"S. Vicente, 26 de março de 1965.

Nazarius,

Respondo a sua carta de 17 de fevereiro.

No dia 9 de janeiro o Cônsul estava pronto para viajar nos dias seguintes para Montevidéu. Tinha nas mãos a minha passagem. Porém, foi chamado de volta para substituir o Embaixador em Santiago (Chile) que havia falecido. Então, não fui mais. Teria sido muito pior se me encontrasse no Uruguai. Se o Embaixador morresse dois dias depois, eu estava frito.

Fiquei o mês todo de fevereiro numa casa de campo, perto de S. Paulo, onde depois chegou Agnese e Adelaide, até 3 de março. Assim fugi do calor de S. Vicente, do carnaval e do barulho daqui. Com isso pude escrever mais dois capítulos do meu 21º livro A Descida dos Ideais. Está quase acabando e saiu bem grande, como O Sistema.

Nestes dias saiu em S. Paulo Queda e Salvação, 410 páginas, e Princípios de uma Nova Ètica está na tipografia.

Em Montevidéu, saiu o segundo volume de A Grande Síntese. Brasília e Rio de Janeiro continuam divulgando a Obra e agora também Santiago.

Na revista Sabedoria, de Pastorino, e na Itália, sai um artigo meu, mensalmente.

Junto lhe envio impressos onde você poderá ler estas notícias e outras.

Trabalho e preocupações não faltam, com este contínuo aumento do custo de vida.

Não irei mais a Montevidéu. Em todo caso a presença do Cônsul, em Santiago, é utilíssima para difundir a Obra.

Estou velho. Não tenho doenças, mas fisicamente há um enfraquecimento geral. Preciso de uma vida regular. O que me atormenta, agora, é a insônia. Os soníferos são perigosos porque envenenam. Tenho que deitar-me ás oito horas da noite e me levanto ás três da manhã. Se não consigo dormir, enfraqueço-me e chega o esgotamento, que leva á arritmia do coração, dores de cabeça etc.

Isto não impede o forte trabalho mental, mas nada de trabalho físico. É o corpo que enfraquece, não a mente. De um ano para cá houve esta mudança, como é lógica num velho de 80 anos, que desce e não sobe fisicamente.

Além disso, agora com os novos livros que se estão publicando, preciso ficar para corrigir as provas, de outra maneira, saem todos errados. Revisei quatro vezes Queda e Salvação e tenho de corrigir as provas de Princípios de uma Nova Ética. Já entreguei Evolução e Evangelho. Para fazer tudo isto, preciso ficar no meio dos papéis no meu quarto. Estas são as condições atuais de minha vida.

Gravei várias fitas magnéticas, em espanhol, para o Cônsul transmitir aos chilenos as minhas saudações e trechos de livros.

“Trabalho e Propriedade” está saindo numa revista italiana. Foi o assunto de uma conferência minha no Lions Club, em S. Paulo, no fim do ano passado.

Envio saudades a Clóvis, a Dr. Albano etc, também a minha gratidão a D. Leinha que tanto cuidado teve comigo no ano passado.

Pelo momento eis todas as minhas notícias.

O artigo sobre Teilhard de Chardin teve muita repercussão no estrangeiro.

Desejando-lhe felicidade, despeço com abraços agradecidos.

Pietro Ubaldi"

COMENTÁRIO

Desde o início de 1964, em Grussaí, Pietro Ubaldi começou um novo ciclo de vida, com menores, preocupações materiais: menos despesas e mais independência financeira.

A nossa vida é uma série de ciclos interligados, que formam um movimento vorticoso, fazendo-nos evoluir. Diz A Grande Síntese: “Cada ciclo é determinado pelo desenvolvimento de ciclos menores, que são a resultante do desenvolvimento de ciclos ainda menores, até o infinito negativo; por sua vez é a determinante do desenvolvimento de ciclos maiores, que também o são de ciclos ainda maiores, até o infinito positivo”. De que maneira descobrir os ciclos de nossa vida? Vamos apresentar os da vida do Professor e, por extensão, descobriremos os nossos.

Podemos não ter ciclos harmônicos, somente positivos em seu conjunto, porque o nosso passado ainda é muito gritante e nos leva à construção de ciclos negativos, quebrando a harmonia do todo; mas, nem por isto a vida deixa de ter seus ciclos, positivos e negativos.

Os ciclos do Professor foram ritmados, cada um com vinte anos, a partir das cinco primaveras. O primeiro, até a universidade; o segundo, preparação para a tarefa a desempenhar no mundo em benefício da humanidade; o terceiro, a metade da missão na Itália; e o quarto, a outra metade no Brasil.

Cada um desses ciclos foi construído por outros menores; assim, no primeiro temos: o primário, o ginásio, o liceu e a universidade.

Os ciclos menores contidos nos dois períodos (25 aos 45 aos 65 anos) seguintes, o leitor os descobrirá lendo a biografia de Pietro Ubaldi, inserida em Grandes Mensagens, primeiro livro da coleção.

O quarto ciclo, relacionado ao Brasil, também tem outros ciclos menores: as conferências em 1951; a luta até a chagada do novo apartamento; o período de dois anos (1955-1956), com menos problemas financeiros; o ciclo de sete anos, com muita dificuldade econômica; e o último, a partir de 1964, em Grussaí, onde escreveu “Libertação”. Lá começou o novo ciclo, que durou até o fim de sua vida, neste mundo. A tranquilidade com a qual viveu o seu primeiro ciclo, repetiu-se neste último, em um plano mais elevado, fechando o ciclo ainda maior de sua existência terrena. A casinha em Cotia lhe trouxe um conforto espiritual muito grande, porque ele viveu entre as árvores, longe do barulho e da confusão das grandes cidades.

 




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