Como vedes, enfrento todos os problemas econômicos, subindo até suas fontes, que estão na alma humana. A solução é radical, substancial, e, acima de tudo, muito simples. Mesmo no campo econômico olhamos nas profundezas, atingindo a substância além da forma. Substituí a premissa hedonística pela premissa colaboracionista, elevando o mínimo ético das ciências econômicas, dando-lhes um conteúdo moral. Elevei, pois, o fenômeno econômico a um nível imensamente mais alto; mostrei-vos, sobretudo, sua evolução e sua forma futura. Indiquei-vos o caminho para ultrapassar a velha economia hedonística, lancei as bases de nova economia colaboracionista, a partir de teoremas apresentados de maneira totalmente diversa, que deveis desenvolver. Enquanto a base hedonística mergulha suas raízes na involução subumana, a fase colaboracionista é decidida aproximação da perfeição evangélica. Não podíamos deixar de encontrar - como o percebemos em todos os campos - também no econômico, as duas leis consecutivas, entre as quais oscila a maturação biológica humana. Duas leis sucessivas que, em qualquer campo, provam a evolução: evolução no trabalho, na renúncia, na dor, no amor; da força ao direito, do egoísmo ao altruísmo, da guerra à paz, da concorrência ao colaboracionismo, da fera ao homem e ao super-homem, da desordem à ordem e à justiça do Evangelho, do mal ao bem.

   Vossa supercultura torna o fenômeno econômico um problema complexo, acessível apenas aos técnicos que nada resolvem; as crises se sucedem, verdadeiros furacões econômicos que varrem tudo à sua passagem. Falo-vos simplesmente da lei, da ordem universal, de uma ordem ética com a qual é mister harmonizar esta ordem econômica menor. Sabeis avaliá-lo com exatidão matemática e esta vos revela toda a fisionomia do fenômeno, a face interior de seu ser e de seu devenir. Mas isto permanece isolado e, em sua sensibilidade, sofre repercussões provenientes de impulsos morais e psicológicos que vos escapam. Reconduzo tudo a uma atitude de espírito e chego às raízes que se encontram no campo das motivações. Mas, que pretendeis conseguir no mundo econômico, se em sua base reside um princípio de destruição: o egoísmo? Se todas as ações estão permeadas de um egoísmo que as acompanha como mal de origem, minando nos alicerces todo o edifício econômico? Experimentam-se todos os sistemas mais complexos, tenta-se mudar tudo, mas o egoísmo humano fica intacto, com ele fica intacta a substância das coisas. Não é possível construir com semelhantes materiais. Enquanto o homem for o que é, incapaz de passar da fase hedonística para a fase colaboracionista, será inútil excogitar sistemas distributivos. É indispensável formar o homem, antes dos programas sociais e estes construir apenas para formar o homem. É preciso transformar o problema econômico em problema ético.

   Se o do ut des é uma necessidade psicológica do mundo humano, se a necessidade é o único meio para obter trabalho de um indivíduo, se a inconsciência ignora a função social da atividade econômica, se a grande máquina só pode mover-se por meio da mola hedonística, então contentai-vos com os resultados que obtiverdes e que esse sistema puder proporcionar. Podeis dizer que são inúteis minhas palavras, eu vos digo que não é inútil vosso sofrimento porque, tornando-se mais sensível vossa psicologia, ela um dia compreenderá a enorme vantagem de libertar-se desse contínuo esforço coletivo de recíprocas demolições e reagirá, refreando o egoísmo até superá-lo, transmudando-o em fraterna colaboração. Contentai-vos, hoje, com a realização da máxima justiça, permitida pelo sistema, com o equilíbrio entre o dar e o receber, de equilibrar a balança do egoísmo. Mas é fato que só pode produzir trabalhos de ordem inferior e o sistema não se sustenta, depois de elevar-se a serviços cuja função coletiva seja substancial. O mínimo ético do mundo econômico é demasiado baixo para sustentar-se.

   Existem na sociedade humana funções supereconômicas que, de fato, se inserem no campo econômico hedonístico e, como tais, são substancialmente compreendidas, embora seu conteúdo moral devesse ser preponderante. Imaginai que degradação sofre o princípio da função social, quando reduzido nas estreitas limitações de função hedonística. Há funções econômicas de conteúdo moral, verdadeiras funções sociais, que sofrem constante processo de degradação, porque limitadas apenas à lei da oferta e da procura. É indispensável que essas formas de atividade sejam atribuídas ao Estado, o único organismo ético que tem a tarefa de elevá-las ao estado de função, impondo-vos o fator moral.

   Falo-vos do problema da distribuição da riqueza como de um problema de destinos; reduzo as tentativas violentas de nivelamento econômico a uma mentira do pobre, que desejaria usurpar a posição do rico e a ele digo: se a riqueza pode ter sido um furto, esta não é a razão para roubá-la de novo. Resolvo o problema não dando razão ao pobre que agride, mas dizendo ao rico: ai de ti, se não cumprires o primordial dever de levar em conta o interesse de todos no usufruto dos bens que te foram concedidos; ai de ti, se não souberes descer até o pobre, e dar-lhe o que sobra. Ai de quem hoje goza, porque certamente não lucrará na eternidade. "É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha, do que um rico salvar-se". Isto, porque o equilíbrio não é alcançado mediante usurpações recíprocas, mas pela compreensão das mútuas necessidades. O progresso reside na concórdia e na cooperação; ai de quem se torna instrumento de involução. A riqueza é uma corrente que tem de circular, passando por todas as mãos, para o bem de todos. Que a beneficência seja uma doação de alma que eleva, um ato de bondade que irmana os espíritos, mas não uma exibição que cava abismos de ódio; seja também uma doação moral que se enriqueçe de bens eternos.

   Mostrando-vos a essência da Lei, destruí a idéia pueril de que a riqueza tenha de ser seguramente felicidade. Como se a posse de bens pudesse mudar o destino humano! Como se a igualdade das riquezas pudesse gerar igualdade de destinos! Como se a justiça divina pudesse ser corrigida por sistemas distributivos! Com efeito, eles só levam a ilusões e a novos furtos. Mas a felicidade é um equilíbrio interior de forças eternas, ao passo que a riqueza é uma superposição externa e momentânea, não uma qualidade de alma; ela não consegue absolutamente fechar as portas à dor. Demonstro-vos que a riqueza não é, como vos parece, um privilégio, mas uma prova e, até por vezes, um castigo; porém, é sempre um dever e uma responsabilidade. Habituar-se a satisfazer-se enfraquece a satisfação; a inércia favorece a atrofia e abre as portas ao desmoronamento. Mesmo neste campo, impera a lei do equilíbrio, porque os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros.




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