O homem é responsável. Não basta dizê-lo. Mister demonstrá-lo. É preciso vincular a lei de equilíbrio que impera no campo moral, coativa em suas reações, com a outra, também de equilíbrio, sempre presente em todos os fenômenos. Não é suficiente estabelecer os princípios da ética no seio de um sistema abstrato e isolado, mas é indispensável sabê-los vincular com a ordem de todos os fenômenos de qualquer tipo, no âmago de um funcionamento orgânico, universal, único. Temos de saber descobrir, na eternidade, o inexorável aparecimento dos efeitos das ações humanas. Sem uma compreensão de toda a fenomenologia universal, sem a visão unitária de uma síntese global, é absurdo pretender a solução de qualquer problema isolado. Para poder equacionar o problema da responsabilidade, é preciso primeiro ter penetrado o princípio da evolução que, no campo humano, significa evolução espiritual. Filosofias e religiões o afirmaram; uma multidão de místicos o sentiu e viveu, mas como demonstração racional — se tirarmos deste princípio as bases que o sustentam e o distinguem de toda a evolução física, dinâmica e biológica — ficará incompreensível e discutível. Primeiro é mister ter compreendido o nexo que existe entre todos os fenômenos; ter afirmado a indestrutibilidade da substância, apesar do transformismo universal contínuo; ter demonstrado a gênese biológica do psiquismo, sua eternidade, a técnica de seu crescimento, a meta superbiológica da vida, o princípio de causalidade e a férrea lei de suas reações, a lógica do destino e de suas vicissitudes, o significado das provas e da dor.

 Indispensável ter compreendido o valor espiritual da vida, em estreita relação com vossa moderna visão científica do mundo, em perfeita união com a realidade fenomênica, sem espaços intermediários de coisas desconhecidas e de incompreensões. Era lógico que o espírito, antes de empreender seu impulso para as regiões superiores do futuro, se inclinasse para trás, a fim de reencontrar suas origens no passado, e fizesse justiça ao trabalho realizado para sua preparação, desde as menores criaturas irmãs. Só agora, que está completa nossa viagem através dos mundos inferiores da matéria e da energia, é compreensível este último mundo das ascensões espirituais do homem.

 Os fenômenos da ascensão moral, em todos os níveis, que culminam no misticismo do santo (super-homem antecipado nos mais altos graus da evolução), podem reduzir-se em termos científicos — por tudo o que dissemos na teoria dos movimentos vorticosos — àquele fenômeno de assimilação cinética, que vimos ter sido a base da formação e do desenvolvimento do psiquismo. Para quem compreendeu a técnica da evolução psíquica, o fenômeno da ascensão espiritual é simples: está logicamente colocado como continuação da evolução das formas inferiores. Em termos científicos, aquele fenômeno significa introduzir nas íntimas trajetórias dos movimentos vorticosos, de que é constituído o psiquismo humano, na fase α , novos impulsos provenientes de fora (o mundo da vida e das provas), para que sejam fundidos no âmbito daquelas forças e modifiquem aquelas trajetórias. Trata-se de enxertar no metabolismo do espírito, sempre escancarado para fora (ambiente), os elementos da química sutil do psiquismo. Praticamente vós os conheceis e os chamais pensamentos e obras de bem ou de mal. Escapa-vos hoje o cálculo dessa química imponderável, mas um dia penetrareis na constituição vorticosa do psiquismo; pesareis seus impulsos sutis e, tendo colocado em termos exatos o conhecimento das forças internas e externas, compreendereis que é possível o cálculo das forças constitutivas e modificadoras do edifício cinético da personalidade humana. É possível, uma vez definido seu tipo específico de individuação e sua história passada — que sua presente conformação continua e resume em sua forma — estabelecer a direção da evolução iniciada e fixar a natureza e o valor das forças a introduzir, para que essa evolução avance proveitosamente e desenvolvam-se as notas fundamentais dessa personalidade. Enquanto hoje esses fenômenos ocorrem por tentativas, isto significará assumir a direção dos fenômenos biológicos no campo mais decisivo: o da formação da personalidade.

 Sendo indispensável evoluir, a essa formação de consciência é irresistivel o trabalho da vida individual e coletiva, e que enorme economia de energias significará saber realizá-lo! Se a humanidade tende biologicamente, como vimos, a criar um tipo de super-homem, vosso trabalho presente é buscar essa meta. A vida contém e pode produzir valores eternos. Sua finalidade é enriquecer-se deles cada vez mais. A vida tem um objetivo e vós, depois de haverdes aprendido a produzir e entesourar nas formas caducas da Terra, tereis de aprender agora para saber produzir e entesourar na substância, na eternidade. Para educar, é indispensável repetir, a fim de que certos conceitos mais elevados se assimilem e imprimam no íntimo turbilhão do psiquismo. Este é o objetivo da vida, esta é a função mais alta, pela qual se mede o valor daquela central dínamo-psíquica do organismo social, o Estado moderno.

 Para o espírito ardente de fé, que sente por intuição essas verdades, é duro ter de falar assim, nos termos de u’a moral científica exata, mas isto me é imposto por vosso nível, ainda não intuitivo, mas apenas racional. O cálculo da responsabilidade moral é possível, quando se conhece o fenômeno da evolução psíquica. Se este é dado pelo cálculo dos impulsos íntimos em relação aos ambientes e ainda às resultantes de suas combinações, esse é um cálculo de reações. Tudo isto é apenas um momento da análise mais ampla, que pesquisa a linha das reencarnações e o desenvolvimento lógico do destino. Falo de desenvolvimento lógico porque, reconstruído o passado, vereis que ele, pelo princípio universal de causalidade, pesa, como uma força, no estado presente e no futuro, fazendo da personalidade u’a massa com trajetória própria. Essa, por inércia, tende a manter-se constante, apesar de a vontade e a liberdade individual poderem lutar para modificá-la.

 Na evolução, que é desmaterialização da substância em busca de formas psíquicas, a personalidade transforma seu “peso específico”, coloca-se, por natural lei de equilíbrio, em determinada altura, seu ambiente natural, ao qual sempre volta espontaneamente. Também este é um cálculo de forças que se tem de levar em conta no cálculo das responsabilidades. Quantas coisas teria de considerar o presumível direito social de punir se, apenas, ao invés de ser mera medida de defesa individual ou de classe, quisesse ser princípio de justiça! Aliás, prêmios e castigos substanciais não são os que os homens distribuem, exterioridades que não correspondem à substância, mas aqueles que, embora por meio deles, a Lei impõe, em sua sabedoria, acima das leis humanas, baseada em equilíbrios aos quais, compreendendo-os ou não, todos obedecem: juizes e réus, dirigentes e dependentes, por ação de um comando ao qual não é possível escapar.

 Os homens vivem misturados, juntos, mas suas leis não se misturam; o que esmaga mortalmente um indivíduo, para outro pode ser incompreensível, porque nunca o experimentou. Todos são vizinhos e irmãos, no entanto, diante da concatenação das próprias obras e consequências, cada um está sozinho. Sozinho com sua responsabilidade e seu destino, tal como ele mesmo o quis. Os caminhos estão traçados e a ação humana exterior não os vê nem os modifica; os valores substanciais não correspondem às categorias e posições sociais. Além da justiça humana aparente, existe outra justiça diferente, divina, substancial, invisível e tremenda, à qual não se escapa na eternidade; esta não tem pressa, mas castiga inexoravelmente. No enredo dos destinos e dos objetivos de todos há uma linha individual, independente. Em qualquer ambiente se pode avançar ou retroceder na própria caminhada. Cada vida contém as provas necessárias e as melhores, mesmo que não sejam grandes nem espetaculares, mas sempre as mais adequadas e proporcionais.

 Vimos como o ser, na evolução, ao subir da matéria ao espírito, passa também da lei da primeira, o determinismo, para a lei do segundo, a livre escolha. A ação é a resultante dos impulsos e da capacidade individual de reagir. A responsabilidade é relativa ao grau de evolução, porque age em função da maior ou menor extensão da zona de determinismo ou livre-arbítrio, que predomina na personalidade. Embora no mesmo ambiente, com os mesmos agentes psíquicos, o indivíduo reagirá de modo diferente. Sendo o ato o mesmo, o valor e o significado dele são muito diversos, de acordo com os vários tipos humanos e por isso muito diferente será a responsabilidade. Responsabilidade relativa, estritamente vinculada ao nível evolutivo, ou seja, conhecimento e liberdade, proporcionalmente aos quais nascem os deveres e se restringe o campo do que é lícito.

 Falo de responsabilidade substancial, não da aparente que os homens se impõem mutuamente, por necessidade de defesa e conveniência. Falo de culpa, isto é, mal consciente, introdução de impulsos anti-evolutivos, que só excitam reação de dor. No campo humano, mal é involução, bem é ascensão, pois a grande lei é evolução. Culpa é a violação dessa lei de progresso, é rebelião ao impulso que leva a Deus, à ordem; é qualquer ato de anarquia. Dor é o efeito da reação da Lei violada, que se manifesta em sua vontade de reconstrução da ordem, que quer levar tudo a Deus; reação a que chamais punição. Quanto mais progredirdes, mais poderíeis cair, pela maior liberdade, se o estado mais adiantado de progresso não fosse protegido por um conhecimento proporcional.

 




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