Dir-se-ia que a superconsciência repele a razão para o seu mundo exterior, porquanto já não lhe é mais necessária. Estamos diante de uma forma de consciência, de uma faculdade de juízo que dirige sabiamente a vida, se bem que com meios e sensações diferentes. Sabemos somente que é algo que brota do íntimo mistério da personalidade, uma consciência que é independente do mundo exterior e possui a sensação de sobreviver-lhe como consciência da vida eterna. Vive-se então diante da revelação de realidades insuspeitas, mais profundas, além da forma, em contato com a essência das coisas. É a visão apocalíptica da palingênese.

Superado este momento crítico, crise interna que existe na vida do gênio e do místico e que a moderna psicologia reconstruíra para compreender, o que não pôde fazê-lo a mentalidade de outros tempos, a consciência se estabilizará em novo estado, numa atmosfera de grandeza e de mistério que nos enchera de espanto. Realizando um último esforço, façamos uma mirada audaz na alma do gênio e do santo para penetrar o enigma de sua vida interior, sentir com eles a potência das forças motrizes de atividades não comuns, observar, não mais o lado humano, lânguido e moribundo, mas o lado divino da vida. Veremos a glória dos triunfos interiores, o júbilo das novas expansões, grandezas de conquistas e labaredas de paixões novas. Não mais veremos o aspecto negativo da destruição e da morte, mas o positivo da ressurreição e da afirmação da personalidade. Olharemos com a coragem que nos confere a necessidade de venerar e a fé mesma dos grandes, ainda quando o haver ousado compreender e desejado imitar não nos tenha servido mais do que para tornar a cair, numa vã tentativa de vôo, mais dolorosamente ao solo, para quedar aí, mudos e assombrados, olhando ao longe, com a nostalgia no coração, o cume inacessível do reino do super-homem.

Como descrever os estados de superconsciência, a psicologia do supranormal? A normalidade retrocede com uma sensação de vertigem e de sagrado terror. Como descrever estes estados de contemplação interior, no qual o mistério do universo e o mistério da alma se olham e secompreendem? O olhar aprofunda-se na íntima causalidade fenomênica. O fracionamento da realidade entre os obstáculos de espaço e de tempo é superado durante o supremo estado do espírito que descansa na visão global do todo, êxtase com que o santo é recompensado amplamente da perda de todas as coisas humanas, de todas as dores e renúncias que se impôs a si mesmo para alcançá-lo; arroubo sublime onde o tormentoso torvelinho das ilusões humanas não chega, onde o descanso é absoluto, o poder imenso, a vida, que se multiplica em nova percepção anímica, corre caudalo- samente ao encontro do infinito. É completo o gozo do espírito que aceita o beijo divino que se inclina para ele em labareda de amor. Amores incompreensíveis que abalam e quebram a débil tessitura humana, demasiado frágil para suster seu ímpeto. O centro da vida se desloca, seu trono se eleva na hipersensibilidade própria do supranormal e parece nutrir-se nos mananciais exclusivamente espirituais, mediante um intercâmbio que se efetua em meio as forças de uma ordem especial, desconhecidas por nós.

A alma possui a visão da lei, a sensação de seus atos, submerge-se na sua corrente, respira a música que emana das harmonias da criação e se alimenta deste respiro. Que vibrações do Cosmos encontrou, como as absorve, de que modo sintoniza com essas vibrações do infinito?

Os estados supranormais foram descritos diferentemente pelos místicos, justamente porque essas sublimações de personalidade são, como as filosofias, distintas, segundo o tipo de temperamento de cada um. Vem, por evolução, de um longo passado. Existem, entretanto, um fundo comum e linhas gerais que convergem sempre, de qualquer tempo e lugar que elas derivem, e que não deixam motivos a dúvidas. A superconsciência é sempre conseqüência da dor criativa da renúncia, é sempre o último termo de uma evolução dos instintos, dos desejos e das paixões.

Há uma classe de temperamentos, a dos sensitivos ou psíquicos, a que pertence o místico e na qual se pode incluir o poeta, o artista, o músico, o homem de ciência, o gênio e o santo. Ali onde as qualidades espirituais humanas se desenvolvam em qualquer forma e a natureza humana alcançou as suas faculdades mais elevadas, ali existe sempre um super-homem. A humanidade compreende e exalta aquela condição do mesmo, que se encontra mais evoluída e posta em maior evidência pela oportunidade ou pelo ambiente, mas todas elas possuem pontos de contato entre si e coexistem mais ou menos latentes no mesmo ser. As qualidades de raciocínio, se bem que não são mais do que luz fria que, mesmo quando clareia o atalho, nada sabe realizar por si só, movem-se amiúde paralelamente, prontas para excitar as do coração, a paixão que obra e cria. Se os intelectuais agem num campo com as forças analíticas da mente, os emotivos e os apaixonados constróem em outro campo com a força intuitiva do sentimento e do amor. Fecundidades distintas, porém necessárias e todas grandes, porque a vida precisa igualmente de luz e de calor.

Freqüentemente o intelecto abre a rota para em seguida arrastar atrás de si o coração. Há quem chegue através do largo caminho da análise; há quem o faça pelo atalho da intuição, mas sempre se alcança a criação de um tipo de super-homem.

Tratemos de delinear as características mais salientes da psicologia do super-homem, entidade de raciocínio e de paixão, qualidades fundamentais da natureza humana, que não se destroem, mas se aperfeiçoam e se equilibram na forma mais seleta.

Antes de tudo, uma racionalidade mais perfeita. A conquista da verdade se completou. A consciência move-se em plena luz. Não mais uma verdade subdividida, fracionada em tantas pequenas verdades particulares, incompletas e em luta, buscando a unificação, mas uma verdade universal que, superando-as, admite todos os pontos de vista dos indivíduos, dos tempos, das crenças e das religiões. Eliminada essa nulidade lógica, a consciência já não nega nada mais porque conhece tudo. Não mais essas zonas obscuras, inexploradas, dentro e fora de si, essas grandes zonas de trevas que são os mistérios. O mistério, necessidade da mente inferior e involuta, desaparece.Faz-se luz até nas coisas íntimas. A lei evidencia-se integralmente, seja em grandes linhas como nos pormenores.

Paralelamente, uma sensibilidade mais profunda. Um feixe de sentimentos novos, que poderíamos chamar "percepção anímica", permite o gozo de sutis belezas, amiúde despercebidas. Junto as harmonias da arte, do homem e da natureza revelam-se as harmonias mais profundas da estética moral, a arte divina que não possui a beleza superficial grega da forma, mas a íntima e mais alta beleza do espírito. Mais do que a contemplação de uma idéia, é a realização em si da perfeição superior e da harmonia universal. É a conquista de valores imperecíveis, é a criação de um organismo espiritual de eterna beleza, ao qual a vida tudo sacrifica — juventude, força, saúde, poder e tudo quanto de transitório a Terra ostenta. A consciência possui a sensação desta beleza interior, síntese de arte superior, e esta sensação constitui um prazer. Uma nova capacidade de penetração psíquica, que poderíamos chamar de intuição, revela, sem sombras, o mistério da alma. O organismo espiritual de todos os seres mostra-se desnudo; espontaneamente se manifesta a causa daquelas misteriosas atrações e repulsões chamadas simpatias ou antipatias, e que são afinidades ou antagonismos, súmula de toda a história da personalidade humana. É bem certo que a alma sempre se reflete no corpo, através do qual se torna transparente, esforçando-se, todavia, para sair dele a fim de se expressar livremente. Mas o homem, com demasiada freqüência pretende construir no corpo uma falsa imagem da alma. A intuição penetra sem esforço através de toda a aparência, demole toda a astúcia. A superconsciência, que não admite mentiras para si, não as tolera nos demais. Se as faculdades anímicas conferem superioridade na luta cotidiana, combatem deste modo da forma mais aristocrática. A vida perderá por certo muitas das doces ilusões, mas, com elas, todos os seus erros e desenganos. A sociedade humana, vista claramente no que é e não no que pretende ser, aparecerá como espetáculo muito triste, mas nem por isso resplandecerá nela, com menos potência, a justiça divina, nem sua harmonia será menos suave e perfeita.

A conseqüência de tudo isto é um conceito diferente da vida, um estado de ânimo novo para com as coisas humanas. O conhecimento das grandes verdades, a solução das últimas interrogações, confere uma grande calma interior, a paz de quem viu a meta, o último termo a que a alma aspira. Deste conhecimento das verdades universais deriva o da própria verdade espiritual, do próprio destino. O super-homem é consciente de toda a sua personalidade, da origem de cada um dos seus instintos, que descobre no seu passado eterno, na história daquele germe espiritual que,vivendo e tomando a viver, vestido de diferentes organismos, adaptando-se, absorvendo, assimilando, sempre adquire uma nova qualidade em cada prova vencida, conservando eternamente dentro de si os frutos espirituais da vida. O super-homem conhece a sua história, larga história tecida de férrea logicidade, na qual nada se cria e nada se destrói, mas tudo se transforma, e nenhum valor se perde. Sobre estas bases, e pela mesma férrea logicidade do passado e a indestrutibilidade das faculdades morais, antecipa o seu futuro, prepara-o e deseja-o. Daí o domínio de todas as forças do próprio eu, o saber comportar-se no meio dos grandes choques da vida com uma visão muito ampla e segura das grandes extensões das coisas cotidianas. Se a superconsciência é, sobretudo, um fato espiritual, como tal repercute e se impõe também na realidade exterior, dominando-a. Encontramos, assim, junto a uma olímpica calma interior, a consciência de um poder dominador.

Nem por isso o furacão das coisas humanas deixa de açoitá-lo, mas se limita à superfície. A consciência não sofre, porque se reconhece autônoma, muito diferente, não mais identificada com o mundo vencido, podendo refugiar-se naquela parte do ser pertencente a vida eterna, fortaleza inexpugnável que guarda com segurança o tesouro de maior valor. Não sofre porque sabe que a tormenta existe somente na aparência, que o caos é contraste transitório e a grande realidade é o equilíbrio que porá fim a toda desordem. Desaparece, com ele, aquela estridente dissonância lógica, o tormento maior do espírito, que é a incompreensão do ambiente, e o pedir sem obter, pois se pede o absurdo. Isola-se, no mar de dissonâncias, um oásis de harmonia, onde a vida é mais linda. A profunda visão das coisas, mostrando também os lados mais vastos e mais distantes do problema humano, oferece em cada caso a sensação da mais exata justiça, a grande fé e o otimismo absoluto, mesmo em frente da dor. Toda posição social, por injusta e penosa que seja, parece sempre a melhor. Antes de inquirir que faltas individuais ou coletivas se está expiando (todos possuímos uma culpa por expiar, como indivíduos, como classe social, como nação e como humanidade) e antes de compreender a dor remontando-se às fontes do mal, reage-se, via de regra, com atos de rebelião, de ira, de inveja e de inútil ferocidade O homem superior, ao contrário, somente tem uma reação, a de uma caritativa atividade em reparar o mal, a da reconstrução silenciosa e consciente, realizando sozinho, sem transferir a responsabilidade a outrem, o tremendo dever que lhe compete, porque sabe que o sofrimento é trabalho fecundo de conquistas espirituais e porque muda cada pena em trabalho cotidiano, nobre e remunerador, para o êxito. Então, o espírito, vivendo em relação com os mais distantes momentos do grande esquema de seu próprio progresso, se sobrepõe às misérias imediatas; a vida se transforma numa harmonia contínua, um canto de gratidão que é a música mais profunda do espírito. As dores humanas não desaparecem, mas diverso é o choque quando ferem a mente encouraçada, e desprezível a sua força de penetração no espírito defendido pelo conhecimento profundo, possuidor da virtude de se refugiar no paraíso distante aonde não chega a dor. É felicidade difícil e árdua, mas sem dúvida muito grande, a única que resiste á investida das duras provas da vida, surgindo delas ainda mais bela! A harmonia interior, essa paz que provém do sentir-se sempre em relação e de acordo com o funcionamento orgânico do Universo, de achar-se sempre na melhor posição, qualquer que seja ela, o hino do coração da harmoniosa voz da consciência, o viver nessa fé, na lógica e na bondade do todo, nessa luz do espírito como na própria atmosfera vivificadora, é saciedade de alma contente, equilíbrio de compensação psíquica, do qual nasce a ventura superior e invulnerável.

A libertação realiza tudo isso. A personalidade que se formou na vida interior já não é mais arrastada pelo torvelinho de todas as correntes do mundo e tendo conquistado a independência das condições exteriores, converte-se em centro de uma realidade própria e autônoma. O super-homem emerge do mar cuja tempestade já não o envolve. Venceu o mundo, que já não pode mais violar sua liberdade, deter seu trabalho nem alterar a realização da sua vontade. Com isso ele não se ausenta de nossa vida, mas irradia nela a luz nova, demonstrando que existe para todos o meio de remissão e também a possibilidade de ascender. Apesar de todas as desigualdades humanas, há uma igualdade absoluta emanante da eterna justiça, de que todos somos obreiros no campo da própria diferenciação e sob as formas mais diversas.

Tudo quanto temos dito não basta para circunscrever totalmente o ciclo da personalidade humana que, junto ás exigências viris da mente, contém as exigências de ordem feminina, da paixão e do sentimento. A evolução que comete e transfigura a personalidade humana em todas as suas qualidades, transforma, acrisola e enaltece também as paixões, sem destruí-las.

Existe uma evolução do desejo, uma evolução dos instintos, uma evolução das paixões. Seria insensato condenar aprioristicamente e em absoluto a sede de existir, a ânsia da vida, que é o desejo. Ele é a mola de todo progresso, o estímulo necessário para toda conquista, o antecedente daquela exteriorização na qual a alma, experimentando, se engrandece. É a chama da ação, da luta e da prova indispensável à evolução. É mister conduzir o desejo para uma contínua elevação, de modo que todo o organismo dos instintos e a fortaleza das idéias inatas se transformem, conduzindo o homem para as modalidades superiores de vida e de perfeição moral, que são as virtudes, as quais, ao longo do incessante trabalho das civilizações, são concebidas e assimiladas. A vida social, as religiões e as leis possuem a função de educar o homem, ainda selvagem interiormente, penetrando em sua consciência, impondo-lhe a evolução dos instintos e das paixões, que são forças diretrizes da vida.

Observamos uma única paixão, a maior — o amor — o qual, presidindo à conservação, encerra mais profundamente o misoneísmo de raça e parece mais renitente á evolução, para ver como esta paixão se sublima na personalidade humana que estamos delineando.

Se o amor no mundo animal é função quase exclusivamente orgânica, no homem, enriquecido pela evolução de novas faculdades, adquire qualidades de ordem nervosa e psíquica. O fenômeno do amor complica-se; à função animal, que biologicamente foi a principal, se sobrepõe, como um crescimento ou uma incrustação, um feixe de funções novas que transformam todo o fenômeno, tornando a sua estrutura mais completa, e como sempre acontece na evolução, ampliam seu campo de ação. Para maiores poderes, porém, maiores perigos, o que os seres menos evoluídos ignoram. Observando, neste campo, as correntes que a evolução abre dentro da massa humana, vemos hoje a tendência no amor para aperfeiçoar-se e sensibilizar-se, tendência que, aspirando a outra forma de super-amor espiritual, oferece, simultaneamente, o perigo de perder-se em degradação neurótica, em erotismo sexual. A humanidade encontra-se defronte do dilema: ou bem materializar, mais do que elevar, o amor, caindo em formas de prazer nervoso mais intenso, porém de baixo erotismo antivital, ou bem dominar a sua paixão e guiá-la, orientando a evolução para as formas de amor espiritual do super-homem.

Esta característica tendência atual do amor para sublimar-se, revela-se de forma evidente na atitude da psicologia corrente e da literatura em voga. Sem dúvida, em matéria de amor, sabe ser às vezes de um psiquismo refinado, como nunca o fora em épocas passadas. Predomina nela o elemento nervoso e sutil, tudo o que é fascinação, simpatia, graça, arte, música, vibração e estados de alma, tudo o que é poesia e perfume do amor. Encontramo-nos indubitavelmente nos mais altos graus do amor humano, onde se acentua a parte espiritual. A voluptuosidade não é mais a turva orgia dos sentidos e aspira transformar-se em límpido êxtase de alma. Um passo mais e o amor humano será superado. A humanidade está às portas do novo reino e entrará nele, se souber per- severar na tensão do progresso para a nova fase espiritual e realizar um esforço supremo e decisivo de concentração de energias para subir o último degrau, além do qual está o amor místico e divino. Este, assim como os Santos o conceberam, viveram-no e gozaram-no em êxtase supremo, não é a agradável digressão de romântico sentimentalismo, porém a mais tempestuosa das conquistas, na qual há que empenhar todas as forças da vida. É duvidoso que hoje se realize este trabalho, pois toda criação demanda mui áspera luta, na qual o espírito se tempera e se exercita, sem prazer e sem descanso. Dispersam-se as energias. A nova sensibilidade, ao invés de ascender, retrocede; ao invés de espiritualizar-se, torna-se neurótica e decai. De sorte que o amor, na sociedade atual, mesmo quando alcança os mais elevados graus da finura a ponto de parecer quase chegar à espiritualidade do misticismo, recolhe-se sobre si mesmo e volve a baixar antes de elevar-se do solo, envenenado pela sua própria potencialidade. As novas faculdades psíquico-nervosas, ao contrário de ser utilizadas para progredir, são exploradas para um gozo maior, última conseqüência da ruinosa concepção materialista da vida. O cérebro e o espírito são postos a serviço do prazer. Chega-se, com tais critérios, a fazer misticismo sensualizado e falsificado, enervante e enfermiço, mediante artificiosas complicações de refinadas exteriorizações, enquanto impera no espírito o vazio e a desolação. Uma evolução às avessas, a mais completa prostituição da alma.

Observemos, entretanto, na evolução do amor, as sucessivas aproximações do superamento realizado pelo explorador do supranormal. Esta concepção do amor divino como sentimento limítrofe, derivado, por evolução, do amor humano, dá-nos a explicação lógica da sua origem. O fenômeno psicológico, que existiu o pode existir, adquire uma base racional, de outro modo inexistente. O amor divino proveio como em todo o fenômeno — por continuidade, do amor humano, ao qual é afim, e conseguiu, através de sucessivas provas e elevações que somente demoliram a sua parte mais involuta, aperfeiçoar-se e purificar-se, Ascensão de paixão, que faz parte da evolução da personalidade, na qual todas as qualidades se transfiguram numa psicologia de ordem superior. Poderemos, desta maneira, delinear uma gradação das formas de amor. Cada ser, desde o animal é as raças humanas inferiores, desde o homem inculto das classes sociais mais baixas, até ao intelectual, ao ao santo, ama de maneira diferente, segundo a qualidade, a perfeição alcançada. O amor sofre transformações profundas paralelamente ao desenvolvimento desta cadeia de tipos humanos. Sendo a maior força do universo, não pode deixar de achar-se em todo nível de vida. O progresso é assinalado por uma revelação de amor mais ampla. Suas funções, desde as mais simples, nos seres inferiores, multiplicação da espécie — desenvolvem-se com a infinita potencialidade do germe, complicam-se com novas atribuições que se subseguem por evolução, aumentando sempre o seu reino. A fêmea transforma-se em mulher; o macho, em homem. A simples atração sexual cresce no amor maternal, filial, familiar, nacional, humanitário, para chegar à beneficência e ao altruísmo, culminante na abnegação suprema do martírio. A mulher transforma-se em anjo e o homem em santo.

Nesta progressão das formas evolutivas do amor vemos exteriorizar-se, cada vez mais energicamente, todas as defesas da vida, pois é função do amor criar, conservar e proteger as forças destruidoras do egoísmo são absorvidas e anuladas gradualmente, num crescimento de altruísmo e de sacrifício, pelas forças criadoras do amor. O altruísmo universal que abraça todos os semelhantes nasce, não obstante isto possa parecer hoje uma utopia, do altruísmo familiar, que lhe é um esboço. É a força em evolução que, em tempos melhores, será o cimento indispensável dos organismos sociais progressivamente homogêneos, pois quanto maiores são as concessões que na vida de cada um se outorguem à vida dos demais, ou seja o altruísmo, tanto mais forte é a sociedade, e mais individualizada e consciente a alma coletiva A absorção do egoísmo no amor, esta inversão de forças. contrárias uma na outra, não é senão um momento do processo de conversão do mal em bem, da dor em felicidade, que já vimos efetuar-se por evolução, e possui assim outras funções além das de defesa da vida. O raio de ação do egoísmo é estreito, constituído de separativismo, tende ao isolamento, possui um campo limitado de penetração e de gozo, não obstante parecer o caminho mais rápido para o prazer, contém, ao invés, uma força de inibição do próprio gozo. Se, em compensação, o amor, espiritualizando-se, transforma-se numa dedicação cada vez mais completa e gratuita, que parece a negação do prazer, tudo o que perde por não ser egoísta ganha-o em profundidade de sensação, em potência de penetração, em castidade de percepção e de ação, e, por último, em realização de felicidade, porquanto a evolução do amor não é senão a. revelação gradual de ilimitada capacidade de prazer. Este aumenta e torna-se estável. .De satisfação precária, ligada a funções orgânicas sujeitas a cansar-se demasiado rápido, devido ao desgaste, equilibra-se numa satisfação nervosa e psíquica cuja nascente mais imaterial dificilmente se esgota e não se altera. Nos fenômenos da matéria existe algo que se cansa mais rapidamente. A imaterialidade elimina os desgostos que desmoralizam, confere estabilidade a tudo, tornando tudo mais real. Vibra nela não a limitada sensibilidade do corpo, mas a sensibilidade mais ampla e mais profunda da mente e do coração, órgãos capazes de sensações mais firmes e intensas, independentes das condições físicas do ambiente.

Nesta ampliada capacidade do desfrutar, satisfazem-se também desejos e afirmam-se paixões de outra natureza. O desejo de posse e de domínio, tão humanamente insaciável, será satisfeito quando, por ter renunciado ao egoísmo que nos separa de tudo o que nos rodeia, podemos possuir e dominar o todo, aproximando-nos das coisas sem vontade de tomá-las e conservá-las com o desprendimento do mais completo altruísmo. Deste modo se explica a renúncia e a pobreza daquele grande rico e enamorado que foi São Francisco. Possui-se, então, tudo, riquezas sem limites, quando se sabe amar desta maneira, a todos, com aquele amor perfeito que nada pede.

Estas são as maiores paixões que tanto dilatam a existência, vividas pelo super-homem e pelas humanidades futuras, a seu turno. Para o homem do futuro, certamente, as grandes satisfações serão de ordem espiritual. Ele sentirá por nós, talvez, um asco, tal como o sentimos por um animal, mergulhado nos grosseiros prazeres dos sentidos, semelhante ao que nós experimentamos pelas distantes orgias romanas. Rir-se-á das nossas ânsias de riquezas e das nossas paixões, próprias de homens primitivos, valorizando, ao contrário, as satisfações que proporcionam o pensamento, a arte, e outras mais refinadas que a criação infundiu nas belezas da vida. Entretanto, é a nossa época, e não as passadas; a que sente o afã dos superamentos e está elaborando a sua nova alma. Uma expressão manifesta do multiplicar-se do espírito moderno vemo-la na evolução da música, índice dos sentimentos humanos, música que deseja expressar atitudes interiores cada vez mais complexas e que, fugindo ao cediço argumento do ódio e do amor, deseja elevar-se a descrição de todos os estados da alma humana e da natureza, buscando novos rumos. Não mais a simples melodia que acaricia o ouvido, porém, a harmoniosa arquitetura do canto na orquestração majestosa, tal como na forte concepção wagneriana. Música espiritual que dirige não só aos sentidos, mas à alma, com voz que expressa sensações de ordem superior.

Com esta evolução de sentimentos e paixões, transita-se, assim, do amor humano ao amor divino. Para os que não são sensitivos parece que a paixão que se espiritualiza oculta-se além de toda percepção, no nada, enquanto que ela apenas se desmaterializa. O super-amor do santo é para ele uma satisfação real e elevadíssima, a ponto de recompensar-lhe toda a heróica renúncia. É alegria totalmente interior, e tão diferente das alegrias humanas que, mais do que uma atitude do espírito, é para todo o ser uma transfiguração na qual o super-homem, através da negação de todo o seu eu inferior, reafirma-se e ressurge num mundo superior.

Este amor tão diferente é estranho ao nosso sexualismo, aparta-se deste não por ser assexual, mas porque é supersexual, porque não pode encontrar no mundo o termo de complemento, e deve buscá-lo mais além da vida, no seio das grandes forças cósmicas, no isolamento relativo e aparente, prelúdio do regresso ao mundo em forma de amor universal. Na solidão dos silêncios sem fim o santo ama; sua alma hipersensível abre-se a todas as vibrações do infinito, num, arranco impetuoso e frenético para a vida de todas as criaturas irmãs. Embora se nos afigure só, ele está com o Invisível a quem estende os braços no êxtase de um supremo, e vastíssimo abraço. Algo se lhe responde do Inconcebível, algo o inflama e o nutre, num incêndio que reduziria a cinzas qualquer outro ser humano. Crepita o amor que abrasa todo o Universo. Num mistério de sobre-humana paixão, Cristo, sofrendo, abre de, par em par os braços na cruz, e São Francisco, no Alverne, abre seus braços a Cristo.

Estas são as grandes possibilidades da psicologia do super-homem como ser de raciocínio e paixão. Uma observação mais, antes de terminar. O super-homem, que é um tipo psíquico excepcional, e que, julgado segundo o critério do nosso mundo, transborda as unidades de medida comum, foi sumariamente degredado para o anormal. Devido à sua aparente neurose, foi grosseiramente confundido com o patológico. Absolutismo e simplicismo de sabor lombrosiano, demasiado primitivo para identificar e distinguir estas formas de pseudoneurose, nas quais o patológico, se existe, existe transitoriamente, não como uma nota desafinada, mas como aparência exterior de uma íntima febre de ascensão, como sistema do esforço de superamentos biológicos. Pretende-se incluir no anormal todo aquele que se excetua à maioria dos casos e à mediocridade geral, ao tipo humano mais comum, de valores duvidosos. Este julgamento apressado conduz ao erro de equiparar e confundir, colocando-os por igual fora da lei, o subnormal e o supranormal, ou seja, fenômenos que são sensivelmente opostos.

De acordo com o que fizemos notar, quando delineamos o fenômeno da evolução espiritual, hoje se torna cada vez mais freqüente o desdém por um tipo humano que tende ao supranormal, extremamente nervoso e genial, ainda que de genialidade atormentada. É, por acaso, um enfermo ou um degenerado? Como julgá-lo? A própria ciência, desorientada pelo fato de que os clássicos elementos de juízo não oferecem a explicação deste moderníssimo fenômeno, vislumbrando nele uma enfermidade tão atípica, de uma ordem clínica tão indefinível, que se viu obrigada a considerá-la apenas como uma forma de personalidade Observemos as suas características. Inteligência e atividade, uma nota predominante de intenso psiquismo; ágil mobilidade do espírito, na ânsia de criação incessante; inquietude e fuga de todas as formas de inércia, ou melhor, um desequilíbrio de concepção da vida. Moralmente, uma delicada percepção do verdadeiro, do belo, do bom; uma retidão que demonstra possuir realmente os altos ideais de virtude, honestidade, altruísmo, que são a base da vida social e indício de elevado grau de evolução, conceitos cuja elaboração é o custoso e último produto de toda civilização, o que a mediocridade normal está longe de ter alcançado. Quanto à sensibilidade, o sistema nervoso é levado ao máximo da agudeza e da potência. Organicamente, o tipo é em geral resistente e de longa vida. O aspecto patológico revela-se no esgotamento de energia nervosa, debilitamento da vontade; inconstância no esforço, emotividade por demais acentuada, estados afetivos inexplicáveis e incuráveis. Este é o quadro de muitos casos de neurastenia; enfermidade nova e estranha que, se às vezes é obscura e sem as características comuns, compõe-se nos aristocratas da neurose, da mistura do sofrimento e da inteligência, associação compensadora e inexplicável num organismo que apresenta sintomas de decadência. Que mistério se encerra nestes caprichos do patológico?

Dir-se-á que, na natureza, onde tudo tem a sua razão de ser, esta sensibilização dolorosa o espiritual; não é mais do que o esforço de novas adaptações; a rebelião e o tormento de um organismo ainda não preparado para satisfazer as exigências da alma nova que geme sob o peso de violenta criação biológica. Como fora possível explicar, senão num enfermo, aspectos que comparticipam da superioridade? Como explicar, a não ser com hipótese de uma pseudoneurose, sob a qual se esconde um labor incessante de criação, essa intensificação de capacidades nervosas, mentais e morais? Então, como interpretar esta inopinada dilatação de potencialidade anímica senão com a teoria da evolução espiritual?

Som pretender aprofundar a questão, demasiado vasta para este estudo sumário, das relações entre neurastenia e evolução psíquica, a fim de colocar esta como elemento precursor daquela um sintoma — na realidade nos encontramos ante um tipo de personalidade que representa, por refinamento moral e superior intelectualidade, a assimilação já efetuada dos mais altos valores espirituais, a formação completa do tipo para o qual a humanidade tende em seu desenvolvimento. Encontramos nele todos os sinais de nobreza racial, de aristocracia que encerra o acme de perfeição que a humanidade tenha jamais aspirado conquistar. Em sua própria lassidão e emotividade demasiado intensa, na exaltação do sua inteligência e sensibilidade dolorosa, existe algo ultra-refinado como de uma raça que, por estar excessivamente madura, agonize e morra. Não mais um organismo físico predominante, que impõe necessidades o sensações ao seu sistema nervoso, instrumento de sua vida, mas um organismo nervoso preponderante que absorve tudo para si, condiciona o funcionamento orgânico, e acaba por dominá-lo e transcendê-lo numa quase tentativa de criar-se uma própria forma de vida. A pesquisa no supranormal, o ensaio de novos estados de consciência e a delicada espiritualidade deste tipo humano significam uma antecipação do futuro. Socialmente pode representar, se orientadas suas energias e utilizadas as suas qualidades raras, um precioso fermento de sensibilidade e atividade, um raio de luz no meio da massa trevosa dos medíocres, dos sãos e dos normais, nos quais, predominam a inércia e as funções animais, pois o seu mais alto ideal é a reprodução e a nutrição.

Existe, indubitavelmente, uma neurose patológica, mas com abundante freqüência pretendeu-se atribuir-lhe uma série de fenômenos que pertencem ao supranormal, desvalorizando-se desta maneira o tipo humano que pode ter uma função na economia da vida social, o cuja multiplicação seria um indício de profunda transformação evolutiva da humanidade, em nossa época. Concebendo muitos casos de neurose como um desequilíbrio transitório, inerente à fase de conquistas biológicas, evitaremos a incompreensão que impede à ciência de cumprir o seu dever; que é estudar e valorizar todas as forças da vida. Uma das conclusões do presente estudo é que a ciência se proponha a alcançar dois objetivos: nos casos de neurose patológica, se não se encontra a verdadeira terapia, que se realizo a prevenção profilática mediante a concretização de uma consciência eugenética; nos casos de pseudoneurose, auxiliar o transformismo biológico, aliviar as dores que o acompanham, estendendo a mão piedosa e benévola aos seres que lutam sozinhos, talvez para criar uma raça nova, da maior importância para a progressiva domesticarão da besta humana. A ciência deveria compreender que esta tendência a neurose, num mundo de leis que, sem dúvida alguma; obra com inteligência o suprema previsão, pode possuir uma função no equilíbrio da vida. Deveria, portanto, penetrando nas profundidades do subconsciente, anatomizando o supranormal, ajudar a nascer e crescer este novo organismo psíquico, que é a alma humana.

Esta teoria da evolução espiritual pode ser uma ótima hipótese de trabalho. A ciência deveria investigar nesse campo que contém os mais inacessíveis e misteriosos segredos da vida. E promete os mais memoráveis descobrimentos. A ciência deverá um dia, quando tenha compreendido todas as leis da vida, assumir a mais alta missão, que é a de dirigir a seleção humana, fazer-se guia a este imenso fenômeno da evolução. O homem, até hoje, neste campo, está sujeito cegamente, como um bruto, a leis naturais que ignora. Existem na sociedade humana indivíduos indesejáveis pelas suas qualidades anti-sociais. Toda a coletividade sadia deveria cuidar de sua higiene moral, impedindo o nascimento desses seres em seu seio. Considerando a vida como imigração espiritual do além, não se deveria permitir à debilidade mental a vinda ao nosso ambiente pelo mecanismo da reprodução, atraídos por personalidades afins, negando-se-lhes um lugar entre nós. Há existências construídas de forma tal que não constituem mais um prazer, mas um tormento; vidas que longe de serem um dom, são uma condenação, e é um crime renová-las. Somente a nova sensibilidade moral, e a consciência que não existe, baseada na visão de remotís- simas vantagens raciais e compensações individuais de uma vida mais vasta do que a atual, podem realizar, nestes dolorosos casos excepcionais, o necessário ato do abnegação, que não conta com nenhum apoio da opinião pública. Que o homem adquira uma consciência eugenética e finalmente assuma a direção das forças naturais que encerram os preliminares da felicidade do indivíduo e da raça. Seleção principalmente psíquica, seleção de personalidade. Se os remotos antecedentes e obras ou crimes, estão no segredo do Carma individual, as causas próximas e manifestas se acham na herança fisiológica e amadurecem naquele primeiro templo de educação que é o seio materno, onde a alma que está para nascer, em estado de passividade e de máxima receptividade, recebe impressões para logo desenvolvidas com. a intensidade de sugestões pós-hipnóticas, como premissas indiscutíveis da vida.

Pedimos, por último, à ciência que nos dê o conceito científico da virtude. Extintas ou em vias de extinção, as nossas inadequadas virtudes tradicionais e convencionais, pois correspondem a posições espirituais já demasiado afastadas das nossas, pedimos à ciência que nos diga o que devemos elevar ou rebaixar na escala dos valores morais, apontando-nos o que é detestável e punível. Pedimos não mais a demolição, pois é muito fácil demolir, mas a revalorização mais consciente e mais completa das velhas virtudes intuitivas, uma síntese e uma nova fé para a nossa alma. Sentimos a vida em desacordo com os nossos pais, e o eixo do mundo se desloca do antigo centro ao redor do qual girou durante milênios, completamente modificado nestes últimos vinte anos 5 .

Definimos como racional, passional e pseudoneurótico este tipo complexo de personalidade que é o super-homem. Não obstante tudo quanto temos dito, este poderá ainda parecer um tipo estranho, presa de uma inútil exaltação. Parece incompreensível, mas se é certo que treme, sozinho, no umbral da neurose, de abismos e de terrores, pode, por sua vez, ultrapassando os limites da sensibilidade comum, aventurar-se por esse maravilhoso mundo que encerra todos os êxtases ignorados para a maioria. Se bem que esta se encontre a salvo de alguns terríveis sofrimen- tos interiores, não pode, entretanto, gozar das satisfações do supranormal, mistério longínquo e fascinante a que a animalidade humana aspira, sem sabê-lo, cheia de desejo e de ansiedade.

Parece estranho que não ponha o dinamismo de sua própria direção psicológica ao serviço do bem-estar material e tangível; emprega as suas próprias capacidades nervoso-cerebrais na defesa da vida, da qual e para a qual nasceram, utilizando-as para uma vantagem imediata, mas converte-se em instrumento antivital, quase de ofensa e de destruição de si mesmo, pois olha por demais longe, vislumbra e deseja uma vida mais vasta. Esta inversão de todos os valores, este deslocamento de aspirações, este sacrifício do real ao irreal, do presente ao futuro, do corpo ao espírito, esta imolação ao hipotético e ao invisível é ato aloucado para quem não possui o sentido de certas realidades profundas.

É certo que, também para aquele que vive no mundo superior do espírito e compreende tudo isto, é muito grave sentir em seu próprio centro, não um cérebro aliado e amigo que o ajude na luta árdua contra tudo e todos, um cérebro que nos faz guerra, que, longe de secundar, ataca a vida, transforma todo o trabalho da mesma, complica os obstáculos, aumenta as penas, agrega o peso enorme do drama interior às dificuldades do mundo exterior, já por si suficientes para esmagar um homem. Que terrível problema se tornará uma vida assim, suspensa entre a luta exterior e a interior, ambas sem trégua?

Contudo, a ordem do espírito é irresistível. Se representa um peso, confere por sua vez um sagrado orgulho de si mesmo, uma consciência suprema que outros não possuem. O organismo se gasta e se desfaz, mas não importa. De todos os modos, o fim, para ele, mais ou menos prolongado, é sempre o mesmo e o valor da vida se estriba somente em dar-lhe um conteúdo eterno. O super- homem ressurge em uma nova forma, que é sua e que somente ele, que a adquiriu, poderá gozá-la. Sabe que há uma continuação da vida na eternidade, onde todos os males e todos os delitos se justificam e se compensam. Sente possuir, acima de tudo, uma personalidade e um destino próprios, independente da raça familiar, nacional e humana. O super-homem parecerá um absurdo; mas não o é menos a herança comum de ilusórios e fugazes prazeres, a realidade de trabalhos e dores tenazes, somente para chegar à morte. Foi utopia também todo o progresso; a utopia de hoje poderá ser a verdade de amanhã. É um temperamento de vanguarda que prepara, com risco próprio, as verdades futuras. Se hoje trabalha e sofre, sem ser compreendido, acumula dentro de si faculdades e forças espirituais que um dia o admitirão entre os futuros dominadores do mundo. Aos satisfeitos do presente, desta nossa vida tão horrivelmente mesquinha e imperfeita, aos normais equilibrados no ciclo das funções animais, que gozam e descansam, muito afastados das tormentosas lutas espirituais, caberá, por seleção natural, a função de servos.

Entretanto, não terá sido inútil, queremos esperá-lo, esta excursão pelas terras inexploradas do espírito para descobrir nelas tantas esperanças, esta tentativa de reestruturação por meio da psique e dentro da psique moderna, dos mais altos conceitos éticos, na procura de uma fé mais franca e mais sentida. Tentativa talvez malograda, mas que se justifica por sua sadia intenção. Malograda, talvez, mas que importa? Nenhum mal derivará para quem não persegue finalidades humanas e sente-se recompensado e satisfeito somente por preferir uma verdade já intuída; para considerar que este trabalho foi escrito em 1932. (N. da E.) aquele que conseguiu perceber as forças do eterno, para aquele que vive de uma chama interna que nenhum sopro humano poderá jamais apagar. Mesmo quando este grito de uma alma se perca no vazio e não encontre nenhuma ressonância nos espíritos, não desistirão a evolução e a lei, que continuarão o seu trabalho, sem se precipitar e sem jamais se deter.

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5 Considerar que este trabalho foi escrito em 1932. (N. da E.)

 

(PREMISSA)


Tratarei, nesta monografia, da evolução espiritual. Fá-lo-ei em forma de trilogia, com o objetivo de dar equilibro e proporção à estrutura conceptual e nexo lógico ao desenvolvimento do tema, tratando: I   Concepção; II - Os meios; III   A Realização da Evolução Espiritual.

A necessidade de tratar numa única monografia um argumento tão vasto, que não poderia esgotar-se em muitos volumes, impôs-me uma síntese que concluirá sem poder se deter nas intermináveis particularidades de uma análise, sem poder completar-se com o desenvolvimento de questões colaterais, ao que tive de renunciar inexoravelmente.

Não obstante este contínuo esforço de condensação de pensamento, a vastidão do tema nos fará percorrer os campos mais diversos dos conhecimentos humanos, desde as concepções da ciência moderna à história comparada das religiões; desde o conteúdo espiritual destas e desde o pensamento dos grandes campeões da humanidade, até o estudo psicológico da introspecção, que nos levará às misteriosas profundidades do espírito. De maneira que mesmo quando se queira considerar este escrito somente sob ponto de vista cultural, não duvido que possa interessar às mentalidades maduras, convidando-as ao exame de argumentos, ultramodernos, interessantes e importantes, porquanto constituem o campo inexplorado ao redor do qual trabalham a filosofia, as religiões, a ciência e as arte: o campo dos futuros descobrimentos e das criações intelectuais e morais.

Este escrito, porém, não é tão-somente um ato de estudo e investigação; não é somente um trabalho mental, senão também um trabalho de sentimento e de paixão. Nele reside sua maior importância. Não se trata da mentira literária de costume, com que freqüentemente um escritor prefere mascarar mais do que revelar seu próprio espírito. É coisa bem rara, especialmente hoje  um ato de grande sinceridade.

Os conceitos que exporei, buscados ansiosamente durante vinte anos de estudo (pois que á vida não deve interessar tão-somente a solução dos problemas econômicos, senão também o intelectual e moral) foram captados e não extraídos dos trabalhos de outrem, no ambiente, nas correntes espirituais da humanidade passada e presente. Achei-os e reconheci-os — qual uma estranha recordação —  nos arcanos insondáveis de meu espírito — São, para mim, a revelação de uma recôndita personalidade própria; diria, quase, de um oculto eu interior que vive e obra além dos limites da vida e da morte.

Estes conceitos se me manifestaram gradualmente como por uma interna revelação que, a cada choque da vida, a cada recôndita dor da experiência, se tornou mais clara. Assim foi aumentando, completando-se num organismo ideológico, solidificando-se sob o fogo das provas. Depois do largo aprendizado na escola da experiência, em contato com a realidade, invadiram minha psique racional e humana, e agora, depois da total assimilação, dominam-na conferindo-lhe — ante os mais graves e intrincados problemas do pensamento humano — a segurança que somente pode outorgar a visão direta. Não mais pois, vãs ideologias, porém, sim, a sabedoria expressa pela luta e pela dor; a experiência provada e concluída com objetividade, mesmo quando pessoal, controlada e direta; não mais uma abstração, senão — o que é mais interessante —  um caso vivido.

O leitor se encontrará, portanto, diante da realidade de um drama, e senti-lo-á, se lograr ler profundamente, ultrapassando o sentido superficial, lógico e racional que precisei escolher para a demonstração e o desenvolvimento da tese. Um drama sobretudo, verdadeiro; um drama que, sem dúvida, existiu também em muitos espíritos, perdurando ainda em muitos outros, se bem que encoberto pelo silêncio. Um drama que talvez seja o maior que a humanidade conheça, porém que poucos o vivem intensamente e percebem com clareza. Um drama que deverá ser desenvolvido pela nova filosofia, pelas novas religiões, pela nova ciência, pela nova arte do futuro, e que poderá ser expresso por uma série de argumentações racionais com a magnificência do simbolismo e do rito, ou com a concatenação de fórmulas matemáticas e em expressão pictórica ou poética das sensações do subconsciente  ai onde está o futuro da alma e da arte — ou com a orquestração sinfônica, tal como foi concebida por Wagner.

Wagner vinculou estas concepções ao pensamento coletivo, demonstrando-me a universalidade das mesmas; concedeu-lhes uma importância que excede a minha contribuição pessoal.

Publico-as induzido por um misterioso, indefinível mandato interior, sob a atração das correntes psíquicas coletivas em via de rápida condensação, ou sob a sensação da madureza dos tempos que invocam e reclamam intérpretes. Só o percebe a alma que se preparou no silêncio e na solidão, sozinha num mundo espiritualmente ausente e alucinado por outras miragens. Grandes tempestades íntimas, filhas do mistério, junto ao umbral do infinito, desenrolaram-se silenciosamente sob a forma exterior da indiferença, em meio de um mundo superficial e absolutamente incapaz de admiti-las e compreendê-las e que, sem embargo, representam um. esforço enorme. Uma luta agônica na qual o homem se encontra sozinho frente a frente aos maiores mistérios!

Tudo isto, se reduz o indivíduo a uma vida aparentemente insignificante, pois o afasta de toda a afirmação exterior; se absorve suas melhores energias, privando-o das vitórias que os outros podem alcançar, termina, contudo, por acumular nele tanto caudal de força moral que um dia lhe criará uma vida nova, iluminada numa explosão de luz, como uma ressurreição.

Assim, esta monografia poderá interessar, também, como estudo de um caso psicológico e de um determinado tipo de personalidade humana.

 




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