O Evangelho e a Lei. Aparente inaplicabilidade da doutrina de Cristo à realidade da vida. A propósito do Evangelho-suicídio. Acerca da importância de compreender.

Depois de ter procurado delinear e compreender a figura do Cristo na primeira parte deste volume, persistiremos ainda no estudo de Sua doutrina exposta no Evangelho iniciado nos cinco capítulos anteriores. Neles abordamos o problema econômico e o da justiça social. Tomemos agora em exame o problema tão controvertido da não resistência, este também fundamental no Evangelho, além de ser bem atual em nossos dias.

Como o leitor pode ver, não entramos nos detalhes do Evangelho, mas dele colocamos em evidência alguns pontos mais salientes e vitais, que mais de perto atingem o homem de hoje. Não é nosso fim oferecer a tradicional explicação do Evangelho, que repete lugares comuns, mas discutir e melhor compreender alguns princípios excepcionais nele propostos, estudando sua aplicação em nosso mundo moderno, mesmo se eles possam parecer absurdos e irrealizáveis.

Para chegar a isto, reputamos oportuno sobrevoar — numa visão de conjunto — as particularidades daquela revelação para colher, da mesma, os princípios gerais. Procuramos, assim, ir além de uma mera interpretação literal, para alcançar uma visão de conjunto segundo o espírito. Assumimos, assim, como ponto de referência não a lenda ou as tradicionais superestruturas de índole mítica, que em nada ajudam o verdadeiro conhecimento da verdade, mas a Lei de Deus que é ao mesmo tempo uma realidade biológica, um fato positivo e um fenômeno constante, por isso, experimentalmente controlável.

Desse modo, certas contradições entre o Evangelho e a vida poderão ser superadas permitindo que o aparente absurdo de certos trechos dessa revelação se torne compreensível conforme a lógica, em harmonia com a realidade da vida. A Lei oferece a vantagem — apesar da mudança das formas — de ficar sempre presente e atual em qualquer tempo, de modo que um Evangelho compreendido em função dessa Lei pode permanecer perfeitamente verdadeiro e realizável até neste nosso ambiente social, tão diferente em relação ao do tempo de Cristo. Só assim a Sua doutrina pode permanecer viva e atual, também em nossos dias.

Nem se poderá objetará que, reportando-nos a Lei, nos afastamos do Evangelho, porque também Cristo se referia substancialmente a Lei todas as vezes que se dirigia ao Pai Celeste. Por isso Ele não poderá nunca ser justamente entendido senão em função daquela Lei, que é o Pai. É assim que falando do Cristo só podemos continuar a falar da Lei, porque esta abraça tudo, nem poderia deixar de abranger também Cristo, cuja razão de ser jamais poderia deixar de pertencer e ser regida pela técnica funcional da grande Lei cósmica. E Cristo nos dá disso plena confirmação ao colocar-Se em posição de total obediência perante o Pai. É, portanto, com a Lei, que Cristo vive em constante relação, como perante Seu fundamental ponto de referência. E quando ele expõe a sua doutrina, mostra-nos com isso que primeiramente compreendeu a Lei para si, depois a ensinou aos outros, ao mesmo tempo em que a viveu aplicando-a a si próprio e dando assim a todos a possibilidade de imitar Seu exemplo. É assim que não se pode falar de Cristo sem falar também da Sua Lei, porque é esta que nos dá a chave para compreendê-Lo.

Com efeito, não existe nenhum fenômeno cujo exame não nos obrigue a procurar sua Lei, cujos princípios são reconhecíveis em cada momento, porque ela é a própria atmosfera na qual se insere o funcionamento da vida. Não há dúvida de que o homem acaba com seus erros, por desviar ou sustar a ação da Lei, mas é também evidente que, embora julgue isso possível, não o consegue nem pode consegui-lo. E mesmo quando começa a penetrar na Lei com os olhos abertos para captar-lhe a estrutura, envereda por um caminho de pesquisa que não acaba nunca. Quem trata os velhos temas com a velha forma mental, pode acabar iludindo-se com tudo que foi dito, nada mais havendo a acrescentar. Mas, desde o momento em que se comece a investigar no campo da Lei a cada passo se revela um novo horizonte. Cada vez mais acreditamos ter visto tudo e depois verificamos que há ainda tanta coisa a dizer e que não existe assunto algum que não se prenda à Lei, fenômeno nenhum de cujo desenvolvimento ela não contenha os princípios diretivos, dela proporcionando-nos sempre novos aspectos.

Assim, também o Evangelho nos reporta à Lei, nem pode ser compreendido senão em função dela. Todos os fatos se correlacionam entre si, reconduzidos pela Lei à unidade, de tal forma que se nos apresentam cada um como uma ramificação do mesmo tronco unitário. Segue-se daí que não se pode tratar de nenhum deles sem que sejam chamados em causa os assuntos afins, que por isso reciprocamente se entrosam, sendo necessário explicá-los, mesmo se não aparentem relacionar-se com o Evangelho. Isto é exatamente o que deveremos fazer, se quisermos ser completos,  exaustivos e convincentes.

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Voltemos ao Evangelho. Continuemos a escolha entre os seus pontos mais significativos e controvertidos, para procurar compreendê-los com a forma mental moderna e assim tornar possível sua aplicação em nosso mundo, hoje tornada difícil e decepcionante por incompreensão do assunto. No Evangelho encontramos, associados por afinidades, dois gravíssimos problemas: o da não-resistência e o da não-previdência, na busca dos meios necessários à vida. Eis como o Evangelho se expressa: “A quem te bater numa face oferece a outra e a quem te levar a capa dá-lhe também a túnica. Dá a cada um o que te pedir e não contestes o que te pertence a quem rouba de ti”.

Depois de tais afirmações o Evangelho explica como resolver as consequências de tal conduta: "Não vos preocupeis dizendo: O que comeremos ou o que beberemos, e de que nos vestiremos? (....). O vosso Pai celeste sabe que tendes necessidade de todas estas coisas. Vós, portanto, procurai sobretudo o Reino de Deus e a Sua Justiça, e todo o resto vos será dado por acréscimo. Não vos preocupeis portanto pelo amanhã (....). Não acumulai tesouros na Terra, mas acumulai, pelo contrario, tesouros no Céu (....). Quem quiser salvar a sua vida, a perderá; e quem perder a sua vida por minha causa e do Evangelho, a salvara".

No Evangelho, estes conceitos não são expressos só nessas frases isoladas, mas a eles corresponde o espírito de toda a doutrina de Cristo em matéria sobre a qual ele retorna com insistência e clareza. Não há, portanto, dúvida de que este é o seu pensamento. Assim a hipótese de que não seja este o Seu pensamento não é aceitável. Excluída toda possibilidade de evasão, devemos, então, aceitar a doutrina de Cristo como ela é.

Ora, não existe homem algum que, por pouco que conheça a realidade da vida, não veja imediatamente a inaplicabilidade de tais princípios em nosso mundo É um fato positivo de cotidiana experiência que a vida na Terra se baseia na lei biológica da luta, isto é, na moral bem diversa do mais forte, para o qual o que mais vale é ser vencedor. Então ficamos estupefatos perante uma tão decidida proposta de absoluto emborcamento dos métodos seguidos pela vida no seu normal funcionamento. É um fato que os métodos aconselhados pelo Evangelho revelam-se desastrosos, para quem os adota na prática Mas como então é possível, se eles são propostos por uma fonte tão prestigiosa que sejam devidos a uma total ignorância  daquilo que de fato é nosso ambiente terrestre? Que economia é essa do Evangelho? Como pode Cristo propor um tipo de conduta que está nos antípodas da realidade de nossa vida e das leis que a regulam sendo estas também por Deus permitidas? Como pode Cristo ter cometido o erro de levar-nos à falência por aconselhar-nos métodos todos inaplicáveis porque em plena contradição com aquilo que caracteriza o mundo em que vivemos? Não há dúvida que por esse aspecto o Evangelho se nos apresenta como um absurdo. Pois, deste modo, o anseio que induz o Cristo a nos fazer ascender do AS para o S, não difere de uma febre de superação que leva à morte. Mas assim, em vez de servir para a evolução, este ideal revela-se destrutivo e antivital, e deveríamos, por isso, ter o dever de repeli-lo.

Vejamos como funciona a vida, quais são as suas leis e métodos. Para ela o assalto e a guerra são um meio normal para medir com a vitória o valor dos indivíduos como dos povos. A economia do mundo baseia-se no cálculo egoísta do "do ut des” (dou para que me dês).

Em biologia, o organismo que não sabe lutar e vencer contra o assalto de um micróbio é um fraco, um doente, que a natureza procura eliminar. Entretanto, no campo social o Evangelho exalta como virtude tão perniciosas abdicações perante um inimigo! Mas então, é ele contra a vida? Em suma, enquanto o impulso da defesa na luta é são, é vital, é uma posição biologicamente justa, fazer o contrário deveria ser fraqueza, doença, ou seja, uma posição biologicamente deteriorada. De fato a vida trata como vencido aquele que não sabe resistir na luta e, porque vencido, o condena a sofrer disso as consequências dolorosas, para que aprenda a resistir, lutar e vencer. Isto é aquilo que a vida deseja e que nos ensina a fazer no nível biológico em que vivemos. Parece, portanto, loucura pretender que o homem possa viver conforme leis de um plano evolutivo mais alto, superior àquele que hoje se lhe condiz de acordo com o caminho que percorreu.

A contradição entre os dois sistemas de vida parece evidente e insanável. A distância entre a doutrina ideal de Cristo e a realidade da vida parece demasiadamente grande para que os dois sistemas possam avizinhar-se e conciliar-se. Ora, de que maneira se tentou enfrentar na prática este grave problema? Apenas, rodeou-se a dificuldade com uma escapatória! Tendo-se deparado com a inaplicabilidade do Evangelho, devido a oposta estrutura das normais leis biológicas, os seguidores do Evangelho, o aceitaram e pregaram como teoria ideal, mas sem aplicá-lo na prática dos fatos. Tal é, pois, o método vigente: o da hipocrisia. Cumpre, contudo, reconhecer nesse método o mérito de ter permitido ao Evangelho sobreviver na Terra, apesar de tudo, o que seguramente não teria sido possível se o mesmo tivesse sido levado a sério. Se a vida permitiu tal solução é porque isso era útil, não havendo outra alternativa possível, dados os elementos em jogo.

Porém, com tal solução, a contradição permanece, e com a agravante da incompreensão e da mentira. Tal solução não é honesta. Quem quiser ser honesto não resolve o problema por meio de escapatórias, mas o enfrenta sinceramente. Então, ou o Evangelho é verdadeiro e aplicável; ou não o e é se torna inaplicável. Logicamente, uma coisa não é ilícita se partirmos da convicção de ela não ser verdadeira. Quem é honesto jamais usa o método de pregar o Evangelho como verdadeiro, para depois não o aplicá-lo.

Insistimos, então, em perguntar: é porventura possível que o Evangelho não seja verdadeiro? Diante de tal dúvida a primeira coisa a fazer é procurar compreender. As aludidas contradições e inconciabilidades não dependem por acaso do fato de o Evangelho aparecer utopia só aos nossos olhos míopes, embora contenha grandes verdades? Ora, não será que tais princípios do Evangelho nos aparecem absurdos unicamente porque vistos relativamente ao nosso mundo, nível evolutivo e forma mental? Mesmo sendo inegável que um Evangelho vivido com plenitude, no ambiente terrestre, aparece como um suicídio a um homem comum, será que isso corresponde à verdade? Ou haverá no problema outros elementos que nos escapam e que o transformam? O que nos faz pensar que assim seja são as resolutas afirmações de Cristo, que certamente, devia saber muito mais além de nós, que nem sempre conseguimos compreender.

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É necessário compreendermos o que Cristo queria dizer para realizar a Sua doutrina em nosso mundo, que é tão distante dela. Daí a necessidade de compreendermos como Ele pudesse falar daquele modo e porque, pondo-se em aparente contradição com as nossas leis biológicas. O que pode fazer aparecer o Evangelho como um absurdo inatingível porque em contradição com aquela realidade, são as consequências catastróficas a que na prática pode conduzir, quando seja aplicada sem o necessário entendimento. É este fato  que então sugere o método da hipocrisia, induzindo a recorrer ao mesmo também aqueles que, tendo tentado viver o Evangelho, ficaram, depois, espantados com as consequências práticas de tal tentativa. E é assim que somos reconduzidos à posição híbrida da mentira, exatamente quando mais precisaríamos afastar-nos dela.

Ora, encarado de um ponto de vista mais profundo, o Evangelho representa uma técnica econômica sutil, que é necessário compreender e saber manejar, se quisermos evitar que o uso errado do mesmo nos leve a resultados negativos. E o Evangelho não pode ser culpado por esses resultados e sim a nossa própria ignorância. Como triste consequência, podemos jogar fora, por falta de compreensão, uma doutrina tão preciosa e tão necessária à vida como a do Evangelho, que deve der inteligentemente compreendida e conscientemente vivida.

É necessário, pois, compreender que o Evangelho é uma expressão da Lei, contendo verdades válidas para todo tempo e lugar. Eis então que, se compreendido na sua essência, pode o mesmo conservar sua atualidade e ser vivido também hoje em vez de ser considerado — como se costuma fazer — à guisa de uma bela fábula de outros tempos. Ora, pela própria razão de ser que deu origem ao Evangelho, é nosso principal objetivo fazê-lo hoje reviver, enquanto parece estar para morrer. Só um Evangelho compreendido em relação as leis da vida, quais as vemos funcionar, é que pode ser aceito pelo nosso mundo de hoje. E é bem este o objetivo que nos propomos a alcançar.

O Evangelho expressa um outro tipo de economia, diferente da humana usual, regulada por outras leis, adaptada a outras posições biológicas e morais, a outros modos de comportamento. Mas então, se este outro tipo de economia existe, em que consiste ele e por qual Lei é regulado? Procuremos então estudar o fenômeno a fim de compreendê-lo.

Assim, qual poderá ser o significado de uma tão categórica proclamação daquilo que na Terra é utopia, como e segundo a qual se considera possível se alcançarem os meios para sustentar a sua própria vida, gratuitamente, por acréscimo, desde que se procure o Reino de Deus e a sua justiça? Ora, tal método aplicado na Terra pareceria levar a falência! Mas não será que encarando o problema dentro de uma visão mais compreensiva, também a solução se torna diferente?

Com efeito, não podemos pretender que as principais leis biológicas do planeta por nós conhecidas esgotem todas as possíveis realizações da vida ao longo do seu caminho evolutivo. Eis que é necessário se admitir a possibilidade de diversos ambientes, leis e respectivos tipos de economia de vida. Assim sendo, o ponto de referência para a avaliação do Evangelho pode ser um plano evolutivo mais avançado, o que se costuma chamar de Céu; e os dois tipos de economia biológica a que aludimos são próprios de dois diferentes planos evolutivos, ambos verdadeiros, mas cada qual em relação ao ambiente que lhe é próprio. Eis então que o absurdo e a contradição acima referidos ficam resolvidos, explicados e assim desaparecem como tais. O plano evolutivo humano apresenta-nos a economia do AS, que a este ambiente se adequa, enquanto a economia do Evangelho pertence, pelo contrário, ao plano evolutivo super-humano, do tipo S. E por isso que elas são tão diferentes, opostas, antinômicas. E se o Evangelho na Terra nos aparece como uma absurda utopia, uma espécie de emborcamento da economia do mundo, é porque ele representa a economia do Céu.

Trata-se de compreender como pode existir e funcionar uma economia não mais baseada materiais e terrenos mais sobre outro tipo de valores espirituais e eternos. Isto nos constrange a abordar separadamente as duas questões: a não-resistência e não-previdência, o que será feito em dois capítulos distintos, com maior profundeza e argumento próprio. Assim, trataremos em primeiro lugar da não-previdência, desenvolvendo os conceitos das duas economias, a do involuído e a do evoluído. Falaremos, depois da não-resistência, por tratar-se de problemas afins, isto é, o da violência.




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