Temos verificado quanto a economia do evoluído é mais lógica, segura e perfeita que a do involuído. A sabedoria do Evangelho confirma-nos plenamente a tese. Diz-nos ele: “Não acumuleis tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os consomem e os ladrões os desenterram e roubam; acumulai, ao invés, tesouros no Céu, onde nem a ferrugem nem a traça os consomem e os ladrões não os desenterram nem roubam. Porque onde está teu tesouro, aí está também teu coração”. (Mateus, 6: 19-21). Os dois mundos, o material do involuído e o espiritual do evoluído, ficam nitidamente contrapostos; e a oposição se estabelece colocando-os exatamente no plano utilitário, que mostra a incerteza das coisas humanas e a segurança existente nas do espírito. E tudo isso para mostrar, com finalidades educativas, as consequências da escolha humana, por força das quais cada um de nós tem exatamente a mesma sorte do mundo a que se ligou, ao acumular o seu tesouro. Quem se baseia em coisas que caducam cairá com elas; e apenas quem construiu em cima da rocha resistirá. O trabalho da evolução consiste na substituição do pior pelo melhor, na conquista de valores mais seguros e preciosos. Assim, quando São Francisco combate a riqueza com a pobreza e em seu testamento aconselha, quando o pagamento do próprio trabalho for negado, a recorrer à mesa do Senhor, pedindo esmola de porta em porta, São Francisco não vê o lado negativo do esmolar, mas o lado positivo e criador, isto é, não vê o aspecto miséria, mas apenas o aspecto riqueza. Trata-se de abandonar valores menores para conseguir valores maiores, de mudança total de princípios, de substituição de mundos. Trata-se, aí onde todos exigem compensação, de pedir como pagamento apenas um ato de bondade. Se de um lado se transforma riqueza em pobreza, também ao mesmo tempo o ódio se transforma em amor, a guerra em paz e, na procura dos bens, o método humano da força se transforma no método da bondade e da fraternidade, isto é, manifestações de avidez e fastio acabam em atos de humildade de quem recebe e bondade de quem dá. Assim, a esmola, filha da generosidade substitui a riqueza, filha do furto. Como será possível, doutro modo, implantar o senso do amor fraterno no campo econômico, que é o das competições mais ferozes? De que maneira, senão essa, se há de corrigir todo o mal que se faz para conseguir riqueza e reabsorver o veneno com que o homem a satura? De que modo contrabalançar tão desenfreado egoísmo senão com altruísmo igualmente desenfreado? Se esse caráter da esmola pode ser desfigurado e, ela mesma, reduzida a preguiça e a desfrutamento, isso nos ensina que neste mundo tudo se pode falsificar e transformar em abuso. O princípio franciscano quer, ao invés, introduzir o amor evangélico até mesmo nos atos da vida econômica, aparentemente os mais afastados de nós, até mesmo aí onde parece menos aplicável. Trata-se de violência feita contra as leis econômicas, de refreamento do instinto de ataque em favor da conquista de riquezas espirituais. Por essas razões, a fatigante e ansiosa fórmula moderna: “tempo é dinheiro”, princípio que prende e escraviza à matéria, essa fórmula é substituída pelo princípio que libera o espírito com a fórmula: “Si vis perfectus esse, vade vende universa”. (“Se queres ser perfeito, vai e vende as coisas”).

Quando chega a esse ponto, o homem finalmente descobre o segredo da felicidade. E todo o segredo consiste em, como fazia São Francisco, substituir a imperfeita economia humana pela perfeita economia da natureza, ou seja, em saber manejar as forças vitais de acordo com a vontade de Deus e não conforme a do homem, isto é, em não agir contra a Lei, mas em conformidade com ela. Isso significa trabalhar do lado do bem, afirmativo e construtivo, e não do lado do mal, negativo e destruidor. Viver em harmonia com Deus significa construir a si mesmo e à própria felicidade. Viver em desarmonia com Deus e revoltado contra Ele significa autodestruir-se e criar a própria dor. De acordo com a Lei de dualidade, cujo estudo aprofundaremos no fim deste volume, o universo é bipolar, cortado e reunido nessas duas partes opostas, inversas e complementares. As correntes de força que o constituem são de dois tipos de natureza contrária. Trata-se de dois dinamismos opostos, que, se aparentemente se excluem, na verdade se somam, e, se parecem entrechocar-se, na realidade colaboram. O homem pode escolher a corrente positiva, ascensional, que progride em direção ao bem e à alegria, ou a corrente negativa, descendente, que retrocede para o mal e a dor. Por mais que o homem se projete para fora de si mesmo, de fato sempre trabalha em proveito próprio. Se ele desencadear as forças do mal, embora crendo fazê-lo contra outros, desencadeá-las-á em sua própria direção, contra si mesmo. Então, com as próprias mãos construirá triste destino para si, maculará o próprio ser, envenenará cada vez mais a própria vida; e, perseguido por seu passado, lhe será cada vez mais difícil parar e finalmente se precipitará no abismo da autodestruição. Assim, o malvado, que preferiu regredir, por si mesmo se liquida no tormento do inferno. Agora não estamos mais falando, como fizemos, do involuído como primitivo ainda não desenvolvido, inferior apenas no que diz respeito à sua natural posição na escala evolutiva, e não porque a maldade o tivesse degradado; estamos falando é de quem se tornou involuído porque espontaneamente regrediu e por isso é muito mais culpado; estamos falando do homem que não é mais besta, mas deseja continuar sendo besta. Quer dizer, trata-se do caso, muito mais raro, do malvado típico. Este se separou e cada vez mais se afasta das fontes da vida, de Deus e, como não pode sobreviver sem Deus, definha e morre. Morte verdadeira, morte desesperada. Contudo, isso é lógico. Se o homem é livre o suficiente para construir o próprio destino, todavia não pode nem é livre ao ponto de tornar-se capaz de destruir a Lei, de tornar-se árbitro da vontade de Deus. Se pode escolher, e até mesmo escolhe, o caminho do mal, isso é assunto particular seu e não pode impedir a atuação da Lei que ele não pode dominar. As consequências de seu modo de agir somente recairão sobre si mesmo, enquanto ele, no fundo, continuará sempre a obedecer aos princípios vitais e a servir o bem. Apenas para si mesmo pode semear desordem, alimentar o mal; somente para si e não à Lei pode ele trabalhar em sentido destrutivo. O mal não possui o poder de destruir o bem, mas apenas o de destruir a si mesmo. É absurdo que a negação se afirme, vencendo; portanto, também é absurdo que se conceda ao malvado o afirmar-se vencendo o bem, e não apenas o demolir-se a si mesmo. Quando no harmônico dinamismo universal se forma esse turbilhão de impulsos desordenados, então as forças vitais, disciplinadas e compactas, cercam e isolam o campo de forças que lhes é contrário e não descansam enquanto não o eliminam, enquanto o campo rebelde não é por elas pacificado ou aniquilado. Ao passo que, para quem está em seu interior, o sistema é protetor, assume caráter ofensivo para quem dele foi expulso. Como acontece no organismo físico, antes de mais nada as forças defensivas tendem a eliminar a falha por meio da reação e a curar o mal com o remédio da dor. Se isso não for possível, não ajudam mais, ausentam-se dessa forma de vida e, indiferentes ou inimigas, abandonam o ser ao aniquilamento. No que diz respeito ao rebelde, a reação da Lei é negativa e consiste em afastá-lo das fontes da vida. A transgressão produz a contração automática das forças do sistema e dele expulsa o rebelde. Assim, repudiado pela vida, torna-se ele abandonado fora-de-lei, a quem nada mais resta senão desagregar-se e morrer. Deus nega-se aos malvados que o negam e, crendo negar a Deus, negam-se a si mesmos.

Pelo contrário, quem se lançou e fundiu na corrente oposta será temporariamente atormentado pelo mal, mas o caminho por ele escolhido o leva natural e fatalmente em direção à felicidade; enquanto isso, o malvado poderá ser feliz por algum tempo, mas seu caminho desemboca natural e fatalmente na dor. As duas posições são inversas. Para o bom, a dor constitui a exceção transitória, a alegria é a meta e a regra geral. Para o malvado, a alegria significa exceção transitória e a dor representa a meta e a regra geral. O justo, embora à custa de fadigas, constrói para si feliz destino; embora sofrendo, eleva-se rumo ao bem, constrói no seio de Deus. Está preso às fontes de vida e, quanto mais progride, mais se lhes avizinha, nelas se nutre e assim vive de modo cada vez mais intenso. Como as forças do sistema fecham as portas e expulsam o rebelde, assim também as abrem para quem colabora com elas; admitem-no em seu seio, confiam- lhe funções e poderes, põem-lhe à disposição os seus próprios tesouros e cumulam-no de bens. O primeiro é abandonado; o segundo, nutrido; o primeiro é expulso; o segundo, admitido naquela comunhão, chamada Divina Providência, em que se encontram as fontes da vida e a economia da natureza. Tudo isso até que ele vença o mal, a dor, a morte. Assim, enquanto o malvado se precipita na autodestruição, o bom ascende para a imortalidade. Então, o homem se anula, mas em outro abismo; o anulamento se verifica da mesma forma, porém em sentido inverso, isto é, não mais como morte, mas como vida, não por autodestruição, mas por fusão na divindade. Os dois anulamentos se verificam nos dois extremos opostos do ser, nos antípodas do binômio do universo. Assim, todas as forças do mal serão autodestruídas e todas as forças do bem haverão retornado a Deus. Todos terão atingido a meta que desejaram e os impulsos, livremente desencadeados pelos seres, terão concluído a sua trajetória. E, uma vez que os princípios estabelecidos por Deus produziram efeito, o imenso oceano do dinamismo universal repousará tranquilo, até que, com novo desequilíbrio gerador (como a luta entre o bem e o mal), depois da fase de repouso e paz, isto é, de dinamismo em repouso ou latente (o mal absorvido pelo bem), o motor-não-movido inicie nova fase de atividade e luta, quer dizer, de dinamismo atual.

Todo o universo gravita em redor de Deus e aos poucos acabamos por nos fundir Nele, se escolhemos o caminho da ascensão. Por outro lado, se escolhemos o caminho que desce, apenas podemos acabar na destruição, porque nos afastamos de Deus, única fonte de vida. O homem que involui despedaça os vínculos vitais que o ligam ao divino; o homem que evolui os estreita e reforça. Este caminha em direção da luz, aquele se precipita nas trevas; o primeiro aproxima-se do centro do sistema de forças, que é também o centro do poder e da vida; o segundo afasta-se do centro para a periferia, onde há exaustão e morte. Um se dirige para o conhecimento; o outro, para a ignorância. A ascensão significa construção de consciência; a queda, destruição de consciência. A consciência conduz à ordem, à adesão à Lei; a inconsciência conduz à desordem, isto é, à rebelião. O livre arbítrio representa a fase da formação da consciência e, portanto, fase de transição, que existe para ser superada apenas se atinja o objetivo. Ou o mal se transforma em bem ou se destrói. Assim, a liberdade ou finalmente adere e obedece à Lei ou o rebelde acaba sendo eliminado por autodestruição, tão logo termina a experiência que lhe motivou a concessão, porque necessária à livre formação de consciência. Em suma: há unicamente um senhor, Deus - o bem; e, não obstante a liberdade, só se torna possível seguir este caminho, o que vai a Ele, caminho que é também o da felicidade. A liberdade humana, relativa e limitada, não pode, pois, ultrapassar os limites impostos ao homem para seu próprio bem; instrumento formador de consciência, a liberdade deve agir nesse sentido ao invés de desmandar-se em atitudes de inconscientes e desordenar a ordem das coisas. Essa liberdade enquadra-se e canaliza-se de tal modo que ou caminha em direção a seu objetivo ou se destrói. Quem regride para a inconsciência perde a faculdade de compreender e perde, ao mesmo tempo, a liberdade. Quem progride em direção à consciência, também a perde, porém como fusão na vontade da Lei.

Verificamos repetir-se aqui, em relação à liberdade, o mesmo processo de anulamento que com respeito ao indivíduo vimos anteriormente. No primeiro caso, o isolacionismo egoísta do ser isola-o das forças da vida; estas, percebendo esse princípio que lhes é contrário, insurgem-se contra ele; e, a fim de se livrarem dele e expulsá-lo do sistema, rodeiam-no e cercam-no, envolvendo-o em envoltórios cada vez mais densos e apertados, em que o comprimem até esmagá-lo; quer dizer: o ser caminha rumo ao próprio aniquilamento por compressão; assim, a liberdade se restringe cada vez mais até perder-se no determinismo da matéria. No segundo caso, como o ser se liga altruisticamente com todas as coisas, funde-se também com as forças da vida; estas, percebendo a manifestação do princípio que lhes é próprio, deixam-se atrair por ele, amontoam-se-lhe em torno e circundam-no, procurando livrá-lo dos invólucros da forma a fim de permitir-lhe expansão cada vez maior; em resumo: o ser caminha para o próprio aniquilamento, mas por expansão; assim, a liberdade se dilata cada vez mais em razão da consciência, até perder-se na vontade da Lei. Para os conscientes, verdadeiramente existe só uma liberdade, a de aderir consciente e espontaneamente à perfeição da Lei. Quem compreender isso, naturalmente nada pode pedir de melhor do que querer em uníssono com a vontade de Deus, nela fundindo e perdendo a própria vontade. A vontade de Deus, aliás, será a sua porque a Lei representa o melhor, a maior felicidade. A irresistível tendência dos seres à perfeição participa da estrutura do sistema; o ser fatalmente segue essa tendência e a Lei irresistivelmente o atrai porque ela representa a perfeição. Ao conceito dessa perfeição não pode relacionar-se o de incerteza na escolha, mas apenas o de absoluto determinismo. Percebe-se que a oscilação da vontade entre soluções diversas só se torna possível em fase de formação e não em estado final, de perfeição. Ao mesmo tempo que o ser ascende para a plenitude da Lei, é natural também ir-lhe a liberdade perdendo-se livremente, reabsorvida no determinismo da perfeição. É lógico que quem compreendeu e encontrou o melhor apenas procure fazê-lo atuar; é lógico que prefira a solução retilínea, a resultante imediata do máximo rendimento obtido com o emprego do mínimo meio; e a prefira à oscilação de vontade incerta, porque não sabe, e que é capaz de perder-se na ignorância e na imperfeição que a tornam descrente de si mesma, fazendo-a entrever múltiplas soluções possíveis, quando sabemos que na perfeição não pode nem deve existir senão uma: a melhor. Percebe-se ser o livre arbítrio algo que procura encontrar a perfeição; e faltar algo ao sistema da incerteza, que só no sistema da certeza encontrará a sua perfeição. O livre-arbítrio não passa de vacilante filho da cisão entre o homem e Deus, cisão que a evolução faz desaparecer. A experimentação, de que nasce o erro, por sua vez origem da dor, deriva necessariamente dessa cisão e constitui o caminho da cura. A cisão tornou-nos cegos. Precisamos de, submetendo-nos às provas e sofrendo, refazer a consciência perdida. Trevas, punição tremenda. Mas a dor, situação natural de quem evolui e se redime, nos recoloca na consciência e na luz. Na vida existem apenas dois caminhos: o involutivo e o evolutivo. A unidade do universo é bipolar, sem exceção. Quem evolui na dor cria a si mesmo; quem involui no prazer a si mesmo destrói. O caminho da redenção é áspero, estreito e semeado de espinhos; o da perdição, suave, largo e parece juncado de flores. A dor constrói a consciência, forma conquistada pelo ser quando palmilha o caminho de retorno a Deus. O prazer destrói a consciência e determina a inconsciência, forma assumida pelo ser no caminho que se afasta de Deus.

Assim, sob duas formas opostas, a liberdade se extingue num e noutro extremo da vida. O universo constitui sistema perfeito, e na perfeição não pode existir arbítrio; e muito menos o sistema pode ser abandonado ao arbítrio do homem, fenômeno representativo de função transitória, dirigida a objetivo certo, limitado e relativo a ele. O homem, que tanta liberdade proclama, muitas vezes se atira pelo caminho fácil da queda na desordem; no entanto, o áspero caminho da ascensão se situa na disciplina, na ordem. No dinamismo universal verificamos hoje a dissensão de duas vontades diretivas rivais, que disputam o terreno: a vontade de Deus, situada no íntimo e desejosa de instaurar o reino da justiça e do espírito, e a vontade do homem, posta na superfície e tendente a estabelecer o reino da força e da matéria. Deus e Satanás, Cristo e Anticristo se defrontam. Trata-se de dois sistemas de forças, de antagonismo contínuo e presente em todo ponto e em todo momento, em todo ato e em todo fenômeno, antagonismo de que tudo está impregnado. Já vimos o diferente poder dos dois sistemas e a conclusão a que os levará a estrutura particular de cada um deles. O ser que ascende deve eliminar a dissensão entre as duas vontades e desfazer a diferença nascida da rebelião; deve, à custa de muita obediência, reequilibrar tanta desobediência; deve agora executar, por sua conta, o trabalho da reabsorção da desordem pela ordem, da liberdade pela disciplina; há de executar o trabalho de renunciar à sua vontade egoísta a fim de perdê-la, fundindo-a na vontade da Lei. A princípio, isso constitui esforço, mas depois é poder; parecerá limitação e derrota, porém mais tarde significará expansão e vitória; a princípio não passará de fatigante aceitação, mas finalmente há de ser espontânea fusão na vontade de Deus. Então, o ser saboreará a alegria suprema da harmonização, nessa vontade perceberá a perfeição suprema e, com alegria, nessa perfeição submergirá a liberdade pessoal; nessa vontade viverá satisfeito e feliz, como quem atingiu seu objetivo supremo; aí há de viver por adesão espontânea porque, conquistada a consciência; terá compreendido ser ela seu bem; e se sentirá cada vez mais livre nessa obediência para ele vantajosa. Além da incerteza dos que, embora não o conheçam bem, procuram o que lhes é verdadeiramente útil, que significado tem a oscilação do livre arbítrio? E, quando o ser houver adquirido consciência útil, como pode continuar escolhendo, oscilando, quer dizer, vivendo na incerteza? O melhor pode ser apenas uma coisa só e, quando o tivermos encontrado, nos impede a escolha. Aí, a grande cisão entre o homem e Deus desaparece e a luta, filha da ignorância, se acalma. Então, o ser sabe querer apenas o que Deus quer e isso lhe constitui a maior alegria. Já agora, todo ser, tornado consciente, se torna instrumento voluntário da Lei e se funde no seio de Deus, em harmonia e felicidade.




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