Para concluir, com este capítulo e o seguinte, o estudo da personalidade humana e do destino, trataremos da psicanálise. Para nós, ela é a arte de fazer pesquisas no subconsciente, para descobrir quais são os elementos componentes da personalidade do indivíduo, o seu passado em que ele assim a construiu, e por fim o seu destino em que, como conseqüência necessária, aquele passado e o presente devem continuar desenvolvendo-se. Estudo de importância fundamental para entender a nossa vida, porque é na profundidade da nossa psique onde se encontra a primeira raiz de nossos atos. O que existe antes de tudo como verdade indiscutível, como premissa axiomática de todo julgamento, é a forma mental do indivíduo, filha do seu temperamento, que representa para cada um a sua unidade de medida dos valores, uma conclusão preconcebida a todo exame. porque a mente é o instrumento com o qual o homem tudo percebe, entende e julga. Tudo é atingido com esse meio e reduzido dentro dos seus limites, seja religião, moral, filosofia prática, política. orientação na vida individual e social, como toda forma de compreensão e comportamento. Não é possível entender o significado dos nossos atos, sem ter entendido de que impulsos interiores a conduta humana deriva.

Isto prova a importância da psicanálise, mas uma psicanálise concebida em sentido mais vasto do que a atual vigorante, isto é, como ciência que desvenda o mistério da alma, descobrindo o que fomos no passado e, por conseguinte, seremos no futuro, nos revelando o conteúdo de uma vida nossa muito maior, da qual a atual não é senão um breve episódio. Trata-se de um mundo desconhecido, que a ciência não leva em conta. O materialismo ateu o ignora, como se não existisse, e no fim da vida nos deixa cair cegos no abismo. As religiões nada sabem de positivo e, com afirmações vagas, às vezes inaceitáveis porque absurdas, constituem um dever aceitar por fé, e como a vista dos cegos, nos deixam nas mesmas trevas. Só a primitiva forma mental do homem atual pode permitir que ele fique satisfeito com esta sua ignorância a respeito das coisas, que é o mais urgente saber se quisermos viver inteligentemente, compreendendo em função de que longínquos elementos se desenvolve a nossa vida atual.

Eis que, desde o início, logo aparece quão diferente, mais profunda e completa, é esta nova psicanálise, do que a comum hoje aceita Esta fica fechada dentro dos dois limites estreitos, do nascimento e da morte física, abrangendo, assim, só um trecho mínimo de nossa verdadeira existência, o qual é curto demais para nos explicar o que mais é necessário saber. Nos capítulos precedentes vimos que o nosso ser, quando do nascimento físico, traz consigo uma longa história, escrita no subconsciente, no qual ela pode ser lida. Tal é a função desta nova psicanálise, função fundamental, indispensável para compreender a personalidade humana e o significado do seu estado presente. Não pode fazer isto uma psicanálise como a atual, incompleta, porque não vai além do momento do nascimento, ficando assim limitada ao terreno dos efeitos, ignorando o das causas, do qual tudo deriva. Falta-lhe, então, a parte mais importante, aquela onde estão os alicerces que sustentam o edifício do eu, aquela das raízes onde se apoia a árvore, e das razões que explicam e justificam o estado atual do indivíduo.

Então, a primeira característica de nossa psicanálise é a de atingir a parte mais profunda do eu, mais escondida, porém mais enraizada e firme porque a mais antiga, a parte mais verdadeira. porque controlada por mais longa experimentação, a parte que está antes do nascimento. Mas esta psicanálise não abrange somente o passado, mas se estende também no futuro, porque ela sabe que este está contido no passado e no presente, do qual não pode ser senão a lógica conseqüência. Então, não somente psicanálise pré-natal, mas psicanálise que pode prever qual será o destino do indivíduo. No menino está tudo fixado, apesar de latente e invisível, como na semente está potencialmente contido todo o desenvolvimento futuro da árvore. Alargando a sua pesquisa e conhecimento no passado como no futuro, tal psicanálise nos oferece uma visão completa de nossa vida, e não só de um limitado trecho dela, insuficiente para o indivíduo entender o seu caso e posição, sua natureza e porvir. Mas para chegar a conclusões tão vastas, é necessário que a psicanálise seja orientada nas suas pesquisas e sustentada por um sistema filosófico completo, que de tudo dê uma explicação lógica.

O indivíduo nasce já feito, com uma personalidade sua que se revelará depois, mas que já existe. Quem a construiu e como isto aconteceu? É preciso também desvendar o mistério do nosso futuro. Mas, para isso, não temos de limitar o conceito de nosso destino no próximo amanhã, mas concebê-lo como um percurso imenso que, ao longo de uma mesma linha, se vai desenvolvendo através do passado, do presente e do futuro, um destino cósmico representado pelo caminho que o ser percorre na grande viagem de sua evolução, que vai do AS ao S. Não se pode entender um fenômeno observando-o apenas isolado no seu estado presente, mas é necessário conhecê-lo também no seu transformismo, e no tempo adequado.

As qualidades que cada um leva consigo impressas na sua personalidade, representam os instrumentos com os quais ele terá de realizar o trabalho de sua nova vida, como continuação do trabalho das precedentes. Assim a psicanálise, através da leitura do subconsciente, estudando as características mais espontâneas do indivíduo, pode chegar a uma psicossíntese, que revele qual é a direção que ele tomou no trabalho de construção de sua personalidade. Apesar de que todos se movimentam ao longo do mesmo grande caminho da evolução, o de cada um é diferente do dos outros. por que a evolução leva ao aperfeiçoamento  ela especialização não para afastar os indivíduos uns dos outros, mas para depois juntá-los em unidades coletivas, em que eles cooperam como elementos complementares. É lógico que a tendência da evolução seja de atingir o estado orgânico, porque o ponto final dela é o S.

Sem conhecer tudo isto não é possível orientar-nos no caminho e dirigir inteligentemente a nossa vida no seu trabalho mais importante, que é o da construção do eu. A vida vai sempre mudando, em todo momento apresentando a cada um problemas novos a resolver, novas experiências a realizar, novas lições a aprender. Cada um evolui com os recursos que possui, de modo diferente. A sabedoria para se dirigir com conhecimento tem que ser adquirida duramente com o esforço próprio. O ponto de partida é a ignorância do AS, da qual o ser procura sair por tentativas, movido pela conquista do desconhecido. Mas a tentativa leva ao erro, o erro leva à dor, que nos ensina, repetindo-se até nós aprendermos. Este trabalho. que parece uma condenação, a de ter de aprender tudo à própria custa, é justo porque é conseqüência da revolta e da queda. E é lógico que o destino bata nos pontos mais fracos da personalidade, os mais desprovidos de experiência e conhecimento, onde mais domina a ignorância, e, por conseguinte, o erro e a dor. Assim pela dor, a personalidade se enriquece de sabedoria, o ponto fraco se fortalece, se afasta a dor, conseqüência do erro. A psicanálise tem que descobrir quais são esses pontos onde somos mais vulneráveis, contra os quais se encarniça o destino, porque neles está o desvio que a Lei quer endireitar. Desse trabalho ninguém pode sair, queira ele subir, queira ele descer. Na vida, qualquer que seja o caminho escolhido, há pão duro a roer para todos. Há quem saia dela adiantado, há quem saia atrasado. É à psicanálise que pertence a tarefa de dirigir este trabalho, orientando as consciências de forma científica, positiva, inteligente.

O transformismo que, saindo do estado de AS, tende a levar tudo ao estado de S, constitui a grande corrente da evolução que arrasta todos os seres, porque dentro dela tudo o que existe está imerso. O indivíduo só possui dentro dela uma relativa liberdade de oscilação devida aos seus impulsos particulares. Mas o que domina acima de tudo todos os seres é a vontade da Lei, que dos destroços do AS quer reconstruir o S. É esta vontade que, com a dor, reconduz o ser ao caminho certo, todas as vezes que ele se afasta. É lógico que cada violação da Lei produza nela como que uma ferida que se repercute no eu; é fatal que cada inversão de rota do ser no caminho evolutivo gere para ele uma correspondente inversão de valores, de modo que o positivo se torna negativo, a alegria, qualidade do S, se torna dor, qualidade do AS. Assim, de uma acão em excesso nasce uma reação em forma de carência. É lógico que qualquer violação da Lei, como na primeira revolta, volte a gerar as qualidades do AS, como cada esforço para realizar a vontade da Lei tenda a gerar as qualidades do S. Ora, a psicanálise deveria conhecer a técnica dessas compensações, para descobrir hoje que, onde há uma carência, qual foi no passado o excesso que a gerou, se hoje há um sofrimento, qual foi o gozo ilegítimo que o produziu. Só assim é possível fazer um tratamento das doenças da alma, tarefa de ética e religião, que pertence a uma psicanálise mais evoluída.

O melhor resultado que a ciência pode atingir é o de diminuir a dor, aumentando o bem-estar. Então a tarefa da psicanálise no estudo da personalidade é de descobrir quais nesta são os pontos fracos por carência de positividade, por ter o indivíduo trabalhado às avessas, em descida, em favor da negatividade ou AS; e é de fortalecer esses pontos com injeções de positividade, endireitando o caminho errado do ser, na direção da vontade da Lei, isto é, para o S. Tal psicanálise, conhecendo como já explicamos, a técnica da construção da personalidade, poderá intervir na direção deste importantíssimo processo, agora abandonado à ignorância do indivíduo. Trata-se de canalizar, sem doloroso desperdício de forças, os seus esforços, para atingir o maior resultado útil possível. Trata-se de acompanhar com inteligência a vontade de salvação da Lei, para se aproximar o mais possível, na forma mais rápida e com o menor trabalho, do S, realizando a evolução. Trata-se de dar à vida uma orientação racional, entendendo cada um o seu destino e o significado dos acontecimentos que ele contém. O problema fundamental para atingir a nossa felicidade, que mais nos interessa, é o de saber dirigir a nossa escolha, da qual depois tudo depende, e de saber intervir no terreno das causas, no momento da semeadura e da formação de um destino, no ato do lançamento das forças, porque disto depende o que depois não pode ser senão o automático desenvolvimento da trajetória estabelecida pelo primeiro impulso.

Hoje só existe o médico do nosso organismo animal. O psicanalista do futuro será o médico do nosso organismo espiritual, da saúde do qual depende o bem-estar do corpo. Mas para chegar a isto, é preciso entender como nasce e se desenvolve um destino, conhecer a técnica desse fenômeno para intervir nele, introduzindo novos impulsos corretivos, quando o caminho iniciado estiver errado. Como faz o médico do homem no plano físico, assim o médico do espírito, depois de um exame, através da leitura do subconsciente, da estrutura da personalidade do indivíduo, para estabelecer uma psicodiagnose do caso, deveria tratar o organismo psíquico, fortalecendo-o nos pontos fracos, medicando-o nos pontos doentes, compensando carências, corrigindo complexos, endireitando hábitos errados, controlando a conduta e estabelecendo um regime saudável. Isto significa ter sobretudo de educar, penetrando no terreno da ética, mas praticando outra, diferente da atual, empírico produto do subconsciente como já explicamos, outra ética, científica, positiva, racional, demonstrada. Os remédios não se encontrarão nas farmácias, porque para doenças psíquicas são necessários medicamentos psíquicos.

Elementos fundamentais da  psicodiagnose serão: 1) estabelecer qual é o nível evolutivo do indivíduo, porque disto depende a lei biológica à qual está sujeita a sua vida. A medicina, para tratar um involuído, é bem diferente daquela que é necessária para tratar um evoluído. 2) estabelecer perante que tipo de indivíduo o psicanalista se encontra, qual foi o caminho específico que aquele ser escolheu na sua evolução, isto é, o tipo de sua especialização, para individualizar claramente a sua personalidade. 3) estabelecer qual é o tipo e o percurso do destino do indivíduo, estudando o processo da construção de sua  personalidade na estratificação que revela o crescimento do eu. 4) observando os produtos  do subconsciente, estabelecer qual é a natureza dos impulsos instintivos que hoje dele emergem como retorno do passado, para assim chegar a conhecer de que tipo e série de experiências o estado presente é a conseqüência. Será deste modo possível descobrir quais foram as causas que nos escapam no passado, o conhecimento das quais nos é necessário para tratar os efeitos que agora temos de enfrentar. Só assim será possível chegar a conhecer qual foi a primeira longínqua origem de nossa atual forma mental, nos seus pontos torcidos e doentes, que são os complexos, e com isso poderá ser encontrado o antídoto corretivo do mal, isto é, o tipo de tratamento psíquico anti-complexo, adaptado àquele caso particular.

Nessas pesquisas, muito fica confiado às capacidades de penetração intuitiva individuais, das quais dependem os resultados. Mas, pelo fato de que, na prática, elas nem sempre existem, seria necessário oferecer ao psicanalista uma técnica de pesquisa já feita, que qualquer pessoa possa usar, mecanicamente, como um aparelho que funcione nas mãos de todos. Mas isto aqui não é possível fazer Limitar-nos-emos, então, a estabelecer os princípios gerais orientadores.

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Por que o passado ressurge e volta a nós, determinando o nosso destino atual? Como, com a nossa livre escolha, podemos criar um destino e como pode ele ser fatal? Já vimos que o fato do passado ressuscitar das suas cinzas é devido à tendência do primeiro impulso a continuar na mesma direção em que foi lançado. Eis as suas características: 1) trata-se de uma força de tipo espiritual; 2) trata-se de uma força que, uma vez lançada pelo seu impulso de origem, se tornou autônoma, como um indivíduo independente, que pela sua vontade quer atingir o seu objetivo; 3) essa força faz parte do feixe de forças que constituem a personalidade do indivíduo, e dentro desta continua movimentando-se, de modo que ele lhe obedece instintivamente, julgando obedecer a si mesmo, porque ela faz parte dele, a vontade dela é a vontade dele. O resultado é que o indivíduo pensa e age, como quer essa força que se tornou parte integrante da sua personalidade. E assim que o ser, imaginando realizar a sua vontade, fica amarrado à necessidade de realizar essa outra vontade, que agora o domina. Eis como surgiu o conceito de fatalidade do destino. Poder-se-ia dizer que o nosso passado nos escraviza, porque lança o eu numa dada direção, assim congelando em determinismo o nosso livre arbítrio, até que, em novas vidas, consigamos libertar-nos da escravidão desse determinismo.

O  destino é fatal no sentido de que, nós somos no presente, como nos construímos no passado. Neste, foi por nós construído o nosso mundo interior, conforme o qual percebemos, entendemos e julgamos o que nos chega de fora e contra ele reagimos. E o nosso eu de hoje a conseqüência fatal do nosso eu do passado. Este continua funcionando em nós, criando imagens que nos impressionam, miragens que nos convidam e atraem, impulsos que nos empurram numa dada direção, desejos que reclamam e exigem satisfação, de modo que mais cedo ou mais tarde o indivíduo acaba sendo arrastado. Eis como o passado ressurge e volta a nós, determinando o nosso destino atual. Esta junção do passado com o presente e o futuro é imposta pela necessidade de manter a continuidade do processo evolutivo, que sem ela acabaria despedaçado em inúmeros fragmentos desconexos, perdendo assim a sua unidade de fenômeno único que, tudo abrangendo, vai do AS ao S.

O ser, no momento que está constrangido a obedecer ao seu destino, obedece a si mesmo. Mas se trata de um si mesmo que é um eu antigo, superado, diferente do atual, cuja vontade pode hoje ser bem diferente da daquele outro eu, que representa coisa velha, obsoleta, atrasada, que é bom abandonar, porque a evolução tem pressa e impulsiona para a frente.   Pode assim surgir luta entre duas posições evolutivas dentro do mesmo indivíduo que as contém: de um lado a sabedoria do instinto bem comprovada e confirmada por longa experiência, profundamente arraigada nos alicerces da vida, sabedoria encarregada de defendê-la, garantindo-lhe a continuação. De outro lado, a sabedoria do homem consciente, conquista nova que se coloca acima do instinto, destinada não a conservar o passado, mas a explorar o futuro. Tudo isto corresponde a duas finalidades fundamentais que a vida quer atingir: a conservação do passado e a conquista do futuro. A luta é entre essas duas exigências opostas. É a luta entre a matéria e o espírito, o involuído e o evoluído, a fera e o anjo. São dois impulsos da vida, que podem tomar forma de duas  personalidades diversas dentro do mesmo indivíduo como se ele tivesse uma dupla personalidade. Isto se revela na luta consigo mesmo, que se encontra nos indivíduos em fase de transformação evolutiva, que os leva do nível da animalidade ao da espiritualidade, chocando-se uma contra a outra, até a segunda vencer, superando a primeira. É assim que o novo se substitui ao velho, criam-se instintos superiores que tomam o lugar dos inferiores.

A nossa personalidade é constituída por tudo o que herdamos do passado, que foi vivido com a nossa experiência, lançado e confirmado por longa repetição, de modo que agora volta como uma inabalável vontade de se continuar realizando na mesma direção, e resistindo a toda tentativa de desvio. Eis o mundo imenso que o impulso ascensional da evolução quer e deve transformar! Quanto pior tenha sido o nosso passado, tanto maior é o peso da carga que temos de trazer às costas, que nos paralisa no caminho da subida. As forças que uma vez movimentamos, agora nos acompanham, ajudando ou perseguindo, como pessoas vivas. Determinando os movimentos do indivíduo, acabam colocando-o nas posições que elas querem, produzindo as circunstâncias e os acontecimentos, atraindo as pessoas mais adaptadas, para que o destino, que daquelas forças deriva, se realizar-se.

Podemos, assim, compreender como tudo depende de nós, do que fizemos e merecemos no passado e do que por conseguinte fazemos no presente. O ambiente é o mar onde todos estamos e onde cada um, entre as coisas que encontra, escolhe aquelas que prefere conforme seu temperamento. Assim cada um com as suas qualidades do passado, coloca-se na posição que lhe pertence. Agora podemos compreender como a primeira causa do que nos acontece se encontra antes de tudo dentro de nós. Seria suprema injustiça de Deus que aos outros fosse entregue o poder de nos infligir um destino por nós não merecido. Se aos outros fosse dado o arbítrio de modificar o nosso destino à vontade, eles poderiam alterar o caminho da evolução, destruindo a responsabilidade do indivíduo e a justiça de Deus. Quando um indivíduo possui certas predisposições, por se ter construído com dadas qualidades, é fatal que mais cedo ou mais tarde, entre as inúmeras forças com as quais ele na vida terá de se encontrar acabem funcionando aquelas que serão atraídas por afinidade e, pela Lei impulsionadas a compensar os pontos negativos, de carência, reequilibrando o desequilíbrio ocasionado.

A função da psicanálise deveria ser a de estabelecer uma psicodiagnose baseada nestes princípios, lendo no subconsciente do indivíduo o que este nele escreveu no seu passado. Uma vez conhecidos os impulsos na sua origem, será possível observar como eles se desenvolveram até ao presente, no qual aqueles impulsos se estão realizando. Será deste modo possível estabelecer qual o tipo de destino, o seu conteúdo e linha de desenvolvimento, no caso particular do indivíduo que estamos estudando. Aqui começa pelo psicanalista a função corretiva do passado, no ponto onde houve erros. O tratamento é psicológico-moral, a receita dos remédios está escrita na Lei, e o médico tem que se tornar intérprete dela para ajudar o paciente a entendê-la e aplicá-la, ensinando-lhe a arte da obediência inteligente que, evitando resistência do indivíduo, evita atritos. choques com a Lei, para que o ser não seja atingido em cheio pelo seu duro método, que é o de corrigir pela dor.

Aqui começa a parte mais importante do trabalho do psicanalista. Uma vez que ele descobriu o fio condutor do destino do indivíduo em exame, a sua função é a de orientar esse destino, dirigindo-o, conforme sua natureza e os elementos que contém, para um futuro melhor, onde, por lógicos corretivos de conduta: erros, complexos e sofrimentos sejam eliminados. O princípio geral é que o paciente deve ser orientado para que o seu caminho se desenvolva na direção do S, que representa o bem, a felicidade, Deus. Psicanálise profundamente moral e religiosa, ligada aos princípios de ética, que de propósito explicamos neste mesmo volume, como premissa indispensável ao estudo da psicanálise. Explicamos também a estrutura da personalidade e a técnica da sua construção, porque a função maior do psicanalista, depois de ter descoberto no indivíduo qual é essa estrutura, e de guiar aquela construção, para que ela se realize da melhor forma para o bem e a felicidade dos homens de boa vontade. No futuro, o objetivo da ciência não será o de criar armas destruidoras de vidas, assim como o das religiões não será o de perseguir pecadores, mas será o de atingir, com uma conduta sábia e inteligente, o que é mais útil e que por isso todos entendem, isto é, a sua própria felicidade. A tarefa da psicanálise é a de construir destinos sadios e felizes, dando saúde às almas, curando as doentes, fortalecendo as fracas, sanando feridas, tudo isto no terreno do espírito, como o médico do corpo faz no terreno da vida física. Hoje só existe o segundo médico. Mas no futuro os dois médicos trabalharão lado a lado, juntando as suas duas sabedorias numa só. para chegar a uma só diagnose, a um só tratamento físico-psíquico, a uma síntese clínica que ao mesmo tempo abrangerá corpo e alma. numa incindível unidade, como de fato é o ser humano.

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Logo, que o tratamento e a direção dependem do tipo do indivíduo e do seu grau de adiantamento no caminho evolutivo. Erros e sofrimentos, experiências, éticas e as leis que dirigem a vida. são diferentes conforme o plano biológico na qual existe o indivíduo. O psicanalista tanto pode encontrar um primitivo, tipo animal. quanto um super-homem; e entre estes dois extremos uma vasta série de tipos intermediários. O que vale para um, não é adaptado para o outro. O psicanalista tem que conhecer e acompanhar o desenvolvimento da vida e das suas leis, adaptando a sua ação a esta transformação do ser, que tudo muda de um nível a outro. Neste processo, o conteúdo do subconsciente vai-se cada vez mais enriquecendo e dilatando, até que, ao invés de uma vida regida por poucos instintos elementares, contém uma concepção tão vasta da existência, que ela é realizada em função do universo.

 O conteúdo do subconsciente da atual maioria humana o prova o cinema, o tipo de crônicas nos jornais, de romances mais difundidos, dos quais o público mais gosta. Basta falar de crimes, processos  policiais, roubos, sexo, na forma inferior de violência e vício, que muitos se interessam. O que se encontra no fundo da alma humana é a lembrança da recente experiência da fera. Tudo isto revela quais são os instintos ainda dominantes, que com tais meios procuram desabafar com a fantasia, agora que as leis de um mundo mais civilizado proíbem que tais impulsos se concretizem nos fatos. Assim, a mente se satisfaz com tais substitutos, que revelam sua natureza, sempre pronta, porém, a se satisfazer com fatos, logo que desaparece o freio da ordem, disciplina mantida com a força.

Para calcular os efeitos do que ele encontra escrito no subconsciente, o psicanalista tem que aplicar os princípios de equilíbrio e compensação, que estão escritos na Lei. Ele terá de observar as forças que a personalidade do indivíduo contém, as qualidades e o poder delas, quais as forças de bem a favor, quais as de mal, contra. Trata-se de um verdadeiro exame de consciência, que o paciente tem de fazer perante a Lei, enquanto se está confessando com o psicanalista. Tudo tem que vir à superfície, da profundeza da alma, calculando débitos e créditos perante a justiça de Deus. Os momentos sucessivos do exame psicanalítico, como melhor veremos no Cap. IX, são: exame de consciência, confissão da parte do paciente; interpretação da confissão e dos sintomas psíquicos, leitura no seu subconsciente, definição da estrutura de sua personalidade, das correções necessárias conforme a linha de seu destino, da parte do médico. Arrependimento, vontade de praticar as mudanças necessárias para endireitar o passado, onde esteve errado, realizar tudo isto de verdade, da parte do paciente. Tudo em forma de estreita colaboração entre os dois, unidos por um liame de sinceridade, confiança, inteligente compreensão e vontade de fazer o bem. Pode haver micróbios patogênicos também no ambiente psíquico e, às vezes, é necessário esterilizá-lo.

As diretivas para um involuído podem estar nos antípodas das que estão para um evoluído. O primeiro é um ignorante que é preciso dirigir para formas de vida superior pelo medo do seu prejuízo, que é a única coisa que ele entende. O que é mais urgente é cortar-lhe as garras da fera, para que se torne um ser civilizado. Ele chegou há pouco no ambiente terrestre, subindo de mais baixos níveis biológicos. A finalidade de sua vida atual na terra é se transformar de fera em homem. O problema é diferente no caso de um evoluído. Ele não subiu na terra de um nível biológico inferior, mas nela desceu de um nível superior. O problema para ele não é o de se civilizar, mas de conseguir sobreviver no meio dos não civilizados. Então, o que para ele é mais urgente não é cortar-lhe as garras da fera, mas ensiná-lo a ser fera, lhe fornecendo as armas de ataque e defesa na luta pela vida, armas que ele há tempo abandonou, para conquistar qualidades superiores. Então, a lição do psicanalista deveria neste caso ser completamente diferente. Ele deveria dirigir o evoluído, ensinando-lhe o que é mais necessário na terra e que ele esqueceu, o que os involuídos praticam, que é assim fácil e instintivo para eles, porque representa uma experiência recente ainda bem gravada no subconsciente, enquanto para o evoluído é uma experiência longínqua, há tempo superada, sepultada nas camadas inferiores do eu, que agora vive em outro nível de evolução.

A maior função da psicanálise deverá ser a de dirigir as consciências, mas com o conhecimento psicológico que as religiões atuais não possuem. O psicanalista deverá, então, ser um educador, mas de alunos diferentes, a cada um dos quais deverá dispensar uma lição diferente, conforme a natureza de cada um. Assim o psicanalista deverá ser psiquiatra, confessor, amigo, confidente, mestre, salvador; deverá possuir intuição para penetrar os segredos da alma, melhor do que o próprio sujeito conheça ou saiba explicar. Os sofrimentos do indivíduo podem depender de sua incapacidade a se adaptar aos valores e medidas que a maioria faz para si. seja isto por defeito, porque ele é atrasado demais, seja por excesso, porque ele é muito adiantado. Claro que nestes dois casos são necessários tratamentos opostos. Os problemas, os sofrimentos, as doenças psíquicas dos seres do primeiro tipo não são as do segundo tipo. Por isso colocamos neste livro, como premissa ao estudo da psicanálise, o da personalidade. O psicanalista terá de possuir a arte de se adaptar ao caso particular. Os complexos de um tipo não são os do outro. A evolução transforma a natureza do ser, que depende do nível por ele atingido. Para um pode constituir problema tremendo e vital, o que para outros ainda não apareceu dentro dos limites de seu concebível. Às vezes um indivíduo pode parecer doente, enquanto ele só se encontra em fase de deslocamento de um nível biológico para outro. envolvido numa crise de crescimento, que não e. doença, mas trabalho criador bem sadio. Então, psicodiagnose e tratamento terão de ser diferentes.

Este não é o caso mais comum, porque a maioria está bem longe de ser evoluída. Mas é o caso mais refinado, difícil e interessante da psicanálise. Surge o problema: como corrigir a falta de adaptabilidade do evoluído no baixo ambiente humano? Deve o psicanalista tornar-se um mestre de involução, para que o evoluído, retrocedendo, possa de novo aprender o que é indispensável para sobreviver na terra, ou deve abandonar tal indivíduo ao seu destino? Este homem se tornou, por evolução, justo, honesto, sincero, evangélico. Tal lição, que os outros apenas começam a aprender, foi por ele tão profundamente assimilada, que se tomou impulso espontâneo, instinto. Assim ele esqueceu o que mais importa na terra, isto é, a arte da luta, do engano, o instinto do egoísmo e da autodefesa. Como poderá na terra sobreviver um ser que por evolução se tornou de diabo em anjo e perdeu as garras? O seu destino é o de se dirigir para outros mundos. Então terá ele que renunciar à vida na terra, escolhendo o caminho do martírio e da morte?

Cabe ao psicanalista a tarefa de dirigir o indivíduo num ou noutro destes dois sentidos. O problema para ele será o seguinte: vou salvar a vida desse homem no ambiente terrestre, mas devo cumprir o crime de o orientar para uma descida involutiva, intervindo no seu destino em sentido negativo? Ou devo estimulá-lo ainda mais no caminho para o céu, salvando-o, mas com isso impelindo-o a se tornar cordeiro, para ser devorado pelos lobos? Qual das duas vidas devo salvar: a presente ou a futura? Deverei cortar-lhe as asas e ajudá-lo a desenvolver as garras para o seu bem imediato? Ou devo acompanhar o seu sacrifício, cortando-lhe as garras e ajudando-o a desenvolver as asas, para o bem futuro? A resposta do psicanalista dependerá de sua própria evolução.

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Vale a pena observar o fenômeno mais de perto, porque ele tem também um significado moral, religioso, social. A primeira coisa que faz uma lei religiosa ou civil é a de estabelecer a sua sanção punitiva pelo não cumprimento. O que se presume, então, não é a obediência, mas a evasão. Que o cidadão tenha de ser constrangido à força, sob a ameaça de uma pena, constitui a base de qualquer lei. O indivíduo é aprioristicamente julgado um rebelde. Por que isso? Porque a base da vida na terra é a luta. O homem isolado, por ser o mais fraco, não possui sanções contra as religiões ou os governos, como estes possuem contra ele. Quem não possui força, não possui direitos .O povo tem direitos somente quando se organiza e a unidade do número o torna o mais forte.

Em nosso mundo, autoridade e dependentes são naturais inimigos. Os indivíduos, sendo os mais fracos, não possuindo a força, procuram evadir-se com o engano, que é a arma dos criados. Os primeiros lutam com a cadeia ou o inferno, os segundos com a astúcia. Que acontece, então, ao indivíduo fora de série, que não luta, não se defende, mas fica por sua natureza espontaneamente obediente e honesto? Neste ponto pode aparecer o psicanalista, para estudar o fenômeno da honestidade como um complexo, descobrindo suas origens e praticando um tratamento. Por que complexo? Porque o homem honesto se coloca fora da regra da luta e do ataque e defesa, em que se baseia a vida na terra. E de fato, na prática, o nosso mundo julga o homem honesto como um fraco de que é bom aproveitar, um deficiente que não sabe vencer, um doente mental.

O  caso é doloroso, delicado a resolver - O que deve fazer o psicanalista? Ele poderia dizer ao paciente: "não seja tão simplório. As escapatórias para se evadir das leis religiosas e civis já existem na prática, elaboradas por milênios, sabedoria dos astutos. Não acredite nas palavras e aparências. Atrás delas tudo está pronto e bem conhecido pelo longo uso. Por que você não aproveita, como se costuma? Há na prática uma religião bem adaptada e acomodada, com a qual se pode conciliar tudo, o céu e o mundo, a qual na elasticidade de sua consciência permite e legitima tantas coisas que a tua proíbe. Está tacitamente concordado e presumido que você saiba aproveitar tais oportunidades. Se não o fizer, ninguém lhe agradece, mas pelo contrário, o condenará como inexperiente. Se você vencer por este caminho, será admirado e respeitado. Se você não souber vencer assim, será desprezado"

A conversa com o paciente poderia continuar: "enquanto permanecer honesto, tanto pior para você. Ninguém reclama, porque os outros gostam da sua derrota. Nisto não os incomoda, pelo contrário, na luta pode para eles ser vantajoso encontrar uma vítima a explorar. O perigo aparece quando você começa a exigir que os outros pratiquem a mesma honestidade que você usa. Se você se proclama o que de fato é, isto é, honesto, e por isso acusa os outros de desonestidade, então eles o julgam seu inimigo e iniciam a luta com as suas condenações. Inimigo, porque o método que você prega atrapalha os seus interesses. Você não tem que descobrir as armadilhas do próximo, mas ser amigo, acompanhá-las, delas tirando sua vantagem. Você quer endireitar o mundo? Mas o mundo o esmagará".

Do outro lado o paciente responde que ele não pode funcionar, senão conforme sua natureza, que é a da honestidade; responde que não pode mudar este seu instinto. Então continua o psicanalista: "procuremos entender o fenômeno. Você, como o mundo, segue os seus impulsos, obedece aos seus instintos. Por que tanta diferença entre eles? Vimos que esta espontaneidade depende das experiências vividas no passado e gravadas no subconsciente, que agora as devolve. Que ensinou a vida ao homem no passado? Ensinou que só o mais forte ou o mais astuto vence e pode sobreviver. Para quem não sabe ser tal, há derrota, sofrimento e morte. A honestidade, que por princípio impõe sacrifícios no interesse dos outros, representa em tal mundo um altruísmo antivital, contra o qual a vida se rebela. Colocar-se na posição de cordeiro no meio dos lobos, prontos a devorá-lo, é loucura.  Quem quer tomar o Evangelho a sério, sem entender que ele mata, é um doente mental. Acabará sendo martirizado, como aconteceu com Cristo, e como não pode deixar de acontecer com todos os que querem segui-lo de verdade e não apenas com palavras. Então, biologicamente o mundo tem razão".

Continuemos estudando o fenômeno para chegar a uma psicodiagnose. Se no paciente a honestidade se tornou tão profundamente gravada no subconsciente, manifestando-se agora com a espontaneidade irresistível de instinto, enquanto nos outros acontece o contrário, isto quer dizer que a experimentação que ele viveu e assimilou no passado, a lição que ele aprendeu, é diferente daquela que viveram e aprenderam os outros. O presente só se pode explicar com o passado. Então, perguntamos: o estado presente do paciente é anormalidade de doente, é um complexo a curar, ou é posição de inferioridade somente relativa ao mundo que o julga, mas não o é em sentido absoluto, em relação às leis da vida?

Um sistema de conduta pode ser produtivo e, por isso, aceito até um dado nível de evolução, além do qual se torna contraproducente para os objetivos que a vida quer atingir, e, então, esta o abandona. Assim, o sistema de luta entre indivíduos pode ser útil num mundo de elementos separados, no qual a defesa da vida está confiada a cada ser isoladamente, conforme os recursos que ele possua. Mas este método se torna contraproducente, porque cheio de atritos destruidores, num mundo de elementos sabiamente coordenados, numa sociedade organizada, na qual a defesa da vida está confiada à inteligência que dirige o bom funcionamento do conjunto, e à regular obediência a ela, de todos os elementos daquela sociedade. Então à iniciativa individual se substitui a do poder central, que monopoliza a força e a autoridade, tirando-as dos cidadãos, mas para manter a ordem, que dá segurança e é vantagem para todos. Essa transformação já se realizou dentro dos limites de um povo, no seio das nações que já chegaram a viver no estado orgânico. Mas fora desses limites, nas relações entre nações, vigora ainda o método individualista dos elementos separados, o método contraproducente das rivalidades e da guerra. Entretanto, a evolução da vida exige que a vantagem que foi atingida dentro do limitado plano nacional, no interesse de cada povo, tenha de ser atingida também no mais vasto plano internacional, no interesse de toda a humanidade. O principio é o mesmo, e o processo de sua realização já foi iniciado. Trata-se somente de o continuar.

Este exemplo nos mostra como a vida está pronta a abandonai um método, quando este não lhe seja mais útil, para o substituir por outro mais vantajoso. E o que está acontecendo hoje com a humanidade. Ela terá de acabar compreendendo a utilidade de passar do caos à ordem, também no terreno internacional, como já o fez no nacional. Então, acabará com o sistema atual da luta, das rivalidades, das guerras, e correlativo estado de insegurança e sofrimento.

Ora, o método do homem honesto, que não vive mais fechado no seu egoísmo em estado de guerra contra todos e de insegurança mas vive em estado de paz com todos e de segurança, representa a posição do tipo mais evoluído que entendeu a utilidade de passar do caos à ordem, acabando com o sistema contraproducente da luta. egoísmo, agressividade, e correlativo estado de atrito, insegurança e sofrimento. A evolução da vida terá de levar o homem até esta nova posição biológica: ao invés de seres fortes ou astutos, terá de produzir seres honestos, porque só eles se poderão tornar elementos de um novo estado orgânico da humanidade. Isto porque tal posição de ordem representa uma vantagem que a vida aceita, porque é utilitária, um aperfeiçoamento que a evolução deseja.

Podemos agora entender o que representa o biótipo de homem honesto relativamente às leis do nível biológico da humanidade. Tal biótipo representa uma antecipação da evolução, pertencendo, por isso, a um plano de vida mais adiantado, ao qual porém terão de chegar também os outros, a maioria humana que agora o condena, porque ela vive num outro nível de evolução. Neste ambiente ele se encontra como um desterrado, movido por impulsos que poucos compartilham, por instintos fora de série, que o deixam parecer um ser avulso da realidade, um inexperiente, um doente mental. Mas de fato ele assim parece, porque tal julgamento sai da forma mental de uma humanidade atrasada, porque o ponto de referência é a fase evolutiva de nosso mundo atual.

O método do homem honesto representa o que será a vida do homem de amanhã. Então, a dele é somente posição de inferioridade relativamente à atrasada fase evolutiva de nossa humanidade atual. Mas em função da história desta, aquela é uma posição de superioridade. Um ser de grande inteligência e bondade é um desprezível inepto num mundo de feras. Não possuindo armas, base da vida, ele será devorado. Todavia representa o germe do futuro desenvolvimento da humanidade, a única esperança e meio que esta possui para sair da barbárie. Este biótipo representa o progresso. Se o mundo está contra ele, as forças da evolução estão a seu favor. Se a vida o repele nos seus níveis inferiores, aceita-o e glorifica-o nos superiores. Ela aceita os atuais métodos do mundo enquanto eles lhe são úteis, porque proporcionados ao ambiente, mas está pronta a repeli-los logo que, numa posição biológica diferente, eles se tornem prejudiciais. Então, será quando o homem desprezado triunfará.

Esta é a análise do caso, como nos propusemos fazer, para chegar a uma psicodiagnose do que chamamos complexo de honestidade. Eis quais são os elementos que o psicanalista deveria levar em conta. Mas nesta altura temos de lhe oferecer a resposta a outra pergunta: por que processo o indivíduo chegou ao seu estado de maior compreensão que o faz honesto, apesar de que isto lhe custe prejuízo imediato? E como tal forma mental tão profundamente se radicou nele, até se tornar impulso espontâneo, hábito, instinto? Que experiências pessoais levaram o indivíduo a esse amadurecimento? Esta é a parte que mais interessa ao psicanalista para o tratamento desse tipo de complexo.

A inteligência da vida usa um método muito eficaz para educar, convencendo sem constrangimento, com todo o respeito pela liberdade do ser. A vida o deixa errar à vontade correndo atrás das suas miragens, deixa que ele obedeça aos seus impulsos, desabafando os seus instintos inferiores, que pela sua própria natureza estão condenados a se chocar contra a reação da Lei e a se corrigirem automaticamente pela dor. É o próprio homem que, pela sua natureza, carrega a sua punição. Sua cobiça, insaciável e espírito de egoísmo e revolta o levam ao abuso, que representa o erro em que é mais fácil cair e que abre as portas à dor, encarregada de o corrigir. O homem, assim conhecedor das astúcias do mundo, mas ignorante das leis da vida, enquanto julga poder escapar-lhes, acaba ficando preso nelas, para tudo pagar.

Eis como ele pode chegar à honestidade, por ter experimentado as conseqüências dolorosas do abuso. Assim como se chega à virtude por ter sofrido demais pelo vício, a humanidade chegará a paz por ter sofrido demais pela guerra etc. Neste caso o ser leva consigo, gravada no seu subconsciente, uma experiência dolorosa, que lhe ensina a não mais cometer aquele erro. O ser aprendeu à sua custa, pelas duras conseqüências, a não cometer mais excessos. Eis como pode nascer o que chamamos de complexo de honestidade. O indivíduo aprendeu que o mal que ele fazia aos outros acreditando com isto chegar à sua própria satisfação, o levou ao seu sofrimento. Ele se tornou honesto porque se queimou pela sua desonestidade. Este complexo é um fogo que não aquece o espírito.

Esta fase da punição do pecado representa o primeiro passo no caminho da subida para um nível de vida superior. O sofrimento mostra onde ocorreu o erro e convence a não cair mais nele. Começa assim a desenvolver-se a inteligência, até entender a vantagem de praticar métodos de vida mais adiantados, substituindo-os aos velhos. O indivíduo vai, assim, repetindo experiências cada vez mais completas, até o novo estilo de vida se tornar bem assimilado, os impulsos de honestidade espontâneos, a nova qualidade se torna instinto, como aconteceu com o evoluído. No fim não é mais a repulsa da Lei que impele o ser a subir, mas é a própria atracão da Lei que recompensa quem progride no caminho do bem.

Podemos agora chegar a estas conclusões: não há dúvida de que destruir tal complexo de honestidade representa uma imediata vantagem para o indivíduo, porque ajuda a sua adaptabilidade a um mundo, com o qual há inimizade recíproca, um estado de luta que um tratamento poderia afastar. O problema para o psicanalista é o seguinte: tal complexo deve ser curado, isto é, destruído, porque ele representa um defeito, ou deve ser confirmado e aperfeiçoado porque ele representa um valor? Mas o defeito é só perante o mundo, enquanto o valor é perante a maior entre as leis da vida: a evolução. É lícito, para eliminar os choques com um mundo inferior. sacrificar valores superiores? Para atingir uma vantagem imediata, pode o médico intervir negativamente no processo evolutivo, paralisando-o, impulsionando o indivíduo a retroceder, com um prejuízo muito maior do que aquela vantagem imediata? Então o psicanalista não deveria lutar para eliminar o complexo, mas para o alimentar, aumentando a doença. E para fazer isto, ele deveria colocar-se contra o mundo, ao mesmo tempo condenando o seu paciente a derrotas e sofrimentos.

A solução depende do médico, e sobretudo do paciente. Se este é verdadeiramente anjo, nunca se adaptará a tornar-se diabo, nunca aceitará um retrocesso involutivo, que para o ser representa a maior condenação. Ele nunca aceitará o mundo como é, mas procurará cada vez mais afastar-se dele, prosseguindo no seu caminho. Ele nunca renunciará ao seu direito de fazer parte de outras humanidades mais adiantadas. É preferível retroceder o ser e ficar depois condenado a vir no atual nível humano. Para o biótipo evoluído não há outro caminho.

 




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