A Grande Síntese

1 - V. o volume Grandes Mensagens. (1.1)

2  - Para compreender esse estilo incomum, é necessário conhecer a técnica da gênese deste pensamento, mediante a leitura de outros volumes, os primeiros, pertencentes à obra.  (1.7)

3  - Desse especialíssimo método de pesquisa, aqui apenas delineado, os volumes As   Noúres e Ascese Mística tratam a fundo.   (2.1)

4  -  Para o desenvolvimento destes conceitos, vejam-se os volumes:

    As Noúres, Ascese Mística, A Nova Civilização do Terceiro Milênio e Problemas do Futuro.  (3.6)

5 - Este conceito de nova civilização, várias vezes repetido nesta obra, desenvolveu-se, mais tarde, no volume: A Nova Civilização do Terceiro Milênio.  (6.8)

6 - Estas páginas foram escritas em 1932.  (8.11)

7 - Não confudir com os símbolos adotados neste tratado α = espírito; β = energia; γ = matéria   (18.4)

8 - Esse problema do método é aprofundado no volume Ascese Mística— parte I: “O Fenômeno”.  (31.6)

9 - Um estudo mais particularizado e profundo desta fase foi experimentalmente continuado no volume Ascese Mística - “O Superconsciente”  (37.11)

10 - V. o volume: A Nova Civilização do Terceiro Milênio.  (42.1)

11 - Entropia, ou seja, nivelamento, para o qual parece tenderem todos os fenômenos. Assim compreende-se o que para os físicos é um enigma. Eles ob-servaram o fenômeno e acreditam que continuará e terminará num nivela-mento universal de todos os fenômenos, ao passo que aqui vemos que sucede diversamente. (Isto foi aprofundado no volume A  Nova Civilização do Terceiro Milênio - Cap. 25: “O Universal Dualismo Fenomênico”).  (48.14)

 

12 - Reveja a trajetória típica dos movimentos fenomênicos, no capítulo 26  (53.6)

13 - Para um estudo mais particular do problema, ver Ascese Mística, Cap. 19, “O Subconsciente” e Cap. 20,  “O Superconsciente”. Veja também os últi-mos capítulos sobre a “Personalidade Humana”, em A Nova Civilização do Terceiro Milênio.  (65.3)

14 - O Problema da Hereditariedade foi desenvolvido no volume A Nova Civili-zação do Terceiro Milênio (cap 27 e 28). (73.2)

15 - Para análise dos primeiros planos deste universo trifásico, v. Ascese Mística.  (85.2)

16 - O problema da divina providência é estudado mais particularmente no volu-me A  Nova Civilização do Terceiro Milênio, cap. 11 - "A Economia do Evoluído".  (87.6)

  Nossa longa viagem está terminada. Tudo já foi demonstrado, tudo está concluído até as últimas consequências. A semente está lançada no tempo, para que germine e frutifique. Dei meu verdadeiro testemunho, minha obra está completa. O pensamento desceu, imobilizou-se na palavra escrita: não podereis mais destruí-lo. Está demais antecipado, para ser todo imediatamente compreendido. Nem todos os séculos são capazes de compreender totalmente uma idéia, mas é necessário que, com a psicologia, a perspectiva mude para vê-la sob novos ângulos. Vosso julgamento está viciado por uma visão imediatista, mas os anos correrão; quando tiverdes visto o futuro, compreendereis esta Síntese em profundidade e a enquadrareis na história do mundo. Para alguns, esses conceitos ainda estarão fora do concebível. Outros recusarão um trabalho de compreensão, porque não desfrutam dele vantagem imediata. Outros procurarão afastar a verdade porque ela perturba o ciclo animalesco de suas vidas e continuarão a dormir, a esses falará a dor. O cerco aperta-se e amanhã será muito tarde.

   A convicção não é tanto filha de cálculos lógicos e racionais, mas um estado de amadurecimento interior, que só se consegue por meio de provas, lutando e sofrendo. Inútil, pois, falar a respeito desta Síntese para demonstrar a erudição, se não é “sentida” como orientação, se não for assimilada como vida. É verdade que a alma coletiva dos povos sente, por intuição mais do que pela razão. A filosofia, o sistema político e a forma social que mais convenham para realização dos fins da própria evolução varrem tudo o que não corresponda ao trabalho que o momento histórico exige. Mas, assim como é inútil criar sistemas lógicos e esperar que sejam compreendidos quando incompatíveis com o momento histórico, minha concepção é uma visão fecunda que antecipa a realização, é síntese não apenas do que pode ser conhecido, mas também das arrojadas aspirações da alma humana.

   Falei ao mundo, a todos os povos. Disse a verdade universal, verdadeira em todos os lugares e em todos os tempos. Valorizei o homem e a vida, deles fazendo uma construção eterna; através de todos os campos, até os mais disparatados, tudo fiz convergir para a unidade; de todo vosso disperso conhecimento humano, fiz um estreito monismo. Nesta síntese, ciência, filosofia e fé são uma só coisa. Tornei a dar-vos a paixão do bem e do infinito. A tudo o que vossa vida possa abraçar, dei u’a meta: arte, direito, ética, luta, conhecimento, dor, tudo canalizei e fundi no mesmo caminho das ascensões humanas.

   Vós vos moveis no infinito. A vida é uma viagem e nela só possuís vossas obras. A cada hora se morre, a cada hora se renasce, mas sempre como filhos de vós mesmos. A evolução, pulsando segundo o ritmo do tempo, não pode parar. Vedes através de falsa perspectiva psíquica. É preciso conceber não as coisas, mas a trajetória de seu transformismo; não os fenômenos, mas os períodos fenomênicos; tendes de colocar-vos dinamicamente na fluidez do movimento, realizar-vos neste mundo de coisas transitórias, como seres indestrutíveis, num tempo que só pode levar a uma continuação, lançados para um futuro eterno, que vos abre as portas da evolução.

   Após milênios e milênios, não sereis mais as crianças de hoje, e alcançareis formas de consciência que hoje nem sequer sabeis imaginar. Mostrei-vos o destino e o tormento dos grandes que vos precederam na jornada. Eles vos dizem o que será o homem amanhã. Não podeis parar. Vimos o funcionamento orgânico da grande máquina do universo em seus aspectos, nas fases de seu devenir. É um movimento imenso e tendes que funcionar como parte do grande organismo.

   Uma grande atração governa o universo por inteiro: Amor. Ele canta na arquitetura das linhas, na sinfonia das forças, nas correspon-dências dos conceitos, sempre presente. Chama-se atração e coesão no nível da matéria; impulso e transmissão no nível energia; impulso de vida e de ascensão no nível espírito. É a harmonia na ordem cinética, em que reside nossa respiração e a respiração do universo. Ousamos desvelar o mistério e olhar sem véus a Lei, que é o pensamento de Deus. Em todos os campos vimos os momentos desse conceito que governa tudo. Que os bons não tenham medo de conhecer a verdade.

   O quadro está ultimado, a visão é completa. Dei-vos um conceito da Divindade muito menos antropomórfico, muito mais transparente em sua íntima essência, muito mais purificado das reduções feitas pela representação humana; um conceito mais luminoso, adequado à vossa alma moderna mais amadurecida. Assim o mistério pode emergir em termos de ciência e de razão, saindo dos véus do símbolo. Caminhamos do mineral ao gênio, para contemplar a vitória do homem; choramos e ansiamos com ele na cansativa conquista do bem contra o mal, no caminho de sua ascensão. Ouvimos uma sinfonia grandiosa, em que, da matéria ao espírito, tudo canta o hino da vida. Oramos em sintonia com todas as criaturas irmãs. A concepção move-se no infinito. Os únicos limites que vos dei são os impostos pelo vosso concebível. Nosso estudo foi a adoração da Divindade.

   Dei-vos uma verdade universal e progressiva, em que podem coordenar-se todas as verdades relativas. Dei-vos conclusões que não se podem negar, sem negar toda a ciência, todo o universo. A premissa é gigantesca; não pode ser abalada. Cada palavra é um apelo à vossa racionalidade, não podeis negá-la. Sempre afirmei, muito mais do que neguei. O ponto de partida desse organismo conceptual não é egocêntrico nem antropomorfico, mas implica, em sua gênese, numa transferência para fora de vosso plano de concepção. Conclamei-vos às grandes verdades do espírito; recompletei vossa vida dividida ao meio pelo materialismo; restituí-vos como cidadãos eternos ao infinito. A ciência tem grande responsabilidade: ter destruído a fé sem saber reedificá-la. Com seus próprios meios, ergui-vos até a Síntese; dei-vos uma ética racional baseada em vastíssima plataforma científica. Dei ao supersensório um peso real objetivo. Mostrei-vos a realidade que está além da ilusão, a substância que reside no transitório, o absoluto que existe nas modificações do relativo. Ergui a ciência até a demonstração das verdades metafísicas. Reuni os extremos inconciliáveis, a matéria e o espírito, equilibrando e fundindo num só plano de trabalho a Terra e o céu. Encaminhei o homem à sua futura consciência cósmica. No âmago de meu pensamento, sempre se moveu a visão da lei de Deus.

   Não podeis negar neste escrito, em que se agitam todas as esperanças e todas as dores humanas, uma palpitação de vida substancial; não podeis deixar de sentir, por trás da demonstração objetiva, uma paixão pelo bem, uma sinceridade absoluta, uma potência de espírito que vivifica tudo. Este escrito possui uma alma que lhe dá vitalidade. Podereis negar ou discutir nele o supranormal. Mas este é normal em todas as outras criações de pensamento, normal nelas é a inspiração, sem a qual não se atingem as verdades eternas; normal a intuição super-racional. É normal um abismo de mistério na consciência, da qual nada sabeis. Cada alma vibrará e responderá de acordo com sua capacidade de vibrar e responder.

   Aqui fala também o coração, exortando-vos a subir. Aqui reside imenso amor pelos homens, como Cristo sentiu na cruz; há um desejo violento de beneficiar, iluminando. Este livro quer ser um ato de bondade e de bem, num plano vastíssimo. Na férrea racionalidade está contido o ímpeto de uma alma que vê o futuro e sabe que a tempestade vos espera. Compreender é simples e natural na fase intuitiva. Só aceitei a ciência, as pesquisas, a racionalidade, como um meio que vossa psicologia me impôs. A quem queira atacar esta doutrina para demoli-la, vou a seu encontro de braços abertos, para dizer-lhes: és meu irmão, só isto importa de verdade. Eu sei: estes conceitos estão afastados do mundo feito de mentira e de desconfiança, que vos parecem inaceitáveis e inconcebíveis. Mas minha linguagem precisa ser substancialmente diferente.

   Este constitui um apelo desesperado de sabedoria, para o mundo. No coração dos homens e de seus sistemas, domina o egoísmo e a violência; não o bem, mas o mal. A civilização moderna lança as sementes com grande velocidade e aguarda a produção intensiva de sua dor futura. Será a dor de todos. Poderá tornar-se maré demolidora que destruirá a civilização. Os meios estão prontos para que hoje um incêndio se alastre por todo o mundo. Falei aos povos e aos chefes, religiosos e civis, em público e em particular. Depois da conciliação política entre Estado e Igreja, na Itália, urge esta conciliação maior, espiritual, entre ciência e fé no mundo. Se um princípio coordenador não organizar a sociedade humana, esta se desagregará no choque dos egoísmos.

   Falei num momento crítico, numa curva da história, na aurora de nova civilização. Podereis não ouvir e não compreender, mas não podereis mudar a Lei. Se a civilização, agora, tem bases muito mais amplas que nos tempos do império romano e não é mais um simples foco num mundo desconhecido, ainda existem enormes desníveis de civilidade, de cultura e de riqueza. A Lei leva ao nivelamento e à compensação. Enquanto houver um só bárbaro na Terra, ele tenderá a rebaixar a civilização ao seu próprio nível, invadir e destruir, para aprender. As raças inferiores depressa desfarão a sua impressão sobre superioridade técnica européia; dela se apossarão para pular à garganta do velho patrão.

   A todas as crenças, digo: o que é divino, permanecerá; o que é humano, cairá; qualquer afirmação temporal é uma perda espiritual; cada vitória na Terra é uma derrota no céu. Evitai os absolutismos e preferi o caminho da bondade. Não se aplica a imposição ao pensamento, a força não o atinge e produz afastamento. Dai exemplo de desapego das coisas da Terra. Vossas verdades relativas são apenas pontos de vista progressivos e diferentes do mesmo Princípio único. O futuro não consistirá na exclusão recíproca, mas na coordenação de vossas aproximações da verdade. Não discutais, a convicção não se impõe com ameaças, mas difunde-se com o exemplo e com o amor.

   À ciência digo que, enquanto não for fecundada pelo amor evangélico, será uma ciência de inferno. Inútil é o progresso mecânico que faz da Terra um jardim, se nesse jardim morar uma fera. A Terra é um inferno porque vós sois demônios. Tornai-vos anjos e a Terra será um paraíso.

   Não temam os justos e os aflitos que olham, tremendo, a algazarra humana que busca glória, riqueza e prazer, porque se esta, por um momento, vence e goza, a Lei está vigilante, “Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”. Digo-vos: jamais agridais, não sejais vós os agentes de vossa justiça, mas a Divindade; perdoai. Fazei sempre o bem e o fareis a vós mesmos; deixai a reação à Lei, não vos prendais ao ofensor com a vingança. Não espalheis jamais pensamentos, palavras, atos de destruição; não movimenteis as forças negativas da demolição, pois, de retorno, elas cairão sobre vós mesmos. Sede sempre construtivos. Em qualquer campo, seja vossa preocupação em apenas criar e jamais demolir; nada possui tanta força demolidora quanto um organismo completo em função. O velho cai por si, sem lutas de reação, porque todas as correntes da vida se precipitam para as novas formas.

   Não vos rebeleis, mas aceitai todo o trabalho que vosso destino vos oferece. Este já é perfeito e contém todas as provas adequadas, mesmo se pequenas. Se é assim, não procureis alhures grandiosos heroísmos. Os pequenos pesos que se suportam por muito tempo, representam muitas vezes um esforço, uma paciência, uma utilidade maior. As provas implicam no trabalho lento de sua assimilação; a construção do espírito tem de ser executada em cada minúcia; a vida é toda vivida momento a momento, a cada instante há um ato e um fato que se liga à eternidade. Lembrai-vos de que o destino não é malvado, mas sempre justo, mesmo se as provas são pesadas. Recordai-vos de que jamais se sofre em vão, pois a dor esculpe a alma. A lei do próprio destino obedece a equilíbrios profundos e é inútil rebelar-se. Há dores que parecem matar, mas jamais se apresentam sem esperança; nunca sereis onerados acima de vossas forças. A reação das inexauríveis potências da alma é proporcional ao assalto. Tende fé, ainda que o céu esteja negro, o horizonte fechado e tudo pareça acabado, porque lá sempre está à espera uma força que vos fará ressurgir. O abandono e sua sensação fazem parte da prova, porque só assim podereis aprender a voar com as próprias asas. Mesmo quando dormis ou ignorais, o destino vela e sabe: é uma força sempre ativa na preparação de vosso amanhã, que contém as mais ilimitadas possibilidades.

   Esses ideais foram ensinados na Terra. Mártires morreram por eles. Mas, o que não foi explorado pela hipocrisia do homem?  Às vezes, os ideais, para serem divulgados, utilizam justamente esta sua capacidade de sofrer a exploração, tal como o fruto que se deixa devorar para que a semente seja levada para longe. Há a classe dos construtores e há a classe dos demolidores; dos parasitas que, pela mentira, operam uma contínua degradação de todos os valores espirituais. Há quem construa à custa de tormentosos esforços e há quem utilize para si, pendurando-se como peso morto, para baixar tudo ao próprio nível. Um é espírito que vivifica, outro é matéria que sufoca. O princípio puro, então infecciona-se, adquire sabor de mentira: processo de degradação de ideais. Ai dos culpados, dos demolidores do esforço dos mártires! Ai de quem faz da missão uma profissão e coloca o espírito como base de poder humano! Ai de quem mente e induz a mentir; de quem com o abuso, induza ao abuso; de quem dando exemplo de injustiça bem sucedida, proponha-a como uma norma de vida! Realizada uma ação, não podeis mais anulá-la até que se esgotem e sejam reabsorvidos seus efeitos. Ai da sociedade que deixar esquecidos seus melhores elementos, não os colocando na posição que possam render em vista de seus merecimentos, e abandona seus valores mais altos à apatia e à incompreensão. São inúteis os reconhecimentos póstumos e tardio o remorso por um tesouro perdido. Ai das religiões que não cumprirem  sua tarefa de salvar os valores espirituais do mundo! O espírito não pode morrer e ressurgirá alhures, fora delas. Ai dos dirigentes que não obedecerem  ao Alto e não atenderem à voz da justiça que reside na própria consciência! Ai de quem desperdiçar seu tempo e não fizer de sua vida uma missão!

   Um julgamento final vos aguarda a todos, não por obra de um Deus exterior a vós, a quem se possa enganar ou enternecer. Ele é uma lei onipresente no espaço e no tempo cuja reação não há distância nem demora que possa deter, de quem não se escapa, porque está dentro de vós e de todas as coisas. Pode evitar-se ou enganar a lei da gravidade? Assim não se evita nem se engana a reação da Lei, a justiça divina.

   Deixo-vos. Minha última palavra a quem sofre. Esse é grande na Terra, porque regressa a Deus. Destruí a dor e destruireis a vós mesmos, “Felizes os que choram, porque serão consolados”. Não temais a morte, que vos liberta. Vós e vossas obras, tudo é indestrutível por toda a eternidade. Minha última palavra é de amor, de paz, de perdão, para todos.

   Minha obra está terminada. Se durante anos e anos, uma humanidade diferente, muito maior e melhor, olhando para trás, pesquisar esta semente lançada com muita antecipação para ser logo fecundada e compreendida, admirando-se como tenha sido possível adiantar-se aos tempos, tenha ela um pensamento de gratidão para o ser humano que, sozinho e desconhecido, realizou este trabalho, por meio de seu amor e de seu martírio.

   A sinfonia está escrita. O cântico emudece, para ressurgir em outras formas, noutros lugares. A voz apaga-se. O pensamento se afasta de sua manifestação exterior, na profundeza, para seu centro, no infinito.

  Que multidão de funções terá de abarcar, quantos problemas novos terá de enfrentar e resolver, que complexas realizações executará o novo Estado futuro! Por suas bases biológicas, está fundamentalmente vinculado ao fenômeno basilar do ser: a evolução. Sua primeira função é a de ser instrumento das ascensões humanas. Educar é a primeira tarefa substancial; ter realizado o homem é o resultado eterno de todo o seu trabalho. Todo o resto torna-se meio, diante desse objetivo supremo. Pela altitude e intensidade com que tiver sabido educar, mede-se o valor de um governo. A pedra de toque de uma religião, filosofia, sistema político, é determinada pela quantidade de luz que tiverem sabido fixar na alma humana: reside na medida em que tenham conseguido tornar o homem melhor.

   Em meu sistema o Estado é o órgão base das ascensões humanas. Nessa atmosfera de alta ética, que deve tudo vivificar e animar, movem-se todos os trabalhos em qualquer campo, todos reduzíveis em sua síntese a uma criação espiritual. Nas atividades individuais e sociais realiza-se o princípio da lei que diz: ordem. Tudo se move, pois, ao longo de um caminho de coordenações e harmonizações que eliminam os atritos, aumentam o rendimento e, seguindo a lei do menor esforço, conduzem à superação de todas as formas inferiores do mal, da dor, do egoísmo, da luta. Por essa estrada de harmonizações, o centro atinge a periferia, a periferia volta ao centro e reforça-se pela coesão do indivíduo; este valoriza-se na coletividade, acentuando seu rendimento. O Estado entoa a música da cooperação: prevê e coliga no espaço e no tempo, antecipa e provê, garante e protege. Só ele pode criar uma atmosfera ética, em que possam florescer as delicadas produções do espírito; só ele pode estimular as atividades intelectuais superiores que doutro modo escapam à consciência coletiva, e são condenadas à extinção pelo princípio hedonístico. O Estado agirá em profundidade, evoluindo a luta para formas mais altas, que implicam união de pensamento e de energias, corres-pondente, também, a um princípio de utilidade coletiva. Imaginai a força de um povo que se tornou organismo!

   Os indivíduos, cujas funções são todas igualmente nobres, não se tornarão iguais por nivelamentos externos, mas obter-se-á justiça na hierarquia, porque a diferença de posições corresponde  a uma diferença de valores, de funções e de deveres; correspondente à diferenciação individual de aptidões hereditárias. Nesta justiça de divisão de trabalho, os homens serão inevitavelmente irmãos, porque necessários uns aos outros no organismo. Neste, o tom, o valor da vida de cada um subirá e não se poderá agredir, nem demolir ninguém, sem demolir a si mesmo. Neste organismo, obedecer não é servir, mas valorizar-se; não é diminuição, é conquista; é a tomada de posição tal como célula no organismo coletivo; não mais apenas um número, mas um organismo em que o indivíduo crescerá quando fizer parte dele. O novo conceito não constitui rebelião do individualismo em prejuízo da coletividade, mas é fusão do individualismo no coletivismo, um individualismo de ordem, que se valoriza na ordem coletiva. Ai do Estado que mata o indivíduo, mas ai dos indivíduos que se sobrepõem ao Estado.

   O novo Estado tem que possuir o monopólio da força. Ainda que a esta seja uma necessidade de vossa vida involuída, já constituirá um progresso se o indivíduo dela for privado, porque o seu desuso enfraquecerá os instintos anti-sociais, Esse Estado não pode ser agnóstico; precisa ter  uma concepção ampla da vida e fazê-la compreender para que o indivíduo a ponha em prática; deve ter resolvido os maiores problemas do conhecimento. Tem que saber compreender o homem, seus instintos, seu destino; penetrar o mistério de sua personalidade, a fim de poder colocá-la em seu lugar e dela obter o máximo rendimento. No princípio, o centro realizará um mero enquadramento de massas, mas no futuro ocorrerá a fusão de almas. Nesse Estado, Deus é imprescindível, assim como o conhecimento de sua ordem divina. A ciência tem de demonstrá-Lo para que, nessa ordem, o Estado encontre suas bases racionais. Concepção imensa de uma fé social e científica, de que participarão em paz todas as religiões. Este é o Estado da nova civilização do terceiro milênio.

   Neste novo Estado o indivíduo realiza seu amadurecimento biológico em direção à fase de super-homem. Todas as forças sociais tornam-se disciplinadas, objetivando a elevação coletiva. Os instintos inferiores se atrofiarão pelo não-uso; os elementos mais involuídos serão domesticados, porque absorvidos na correnteza que os orientará para metas espirituais superiores. O poder de um novo Estado, de alto conteúdo ético, é uma força que fecunda todas as atividades, é um esplendor de luz que desperta qualquer alma. Valoriza-se a aptidão, que responde aos impulsos mais nobres, e o homem mediano, incapaz de orientar-se e guiar-se, feito para obedecer, aceita e se eleva. Todas as energias sociais não se rivalizam em hipertrofia de funções, nem se manifestam num desencadeamento cego e destruidor, mas numa expansão iluminada e produtiva do pensamento do Estado; não se perdem na vã tentativa de reencontrar-se, nem se desgastam no atrito, como outras tantas rodas que não sabem entrosar-se, mas coordenam-se para convergir para metas eternas de evolução. Assim, um povo realiza lentamente as grandes assimilações espirituais e avança, coeso, como um exército em marcha para a difícil conquista dos ideais. Move-se com eficiência progressiva a massa pesada e lenta da grande alma coletiva, que começa a ver e a compreender.

   O trabalho, iluminado por finalidades superiores, não constitui mais uma condenação, mas é triunfo cotidiano sobre a matéria, vitória da vontade e do espírito, ato viril de domínio. O Estado reunirá os cidadãos, por meio de seus órgãos, em fecundo abraço produtivo. Os indivíduos que não se organizarem para valorizar-se neste novo poder coletivo, serão destinados à eliminação. Se as velhas unidades econômicas, pequenas e isoladas, tinham a vantagem da independência recíproca que circunscrevia as crises, hoje, o progresso organizou relações e permutas mundiais necessárias que, se tornam o organismo econômico mais perfeito e compensado, também o deixa mais vulnerável. Essa vulnerabilidade impõe um regime de colaboração. Em sentido mais amplo, a especialização moderna de capacidade de funções dá ao indivíduo, involuído e isolado, probabilidades cada vez menores de sobrevivência. Quanto mais perfeito e diferenciado é o indivíduo, mais vulnerável se torna, mas, ele bem sabe e experimenta a necessidade de viver em coletividade. Essa sua fraqueza diante do homem primitivo, essa sua perda de adaptação é a força que mantém coesas as unidades coletivas, que por isso não estão dispostas a desagregar-se.

   Nesse novo Estado as anarquias econômicas têm que ser eliminadas, o individualismo não é admitido como desordem. O homem futuro que esse Estado quer construir não será simples máquina para fabricar dinheiro, apenas hipertrofia volitiva, mas um homem completo também em seu campo espiritual, no desenvolvimento harmônico de todas as suas faculdades. O Estado que realiza o princípio colaboracionista está situado num nível superior ao do Estado que permanece na fase do princípio hedonístico. O valor e o grau evolutivo de um Estado medem-se pelo grau que atingiu na realização dos princípios, pelo grau em que tiver sabido formar a consciência colaboracionista, pela capacidade de infundir no trabalho a idéia de função e, na vida, a de missão; pela medida em que tiver conseguido transformar a força em direito, o egoísmo em altruísmo, a desordem em ordem, a guerra em paz, atenuando as formas de luta, educando-as no caminho da evolução.

   O Estado aspira e emana, concentra e descentraliza, é o coração que a cada instante lança todo o seu sangue para circular em seu organismo. Em seu seio o Estado eleva todos os seus cidadãos, econômica e moralmente; coordena-os todos nas diferentes funções, realizando a justiça mediante a subdivisão do trabalho em correspondência com os valores individuais. Enquanto o Estado não tiver unido a si todo o povo, como função integrante de sua unidade, o povo permanecerá estranho, indiferente, podendo amanhã ser até inimigo; enquanto todos os cidadãos não se sentirem vivendo no Estado; enquanto houver um só homem que não se sinta, embora minimamente, parte dele, esse homem será sempre uma ameaça de dissídio e germe de desordem.

   Um dos grandes erros do século foi o de ver e colocar em evidência o lado involuído da sociedade humana, a incompreensão entre capital e trabalho e a luta de classes. Tudo isso manifestava, no campo econômico, a visão universal materialista imperante. O Estado não deve manifestar essa luta, mas deve, sim, dominar todas as atividades econômicas; deve ser o organismo ético que absorve todas essas atividades, dando-lhes conteúdo moral e social, elevando-as à função.

   A introdução do fator moral na vida social, supremamente construtivo, inverteu a posição do problema. Para maior rendimento utilitário de todos, os grupos sociais têm que poupar o desperdício dinâmico da luta no período caótico, a fim de viverem coordenados e não em oposição, para cooperarem e não para eliminarem-se. É contrária à lei do menor esforço uma cadeia de opressões e reações e, por isso, pela lei da evolução, isto tem de acabar. A luta de classe pode considerar-se uma doença social do período involuído, um fato patológico que precisa ser superado. O sonho de arrasar o capital para proporcionar a subida do proletariado, sumamente inadaptado em sua inconsciência para qualquer função dirigente, significa secar a fonte da riqueza para todos. Opressão e violência, a exploração da ignorância popular por egoísmos políticos, a greve e o "lockout" não resolvem o problema da produção nem da riqueza. Filosofia econômica de transição, mecanismo de destruição.

   Nas leis da vida fundamenta-se a ascensão até a fusão e a solidariedade de todas as forças de produção, sem opressões nem supressões, dando lugar a todos para que todos dêem sua contribuição. No colaboracionismo, todas as classes encontram reconhecimento e proteção, o trabalhador do pensamento e o lavrador da terra, o soldado e o operário. Colaboração, não luta de classe. A propriedade é base natural do edifício econômico, tal como a família o é do edifício social; como ela, é lei da natureza, própria também do mundo animal. Destruir essas unidades primordiais insubstituíveis é demolir a natureza humana. A instituição da propriedade, criada para própria defesa pelos vencedores da luta econômica, agredida pelos derrotados, sempre existiu e existirá, apesar de todas as tentativas de demolição, porque corresponde à necessidade fundamental de defender uma posição que todos, embora alternadamente, acabam ocupando. Isto significa elevar tudo, nada destruir e tudo criar. Às revoluções destruidoras sucede uma revolução construtiva, que enquadra todas as forças e delas faz uma unidade; às revoluções que saem debaixo para demolir, sucedem  as que descem do Alto para construir; descida das aristocracias do pensamento, para elevar os humildes; subida dos humildes, para compreenderem. A tarefa das classes não é a de eliminar-se, mas codividir os frutos da mesma civilização, encaminhando-se para compreensão recíproca. A tarefa da classe dirigente não é dominar, mas educar a plebe tumultuada - velho instrumento de vinganças, chamariz dos astutos, muitas vezes vítima das repressões, sempre massa ignara, amorfa e cega - para transformá-la num povo que sobe para uma consciência coletiva mais alta.

   Todos esses conceitos fazem parte, naturalmente, de um mundo mais evoluído, sendo próprios de um tipo humano biologicamente mais avançado. O tipo atual não sabe superar essas formas de lutas primitivas e selvagens que revelam sua fase, mas que, no entanto, são necessárias hoje para realizarem a própria seleção em seu plano. O homem de amanhã o julgará um involuído.

  Ao focalizar os problemas da fase α, com minúcia, coloco no ápice deles a arte, como expressão suprema da alma humana. Nada espelha melhor a idéia dominante de uma época. Por vezes é graça e suavidade, doutras vezes, simplicidade e potência; ainda, profundidade de espírito puro, ou então, ouropel vazio de forma. Exprime sempre o pensamento humano que ascende ou decai, aproximando-se mais ou menos da grande ordem divina. O pensamento que ora ousa, ora repousa, ora é jovem, ora cansado, é primeiramente retilíneo e cortante como a força, depois, arredondamento de linhas, um esforço em descida, um inútil escorar-se do vazio na grandiosidade das formas. Estilo tranquilo ou audacioso, límpido ou confuso, cansado ou poderoso, representa sempre a face exterior da alma humana, do mistério do infinito que nela se agita. Como tudo o que existe tem um rosto, expressão de alma, uma revelação do pensamento divino em que o universo fala incessantemente, assim a arte é revelação de espírito, tanto mais valerá, quanto mais a forma for transparente e simples. Quanto menos se fizer sentir a si mesma, tanto mais a idéia será substancial e poderosa na eternidade, vinculada à lei, impondo-se à forma. Fenômeno estreitamente ligado às fases ascensionais ou às involuídas do espírito, a arte apaga-se quando o espírito adormece, porque só nele reside sua inspiração. A arte é espírito e a matéria a mata. O materialismo a matou, agora tem de renascer.

   Começareis de novo, com meios novos mas, acima de tudo, com uma idéia nova. O segredo de uma grande arte consiste em saber realizar o milagre da revelação do mistério das coisas; em saber exprimi-lo à luz dos sentidos, após íntima e profunda comunhão com o mistério que palpita na alma do artista. Este tem de ser um vidente, normal no supernormal, onde tudo é espírito e vossa concepção de vida comum não chega. A nova grande arte deve ser integral: presume o artista total, o super-homem que realizou sua maturação biológica; não o agnóstico, o meramente técnico, mas o espírito completo sob todos os aspectos. É indispensável que o homem tenha englobado em si a visão do universo, nela tenha atingido as mais profundas concepções de vida.

   O simples valor da técnica é dos períodos de decadência; a arte, cujo valor tenha passado da substância à forma, é a enfeitada e preciosa da decadência. Quem tem algo de substancial para dizer, di-lo na forma mais simples. Mas é preciso ter algo a dizer, uma grande visão e uma grande paixão na alma para que a forma não assuma a primazia. É necessário dominar esse revestimento do pensamento, estar prevenido defensivamente contra as hipertrofias do meio que sufoca o fim; impedir que a técnica, serva humilde do conceito, quando este era grande em suas origens e amadurecido até a perfeição, queira agora agigantar-se para sufocá-lo. A forma emerge da decadência. Quando a idéia se cansou, surge então a luta entre a vestimenta e a substância e, se esta cede, a outra cresce, invade e domina.

   Trata-se da substituição dos valores inferiores, quando os mais altos decaem. É a degradação do fenômeno artístico, que tem seus ciclos, que são os do fenômeno psíquico. Na evolução da arte, há uma espécie de inversão de relações. Quanta riqueza de conceitos na pobreza da forma nas origens, quanta riqueza da forma e pobreza de conceitos na decadência! Uma relação transforma-se gradualmente na outra. O ciclo evolutivo da técnica, nascido mais tarde e mais jovem que o ciclo evolutivo da idéia, sobrevive-lhe e o substitui; mas sua maturidade constitui descida do princípio animador da arte.

   A grande arte é simples. Sua grandeza é proporcional à potência do pensamento e à simplicidade da forma. Vossa atual fase artística é de destruição, de libertação da forma. Estais na última fase de descida, em que já aparece a aurora da nova espiritualidade, cujo primeiro ato é o abandono das técnicas superadas. Tende uma alma e sede simples. As complicações ornamentais exprimem vacuidade, a riqueza de minúcias enfraquece a idéia central. Belo é tudo o que corresponde à própria finalidade; a beleza está na linha que corresponde ao fim pelo caminho do menor esforço. Ela é a expressão da correspondência, do equilíbrio, da harmonia, dos princípios da Lei. A suprema beleza reside no conceito de Deus. O artista tem que sentir e seguir esse conceito nas formas em que se manifesta. O progresso da arte reside em manifestar, com evidência cada vez mais límpida e com maior profundidade, a beleza do pensamento divino da Lei que governa o universo. A ascensão da arte é um processo substancial de harmonização, isto é, a expressão, na forma intuitiva do belo, da evolução de todas as coisas que observamos. O belo é universal e pode haver um belo lógico, como um belo mecânico, uma estética grega de formas, como uma muito mais elevada estética moral e cristã de obras. Em todas as alturas, na lógica dos meios, existe uma arte de acordo com a gradação das finalidades. Quando existe um objetivo a atingir, o estilo nasce por si mesmo na forma mais simples, mais transparente, mais harmoniosa, como o encontra e o exige a lei do menor esforço. Os estilos refletidos, desejados, estudados, estão em todos os campos, em roupas nas quais em vão procurais um corpo. Não é a escola nem a análise que plasmam o artista, mas um tormento de alma, uma agitação de tempestades e de visões.

   Entendo por arte a expressão dos princípios que estão na harmonia da lei e são verdadeiros em todos os campos, seja literatura, pintura, escultura, arquitetura ou música. A música atual, como tudo o mais, evolui em profundidade. Sua atual evolução representa a passagem de sua dimensão linear de melodia, para sua dimensão volumétrica de sinfonia. A simples sucessão de sons da música melódica, à proporção que ascende à fase superior, em que conquista o espaço e o volume, dilata-se em extensão e profundidade de sentimentos, passando da expressão das paixões mais elementares (amor, vingança) às produzidas por uma sensibilidade mais complexa, aprendendo a descrever todas as harmonias e belezas da criação. A música volumétrica sinfônica deveria inspirar-se cada vez mais numa estrutura de perspectiva, em que o desenvolvimento dos vários motivos, mesmo harmonizando-se com a concepção única do quadro, permanecesse distanciada nos diversos planos. Daí resultaria, na sinfonia, grande profundidade de perspectiva, em que o motivo ou motivos do primeiro plano se distanciariam dos desenvolvimentos sinfônicos do fundo; profundidade e distanciamento não apenas em sentido sinfônico, mas também conceptual e emotivo. Pois, o motivo só pode ser a expressão de uma forma-pensamento que nasce, desenvolve-se e morre, dominando ou subordinando-se, que se aproxima ou se afasta, toca e influencia as outras, passa, volta, sobrevive na recordação e apaga-se. O motivo é a voz de uma vida que quer revelar-se toda e pode fazê-lo, porque a música, além da beleza da linha do desenho, além da riqueza dos tons, substitutivo da cor na pintura, possui o dom supremo do movimento, em que se exprime o devenir da vida.

   Em sua evolução, a música, além do movimento no tempo, conquistará cada vez mais profundidade no espaço, nova dimensão em que se expandirão as vozes de tantas vidas, porque tudo é vida e tem voz própria. O futuro consistirá em continuar a tornar cada vez mais ampla a estrutura sinfônica e a estender sempre a novos sentimentos sua potência descritiva; deve purificá-los e espiritualizá-los, até que a música se torne voz do infinito, a linguagem da intuição, a revelação das harmonias do universo, do aspecto beleza dos grandes conceitos da Lei. A arte busca a unificação em todos os seus aspectos; fundir-se-ão as diferentes artes como formas convergentes, no único esforço de exprimir o espírito. Na atmosfera artística dos templos seculares, entre os muros antigos, saturados de vibrações místicas dos povos, a música será meio de harmonização de ambiente e de sintonização receptiva na oração; será vibração criadora de bondade. Todas as artes se fundirão numa só música, educadora suprema; u’a música imensa que vos falará da vida do homem e de todas as criaturas. Todas as artes serão uma oração, um anelo do espírito que se eleva para chegar a Deus.

   Vossa arte futura será sadia, educadora, descida de Deus para elevar a Deus. Se assim não for, será veneno. A arte que permanece na Terra não é verdadeira arte, tem de elevar-se ao céu, ser instrumento de ascensão espiritual. Deveis beber nas fontes da verdade e eu vos escancarei suas portas. A arte tem de iluminar-se com a luz do espírito e eu o fiz reviver entre vós. Dei-vos, tanto no campo científico e social, quanto no campo artístico, uma idéia imensa para exprimirdes: a harmonia de todos os fenômenos, da ascensão de todas as criaturas, e a de vosso amadurecimento biológico. A arte apodera-se da ciência. É verdade que não soubesteis dar a esta um conteúdo espiritual; dai-lhe, contudo, uma fé e ela se tornará arte. Que mundo grande, novo, inexplorado, que sinfonia de concepções cósmicas para exprimir! O futuro da arte está na expressão do imponderável. Que riqueza de inspiração pode descer sobre a Terra, vinda do alto, por intermédio do artista sensitivo! Que oásis de paz, para refúgio da alma, nessas visões do infinito!

   A verdade universal desta síntese pode exprimir-se em todas as formas do pensamento: matemática, científica, filosófica, social e também artística. Esta obra pode também tornar-se uma grande tragédia, em que palpita toda a dor e explode a paixão das ascensões humanas. Que drama maior que o esforço da superação biológica, da luta do espírito para sua evolução, de suas quedas e de suas ascensões, da felicidade e da dor, de um destino que progride através da cadeia de renascimentos, de uma lei divina que tudo vincula à sua ordem! Esta irmanação de fenômenos, de seres, esta unificação de meios de expressão diante da idéia única, este monismo científico, filosófico, social, basta para dar alma a uma nova arte, como a uma ciência, a uma filosofia, a uma sociologia nova.

   Vossos palcos ignoram tragédias tão amplas, porque estes conceitos exatos faltavam antes ao mundo. Era vaga a intuição dos grandes problemas, incerta a reconstrução do destino humano. Há sempre uma zona de nebulosidade, em que se aninha a dúvida e o mistério. Está na hora de ultrapassar o ciclo restrito das baixas paixões de fundo animal. O teatro não deve ser palco de involução, explorando as multidões, mas de evolução, educando-as. Então, ele não pode ser problema econômico, mas função do Estado. A arte deve superar os loucos futurismos, tomar como fundo o infinito e a eternidade, por ator o espírito que, numa vida sem limites, debate-se entre luz e trevas e conquista sua libertação. O céu e a Terra ressoam com a tempestade imensa que as forças do mal desencadearam. Apresentai o drama apocalíptico sem símbolos, em sua nua potência dinâmica de conflito de forças, em qualquer das formas de artes em que o queirais exprimir, suspenso nas dimensões do tempo, entre a evolução bíblica e o idealismo científico.

   Esta a grande arte futura. É mister que nasça o gênio que a sinta e a manifeste; que a sinta acima da realidade sensória e nela a encerre e exprima. Chegado ao ápice dos valores espirituais, ele combate e conclui o drama da unificação e da libertação. É necessário que uma alma superior viva o fenômeno e, em seu tormento, liquide o passado, lançando os espíritos num vórtice de paixões mais altas e dinâmicas. É necessário um ser que, num martírio de fé, macerando-se e queimando-se por sua arte, dela faça missão e a ela se dê todo. A arte será então o altar das ascensões humanas, onde o espírito se oferece em holocausto de dor e paixão em sua elevação para Deus; será a oração que une a criatura ao Criador, a síntese de todas as aspirações da alma, de todas as esperanças e ideais humanos.

  Assim a Lei reconstrói na história os equilíbrios violados e guia os acontecimentos acima da vontade dos dirigentes e dirigidos. A história caminha sem jamais parar. Cada século produz, elabora, assimila um conceito e o entrega realizado — patrimônio hereditário que se acumula — ao século seguinte, que se preparará para novas criações. Cada época tem sua função criativa; os outros aspectos da vida, entretanto, calam-se e esperam. Dessa forma, a Idade Média, entre violências e paixões, terrores satânicos e visões místicas, aguardava a construção da sua consciência do bem e do mal: um tormento de alma, para reencontrar a voz de Deus; um esforço, acompanhado do tormento de uma dor coletiva opressora, a fim de realizar o sonho da libertação individual. Titânica ebulição de almas, a Idade Média, no campo da arte, da política, da ciência, lançava a semente das maiores construções espirituais. Vosso século esqueceu o espírito, a fim de criar ciência, mecânica e velocidade, que fundamentaram vossa psicologia. Depressa essas coisas estarão conquistadas e, mesmo utilizando-as, a consciência dirigir-se-á, por meios mais poderosos, para construções mais elevadas de espírito em todos os campos. As leis da vida, adormecidas por milênios num ritmo uniforme, sofreram uma sacudidela e hoje estão despertas para lançar-vos à civilização do terceiro milênio.

   Como a Revolução Francesa, momento crítico e longamente preparado nos séculos, concretizou à luz da existência histórica a subida da burguesia produtiva, assim a futura revolução maior da humanidade, filha de uma maturação substancial biológica, trará à luz a subida política da intelectualidade consciente. Não compreendo como intelectualidade aquela miscelânea mental entulhada, cultura moderna, fato externo que não proporciona virtude à personalidade, mas entendo-a como uma maturação de raça construtora de instintos mais altos, que tornem o homem um ser escolhido pela seleção, para função social do mando. A esta função de governo estará agregada, por qualidades inconfundíveis de raça e não por superposição de cultura e de títulos, uma elite insubstituível, tal como na natureza nenhuma célula de tecido muscular poderá substituir a célula à qual foram confiadas funções nervosas cerebrais.

   A base biológica da divisão do trabalho por especialização de capacidade é a única que pode justificar o conceito do futuro estado orgânico, diferenciado nas unidades compactas em sua fusão, expressão viva do organismo biológico coletivo. Estado, em sentido colabora-cionista, em que, além das funções econômicas e produtivas, acrescentam-se todas as funções sociais e éticas. A esta substância biológica temos sempre que nos referir todas as vezes que quisermos compreender o fenômeno político; não construções ideológicas, mas a realidade da vida em suas mais profundas raízes, que se enxertam na fenomenologia universal, seu fundamento indestrutível.

   Se a Idade Média, em suas condições sociais involuídas, só podia oferecer ao homem um sonho de libertação individual pelos caminhos da renúncia mística, hoje nasceu o Estado. A sociedade constituiu-se de forma orgânica, e no seu seio o indivíduo pode atingir toda sua realização. Se a Idade Média atendeu às construções prevalentemente individuais, retoma-se, hoje, o ciclo das construções e conquistas coletivas. Não se concebe mais o indivíduo isolado, mesmo se for santo, numa fuga mística da companhia humana, mas o indivíduo fundido nela em colaboração fecunda. Hoje, podemos definir mais exatamente o poder central, como central psíquica e volitiva de uma nação, e estender o conceito de Estado a todo o organismo nacional.

   Em sua evolução, o conceito de Estado nasceu do poder monárquico absoluto, tipo Luís XIV. Na longa luta feudal, uma família vencera, primeiro submetendo as outras, depois assimilando-as. Realizado o esforço da concentração do poder, antes espalhado sem coesão em mil ramificações, dando o surgimento de um órgão central numa vasta coletividade, este não podia, por sucessão natural de impulsos, deixar de elaborar logo o conceito de Estado na evolução das Monarquias que, nessa elaboração, esgotavam sua função histórica. O Estado tornou-se, por seu mérito, sempre mais orgânico, progressivo em profundidade, não para limitar o indivíduo, mas para valorizá-lo e elevar-lhe a consciência; tornou-se cada vez mais rico de funções e de deveres, até a hodierna concepção de Estado.

   Hoje, o Estado não é mais apenas um poder central superposto a um povo. Esse era o Estado embrionário, filho da monarquia. Não mais se admitem essas superposições. Portanto, o Estado não é mais apenas um poder central dominador, mas é o cérebro de seu povo e só pode ser expressão de uma consciência nacional, de uma unidade de espíritos, baseada numa unidade ética. Se as unidades primordiais da matéria já atingiram tão perfeita e maravilhosa organização ao se aglomerarem nas unidades coletivas dos cristais (orientação molecular, gênese e acréscimo proveniente de um germe cristalino, reparação das zonas mutiladas e reconstrução exata da forma individual); se tanto psiquismo já explode na matéria, fundindo as moléculas em unidades orgânicas, imaginai a perfeição que terá de atingir o mesmo princípio, que maravilhosa complexidade de formas o mesmo psiquismo terá de produzir, elevado depois de tão longo caminho evolutivo à consciência social, ao expandir finalmente seu impulso na criação das superiores unidades coletivas humanas. Por esse caminho o Estado prosseguirá em sua evolução, absorvendo e organizando, não apenas representando um povo inteiro, num progressivo processo de descentralização e concentração, de contatos cada vez mais intensos entre periferia e centro. Com isso, a autoridade não se pulveriza, mas o povo funde-se nela, numa correnteza de fluxos e refluxos, que o torna cada vez mais um organismo a funcionar, consciente e compacto.

   Nossa concepção biológica dos fenômenos sociais e nossa concepção evolucionista do Estado nos levaram, naturalmente, a esta visão atual de um Estado cada vez mais unitário e, assim, fica logicamente colocado no quadro da fenomenologia universal, no caminho da evolução coletiva para o ápice da fase α. Solicitei à realidade biológica que me desse as linhas do ideal social. Essa realidade vos reafirma, em toda a parte e sempre, que o princípio e a vontade da Lei são: trabalho-função e divisão, especialização e reorganização de capacidades e de atividades. Observai que fundamentos universais foram dados aqui a esse conceito de Estado. Nenhum sistema político jamais soube justificar-se mediante uma filosofia científica que retomasse à gênese da matéria, da energia e da vida. Conclusões espontâneas, encarceradas numa jaula de racionalidade, necessárias num organismo de conceitos e de fatos, tal como são o universo e esta Síntese que o descreve.

   Hoje, o Estado nasceu. Não podiam denominar-se assim os velhos organismos políticos, baseados na superposição de classes até o absurdo, inadmissível, de um domínio estrangeiro. Hoje, um povo não é um domínio, mas um organismo cuja alma é o Estado. Esta é a etapa hodierna das unificações dos indivíduos em coletividades, que progridem da família à classe, à nação, à humanidade. Para chegar-se a saber viver como unidades coletivas superiores, é necessário passar pelas unificações componentes menores, vivendo-as através de uma maturação gradativa e consciente. Portanto, são absurdos os internacionalismos abstratos, quando o mundo ainda trabalha para encontrar suas unidades étnicas menores e sua criação atual, antes ignorada. A formação progride por continuidade, já que uma unidade coletiva não é mero agregado regido por pressões de leis; para resistir ao choque do tempo, tem de ser um organismo regido por uma consciência coletiva, fusão de almas, e só pode operar após longa maturação; uma unidade só se mantém na medida em que se tenha formado e enquanto a ela corresponda outra íntima unidade psíquica que a mantenha coesa. Uma nação é simplesmente a veste externa de um psiquismo coletivo, a forma biológica desta unidade espiritual superior.

   Hoje, o Estado só pode ser povo, povo só pode existir organizado em Estado. A progressão das unidades e consciências dirigentes continuará a dilatar-se na evolução, até uma unidade e consciência que abarquem toda a humanidade, e daí a uma unidade e consciência cósmica que compreenda todo o universo. A luta é esforço de transição que cessa ao atingir-se a meta, a unificação mais elevada. Esta é a tendência constante, o significado das grandes tentativas históricas da formação dos impérios. Política, científica e espiritualmente, o ser busca a unidade.

   Também o campo político é campo de verdades relativas e progressivas; o conceito de Estado está em contínuo devenir, tanto quanto um povo é uma unidade em contínua evolução. Cada geração vive um momento do gradativo desenvolvimento da verdade política do próprio povo, como por momentos sucessivos vive sua verdade artística, científica, ética e religiosa. Só hoje se pode falar em Estado. Para chegar aí, a jornada foi longa. Trata-se de uma maturação biológica, longamente elaborada, mesmo que tenha explodido em revoluções. A unidade coletiva expressou-se desde as origens em seu poder central, pelo método da seleção biológica. Assim, criado esse centro, progressivamente disciplinou-lhe os poderes. Primeiramente, a coação, ou seja, o arbítrio de um vencedor; depois a convenção, ou seja, o arbítrio das maiorias; finalmente, hoje, a função coletiva, isto é, a justiça. Essas são as etapas evolutivas do princípio da atribuição de poderes.

   Mais minunciosamente, temos, no princípio, um poder absoluto subdividido, como no feudalismo; depois, um poder absoluto, concentrado nas mãos do mais forte (monarquia), vencedor de uma classe inteira, mais tarde domesticada e convertida nas cortes (classe aristocrática). O centro ainda se ressentia das origens familiares, o cabeça era dominador de consanguíneos e o poder hereditário. Isto demonstra que o poder nasceu na família, nas mãos do chefe, e a família é o instituto basilar da sociedade humana. Nesta fase,  o poder é conquista, a função dirigente atravessa a fase de luta, própria das formações, correspondente à da força, ainda não elevada a direito e justiça. Estamos na perfeição da monarquia absoluta, do Roi Soleil, que dizia: “L’État c’est moi” (“Eu sou o Estado”). Meio século de abusos com Luís XV e, com Luís XVI, o sistema desaba. Como todos os fenômenos, também o político procede por amadurecimento de ciclos. A revolução reage com um poder absoluto confiado às maiorias. O rei era o povo. Foi chamado de poder representativo, democrático; passava do máximo de concentração ao máximo de descentralização.

   Assim caminhava a evolução do mando por excessos e reações corretivas extremas, com tendência constante ao abuso, porque o homem ainda não evoluíra, a causa não se aperfeiçoara; avançava por uma série de enérgicos contragolpes, porque a lei de equilíbrio impunha a necessidade de uma correção contínua. Num estado de inconsciência que gerava abuso e excesso, a evolução não podia caminhar senão oscilando entre impulsos e contra-impulsos. O conceito de soberania popular nascia como reação ao abuso da soberania de um só. Mas, substancialmente, ao arbítrio de um só, sucedeu o arbítrio das multidões.

   Acredita-se sempre somente nas mudanças de sistemas e não se vê que a substância que decide é a maturação do homem. A revolução francesa iniciou o povo na difícil arte do mando, mas desde os primeiros momentos o povo demonstrou-se incompetente e inconsciente, excedendo-se nos piores abusos. O poder requer a mais alta maturidade de consciência; é uma grande força, perigosa nas mãos de uma criança. Mas desde esse momento, o povo começou a estudar a nova arte e a resolver o novo problema. Assim, abuso e reação amortizar-se-ão gradativamente e será conquistada a substância, conteúdo de todas essas mudanças: a consciência coletiva, a formação do Eu na unidade social. Só nesse sentido, isto é, o de ser o seu exercício um instrumento de formação de consciência, o poder representativo não podia ser um absurdo em sua alvorada, porque presume uma consciência coletiva que então estava justamente a formar-se, efeito do trabalho do Estado, não causa de sua construção. Mas, como vimos, função e órgão apoiam-se, criando-se reciprocamente. Aconteceu, então, que, pelo mesmo princípio de correção do abuso, pelo qual o sistema representativo tinha corrigido o poder monárquico absoluto, um novo poder centralizador corrigiu os abusos do poder representativo. A infertilidade da descentralização levou novamente à centralização. Assim, oligarquias e democracias se alternam e se compensam mutuamente.

   Mas essa oscilação entre os dois extremos não tem, apenas, a função de restabelecer o equilíbrio da Lei; é a técnica evolutiva, na qual o homem é trabalhado como material político constitutivo. Esse alternar-se de sistemas não é simples compensação de contrários, mas um escorar-se de impulsos e contra-impulsos; é um jogo de forças, de cujo contraste surge um progresso íntimo. A eliminação do arbítrio é obtido não só por controles externos, mas sobretudo por amadurecimento de consciências. Como pode ser mais moderada a oligarquia, depois de um século de experiência democrática! Como aprendeu a executar civilizadamente as revoluções, a inclinar-se para o povo, a reencontrar, em sua elevação, a própria função justificadora! Com quanta maturidade se poderá voltar à democracia, quando a oligarquia tiver cumprido sua função de formar a consciência de um povo! A que distância se encontrará esse povo daquele que começava sua vida política com a Revolução Francesa! Como o contragolpe será mais civilizado e fecundo, num povo que, por merecimento de um poder centralizado, foi educado para saber eleger e governar, para saber evoluir nas concepções sociais! Essa é a evolução política da unidade coletiva, paralela à evolução em todos os campos.

   Detenhamo-nos na concepção do Estado futuro, depois de tê-lo orientado assim no tempo e em seu transformismo ascensional. Concepção nova e ousada, base, no campo social, da nova civilização do terceiro milênio. Estado democrático e aristocrático ao mesmo tempo, ele representará a fusão dos dois princípios de concentração e descentralização, ambos necessários. Em sua função unitária, criará uma coletividade mais compacta, em cujo seio o indivíduo não será mais um membro desordenado de um rebanho desordenado, mas será soldado de um exército em marcha, em que vibrará a alma do chefe. Pela primeira vez na história, o Estado fará do povo um organismo, em cujo centro, fundido com ele, far-se-á síntese de vontades e de poderes. No Estado futuro o povo não será mais um rebanho governado, que só deve dar e obedecer, mas será o corpo do cérebro central (o governo); o organismo da alma que dirigirá, que por toda parte o penetrará e vivificará com seus tentáculos e ramificações nervosas. Não mais um chefe, nem uma classe, nem uma maioria que mandará por si só, mas uma doação de deveres na cooperação, uma fusão completa num trabalho e num objetivo comuns. Sem dúvida que historicamente fixou-se na alma das massas, por hábito milenar, uma indiferença pelo poder central, mutável e ausente, mas invariavelmente senhor, diante do qual o povo tinha de ficar sempre igualmente inclinado na posição de servo. Formou-se, assim, um instinto de aquiescência passiva, de tolerância e desinteresse, como por uma coisa que não lhe diz respeito, que só age para pesar sobre o povo, educado apenas para a virtude de sofrer e calar. O Estado moderno tem de começar pelo trabalho de demolição desta psicologia de absenteísmo político, que se fixou na alma coletiva. Pensai que cada concepção e realização política não constitui jamais a última meta definitivamente alcançada, mas que, por ser a síntese de todo o passado, é também o germe de um futuro ilimitado.




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