Nestas conclusões sociais está contido tudo o que é preciso para refazer o mundo, baseado em princípios biológicos, estritamente científicos, vinculados com o funcionamento orgânico do universo fenomênico. Não insisto em pormenores, porque em meu sistema tudo é orgânico; uma vez fornecida a chave dos fenômenos, exposto o princípio que os governa, é fácil  concluir também nos mínimos detalhes. Basta haver definido o edifício do universo em suas linhas maiores. Estas conclusões poderão parecer irrealizáveis, porque distantes da involução atual, mas não são utópicas, pois movem-se e moveram-se constantemente numa atmosfera de racionalidade. Se vos parecerem utópicas, pensai que esta filosofia, embora se abstenha de unir-se e enquadrar-se no pensamento filosófico humano, liga-se e com perfeita aderência se enxerta no quadro da fenomenologia do universo. Esta não é filosofia de superfície, pois desde a série estequiogenética para cima, todos os fenômenos da matéria, da energia, da vida e do psiquismo a sustentam.

   Nada disso é mera sucessão de idéias, mas representa uma concatenação lógica, pela qual as conclusões estão condicionadas desde as primeiras afirmações e reforçam-se a cada passo deste tratado. Pensai, além disso, que meu pensamento não se move no âmbito estreito das concepções humanas, mas o sobrevoa amplamente para horizontes vastíssimos; por isso, coloca as grandes metas à distância, para onde os milênios caminham com grande esforço. Dei dois limites máximos ao vosso concebível, como metas da evolução humana: o super-homem para o indivíduo e o Evangelho para a coletividade. Em substância, constituem uma realização única. Mas o pensamento não tem limitações.

   Temos observado a evolução das mais poderosas forças sociais que operam nas massas humanas, para a formação de sua alma coletiva. Observemos agora essas forças convergirem para a nova expressão daquela alma, ainda jovem, verdadeira central psíquica e volitiva, o Estado. Este é o organismo situado no centro do organismo social, concentrador de poder dirigente de todas as funções de um povo. Compreendido dessa maneira como poder, ele é o órgão motor psíquico promotor e coadjutor das maturações biológicas, individuais e sociais, que vimos. Sua função é de formar o homem, de estimular as ascensões humanas; sua meta mais alta é criar no campo do espírito. Toda a sua multíplice atividade, jurídica, econômica e social, deve ser destilada nessas criações, únicas que fixam na eternidade todos os valores. Esta função justifica o monopólio da força, a obediência imposta ao cidadão. As posições supremas implicam supremos deveres, ai dos órgãos dirigentes que não executam suas funções.

   Minha concepção de Estado apoia-se em bases estritamente biológicas. Elevei a ciência até o ponto de poder concluir em todos os campos, até mesmo no filosófico-jurídico-político-social; lancei as bases de uma ética científica, de nova filosofia científica do Direito. Minha concepção é racional, harmoniza-se com todos os fenômenos da natureza; portanto, é universal. É uma concepção progressiva, se qualquer religião, no campo ético, encontra sua posição, também no campo político, qualquer nação pode escalonar-se no seu nível, de acordo com sua maturidade e compreensão. Como os fenômenos da vida, no seu sistema, são fenômenos psíquicos, assim os fenômenos sociais são fenômenos biológicos. A sociedade humana é um organismo, tanto quanto são organismos as sociedades animais, todas igualmente sustentadas por leis e equilíbrios exatos, como são organismos os organismos animais. Tudo está intervinculado na criação e repete os mesmos princípios. O corpo animal, em seus equilíbrios e intercâmbios entre centro e periferia, cérebro e órgãos, na distribuição e especialização entre funções centrais e periféricas, dá-vos o exemplo do princípio realizado das unidades coletivas, que se encaminha a fixar-se na sociedade humana.

   Em minha concepção, os fenômenos sociais aparecem despidos de todas as incrustações exteriores, nus em sua substância, como um feixe de forças em ação. São regidos por uma lei exata e profunda; são a fisionomia externa de um conceito que se desenvolve com uma lógica própria, que os diagramas estatísticos, em seu andamento, exprimem, permitindo-vos, desse modo, a previsão de seu desenvolvimento futuro. Doutra forma, não poderíeis estabelecer o cálculo das probabilidades. Estudamos esses andamentos no desenvolvimento da trajetória típica dos movimentos fenomênicos (cap. 25), observando antes a lei de variação (evolução em função do tempo) em coordenadas ortogonais (fig. 1: tempo no eixo horizontal, das abscissas; evolução no eixo vertical, das ordenadas); depois em diagramas em coordenadas polares (fig. 3) e por interpolação parabólica (fig. 4). A linha determinada pela relação entre as ordenadas e as abscissas descreve a lei com expressões de cálculo algébrico, em forma de problema de geometria, com correspondentes equações.

   O objetivo do método estatístico é justamente chegar, por meio da observação em massa - em que se compensam e desaparecem as acidentalidades individuais - à lei oculta do fenômeno, à indução da relação real constitutiva. Por isso, o fundamento do método estatístico reside na lei dos grandes números, porque a aproximação do princípio ou causa constante, não cresce em razão direta, mas em proporção à raiz quadrada do número de observações. Com essa relação chega-se, assim, à expressão da efetiva constituição do fenômeno. Operando com grandes números, desaparecem as diferenças unitárias e aparece uma fisionomia diversa, uma ordem nova, coletiva, que exprime um conceito da lei. A expressão estatística atenderá à causa, será fixa e constante, se esta for constante; será dada pela regularidade nas variações, se a causa for, mais frequentemente, um conceito de evolução. Isto vai da estequiogênese aos fenômenos sociais. Tudo é ordem. Todo fenômeno é expressão da Lei. Ao pesquisar as causas, guiados pelo princípio de causalidade, vos aproximais do pensamento de Deus, para aí descobrir sempre uma lógica exata. Se muitos fenômenos sociais vos parecem atípicos é porque a causa, complexa demais, vos escapa; no cálculo participam interferências de inumeráveis fenômenos, todos interdependentes. Mas, dominadas as causas e compreendida a lei do fenômeno, é possível, em qualquer campo, estabelecer a priori seu futuro, por meio de progressões exatas. Então, o futuro não é mais um mistério.

  A relação de causalidade impõe, na evolução dos fenômenos sociais, um determinismo histórico inviolável. Há um destino do povo, como há um destino do indivíduo; há um cálculo exato de responsabilidades em que se equilibra a liberdade coletiva, como vimos que se equilibra a liberdade individual. A ignorância do materialismo pode não ter visto nada disso, mas nem por isso a lei deixa de estar presente. Insisto nas bases científicas do fenômeno histórico, que só pode ser compreendido como um momento na fenomenologia universal, com as mesmas leis de relação e de cálculo de equilíbrios, que regem o mundo físico e o dinâmico. Há uma continuidade psicológica no desenvolvimento dos fenômenos sociais, uma concatenação férrea de causalidades, mesmo que os atores colocados no palco, homens e povos, nem sempre o compreendam. A Lei age por meio do instrumento humano, movendo o mecanismo dos instintos individuais e coletivos, levando de roldão os que se rebelam, impondo por toda parte, em cada movimento, seu imperativo categórico. Essas forças interiores e profundas sobem e explodem acima da consciência dos povos. Elas fazem a história. Por isso, não é preciso compreendê-las. A compreensão é posterior aos acontecimentos, a consciência é o resultado da história. Além dos estrondos externos dos choques desordenados, no âmago está sempre a ordem.

   Este princípio guia os impulsos desordenados dos instintos individuais e coordena-os para um objetivo único. Doutro modo, uma mixórdia de forças só produziria o caos e, no entanto, a história segue uma linha exata de progressos e regressos, de maturações e revoluções, de ciclos criativos e destrutivos. Se cai, é para levantar-se; se destrói, é para reconstruir mais alto. Cada momento histórico é um movimento coordenado para um fim. Concebei a história não como uma sucessão de acontecimentos exteriores, sem nexo, mas acima de tudo nas causas e nas finalidades, como um amadurecimento biológico, uma realização progressiva de metas, um funcionamento orgânico. A história mostra-vos a técnica evolutiva do psiquismo coletivo. Olhai, para além dos fatos, o fio sutil da lei que o rege e une. Há o ciclo do nascimento e da morte das civilizações. Nas revoluções há um ritmo de desenvolvimento na ordem como na desordem, pelo qual, a qualquer potência social, numa curva do caminho, a lei diz: basta! Todos os desequilíbrios se recompõem num equilíbrio mais amplo, no qual se completam, para a grande onda progressiva do bem. Não compreendereis a história se não observardes, por trás dela, a Lei: a Lei, a única que verdadeiramente comanda, que impõe seus ciclos de maturação e esgotamento, impondo o ciclo dos renascimentos às civilizações como aos indivíduos.

   O destino confia uma função ora a uma célula social, ora a outra, e a recolhe tão logo se esgote. Na tempestade das revoluções, como no trabalho de ordem, o homem é sempre uma força, é substancialmente um espírito nu que executa sua missão. Assim, muda totalmente o conceito de governantes e governados, reconduzindo tudo ao que afirmamos para um indivíduo, de vida-missão. É a história que utiliza os homens para seus fins, quando os coloca em evidência, e não os homens que a conquistam para si e se impõem a ela. A idéia de conquista e vantagem pode ser um mecanismo necessário para movimentar as mentalidades inferiores. A massa contém sempre uma reserva de grandes homens para todas as suas necessidades e chama ora um, ora outro, de acordo com sua especialização, para que sua personalidade renda o máximo. Logo que surge a necessidade, imprime eficiência aos valores de suas reservas. O conceito medieval de poder hereditário é substituído hoje pelo conceito de poder conquistado por seleção biológica, expressão   de um substancial poder individual de governo. A direção suprema estará aberta a quem quer que saiba superar a prova de fogo, garantia única de valor intrínseco. Superá-la para conseguir, e superá-la diariamente para manter-se.

   Além de todos os amontoados de leis, a substância e a garantia máxima residem nas forças biológicas, que não garantem o homem, mas a função; derrubam-no logo que ele não mais lhe corresponda. Ao conceito de direção-poder e prerrogativa, substitui-se o conceito de direção-trabalho e função. Assim, a história chama sempre seus homens, superando as construções legais, desperta-os, levanta-os e os utiliza; rejeita-os sem saudosismo, logo que cesse a função, ou então, logo que caiam no abuso ou na fraqueza. A prova é grande, o risco é tremendo, só quem tem raça vence e sobrevive. Só quem possui uma substância de valores intrínsecos sabe distinguir-se e valorizar-se, sabe compreender e comprimir as forças que o rodeiam, ao invés de ser arrastados por elas.

   Em meu sistema, o comando supremo é apenas o trabalho da função suprema; a capacidade psíquica e volitiva, a responsabilidade, o perigo e o peso máximos. Em meu conceito, a posição de mando só é tal enquanto é posição de dever, posição de obediência aos princípios dirigentes da Lei. As hierarquias humanas são meramente pequena zona, que se prolonga além da Terra, além dos limites mínimos e máximos humanos. Toda posição é relativa e existe sempre uma superior, embora esteja no imponderável das forças da vida, que premia e pune a quem deve prestar contas das próprias obras. O comando supremo é simplesmente a suprema obediência, cuja alegria só é confiada a quem subiu tanto espiritualmente, que compreende e sabe executar a ordem divina. É função e missão, como o são todas, mesmo as mais humildes atividades sociais.

   Esta é a base biológica da atribuição dos poderes, o alicerce único que garante a correspondência do valor à posição e a seu rendimento, base que se mantém maleável (adaptação) aos fins da evolução e, no entanto, resistente, mas sem cair na rigidez. Mesmo no campo político, o fator moral tem que ser preponderante, como em todos os campos. Esses equilíbrios e proporções, entre valor e posição social, fazem parte integrante de minha ética científica exata. Nesta não há escapatória da posição de responsabilidade e de dever, a não ser na posição de obediência, porque tudo tem de ser balanceado. Quem depende tem de carregar o peso da obediência; quem dirige tem de carregar o peso do mando. Em minha ética nenhuma posição pode ser de vantagem, mas, em proporção às forças individuais, trata-se de esforço igual, no mesmo caminho evolutivo. Também no campo político tudo é divisão de trabalho e estreita cooperação. Não só o colaboracionismo econômico, mas também social, no seu sentido mais amplo.

   Quem assume, em qualquer campo e nível, uma função dirigente, sem a correspondente capacidade e responsabilidade, frauda a lei e se expõe à sua reação, que armará contra ele os acontecimentos humanos. Assim Luís XV mereceu, para a monarquia francesa, a revolução. Luís XVI era um justo, mas nenhum exército nem habilidade política podia salvá-lo. Estava sozinho contra um destino de classe, sozinho entre forças que se lhe acumularam contra, durante um século. Nenhuma construção social pode resistir, por mais que seja baseada na legalidade, quando não estiver dirigida por um princípio mais alto, por um impulso da lei: ao contrário, é agredida por suas reações. Assim nasce Napoleão, mero instrumento da guerra difundidora das novas idéias, e é jogado fora como um trapo, logo que esgota sua função, justamente como o último rei da França, de quem rira. Assim a Lei domina soberana os acontecimentos humanos. Eis a história: um entrelaçamento de causas e forças em movimento, reação que estabelece o equilíbrio: Danton, sufocado pelo sangue do Terror, Robespierre, pelo sangue de Danton; a revolução que devora seus filhos.




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