Pensamentos

O problema com que nos defrontamos neste livro é o de provar a importância de saber dirigir-se dentro do funcionamento da Lei, sem andar a cada passo a bater a cabeça contra ela, prolongando o sofrimento. Não há razão para que o problema da dor, quando se detectam as causas e se compreende a técnica das suas origens, seja insolúvel. Agora sabemos que há uma ordem que se chama Lei e que, quando a violamos, com isso geramos a dor. Então não violemos aquela ordem e esta dor não nascerá. A civilização e a ciência vão eliminando, cada vez mais, as causas próximas, mas não penetram até as causas profundas que restam. Vemos de fato que o homem, com seus loucos métodos de vida, é ativíssimo em semeá-la

Ora, tudo isso está claro e qualquer um poderá utilizar este conhecimento. O problema que aqui nos propomos é um outro: encontrar o homem psicologicamente maduro para saber autodirigir-se como aqui explicamos. Este livro seria uma vá dissertação filosófica se não fosse feito para ser vivido. Mas viver essa nova proposta pressupõe uma consciência e um senso de responsabilidade não comum à massa. Assim foi no passado. Porém já vislumbramos hoje um fato novo, que cada dia se faz mais evidente. Tudo está transformando-se rapidamente por um progresso sem precedentes em todos os campos. O atual momento histórico representa um salto à frente ao longo da linha da evolução, transformando-se a nossa vida, que é elevada a uni nível biológico mais avançado. Com isso o homem está rapidamente amadurecendo para chegar a compreender, preparando-se para assumir uma nova forma mental, e com ela conceber e agir diferentemente.

Estamos convictos de que em 1971, estaremos entrando num período febril tri-decenial que desembocará no terceiro milênio, tendo amadurecido e fazendo entrar nele um homem diferente. Certamente existe e existirá ainda uma parte atrasada que não pode compreender, mas torna-se cada vez maior a parte que o pode. E esta formada sobretudo pela nova geração a que nos dirigimos. Pelo modo como ela enfrenta os novos problemas, já se vê que os quer resolver. Ela representa uma corrente da vida e nós nos inserimos nela. Neste momento é claro que o velho passado não satisfaz. Há uma necessidade de renovação e uma procura de orientação, e aqui há uma oferta. Elas não podem deixar de encontrar-se. Se a vida faz nascer neste momento esta idéia, isso significa que ela deverá servir para qualquer coisa.

Como se realiza este amadurecimento? O universo é dirigido por tantas leis. O homem vê aquilo que seus olhos, definidos por um determinado grau de evolução, lhe permitem ver. Ora, os olhos do homem do passado não estavam bastante desenvolvidos para ver a ordem com a qual aquelas leis tudo regem. Imaginaram-na, intuíram-na, mas não a viram e não a analisaram. Então a convicção verdadeira que dirigia a conduta daquele homem, era de que se vivia no caos. Ele acreditava que não havia ordem alguma, mas somente aquela imposta ao indivíduo com as próprias forças, em um mundo feito de lutas. Que esta era a verdadeira convicção provava-o seu modo de comportar-se. As filosofias e as teologias, as solenes afirmações morais eram postas bem à mostra no posto de honra, mas não eram aplicadas à realidade cotidiana  A filosofia verdadeiramente vivida era a da força para dominar e da astúcia para enganar. Isto de fato era o que realmente acontecia. Com as aparências, procurava-se esconder esta realidade, na qual se acreditava seriamente. E era natural que assim fosse, aquela era a realidade que o homem via com seus próprios olhos.

Acontece, porém, pelas leis da vida, que ele, chegando a um determinado grau de evolução, constrói um outro tipo de olhos que vêem mais profundamente. Significa que se desenvolve no homem um grau de inteligência mais avançado, capaz de entender aquilo que antes ele não compreendia. É assim que lhe aparece na mente a visão da ordem estabelecida pela Lei, a qual certamente já existia e funcionava, mas não era percebida, porque no homem ainda não se havia formado a visão intelectual necessária para enxergá-la.

Hoje isto começa a ser possível. Os sintomas são evidentes. É difícil fazer-se uma idéia da grandeza de uma tal revolução em função de suas conseqüências. Há uma total mudança dos fundamentos, isto é, da filosofia — diretriz da própria conduta. Eis, então, o que acontece: o homem vê a mais profunda realidade que antes lhe escapava e compreende que vive em um regime de ordem e não de caos. Então este homem compreende o que é o erro e não cai mais, porque faz este raciocínio: "se vivemos em um regime de ordem e não de caos, se não sou eu quem dirige os eventos, impondo-me à força, mas é uma Lei inteligente e justa, então o meu sistema de querer eu mesmo dominar não serve para fazer-me vencer, mas para violar esta ordem e, já que ela é muito mais poderosa do que eu, eu não a venço, mas sou vencido por ela. Então o único resultado a que chegarei será aquele de dever suportar em forma de dor os efeitos das lesões que provoquei naquela ordem".

Se se olhar bem, este raciocínio não é infundado, porque a permanência da dor na vida é um fato de fácil constatação, que não se pode explicar racionalmente senão como um efeito de uma contínua repetição de erros, que representam a causa. Se não se admitisse isso, seria necessário admitir um Deus mau que criou os seres para fazê-los sofrer.

E o raciocínio continua. Vencer quando se é forte e astuto, indo contra a Lei, que por sua vez é justiça, não é vencer mas perder, porque é atrair sobre si as dificuldades inerentes à própria posição de violador da ordem. Vimos como isto acontece. Aquele sistema não é uma vantagem, mas um dano, isto é, um sistema de tolos, uma autolesão, uma fábrica de sofrimentos para cuja produção se trabalha, sem descanso. É difícil imaginar tamanha loucura!

A transformação que se verifica hoje deve-se ao fato da compreensão de que comportar-se de tal modo é loucura. Antes não se era maduro nem para ver nem para reagir. Uma inteligência e sensibilidade menos desenvolvidas permitiam-nos jazer em um estado de inércia e resignação. Hoje, porém, chegamos ao ponto em que o peso das conseqüências dos erros tornou-se maior e não só a paciência, como também a margem para suportá-lo, tornou-se menor. Chegamos assim a um grau de saturação tal, que o sistema do passado não é mais tolerável e o copo transborda. O mundo está cansado de sofrer, ele busca um sistema mais inteligente no qual a dor possa ser evitada, procura qualquer coisa de claro, de limpo, que não leve a tantas dificuldades. O homem começa a aperceber-se que, nos velhos métodos, deve haver algo de errado, se os seus resultados são assim tão desastrosos. Quer descobrir o erro e corrigi-lo. Trata-se então de localizar os erros para encontrar o modo de não mais os cometer e assim não arcar com o pagamento dos prejuízos correspondentes.

Ora, para não cometer erros, é necessário permanecer na ordem, isto é, precisa-se de disciplina. Hoje, pelo contrário arrisca-se cometer um erro ainda mais grave, o de entender a libertação do passado como uma libertação de qualquer disciplina. Busca-se assim uma liberdade que leva ao caos. Mas uma liberdade entendida no sentido de poder fazer aquilo que quero, até mesmo abusar em prejuízo de outros, o que significa em contrapartida uma liberdade na qual todos podem fazer aquilo que querem, até abusarem em meu prejuízo. Acaba-se toda a garantia de segurança e a vida torna-se um estado de guerra contínua, de todos contra todos. É certo que a disciplina me pesa, mas se eu me liberto deste peso, libertam-se dele também os outros; e se me permito todas as liberdades em minha vantagem e dano para outros, estes procedem de igual modo e em prejuízo meu. A disciplina que parece sufocar a minha expansão vital, é justamente minha única defesa contra o assalto da expansão vital dos outros A disciplina tolhe-me diante dos outros, mas tolhe também os outros diante de mim.

Na Lei, o princípio de disciplina é tão rígido, que chega ao ponto de não poder perdoar a minha culpa em relação aos outros, porque, se o fizesse, ela, por justiça, deveria perdoar, também, a culpa dos outros em relação a mim. Isso formaria um regime de desordem sem segurança, no qual o abuso não é corrigido, e a vida tornar-se-ia a escola do mal impune. A Lei nos mostra que a desordem é o maior mal possível  Conclui-se que, na compreensão deste fenômeno, está o ponto para o qual deve tender a pesquisa atual de liberdade, como se fosse o remédio do passado e o novo método a seguir.

É certo, porém, que a evolução quer avançar em direção à liberdade, mas isso em outro sentido. Então liberdade deve significar a abolição da servidão à autoridade, imposta pelos interessados em sua vantagem sobre seus próprios dependentes; mas paralelamente deve significar também a formação de um senso de responsabilidade, pelo qual o homem se sujeita livremente a uma própria disciplina interior que lhe é imposta por si mesmo, fazendo-se, assim, o construtor e o senhor daquela ordem que antes devia acatar pela vontade de outros. Só assim se pode obter a liberdade hoje tão cobiçada sem cair no caos, o maior perigo que ameaça quem inconsideradamente hoje procura uma liberdade-abuso, em vez de uma liberdade feita de disciplina e responsabilidade.

Infelizmente, porém, ainda hoje domina o velho conceito pelo qual a liberdade é entendida como libertação de um estado de servidão; sem estar ainda consolidado o novo conceito de liberdade, com autodisciplina., segundo a Lei. Isso se deve ao fato de que o primeiro modo de entender a vida é próprio do nível evolutivo inferior, no qual vigora o princípio da luta pela vida, e o homem ainda está em parte neste nível, enquanto o segundo modo é próprio do nível evolutivo mais alto, no qual vigora o princípio da ordem da Lei, nível que só hoje o homem está prestes a atingir Não se pode realmente chegar à liberdade senão quando o indivíduo consegue substituir a disciplina que lhe é imposta por um amo, por aquela que lhe é imposta por si mesmo. Quem não sabe fazer isto fatalmente cai no caos, o que o obriga a chamar um outro senhor que o domine e assim restabeleça a ordem. A liberdade em demasia leva à perda da mesma, conseqüência de uma lei fatal da vida.

A humanidade já tende a constituir-se em um estado orgânico de cooperação. Em tal regime social, que cada vez mais se dirige para a coletivização das funções, o separatismo e a falta de disciplina tornam-se contraproducentes, devendo-se eliminá-los como um mal social. Hoje a evolução pressiona, forçando o homem a entrar neste novo regime de vida. Então a psicologia da luta à base de individualismo egoísta é substituída pela psicologia de disciplina do viver segundo a Lei. Tal mutação atinge as raízes do problema biológico fundamental da sobrevivência. A coisa mais importante na realidade é resolver este problema e para atingir essa finalidade, é preciso possuir uma arma de defesa. Esta arma no passado, já dissemos que era a força ou a astúcia. O homem tem medo de abandoná-las, sente-se inseguro em fazê-lo porque sabe que vive em um regime de luta É também por isto que ele demora em adotar a técnica de retidão. Os dois termos do problema, as duas posições, estão frente a frente: ou assumir como base da própria potência a capacidade de impor-se para dominar no caos; ou basear-se, pelo contrário, na retidão, vivendo na ordem segundo a Lei. O homem tarda em compreender que a segunda arma é mais potente e segura. Trata-se de uma técnica muito diferente da outra, para que possa ser compreendida e aplicada de súbito.

Não mais força e astúcia, mas retidão. Muda-se tudo. A própria posição de segurança é encontrada, não no poder individual, mas na Lei. Eis o fato novo. Parece incrível que a retidão possa ser uma força defensiva que assegura a sobrevivência. É assim que o homem justo, se torna invulnerável aos ataques inimigos, porque não pode ser ferido se não o merece. Vive-se então uma vida baseada sobre outros princípios. Compreende-se quanto era errado o método do passado. Mas como poderia compreender isso quem estava naquele nível, e não tinha olhos para ver mais além? Arruinava-se, mas não via. Procedeu-se sempre assim e a dor permaneceu fiel companheira do homem, até que ele terminou por considerá-la um mal necessário e adaptou-se a ela, desenvolvendo a virtude da resignação, em vez de descobrir-lhe a causa para suprimi-la.

Hoje o mundo acha-se carregado de dificuldades que são conseqüência daquilo que, com tais métodos, foi semeado no passado. A realidade é dura, por causa dos efeitos dolorosos, mas é fatal porque, quando semeamos as causas, a Lei não admite escapatória

Então, se aqui falamos, é porque nos dirigimos à nova geração, para que, observando os fatos e compreendida a lição, não caia no mesmo erro. Os jovens encontram-se em fase de semeadura, estão portanto em condições de evitar os precedentes que ocasionaram os efeitos que nós, os mais velhos, devemos suportar hoje como conseqüência do passado. A eles explicamos neste livro o problema, porque estão em condição de compreender. Trata-se de implantar a vida sobre um regime novo. Para o passado, o que foi feito, foi feito. Aqui se trata do futuro. Se os jovens souberem plantar uma boa árvore, a humanidade futura não se encontrará entre ervas daninhas como a atual. Porém, se eles cometerem novos erros, pagá-los-ão. A velha geração fez seu trabalho a seu tempo, e à nova pertence a oportunidade da construção do mundo novo.

Cabe a geração atual dar o salto a frente. Momento crítico de grande importância, mas perigoso. Até agora a disciplina tem sido imposta por uma autoridade e temos visto como procuramos desvencilhar-nos de ambos. Ver-se-á que a disciplina está nas coisas, férrea porque está na Lei que lhe dirige os movimentos. Antigamente, para persuadir, bastavam as lendas. As afirmações não comprovadas eram aceitas por sugestão. Hoje o jogo psicológico do subconsciente ao qual se obedecia foi desmontado. Tudo é submetido a controle racional, distingue-se o que se conhece do que desconhece, porque quando se sabe, sabe-se de verdade, e não se fica mais no mundo da fantasia.

O amadurecimento é vertiginoso, o salto é arriscado. Trata-se de uma mudança evolutiva para uma civilização mais alta. Mas somos otimistas. O movimento é revolucionário, mas se a vida o lança, isso é porque ele é destinado à realização; se ela propôs hoje e não antes este trabalho, isso quer dizer que ele lhe serve e que é possível executá-lo. A vida é uma série de provas feitas para serem superadas. Demonstra-o a evolução atingida. É certo que o homem deverá sofrer a sua fadiga, mas a vida colabora com ele, como em um trabalho de equipe, porque ela quer vencer em primeiro lugar, realizando seus planos por meio dele. Já que a vida é econômica e utilitária, ela orienta para que não haja desperdício inútil no trabalho. Neste caso há uma fadiga ainda maior que não pode ser desperdiçada: aquela sofrida pelo homem para chegar a produzir o fruto precioso que é o seu atual nível evolutivo. Ora, se a experiência atual parece pôr em perigo uma tão grande construção, mas se hoje a vida propôs esta experiência, isso quer dizer que o momento é apropriado e que há uma boa probabilidade de sucesso. Tais movimentos não são, nem um acaso, nem uma improvisação, mas movimentos preparados há séculos através do amadurecimento de todos os elementos necessários, com um trabalho proporcional à importância do acontecimento.

Com este livro aproximamo-nos de um mundo novo que nos espera; olhando esse mundo, parece-nos avançar sobre um continente inexplorado, descobrindo vales, rios e montes. Estamos ainda na costa. Que haverá mais longe, no interior? Temos percorrido tantos caminhos através de outras terras, a fim de podermos empreender agora a exploração desta nova terra, que se apresenta tão vasta. Não pretendemos ter visto senão uma orla e mostrá-la a quem ainda queira avançar por caminhos inexplorados, sob orientação da Lei, para aprofundar seu conhecimento.

FIM

O exame de consciência é urna constatação de fato daquilo que somos, é uma análise inicial para tomar conhecimento das nossas qualidades. A finalidade é prever as conseqüências que daí derivarão, a direção em que lançaremos as forças de um acontecimento, a trajetória que essas forças seguirão e o ponto ao qual elas devem chegar. Trata-se de um exame preventivo para tomar conhecimento das causas que, segundo sua natureza, o nosso eu nos leva a movimentar na fase inicial de um fato, permitindo a previsão de seu desenvolvimento como conseqüência daquelas causas, até o resultado final com o qual aquele fato se conclui. A finalidade deste exame, pois, é de saber, dado aquilo que colocamos em órbita, como dirigir e corrigir o fenômeno em fase de desenvolvimento, para levá-lo a bom termo.

De forma diferente do exame de consciência comum, neste não interessam as apreciações sobre o valor das próprias qualidades, o que leva a estabelecer uma comparação com os outros indivíduos, tornando-se como modelo. O julgar não serve para quem usa a técnica da intervenção. É necessário ao contrário do que se crê, olhar somente para si mesmo, porque é só o próprio eu que entra em órbita durante o desenvolvimento do caso. E o objetivo do exame é estabelecer uma trajetória justa, e não vencer o próximo no cômputo de virtudes.

Pode-se dizer: “Todavia devemos examinar também as nossas qualidades boas”. Sim, mas com este exame de consciência procuramos não as virtudes, mas os defeitos. Porque são estes que nos levam a cometer erros, originando o sofrimento com o qual devemos pagá-los enquanto o trabalho que aqui queremos fazer é antes o de saber evitar aqueles erros e aqueles sofrimentos. Daí se conclui que julgar os outros nos leva para fora da estrada.

Se possuímos boas qualidades, ninguém pode impedir que elas produzam seus bons frutos. Mas não devemos lutar por isto, porque automaticamente acontecerá. Nossa luta deve deslocar-se para o lado defeituoso, que se torna erro, causa de nossas dores. A finalidade da técnica da intervenção é exatamente evitar estas dores. Este é o problema que nos interessa e que aqui estamos examinando.

Pode-se dizer: "Mas um julgamento de si mesmo deve existir, e cada um deve alcançá-lo". Mas então quem o faz? Fá-lo a Lei e o homem o vê escrito no resultado obtido por ela. O exame é o ponto inicial, o julgamento o ponto final. A lei fala com fatos. O julgamento da Lei será a posição boa ou má, na qual o indivíduo se encontrará no fim da experiência.

Tomemos um exemplo. Os cálculos que os técnicos de astronáutica fazem antes de lançar um míssil sobre a Lua são a fase inicial, o exame de consciência. O que mais importa é não cometer erros, porque depois eles se transformam em desastre. A fase conclusiva é o julgamento por parte da Lei que, fazendo um sucesso da experiência, nos diz que os cálculos ou exame de consciência foram exatos ou, por outro lado, fazendo falhar a experiência com um desastre, nos diz que os cálculos, ou exame de consciência, estavam errados. O julgamento é evidente e se processa segundo os métodos da Lei, pelos quais cada erro é pago com o próprio dano. No campo moral a Lei age do mesmo modo, porque ela é a mesma em cada campo.

Assim, como o técnico da astronáutica deve temer, acima de tudo, os erros de cálculo que o levam a estabelecer uma órbita errada, também, quem se prepara para fazer o exame de consciência deve temer, acima de tudo, os seus defeitos, que levam ao mesmo resultado: erros e dores. Poder-se-ia objetar então que o exame de consciência é feito em sentido negativo, o que é lógico, de vez que o ponto tomado como alvo é exatamente o erro e o objetivo é evitá-lo.

Findo o exame de consciência, ponto por ponto, veremos que entre todos os defeitos há um dominante que define o tipo de cada indivíduo. Ele pode ser o avarento, o sensual, o egoísta, o dilapidador, o violento, o hipócrita etc. Cada um destes tipos é exposto aos perigos ligados ao seu defeito. Eis a necessidade de que ele se ponha em guarda, colocando-o bem em foco e vigiando-o, para que não o leve a cometer os erros correlativos. Dado o seu tipo, é natural que cada um tenda a lançar a trajetória de sua vida ao longo de uma rota assinalada por excessos naquela direção. Estão, portanto, à vista erros daquele gênero.

Entende-se por que os indivíduos têm necessidade de controlar-se, especialmente naqueles pontos fracos, perigosos para eles. Compreende-se a necessidade de não entrar naqueles caminhos, de não se lançar por aquelas rotas, mesmo que para aqueles tipos elas sejam as mais atrativas. O desastre com o qual elas terminam não é necessário experimentá-lo pessoalmente, porque se pode constatá-lo nos outros a cada dia, observando quais são para eles as conseqüências dos atos positivos e negativos. Controlar-se então em primeiro lugar, não se expondo naquele ponto, no qual se é mais vulnerável. Parece-se a um calcanhar de Aquiles que atrai as maiores dificuldades. Por que exatamente naquele ponto? Porque é ali que, levados pelo impulso imoderado, o ser se excede, vai contra a Lei, erra e deve pagar. Trata-se de um desequilíbrio que atrai, como força corretiva, a dor.

Se, naquele ponto se localiza o maior perigo, é necessária toda a atenção para contê-lo, dominá-lo, enfim, submetê-lo à disciplina da razão. Assim que o violento procure ficar parado, o sensual se contenha, o avarento seja generoso etc., reduzindo os próprios impulsos aos limites do normal, porque mal ele se excede, o golpe corretivo está pronto a cair-lhe em cima.

O exame de consciência prolonga-se por toda a vida, devendo-se observar de frente qualquer circunstância. A cada ato deve-se perguntar: "por que o fiz?" E então examinar qual é a verdadeira natureza dos impulsos que nos moveram. É necessário buscar, pôr a nu o subconsciente que se esconde e nos engana para satisfazer-se. Estamos em um campo de forças negativas, feitas de traição. E delas que nos devemos defender, não daquelas positivas. Assim, se alguém não é ladrão, isso não lhe merece atenção, porque ele não o é. Ele o sabe e isso basta. A oportunidade de sê-lo não lhe é perigosa e nem o atinge. Pode ser, porém, muito mais perigoso para ele um defeito que ele tenha. É o vício que nos dá o golpe contrário, não a virtude. Um homem pode ter mil virtudes e um só vício Receberá o golpe daquele vício. Poderá triunfar no terreno de suas mil virtudes mas aquele golpe ninguém impede. O ponto do vício é o espaço doente Se dos meus dez dedos só tenho um doente, devo ocupar-me deste e não dos nove sãos.

Por isso é necessário analisar-se, para corrigir-se ou endireitar-se. Procurar esconder-se e arranjar pretextos para justificar-se é um método desastroso, porque aumenta a culpa e a pena final, da qual não se escapa jamais. Todavia este método maquiavélico foi o mais usado no passado, considerado talvez por quem o inventou, como obra engenhosa e útil descoberta.

É preciso entender que o exame de consciência que se faz diante da Lei de Deus é muito diverso daquele que se faz diante das leis humanas. Estas golpeiam quando o indivíduo executou o delito. A Lei golpeia também mesmo que não tenha passado de pensamento ou desejo, porque, com isso, ainda que, por ter sido impedido pelas circunstâncias, não a tenha realizado, ele se demonstrou capaz de praticá-la.

O exame de consciência é auto-exame, isto é, exame de si mesmo, feito por si mesmo, sozinho, consigo mesmo. Não devemos olhar os defeitos dos outros, mas só os nossos, um a um, porque só este é que nos cabe corrigir. Podemos, porém, utilizar o julgamento de outros, pelo fato de que ele é o mais adaptado a mostrar-nos quais são os nossos defeitos, a fim de conhecermos melhor a nós mesmos. Os olhos alheios, sendo feitos de rivalidade, são mais agudos do que os nossos, os  quais,  pelo contrário, são levados a ver as nossas virtudes e a esconder os nossos defeitos.

O tipo contrário indica o nosso defeito porque ele não o tem, de modo que isto não o atinge, pois vive em outra dimensão, não sendo nosso rival. É por isso que, para nós, ele serve como exemplo de um indivíduo íntegro. O tipo similar a nós, encontrando-se no mesmo nível de comportamento e cometendo os mesmos erros, não nos indica o nosso defeito, porque ele também o tem e, se nos acusasse, estaria acusando a si mesmo.
 

O termo de comparação com que nos medimos a nós mesmos no exame de consciência não é uma lista de mandamentos e um código de leis, mas o resultado de nosso comportamento, isto é, um fato concreto, previsível para quem conhece a técnica funcional da Lei, ainda antes do lançamento da trajetória, segundo o tipo que escolher. Mas este conhecimento, além de um cálculo teórico, pode nos vir, como já foi mencionado, pela observação de como tem funcionado a Lei, em dadas circunstâncias, em relação ao comportamento de outros. Tanta gente viveu antes de nós. Basta observar como a Lei funcionou para eles. Todos nós sabemos como mais ou menos vão terminar certas atitudes. Devemos então evitar assumi-las, se não quisermos que a mesma coisa aconteça conosco, porque sabemos que naquelas condições ela acontece.

Este exame preventivo de consciência não é, portanto, um quebra-cabeça inútil. Nós não somos moralistas. Falamos em termos utilitários. Quando soubermos, com base em um correto exame de consciência, lançar a trajetória de um caso ou de uma vida, tomando uma rota positiva, ao invés de uma rota negativa, que nos obrigará a sofrer as consequências danosas, a vantagem será toda nossa. Poderemos então ter uma vida planificada, sem golpes ou dores, porque nos moveremos na direção correta.
 

Além disso, se as coisas andarem mal ao longo do caminho, será possível, com o nosso conhecimento o mecanismo da Lei e a técnica da intervenção, um exame de consciência, repetido a cada passo, permitir-nos-á que nos apercebamos dos erros cometidos no lançamento da trajetória e indicar-nos-á os meios corretivos da mesma. É lógico que, se assim conseguimos sair da rota errada, tantas dificuldades que lhe são conseqüentes deverão desaparecer. Tudo isso conduz a um modo de viver menos doloroso do que aquele do passado. Esta saída da rota errada é como uma redenção dos males que nos agravavam. Aquilo que nos desviava era um defeito. Libertados dele, ficamos livres também das conseqüências.

 
Ceratamente, este é um modo de viver mais difícil que permite menos loucuras. Quando o aluno passa para a universidade, deve saber estudar por si mesmo sem a orientação do mestre, porém encontra um ambiente mais intelectual  Isto é o que acontece com o exame de consciência. Mais liberdade e mais responsabilidade. Encontrar-se sozinho perante a própria consciência e diferente de encontrar-se perante um juiz humano ou um código. Com isso passa-se de uma disciplina exterior a outra, mais exata e completa, que penetra fundo até as raízes, ao nível da motivação; uma disciplina que está dentro de nós e nos liga ao íntimo e que, portanto, não se pode enganar.
 

Esta interioridade da disciplina, que chega até a substância de nossa conduta, corta pela raiz o sistema de escapatórias com o qual se procura evadir da Lei. Colocamo-nos então diante dela, em posição de retidão e não de fuga, isto é, dirigida ao positivo e não às avessas, ao negativo. Isso significa amizade para ser ajudado e não inimizade para ser golpeado. Vê-se como é loucura seguir este segundo método tão desvantajoso. Por isso aqui explicamos a função do exame de consciência, para mover-nos segundo a Lei.

É evidente que a finalidade deste exame é evitar a lição dolorosa que se segue ao erro, uma aprendizagem de alunos inteligentes que sabem raciocinar e entendem e não de alunos que procedem como asnos, e só aprendem à força de chicotadas. O fato é que devemos aprender. Desta determinação não se escapa. As evasões não servem e então, se não aprendemos de um modo, aprenderemos de outro, o que se torna tanto mais inaceitável quanto mais o homem evolui e compreende.

O exame de consciência torna-se o passo inicial e decisivo para aplicar o sistema positivo da retidão, segundo a Lei, e assim receber desta um tratamento favorável. A inconveniência do sistema oposto salta aos olhos tão logo se consegue compreender. De fato, dado que a Lei não permite que a justiça seja violada, quem quer evadir-se termina por dever fazer tudo aquilo que o aguarda, não espontaneamente, mas à força de golpes dolorosos. Com o sistema da honestidade, faz-se o devido trabalho somente uma vez; com o sistema do engano tem-se primeiro a fadiga de construir o falso, para assistir depois o seu desmoronamento porque ele não se sustém, e ao fim tem-se de refazer tudo de novo, no sentido oposto e à força.

O exame de consciência serve para adquirir conhecimento dos erros e das futuras conseqüências. Então alguém se pergunta: "mas que estou fazendo?" Assim se examina ato por ato, verificando-se se ele corresponde à retidão. O exame nos põe na presença da Lei para ver se nos colocamos em cima de um trilho que leva ao bem ou em cima de outros que levam ao mal. No passado, vivia-se na ilusão de que, à força de astúcia, depois de cometido o erro, podia-se evadir das lições da dor,  Acreditava-se que fosse possível escapar sem pagar. Isso, sem dúvida, era muito cômodo. Mas quando se conhece a Lei, vê-se que tal injustiça só é possível no cérebro de quem não compreende. Não é que não se saiba fazer aquele jogo, mas procura-se evitá-lo porque se vê que não convém.

Para melhor nos convencermos disso, o que é fundamental para o nosso bem, observemos que, no passado, este problema foi resolvido. Tentou-se fazê-lo de uma forma diversa daquela aqui apresentada, mas que se explica, analisando-lhe a gênese e a razão. Aquela época o homem estava preso a seus instintos e o que mais o premia era satisfazê-los. Ele não levava em conta as conseqüências, porque ignorava a técnica usada pela Lei, ao ensinar. Continuava assim impassível a errar e a pagar. E o jogo, para muitos, ainda continua.

É certo que o homem tentava resolver o problema, mas em sua imaturidade não o conseguia. Desta tentativa falida nasceu a filosofia da resignada aceitação. Podemos, dessa forma, explicar a presença de uma psicologia tão anti-vital, em que o problema, em lugar de ficar resolvido, complica-se com um terceiro termo que se ajunta aos outros dois já mencionados. Isto é, em vez do binômio: erro-dor, temos o trinômio: erro-dor-resignação.

É  interessante analisar este processo psicológico. A dor existia e não se sabia eliminá-la. Então, não sabendo resolver o problema, procurou-se fugir dele tomando uma via lateral que é uma tentativa de evasão não sucedida, pelo que a dor permanece, mas o indivíduo adapta-se a ela, estabelecendo um regime de convivência pacífica. No fundo, ela é aceita, domesticada e justificada pelas filosofias    sobrepostas, que procuram transfigurá-la, em vista da finalidade a ser alcançada por meio dela mesma. Chega-se quase a santificá-la, elevando-a à virtude. Procura-se, submetendo a dor a um processo de transumanização e idealização, destruir-lhe a virulência.

O resultado disso é um compromisso, um acordo tácito entre o homem e a dor, pelo qual o primeiro diz à segunda: "aceito-te, chego até a abraçar-te parque tu me purificas e me salvas, mas enquanto deixo-te nascer e crescer como queres, eu continuo a satisfazer meus desejos. Este acordo é conveniente para mim, que quero viver a meu modo, e para a Lei, que quer ensinar-me a viver de um outro". O resultado deste sistema é que o homem tende a tornar sempre mais teórica a segunda parte do compromisso, para viver de fato a primeira  Em suma, ele continua a aplicar seu sistema de astúcia também diante da Lei. Mas, como pode ele agir de outra maneira, se isto, naquele nível evolutivo, é o seu tipo de vida? Deste modo tudo se explica e tem sua razão de ser. Justifica-se, isto é, como na Terra, aquilo que é alto e ideal, serve freqüentemente de cobertura para esconder uma outra realidade, aquela realmente vivida.

Construiu-se assim toda uma filosofia religiosa que chegou ao ponto de considerar a vida terrena como uma pena a suportar, em vista da vida verdadeira, a do além. A primeira não seria então mais do que uma prova temporária, um teste, para decidir a segunda, eterna e definitiva. Agora devemos admitir que, se Deus criou a vida terrena, ela deve ter uma função e desenvolvimento próprios, e não sendo razoável entendê-la somente como condicionamento de única vida real depois da morte. Sua função            é de ser uma escola, de modo que aqueles que se retiravam para o deserto eram alunos que fugiam da escola e perdiam a ocasião de aprender.

Trata-se de distorções mentais, que todavia não se podem condenar quando se pensa que foram geradas num estado de desesperação, ao qual estava reduzida a vida na Idade Média. Mas não se pode culpar as religiões de ter criado esta psicologia, porque elas apenas a secundaram para servir de conforto. É necessário também distinguir a dor de "dor". Para aquela merecida, e portanto chegada, tratando-se de um mal agora inevitável; a filosofia da aceitação e da dor-virtude é ótima coisa. Então a dor é aceita porque é benéfica, é um pagamento de débitos já contraídos. Trata-se de um hospital de doentes. Mas aquele sistema torna-se absurdo para os masoquistas saudáveis, que devem trabalhar. É anti-vital procurar a dor sem uma razão, é loucura sustentar que o sofrimento, assim compreendido, seja virtude.

Em outros livros temos sustentado o valor da dor, a sua potência de liberação do mal. E aqui, embora pareça que dizemos o contrário, podemos confirmar que a dor é um meio de redenção, porque ela é a chibata que nos ensina a não mais cometer o erro. É certo que neste caso a dor é benéfica e positiva, porque nos salva. Mas, na escola da vida, representa o método duro e o caminho longo. Ora, queremos ressaltar que há ainda o método compreensivo e o caminho curto, no qual se aprende sem chicotadas. Então, em vez de sofrer, chega-se à compreensão, refletindo o que é muito mais conveniente.

Vamos insistir, agora, nesta senda. No caso do método duro e do caminho longo, a filosofia da resignação pode ser útil, porque então o mal está feito e a dor é inevitável. Aquela filosofia é sempre um conforto e uma esperança. Isso significa que é muito mais vantajoso ter de suportar a dor, quando lhe semeamos as causas. Eis a tese que o presente livro deseja demonstrar. De outra maneira continuaremos a confortar-nos com a esperança da outra vida e a sofrer as conseqüências do mal realizado, justificando-as com o sustentar que a vida é feita para sofrer.

Hoje a febre de criação motivada pelo momento histórico não tolera mais aquelas posições de resignação preguiçosa, possíveis apenas em períodos de inércia, porque hoje se vive na expectativa do trabalho da evolução. A humanidade agora deve construir um mundo novo e as virtudes do passado fazem-se sempre mais anacrônicas. Estão surgindo outras novas, de outro tipo. Hoje não se permanece na periferia dos problemas, mas procura-se resolvê-los. Compreende-se quanto custa fazer o mal e que loucura é fazê-lo. Compreende-se que forças sutis e poderosas pomos em movimento com nossa conduta, e a necessidade de saber manejá-las de acordo com a Lei. Por isso explicamos as vantagens do método da retidão e os danos do método da fraude. Dissemos acima que aceitar uma disciplina segundo a Lei é menos fatigante do que pagar depois a própria desordem contra a Lei. É questão de conveniência, e se trata de um cálculo utilitário. Para quem conhece a Lei, e daí as conseqüências da sua conduta, ser desonesto faz medo. Precisa-se de uma boa dose de inconsciência para fazer o mal e permanecer tranqüilo.

Em suas vicissitudes, o homem intuiu a presença da Lei, mas, não sabendo decifrá-la, chamou-a o imponderável, deixando-a no estado de incógnita. Trata-se de uma força sutil, aderente às raízes das coisas, que se esconde e foge às pesquisas. Silenciosa e invisível, ela tudo penetra e dirige de dentro, estabelecendo o êxito de nossas vicissitudes. Tê-la a seu favor significa ser o mais poderoso entre os poderosos da Terra. Quem a tem contra está perdido, mesmo que seja o rei do mundo. Quem compreendeu a Lei, descobriu uma potência nova que ele pode adquirir e que o mundo não conhece. E no funcionamento da Lei que se encontra a explicação e justificação de tantos eventos humanos. Quantos colossos desmoronaram, cegados por seu orgulho, porque acreditavam tudo saber e poder! E quantos, em sua inconsciência, ainda brincam com estas forças tremendas, sem compreender para onde elas os arrastarão!
 

Estamos chegando ao término deste livro. O leitor nos perguntará que finalidade tínhamos, prefixado para ele. Nós não imitamos aquelas potências que, para seu próprio expansionismo, tentam impor a sua ordem, tornando-se o centro dela, preparando-se para a colisão com outros centros a fim de vencê-los. Se assim fosse, seria necessário estar armado, porque se trata de egocentrismos rivais, cada um dos quais quer dominar os outros. Vive-se ainda num regime de luta, e o método ainda vigente na Terra para estabelecer uma ordem é o do vencedor.

Nossa posição é completamente diversa.  Não queremos impor nada, nem conquistar ninguém. Fazemos apenas uma constatação e mostramo-la ao leitor, de onde se conclui que as qualidades atuantes em nosso caso, não divergem profundamente das precedentes. Nós simplesmente constatamos que há uma ordem divina, universal, à qual ninguém pode escapar. Descrevemos os princípios diretivos dela, seu funcionamento e sua disciplina férrea, explicando que ela não violenta aquelas ordens humanas que respeita, e deixa o homem livre de desobedecer conforme o desejar.

Afirmamos, porém, que os fatos nos autorizam a crer que hoje estamos próximos a um momento crítico de saturação que nos obrigará a uma opção: ou o homem chega a compreender esta ordem e consegue enquadrar-se nela, ou, doutra maneira, ele, com suas próprias mãos, se mata. Somente isto é o que vemos escrito na lógica dos fatos.

 

Até aqui temos visto casos escolhidos entre tantos observados de perto. Veremos ainda outros  Em alguns o leitor poderá encontrar elementos que se referem a ele por serem afins com sua posição. Mas os casos são muitos e não podemos relatar aqui todos os que examinamos, tendo também verificado que eles confirmam os princípios aqui expostos na interpretação da Lei.  Observamos que há algumas características constantes na técnica de seu desenvolvimento. Cada caso assume um significado, está a caminho direto na direção de nosso bem ou nosso mal, segundo as premissas que propusemos no seu início. Quando se trata de ascensão, termina em experiência completa com o final da prova redentora e com uma conquista espiritual que nos leva mais para o alto. Depois da fadiga este é o momento radioso da iluminação e da festa de libertação de uma dose de mal que nos mantinha em baixo. Neste momento o sofrimento é premiado com alegria.

Temos sob observação alguns casos nos quais constatamos que o desenvolvimento dos mesmos vai-se verificando na forma prevista. É impressionante ver o que aparece quando, conhecendo a técnica da Lei, se verifica de perto que o desenvolvimento do caso confirma as previsões deduzidas com antecedência por um cálculo completo e exato. Mais interessante para cada um é a observação dos casos que lhe digam respeito, em sua vantagem ou em seu prejuízo.

Quando se atinge a maturidade necessária para chegar a isto, sente-se fazer parte de uma grande engrenagem, dirigida pelo pensamento de Deus, sente-se estar realmente em suas mãos, mas vendo aquilo que elas fazem e porque o fazem. O isolamento não está na ordem das coisas, mas no egocentrismo humano que leva ao separatismo. E é belo constatar como tudo é útil e justo, para cumprir uma função, quando colocado em seu lugar. Abre-se então a visão de um caminho imenso, percorrido e a percorrer.  Então Deus não é mais um mito longínquo relegado aos céus, mas é a certeza de quem o sente presente e operante entre nós.

Neste ponto, em que se chega à sensação da sua presença e à constatação da sua atividade, então é possível, como já foi mencionado (Cap. 1), estabelecer um diálogo. Nem todos, porém, sabem compreendê-lo senão a  seu nível. O primitivo, através da lenda e da fé; o mais desenvolvido através do intelecto. Cada um não pode senão usar a linguagem de seu plano de evolução. Mas, qualquer que seja a altura deste, restará sempre uma diferença imensa em relação à altura do outro termo, que é Deus. A linguagem regular-se-á pela altura do interlocutor, sempre elementar e o diálogo será aproximativo, mas poderá efetuar-se porque em Deus estão todos os níveis de evolução e, portanto, a possibilidade de responder na linguagem de cada um. Se o menos não contém o mais, e daí não pode atingi-lo em sua plenitude, o mais contém o menos e sabe expressar-se e funcionar também nas dimensões deste.

De um lado temos o absoluto, isto é, a verdade completa e perfeita; de outro a aproximação das tantas verdades do relativo em caminho de ascensão, em direção àquele absoluto, sua meta final. O absoluto está imóvel na plenitude de todos os seus atributos. O relativo transforma-se continuamente porque está a caminho para chegar àquela plenitude. A verdade humana é relativa e progressiva e o absoluto está à espera de ser por ela atingido, enquanto, à força de subir, ela busca alcançá-lo. Dado tudo isto, eis que, cada um falando de sua posição a linguagem de seu nível, o diálogo é possível. É certo que o valor e a perfeição deste dependem do plano evolutivo atingido pelo indivíduo.

Na forma mental que aqui explicamos, o diálogo não é só manifestação de sentimento, prece invocativa, mas também um lampejo do intelecto, tendente a compreender como Deus desenvolve Sua obra. Aqui estamos observando o pensamento de Deus, que o funcionamento da Lei nos expressa, na medida em que ele nos é acessível, à altura e nosso nível mental. Isso implica em que quem é mais evoluído poderá ler naquele pensamento muito mais coisas. Isso acontecerá sem dúvida no futuro.

As experiências que aqui executamos, analisando vários casos, são questões que propomos àquele pensamento, que nos responde com os fatos acontecidos. O acontecimento final expressa-nos a conclusão de um raciocínio que, seguindo o desenvolvimento do caso, podemos conhecer, observando-o em suas diversas fases. É assim que, por via experimental, pela força da casuística, podemos estudar o comportamento seguido por este pensamento em tantas posições diferentes, até descobrir seu fio condutor, os princípios que ele segue e os métodos que adota. É desta forma que aqui procuramos executar nosso diálogo.

Na realidade, tanto mais rudimentar quanto mais se retrocede na evolução, o diálogo sempre existiu, expressando os inevitáveis contatos com a Lei, que falava com os fatos, mesmo se os homens não os compreendiam. As ações e reações recíprocas eram as idéias trocadas naquele diálogo. Só quando o indivíduo se torna adulto e adquire olhos para ver, é que ele chega a perceber que Deus existe de verdade e está realmente trabalhando a nosso lado.

Para fazer compreender este fenômeno, expomos no presente livro uma progressão de casos nos quais a compreensão desta presença e a nossa co-participação em seu trabalho faz-se sempre mais evidente. Até aqui temos observado um tipo de casos nos quais o sujeito simplesmente submete-se à Lei, já que lhe provocou o funcionamento através das causas geradas pela sua própria conduta. A atitude do sujeito é então passiva, o fato é aceito fatalisticamente, sem perceber a razão de tudo isso. Mas em um nível mais avançado o comportamento do indivíduo pode tornar-se tanto mais de co-participação ativa com a Lei, quanto mais ele se mostre capaz, em proporção ao grau de evolução atingido. Podemos então estabelecer uma graduação ascendente de casos, cujos tipos mais simples são até representados pelos aqui observados. Mas em todos eles a Lei permanece sempre a mesma, funcionando tal qual é. O que muda é a conquista progressiva de consciência por parte do indivíduo, que o leva a uma conquista de autonomia e poder diretivo, já que muda a sua posição diante da Lei. Eis a graduação.

1º tipo de casos: — A Lei funciona, mas o indivíduo a ignora. Ele se põe no caminho do bem ou do mal e cegamente sofre as conseqüências, dando-se a explicação que melhor lhe agrada imaginar. Ele não assume nenhuma direção do fenômeno, que permanece totalmente confiado à Lei. Assim o indivíduo não alcança, nas diretivas de sua vida, nenhuma co-participação consciente no funcionamento dela que se lhe impõe com o método atração-repulsão, gozo-dor, prêmio-punição, paraíso-inferno etc. O conteúdo do fenômeno reduz-se somente a uma contraposição entre o elemento positivo do bem e o negativo do mal, com a intervenção final da Lei que conclui com justiça, segundo o que foi merecido.

Esta posição representa a fase mais elementar do fenômeno, aquela que podemos chamar de ignorância e passividade. Os quatro casos até aqui observados são deste primeiro tipo.

2º tipo de casos: — A Lei funciona e o indivíduo a conhece, e, por conhecê-la, não se submete mais cegamente, embora ainda o faça passivamente. Isto quer dizer que ele o compreende, vê o funcionamento dando-se de tudo uma explicação, pode mesmo chegar à previsão de seu desenvolvimento, mas ainda não sabe intervir nele. Este indivíduo chega até a ter consciência da Lei, mas não até o ponto de poder assumir ao lado dela uma co-participação na direção do fenômeno.

Esta posição representa uma fase superior à precedente e é própria dos indivíduos mentalmente mais desenvolvidos. Podemos chamá-la a fase do conhecimento até a previsão.

3º tipo de casos: — Este representa uma posição ainda mais avançada de compreensão por parte do indivíduo diante da Lei, correspondente a um grau mais elevado de consciência. O resultado lógico da evolução é, efetivamente, conquistar a verdade representada pela Lei. É assim que se avança gradativamente, dando neste caso ainda um passo à frente.

No primeiro tipo de casos a técnica da Lei existe e funciona, mas o indivíduo não a conhece, e só lhe resta a alternativa de segui-la. É a fase da ignorância.

No segundo tipo de casos, o funcionamento da Lei é conhecido e o seu desenvolvimento é previsto, mas sem nenhuma intervenção na direção daquele desenvolvimento. É a fase do conhecimento.

No terceiro tipo de casos o indivíduo, conhece e prevê como a Lei funciona, e sabe autodirigir-se dentro deste funcionamento. Então, ele não somente o conhece, como prevê o seu desenvolvimento provocando seus resultados. Ele pode intervir no funcionamento da Lei, porém não no sentido de modificá-la, mas comportando-se dentro dela de modo a atingir, seguindo-lhe os princípios, os resultados que deseja. O indivíduo pode determinar a realização deles, já que conhece os métodos de trabalho da Lei, colocando diante dela, com a própria conduta, as premissas causais necessárias para que, segundo as regras estabelecidas, aqueles efeitos devam se verificar. Não basta saber como funciona a Lei, é necessário fornecer-lhe os elementos, seguindo-os, passo a passo, para alcançar o que se deseja.

Não se trata portanto de assaltar a Lei para curvá-la, mas de secundar-lhe a corrente, conduzindo-se habilmente, ao pôr-se nas condições que a Lei exige para que sejam atingidos os resultados que o indivíduo deseja. E fazer-se valer, concordando, é obter o comando, obedecendo, porque a Lei o concede a quem obedece e o nega a quem desobedece a ela. Trata-se de uma co-participação consciente e sempre maior no trabalho da Lei, para o qual é necessário um desenvolvimento mental correspondente, já que aquela co-participação se baseia numa compreensão e num espírito de colaboração de que somente o indivíduo evoluído é capaz. A evolução, de fato, consiste em um processo gradual de entrosamento do indivíduo com a Lei.

Estes conceitos serão esclarecidos por três exemplos que agora apresentaremos, um para cada caso. O primeiro mostrar-nos-ão indivíduo em posição de inconsciência e passividade; o segundo, em posição mentalmente ativa, mas somente como previsão do futuro; o terceiro, em posição de intervenção na direção do desenvolvimento do fenômeno.

Exemplo do primeiro caso: num trabalho de construção espiritual, em sentido positivo segundo a Lei, havia-se infiltrado um indivíduo de tipo negativo, com o propósito de desfrutar da situação em sua vantagem, para lucro pessoal. Naturalmente, esta pessoa tinha o cuidado de esconder a sua verdadeira finalidade. Mostrava-se muito ativo no seio do grupo de promotores, conquistando a confiança de alguns deles e assumindo, por iniciativa própria uma diretiva imperiosa. A coisa prosseguia, às escondidas, sem o conhecimento dos dirigentes, preparado por ele, trazendo complicações e prejuízos para os demais.

Como os outros eram inocentes, a Lei, por seu princípio de mérito e justiça, não podia permitir que o mal vencesse o bem. Por coerência, devia portanto intervir, se não quisesse ir contra si mesma E interveio. Isto verificou-se com um movimento mínimo, o que bastou para inverter o curso dos acontecimentos. Uma grande tempestade estava se avizinhando e a Lei interrompeu-a com um sopro.

Um dos dirigentes, representantes da parte positiva, foi à casa de um amigo que, em sua boa fé, confiava no assaltante, mas ignorava o golpe preparado. O plano não fora levado ao conhecimento dos dirigentes, logo sua realização seria fatal. Então, como resolver o caso para o bem de todos, do lado negativo já estava tudo organizado e pronto para ser cumprido?

Eis o que aconteceu. O visitante foi introduzido no escritório do amigo. Enquanto aguardava, seus olhos recaíram sobre uma carta deixada em cima da mesa. Seu olhar fora atraído pelo selo postal que o interessava, porque era colecionador. Mas ao tocar aquela carta, observou o cabeçalho no envelope que mostrava a origem da mesma, vinha de um dos elementos do grupo.

Então o visitante, visto que o assunto lhe dizia respeito, leu a carta e encontrou descrito o plano de assalto daquele indivíduo. A campainha de alarme havia soado. A Lei intervinha no momento preciso para fazer tudo convergir em uma outra direção. O visitante levou a carta e imediatamente tomou suas providências, interrompendo, ao nascer, aquela posição assumida, negativamente.

Para chegar a este resultado, a Lei havia executado somente alguns movimentos, todos corretos. Era necessário que o visitante visse a carta. Esse era o ponto central do jogo, por isto a Lei favoreceu uma providencial visita àquela casa no dia em que a carta, recém-chegada, ainda estivesse sobre a mesa; era preciso que o amigo, depois de lê-la, não a tivesse tirado dali, mas deixado, sem querer, à vista, e o selo chamasse a atenção do visitante. Era necessário que esta pessoa ficasse sozinha no escritório, diante daquela mesa. Todas estas coisas deviam acontecer, cada uma exatamente sincronizada com a outra, fato que não se explica com o acaso, mas que exige a presença de uma mente diretriz.

Neste exemplo trata-se de uma simples contraposição entre bem e mal e da intervenção automática da Lei para salvar o primeiro. Aqui aquela intervenção verifica-se totalmente desconhecida pelos elementos a favor dos quais ela acontecia. Neste caso, como nos quatro anteriormente examinados, o indivíduo em defesa do qual a Lei se move, permanece em estado de ignorância e passividade.

Exemplo do 2º caso. — Um indivíduo de idade avançada adoeceu. O prolongamento da doença enfraqueceu-o até provocar-lhe um colapso cardíaco. O estado de abatimento, o aspecto cinéreo, tornaram necessário um exame de laboratório para verificar se havia câncer.

O doente estava na sala de estar, à tarde, com amigos que tinham ido visitá-lo. O exame devia estar pronto dentro em pouco e um deles prontificara-se a apanhá-lo no instituto de análises, próximo da residência. Ele assistia o doente e interessava-se por sua sorte. Estava observando e refletindo. Conhecia a teoria da Lei e seus métodos de trabalho. Entre os amigos reunidos havia também um médico que o chama à parte para infundir-lhe coragem, prevenindo-o contra o choque que poderia receber ao ler o resultado positivo do exame. Os outros visitantes procuravam esconder suas apreensões.

   Então o amigo enfermeiro, antes de sair, chamou de parte o doente e disse-lhe: “Eu vou ao laboratório pegar o resultado do exame, mas lembre-se: esteja o que estiver escrito, você não morrerá; Já fiz meus cálculos”.

O doente, de fato, contra todas as previsões, melhorou e está até agora vivo. A análise havia dado resultado negativo. Ora, que cálculos havia feito o enfermeiro para chegar a estas conclusões? Ele raciocinava assim: "A Lei funciona seguindo o princípio do mérito e justiça. Como se encontra o doente sob este ponto de vista? A seu destino está ligado o de sua família. Se ele morresse, ela ficaria ao abandono. Sabendo disto, seria muito triste para ele morrer antes de uma sistematização que está em curso. Ele não merecia esta dor, como a família não merecia também o dano irreparável de ficar abandonada. Ora a Lei, se se comportasse de tal modo, violaria os princípios fundamentais sobre os quais ela se baseia, porque aquela morte e aquele dano não foram merecidos e o caso encerrar-se-ia contra a justiça. A Lei, então, se não quer renegar-se a si mesma, tem que intervir para impedir que advenha o mal".

Este foi o raciocínio, baseado numa necessidade de coerência por parte da Lei, para a qual a sua intervenção em tal sentido era necessária. Aquela família já havia sofrido bastante, nem havia culpas que justificassem um prolongamento da dor. Dados os componentes desta lógica, aquela desgraça não poderia acontecer sem violar os princípios da Lei, o que não era possível. Dados os elementos do caso, devia haver uma absoluta obrigatoriedade de intervenção favorável por parte da Lei.

Foi o conhecimento deste fato que havia dado ao enfermeiro tanta segurança contra todas as prováveis previsões, até mesmo contra aquela advertência de um médico competente na matéria e observador dos sintomas anunciadores do mal. Mas o enfermeiro, em vez de olhar as aparências exteriores, havia visto mais profundamente a realidade interior do caso e os princípios da Lei. O seu diagnóstico tinha sido um diagnóstico espiritual, no qual entram em jogo todas as forças da vida, e não só um diagnóstico clínico, que não vai além do estado do organismo físico. Foi assim que, assumindo uma base diferente de juízo, chegou-se a conclusões opostas.

Assim como no exemplo precedente, também neste caso, o provimento por parte da Lei torna-se automático, a favor de um indivíduo passivo, mas não ficou oculto o mecanismo da Lei. O enfermeiro apercebeu-se disto, porque conhece o jogo da Lei, sabe como esta trabalha e assim pôde prever o desenvolvimento. Aqui estamos em uma fase mais completa do que aquela precedente. No segundo caso desaparece de fato a ignorância do primeiro, como no terceiro veremos desaparecer a passividade do primeiro e do segundo caso.    

Exemplo do terceiro caso. — Uma senhora, por cumprir seus deveres familiares, chegara a uma idade avançada sem ter criado uma posição que lhe desse meios de subsistência. Havia sempre pensado nos outros em vez de em si mesma, trabalhando de graça, por senso de dever, sem nenhuma perspectiva econômica. Assim procedera sabendo o que fazia, não ignorando o princípio de justiça da Lei. Tendo-lhe sido fiel e segura de haver cumprido fielmente seus deveres, estava segura de que a Lei não a desampararia. Porém, segundo o critério comum, isto parecia quase impossível porque era um problema muito difícil encontrar uma posição econômica para uma mulher de 50 anos, não diplomada, em terra estrangeira. Havia, porém, um fato decisivo: esta mulher tinha colocado, por sua vontade, e com plena consciência de seu empenho, os precedentes necessários para compelir a Lei, por seu princípio de justiça, a corresponder a este mérito com os provimentos necessários.

Eis o que aconteceu: contra todas probabilidades humanas, apareceu a solução e na forma mais adequada possível! Surgiu um trabalho que agradava tanto à interessada, que o fazia como se fosse um "hobby", a satisfação de um desejo que jamais teria alcançado de outra forma: Todas as facilidades que se verificaram neste sentido confirmaram as previsões dela, que tinha preparado tudo isto com sua conduta perante a Lei. Admitida como aprendiz em um instituto técnico, em poucos meses aprendeu o ofício que a apaixonava e chegou a ser diretora daquela organização.

Observemo-la no trabalho enquanto aplicava o seu método, consciente da presença da Lei e de seu funcionamento. Faziam parte daquela organização também outros elementos que se propunham a atingir igual sucesso, mas utilizando métodos opostos, isto e, negativos em vez de positivos. As duas partes estavam uma ao lado da outra, no mesmo ambiente, mas comportavam-se diferentemente, encontravam-se diante do mesmo problema, mas resolveram-no de dois modos diversos. Vejamos aonde, cada uma delas,  seguindo seu caminho, chegou.

A diferença entre as duas partes estava no fato de colocarem o mesmo problema sob perspectiva diversa e resolverem-no seguindo métodos opostos. A primeira parte conhece a técnica fundamental da Lei, sabe lançar os precedentes causais do próprio triunfo, aos quais ela, por coerência consigo mesma, deve corresponder, concedendo-o. A outra parte, ignorando este mecanismo, debate-se dentro dele, cometendo erros que lhe recaem sobre os ombros, porque é inevitável pagá-los mais tarde. Se o primeiro caminho leva ao triunfo, o segundo leva à falência. Cada parte não poderia afastar-se de sua rota, que fora definida em função de sua forma mental. Assim o fenômeno desenvolve-se com exatidão e fatalidade.

Passaram-se os dias e cada um continua a trabalhar a seu modo, avançando em sua direção. O primeiro elemento vai regularmente ao trabalho, cumpre-o honestamente, fazendo seu dever com superioridade da quantidade e qualidade da produção. Estas eram as forças do tipo positivo que ele lançava, os valores construtivos que ele punha perante a Lei, a premissa que ela devia responder em sintonia. O segundo elemento, pelo contrário, procurava avançar pelas vias oblíquas da astúcia, do engano, da preguiça, procurando desfrutar em vez de produzir, prejudicando a quantidade e a qualidade do produto. Estas eram as forças de tipo negativo, e a estes valores destrutivos a Lei não poderia dar resposta igual a do primeiro elemento.

Passaram-se os dias e o fenômeno bifronte continua a desenvolver-se em ambos aspectos.  Com o próprio comportamento, o primeiro elemento continua a colocar no computador eletrônico da Lei seus cartões brancos, enquanto o outro faz o mesmo com seus cartões negros. Estes impulsos quotidianos iam-se assim somando, uma série deles em sentido positivo e outra em sentido negativo; aumentando a carga de cada uma das partes. Chegaria fatalmente o momento do computador disparar, o que aconteceu na forma de desmoronamento da construção feita pelas forças negativas e do firmar-se da construção feita de forças positivas. Este foi, de fato, o resultado final de toda a operação.

Formara-se um desequilíbrio sempre maior diante do princípio de justiça da Lei, de modo que esta, cada vez menos, podia tolerá-lo, até que ela interveio para retificar o erro, e a parte negativa foi liquidada como merecia. Quem havia dado devia receber a justa recompensa, mas o usurpador devia ser despojado como realmente o foi. Cada movimento na conduta dos dois elementos era uma frase do diálogo conduzido por eles com a Lei, que o concluiu com a sua sentença final e definitiva.

A diferença entre os dois elementos consistia no fato de que o primeiro sabia que era loucura pretender enganar a Lei, porque cedo ou tarde, as contas são ajustadas e cada um recebe o que mereceu, seja o bem ou o mal. O primeiro elemento manteve-se sempre no ambiente da Lei. Antes de encontrar trabalho, tinha-se comportado corretamente por senso de dever. Depois, na segunda parte de seu caso, quis fazer mais, tomar a direção do fenômeno para fornecer dados e provocai conseqüências preestabelecidas, fazendo isto com conhecimento da técnica funcional da Lei e com método experimental racionalmente controlado. Nesta segunda fase não se trata, como na primeira, só de uma previsão genérica, mas de um cálculo de previsões para determinar as causas específicas de determinadas conseqüências. E esta segunda parte a do 3º caso, expressa com mais evidência.

O fato que queremos agora focalizar melhor em seu significado, como não pudemos fazer até aqui, é este agora enunciado. Ele é tão novo e extraordinário, que parece inadmissível. Como é possível prever o futuro desenvolvimento de um caso quando se lhe conhecem todos os elementos, mas também determinar, ainda com antecedência, a conclusão preestabelecida que este seu desenvolvimento irá atingir?

A primeira razão pela qual isto é possível, é que podemos contar, com absoluta segurança, com a estabilidade da Lei. Esta é feita de ordem, isto é, de disciplina, fato indispensável em cada organismo e que vai desde a inviolabilidade de seus princípios diretivos até ao comportamento de cada um de seus elementos componentes. É com este estado de disciplina universal que podemos ter a certeza de estarmos na direção da Lei. A obrigação de cumprir o nosso dever para com a Lei, obriga também a Lei a cumprir seu dever para conosco. O problema, então, é de manter-se nas condições desejadas por ela, para que se possa chegar a conseqüências felizes. Pode-se obter da Lei todo o bem ou o mal que se queira, tudo em nossa vantagem ou prejuízo, porque sabemos quais são as regras que é necessário obedecer para obtê-lo. Quem conhece como funciona a Lei sabe o efeito correspondente a cada ato de seu comportamento.

Esta fatalidade na relação entre o efeito e a causa deve-se ao fato de que entre as leis morais, físicas e dinâmicas há diferença de grau, isto é, de nível evolutivo, e não de ordem isto é. de natureza. Elas estão todas em funcionamento determinístico ao qual estão indissoluvelmente ligadas, de modo que se sabe, com antecedência que efeitos devem inevitavelmente corresponder a determinadas condições. Os movimentos no campo moral são resultados com a mesma fatal exatidão com a qual o são os do campo astronômico, Em ambos os casos temos um organismo funcionante. O desastre que aconteceria no universo físico se a disciplina que o rege fosse violada, aconteceria igualmente no universo moral.

 

O exemplo proposto representa a posição mais avançada que o homem pode tomar diante da Lei: a posição de quem lhe conhece a técnica, e traça a partir daí as diretivas da própria vida para guiar-lhe o desenvolvimento em plena consciência e autonomia. Isto é o que queremos ensinar neste livro. Não se trata de elucubrações teóricas, mas de alcançar fins práticos utilitários no interesse de quem quiser aproveitá-los. Creio que planejar, inteligentemente, a direção da viagem da própria vida, em vez de andar ao acaso como folhas à mercê do vento, significa um grande progresso, algo de novo e mais completo, o qual não foi praticado no passado. Quanto mais o homem evolui e se faz mais complexa a organização de sua vida individual e social, tanto mais aumenta para ele a necessidade de prever mais longe e planificar tudo com maior exatidão. A imprevidência é uma qualidade do primitivo; a visão longínqua do próprio futuro é uma qualidade própria do evoluído. Antigamente o escopo da vida era viver. Hoje isto já não satisfaz; quer-se saber seriamente por que se vive, e como atingir fins distantes. Chegados a um certo grau de desenvolvimento mental, isso torna-se não só uma necessidade psicológica, consciência mais desenvolvida, mas também uma necessidade prática imposta por um modo de viver muito mais complexo. Eis porque as pesquisas que aqui efetuamos respondem às exigências do momento histórico.

Trata-se de começar a viver em uma outra dimensão, conscientes do significado da vida. Chegados a este nível, observa-se tudo aquilo que nos sucede em redor, ao longo do caminho, estudam-se as razões pelas quais determinados fatos ocorrem naquele momento, e prevê-se-lhes o desenvolvimento em suas fases sucessivas. Quando se chega a esta nova compreensão da realidade, vê-se quanto ela é diversa daquele entendimento do tipo velho, tão ineficiente e elástica. Em seu lugar aparece, ao contrário, uma realidade mais profunda, mais exatamente definida, em funcionamento constante e com movimentos calculáveis. Vive-se de outra maneira, não levados por impulsos desconhecidos, mas tendo-se em mãos as rédeas do próprio destino e construindo-o com conhecimento, por ter calculado e introduzido nos fatos os necessários impulsos determinantes. Se o homem conseguir compreender e ativar tudo isto, ele fará uma das maiores revoluções da história, representada por um golpe antecipado e jamais realizado.

Trata-se de passar das religiões do passado, do tipo emotivo-confiante para uma do tipo racional-positivo. É claro que se trata de um crescimento, não de supressão, porque a evolução quer avançar, não destruir. Isso fatalmente deverá levar, no campo do espírito, da religião e da moral, à posse das verdades científicas, demonstradas, que tomarão o lugar daquelas baseadas no mito, que é uma criação legendária com a qual o homem, ansioso pelo saber, imaginou uma explicação da existência que procurasse suprir sua falta de conhecimento.

Deverá acontecer aquilo que estamos tentando fazer, isto é, diante das mesmas verdades, passar de um estado de incerteza e nebulosidade para um de certeza e exatidão, de modo a movermo-nos no seio do fenômeno de nossa vida com plena consciência da técnica de seu funcionamento e desenvolvimento. Hoje os conceitos de Deus e sua Lei são ainda vagos e distantes; o homem deve crer porque não sabe. Depois, para sua comodidade procura evadir-se de uma moral cheia de escapatórias, porque ainda não definida analiticamente. Assim ele abusa, mas espera o perdão, comete erros mas invoca a divina providência para que esta remedeie tudo. O homem move-se no desconhecido por tentativas, porque desconhece a estrutura e o funcionamento da máquina dentro da qual ele vive, e por que não sabe fazer os movimentos adequados para fazê-lo funcionar em sua própria vantagem. É fatigante andar assim às cegas com este sistema de erro e pagamento, do fazer e refazer. Não é possível que não haja outro modo de viver, mais inteligente e mais útil.

Aqui não procuramos abolir os velhos princípios ainda vigentes; respeitamo-los, mas reconhecemos neles uma fase ainda infantil e queremos levá-los mais à frente para uma outra mais amadurecida. Deste modo, em vez de ser cancelado, o passado clarifica-se, atualiza-se, confirma-se, reforçado por um controle racional e analítico. Os conceitos básicos permanecem, mas compreendidos em profundidade. Continuamos a falar com Deus, mas em um nível de consciência mais alto, com maior segurança da realidade, mais iluminados no prever e mais ativos no planificar.

Então chega-se a sentir a presença de Deus. Geralmente se é levado a vê-la, não próxima de nós nas pequenas vicissitudes de nossa vida cotidiana, mas só nos grandes fatos heróicos e excepcionais que não acontecem aos pequenos homens comuns.  O leitor tem visto que, ao contrário, os exemplos de casuística aqui relatados são simples acontecimentos ao alcance de todos. Todavia é neles que temos visto a presença de Deus operante com a sua Lei. Os fatos, se vistos com estes novos olhos, têm-nos mostrado que os maiores problemas da vida são resolvidos. Esta nova visão das coisas tem-nos feito ver como tudo é conexo e que complexidade de fenômenos esconde-se num acontecimento de aparência banal. Não o levamos em conta porque não vemos. E não nos apercebemos que a cada instante, nos menores acontecimentos, vivemos em contato com Deus, que em todos os fenômenos trabalha ao nosso lado, enquanto a nossa existência se desenvolve dentro do funcionamento da Lei. Quereríamos aqui transmitir ao leitor a sensação desta presença de Deus, que não é somente conclusão lógica de um raciocínio.

É assim que neste livro, apoiando-nos sobre as maiores teorias, pudemos com elas ligar os pequenos fatos da experiência comum e ver quando eles, não obstante sua modesta aparência, eram ricos de conteúdo. Escolhemos alguns exemplos pequenos e comuns, porque mais vizinhos de nós e assim mais suscetíveis de análise, para fazer ver ao leitor em que mundo imenso qualquer um vive a sua vida de cada dia.

Agora, não vamos continuar com outra casuística. Quem quiser poderá encontrá-la por si mesmo, porque a tem em sua casa cada dia, analisando seus casos pessoais, por isto mesmo mais interessantes para si. Uma vez que se tenha compreendido a técnica explicada, pode-se aplicá-la por conta própria, e uma vez tendo aprendido a ver as coisas em profundidade, pode-se mesmo descobrir nelas um significado e valores antes desconhecidos, capazes de dar uma orientação total e diferente à sua vida.

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O sucesso no trabalho de previsão e de direção do desenvolvimento dos casos que nos interessa examinar, depende do conhecimento e uso da técnica que agora mencionamos.  Tentemos então aprofundar este conhecimento, focalizando melhor alguns pontos fundamentais.

No capítulo precedente orientamos a pesquisa, aplicando-a a três tipos de casos:

1) O do descobrimento e da passividade, no qual o sujeito somente sofre a ação da Lei, sem nenhum conhecimento do fenômeno.

2) O caso consciente e ativo, cujo uso só serve como raciocínio na previsão do futuro que, embora conhecido, é aceito conforme as regras da Lei, sem nenhuma intervenção para determiná-lo.

3) O caso no qual o sujeito não somente sabe e prevê o desenvolvimento do fenômeno, mas também chega ao ponto de intervir e tomar a direção dele.

Poderíamos dizer então que a interação entre indivíduo e fenômeno atravessa três fases de aperfeiçoamento progressivo, que leva a um crescendo da co-participação do sujeito no domínio do acontecimento. Estas fases são: 1) ignorância, 2) previsão, 3) direção  Com isto a evolução eleva o indivíduo desde a posição de estranho, inconsciente da presença da Lei, até o nível de seu colaborador consciente do funcionamento. Tudo isto reentra na lógica do plano da existência.

É evidente que, em sua terceira fase que o fenômeno atinge a posição mais avançada e, portanto, a sua técnica alcança o mais alto nível de complexidade e exatidão.  Além disso, esta terceira posição é aquela que mais nos interessa, porque nos ensina a apoderar-nos realmente da direção do desenvolvimento dos acontecimentos de nossa vida e até do próprio destino, para levar-nos à posição que quisermos. Analisaremos mais de perto a técnica deste tipo de casos, do terceiro grau, quer dizer a fase da intervenção, porque ela representa a arte máxima da ética do comportamento, consistente na sabedoria de dirigir-nos conscientes dos planos da Lei, em colaboração com eles, para atingi-los em nosso benefício.

Devemos então começar daquilo que é o ponto de partida e de referência, base desta técnica. Antes de observar o fenômeno em seu desenvolvimento, devemos conhecê-lo em seu momento inicial. Isto é fundamental porque é esta primeira avaliação que nos indica qual é o tipo dos movimentos sucessivos segundo os quais dirigir-se-á o fenômeno. É esta primeira posição que orienta as subsequentes. Se errarmos no momento do lançamento do míssil, toda sua rota seguirá errada, a menos que saibamos corrigi-la, uma vez posto ele em órbita.

Agora o ponto de partida é o indivíduo. Isso porque o míssil que entra em órbita é o próprio eu com as suas qualidades, as quais são as forças que ao longo do caminho, segundo sua natureza, irão atraindo e anexando outras forças de tipo semelhante. Aquelas de um outro tipo serão repelidas. É porque o estabelecimento da técnica funcional do fenômeno faz-se desde a partida, o conhecimento do tipo do próprio eu é fundamental para o domínio do desenvolvimento do fenômeno.

A primeira coisa a fazer é perguntar-se: "Quem sou eu?" Só depois de ter tudo bem  assegurado, o indivíduo poderá pôr-se em viagem. O problema básico é um severo exame de consciência. O desenvolvimento de um evento, como de um destino, baseia-se sobre a relação entre dois elementos: a personalidade do sujeito e a Lei. Cada um deles representa um organismo de forças em ação, dirigido a uma dada meta em direção à qual aquelas forças querem avançar. Quando se conhece o indivíduo e a Lei, conhece-se também o conteúdo destes dois campos de forças. As da Lei condicionam o êxito do desenvolvimento das forças da personalidade. Quanto mais as forças da personalidade estejam aderidas às da Lei porque afins com elas, maior será o êxito. É pelo cálculo desta aderência por afinidade que se pode deduzir se o evento terá ou não sucesso.

Ora, no caso da intervenção, este bom êxito será tanto mais fácil quanto mais a estrutura da personalidade permita a introdução de novos impulsos segundo a Lei. O caso de máximo sucesso neste trabalho se dá quando a adesão do sujeito à Lei é completa e ele se torna seu colaborador. O caso de máximo insucesso se dá quando a adesão do sujeito é nula e ele age como seu inimigo Eis porque é necessário conhecer-se a si mesmo, porque a solução do caso, no fenômeno da intervenção, depende da estrutura da personalidade do sujeito. Este autoconhecimento é o primeiro fato de que se deve ter em conta.

O desenvolvimento completo do fenômeno resulta então de dois momentos: 1) O referido exame de consciência, que é uma autopsicanálise, ato individual de introspeção, que se conclui com o diagnóstico do próprio caso; 2) A intervenção que, segundo os resultados obtidos de tudo isto, é possível praticar para dirigir o desenvolvimento do fenômeno.

A chave para praticar esta intervenção, tem como premissa indispensável o exame de consciência. Aqui estamos no departamento de análises, de cuja exatidão depende o valor do diagnóstico, como acontece para o médico com os exames de urina, sangue etc. E do diagnóstico, pois, depende toda a cura. Uma autopsicanálise errada conduz a profundos erros de avaliação, estragando todo o processo e impossibilitando o bom êxito do caso avaliado. Dessa maneira, em vez de resolvê-lo, submete o sujeito à longa técnica corretiva dos erros, a qual já conhecemos.

Concluindo: se a avaliação por si mesma, usando como unidade de medida a Lei, não estiver certa, teremos, como base do julgamento, uma análise errada. Dela não pode derivar senão um diagnóstico falso, que representará uma colocação também falsa da intervenção diretiva do desenvolvimento do fenômeno, intervenção que assim ficará comprometida na partida. As várias fases são ligadas, porque derivadas uma das outras. Da exatidão e veracidade da psicanálise e, portanto, do correspondente diagnóstico, depende o valor da psicossíntese que estabelece as normas a serem seguidas para dirigir o fenômeno.

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Resta-nos agora examinar como executar o exame de consciência ou autopsicanálise, ponto de partida da técnica da intervenção.

Trata-se de observar e medir a si mesmo. Isso não se pode fazer senão estabelecendo um confronto com o único termo de comparação e unidade de medida que possuímos; a Lei. Trata-se então de pôr o próprio eu diante dela, isto é, diante de seu pensamento que expressa as normas estabelecendo qual deve ser a nossa conduta.

Esta idéia do exame de consciência não é nova. Voltamos o leitor agora de propósito, para a menção feita no princípio do Capítulo III. Aquela idéia já existe nas religiões. Então diz-se: "colocar a própria alma na presença de Deus". Os dois termos se encaram. Quem julga? O julgamento, quando é o da Lei, manifesta-se fazendo o sujeito em questão sofrer as conseqüências de seus atos. Quando, ao contrário, aquele julgamento é executado pelo sujeito, então acontece que esta pessoa julga a seu modo, porque ele olha com seus olhos e está interessado no julgamento. Isto leva a uma distorção do mesmo, o que é perigoso porque o erro de diagnóstico produz o lançamento da trajetória daquele caso em direção errada, uma colocação em posição contra a Lei, erro a ser pago depois.

No passado, para as massas ainda em estado infantil, incapazes de penetração psicanalítica, o problema foi solucionado com um código que estabelecia as regras da conduta humana, determinando uma lista do que fazer e não fazer. Os Mandamentos de Moisés, com toda a encenação do Sinai, são um primeiro exemplo. Tudo isso andou bem no passado, quando bastava uma definição aproximativa, uma rede de malhas largas para impedir os erros mais graves; mas isso torna-se cada vez menos adaptável para a formação analítica e crítica do homem moderno, que tem necessidade de penetrar mais a fundo na substância das coisas com uma avaliação mais exata.

Este aprofundamento se faz necessário, sobretudo quando se quer usar a técnica da intervenção que aqui propomos, para proceder à planificação racional dos próprios casos ou até da própria vida. Não se trata de sujeição à Lei, mas de uma autonomia diretiva individual no seio de seu funcionamento. Para isto é necessário um trabalho de autopsicanálise exato e profundo, anteposto à ação, um trabalho executado por um ser consciente e responsável, provido de um senso moral mais agudo Principalmente pelo fato de que ele, dada sua evolução, deve ser livre, e portanto capaz de fazer tudo por si. Em tal caso, o termo de comparação, base da análise, não é uma simples lista dos atos impostos ou proibidos, mas é o pensamento contido na Lei, diretivo de seu funcionamento.

Neste caso o indivíduo encontra-se diante da Lei, não mais na posição de criança guiada pela mão, porque ignorante e irresponsável, cujo único dever é somente o de obedecer. O ser encontra-se, ao contrário, na posição de adulto que deve saber autodirigir-se porque compreende, é livre e responsável em suas ações. Ele deve estar consciente da Lei, mas com a qual estabelece diálogo. É livre para errar, mas conhece as conseqüências do erro pelo qual é responsável. A sua posição é completamente diversa. Isso não significa que a preceituação esteja errada. Mas ela, para o homem moderno maduro, não é senão uma fase de aproximação por ele superada, porque o torna capaz de usar a técnica da intervenção, manejando conscientemente as forças da vida.

Temos então frente a frente os dois termos: a alma e Deus, isto é, o eu e a Lei. O exame de si mesmo não se faz sozinho, mas pondo-se a si mesmo em confronto com os princípios que regem o funcionamento da Lei. O indivíduo põe-se nu perante aquele quadro e nele se espelha. Pode assim ver quais são os pontos de coincidência com as linhas da Lei e quais os pontos de divergência. Positivos para ele serão os pontos de acordo, e negativos os de desacordo. Quanto mais exato, objetivo e correspondente à verdade seja o exame, tanto maior será o seu valor para dirigir a técnica da intervenção.

Observemos agora quais são as dificuldades a superar para conseguir um bom exame de consciência. A principal consiste no fato de que o órgão de juízo de si mesmo é o próprio eu. Sendo ele parte envolvida, são fáceis os erros de avaliação na análise. O perigo consiste sobretudo no fato de que a introspeção, a que leva o exame de consciência, representa uma descida no abismo do inconsciente inferior ou subconsciente, e a partir daí, vindo das profundezas, um emergir dele, no consciente, para fazer-se valer com a afirmação das próprias vontades e razões, distorcendo o julgamento segundo o próprio egoístico ponto de vista, (v. Cap. III).

O subconsciente representa então um perigo do qual devemos nos resguardar. Vejamos mais exatamente em que consiste a nossa opinião. Para fazer isso, devemos basear-nos em afirmações já demonstradas, que para nós são problemas resolvidos, aos quais não podemos retornar. Quem quiser conhecer as teorias correlatas e suas conclusões, as encontrará desenvolvidas nos livros: O Sistema, Queda e Salvação e Princípios de Uma Nova Ética. Aqui bastará recapitular com o seguinte esquema fundamental, para recapitular tudo.

A psique humana pode se dividir em três zonas: subconsciente, consciente e superconsciente, que representam seus três níveis de evolução. O existir não é estático, mas é um tornar-se. Ele percorre o ciclo involução-evolução que, partindo de um ponto que chamamos o Sistema, desce pelo caminho da involução até o ponto oposto que chamamos o Anti-Sistema, para re-elevar-se depois deste ponto, pelo caminho da evolução, até o Sistema, assim tornando ao ponto de partida. Temos, dessa forma, um dualismo de termos opostos, positivo e negativo, Sistema e Anti-Sistema, estrutura bipolar que não quebra a unidade do todo, unidade que o caminho evolutivo, tornando ao ponto de partida, tende a reconstruir. Basta isso para nos orientar.

Então o subconsciente, que aparece na avaliação efetuada na autopsicanálise, representa a parte mais involuída da psique, cujo primeiro perigo é a sua própria involução, porque ela significa ignorância, impulsos inferiores, transbordantes de animalidade em nível baixo e maléfico. Depois, esta posição involuída representa uma maior proximidade ao pólo negativo do ser e daí a tendência a realizar-se naquela direção, isto é, para o negativo, segundo o modelo de tipo anti-Lei, que representa a queda espiritual, enquanto a redenção consiste em seguir a Lei.

O subconsciente representa não apenas uma contribuição à psicanálise, feita de impulsos involuídos, nocivos e tenebrosos, mas também uma tendência a afastar-se do caminho reto, traçado pela Lei, para levar-nos aos seus antípodas, fornecendo-nos analises e diagnósticos realmente invertidos, tendentes ao lançamento de trajetórias em sentido negativo, anti-Lei. É esta tendência antagônica diante da Lei que constitui o segundo ponto de periculosidade do subconsciente. Trata-se realmente de um retrocesso porque em vez de apontar em direção à Lei que representa o vértice da evolução, o subconsciente aponta para o pólo oposto, que mais o atrai, justamente, pela proximidade.

Restam ainda outras considerações. O subconsciente, pela sua qualidade de involuído, gravitando em direção ao pólo negativo, desejaria a vitória deste sobre o polo positivo, o que para ele significa querer substituir-se como lei, à Lei de Deus. O subconsciente tem uma psicologia sua e, se a observamos, revela-nos a sua estrutura. Ela exprime a forma mental própria da zona mais involuída do ser, lançada em descenso em direção ao Anti-Sistema. Em conclusão, ela é a zona do retrocesso pela substituição do próprio eu ao Deus-Lei, para colocar o que está no pólo negativo como senhor, no lugar daquilo que está no pólo positivo, fazendo de um elemento que deve funcionar disciplinadamente dentro da Lei, ao contrário, um centro independente e dominador.

Eis por que o subconsciente representa um obstáculo a vencer quando se busca compreender a si mesmo diante da Lei. Não é que ele procure impedir-nos de vê-la. Em sua involução, ele simplesmente não a vê e por isso não pode indicá-la. Assim, coloca-nos perante os olhos aquilo que ele acredita ser a verdade, enquanto não passa de miragem de quem ignora o funcionamento da Lei. Esta miragem precipita-nos no engano, porque com ela há que ajustar contas e depois tudo pagar. É experiência comum a psicologia da tentação que, para induzir ao mal, promete alegrias e depois não dá senão desilusões e dores. Guardemo-nos então do subconsciente. Quanto mais o indivíduo cai vítima dele, mais é involuído, e este fato denota a medida da sua involução. Mas cada ser só pode fazer o exame de consciência ao nível ético, condicionado a seu grau de evolução. Pode-se então imaginar que exame possam fazer, ainda que de boa fé, por motivo de sua ignorância, o involuído e o subdesenvolvido que pensam no nível do subconsciente.

Ora, se do tipo de exame de consciência depende o funcionamento da técnica da intervenção, e esta representa uma técnica de alto nível, é lógico que se devam exigir qualidades de evolução proporcionais nos indivíduos que pretendem usá-la. Isto significa o domínio da parte mais evoluída do eu sobre o subconsciente, e um firme controle de modo a não deixá-lo dominar. Quem não sabe fazer isto permaneça no nível preceitual e não se arrisque na livre iniciativa que ainda não sabe usá-la, porque pode terminar no erro. Trata-se de dois tipos de ética em dois diversos níveis de evolução: a preceitual é adaptada ao indivíduo ignorante necessitado de orientação, ou recalcitrante que precisa ser corrigido à força; já o método de intervenção pressupõe o indivíduo consciente que sabe auto-analisar-se e autodirigir-se sem cometer erros diante da Lei, e sabe corrigi-los, quando vêm a cometê-los.

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Passemos da teoria à prática. Para melhor compreender estes princípios apliquemo-los em um exemplo concreto. Uma pessoa observada por nós, à custa de operações realizadas pelo método anti-Lei, tendo conseguido uma posição inteiramente satisfatória, comunica-nos estar contente com sua obra, na convicção de ter obtido tão bom êxito por haver aplicado as normas aqui expostas, que lhe foram aconselhadas como método de executar um bom exame de consciência a fim de atingir bons resultados na direção de sua vida.

Aqui nos encontramos diante de um juízo emitido pelo subconsciente. Este de fato revela o seu modo de julgar, caracterizado pelas três qualidades já vistas: 1) involução, 2) inversão, 3) substituição.

A presença do subconsciente revela-se no fato de que o caso se desenvolve em baixo nível ético, em posição involuída, anti-Lei. Disto o subconsciente não se apercebe naturalmente, provando com isso não conhecer a Lei. Não é esta que lhe interessa, mas a satisfação de sua vontade, razão por que permanece ao nível de astúcia, indiferente ao problema da moral e do conhecimento.

2) O caso está invertido, isto é, vivido às avessas, apresentado como virtude, enquanto perante a Lei é errado e defeituoso; é utilizado, em suma, como um disfarce para esconder a realidade diversa que há embaixo e que o subconsciente procura camuflar porque sabe que é condenada. Mas ele não vê a própria imoralidade, que só é percebida pelos que atingiram um nível ético mais alto. Temos assim um subconsciente anti-Lei, apresentado como vitória da Lei.

3) O subconsciente substituiu-se com seus métodos invertidos do tipo anti-Lei, à Lei, mas apresentados como Lei.

Tal caso exprime estes três conceitos

1) Involução. O sujeito declara a sua própria satisfação, que mostra o subconsciente egoísta que se preocupa em primeiro lugar consigo mesmo, não levando em consideração as dores que ao próximo o seu bem-estar pode ter custado.

2) Inversão. O sujeito  diz querer tirar deste fenômeno uma lição, estudando-lhe o mecanismo e corrigindo-lhe os erros. Neste caso uma ação, que nada tem de correta, vem apresentada como um fenômeno que se estuda para dela se extrair uma lição edificante.

3) Substituição. A atividade benéfica, apresentada como tal, corresponde a uma planificação do tipo subconsciente, e significa o uso de sua ética no lugar daquela da Lei.

De tudo isso não se pode culpar o sujeito, porque ele, em seu nível evolutivo, não pode aperceber-se quão imoral é a sua conduta, se vista de um nível evolutivo superior. Esta fase do subconsciente é uma fase do desenvolvimento psíquico humano na qual o indivíduo pode cometer graves erros sem se aperceber, permanecendo tranqüilo e inocente, dada sua ignorância. Mas este fato não o exime das conseqüências de seus atos. É fácil imaginar onde irá terminar uma trajetória iniciada a partir de um exame de consciência como aquele agora observado. Não se pode impedir que a vida, naquele nível, seja uma dura escola para aquele indivíduo, sempre com o saudável objetivo de aprender. E quando este homem tirava sua vantagem em prejuízo dos outros, gozando os benefícios que lhe trazia, ninguém pôde convencê-lo do contrário. Ele acreditava que Deus estava com ele e cheio de convicção agradecia-lhe a ajuda. Assim, a seu modo, em seu nível, pode ser grato a Deus, quem, tendo sabido roubar, acaba gozando de uma boa vida.

Isso em nosso mundo não é excepcional, o que nos leva a considerar qual seja a substância das relações sociais quando o órgão de julgamento da conduta é do tipo subconsciente, como aqui observado. Então não se julga imparcialmente, com base na Lei, mas o próprio eu é que faz a lei como se fora centro e juiz universal. Que acontece então? O sujeito não se refere à Lei de Deus situada acima dos indivíduos, para aceitar-lhe os juízos imparciais formulados por ela segundo seus princípios; mas ele tomou o lugar da Lei e substituiu seu próprio julgamento ao dela.

É fácil então imaginar aquilo acontecer em uma multidão de tais indivíduos e juízos relativos, pessoais. Cada um faz-se lei em substituição à grande Lei, e julga com o próprio eu. Eu julgo outro, mas o outro me julga. E eu faço de mim mesmo centro de meu julgamento, como o outro faz de si mesmo centro de seu julgamento. Nasce um regime de guerra, tornando-se necessários o escudo e a espada. Isso significa forjar para si mesmo um escudo-cobertura feito de virtudes postas à vista e, em relação aos outros, valer-se de uma espada para abater-lhes o escudo-cobertura similar e descobrir seus defeitos.

Suponhamos um encontro entre um avarento e um sensual. O avarento tomará a atitude de um santo casto para esconder sua avareza, acusando o outro de erotismo. Este fingir-se-á de generoso para esconder os seus excessos eróticos, acusando o outro de avareza. Assim cada um recebe, reciprocamente, a lição dada pelo outro. Todos se escondem e mistificam-se uns aos outros. "Veja de que o outro não o acusa e saberá  qual é seu defeito".  Por tudo isso vê-se quanto é difícil fazer um verdadeiro exame de consciência, quando aos impulsos instintivos do subconsciente se sobrepõe a orientação iluminada da mente que conhece a Lei.

 

Vejamos agora como se comportou a Lei em outro caso. Esta vez não temos dois elementos opostos; um seguindo o caminho do bem e conseguindo um resultado para ele positivo; e outro seguindo o caminho do mal e conseguindo um resultado para ele negativo. O caso agora é mais simples porque temos somente o primeiro elemento, aquele que termina bem. O outro torna-se secundário.

Trata-se de um jovem de cerca de 35 anos, que vivia só com a velha mãe a quem era afeiçoadíssimo. Era trabalhador, fiel, honesto, mas não sabia ser egoísta no sentido de pensar somente em si. Não se pode considerá-lo um fraco, apenas porque generosamente corria, em primeiro lugar, a favor dos outros, antes de cuidar de si mesmo. O resultado disso era que qualquer um que dele se avizinhasse, aproveitava-se de sua bondade, utilizando-a em vantagem própria. Ele não fazia mal aos outros, mas eram os outros que lho faziam. Não fazia vítimas porque a vítima era ele mesmo.

Ele se encontrava perfeitamente colocado perante a Lei, razão por que, neste caso, ela devia intervir em sentido benéfico. Isso explica-nos como foi exatamente aquilo que aconteceu. Em sua idade era necessário que ele tomasse uma decisão. Permanecer naquelas condições significava piorar sempre até atingir a velhice sozinho, abandonado e pobre. Se a Lei desejava salvá-lo, deveria fazê-lo imediatamente. A mãe envelhecia e, nas suas condições de saúde, em vez de ser um auxílio, tornava-se um peso sempre maior. Os indivíduos de seu ambiente, aproveitando-se de sua bondade, tornavam-se cada vez mais audaciosos e maléficos em prejuízo dele. Assim ele encontrava-se continuamente atacado por eles. Havia neste caso, como nos outros, também, o setor das forças do mal, mas composto de grãos de poeira de elementos negativos, cada um de per si de pouca importância, mas danosos em seu conjunto. Nestas condições o caso tornava-se cada vez mais grave para o jovem.

Observemos agora como funciona a Lei. Ela resolveu o problema no sentido completamente positivo, benéfico, salvando cada coisa e satisfazendo de um golpe todas as exigências, de forma adequada e em perfeita ligação com a natureza do caso. Aquele indivíduo carecia de uma defesa que o protegesse na luta pela vida. Este era o ponto a ser  defendido e a Lei demonstrou conhecê-lo. Desde moço ele estava noivo de um a moça conterrânea, sua parente, mas depois a coisa, por circunstâncias várias, parou como se quisesse ficar guardada para este momento, no qual se reavivou e se concluiu. Então eles se casaram.

Ela parecia feita sob medida para cumprir a tarefa para qual a Lei a chamava. Inteligente, trabalhadora, honesta, temperamento prático, de ação, juntava-se no sentido do bem às qualidades dele, enquanto as completava nos seus pontos fracos. Assim os dois elementos foram unidos por uma perfeita complementação, convergente, em cada ponto, sentido positivo. Dissemos que o elemento negativo não tinha tomado um corpo definido em um só indivíduo, mas encontrava-se em estado indefinido, de tantos elementos mínimos separados, que foi fácil liquidá-lo. Eles, de fato, farejando o novo ambiente, eclipsaram-se por si, pouco a pouco. O procedimento foi automático e, assim levado avante em pequenas doses, não foi necessário um provimento explícito por parte da Lei.

Permaneceu em campo, visível, a vitória do bem. Sob a nova direção, entregue à mulher, organizou-se a nova família. Ela juntou seu salário ao do marido e com cuidadosa economia conseguiram comprar uma casinha e elevar seu nível social. Tudo mudou do mal para o bem. A Lei havia conseguido, com uma pequena combinação de elementos preexistentes, salvar uma posição que ameaçava atingir um final desastroso. Porque a Lei quis salvar a situação com este seu movimento?Certamente não é possível atribuir ao acaso uma coisa assim tão bem feita, segundo a bondade e a sabedoria da Lei.

A primeira razão que levou a Lei a operar este salvamento foi o mérito do indivíduo. Se ele tivesse merecido o contrário, a Lei teria feito o oposto. Neste caso vemos então a aplicação do princípio do mérito. É verdade que aquele indivíduo era fraco e devia ser corrigido neste ponto. Mas a sua fraqueza era só em favor dos outros, por excesso de bondade e altruísmo. E este seu defeito continha, então, o germe de uma grande virtude, tão pouco comum mas cuja aquisição será indispensável a todos no futuro estado de coletividade orgânica, do qual a humanidade está sempre mais se avizinhando. Então, se o seu era um defeito, ele já lhe havia sofrido bastante as conseqüências. Mas, neste caso, mais do que um defeito a ser eliminado, tratava-se de uma virtude a ser desenvolvida. Foi assim que a Lei não a reprimiu, mas ajudou, provocando o salvamento. Ela fez todos os seus cálculos na avaliação das forças que se moviam no fenômeno e, se se comportou como o fez, isto significa que neste caso existiam impulsos positivos, valores deste sinal que impunham uma intervenção neste sentido.

Neste ponto vemos na Lei a presença de um outro princípio que ela aplica em sua economia: o de retidão e justiça pele qual são respeitados os valores, que devem ser protegidos e ajudados para produzirem o seu maior rendimento. O elemento bom é um valor positivo, não desperdiçado, mas feito para frutificar. E a Lei, por coerência, não pode deixar de aplicar este seu princípio. Ela não pode contradizer a si mesma e, quando contém uma norma, fica-lhe primeiramente sujeita. Se assim não fosse, ela não representaria um princípio de ordem, mas de desordem, que, em vez de manter tudo organizado dentro de uma disciplina, terminaria por desintegrá-lo no caos. Isto é o que o homem desejaria fazer com seu egocentrismo. Mas quando ele viola a Lei, tem somente o poder de arruinar a si mesmo, mas não o de interromper o funcionamento dela.

A Lei é a primeira serva dos princípios sobre os quais se baseia. É a primeira a pô-los em ação, porque não pratica de modo diferente aquilo que prega. É por ser antes de tudo uma lei que ela se sente autorizada a exigir observância dos outros, pelo fato de que primeiramente a exige de si mesma. Cai assim completamente o conceito humano de autoridade usada em vantagem de quem comanda para impor-se aos próprios dependentes, sendo substituído por este outro método: comandar é fazer primeiro o que se exige dos outros. Este é o novo conceito de autoridade que a Lei nos ensina.

Esta é uma das coisas que nos diz a análise dos casos que aqui estamos observando  Estamos desmontando o mecanismo da Lei para ver como é feito. A diversidade dos casos nos mostra a diversidade dos modos pelos quais a Lei pode comportar-se. Porém o leitor terá notado que seu funcionamento nestas diversas posições repete-se seguindo um mesmo princípio, isto é, por exemplo, que o bem é ajudado a vencer, que o mal leva à ruína, que os valores positivos lançam-se em direção oposta àquela dos negativos etc. . É natural que, apesar dos casos serem tantos, os princípios sejam fundidos em unidade, poucos e repetidos em cada caso.

Esta é a razão pela qual pode parecer que nesta obra tantas vezes nos repetimos. Estamos fazendo um trabalho de análise, no qual a observação é tanto mais comprovada, quanto mais numerosos são os casos com os quais os princípios são postos em contato, e ainda mais numerosos são os fatos que os confirmam. Eis a necessidade de repetir a observação. A cada uma destas, perguntamo-nos: mas é mesmo verdade?

Aqui não fazemos exposição de teorias filosóficas ou religiosas, mas de princípios que envolvem a realidade. O escopo desta obra não é literário, mas didático. Então fazemos o leitor assistir ao nosso trabalho de pesquisa, que necessita ser bem controlado antes de poder ser definitivamente afirmado. Em primeiro lugar, procuramos persuadir a nós mesmos, e conosco os leitores, porque as conclusões são graves, e, se são verdadeiras, mudam tudo de fundamento. Por isso, a cada passo, voltamos a olhar, mudando o ângulo visual, para assegurarmo-nos de sua veracidade.

Esta repetição corresponde a movimentos em sentido único nos vários casos. Tal fato revela-nos a presença de um ponto comum, de uma "constante" que exprime os princípios diretivos da Lei. A repetição é devida à contínua reaparição desta "constante". A observação de uma casuística pode permitir-nos chegar ao conhecimento do pensamento que aparece naquela constante. E assim que, tendo chegado a conhecer aquele pensamento, poderemos saber qual será o funcionamento da Lei para nós, no futuro, isto é, que acontecimentos virão a nosso encontro, segundo a premissa que propusemos com nossa conduta.

Estes conceitos põem-nos diante da vida em uma posição diversa daquela assumida pelo homem no passado. Não que a verdade do real possa ser mudada. Esta permaneceu a mesma de antes. O que hoje muda é o modo de vê-la, de enfrentar e resolver o mesmo problema. Encontrando-se diante dele, a humanidade do passado. não podia pensar nele e compreendê-lo, dado o seu estado infantil, que, ao nível de sua forma mental emotiva, era fantástico, ligado a construções mitológicas consideradas como realidade. Aqui enfrentamos o mesmo problema, mas com outra forma mental para chegar a resultados positivos e adquirir uma certeza que a fé, somente, não pode dar. Não queremos negar, mas aperfeiçoar. Substituir o sonho por um conhecimento objetivo apoiado sobre fatos, sem dúvida, é progresso. Respeita-se o coração, mas controla-se a mente. Assim elimina-se a elasticidade que a fé, permite e as acomodações possíveis com aquele sistema, mas que são já inadmissíveis em um regime mental de positividade. Isto não é negar, mas acrescentar, aprofundar para apoiar-se em bases mais sólidas e seguras.

A vantagem que se obtém de tudo isso é que se descobre algo que está acima de todos os valores humanos. Antigamente a questão fundamental era crer, de modo que cada um a resolvia a seu modo, podendo afirmar aquilo que quisesse, dado que não existia nenhum controle positivo. Assim se explica a diferença entre as opiniões, cada uma proclamada como a única verdade, condenando como erro as outras. O terreno religioso é um campo minado de exclusivismos e antagonismos. É por isso que a visão da verdade tanto mais poderá tornar-se única e igual para todos, quanto mais tornar-se objetiva, ligada à realidade como o é a ciência. E que aquela realidade é dirigida por um pensamento divino que organiza o funcionamento dela em cada tempo e lugar. Trata-se, então, de uma verdade objetivamente verdadeira e universal, porque está escrita nos fatos nos quais se pode lê-la e não é um produto desta ou daquela mente humana. É a verdade da qual o homem novo tem necessidade e que está procurando desesperadamente. O vácuo espiritual no qual o está lançando o desmoronamento do velho mundo é um abismo que faz medo. Todavia é necessário ir em frente, porque se torna cada vez mais inaceitável o fato de ter que viver com a psicologia adotada no passado.

 Alcançando-se o conhecimento da Lei, sabe-se que há um plano e uma meta na vida individual como no todo, que há uma ordem, uma salvação e meios para atingi-la. Sabe-se que se pode contar com a Lei e sabe-se isso não por uma fé que oscila sempre na dúvida, mas pela segurança que vem do ter analisado o problema e do conhecimento da técnica fundamental do fenômeno. Trata-se de uma religião a qual não se pode mais acusar de ser o ópio dos povos, porque é, ao contrário, um redespertar da consciência, baseado no conhecimento. Não se trata então de uma heterodoxia, porque aqui, pelo contrário, procuramos abrir sempre mais os caminhos do espírito, a fim de que este se torne a grande força que nos levará a vencer na vida. Uma demonstração clara é o único meio para evitar a descrença. Uma coisa é crer, e outra é saber; uma coisa é não ter certeza, e outra é a segurança de quem está convencido, porque observou e compreendeu. Finalmente, uma contabilidade esclarecida com Deus, uma providência cujo modo de funcionar já se conhece e na qual se pode logicamente confiar, provocando resultados com os quais se pode contar porque, segundo a justiça, pertencem-nos por direito.

Dissemos que a realidade dos fatos não está mudada, é sempre a mesma; mas o que mudou foi a mente que a vê, e é capaz de compreendê-la. A lei funcionou sempre como agora a vemos, porém não se tinha consciência deste seu funcionamento. Temos estado sempre todos inclusos em uma ordem universal, mas sem analisá-la e sem saber se mover nela, conscientes de sua estrutura. O que mais impressionará o homem novo será descobrir esta presença universal de um pensamento diretivo, tocar com as mãos esta realidade, até chegar ao diálogo e obter resposta, enfim o não se encontrar, como pode parecer, perdidos em um universo que nos ignora, mas cidadãos dele, fundidos e funcionantes em sua organicidade.

 




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