Continuemos a subir, devagar, do mundo do involuído para o do evoluído. O próprio Sermão da Montanha, há pouco citado, continua a mostrar ao evoluído o caminho, seu método, até mesmo no campo econômico: (...) “e, ao que te houver tirado a capa, nem a túnica recuses; e dá a qualquer que te pedir; e, ao que tomar o que é teu, não lho tornes a pedir”. (Lucas, 6:29-30). Economia vã e aparentemente desastrosa. O mundo moderno toma o cuidado de não levar a sério semelhantes preceitos, profundamente convencido do sublime absurdo que eles constituem. E, no entanto, como, para quem compreendeu a Lei, são lógicos e naturais! Trata-se do princípio mesmo de não-reação aplicado não mais à defesa da própria pessoa, mas a de seus haveres. Aí reencontraremos, por isso, igual método de defesa: a justiça confiada a Deus, a honestidade, o merecimento. E a conclusão é a mesma, tanto na defesa dos bens de fortuna como na da pessoa: o justo é automaticamente protegido pela Lei. Se não somos justos e merecemos ser prejudicados, de nada nos vale, sem a de Deus, a defesa que promovemos. Voltamos, desse modo, ao conceito já explicado, isto é, o de que a propriedade, só se for honesta, resiste aos ataques. E também nesse caso observamos como a honestidade, à semelhança de não-reação, é considerada pelo mundo como forma de debilidade ou imbecilidade, quando a honestidade, isso sim, é ser consciente. Tal o método do evoluído no campo econômico. O estudo dos princípios e das forças da Lei permite-nos, ao contrário do mundo, levar muito a sério esse método, que aliás é o mesmo indicado por Cristo. Os raciocínios por nós desenvolvidos provam cada vez mais que esse método não é o dos débeis e imbecis, mas o dos sábios. Por isso, quisemos ver para além das aparências enganosas em que tanta gente acredita.

Não é agora que desejamos insistir no estudo do sistema de forças que rege o fenômeno. Devemos, ao invés, observá-lo sob outro aspecto, correspondente a esta espontânea pergunta de ordem prática: como é que pode viver neste mundo quem se entregue a regime econômico tão desastroso? Embora teoricamente se justifique, se é essa a economia do evoluído, como pode ele resolver o problema, tão angustioso para todos nós, das necessidades materiais? Se é mesmo verdade que levamos a sério o Evangelho e Cristo não pode ser considerado louco, devemos então dar resposta completa a essas perguntas. Havemo-nos proposto a mesma pergunta nas páginas anteriores, mas em termos mais gerais, isto é: em que consiste o código de vida do evoluído? E respondemos que sua regra está na norma evangélica: “Mas buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”. Observemos, agora, caso mais particular desse código de vida, isto é, em que consiste a economia do evoluído ou, melhor, seu modo de agir em face aos bens da terra. Essa conduta não passa de aplicação da norma acima citada. Assim, o evoluído ocupa-se primeiro das coisas espirituais; o necessário para prover-lhe as necessidades materiais ele o recebe por acréscimo. Eis o problema que nos propomos: como procede ele para receber de graça o necessário, como se se tratasse de benefício concedido para mais da mercê devida? Do ponto de vista humano sua posição é bem precária, dir-se-ia mesmo desesperada. Trata-se de indivíduo que, segundo o Sermão da Montanha, dá a quem pede e, se acaso é roubado, não só se abstém de protestar como até mesmo não impede que o roubem ainda mais. Pois bem, o indivíduo que, ao invés de cuidar de si, cuida das remotas coisas do espírito e não se preocupa com os problemas imediatos e angustiosos da vida real, implicitamente os resolve, saibamos lá por que meios ignorados dos demais. E não é só; parece destinado a cair e, não só não cai, como recebe por acréscimo, espontaneamente, coisas que os outros, muitas vezes inutilmente, gastam a vida para conseguir. Como poderia o evoluído fugir à dura lei, conhecida tão bem por todos nós, segundo a qual nada se obtém sem esforço?

Essa posição privilegiada é apenas momento da libertação a que a evolução nos conduzirá. Eis uma das principais vantagens da ascensão. O evoluído superou nossas lutas e fadigas; as suas se destinam à execução de tarefas mais nobres. Por sua mesma natureza, ele não trabalha mais em nosso plano material, mas trabalha no plano espiritual, mais elevado. Os problemas materiais estão para ele, isto é, no sistema de forças de sua personalidade e seu destino, automática e definitivamente resolvidos, embora não o estejam para nós. O centro de seu ser coloca-se mais no alto; sua experiência, diferente e dirigida a outras conquistas, está completa em nosso plano material, atingiu seu objetivo; as qualidades, em cuja conquista nos cansamos tanto, foram conseguidas por ele; no plano em que para nós ainda há trabalho em prol de reequilíbrio e reordenamento, para ele há equilíbrio e ordem agindo espontaneamente. De acordo com o princípio do merecimento, a Lei dá gratuitamente ao evoluído o que ele merece e deixa o involuído conquistar com muito esforço o que ele ainda não merece. Tudo isso é lógico justo e corresponde aos equilíbrios da Lei. A inteligência e a atividade primam entre as qualidades que o evoluído procura conquistar à custa dos esforços já despendidos (merecimento) e chega por isso a possuir na forma espontânea de necessidade e instinto; é naturalmente dinâmico, irresistivelmente inteligente e laborioso. Portanto, a luminosidade e o dinamismo próprios do espírito se projetam, como consequência, até mesmo no plano da vida material. Sua inteligência lhe permite dar ainda maior rendimento à sua necessidade espontânea de atividade e torná-la, por isso, ainda mais produtiva, em qualquer direção, seja moral ou até mesmo, implicitamente, econômica. Já dissemos que quem pode o mais pode o menos; o espírito, embora o involuído não veja nem compreenda tal coisa, é dominador de tudo, para além da matéria. O trabalho, tão ingrato e cansativo para o involuído, que a ele se decide com relutância, na esperança de compensação (economia moderna do do ut des (dou para que dês) e com os olhos postos em aproveitá-lo o mais possível, até o ponto de transformá-lo em mentira apenas para justificar o furto (sua forma ideal de aquisição), o trabalho, dizíamos, para o evoluído é, no entanto, necessidade vital como a exuberância física da juventude, é instinto que, dirigido pela inteligência, dá resultados dobrados.

Não basta, porém. Para o evoluído o trabalho não significa condenação; muito pelo contrário, caracteriza-se como função que se entrosa no grande concerto das atividades de todos os seres do universo, como missão valorizadora da vida. E valoriza porque, até mesmo nos casos mais dolorosos, transforma-a em precioso dom, em campo de luta para aquisição de novas qualidades que, adquiridas, enriquecerão para sempre a própria personalidade, constituindo-lhe o poder e a sabedoria. Assim iluminado por significação tão profunda e valorizado por finalidades tão elevadas, ligado não a rendimento momentâneo, mas a resultados indestrutíveis, o trabalho não é suportado nem como desgraça de deserdados, segundo nos ensinou o materialismo moderno, nem com inveja dos que dele estão isentos. Ao contrário; é abraçado com interesse e amor, como dom de Deus, que assim nos permite fazer experiências, apreender e progredir; não é considerado posição de inferioridade, mas grande honra, a de tornar-nos colaboradores no funcionamento orgânico do universo, isto é, operários de Deus. É natural que a concepção do evoluído renove completamente, em cada caso, e também neste, o sentido da vida. Assim o trabalho se nobilita, é animado por alegre impulso, enriquece-se com resultados e finalidades inesperados, e de posição de revolta e escravidão se transforma em posição de domínio e amor. Trata-se de trabalho bem diferente do trabalho arrogante, rixento, que hoje se faz e que luta contra o capital apenas por inveja. Quanto a psicologia moderna se afasta da verdadeira concepção do trabalho! Ora, é natural que quem conseguiu alcançar essa concepção, e segue o método de vida consequente, veja também como os frutos desse método lhe afluem às mãos, com a mesma espontaneidade do trabalho realizado. E isso tudo por acréscimo, porque o objetivo e o prêmio desse trabalho são bem outros, de valor eterno, imensamente mais importantes. Tudo isso se obtém abençoando a vida, e não amaldiçoando-a! Assim se explica de que maneira o homem, antes de mais nada preocupado com as coisas espirituais longínquas, resolva implicitamente até mesmo os problemas imediatos e angustiosos da vida real, e de que modo esse homem não falha, embora não se interesse por eles. Recebe como consequência secundária, e não mais como resultado único e como prêmio, tudo quanto para os outros constitui o único objetivo que, quando não atingido é como se tudo tivesse fracassado. Assim é que se pode aplicar o Sermão da Montanha, dando a quem pede, sem reclamar o que nos é tirado, entregando a túnica a quem nos tira o manto. O universo é exuberante de poder e de riqueza! Nossa involução é que nos empobrece, porque, por causa dela e proporcionalmente a ela, nos exclui do grande banquete! Quanto mais progredimos tanto mais participamos dele e, por isso, enriquecemos. Nossa involução constitui verdadeira prisão. Progredindo, o evoluído se libertou e, por lei da natureza, é muito mais rico.

A honestidade é uma das formas com que a inteligência dá maior rendimento ao trabalho do evoluído. A honestidade, aliás, não passa de consequência da inteligência. Somente o sistema da justiça se mostra equilibrado e produz resultados consistentes. Esse sistema consegue economizar os naturais atritos da luta, que absorvem tão grande parte da atividade humana, sobrecarregando-a de fadiga inútil. Desse modo, poupam-se as numerosas e naturais desilusões de todos os sistemas desequilibrados. Quanta fadiga inútil se poupa e como o próprio trabalho rende mais! Quanto as atividades interiormente pacíficas e ordenadas não produzem mais que as litigiosas e desordenadas! O evoluído, posto, como poderia parecer, na posição de maior desvantagem porque até mesmo no campo econômico aceitou o princípio de não-reação, acaba por não possuir inimigos e desse modo fica aliviado do trabalho do ataque e da defesa que tanto acabrunha o mundo. Além disso, é natural que o evoluído, tendo conquistado a sabedoria, evite as falhas a que a ignorância leva e não trabalhe para a conquista de resultados efêmeros, mas apenas das posições que, por serem justas, isto é, equilibradas, são as únicas verdadeiramente resistentes e sedimentadas. Tudo isso mostra a grande influência do espírito até mesmo na vida prática; mostra não ser o fator moral, no campo da economia, precisamente o elemento insignificante que parece ser; mostra, finalmente, de que maneira muito dos defeitos e insucessos de nossa economia são devidos exatamente ao fato de desprezarmos esse fator imponderável.

Mas tudo isso não esgota o assunto. O dinamismo espontâneo ou o instinto de operosidade e o maior rendimento, forçados pela inteligência e a honestidade, não bastam para assegurar, em cada caso, estarmos providos quanto às necessidades materiais. Quem, para servir o espírito, é constrangido a menosprezar as coisas terrenas, sente não apenas a necessidade de consegui-las mais facilmente, com menor fadiga e por acréscimo, mas também a de sempre consegui-las com absoluta segurança. No cap. 3 deste volume classificamos os tipos humanos, desde o involuído até o evoluído, em selvagem, administrador e espiritual, de acordo com o método de aquisição por eles seguido: furto, trabalho, justiça. Se o mundo fosse de evoluídos, já se teria alcançado a justiça social e, em consequência, a garantia de provisões materiais. A solução, que agora devemos propor- nos, não deve ser essa de realização que depende do futuro. O caso agora é bem diferente. O evoluído constitui exceção, o homem evangélico vive, desarmado, em meio a indivíduos armados até os dentes, e deve desinteressar-se da própria pessoa, embora, em meio da mais feroz avidez. Então, que forças vitais o defendem e impedem a destruição de seu produto mais perfeito? Respondemos: a Divina Providência. Trata-se, na verdade, do imponderável que, por isso, escapa à sensibilidade grosseira do involuído. Por esse motivo é muito raro o mundo notá-la, mesmo porque é um fenômeno que, para verificar-se, exige se cumpram certas condições que dificilmente se encontram na prática. É uma força real, inteligente, que funciona segundo lei própria, de fenômeno sempre pronto a verificar-se, desde que se apresentem reunidos os elementos determinantes. E também isso é lógico.

Observemos, então, o funcionamento desse estranho fenômeno que resolve o problema aparentemente insolúvel, dando ao homem desarmado a palma da vitória, dando ao homem, na aparência mais falta de segurança, aquela segurança de que todas as coisas humanas carecem. Tudo isso pode parecer excepcional e milagroso; no entanto, para a Lei é lógico e espontâneo. Constitui, sem dúvida, total subversão dos métodos humanos em voga, inconcebível para a psicologia dominante. Mas essa psicologia está encerrada num círculo de ilusões, que exatamente a sabedoria do evoluído tem a incumbência de desfazer e a evolução de transformar. Este argumento já foi aflorado muito de leve em A Grande Síntese, cap. 87: “A Divina Providência”. Mais tarde o desenvolvi no cap 13, sob o mesmo título, de História de um Homem. Para lembrá-lo ao leitor, vamos resumi-lo agora.

O fenômeno, sem dúvida alguma, existe, é susceptível de experimentação e influi até mesmo no campo dos efeitos utilitários, se o mecanismo das forças resultantes é posto em ação no momento exato. Torna-se necessário, pois, antes de mais nada, compreender a lei do fenômeno e expor as condições necessárias para que ele se verifique. É lógico que tal não pode suceder com o método humano desordenado e rebelde, ou seja, se não se verificarem os requisitos indispensáveis. O universo é organismo de forças que obedecem apenas a mãos habilidosas e sábias, e, cobrindo-se de trevas, se recusa a obedecer a mãos inábeis e rebeldes. Necessário se torna, pois, haver compreendido a Lei e ter-se conformado com sua vontade; quer dizer, é preciso haver neste caso compreendido a lei do fenômeno para estar seguro de que, se for aplicada, fatalmente se verifica.

Quais são essas condições? Ei-las:

1)Merecer a ajuda;
2) Haver, antes de mais nada, esgotado as possibilidades das suas próprias forças;
3) Estar, de acordo com suas condições, em estado de necessidade absoluta;
4)Pedir o necessário e nada mais;
5)Pedir humildemente, com submissão e fé.

Quando essas condições se realizam, a Divina Providência está em condições de funcionar a favor de todos. Do contrário, o fenômeno não pode verificar-se. Desse modo, não se pode falar em providência com relação aos malvados, preguiçosos, ricos, cobiçosos, incrédulos, soberbos. Manifesta-se ela e trabalha em favor dos bons, trabalhadores, necessitados, morigerados, crentes humildes e de boa fé. Esta é, pois, a primeira condição: merecer. Em alguns momentos da vida é necessário sermos deixados sozinhos diante do obstáculo, para que aprendamos a superar as dificuldades com o emprego apenas de nossos meios. Quando não merecemos ajuda ou ela nos seria prejudicial, a providência que nos furtasse à prova necessária a nosso próprio bem não seria ajuda, mas apenas traição. Nesse caso a ajuda, que não falha, consiste em dosar a prova e diluir o esforço necessário, na proporção de nossas possibilidades. Na prática, o que se pretende é transformar a Providência em instrumento de nossas comodidades e desejos, ajuda desnecessária que nos poupasse à fadiga de progredir.

Vamos ao segundo ponto. Quando quisermos pôr a Providência a serviço de nossa preguiça, é justo que a Lei nesse caso se recuse a atender-nos ao apelo. Deus, sem dúvida alguma pai amoroso, não é, porém, nosso escravo. Sua Providência jamais nos ajudará se antes não houvermos feito tudo quanto estava em nossas forças para aprendermos a lição. A Lei jamais sacrificará nossa felicidade final em favor da efêmera vantagem do momento.

A necessidade absoluta constitui a terceira condição. Não se pode avaliá-la de modo absoluto, igual para todos, porque depende do caso, do momento, da pessoa; porque as necessidades individuais são diferentes e relativas, exatamente como as fontes de que dispomos para satisfazê-las. Se, porém, a avaliação e a natureza da ajuda são relativas, é certo que a Providência não nos provê do supérfluo, mas do necessário, e isso para fazer-nos viver e não para cairmos na pândega. A lei do mínimo esforço, a parcimônia, a proporção entre o esforço e o rendimento, tudo participa de sábia economia da natureza, toda feita de equilíbrio e justiça. E ela, nem avarenta nem pródiga, mas apenas parcimoniosa, concede criteriosa e moderadamente quanto seja necessário para proteção e garantia da vida, da continuação necessária à evolução, que é o seu objetivo. Se a Providência prodigalizasse o supérfluo, ao invés de encorajar a vida, levá-la-ia ao ócio, que conduz ao aniquilamento.

É preciso, pois, pedir com moderação e esperar apenas o que for justo. Nisso consiste a quarta condição. Pedir o necessário para viver com simplicidade, a fim de que o instrumento do corpo possa fazer o trabalho pedido pelo espírito e indispensável para as finalidades da vida. Se, subvertendo a Lei, as colocarmos na matéria e nos prazeres baixos, é natural que a Lei se afaste de nós e não nos ajude. Para obtermos a ajuda, torna-se necessário não pretendermos mais do que temos direito de pedir e havermos, antes de mais nada, aprendido a regra da temperança. Não nos esqueçamos de que a Providência não passa de manifestação da justiça e da bondade da Lei e de que nesse fenômeno tem plena vigência o princípio da justiça e da bondade e não o da força, que nesse caso é inútil, nada consegue senão sufocar o fenômeno.

É preciso, finalmente, pedir com submissão e fé. Estamos tocando no quinto ponto. Devemos adquirir consciência da ordem divina e, ao invés de procurar torcê-la conforme nossas conveniências do momento, devemos procurar pormo-nos de acordo com ela. Em lugar de pretender mostrar a Deus o de que necessitamos e como podemos ser providos, devemos colocar-nos, face às Suas diretrizes, na posição de dependentes, de cegos ignorantes que esperam orientação, de filhos obedientes a quem mais pode e mais ama. Devemos, pois, também crer e confiar, isto é, ter através da prece a sensação dessa realidade estupenda, ou seja, a de que não estamos abandonados e sós, mas existe nos céus o Pai, velando por nós e provendo-nos do necessário.

Podemos perguntar-nos, agora: Quando é que, na prática, se perfazem essas cinco condições? E por que maravilharmo-nos de que o fenômeno não se verifique? Natural é que todo fenômeno possua regras especiais, e absurda é a pretensão de jogar sem conhecer as regras do jogo. Explica-se, desse modo, como em muitos casos a Providência falha e não se manifesta. Não obstante, funcionava muito bem nas mãos dos santos, que nela confiavam cegamente. Muitas vezes queremos colocar-nos no lugar da Lei. Então, se não logramos êxito, retorcemos o erro, que é nosso apenas, e atribuímo-lo ao sistema, pondo em Deus a culpa da injustiça. Primeiro, fechamos as portas para a Providência, impedindo-lhe a ação, e em seguida lhe negamos a existência. Mas onde existe maior perfeição e bondade do que no método que nos garante o necessário, garante porque nos é destinado e nega apenas o que nos pode ser prejudicial? Somos acalentados por ordem justa que nos quer bem e protege a vida. Dessa ordem benéfica e protetora participa a Divina Providência. Trata-se de forças inteligentes e amorosas, prontas a socorrer-nos, sempre á nossa disposição; basta apenas que saibamos manejar-lhe o mecanismo. É lógico que esse antecedente se torna necessário em sistema orgânico. Trata-se de forças exatas, enquadradas, automáticas como as leis físicas, onipresentes, incorporadas nas leis da vida e, por isso, sempre prontas, necessária e automaticamente, a funcionar, tão logo se verifiquem as condições de seu funcionamento. Propiciar essas condições é espontânea ação nossa, independente da conduta dos nossos semelhantes, das condições sociais dos tempos, dos sistemas de justiça distributiva em voga. A Lei de Deus não esperou, para proteger a vida, o advento da justiça social nem as modernas formas de previdência individual e coletiva, mas, apesar disso tudo, deu ao homem liberdade de escolher a forma de garantir-se contra a necessidade, forma que é independente de toda autoridade humana, é justa e absolutamente segura.

Poder-se-á objetar que muitas e difíceis condições devem concorrer para tão magro resultado. Respondemos: a Divina Providência não é seguro compulsório; qualquer pessoa pode recusá-la sempre. Mas, então, é necessário colocar-se no plano da incerteza, para sonhar mil e uma coisas, arriscar-se a nada conseguir e a sofrer as desilusões normais da vida. Não vivemos para gozar, mas para lutar e progredir. Os desequilíbrios custam caro. Mas, dir-se-á, queremos riqueza. Pois bem. Torna-se necessário, então, sentir o terror de vir a perdê-la, que é o tormento dos ricos, e sofrer as respectivas ânsias e preocupações. Isso faz parte do sistema. É natural que, quanto mais se suba, os equilíbrios se tornem mais instáveis e as posições menos seguras, isto é, que a segurança seja inversamente proporcional à riqueza. Mas o involuído sente necessidade de experiências e por isso tenta a sorte até mesmo no campo econômico; não precisa, pois, de segurança, mas de miragens que o induzam a lutar e a sofrer nesse campo. No entanto, a Divina Providência só funciona como método quase exclusivo do evoluído, método com que a Lei provê apenas o necessário, e com absoluta segurança, ao homem espiritual que não pode mais preocupar-se dos problemas materiais, já esgotados e superados por ele.

Eis a economia do evoluído, o modo com que resolve o problema das necessidades materiais, eis como lhe é possível aplicar o método evangélico de não-reação e aquela economia em pura perda, aparentemente desastrosa. Eis como aqueles que se ocupam das coisas espirituais podem receber tudo o mais por acréscimo. Estamos naturalmente num mundo diferente do mundo humano, em face doutra psicologia, doutros métodos e princípios. Há outra objeção, porém. Do ponto de vista humano, o evoluído, que se preocupa com as coisas espirituais, parece indivíduo inútil, improdutivo, parasita que vive à custa dos outros, que trabalham para ele. Onde está a justiça? A esmola é injusta apenas quando extorquida por ociosos. Temos visto, porém, como o dinamismo e a operosidade são as qualidades mais notáveis do evoluído. Em geral, ele trabalha demais, pois soma as fadigas do espírito às necessárias para satisfação das necessidades materiais, ao invés de substituir uma por outra. Logo, o próprio funcionamento da Divina Providência nos mostra como as necessidades do evoluído são limitadas e modestos os pedidos que faz. Que significam seus gastos, se os compararmos com os desperdícios imensos impostos pela justiça, pelas guerras, pela cobiça e pelo espírito de destruição do involuído? Finalmente, mesmo se o evoluído permanecesse ocioso, no que diz respeito à matéria, e se ocupasse apenas de trabalhos espirituais, não dá, só por isso, contribuição à vida? Para progredir, a vida não requer apenas atividades economicamente lucrativas. O evoluído, desse modo, não é parasita; exerce função e cumpre missão; assim, muitas vezes dá muito mais do que recebe. Não seria preferível falar em desfrutamento do gênio e do santo por parte da sociedade? A Lei não pode praticar injustiça, utilizando-se para isso da Providência. Serve-se, então, dos dominadores da terra como de instrumentos seus e obriga-os a fornecer ao evoluído o mínimo indispensável, de que ele se vale apenas para cumprir sua função social, sem dúvida necessária. Mas quando se exerce determinada função, adquire-se, perante a justiça divina, direito aos meios para poder continuar a cumpri-la. Assim, todos são chamados a contribuir e a trabalhar para os objetivos da vida. Nos dias de hoje, o evoluído constitui exceção e não há de, por certo, pesar na economia social. Quando, porém, tornar-se maioria, então o advento da justiça social será fato consumado, o homem terá adquirido consciência da Lei, e nova concepção da ordem dará a todo ser humano, naturalmente, a garantia do necessário.




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