A questão da não previdência. Objeções e esclarecimentos. O novo tipo de técnica protetora e os dois distintos métodos de vida, com seus respectivos tipos de economia, o do involuído e o do evoluído e seus análogos sistemas bancários de administração.

No trecho do Evangelho referido no precedente capítulo, Cristo revoluciona as usuais normas da previdência volvidas a evitar que falte o necessário no amanhã, deixando isso nas mãos de Deus. Esta evangélica aparente imprevidência consta de quatro afirmações contidas no trecho citado. A primeira diz para se dar até a túnica a quem pede o casaco A segunda diz para dar a quem pede e para nada reclamar dos próprios pertences se alguém dos mesmos se apoderar. Isto significa ficar despojado de tudo. A terceira diz para não acumular tesouros sobre a Terra. A quarta conclui dizendo que se quisermos salvar a nossa vida a perderemos. Isto significa que não a devemos preservar. Resultado final: perder tudo, ficar sem meios e sem vida.

A intenção é clara. Cristo diz para não nos preocuparmos, o que é um convite a não exagerarmos na previdência. Não tenho razão para fazê-lo se não devo interessar-me pelo amanhã. Mas na Terra isto se chama de imprevidência e ela é o defeito dos inconscientes que a vida castiga por isso, fazendo-lhes faltar o necessário. O homem comum, a despeito da palavra de Cristo bem sabe por dura experiência que o amanha chega e que se não tiver sido previdente pagará caro por isso. Daqui o contraste entre Evangelho e realidade e a natural desconfiança que tais conselhos provocam. É inconcebível na Terra uma classe de imprevidentes, que, sem se preocuparem com nada, sejam gratuitamente previstos de tudo.

No entanto, Cristo, prevendo as objeções que as suas audazes afirmações podem provocar — porque Ele próprio reconhece a presença das necessidades materiais do homem — oferece uma solução que na prática aparece ainda mais estranha do que a contida em tais afirmações. Com efeito, para fugir as desastrosas consequências do aludido desprendimento, Cristo nos oferece um remédio mediante o seguinte raciocínio: olhai, Ele nos diz, nos diz, que não estais sós, pois há um Pai que provê a tudo. Então o problema das necessidades materiais se resolve não lutando para prover as próprias necessidades, mas vivendo como quer o Pai, segundo a justiça, pois não há, em Seu Reino, outra alternativa.

A afirmação é grandiosa, de dimensões cósmicas, tanto que ficamos arrebatados quando se consegue entendê-la como uma realidade. Mas em geral não se chega a tanto, imersos como estamos na miséria das competições cotidianas. Como conseguir excogitar uma solução a partir de relações desta magnitude? Mas, em vez de entregarmo-nos a tão árdua tarefa, logo procuramos uma escapatória. E se o Pai não provê? Trata-se de uma fonte de abastecimento para nós demasiadamente transcendente para que — com efeito — possamos confiar nela sem reservas. E mesmo que, perante a mesma nós pudéssemos pretender direitos, como poderíamos fazê-los valer? Pois, nossas necessidades são imperiosas e inexoráveis. Assim sendo, essa ideia de se recorrer ao Pai é certamente um caminho bem peregrino para se palmilhar. Além do mais, toda essa gratuidade para o conseguimento de coisas dadas por acréscimo, não soa ofensivo ao nosso natural sentido de justiça? E perante a diuturna constatação do fato de pouco ou nada conseguirmos gratuitamente, não torna tais afirmações inverossímil e inaceitável.

Mas, em vez de nos perdermos no beco sem saída de tais objeções, ou na busca estéril de aparentes contradições, procuremos compreender Antes de tudo, para conceder a Sua ajuda, o Pai põe condições, as quais são de extremo valor moral: "Procurar o Reino de Deus e a sua justiça". Ora o Pai, para quem compreendeu como estão as coisas verdadeiramente, não é nenhuma construção imaginária, fora da realidade! Ele é a Lei, a qual é sempre viva e vigorante entre nós e em nós, de modo a poder experimentalmente controlar Sua presença e Seus efeitos em cada lugar e momento. Então receber do Pai a ajuda por acréscimo, não significa nenhuma dádiva arbitrária ou imerecida, mas tê-la ganho aquela ajuda com a observância da Lei, ou seja, operando disciplinadamente dentro da Sua ordem Eis então que aquelas palavras do Evangelho adquirem um significado concreto, bem compreensível e correspondendo à justiça.

Há, desse modo, um fato novo! Os princípios da Lei se manifestam revestidos de forças em movimento, cujos equilíbrios e deslocamentos são exatamente definidos e calculados, sendo dirigidos por uma organicidade inviolável. Tudo isto é necessário, pois o universo, se não fosse dirigido por uma lei de ordem, desabaria no caos. Eis então que é fatal recolhermos os efeitos das causas acionadas por nós. Uma vez que isso é garantido, podemos ter a certeza de que receberemos tudo quanto merecemos. Esta segurança se constitui no direito de obter a recompensa merecida, recebendo a ajuda do Pai, por ter vivido conforme a justiça, aplicando a Sua lei. Tudo isto é automático, seguro e justo, sem árbitros, necessariamente determinístico, com resultados positivos, segundo cálculos exatos.

Agora compreendemos: procurar o Reino de Deus e a Sua justiça, significa em substância viver com retidão, admitindo, também, que o homem honesto cumpra espontaneamente o seu dever de trabalhar. Ora, a quem cumpre este dever, ainda que não se preocupe com o amanha, é bem difícil que venha a faltar o necessário. Então, logo que se compreenda o mecanismo da Lei e se entre a funcionar segundo a Sua ordem, até o problema das necessidades materiais que tanto nos fatiga, tende a ser implícita e automaticamente resolvido.

Assim, o principio evangélico, "Não vos preocupeis com o amanha", logo assume bem outro significado. E então, aquela frase não significa mais imprevidência, exprimindo, pelo contrário, um diverso tipo de previdência, conduzida com uma outra técnica, realizada em função de outras perspectivas. Assim sendo, o Evangelho bem longe de defender a imprevidência, visa a eliminar a ânsia que frequentemente acompanha o exercício da previdência humana. Cristo nos diz que para ser previdente não é necessário estar angustiado, pois, a ânsia que frequentemente introduzimos em nosso trabalho, é uma força negativa que, como uma nuvem negra, obscurece a compreensão e estorva as diretrizes, diminuindo a produtividade.

O Evangelho, de fato, tenciona libertar-nos de uma demasiada preocupação, e não nos aconselhar imprevidência. Somos que tomamos o triste hábito de associar os dois fatos: previdência a preocupação, a isso induzidos pelas duras condições da vida. O Evangelho quer tirar-nos a segunda qualidade, substituindo-a pela confiança que torna o trabalho mais rendoso e menos fatigante. Quem conhece a lei, sabe, realmente, como ela funciona e pode contar com lei; é seguro e se põe nas condições desejadas, sabendo que seus efeitos são garantidos e chegarão em forma de ajuda. Quem compreendeu a técnica funcional deste fenômeno sabe que a promessa do Evangelho, por mais estranha que possa parecer, será mantida.

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Esta sumária colocação do problema já nos faz pensar que estamos perante um novo tipo de técnica protetora, que a  visa utiliza em sua defesa, ao longo da escala da evolução, quando as diferentes condições ambientais devidas a um mais avançado grau de civilização o permitem. Propomo-nos agora a aprofundar o conhecimento desta técnica, observando-lhe a estrutura e o funcionamento apoiados naquela que melhor conhecemos por ser a que a vida utiliza para proteger-nos em nosso nível evolutivo humano.

Trata-se de dois métodos de vida diversamente progredidos e aperfeiçoados, que representam dois diferentes modos de resolver o problema da sobrevivência: o primeiro tendo as características de luta, da desordem, da incerteza e do esforço, que tanto mais se acentuam quanto mais por involução se desce; o segundo, tendo as características de tranquilidade, da ordem, da segurança e da facilidade, que tanto mais se acentuam quanto mais se sobe com a evolução. Este exame nos fará compreender a lógica da utopia evangélica, o profundo significado de tão estranhas afirmações, mostrando-nos a possibilidade da sua aplicação prática também na Terra. Poderemos assim transferir o Evangelho da evanescente esfera da poesia e da fé, para o terreno sólido da realidade vivida. Poderemos assim conhecer — em relação ao mundo em que vivemos — aquilo que é de fato o Reino de Deus, a que constantemente se refere o Evangelho.

Aqui, poderia alguém retrucar: deve-se esta diferença de nível evolutivo, precisamente ao fato deste novo método não ser aplicável na Terra, onde a vida só pode manifestar-se na forma proporcionada ao grau de evolução alcançado, que estabelece a lei dos elementos situados naquele nível biológico. Ora, este mesmo fato também significa que cada indivíduo só pode estar sujeito à lei do seu plano de evolução e a nenhuma outra, enquanto a condição de pertencer a um determinado tipo de lei, segundo a qual funciona a vida de cada indivíduo, constitui um fato estritamente pessoal, correspondente ao grau de desenvolvimento alcançado por ele e independente daquele alcançado pelos outros.

Entretanto, ninguém pode impedir que massa dos involuídos possam emergir casos isolados de evoluídos, lançados pela vida antecipadamente em direção ao futuro, precisamente com o objetivo de tentar uma realização de superamento. Assim, tais evoluídos devem estar sujeitos à lei do seu próprio plano, e não àquela das massas involuídas. Eis a razão do contraste, que havíamos explicado acima, entre a lei humana das pessoas na Terra e aquela sobre-humana, apontada por Cristo. Trata-se de indivíduos que, pelo fato de pertencerem a diferentes planos de evolução, são dirigidos, portanto, por leis diversas e por isso contrastantes.

A ideia de Céu, de Reino de Deus traduzida em termos positivos e racionais significa altura alcançada ao longo da escala ascensional da evolução, dirigida em direção ao S. Eis então que podemos ter indivíduos cuja lei natural  por suas qualidades e nível biológico — coincida com o Evangelho, com sua técnica de defesa e com sua singular economia baseada no dar em vez de tirar. E aquela baseada no acumular tesouros no Céu e não na Terra, no perder a própria vida para salva-la. E, enfim, a economia baseada no não preocupar-se com o amanhã, mas só com a procura do Reino de Deus e a sua justiça, na certeza de que tudo será dado, depois, por acréscimo, pelo Pai Celeste.

Ora, também na Terra, para indivíduos chegados ao nível do Evangelho, este pode ser posto em ação e funcionar como lei de vida e normal método de defesa em contraposição à lei da luta para os involuídos em fase de menor progresso. E assim haverá de ser na ordem universal porque cada indivíduo se encontra ligado à lei particular que corresponde à sua natureza. O involuído — pelo menos enquanto não evolve — não pode aplicar a lei do Evangelho porque esta nas suas mãos não funcionaria. Para que isso pudesse acontecer seria necessário que o mesmo possuísse uma estrutura adequada, não dispondo da qual, ser-lhe-á necessário construí-la evoluindo. E trata-se de uma conquista lenta e fatigante, como se requer na ordem universal, que não funciona por saltos, mas por graus, mediante lenta maturação. Isto é de fato aquilo que vemos acontecer. O cristão, colocado perante a escolha do Evangelho-sacrifício (crucificação) ou o Evangelho-hipocrisia, prefere o segundo. Era inaceitável que entre os dois a escolha recaísse no mal de menor gravidade, aparentemente. Há porem, um outro fato que pode ser útil e providencial, porque é um meio capaz de fazer uma ideia superior penetrar num plano inferior, para ser assimilada. Dessa forma, o mundo usa o evangelho com hipocrisia até resolver e um dia poder realiza-lo verdadeiramente. A hipocrisia se justifica e cumpre sua função. Aquilo que hoje é uma utopia amanha pode tornar-se realidade viva e operante e servir como regra de ação para toda Humanidade.

Certa vez, por estar eu defendendo o Evangelho, fui exprobrado da seguinte maneira: "Cuidado, pois, o Evangelho mata... e de que morte!" Ao que respondi: “Não é o Evangelho que mata, e sim, os homens que, pertencendo a outro nível de evolução procuram suprimir quem quer aplicar a doutrina do Cristo”. Com certeza, um cristianismo feito de verdadeiros cristãos, isto é, imitador de Cristo, praticando o Evangelho com plenitude, seria composto de mortos, de mártires na cruz. Eis porque o Cristianismo, se pretende existir sobre a Terra, não pode ser integrado de verdadeiros cristãos, mas só de cristãos aparentes  — na melhor hipótese — de aprendizes de cristãos que procuram exercitar-se na sempre renovada tentativa de aplicá-lo até os limites de suas possibilidades.

Sendo esta a estrutura do fenômeno, mais não se pode obter sobre a Terra. Este é o Reino do AS. É então natural que este expulse de seu ambiente quem queira pertencer, pelo contrário, ao S. O verdadeiro cristianismo é para fazer aquilo que Cristo fez, isto é, para fugir do mundo inimigo, para ele superado. Para quem está maduro, não há nada melhor, porque tal afastamento é vida que triunfa ressurgindo no S. Ora, para os imaturos isso só significa morte, porque nesse seu nível são ignorados tais superamentos para uma vida mais alta. Cristo, então, para o homem de tipo corrente sobre a Terra, não é aceitável como realização imediata — pois esta aniquila o imaturo — mas apenas como uma meta excelsa e longínqua em direção à qual se dirige, e que por ele entrevista apenas como um farol a iluminar o seu caminho.

Este mesmo homem, enquanto aguarda, encontra-se, na Terra, no seu justo lugar, a ele proporcionado, onde pode cumprir o seu trabalho de amadurecimento e percorrer o seu caminho contentando-se com paulatinas aproximações da realização do ideal de Cristo. É próprio da Lei que cada ser ocupe o posto que lhe compete, conforme o seu valor.

Por esta mesma razão, encontramos, neste nosso mundo: de um lado uma elite de evoluídos, de santos, de heróis, de gênios, de super-homens que, por serem maduros, viveram o Evangelho, e do outro os imaturos que os admiram e veneram, encarando-os como modelos, que tanto quanto possível, procuram imitar, mesmo se, não o conseguindo, esta sua tentativa se reduza apenas a uma aparência que é quase uma mentira.

Aludindo, aqui, a leis proporcionadas à posição evolutiva do indivíduo, queremos falar de aspectos particulares e parciais da Lei de Deus, relativos ao caso tomado em exame. Dentro da grande Lei o Evangelho representa uma fase de evolução mais avançada em relação à que é representada pela particular lei biológica do atual nível humano. Quando a humanidade alcançar aquela mais avançada fase de evolução, os princípios do Evangelho inteligentemente entendidos serão a leis de todos, e será, assim, realizado o Reino de Deus. Podemos, agora, compreender em que este Reino consista. Tratar-se-á de uma civilização mais avançada em relação à nossa, na qual a humanidade se moverá disciplinada na ordem da Lei, organizada segundo princípios de retidão, conforme a Justiça. Dever-se-á alcançar, assim, o resultado a que este método de vida não pode deixar de conduzir e que está precisamente implícito neste Sistema, o previsto pelo Evangelho, onde nada nos falta, tudo nos vindo às mãos por acréscimo. Então mudado o homem e o seu sistema de vida, o Evangelho não será mais uma utopia, mas uma esplendorosa realidade.

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Para melhor compreender de que se trata, procuremos distinguir os dois tipos de economia correspondentes aos dois métodos de vida, e os resultados a que os mesmos conduzem. A razão pela qual a Lei responde à ação do indivíduo em duas formas tão diversas, está no fato de que este, conforme o seu grau de evolução, se move em direção à mesma, de modo diverso. Este é tanto mais indisciplinado e agressivo, quanto mais involuiu para o AS; tanto mais é harmonioso e obediente quanto mais evolui para o S. É claro que as respostas da Lei resultam proporcionadas a este comportamento. No primeiro caso o indivíduo vai contra a corrente da Lei, que por isso o bloqueia. No segundo caso ele vai com aquela corrente que, portanto o impulsiona para a frente e o favorece. Eis que o tratamento que recebemos depende de nossa conduta. E assim que o caso limite de uma péssima conduta é o de provocar como seu efeito, a absoluta falta de tudo; enquanto o caso limite de uma ótima conduta é a de produzir, como efeito, a gratuita abundância.

Explicam-se assim as estranhas afirmações do Evangelho, porque se vê qual é a lógica que as fundamenta. Explica-se também porque em nosso mundo sucede o contrário do Evangelho, e como, por este fato, sejamos induzidos a crer que seja este uma absurda utopia. Mas o absurdo não está no Evangelho, e sim em nossos olhos que, sendo filhos do AS, veem tudo pelo avesso. Na realidade tudo corresponde a um princípio de justiça, segundo o qual funciona a Lei. Ela é um equilibrado mecanismo de ações e reações, proporcionados às posições evolutivas e, portanto ao respectivo comportamento do indivíduo. O absurdo que o mundo vê naquelas afirmações do Evangelho é o de poder receber algo por acréscimo, gratuitamente, porque aquele procurar o Reino de Deus e a sua justiça, no ambiente terrestre, dadas as suas leis, não representa um meio apropriado para ganhar algo. É certo que o Evangelho põe uma condição e com isso estabelece a necessidade para o indivíduo de mover uma causa e obter aquele efeito. Mas a forma mental humana é produto de experiências de todo inadequadas a construir uma tal conexão de ideias. Aquela que se estabeleceu na Terra é o fruto de experiências opostas, isto é, de revolta contra a Lei, para violá-la, e da respectiva resposta da Lei, sob forma de dolorosas lições corretivas.

Podemos agora dar-nos conta da estrutura dos dois métodos de viver e de operar, e compreender as duas diversas lógicas que os regem. Embora correspondam ao mesmo princípio de justiça que e fundamental na Lei, elas são muito diferentes na forma de ação e reação, de modo a resultarem irreconciliáveis. Mas isto também é lógico, porque num caso se trata de ação e reação de tipo AS, e no outro de ação e reação de tipo S, dois universos de que já apontamos as opostas características. Eis que quando colocamos cada coisa no seu devido lugar, tudo resulta racionalmente justificado.

A economia do involuído, de baixo nível biológico, é uma economia de assalto e de abuso, portanto de injustiça, o que coloca o indivíduo que a aplica sempre em déficit para com a justiça da Lei. Há sempre uma lesão de direitos de outrem a reparar. Esta é uma economia de pecado, que não pode conduzir senão à penitência, por débitos que não podem permanecer insolutos. Trata-se de uma economia negativa, improdutiva, famélica, somente de destruição. A humanidade presa nesta engrenagem deve arrastar-se carregando nas suas costas o imenso peso desta negatividade; pretenderia derrubar a Lei, mas, pelo contrário, derruba-se apenas a si mesma, de modo que, sedenta de felicidade, se encontra carregada de sofrimentos. É esta a economia de nosso mundo.

A economia do Evangelho é a do evoluído, de alto nível biológico, e se poderia chamar a economia do justo. Ela é feita de ordem e retidão, pela qual o indivíduo não contrai débitos para com a Lei, portanto é livre da preocupação do dever de pagar. Balanço honesto, no qual as contas do dar e do haver redundam a favor do interessado. Sábio regime de paz, isento de preocupações, oposto ao regime do mundo, que está cheio de lutas, fadigas e preocupações. Economia positiva, construtora de valores, o que eleva em direção a Deus. Avançamos, assim, ajudados pela corrente da Lei, leves e rápidos, em posição reta, de modo a aproximar-nos sempre mais da felicidade, como exige a nossa natureza. Esta é a economia do Evangelho.

Se o homem fosse mais inteligente poderia calcular que o método da justiça é muito mais vantajoso do que o da força que é pouco seguro e de escassíssimo rendimento, porque carregado de atritos que absorvem meios e desperdiçam energias. Mas com a evolução se chegará a compreender também isto! E quanto a vida resultaria facilitada substituindo o método do Evangelho àquele do mundo É fácil imaginar que produtividade imensa se poderia obter do esforço humano, quando fosse dirigido só ao trabalho, em vez de o ser à guerra. Mas para chegar a compreender é necessário uma maturação evolutiva ao alcance da qual se exigem milênios de fatigantes e de dolorosas experiências. A ideia da existência de uma Lei não é nova, é, porém nova a ideia de meter-se a estudá-la para conhecer-lhe o conteúdo e a técnica funcional, aprendendo, assim, a manejá-la com habilidade, e a calcular os efeitos das próprias ações. Por que o homem ainda não consegue compreender que todos os males que se abatem sobre ele são causados por ele próprio, devido ao seu errôneo comportamento no seio de uma ordem perfeita?

É necessário compreender que existimos dentro e como elementos constitutivos de um organismo universal que funciona segundo normas precisas. Daí a necessidade de nos comportarmos com disciplina conforme esta ordem. Acontece, porém, que agimos às avessas, provocando desordens, das quais assim se satura a nossa vida. Ora, um estado de ordem é entendido como positivo, favorável a nós, regorgitante de vida, de bem, de felicidade; enquanto um estado de desordem é entendido como negativo, inimigo, portador da morte, de mal, de dor.

Disto se vê quão erradamente calculamos os nossos assuntos quando praticamos o mal. Fazê-lo é andar contra si próprio, é um carregar-se de dores, é um suicídio. Damos prova de termos a forma mental emborcada, própria do AS, se continuamos a crer que a egoística e exclusiva procura da própria vantagem em prejuízo de outros nos possa trazer alguma utilidade! Mas precisamente isto prova que estamos emborcados no AS. O caso seria desesperador, uma cegueira sem salvação, se a função da evolução, à qual afortunadamente estamos ligados, não fosse a da reconstrução da ordem e, portanto das qualidades positivas, a nós favoráveis. A fórmula da salvação é muito simples, é "Reingressar na ordem". Eis a solução de todos os males.

O estudo do pensamento que dirige esta ordem nos pode levar à descoberta de leis biológicas novas, vigentes em mais altos planos de evolução e diferentes daquelas que já conhecemos, em vigor nos planas mais baixos. Trata-se de leis que nos guiarão no futuro e que tomarão o lugar daquelas que nos guiaram no passado e nos guiam no presente. Podemos então prever sistemas de funcionamento da sociedade humana e, no âmbito desta, de comportamentos individuais, completamente diversos dos atuais. É lógico que, a uma nossa ação com métodos de tipo S, a Lei responda com uma forma positiva e favorável, pela mesma razão pela qual a uma nossa ação com métodos de tipo AS, a Lei hoje responde numa forma negativa e desfavorável. Se isto acontece hoje, é porque a nossa ação é de tipo AS. Isto significa que sucederá o contrário quando a nossa ação for de tipo S. Eis que a chave de nossa felicidade está em nossas mãos, porque ela é um problema de método de vida.

A diversidade de rendimentos em vantagem do homem está no fato de que no sistema do mundo os esforços individuais, dirigindo-se em direções contrárias, se destroem reciprocamente, enquanto no do Evangelho se coordenam e se somam. Isto é devido ao fato de que quanto mais se retrocede evolutivamente, tanto mais se mergulha no separatismo do AS e respectivo estado caótico de desordem, e quanto mais se avança evolutivamente, mais se sobe em direção à unificação do S e respectivo estado orgânico de ordem. No primeiro caso nada é garantido porque se vive de esforço e de ameaça numa contínua incerteza do amanhã.- No segundo caso tudo é garantido, previsto, pré-ordenado. Trata-se de uma economia bem mais vasta e completa, na qual entram em jogo elementos imponderáveis que escapam ao homem atual devido à ignorância que o caracteriza e que é causa dos seus erros e dores.

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Se esta outra economia se perde no imponderável, porque seus valores são desta ordem, isto não quer dizer que eles não sejam reais, e que não exista para eles, como para os do mundo uma conta corrente para administrá-los. A economia humana conhece só o valor do dinheiro e alguns outros bens que com o mesmo se podem adquirir. Mas também existe uma outra economia que conhece uma gama de valores muito mais extensa, de modo que para administrá-la há um sistema bancário mais complexo, que comporta investimentos, depósitos e cobranças, débitos e créditos de outro tipo, mais variados e multíplices conforme uma exata contabilidade. Tais bancos administram também outros valores como saúde, afetos, nossas alegrias ou dores, como regulam os impulsos no percurso das forças positivas ou negativas, determinando o nosso destino.

A presença destes diferentes sistemas bancários pode conduzir a estranhas posições e compensações, pelas quais pode-se alcançar a riqueza num gênero de valores, permanecendo pobre num outro. Assim, é possível sermos economicamente pobres mas ricos em todo o resto, e economicamente rico, mas pobre em todo o resto. Por exemplo, um milionário pode morrer dilacerado de câncer, desesperado por desavenças familiares, ou destroçado por um desastre, no meio de riquezas que de nada valem para salvá-lo, enquanto um pobre operário pode viver longamente, cheio de saúde, de afetos familiares, até que a morte o pegue, já velho mas tranquilo no seu leito, cercado dos entes queridos. Isto porque pela sua reta conduta passada, este último, graças à sua honestidade, depositou sabiamente num banco muito especial o correspondente tipo de valores de que agora dispõe a seu crédito, mesmo se economicamente pobre, enquanto o contrário acontece com o rico.

Como se vê, nesta administração entram também os valores morais e espirituais, sem dúvida alguma fundamentais na vida, os quais o homem de negócios não aprecia o suficiente. Pode então acontecer que uma riqueza — por ter sido alcançada com fraude — represente apenas uma dívida a pagar. É assim que a retidão nos negócios pode constituir um elemento positivo de produção para vantagem de quem a pratica. Hoje pouco se cuida destes valores, mas eles podem ser analisados e calculados em sua gênese, estrutura e desenvolvimento, pelas leis que os guiam, até nos efeitos que produzem.

Tal administração é justa e exata, dá tudo aquilo que nos cabe e inexoravelmente exige tudo que lhe é devido, isto em todos os setores da vida. Assim ela paga e faz pagar, no momento justo do destino do indivíduo, tudo quanto é útil para o desenvolvimento. Trata-se de uma economia universal, de substância, que abraça todas as qualidades e necessidades da personalidade humana, todas as forças que nela se movem. Quando se caminha em direção ao mal, nesta contabilidade se forma um vazio que exige ser preenchido, um débito que necessita ser pago. Cada abuso gera uma carência, cada bem realizado cria o correspondente crédito. A conta é pessoal, do indivíduo perante a Lei.

Ai de quem rouba violando os justos equilíbrios. O débito fica escrito na conta e não se cancelará enquanto não seja resgatado. Não se trata de religião ou de fé, mas de uma realidade positiva que a mais sutil ciência do futuro descobrirá e analisará, explicando-lhe o funcionamento. Novos astronautas do espírito se lançarão nestas regiões do ser, ainda inexploradas e desconhecidas. Então cada um poderá seguir no tempo o desenvolvimento do próprio destino e pesquisar o caminho dos efeitos de cada ação. Cada prazer-desordem é assinalado na coluna de nosso dar como débito a pagar porque anti-Lei, negativo para a nossa salvação; e cada dor-reordenação é assinalada na coluna de nosso haver, como crédito a receber, porque, segundo a Lei é positivo à nossa salvação, como ação corretiva da distorção provocada.

Então — e só então —  tendo sido estabelecidas as devidas condições, poderá entrar em função a Divina Providência, que de outra forma não poderia atuar. Então —  e só então —  pode realizar-se a evangélica promessa pela qual tudo o mais nos "será dado por acréscimo", que no mundo parece um absurdo, por faltarem os elementos indispensáveis à sua realização. Daí poder-se ver quanto seja diversa da humana a economia do Evangelho, e como — quando se lhe observem as regras — automaticamente se realize, tanto que se lhe pode prever o rendimento, coisa que na Terra parece impossível Isto porque não se trata aqui de surrupiar algo não merecido, e sim do direito de exigir um crédito. A Lei não pratica injustiças e não dá nada de presente. Então se ela provê, isto quer dizer que se trata de um ato de justiça. De fato a Lei nega tudo quando não foi merecido. Como se pode então pretender que uma tal Providência funcione na Terra, onde se procura usurpar sem nada merecer? É certo que ao homem agradaria ser servido sem ter feito o esforço necessário a conferir o mérito. Mas também este mecanismo tem a sua técnica, de modo que, se não se lhe respeitam as regras, ele não funciona.

Eis que, com aquelas suas paradoxais afirmações, o Cristo do Evangelho nos expressou com simplicidade o funcionamento de uma Lei que não notamos porque entre nós não funciona, simplesmente porque não a conhecemos e assim não a observamos. Em primeiro lugar, Cristo, com aquelas palavras, afasta as preocupações que são a característica do método do mundo, deste se separando, assim, nitidamente, ao adotar um princípio oposto. Pode ver-se daí quanto o Evangelho esteja longe daquela interpretação toda humana, segundo a qual ele, conciliando a não preocupação, pareceria encorajar a despreocupação de quem inconscientemente se mete, por sua culpa, em apuros e depois pretende que Deus o salve. O não preocupar-se não significa desfrutar e abusar para depois fazer-se servir.

Neste capítulo, seguindo o Evangelho, sustentamos um método de vida e uma técnica de conduta que não coincidem com os do mundo. Trata-se de uma nova moral que se substitui à vigente feita de cálculos humanos, cheios de astúcias e de egoísmo, que nada têm, contudo, de positivo. Nesta nova moral os movimentos das forças lançadas em órbita e que encontramos em ação são calculáveis, a tal ponto que é possível controlar os efeitos que essas forças produzem, tanto em sentido positivo como em sentido negativo.

A moral torna-se então um fato preciso em cada ação, pois a Lei é um fenômeno susceptível de observação e experimentação que pode ser averiguada a cada instante, em nós e fora de nós A justiça torna-se então uma realidade biológica, porque representa o princípio base da Lei, o que significa que essa justiça possui uma potência maior do que todas aquelas de que o homem pode dispor. Vê-se então que a desordem existe só na superfície, na periferia, isto é, no AS, pois quanto mais se penetra em profundidade em direção ao Centro onde reside o S, mais evidente se encontra a Ordem e a Justiça de Deus. Vê-se assim funcionar a lei do ricochete, pela qual tudo o que se faz retorna da mesma forma com que foi feito ao protagonista da ação. Quem quiser submeter tal processo a análise no laboratório da vida, poderá verificar a eficácia de tal técnica funcional.

Confortem-se, então, os amantes da justiça, porque, dentro em breve, serão descobertas as leis exatas de uma moral positiva cientificamente verificável, na qual resultarão provados os resultados de qualquer tipo de ações.  Então a religião será um problema de razão e de ciência e não de fé. O juízo final sobre as nossas ações como sobre as suas consequências serão previsíveis à partida, através de deduções matemáticas como sucede ao se colocarem as causas. Isto porque se poderão calcular as órbitas que percorrem as forças por nós postas em movimento como se determina com antecedência a órbita a percorrer nas viagens interplanetárias




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