Pensamentos

Observando o mundo que nos circunda é fácil constatai que não há fenômeno cujo; desenvolvimento não seja dirigido por uma lei própria, como um trilho já feito sobre o qual ele caminha  Este caminho não se traça ao acaso, mas é orientado cm direção a uma dada finalidade, segue uma técnica de desenvolvimento que constitui a lei do fenômeno. Tudo isto é mais evidente no plano físico e dinâmico, domínio da ciência. Assim os fenômenos movem-se em um regime de planificação preestabelecida, que os enquadra dentro de uma ordem, necessária para que tudo não se desmorone no caos.

Ora, a lógica dessa estrutura orgânica faz-nos supor que, para o mesmo regime de ordem, estejam sujeitos também os fenômenos que se processam no plano mental e moral. Tanto mais que eles são de natureza biologicamente mais evoluída do que a dos fenômenos da matéria e da energia, e são mais importantes do que estes, por dizerem respeito à diretriz de nossa conduta e, portanto, à nossa evolução. E, neste caso, trata-se do elemento humano, que é o mais avançado, na escola evolutiva. Em contradição com tudo aquilo que a ciência nos mostra acontecer nos campos de seu domínio, seria absurdo que a mesma coisa não acontecesse também na zona do ápice da vida, posta frente à evolução, no ponto de sua mais intensa atividade de conquista. A razão nos diz que, além do universo da matéria e da energia, deve haver também um universo do espírito constituído dos valores imponderáveis morais e ideais, isto é, uma outra ordem de fenômenos regulados, como acontece com os outros, por leis que lhes disciplinam o funcionamento

Até aqui estamos no terreno da lógica, isto é, em um campo que o raciocínio nos indica que deve existir. Ora, esta premissa autoriza-nos a admitir, como hipótese de trabalho, a existência de leis reguladoras de tais fenômenos, e nos autoriza também a lançar-nos à pesquisa delas para conhecer a técnica de seu funcionamento. Isto é o que neste livro nos propomos fazer. Ponhamo-nos então num terreno prático, positivo, analítico, experimental. Esta pesquisa já foi por nós seguida inicialmente e aqui oferecemos os primeiros resultados, para que possam ser utilizados e também desenvolvidos, depois desta nossa fase inicial de pesquisa.

Não procuraremos persuadir o leitor com dissertações teóricas, mas colocaremos sob seus olhos, sobretudo os fatos e os resultados da análise dos mesmos. Que o próprio leitor repita a experiência se quiser, com outros fatos tomados para exame, para controlar a validade das conclusões tiradas de nosso trabalho. A nova pesquisa é possível e pode-se fazer tanto mais profunda quanto mais longa ela for executada. Nós aqui estamos apenas debruçados sobre os umbrais de um mundo novo, do qual só nos aparece uma primeira revelação. Basta esta, porém, para fazer-nos pressentir que a estrada a percorrer neste sentido é longa e que nos leva longe demais. Não porque posemos de descobridores, mas porque os fatos que provam uma presença de leis neste campo lá estão, podendo ser verificados por todos, em todo lugar e momento, prontos a revelar a qualquer um que os observe como é regulado seu funcionamento. Fatos nos quais se manifestam aquelas leis já acontecem em todos os lugares e assim a sua descoberta pode ser feita por qualquer um.

Conhecer estas leis para depois adequar-se a elas, significa possuir a arte da conduta certa e portanto pode gozar de todas as vantagens que dela derivam, e evitar todos os danos que são conseqüência fatal de todo erro contra aquelas leis. Estamos fazendo um discurso utilitário, coerente com a realidade da vida que é utilitária. Nós o estamos fazendo em um momento no qual o homem passa da fase infantil a de adulto. Ele é então capaz de compreendê-lo.

A vida parece ter aberto um concurso entre quantos procuram oferecer-lhe a idéia de que precisa hoje para cumprir a tarefa de reconstrução necessária, depois da atual tarefa de destruição do passado. É evidente que, presentemente, se vive em um ritmo de transformismo evolutivo acelerado em todos os campos. Essa é a idéia nova que procuramos formular e oferecer, convencidos de que a vida, atualmente, vai aceitar, se servir aos seus desígnios.

A vida sabe o que faz. Quem observa seu funcionamento, desde suas primeiras tentativas elementares e formas menos evoluídas até suas construções mais complexas e evoluídas, não pode deixar de encontrar nela uma inteligência superior. Ainda que contenha males e imperfeições, a vida sempre vence e avança. Se ela, além de suas formas, é constituída, também, de uma inteligente diretriz de funcionamento, é inegável, então, que deve ser possível comunicar-se com essa inteligência para compreender qual é o seu pensamento e a sua vontade. Ora, comunicar-se significa estabelecer um diálogo no qual se propõe questões e se obtêm respostas. Isto é exatamente o que procuramos fazer, baseando-nos na lógica indicada, dado que esta era a estrutura do fenômeno, onde o diálogo deveria ser possível.

Chegados a este ponto, trata-se de resolver o problema de como conseguir estabelecer esse diálogo. É certo que a vida pensa. Vemos seus efeitos, que nos revelam uma extraordinária sabedoria. Mas a vida não formula seu pensamento com palavras, como o fazemos nós. Ela age, não fala. Sua linguagem é concreta, manifesta-se materializada nos fatos. Para entender aquela linguagem, é necessário observar aqueles fatos. Trata-se de descobrir neles aquele pensamento subterrâneo que se esconde sepulto no íntimo da realidade. Mas ele foge a nosso exame. Como apreendê-lo então?

Há momentos, como o atual, de trabalho febril por parte das forças da vida. Momentos de revolução, de realizações urgentes, de explosões decisivas, nos quais a pressa e o ímpeto das realizações fazem que se rasgue o véu atrás do qual a vida se protege, como costuma fazê-lo, nos pontos mais nevrálgicos e preciosos de sua organização, principalmente no de sua direção. Na série de fatos que exporemos, anotamos exatamente casos e momentos mais evidentes, nos quais nossa análise pôde colher o pensamento da vida mais a descoberto. Esperamo-lo no caminho e foi assim possível ver sua técnica funcional, isto é, a estrutura e conteúdo das leis que regem o seu funcionamento.

Este trabalho fizemo-lo no plano teórico em outros livros. Mas aqui estão estas leis que pomos a nu, depois de tê-las visto e mostrado, deixando a palavra com elas. Neste livro não somos nós a expor as idéias, mas deixamos que o leitor escute, nos fatos, aquilo que a vida diz, e veja com seus olhos qual é o seu pensamento, observando em certos casos o seu comportamento. Assim este livro deseja ser vivo, não uma dissertação genérica sobre as leis da vida, mas um trabalho de aplicação em detalhe, apoiado sobre uma série de casos típicos tomados para exame. Isso porque o nosso objetivo não é dissertar, mas mostrar, no plano prático, quais os danos que nos ameaçam quando violamos estas leis e de que vantagens podemos gozar quando as seguimos.

Como saber de qual premissas negativas derivem resultados positivos? É preciso aprender a comportar-se, a escolher a solução justa para nossos problemas. Se colocarmos uma premissa positiva, podemos contar com ditas leis, porque elas "devem" levar-nos a resultados positivos. Em suma, trata-se de conquistar uma nova consciência da vida e um senso de responsabilidade, fruto de um conhecimento anteriormente não possuído.  Trata-se de passar do estado de incerteza do primitivo imprevidente, a um novo modo de viver, regido por uma planificação inteligente, para possuir em vez de uma vida incerta e perigosa, uma vida garantida e protegida. Mas aquilo que é mais urgente para atingir tal planificação e gozar as suas vantagens, é o conhecer e, portanto, o seguir as leis da vida. Sem isto bate-se a cabeça, a cada passo, contra aquelas leis que reagem a cada violação, comportando-se para conosco como nós nos comportamos para com elas. É portanto de supremo interesse conhecê-las, seja para evitar danos, como para ganhar vantagens.

Se em outros livros tratamos dos problemas espirituais com sentido de fuga do mundo, agora, para acompanhar o esforço da vida no momento atual, estamos seguindo neste a orientação positiva prevalecente, à qual adere a nova cultura da tecnologia contemporânea. Porque visamos a resultados reais, é que deixamos falar a vida com sua linguagem de fatos controláveis por todos, para concluir com uma ética racional e científica, mas universal como a ciência, independente de posições fideísticas. Mais do que de elucubrações filosóficas, hoje há necessidade de um conhecimento capaz de resolver favoravelmente os problemas, dando uma resposta adequada à questão, a fim de se obter um guia prático sobre como se comportar, para evitar o próprio dano.

 

ORIENTAÇÃO

O presente volume confirma e desenvolve o precedente: Como Orientar a Própria Vida O objetivo de ambos, é de mostrar, racionalmente, sem qualquer premissa gratuita, baseando-se na lógica e nos fatos, a utilidade de seguir uma conduta moral reta. Eis a novidade, que poderá parecer revolucionária: estes livros nos mostram qual deve ser o comportamento correto, baseando-se sobre um princípio diretivo, completamente diverso daquele vigente no passado.

Trata-se de uma transformação hoje em ação, não superficial e formal, como geralmente costumava acontecer no passado, mas substancial e de base, porque de tipo biológico, de vez que cobre toda a personalidade humana. A mudança é substancial porque não se verifica apoiando-se no mesmo nível evolutivo, mas transportando-se a um nível superior.

Este fato deriva de uma transformação de forma mental, isto é, do instrumento psíquico pelo qual o homem concebe seu mundo. É natural, então, que um ser evolutivamente mais maduro possa viver aplicando princípios que inicialmente não era capaz de conceber e que somente agora pode compreender e seguir. Portanto a base do fenômeno ético que aqui estudamos é positivamente biológica  Tal mudança é um fato que se está verificando e que não pode deixar de ser admitido por qualquer um que tenha olhos para ver. Procuremos entendê-lo.

A princípio havia: "a luta pela vida". Deste ponto de partida, que levava a uma necessidade de contatos, desenvolveu-se, através de distinções e complicações progressivas, a técnica das relações sociais. Originalmente o modelo daquelas relações era agressivo-defensivo, isto é, do tipo guerreiro  Disso derivava que o valor individual era dado pela força. Nela baseava-se a ética do primitivo. Este princípio é tão fundamental que até hoje sobrevive; por ele um direito não tem valor se não se faz valer por uma força. De fato, somente hoje as massas adquiriram-no, porque aprenderam a se fazer valer pela força do número e da inteligência organizadora.

Observemos o  desenvolvimento do fenômeno.  O mais forte impunha respeito porque soubera vencer tudo e todos — trabalho difícil. A vitória, então, autorizava-o a comandar porque, ainda que estivesse naquele nível, ela representava um valor. Naquele grau de evolução, isso era também justo, porque o mais forte representava o melhor, pois que era o mais apto para sobreviver, tendo portanto o direito de ser chefe, arrastando os outros menos fortes e capazes, que por isto mesmo deviam obedecer-lhe como se fossem seus escravos. Tal chefe certamente era egoísta e comandava por si só, mas ainda que de forma tão primitiva ele começava a fixar o conceito de autoridade, dependendo dele a manutenção de uma ordem necessária à convivência. Assim, embora à base do desfrute do escravismo, começou-se a trabalhar para a construção do edifício social, em todos os seus aspectos, até sua complexidade atual.

Deixemos os pormenores. Por esta estrada chegamos até o presente. Hoje, porém, verificam-se fatos novos que levam a um ponto de ruptura do velho ponto de equilíbrio. A organização coletiva está tomando proporções sempre mais gigantescas. A ciência e a técnica colocaram nas mãos do homem meios complexos e poderosos demais para que possam ser usados com sua velha forma mental. Dessa forma, se não se quer terminar no caos e destruir-se, é necessário atingir um estado de consciência até agora desconhecido. Neste momento não há escolha: ou compreender e aprender a comportar-se, ou desorganizar-se e destruir-se. Para não atingir este ponto, urge então compreender. O chefe não pode mais ser do tipo antigo, um conquistador do poder, que ele detém para dominação de seus dependentes. Aparece a necessidade de um novo método de comando, de poder, de autoridade, não mais aquele de domínio por parte do mais forte, que foi o vencedor, mas daquele de funções sociais a serviço da coletividade. Eis porque os velhos conceitos vigentes no passado estão hoje em crise e os jovens estão processando rapidamente sua liquidação.

Tudo isso não nos autoriza a condenar o passado. Em relação ao seu tempo não foi um erro, mas uma fase necessária de desenvolvimento, como o é a infância para o homem adulto. A seu tempo, aquele sistema funcionava bem porque era proporcional ao estado infantil da humanidade. Mas hoje, em uma fase mais desenvolvida, não pode mais ser assim e não há conservadorismo que possa fazer valer aquilo que não tem mais serventia para a vida. E inútil chorar e resistir. Isto é o que fatalmente deve acontecer e que está acontecendo.

Consideremos como funciona a vida.  Ao homem, freqüentemente, basta enunciar a palavra ou o pensamento sobre evolução, em vez de agir. A vida, ao contrário, não se expressa com palavras, mas com fatos. Seu pensamento está escondido e não podemos ver senão quando este se manifesta pela ação. A vida não faz a teoria da revolução, mas faz a revolução. Isto é, não fala de mudanças, mas as realiza. Para suprimir a idéia, suprime a pessoa que a sustém, e assim por diante. Hoje, quando a vida se move sobre este caminho de realizações, ela está decidida a levá-las a cabo sem dar explicações. Seu pensamento, se o quisermos ver, vê-lo-emos escrito nos fatos.

Confrontemos agora a velha fase evolutiva com a nova para vermos em que consiste a passagem de uma para outra. Antes de tudo podemos dizer que não existe oposição real entre a velha situação e a nova. A vida, em sua evolução, não toma hoje uma direção diversa daquela do passado, apenas mudou a maneira de proceder, tornou-se diferente. A estrada que a vida percorre é uma só, mas agora atingiu um ponto em que se apresenta mais larga, diversamente situada, aberta em direção a outros horizontes. Na atual revolução, não acontece senão uma passagem para uma zona mais avançada.

Como era feito o velho sistema diretor da conduta humana? Havia tomado as duas formas que a vida possui, a do macho, isto é, da força, e a da fêmea, isto é, da astúcia. No sistema de luta do mundo animal, encontramos o germe deste fenômeno. Surge assim o poder civil e o religioso, ambos presentes desde o início da humanidade. Mas, como dissemos que um direito não tem valor se não se faz valer por uma força, assim não tem valor um poder que não está armado para impor-se. Eis porque cada um dos dois devia possuir uma arma. Qual era?

Acima dissemos que os vencedores submetiam os povos, reduzindo-os a seus escravos, assim criando e mantendo a ordem sob seu domínio. As relações sociais eram, portanto, do tipo amo-servo. O rei era o chefe que comandava todos. Este era o modelo macho de domínio, baseado na força. Mas a vida oferecia também um outro modelo, aquele do tipo feminino, baseado na astúcia, que já cumpria sua função, porquanto representa os primeiros degraus do desenvolvimento da inteligência. Formou-se assim em nome do invisível, do mistério, do além, um outro tipo de chefe que criava e mantinha a ordem sob seu domínio.

A princípio as duas funções podiam estar unidas na mesma pessoa, de modo que o feiticeiro era um chefe e o rei era um deus. Mas em cada caso suas relações com as massas eram do tipo amo-servo, por que aquele era o único modelo que conheciam. Foi assim que, encontrando-se já existente e pronto para o uso, ele foi facilmente transplantado para o campo espiritual. Ora, também este poder tinha necessidade de uma força para manter-se e ele encontrou-a neste outro campo, conseguindo assim freqüentemente sobrepor-se naquele terreno. Como a Terra tinha seus reis, imaginou-se um rei dos reis que fosse superior a eles, e espiritualmente, mais elevado. Assim a autoridade espiritual elogiou os reis e dominou os povos, fazendo-se representante de Deus e governando em seu nome.

Eis o velho sistema. Também este segundo poder tinha naturalmente suas armas, porém somente do tipo psicológico, e elas serviam bem por milênios. Hoje, porém, a mudança da forma mental modifica tudo. A potência daquelas armas baseava-se em ameaças incontroláveis e no medo que estas incutiam. Elas necessitavam da sugestionabilidade das massas, portanto de sua fé, que desmorona tão logo se desenvolva o espírito crítico e veja as coisas, mais profundamente, com outros olhos. As novas gerações nem ao menos concebem mais como possa existir e ser feito o inferno.

Mas, o que desmorona? Na realidade somente o velho modo de pensar e de fazer as coisas, porque permanece invariável o mesmo ponto supremo a ser atingido pela evolução. É assim que, se hoje tanto se fala da "morte de Deus", isso não significa senão a morte do velho conceito comum de Deus, para atingir um outro de mais alto tipo e valor. Trata-se de um Deus visto de uma posição evolutiva mais avançada, ainda maior e mais belo. É a evolução que nos está construindo os novos olhos para vê-Lo. Mas então não se trata apenas da morte de um método superado, para continuar a fazer a mesma coisa para o mesmo fim, mas de uma forma mais adaptada porque melhor responde às transformações realizadas nos tempos novos.

É para adequar-se a esta necessidade que neste livro abandonamos a velha forma mental e, embora visando ao mesmo fim, usamos uma outra que os jovens hoje compreendem melhor, e que serve para avançar ainda mais em direção aos mesmos nobres ideais buscados no passado. Por isto não nos servimos da sugestionabilidade, medo, credulidade etc., meios adaptados ao subdesenvolvimento; preferimos os da lógica e da razão, da compreensão e do conhecimento, que nos avizinham do mesmo Deus das religiões, entendendo a lógica de seu trabalho e a beleza de sua finalidade. Falar a linguagem do passado torna-se, neste momento, cada dia mais anacrônico. É inútil resistir à corrente da vida que avança. Assim procuramos segui-la, seguros de que ela, também sob esta nova forma, expressa o pensamento de Deus, como a Sua vontade.

 Trata-se de modificações biológicas fundamentais de natureza evolutiva, onde a crise atual não é uma crise de religião, mas de diretrizes éticas universais. É por isto que neste livro apresentamos um modelo biológico e tipo de vida diversos daqueles seguidos no passado, demonstrando que o homem reto e justo vale mais do que o homem forte e vencedor. Como se vê, a substância da velha moral não desaparece, mas adquire bases sólidas de tipo científico. Apela-se para a inteligência que sabe compreender e não para a obediência e passividade do ignorante Utilizam-se as qualidades do homem novo, não mais entendido como súdito a ser dominado, mas como um interlocutor para dialogar. Deixamo-lo livre em sua consciência, mas convencemo-lo, porque hoje há argumentos para convencer e capacidade para ser convencido. Explicamos que a vida não se baseia na força, senão para os subdesenvolvidos incapazes de compreendê-la, e sobre o mérito que, segundo a justiça, é direito perante a Lei de Deus.

Trata-se de um direito sagrado, garantido por Deus e que o homem novo conhece, porque, neste nível, ele adquire consciência do bem e do mal, dos seus deveres e de seus direitos. Finalmente o conceito do bem e de valores positivos destaca-se do conceito do mais forte, com direito a qualquer abuso, para tornar-se o de retidão e de justiça, baseado sobre a realidade em funcionamento das leis da vida, deixando de ser apenas uma afirmação teórica. E para apoiar nossas afirmações em bases positivas, que aqui nos baseamos sobre a observação objetiva do modo pelo qual age a Lei de Deus nos pontos que são passíveis de controle.

Estes são os objetivos do presente livro. Tratemos de compreender-lhe todo o significado. Quis ele nascer em um momento histórico gravíssimo, de cuja importância poucos se dão conta. Mas o fenômeno já está funcionando e nós estamos dentro dele. Portanto não é mais hora de discutir se a revolução existe ou não, mas de observar como ela está se desenvolvendo.

Ocorre hoje um fato novo na história. Não é uma religião, mas é o princípio religioso que cai. Nasceu uma vez a oposição, mas em torno dos mesmos conceitos básicos, pelos quais as duas partes continuavam a entender-se, porque a sua linguagem permanecia a mesma. Hoje a diferença no modo de pensar é tal, que as duas partes não se entendem mais, porque foi mudado o pensamento e a linguagem que o expressa. O novo simplesmente suprime o velho por não tomá-lo mais em consideração. Procede-se dessa forma até chegar ao ponto de uma dessacralização e desmisticismo global que fazem desaparecer os velhos conceitos, postos fora de uso. Isso é alarmante porque, sendo o problema ético monopólio das religiões, com a queda destas vêm a faltar as diretivas da conduta humana, o que leva à anarquia, mal social gravíssimo.

Vemos assim cair todo o instrumental dos velhos expedientes psicológicos coatores, necessários para induzir o homem a comportar-se bem, e não se sabe com que substituí-los para não terminar no caos. Não se pode impedir que caiam, porque eles não mais aprisionam a mente moderna, saída da menoridade. Aumenta uma sensação de vácuo diante de nós, apavorante porque perigosa É inútil insistir com o velho. A orientação moral deve agora ser conseguida por outro caminho e funcionar com outros métodos, os do passado eram ótimos e funcionavam bem para o homem da época, mas não servem para o homem moderno.

Para compreender o significado deste livro, devemos então compreender o significado da atual revolução espiritual, porque é em função desta que aquele nasceu. Não se trata de uma cisão de doutrina, mas de um fenômeno de evolução, porque não se tende a formar um novo grupo dissidente ao lado do velho, permanecendo no mesmo nível, mas a deslocar todo o grupo para um outro nível. De fato, hoje o antagonismo é entre progressistas e conservadores dentro da mesma doutrina. A dissensão não ocorre entre dois partidos destinados a sobreviver fixando a cisão, mas entre a parte que deseja avançar e a que não o quer, porque é automaticamente liquidada por velhice.

Trata-se de um fenômeno evolutivo, e podemos dizer que ele consiste em uma superação para avizinhar-se sempre mais de Deus. Neste caso não temos uma cisão em partes, mas um salto avante, o que significa uma continuação no caminho da evolução. O caminho não é a destruição do velho, mas a construção do novo. O primeiro é somente um fato implícito no segundo, necessário para realização deste.

Basicamente, como já dissemos, trata-se de um fenômeno de evolução, sadio e vital, segundo a Lei de Deus. Por isso o seu esquema é diverso daquele dos cismas do passado, que representavam uma moléstia do grupo e produziam seu debilitamento. Naqueles cismas a mudança da cisão era em sentido horizontal, de superfície, e levava à divisão. No caso atual aquela mudança é em sentido vertical, de evolução ascendente (entre o passado e o futuro), e tende a unificar-se em um plano mais alto. A tônica é diversa. Hoje não se trata de conquistar espaço vital com proselitismo, mas de transformar-se por evolução.

O fenômeno já está se realizando. A vida lançou-se nesta direção. Isso para o homem significa dever cumprir um imenso trabalho de construção. Se cai a velha ética, é preciso encontrar uma nova, porque uma ordem é necessária. A busca de um novo caminho que garanta a manutenção da disciplina faz-se urgente, porque com o crescimento do poder humano,  fazem-se maiores os erros que se podem cometer, tanto que hoje se pode chegar a desastres sem precedentes. As regras de orientação mudam quando, em vez de uma carroça, a gente dirige um automóvel à alta velocidade. Antigamente, éramos protegidos pelas limitações impostas por nossa ignorância que não permitia pôr as mãos sobre as grandes forças da vida. Mas pensemos que mentalidade diversa é hoje necessária para dirigir-se, quando basta apertar um botão para que estoure uma guerra atômica capaz de destruir a humanidade. E o aumento de tal potência humana ocorre e difunde-se neste momento com um crescimento impressionante e irresistível, de modo que o perigo de arruinar-se por inconsciência faz-se sempre maior. Pode a ciência, então, tornar-se loucura? Devemos sustar seu progresso? Não. Devemos somente desenvolver, paralelamente, uma consciência ética para saber fazer bom uso daquele progresso.

Antigamente, em um regime de inconsciência e de irresponsabilidade, era possível sobreviver brincando impunemente, tomando-se algumas liberdades que só uma ética aproximativa, simplista, formal, preceituada, com base mística e emotiva podia permitir. Hoje, a ciência, mostrando-nos que tudo é regido por leis exatas, fez-nos matar um sonho e colocou-nos perante uma dura e complexa realidade que não perdoa. Pagam-se todos os erros, com justiça, mas paga-se tudo, com exatidão matemática, fatalmente, sem possibilidade de escape, sem aquela elasticidade de soluções que o problema elementar, formulado a grosso modo permite.

Com o progresso, pelo contrário, os problemas fazem-se sempre mais numerosos e difíceis. Não é mais válido o velho método de legar a sabedoria dos avós de pai para filho. Não cremos mais nas fábulas infantis, que outrora nos mantinham encantados. Na falta de outras diretrizes há quem as peça ainda às velhas mitologias religiosas, como a criança que busca refúgio entre as saias da mamãe. Mas ela está envelhecida e não pode mais ajudar, mesmo porque nos tornamos muito grandes para que ela o possa fazer. Desejaríamos continuar a brincar e a sonhar, mas estamos crescidos e uma vastidão ilimitada, inexplorada, eriçada de problemas novos, todos a serem resolvidos, assalta-nos de golpe a visão. Saberemos construir-nos espiritualmente até a altura necessária para cumprir este imenso trabalho?

Esta é a angústia do homem atual. Fizemo-la nossa e neste livro, colocando-nos frente àquela dura realidade, procuramos cumprir uma primeira tentativa de orientação séria, com razões visíveis, assumindo como base sólida as leis da vida. Temos consciência de que nos encontramos na hora crítica da passagem de uma era para outra. Devemos então sentir e assumir a responsabilidade que os tempos novos cada dia mais impõem a cada um e a todos.

É próprio do estado orgânico, para o qual a humanidade se encaminha, a formação de problemas interdependentes, ligados em cadeia. Aqui apresentamos agora alguns deles, inerentes à industrialização moderna, mostrando como se pode resolvê-los de modo mais lucrativo, quando se usa o sistema de retidão que nos e proposto pela Lei.

No passado, a produção era reduzida, o trabalho era um artesanato, para poucos consumidores. O estado primitivo da técnica não permitia a grande organização industrial com produção em série, que implica tanto num suprimento de técnicos aptos à execução daquele trabalho, como no fornecimento de uma massa de consumidores preparados para absorver aquela produção. A indústria torna-se assim um fenômeno complexo, no qual, como rodas dentadas, devem-se engrenar, um exigindo a presença do outro, os elementos sucessivos de um ciclo preestabelecido. O problema da fabricação do produto no estabelecimento industrial encontra-se espremido entre dois problemas: o da fabricação do técnico nas escolas, isto é, do trabalhador que produz, e da fabricação do consumidor (para quem vender), isto é, do mercado assegurado. Por sua vez esses problemas encaixam-se em outros, que nos levaria longe demais para examiná-los. Limitar-nos-emos a observar os três problemas: do técnico, do produto e do consumidor, a que correspondem outros três: o da escola, da indústria e do comércio.

Comecemos pelo primeiro. Antigamente a instrução tinha caracteres diferentes da atual. Era reservada a poucos, a uma elite que podia permitir-se um tal luxo. Freqüentemente tinha somente a finalidade de formação cultural, para embelezar com um título uma posição econômica privilegiada. Tratando-se de pessoas que não tinham necessidade de trabalhar para viver, e freqüentemente não sendo a instrução adquirida com essa finalidade, desejava-se estudar o menor possível para receber o famoso pergaminho, como então se chamava o diploma, e do qual se dizia que na vida não servia para nada. O estudante, portanto, não se preocupava, como o faz hoje, se o mestre tinha ou não conhecimento do que ensinava.

Hoje a instrução é sobretudo técnica, não destinada a ensinar a dissertar como um intelectual, mas para adquirir um conhecimento que deverá depois ser aplicado em uma posição de ganho e responsabilidade. Como se vê, pelas condições alteradas, o problema do ensino hoje é apresentado de maneira diversa. Ele não é mais do tipo acadêmico como era antes, mas prático, positivo, realizador. Não é mais o monopólio de uns poucos eleitos, clamando em nome de sua sapiência às massas ignorantes, estupefatas ao ouvi-los Estas fizeram-se mais cultas e inteligentes e foram mobilizadas para utilizar o imenso material humano, antes abandonado a si mesmo, tornando-o produtivo com o adestramento mental. É, portanto, de seu próprio interesse aprender, e o indivíduo vai à escola para isto, e por esse motivo quer uma escola bem feita, para aprender, porque sabe que disso dependem seus futuros ganhos e posição social.

O fato perante o qual nos encontramos hoje é a instrução não só para as massas, mas, ao mesmo tempo, é um meio para o indivíduo tornar-se produtivo com vantagem individual e coletiva. Isso é devido ao desenvolvimento técnico, efeito do progresso científico. É devido também a um novo impulso de laboriosidade, que se compreende ser o único meio, intensificador da produção, para alcançar o bem-estar, ao qual quem trabalha sente ter direito. Descobriu-se assim o método para nos tornarmos ricos.

Aqui pode surgir uma objeção. Sem dúvida, assim se eleva o nível de vida. Mas, é esta a finalidade da instrução, ou ela é uma outra, isto é, a da formação espiritual? Com o método de mecanização da instrução não se arrisca a atentar contra a integridade da personalidade humana, construindo um robô da técnica, perfeito no exercício de suas funções, mas desprovido da orientação, ainda necessária em outros campos? Não se arrisca a diminuir a dignidade do homem, fazendo-o apenas um técnico especializado a ser colocado na máquina da produção industrial como uma peça feita sob medida?

Pode-se responder que tipo de instrução é útil para o mecanismo da produção, que deve ser aceita, porque é a base do bem-estar. Deve ser aceita, mas sem maiores pretensões, isto é, admitindo que aquele sistema só é válido no seu setor e que, portanto deve ser completado no que diz respeito à formação da personalidade. Com aquele sistema não se pretende construir todo o homem, mas somente o técnico, perito em seu setor, para executar seu trabalho. Espera-se dele que se complete, e a industrialização não o impede, mas tende sempre mais a permiti-lo com semana inglesa, o trabalho cada vez mais executado pela máquina, e meios técnicos de difusão do saber etc...

Há, depois, o fato de que uma instrução de massa não pode senão perder em altura o que ganha em extensão. O desenvolvimento hodierno em sentido horizontal não pode ser obtido senão renunciando-se ao desenvolvimento vertical, que só uma elite de poucos pode atingir. Antigamente o saber podia ser profundo, mas era concentrado em uns poucos. Hoje ele é mais superficial, mas difuso entre muitos. Trata-se de compensações de que não se pode fugir. A difusão da cultura é paga com seu nivelamento.

Antigamente os governos preferiam deixar os povos em estado de ignorância porque assim era mais fácil dominá-lo. Hoje a instrução torna-se um direito. As próprias indústrias começam a construir escolas por sua conta, para preparar seus técnicos especializados e trabalharem em suas oficinas. Assistimos à democratização do ensino, dispensado com meios técnicos que o multiplicam ao infinito. As "teaching machines"2 representam uma revolução nos métodos didáticos.

Assim a instrução vem construir a parte introdutória da vida, a de adestramento para o trabalho, do mais simples ao mais complexo. Desta forma o período escolástico torna-se a primeira fase do trabalho do homem, a de preparação para o outro que virá depois na fábrica. A instrução torna-se a fase de construção do técnico e encaixa-se na engrenagem da organização industrial. Assim a grande produção em série pode ser precedida e alimentada por uma produção paralela de grande número de trabalhadores preparados tecnicamente. A escola começa a fazer parte portanto, do moderno tecnicismo. Assim a instrução se liga à produção como sua fase preparatória, e a indústria faz dela um problema seu, porque é condicionada por ele.

É certo que tudo isso é coerente perante o fim a que se propõe a sociedade. Mas para onde poderá levar-nos a lógica do desfrutamento racional em busca de rendimento econômico? Que perigos pode esconder essa industrialização da vida? O método da linha de montagem que produz tantas unidades por hora, adapta-se à estrutura espiritual do homem, ou pode ser um suicídio para ele? O fim de grande parte da instrução tende hoje a ser, não a formação do indivíduo maduro e completo, mas um investimento de capital. Calcula-se quanto custa a instrução em relação ao rendimento que depois se pode obter do indivíduo a quem ela foi aplicada. O problema não é mais a construção espiritual de um homem, mas o bem-estar. Chegando-se à abundância, que outros problemas poderão surgir?

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Compreendido o problema da fabricação do técnico que produz, observemos outro problema conexo, o da fabricação do produto. Quais são nas organizações industriais as relações entre dirigentes e operários? Na realidade trata-se da divisão de um mesmo trabalho, com funções complementares, uma necessária à outra. Ora, cada atrito que houver é prejudicial a todos, enquanto que o método da colaboração representa o de maior rendimento. É aí que se vê a lógica da aplicação do princípio de retidão da Lei, em obediência aos princípios utilitários, segundo os quais funciona a vida.

Neste campo podemos ver como a evolução muda a forma das relações sociais. Antigamente o rendimento do trabalho era anulado pela fadiga da luta, em vez da produção. Às custas de uma menor produção era necessário pagar o dispêndio de energia utilizada para manter em pé a atividade contraproducente da luta, equivalente àquilo que em mecânica é o atrito, que funciona como resistência, absorvendo energia. Os dois elementos da relação trabalhista eram o patrão e o servo. O primeiro dizia ao segundo: "eu sou o patrão porque venci e por isso deves obedecer-me. A lei, a verdade, a justiça são aquilo que eu quero, como me agrada e como me serve". O servo, de sua parte, reagia com a resistência passiva, negando-se ao trabalho reduzido, e a um rendimento mínimo. A metade da fadiga era desperdiçada com esses atritos.

O novo método para o qual avança a vida consiste em ter compreendido a utilidade que há para ambas as partes em evitar essa dispersão. Os dois elementos da relação de trabalho avizinham-se para usufruir das vantagens a que leva a compreensão recíproca. O primeiro diz ao segundo: "nós fazemos parte do mesmo organismo. Portanto, é nosso interesse colaborar, eliminando a fadiga louca e cretina que não é útil a ninguém. Procuremos ser mais inteligentes, evitando-a. Eu, que comando, faço uma parte do trabalho que não sabes fazer; tu que obedeces, faze uma outra que eu não posso fazer. Temos necessidade um do outro. Convém a ambos a colaboração".

O método de patrão e servo é uma concepção infantil, que ainda sobrevive nos países subdesenvolvidos. Mas a evolução leva, fatalmente, ao outro sistema, apenas se desenvolve a inteligência para chegar a compreender a utilidade de praticá-lo. Não é um problema de bondade ou amor mas de produtividade do próprio esforço de trabalho. Não se trata de ideais, mas de gozar de uma vantagem e eliminar um prejuízo. Pode-se calcular a perda de rendimento a que leva o litígio. Nos países mais civilizados os industriais mais inteligentes antecipam espontaneamente melhoramentos que, por si mesmos, se imporão dentro em pouco e que será inevitável concedê-los. O cálculo deve ter-lhes demonstrado a maior conveniência de escolher esse caminho que elimina greves, sabotagens, debates e atividades similares dispendiosas e dispersivas, que o industrial deve pagar.

Tudo isso corresponde à lógica da evolução. Ela leva do separatismo à unificação, do caos ao estado orgânico. Aqui vemos, ainda uma vez, aplicados pela vida, estes seus princípios que já ilustramos acima. A evolução aproxima os elementos que a involução mantinha afastados e inimigos. A evolução nos leva em direção a um rendimento sempre maior de nosso esforço, eliminando as dispersões. Assim assistimos a um contínuo processo de restrição da negatividade e de dilatação da positividade, o que significa melhoramento das condições de vida.

*   *   *

Fabricando-se o técnico para produzir e depois o produto a ser consumido, é necessário fabricar o consumidor que absorva a produção. Chegamos assim ao terceiro termo conclusivo do ciclo: escola, indústria, comércio. Também este outro problema de vender o produto pode ser resolvido de duas formas: pelo baixo nível evolutivo do passado, feito de luta, isto é, com o método da imposição, pelo nível superior evolutivo, baseado na compreensão e colaboração. Observemos agora, também na moderna organização comercial, o maior rendimento alcançável com o método da retidão, e, portanto, o valor dessa qualidade também neste campo -

Diz-se que a propaganda é a alma do comércio. No estado genuíno ela deveria ser uma oferta de um produto útil ao consumidor, dado que ele paga, indo honestamente a seu encontro para satisfazê-lo. Em um regime de retidão e colaboração, deveria ser esse o dever do produtor. Em vez disso, no velho regime do tipo egoísta separatista, a finalidade é outra, isto é, a de poder obter a maior quantidade possível de dinheiro. O comprador é um material a conquistar do próprio interesse do produtor. O intercâmbio se implanta sobre um regime de luta. O produto não é oferecido no interesse do consumidor, mas no do produtor.

É natural então que ao egoísmo deste se contraponha ao do outro elemento e entre os dois se estabeleça um estado de inimizade. O comprador, perante o produtor que finge servi-lo, enquanto sua única finalidade é o lucro, reage com a desconfiança, Esta, por sua vez, interfere no comércio. Reaparece assim o regime dos atritos que absorvem parte do rendimento, como já se viu nas outras fases do ciclo.

Quando a produção é abundante, o consumidor encontra sua defesa no sistema de concorrência, de que, levando à seleção do melhor produtor, permite ao consumidor uma possibilidade de escolha. A eliminação da negatividade do produtor que só vê seu próprio lucro é imposta à força, enquanto lhe custaria menor dispêndio de energia um espontâneo regime de positividade, consciente de seu maior rendimento. Estamos em uma ordem de expedientes de caráter contraproducente para ambos os lados.

A propaganda segue estes impulsos. Ela deveria ser do tipo informativo a serviço de quem busca notícias dos produtos. Em vez disso, ela é do tipo assaltante, para impor o produto, isso de uma forma que nos centros urbanos pode tornar-se obcecante. O público, sabendo que isso se faz no interesse do produtor, defende-se, habituando-se a não ver para sentir o aborrecimento o menos possível. Eis que o resultado em parte é negativo, e a despesa da propaganda torna-se contraproducente. O resultado da invasão propagadora é a formação de uma atitude especial de rejeição automática, para livrar-se de tal agressão psicológica. Contra as tentativas de forçar uma idéia a penetrar por sugestão o organismo mental, acontece como se neste se formassem anticorpos com função defensiva. O quadro propagandístico, é repelido de forma automática pelo subconsciente, exatamente por ser um quadro de propaganda, tão logo a mente apercebe-se dele. Apenas ele aparece, o efeito que produz é sobretudo o de provocar esta cadeia de idéias: propaganda, estorvo, aborrecimento, rejeição. Assim a vida, neste caso, arranja a legítima defesa.

Perguntamo-nos: por que a vida, que é inteligente e utilitária, adota esse sistema tão contraproducente? Para que serve isso? É produtivo em outro sentido? Isso pode acontecer enquanto a vida dirige o fenômeno para uma outra estrada. Então o intercâmbio comercial não serve como tal, mas para tornar os compradores mais inteligentes, ensinando-lhes a desconfiar e a não se deixar enganar. A sua fadiga também produz seu rendimento e este não se exaure aqui. De fato, o comprador tornado mais inteligente, com a recusa de mercadoria pode obrigar o produtor a passar ao método da honestidade, o que é progresso e vantagem para todos. Também o produtor faz-se mais inteligente, conseguindo, à sua própria custa, entender o maior rendimento do sistema da retidão. Com este jogo eliminam-se sempre mais os prejuízos da negatividade da luta e se conseguem sempre mais as vantagens da positividade da colaboração.

Compreender-se-á então que, no comércio, não se pode tirar vantagem do prejuízo alheio, mas somente dano para si; e que o público não é um terreno a ser desfrutado. Compreender-se-á que um produto inferior lançado com grande rumor propagandístico, se dá um rendimento imediato, será em perda daquele futuro, de modo que, no fim das contas, as despesas com essa propaganda serão dinheiro jogado fora. Métodos falsos produzem resultados falsos. Eis que o sistema comercial mais lucrativo é outro: é o de tornar o produto bom e útil, formando-se a clientela com a conquista da confiança do consumidor, e não pondo-o em fuga com a imposição do produto ao fazer sua propaganda sem honestidade. Em suma, também neste caso o sistema mais lucrativo é o da retidão.

O    problema do consumidor pode ser visto também sob um outro aspecto, isto é, perante a moderna economia do consumo. O progresso técnico levou hoje a uma produção intensiva e mecanizada. A indústria organizada lança um rio de produtos, tantas unidades por minuto. É certo que isto é abundância, mas com isso o homem tornou-se escravo da máquina que o liga a um ciclo intenso e obrigatório de produção e de consumo. Esse ciclo não pode ser interrompido, porque dele vivem milhares de operários. É necessário então achar o mercado para saída de tanta mercadoria; uma vez fabricado o produto, é necessário fabricar o consumidor e seu hábito de consumo.

Disso nasce um regime de vida carregado da ânsia do renovamento contínuo, pela obrigação de adquirir e consumir. Assim os produtos devem ser construídos para não durar. Chega-se a criar necessidades artificiais com a finalidade de satisfazê-las, mesmo se inúteis à vida. Assim também o consumidor é mecanizado, reduzido a um consumidor submetido a coações contínuas. Ele vê tudo envelhecer rapidamente em suas mãos porque muda de tipo, de modelo; não se encontram peças de reposição e é necessário jogá-lo fora. Assim a máquina terminou por impor seu ritmo de consumo, como tinha imposto o da produção. Alcança-se assim uma riqueza apoiada na pobreza, porque não se pode possuir senão uma quantidade de coisas impostas pela grande produção, sempre em curso de renovação. Forma-se assim também um novo problema: de livrar-se do produto de refugo em aumento contínuamente.

O remédio está em não se deixar dominar pela máquina em não se deixar arrastar pelo seu ritmo, em produzir e consumir só aquilo que serve, está na simplificação da vida, em vez de complicá-la com uma infra-estrutura custosa e inútil. É necessário não satisfazer a insaciedade de desejos sem limites, que se levantam nos países mais ricos. Nestes, tende-se a um nível de vida sempre mais alto. Mas é necessário compreender que isto não pode ser um fim em si mesmo, crescendo até o infinito, mas pode ser somente um meio para realizar um desenvolvimento mais para o alto. Também neste caso devemos retornar ao conceito de retidão.

*   *   *

Concluamos este argumento.  Observamos neste capítulo os três elementos: escola-técnico, indústria-produto, comércio-consumidor, e vimos que, quando eles funcionam segundo a Lei, isto é, com retidão no positivo, temos uma boa circulação de sangue saudável e saúde no organismo social. E vimos também que, quando os três elementos funcionam de maneira anti-Lei, isto é, contra a retidão no negativamente, temos má qualidade de sangue e de circulação, resultando num organismo social doente.

No caso presente isso acontece quando o trabalhador não trabalha, o produto é mal feito, o consumidor não paga. Pode-se ter uma indústria que só é uma coberta para esconder a vontade de furtar, sendo constituída pela oferta de um mau produto, só para arrecadar dinheiro. Então temos o organismo daquela indústria doente de um câncer que tende a matá-la. Este câncer é a desonestidade.

Isso faz ver como a Lei funciona, mesmo neste campo, e como, também nele, a positividade da retidão significa vida e a negatividade, que a exclui, significa morte.

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2 Máquinas de ensino. (N. da E.)

Resumindo, podemos concluir que a visão aqui apresentada é otimista, mesmo revelando uma dura realidade. É otimista porque nos mostra que a salvação no fim está assegurada, ainda que seja necessário ganhá-la com o próprio esforço e freqüentemente com a dor. A idéia base é de evolução, de ascensão, de conquista da felicidade. O método proposto para realizar tudo isso é um princípio de ordem: a retidão. Para isto temos insistido em tal conceito, e é neste sentido que acreditamos na vida de hoje, dando um passo à frente. Antigamente a retidão era somente uma questão moral, hoje é biológica. Ela é ligada ao fenômeno da evolução e aparece agora porque se passa a uma nova fase, isto é, do nível evolutivo do passado a um superior. Este fato é ligado a uma abertura da inteligência humana, significando a adesão à realidade anteriormente não compreendida, um novo estilo de vida em relação a novos pontos de referência. A mudança já se iniciou e, para quem tem olhos de ver, já se revela em seus primeiros movimentos. Vamos concluir este volume observando em que consiste essa mudança. Vê-la-emos, assim, sob dois aspectos; seja como fenômeno coletivo, ou como fenômeno individual.

Há períodos nos quais a evolução caminha tão lenta que parece estática, tanto que se pode crer na imobilidade dos sistemas de vida. Nestes períodos ela corre subterrânea, invisível, e amadurece em novas transformações. Mas, cumprido esse trabalho preparatório, eis que seu resultado explode e se manifesta. Esta é a hora da explosão em que se passa a um nível evolutivo mais alto. Esta passagem é de intenso movimento e de mudanças radicais, tomando aspecto revolucionário. O mundo encontra-se hoje a executar um desses saltos à frente. Estamos então em um movimento de revolução. Tratemos de compreender o que está sucedendo.

E conhecida a técnica das revoluções. Podemos daí analisar o desenvolvimento do fenômeno em cada uma de suas fases. As revoluções nascem como uma reação contra o velho regime e a primeira coisa que elas se propõem a fazer é destruí-lo. É necessário portanto mobilizar a seção dos destruidores. Vem então à tona o submundo da sociedade até agora amordaçado, e executa a devida função segundo sua especialização: que é a de destruir. Isso aconteceu na revolução francesa e russa, como é freqüente nestes casos. As revoluções tendem para o novo e sua primeira operação é a de limpar o terreno.

Quais são esses elementos? São os negativos, anárquicos, caóticos, rebeldes, assaltantes etc. Sua trajetória é descendente. A vida chama e eles respondem ao apelo, que concorda com sua própria natureza negativa. Os positivos não concordam e assim não respondem a nenhum apelo destruidor. O resultado é que os primeiros, os negativos, desejosos de se realizarem seguindo a própria negatividade, executam perfeitamente a função destruidora para a qual foram chamados.

Terminado esse trabalho, que é feito deles? Eles satisfizeram seu negativismo, alimentaram-no e aumentaram-no, tornaram-se ainda mais negativos, o que significa permanecer dominados por ele. Então, completa a sua função, eles são rejeitados pela vida, ou melhor, são liquidados por seu próprio negativismo que se volta contra eles. Este é de fato o fim dos iniciadores das revoluções.

Ora, a fase atual é a de limpeza do terreno. E depois? Superada essa fase, a vida segue em frente. Sua finalidade é positiva, sempre construtiva. Assim, a vida mobiliza a seção dos construtores e entra em ação a onda dos positivos, os adaptados à construção. Isso não pode acontecer senão em um segundo tempo, quando os destruidores, depois de limpo o terreno, se afastam. Hoje estamos na primeira fase, mas a lógica do fenômeno indica-nos qual será a sucessiva.

Não se iludam, portanto, os atuais destruidores. Terminada a sua função, eles devem ir embora. A sua natureza e ação estão em descida, portanto não podem produzir senão frutos negativos, destrutivos para todos, mesmo para eles. Pode um câncer, mesmo vencendo, ter vila longa? É assim que deverá passar a moda atual dos jovens contestadores. Eles se desafogam, se satisfazem, cumprem sua função, mas não compreendem que seu destino é a liquidação. Mas, se compreendessem, não executariam sua função.

Eles acorrem porque se sentem atraídos pela oportunidade que se lhes apresenta de satisfazer os próprios instintos. Esta é a sua hora. Mas há períodos em que a vida valoriza, prepara e faz funcionar um outro tipo de indivíduos, que antes não se podiam manifestar porque as condições ambientais lhes punham obstáculos. Até então dir-se-ia: não estão na moda. Mas, por que não estão na moda? Porque não servem. Quando servem, ficam na moda.

 Assim a atual destruição está na moda hoje, porque serve aos fins da vida. Mas ela passará para dar lugar a um trabalho diferente, para o qual serão chamados indivíduos de outro tipo. São as condições ambientais que atraem, ora um, ora outro. E quais são essas condições no início das revoluções? São uma saciedade dos abusos do velho regime e uma vontade decidida de acabar com eles. Quando o sistema causa danos não mais suportáveis e o ambiente está saturado, supera-se o limite de paciência e explode a reação corretiva do erro, que reorienta para o positivo a trajetória torta do negativo.

Isto é o que está acontecendo hoje. A atual revolução representa a reação corretiva dos erros do passado. A posição de cada momento da história é um anel de uma cadeia de momentos sucessivos, ligados em desenvolvimento lógico, em vista das metas que a vida quer alcançar. Cada salto avante é uma revolução. Em um regime de superação contínua isso é inevitável. Cada sistema tem seus defeitos e a evolução quer eliminá-los. Vivemos, constantemente, em posição avançada.

Antigamente a autoridade era representada por um homem com um cetro, sentado em um trono. Hoje, ele deve ser substituído por um homem que trabalha a serviço da coletividade. É necessário retificar. Eis os contestadores globais contra toda forma de autoridade. Não se trata, de fato, da costumeira revolta de grupo, ou partido, em um dado país. Ela hoje é universal, em todos os campos: revolta de filhos contra os pais, dos estudantes contra os professores, dos pobres contra os ricos, dos operários contra os patrões, dos dependentes contra todo tipo de comando. É uma revolta global contra os princípios do velho regime. Não é a usual revolta da fome, mas empolga também os filhos de boas famílias, aqueles a quem nunca falta nada.

Aqueles que choram por tudo isso, perguntam-se: qual é a causa remota, de quem é a culpa desta contestação? Se ela é global, é crise de sistema de vida. E se a contestação nasceu, é porque a velha geração que agora se lamenta lançou as suas causas. Mas estas, por sua vez, são conseqüências de causas mais longínquas e dos erros de outras gerações precedentes. Mas, então, de quem é a culpa?

Todavia, se o progresso é uma série de passos à frente. também aquelas gerações deram o passo que as esperava naquele ponto e momento, isto é, tiveram a sua parte de fadiga para percorrer a estrada da evolução até aqui. O regime do passado não o inventaram os nossos pais, mas é o produto de todas as gerações que viveram sobre a terra. Assim o novo regime, que a seu tempo queriam nossos pais, era uma revolução para seus ancestrais, como o regime que agora querem os jovens é uma revolução para os conservadores de hoje. O princípio que a vida segue ao avançar é sempre o mesmo, ainda que, em tempos mais estáticos como no passado, o impulso à frente e o esforço para realizá-la fossem menores. Os nossos velhos, agora conservadores, foram tão revolucionários como os jovens de hoje, e estes, por sua vez, serão conservadores para os jovens de amanhã.

Qual será então a verdadeira razão pela qual os velhos de todos os tempos reclamam contra os jovens? É certo que as inovações destes os perturbam, porque no fundo elas consistem na substituição dos velhos pelos jovens nas posições mais elevadas que os velhos conquistavam. É assim que os jovens são condenados como violadores da ordem. É um problema de luta pela sobrevivência. Procura-se justificar essa condenação com os métodos do velho sistema, e então ela é vestida com os mais nobres princípios. É isto hipocrisia? Mas também os velhos têm direito de viver sem serem perturbados e, portanto, não se pode condená-los se eles se defendem e são obrigados a recorrer à hipocrisia, já que o seu direito não é reconhecido.

Então, uma das inovações do novo regime poderia ser a da sinceridade e clareza, pela qual se segue uma lógica mais inteligente. E os velhos diriam aos jovens: " É justo, e reconhecemos o seu direito de renovar, mas respeitando nos velhos o direito de viver a sua vida. Vocês estão errados porque não respeitam esse direito

Concluindo este argumento, eis que a atual revolução, não obstante o seu aspecto inicial destrutivo, é construtiva, é um produto da positividade da vida. A revolução pressiona, e os jovens atuais não são todos destruidores. Há também os construtores, mas ainda não em funcionamento, porque a sua hora, enquanto não estiver completa a destruição do passado, não pode chegar. Olhemos a trajetória do fenômeno. Ele aponta para o alto. Hoje os adultos e velhos continuam com os métodos de seu tempo, procurando salvá-los e chorando pelo seu desaparecimento. Dos jovens, parte está pronta a destruir e outra parte espera para começar obra de reconstrução.

*   *   *

Observemos a mudança atual em seu aspecto coletivo, observando-a, agora, como fenômeno individual. Também neste caso encontramo-nos perante uma revolução, porque se trata de passar a um método de vida dirigido por uma lógica diversa da atual. Trata-se de uma mudança de base consistente, sem mudar a técnica da defesa para a sobrevivência, como conseqüência da mudança do método de vida. O do passado, já dissemos que era do tipo individualista egocêntrico. O novo será do tipo coletivista, colaboracionista. Por conseguinte, o sistema de defesa para a sobrevivência não será mais a força ou astúcia, isto é uma técnica assaltante de usurpação, adaptada a um regime de desordem, mas será a retidão, que é mais útil em um regime de ordem.

Eis que muda o modelo que a vida propõe como melhor. O clássico tipo do assaltante forte torna-se simplesmente um perigo social a ser isolado; e o homem honesto torna-se um elemento de ordem bem aceito porque enquadrado e útil à sociedade. No futuro a vida será baseada sempre mais no princípio coletivista e sempre menos no egocêntrico separatista. Assumirá, pois, suma importância a sadia estrutura moral do indivíduo, porque dela dependerão seu comportamento útil ou danoso para a sociedade da qual ele faz parte e, portanto, a sua aceitação nela e o respectivo tratamento. O valor do indivíduo não consistirá mais no saber se impor para dominar, mas no saber coordenar-se com os outros. Já dissemos, de fato, que a humanidade se encaminha em direção ao estado orgânico unitário.

Acontece então que a seleção toma uma outra direção. Chegada a uma outra fase, a evolução propõe-se a construir no homem novas qualidades, impulsionando-o para frente, neste novo sentido. É assim que na base da aceitação do indivíduo, na coletividade, está a sua atitude de tornar-se célula da mesma, estão suas qualidades benéficas ou maléficas, positivas ou negativas, que o fazem útil ou prejudicial. Isso porque quem é positivo espalha positividade, melhorando tudo a seu redor, e quem é negativo espalha negatividade, piorando tudo ao seu redor. Eis por que a retidão representa um princípio e valor de base na nova civilização do terceiro milênio.

A revolução que se segue consiste no fato de que as armas do passado, de ataque e defesa para vencer na vida, isto é, força e astúcia, são substituídas pela retidão. O valor está, pelo contrário, na ordem, não na revolta egoísta, está no saber viver segundo a Lei e não contra ela. Dessa forma, é lógico que a evolução avance, e que a seleção, apenas esteja o ser maduro, tenda a produzir tal biótipo.

A trajetória da vida está agora tomando esta nova direção. Mudam agora as apreciações. O homem honesto não é mais um tolo, porque torna-se pioneiro do novo mundo da justiça, embora no reino da prepotência seja um vencido. Não é mais um fraco a ser sobrepujado, como era no velho mundo, ainda involuído, mas é um forte, apto ao comando do novo já evoluído. É assim que o atual modo de viver deverá ser deixado de lado no submundo da evolução, para ser substituído pelo da retidão. Dada a nova unidade de medida para fins coletivistas, o que serve à vida não é a força, mas a positividade.

Em suma, poderemos defender nossa vida com métodos totalmente diversos daqueles do passado, isto é, mais íntimos e profundos, dirigindo as nossas ações em sentido positivo e benéfico, em vez de em sentido negativo e maléfico. Trata-se de uma estratégia mais poderosa, porque mais sutil, penetra e age sobre as causas. De resto é lógico que, diferente da lei do indivíduo que vive de interesses isolados, limitados ao seu eu, deva ser a lei daquele que vive como elemento componente de um organismo coletivo.

O problema da defesa torna-se um problema de estrutura da personalidade do indivíduo e de suas qualidades positivas ou negativas. A nova arma consistirá não em adicionar ao organismo físico instrumentos exteriores de luta, mas em enriquecê-lo interiormente de qualidades positivas. A vida naturalmente é cheia de assaltos e perigos e não se pode criar para ela, de propósito, um ambiente imunizado. Ela constrói então o indivíduo capaz, por si mesmo de resistir, seguindo uma nova técnica defensiva. A solução não pode ser obtida com a esterilização artificial do ambiente, mas purificando-se, enriquecendo-se e fortalecendo-se com forças positivas que repelem a negatividade assaltante, ao contrário das negativas que atraem, abrindo-lhe as portas. Observemos agora como tudo isso funciona.

Vemos, primeiro, que a vida deixa à mercê de sua reação corretiva o indivíduo negativo, mas que ela ajuda a subir o positivo. Na realidade não encontramos indivíduos totalmente negativos ou totalmente  positivos. Acontece então  que tais indivíduos ficam atingidos pela reação corretiva da Lei em suas zonas de negatividade, mas ajudados  pelas de  positividade. Isso corresponde ao sistema utilitário adotado pela vida, bem como à sua finalidade salvadora. Assim não se desperdiça nada, porque são encorajados a desenvolver-se para o bem todos os valores utilizáveis para essa finalidade.

Assim o mesmo indivíduo, segundo suas diferentes qualidades, pode encontrar-se submetido a tratamentos diferentes: um de pressão corretiva para eliminar o que nele é negatividade, e outro de auxílio protetor para desenvolver o que nele é positividade. De fato, só no caso de trajetórias negativas é necessário o doloroso trabalho de sua correção, o que não acontece para aquelas positivas. Assim a dor aparece só no primeiro caso, enquanto no segundo acontece o contrário.

Então a Lei manifesta-se em duas formas opostas nos dois casos: como prova dolorosa naquele da negatividade, e de forma contrária no caso oposto. Existindo no indivíduo as qualidades positivas da retidão, vemos funcionar a ajuda amiga e encorajadora da Lei. Eis de que modo e dentro de quais limites, a retidão (positividade) pode ter uma função de defesa.

Estes conceitos fazem-nos compreender qual é o método para ter sucesso na vida. Ele consiste em trabalhar no sentido da corrente positiva da Lei que, em tal caso, nos arrasta (cf. cap. V), enquanto ela nos dificultará se fizermos o contrário, ao colocarmo-nos na corrente negativa, anti-Lei.

Observemos agora a estrutura do fenômeno da técnica defensiva. O homem é feito de um organismo físico ligado a um outro espiritual, governado pelas mesmas leis de saúde ou doença. Para o organismo espiritual a saúde é dada pelo ser constituído de forças positivas, assim como para o organismo material ela é dada pelo ser constituído de material são. Ora o ataque verifica-se em ambos os casos, seja sadio ou doente, mas somente no primeiro caso o indivíduo resiste. Se o organismo físico é sadio, o micróbio não se desenvolve; se o espiritual é feito de forças positivas, as negativas não entram. E ao contrário. Não se resolve o problema esterilizando o ambiente, mas fortificando o organismo. No caso do físico, se esterilizamos, perdemos a capacidade de resistência e tornamo-nos sempre mais vulneráveis. O mesmo acontece com o organismo espiritual se, para salvá-lo dos ataques, isolamo-nos do mundo.

Eis então que neste novo regime a arma de defesa da vida consistirá na própria positividade. Isso porque sermos positivos significa sermos sadios e fortes, portanto aptos para vencer. Ao contrário, sermos negativos significa sermos doentes e fracos portanto destinados a perder. Assim se vence, ou se perde, baseados nas qualidades íntimas, como a vida nos mostra na sua defesa contra o assalto das doenças. A defesa baseia-se sobre a saúde celular e conseqüente potência de resistência. Ninguém pensa em apanhar uma faca ou revólver para defender-se de uma doença.

Com a positividade espiritual, com nossa conduta e estrutura segundo a Lei, podemos defender-nos contra toda a espécie de males. A negatividade pode atingir o ponto de matar-nos, porque ela deixa que nos penetrem as forças negativas, das quais o mundo está cheio. A sua tempestade nos investe e arrasta, enquanto não toca, e vai-se embora sem molestar, no caso da personalidade positiva.

Acontece então que, quanto mais involuído é o ser, tanto menos ele é purificado da negatividade, portanto ressente-se dos assaltos, perigos e dores. E acontece também que, quanto mais evoluído é o ser, tanto mais ele é saturado de positividade, e daí defendido contra o mal. O papel da evolução é o de redimir-nos da negatividade, eliminando-a pouco a pouco, até transformá-la toda em positividade. Aquele longo percurso leva-nos assim a libertar-nos do mal e à conquista do bem. Então, quanto mais aperfeiçoado é o ser, tanto mais protegida é a sua vida.

É necessário compreender que quanto mais se chega ao mal, mais a causa está em nossa negatividade e isso pode-se eliminar ou impedir que aconteça, eliminando ou impedindo que se forme essa negatividade. Dela depende a nossa vulnerabilidade e daí o fato de sermos atingidos. O segredo do bem-estar está em ser constituído de forças positivas. A superioridade do homem evoluído está em sua positividade. Esta é sua arma para vencer na vida. Não se trata de abstrações ideais, ou dissertações moralistas, mas um método, cujas vantagens se pode experimentar, quando bem usado.

Mas, exatamente o que significam positividade e negatividade? A primeira quer dizer retidão em todas as qualidades constituintes da personalidade, e a segunda o abuso ou mau uso daquelas qualidades. Qualquer das forças ou impulsos componentes da personalidade podem ser dirigidos no sentido da Lei ou em sentido Anti-Lei. Isso para cada tipo de pensamentos, de motivações, de atividades, que corresponde ao conceito de pecado, posição anti-Lei. Penitência é a correção de uma trajetória, da direção negativa à positiva. Correção necessária, porque um estado permanente de negatividade é um estado, também permanente de vulnerabilidade. Como se vê, trata-se de um conceito básico para a defesa da vida. Daí a sua importância. Isso corresponde ao título desta obra: Como Orientar a Própria Vida,

Eis que o conceito de retidão tem um conteúdo complexo, a ser analisado, qualidade por qualidade, fazendo a anatomia de nosso organismo espiritual, impulso por impulso do subconsciente, no comportamento do  indivíduo em todos os seus deveres, do fazer como do não fazer. A negatividade pode corromper qualquer ponto, que se torna então o calcanhar de Aquiles, vulnerável a todos os ataques.

Dante, no "Inferno", estudou a ação específica corretiva das trajetórias erradas, caso por caso a elas opondo a revirada para realizar a correção da posição negativa ocasionada pela culpa. Cada pecado é um caso de negatividade, eliminada pela reabsorção na positividade, conquistada por meio da dor. Por isso ela é um instrumento de redenção. É esta dor o método que a Lei usa para fazer compreender ao pecador o seu erro, a fim de que ele não o repita.

Isso é necessário porque quem está em posição negativa não se apercebe, pelo fato de que vê com forma mental negativa, o que lhe impede uma correta visão das coisas. Ele mesmo é o seu próprio ponto de referência. Baseando-se numa correspondente visão distorcida, acredita estar com a verdade e ter direito a satisfazer-se, a seu modo, negativamente. Então, choca-se com a Lei. A reação desta é para eliminar a negatividade, com a dor inserida em tal operação. Assim, quem é negativo, fatalmente provoca, por si, a reação corretiva de sua negatividade. E automaticamente funciona o processo de sua redenção.

Compreendido esse mecanismo, dentro do qual funciona a vida do indivíduo, que conduta deverá ele ter para alcançar, com o menor dano e maior vantagem possível, o caminho da evolução redentora, para sua salvação imposta pela vida? Dado que ninguém pode fugir a esse dever, o que de resto é para seu bem, quem é inteligente é natural que procure cumpri-lo pelo modo mais conveniente e lucrativo. Isto é o que queremos explicar.

Trata-se de saber executar este trabalho eliminando o mais possível a dor e conquistando o máximo de felicidade. A dor cumpre uma função importantíssima em nossa evolução. Ela é a campainha de alarme que nos adverte onde está o erro, isto é, a negatividade que é necessário corrigir. Ela tem finalidade defensiva, portanto salutar, porque toda negatividade é uma ameaça contra a vida. Mesmo quando nos faz sofrer, ela nos protege e é para proteger-nos que nos faz sofrer. Se o fogo não chamuscasse, não seria evitado, mesmo quando nos matasse.

Dessa forma a vida consegue manter-nos na ordem, fixando os limites ao gozo que provém do uso das coisas. Se nos excedemos, como somos levados a acreditar que aumentando a dose, obtém-se o aumento de prazer, acontece o contrário: encontramos a sua diminuição, até tornar-se sofrimento. Com este a vida nos avisa do erro e com isso nos força a corrigi-lo. Eis que a dor representa um sistema defensivo que a vida usa para proteger-nos contra o mal que nos prejudica. É ainda um aspecto da sabedoria e bondade da vida, exatamente lá onde parece mais difícil vê-la.

Este é o rendimento útil da dor. Mas de onde deriva a sensação dolorosa? Que fato a produz? O que a produz é o fato de que se trata de uma operação cirúrgica de correção necessária da trajetória executada em direção errada por um feixe de forças, que não tencionam ceder à torção. A negatividade, lançada como tal, quer permanecer como é, como faz o câncer, continuando a desenvolver-se. A sua diminuição ou eliminação é um ataque à sua vitalidade, que para ela, ainda que negativa, significa andar em direção à morte.

A dor se origina da asfixia provocada pelo tipo de vida. De fato, a negatividade busca o prazer no aumento de si mesma, do erro e do vício. Mas esta é uma vitalidade invertida, que leva à morte, é prazer doentio que leva à dor. Então a vida deve corrigir com a dor este prazer doentio, para salvar o indivíduo, levando-o ao gozo verdadeiro, que é somente o positivo, segundo a ordem da Lei. Eis como os dois elementos do dualismo universal entrelaçam-se em um jogo de compensação.

Em vista disso, vejamos então como o indivíduo deve comportar-se dentro desse mecanismo para evitar o mais possível a dor, e ao contrário. Eis como poderemos comportar-nos logicamente. O primeiro passo consiste em individualizar, com um severo exame de autopsicanálise, os pontos de negatividade da própria personalidade. Isso sem se deixar enganar pelo astuto subconsciente que procura escondê-los. Nessa operação é necessário procurar ver e julgar, não com a visão distorcida da negatividade, mas com a correta, da positividade. Infelizmente fazer esse exame não é coisa fácil, porque pressupõe qualidades introspectivas e uma certa maturidade psicológica. É assim que o movimento de correção e salvamento freqüentemente não pode ter início. Então a vida, não podendo por imaturidade do indivíduo usar o método inteligente da compreensão, nem podendo renunciar à salvação desse homem, é obrigada a usar, com esta finalidade, o método duro da provação. Esta a razão de sua existência.

O segundo passo consiste em preparar-se para executar espontaneamente a operação dolorosa da correção da trajetória errada, sem esperar a intervenção forçosa por parte da Lei, operação tanto mais dolorosa quanto mais imposta à força, porque o indivíduo aí se rebela. Trata-se de trabalhar de acordo com a Lei, secundando-lhe a ação corretiva, em vez de resistir-lhe. É necessário compreender que a Lei nos protege e que é de nosso interesse segui-la, sendo nosso prejuízo resisti-la, porque ela então nos constrange a fazer à força aquilo que poderíamos fazer pacificamente, obedecendo-lhe. É necessário compreender que, se não a seguimos, arruinamo-nos. E para que isso não aconteça que ela nos constringe.

Nisso, um cérebro de tipo negativo, exatamente porque o é, pode ver maldade e vingança. Perguntamos: é mau o cirurgião que nos opera para salvar-nos, dando-nos vida e saúde? Exatamente porque o indivíduo está doente de negatividade, que não compreende a bondade do cirurgião e, daí, resiste-lhe. Este, sabendo que a operação é necessária para salvar o doente, amarra-o ao leito e opera-o à força, deixando-o gritar, salvando-o. Com um ser que não quer se salvar, e a Lei que quer salvá-lo, que pode fazer esta senão salvá-lo à força?

Com o sistema de compreensão do problema e espontânea adesão à Lei, consegue-se o resultado de correção com muito menos trabalho. O esforço evolutivo, então, dá muito maior rendimento. Não somos mais penitentes encarcerados, mas seres livres e conscientes, colaboradores da Lei. Este sistema de autodirigir-se vivendo uma vida planificada por si mesmo, seguindo a Lei com conhecimento, pelo que se percorre com menos fadiga o caminho da evolução, será o sistema inteligente seguido pelo homem evoluído do porvir seguirá.

Neste livro foi nosso propósito basearmo-nos sobre o que a vida nos mostra através dos fatos, observando seu pensamento. Por isso não nos referimos a qualquer escritor. Além disso impusemo-nos ser breve e sintético, fazendo uma recapitulação de todo o trabalho de preparação que nos trouxe até aqui. Ele está aqui subentendido, embora não muito evidente. Este é um livro de aplicações e conclusões, que representa esta fase final. O período de pesquisas e maturação está nos vinte e dois volumes precedentes e nos quarenta anos percorridos por vários caminhos, para chegar à maturação atual.

Ao fim deste trabalho, implantamos algo que outros poderão desenvolver, aplicando, com novas pesquisas, os princípios expostos. Com isso, depois de ter percorrido a fase conclusiva do velho mundo, colocamo-nos agora às portas do novo, que hoje pertence aos jovens e que será deles amanhã.

Fizemos algumas aplicações das teorias aqui expostas. Mas, uma vez que nos tenhamos orientado, e compreendido a técnica do fenômeno, dela se poderá fazer muitas outras aplicações. Ainda citaremos algumas, mas escolhidas como exemplo, só para mostrar como e quando muitos casos podem ser resolvidos, se bem orientados. Demos uma chave e com ela poderão ser abertas muitas portas ainda fechadas, se soubermos onde está o buraco da fechadura a que ela é adequada. Não nos podemos engolfar pelo caminho da casuística, porque isso nos levaria muito longe, sendo os detalhes intermináveis. Assim se seguem alguns outros capítulos, mas sem pretensões de exaurir o argumento.

Estamos numa época de grandes mudanças, na qual se pesquisam métodos novos, destinados, não a cobrir, salvando as aparências, mas a resolver. Esta é a diferença entre o presente e o passado. Antigamente o problema da pobreza era enfrentado com o paliativo das esmolas e com a promessa de uma felicidade futura no céu, a qual era encarregada de compensar o mal, assim realizando a justiça de Deus. Hoje, em vez de fazer da pobreza um problema espiritual sem resolvê-lo, procura-se suprimi-la com meios positivos de técnica produtiva e de organização econômica coletiva. Diz um provérbio chinês: "Se quiseres ajudar um pobre, não lhe dês um peixe, mas ensina-o a pescar.

Nota-se a mesma mudança de métodos com referência ao problema da delinqüência. No passado a justiça  se encarniçava contra o condenado, que era culpado. Isso constituía um enfurecimento estéril, porque se limitava aos efeitos do mal e suas causas próximas. A finalidade era defender-se e vingar-se, não eliminar as causas, e com isso a delinqüência. Hoje, em vez disso, tende-se a fazer a psicanálise do criminoso, para atingir as causas remotas e organizar uma ação preventiva em profundidade para impedir, desde o início, a formação do mal.

Trata-se de métodos diversos de enfrentar o problema. Observemos quais são eles e qual é o mais útil à vida. Eles pertencem a dois níveis diversos de evolução e hoje está se verificando a passagem do inferior para o superior. O primeiro faz parte do sistema de vida baseado na luta, o segundo faz parte do que se baseia na compreensão. O primeiro foi usado no passado, o segundo começa a ser hoje, para continuar a desenvolver-se sempre mais no futuro. Ele depende da afirmação da inteligência, posição nova que a humanidade agora alcança, por lei da evolução, entrando em uma fase mais avançada.

O criminoso é tanto mais notado, e expulso da coletividade, quanto mais esta atingiu um regime de ordem. No caos, em um regime de desordem, quanto mais este domina, menos se nota a presença do criminoso, porque ele em um ambiente de criminosos no qual reina um sistema de luta, é regra e não exceção. O estado de fato é que, quanto mais involuída é uma sociedade, tanto mais ela se encontra afastada da justiça e o problema reduz-se à defesa própria, a uma luta pela sobrevivência, na qual o mais forte vence.

Esta era a substância da justiça penal do passado. Mais do que em uma compreensão inteligente do fenômeno, ela baseava-se em reações instintivas do subconsciente para defender-se contra um ataque à própria pessoa ou bens. A Lei de Deus não podia funcionar senão de acordo com o baixo nível evolutivo então atingido, isto é, de luta pela sobrevivência. A justiça consistia em uma reação de defesa e vingança que saldava as contas, mas não restabelecia a ordem: deixava intacto o estado de guerra entre juizes e violadores, entre a parte lesada e o assaltante. Embora houvesse a punição, restava o hábito do delito como mal social constante que não era erradicado.

No passado dava-se exemplo público da justiça, administrando-a em praça pública, onde o povo podia gozar o saboroso espetáculo de ver torturar e matar os malfeitores, para onde todos corriam, e pode-se imaginar com que resultados morais e educativos. Cria-se, com isso, combater o delito, enquanto na qualidade, desta maneira, o povo aprendia melhor a cometê-lo, instruído por aquele espetáculo feroz. Mas estas eram sutilezas psicológicas então desapercebidas.

Tratava-se de  em um mundo ainda involuído, o que significa carregado de negatividade, pela qual, à do criminoso juntava-se a negatividade da sociedade julgadora, à da culpa somava-se a da punição, com o resultado de aumentar tal negatividade com ódio e vingança em vez de absorvê-la para eliminá-la. Ela não pode ser combatida senão com a positividade, que a corrige agindo em sentido oposto. Não se segue este sistema porque o indivíduo egoisticamente não se preocupa senão com resolver seu problema, que é de defender o seu próprio interesse. Cada um dos dois termos lança sobre o outro sua própria negatividade. Esta, na falta da ação de uma força corretiva, permanece intacta, e o mal, não curado, sempre reaparece, pois não se elimina com outro mal.

Deveríamos ir então ao encontro do delinqüente com braços abertos? Isso é possível numa sociedade chegada à fase de compreensão, não em uma que ainda está em fase de luta. Ora, isso era justificado, porque era no passado usado o sistema imposto e os homens se achavam na fase de luta.

Há, porém, um outro fato: a humanidade está hoje passando à fase da compreensão e isso acontece primeiramente com as classes dominantes, que representam a posição evolutiva mais avançada. É destes que se espera, frente ao criminoso, a iniciativa para passar do regime de luta ao da compreensão. Trata-se de um momento propício para iniciar e depois realizar a passagem a uma posição de positividade, sanadora do mal, corrigindo a negatividade do elemento oposto, anti-social, o criminoso.

É pela maturidade das massas que o indivíduo anti-ordem deve ficar como que estrangulado por uma reação psicológica coletiva, que lhe fecha o campo de ação. Este homem deve ser julgado pela opinião pública como criminoso, mesmo quando, enquanto prejudica o próximo, dá provas de saber vencer pelo valor da força ou da astúcia. No passado ele podia, se vencedor, tornar-se um herói admirado, porque era julgado com uma psicologia individualista, pela qual só à parte lesada interessava reclamar, não à coletividade. Aos outros ilesos os danos não importavam, quando não lhes diziam respeito. A vitória, sendo às custas de um terceiro, dava-lhe um senso de valor e poder, incutindo, portanto, respeito. Até hoje o delinqüente astuto bem sucedido provoca uma dose de admiração por parte dos que não foram lesados.

Tudo isso está implícito no sistema da luta e é sua conseqüência. E aquele sistema é qualidade da involução, de modo que, quanto mais involuído o indivíduo, tanto mais ele vale como criminoso, e ao contrário. Acontece que tal tipo de evolução tende a eliminá-lo. E assim que a delinqüência começa a ser julgada como tal quando o mundo se civiliza, enquanto antes ela era um método normal de defesa e um meio necessário à vida. Quando esta se encontra em tal nível, aceita a delinqüência, porque só quem sabe roubar e matar sobrevive. O criminoso de fato acha-se à vontade e vive bem, porque feito sob medida, em um ambiente caótico; o mesmo não acontece em um regime de ordem, somente para o evoluído. Assim se pode considerar o criminoso como uma sobrevivência atávica do passado, destinada a desaparecer com o tempo por lei da evolução, porque ele é sempre menos adaptado a tal ambiente ele se torna e tanto mais difícil é para ele viver nestas condições.

Em um momento de transformação como o atual, estão aparecendo novos critérios, antes inconcebíveis. Condena-se, por exemplo, o culto da personalidade, que representa a apoteose do vencedor, segundo o velho sistema. Apareceu depois o conceito de criminoso de guerra. Mas, para ser  completo, ele deverá ser aplicado não só pelo vencedor ao vencido, mas a quem quer que faça uma guerra, violando a ordem internacional. Encaminhamo-nos para a formação de uma política mundial, pela qual o guerreiro assaltante de uma outra nação não é um herói glorioso, mas um criminoso, como hoje o é, dentro do próprio país, qualquer pessoa que assalte o próximo. Já se reconhece o direito de recusar-se a guerra por objeção de consciência.

O princípio já existe, mas até agora é limitado a cada nação. É questão somente de amplitude na extensão de sua aplicação. Mas ela está sempre crescendo. Pela lei de evolução que leva à formação de sempre maiores unidades coletivas, não se poderá senão alcançar uma unificação mundial, pela qual qualquer ato bélico será uma violação da ordem, punível como ato criminoso, pela polícia.

Antigamente estas extensões na aplicação de tais princípios não eram realizáveis. Procurava-se então resolver o problema da criminalidade de outro modo, lançando-se furiosamente sobre e condenado, crendo que quanto mais cruel fosse a pena, mais difícil tornar-se-ia a execução do delito. Hoje, quando se passa do método da luta ao da compreensão, vê-se a estrutura do fenômeno, e a solução é dada de maneira diversa. O moderno homem racional analisa o caso e pergunta-se: quais são os resultados do sistema punitivo? Considerado do ponto de vista utilitário, qual é o seu rendimento para o bem da coletividade? Ele melhora ou piora o criminoso? E se o piora, então para que serve puni-lo, se isso reduz-se a uma fábrica de maior delinqüência? Punir é um método feito de positividade, que assim corrige e diminui o mal e a negatividade, que anteriormente era um método de negatividade que agravava os negativismos da criminalidade.

Como se vê, o novo estilo de enfrentar o problema consiste em propor-se a melhorar o delinqüente, porque este é o caminho que leva à diminuição da criminalidade no interesse coletivo. O velho estilo não tinha esses fins corretivos e consistia na reação defensiva individual, do ofendido contra o ofensor. Ora, o novo estilo sendo o produto de uma fase evolutiva mais avançada e inteligente, fez compreender que o sistema de investir contra o condenado é contraproducente, e, por uma questão utilitária de rendimento, deve ser eliminado.

Começa-se então a estudar a psique do delinqüente, procura-se penetrá-la, e pesquisa-se onde está o terreno das motivações e a origem primária das ações. Procura-se assim penetrar todo o mecanismo cerebral determinante do ato criminoso que é sua última conseqüência. Com a psicanálise do delito pode-se ver quais as condições hereditárias, mentais e ambientais, dentro das quais ele nasce. Pode-se assim desinfetar esse terreno para impedir tal nascimento e, uma vez formado o criminoso, estudar os métodos para reeducá-lo, reabilitá-lo, e depois inserir na vida coletiva esse elemento antagônico. Isso faz parte daquele trabalho de formação do estado orgânico da sociedade, já explicado nos capítulos precedentes.

Essa recuperação já está sendo feita, de modo que os fatos estão de acordo com as nossas explicações. Busca-se pôr em ação melhoramentos carcerários em sentido educativo, para reconstruir o indivíduo estragado. Busca-se evitar o embrutecimento, a reação involutiva do condenado, procurando ir ao seu encontro, não com o sentido de vingança, mas de compreensão de seu caso. Busca-se reatar as relações de boa vizinhança na convivência social, relações rompidas por várias causas que se buscam eliminar. É verdade que a sociedade quer antes de tudo defender-se, o que é seu pleno direito. Mas agora deve aprender a defender-se mais profundamente, suprimindo a causa do mal e não agravando-o, a ele adicionando-lhe outro. Também neste setor vemos que se passa à fase de colaboração, constituinte do novo estilo de vida em todos os campos.

Antigamente a ação punitiva dirigia-se contra o indivíduo que tinha agido mal. Mas ele não era senão o último efeito de uma cadeia de fatos que a justiça ignorava e que, todavia, tinham valor determinante. Mas aqueles fatos eram ignorados porque a penetração psicológica do homem não chegava a observá-los. Via-se o fenômeno com outra forma mental. A aplicação da justiça freqüentemente tinha o sabor de uma luta entre criminosos. De fato, quem ditava a lei e a aplicava, era quem, por ter vencido, havia se tornado senhor, cuja vontade e vencido devia suportar. Vencedoras eram as classes ricas e dominadoras, vencidas eram as pobres e subjugadas. As primeiras faziam a lei a seu favor, condenando aqueles que tinham interesses contrários, se não obedeciam. Assim o delito, para indivíduos da classe dominada, era um ato de legítima defesa. Porém eles eram igualmente punidos porque, em um regime de justiça baseada na força, eles o mereciam por terem sido fracos e não terem sabido vencer. Ora, se estes homens se tornassem fortes e vencessem, não seriam mais criminosos, mas legisladores, admirados e obedecidos.

Em tal mundo, o culpado, punido segundo a justiça (aquela de então), era quem perdia a batalha por não ter sido suficientemente forte ou astuto para saber vencê-la. A reação punitiva era do primeiro tipo de vida, o da luta. Hoje a justiça procura também os culpados laterais ou precedentes e longínquos, e a reação ao mal é a do segundo tipo de vida, o da compreensão. Hoje são chamados a debate elementos antes nunca vistos, que antigamente podiam fazer o mal impunemente porque ninguém os via. Culpava-se assim o culpado próximo, aquele apanhado em falta e não o remoto, que pode ser determinante.

Vem-me à mente um caso típico, o caso histórico da Monja de Monza1 . Ela foi presa por toda a vida em uma cela por ter seguido os instintos do sexo a cuja satisfação tinha direito, e pelos delitos que se seguiram por ter-se ligado a um delinqüente, que por sua audácia a tinha feito sentir nele o macho protetor.  No entanto, ela procedera segundo os elementares e sadios impulsos da vida. Mas a justiça não viu os genitores que, sem aparecer, indiretamente haviam-na constrangido a declarar uma vocação inexistente; a justiça não viu o pobre padre simples e velho, escolhido propositadamente para aceitar tais declarações; a justiça não viu, se bem me lembro, uma tia que queria apoderar-se do feudo que a monja deveria herdar se não fosse fechada em um convento. Quem era então o culpado? Mas a punida foi ela só. Quantos outros puderam cometer a metade do delito impunemente, porque a justiça não os viu, vendo somente a monja. Todavia tais casos não autorizam a exigir uma justiça perfeita, impossível na Terra, mas autorizam a contar com uma outra justiça, que retifica a humana, quando esta não consegue funcionar.

Hoje estuda-se o criminoso e procura-se entender o delito. Às vezes encontra-se um doente, mais do que um culpado. A perseguição está sendo superada. Perante um acusado perguntamo-nos: por que esse homem é culpado? Quem e que fato o levou a esse ponto? Vemos agora que a justiça para ser feita, deveria golpear outros pontos, longe. Pode então aparecer atrás da culpa incriminada um mundo de outras culpas individuais e coletivas, das quais a do condenado não é senão a última conseqüência. Revelam-se então estados de injustiça social, pelos quais cada um é responsável, mesmo quando se exime do dever da reparação. Então, uma sentença penal pode constituir um convite a se fazer um exame de consciência pala ver a parcela de cada um, ao concorrer na determinação daqueles efeitos. Às vezes, quando acontece um fato triste, em vez de investir contra quem se deixou apanhar em falta, poderia ser mesmo um caso de nos perguntarmos: mas quem é o verdadeiro culpado?

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1 V. romance histórico: I Promessi Sposi, de A. Manzoni. (N.do A.)




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