1) Autoridade e Liberdade

Veremos neste capítulo qual era a posição assumida pelo nosso personagem diante da Igreja. Isto nos permitirá examinar outros problemas afins. Para ser honesto ele definiu sua posição, antes de tudo, perante Deus e a própria consciência. Na Terra os dois termos da questão eram: por um lado, uma organização humana armada de verdades absolutas, infalibilidade, autoridade, poder material e espiritual para impor o próprio domínio, exigindo obediência sob pena de sanções neste e no outro mundo; por outro, um indivíduo isolado, incapaz de pensar e crer por sugestão e coação, absolutamente necessitado de um conhecimento claro e lógico, adquirido por livre adesão, fruto não de submissão cega, mas de convicção sincera. Duas formas mentais e duas finalidades opostas, duas posições antitéticas, uma destinada a formar e a submeter o rebanho; a outra, a alcançar a compreensão, através do raciocínio e do desenvolvimento espiritual, subindo em direção a Deus. Aqui, uma organização gigante na Terra cujo objetivo é conquistar adeptos; ali, um pobre solitário que pretende adquirir valores da alma e. por isso, se vê forçado, em face da autoridade, a tomar uma posição de legítima defesa. Cada um tinha as suas armas. De um lado havia a imposição de verdades estabelecidas e imóveis; do outro o direito de evoluir e a inviolável liberdade do espírito na procura de verdades sempre mais avançadas. Ainda de um lado, a forçada interposição de intermediários entre a alma e Deus, e do outro, a- absoluta impossibilidade de impedir que a alma possa comunicar-se com Deus, sem intromissão de terceiros, intérpretes ou ministros, que se autodenominam seus representantes. Aqui a imperiosa necessidade de manter unido o grupo sob o próprio domínio, para que não se disperse em cismas e heresias, acorrentando o pensamento e paralisando a pesquisa; ali, a necessidade de pensar para compreender e viver conscientemente, persuadindo-se da razão dos próprios atos.

Dissemos: legítima defesa, pois, na Terra, todas as coisas funcionam em regime de luta. Esta é a lei do nível biológico animal-humano. Ora, era no seio de tal regime que existia, na Terra, a organização do Catolicismo como poder social, sustentado por meios jurídicos, econômicos, políticos, com plena autoridade, enquanto do outro lado se encontrava o indivíduo isolado, desprovido de qualquer poder, pelo menos daqueles que têm valor neste mundo. Se ele o tinha no céu, isto cá em baixo não valia. Aqui falamos do jogo terreno, e não do espiritual, diante de Deus, o que é outra coisa. A ele na Terra cabia só o direito de obedecer, enquadrando-se na ordem estabelecida. Ora, isto podia convir à ovelha comum, feita para viver no rebanho sob o jugo de um pastor, mesmo que este a abrace e proteja para ordenhá-la. Mas ele não era ovelha; tinha necessidade de pensar e compreender e não podia engolir com olhos fechados verdades já confeccionadas em série para o uso comum, sem fazer a análise profunda do produto oferecido.

Deste contraste de formas mentais, necessidades, objetivos e posições só podia nascer um choque, a ser observado nos seus vários momentos. Ele nos permitirá colocar em evidência alguns problemas. No volume precedente, A Descida dos Ideais, no Capítulo "Psicanálise das Religiões", observamos alguns aspectos do Catolicismo em si. No presente capítulo, observaremos o encontro entre o Catolicismo e o nosso personagem, caso que pode interessar, porque não é o único, se bem que raro e fora de série. Pode-se dar a este fato um alcance mais vasto: o desencontro, que não é nada novo, da psicologia de qualquer pesquisador livre perante as verdades cristalizadas que a evolução obriga a levar mais adiante.

O fato de na Terra estarmos em regime de luta, onde nada escapa, levará forçosamente a interpretar em nossas observações como uma crítica demolidora dirigida contra a Igreja. Para os seus grupos rivais, poderá parecer um convite a ser utilizado para fazer guerra — o que mais se sabe fazer em nosso mundo — enquanto os problemas espirituais, que tanto interessam ao nosso personagem, têm bem pouca importância. Ora, é evidente a posição recíproca: para quem está interessado no conhecimento, bem pouco importa fazer guerra. Na Terra as religiões tendem a reduzir-se à luta de grupos. Para quem se ocupa da investigação da verdade, isso representa uma fastidiosa perda de tempo, enquanto para o homem comum, que se interessa sobretudo pela supremacia do seu próprio grupo sobre os outros, é a pesquisa da verdade que representa enfadonha perda de tempo. Mas ele deve mostrar que a cultiva para justificar o que, contrariamente, mais lhe interessa: a sua própria posição de domínio. Em nosso planeta, o problema maior não é o conhecimento da verdade, mas, sim, a autoridade e o poder.

Em nossa análise, trata-se de uma luta entre o Céu e a Terra, isto é, de uma reação do seu poder espiritual para não ser liquidado pelo homem, aqui bem instalado, que utiliza o espírito como meio para vencer no plano da luta animal e dominar materialmente. Tratando-se de um indivíduo espiritualizado, era natural que o choque se verificasse no terreno religioso, isto é, o da descida dos ideais na Terra, e não nos outros campos, como o filosófico o político, o social, o econômico etc., menos próximos e de menor relação com o problema espiritual. Tal choque é devido a irredutibilidade do tipo de indivíduo, que o torna incapaz de enquadrar-se junto das massas no materialismo religioso a que, para sua comodidade, o homem reduziu a religião. Ele está dedicado a outro trabalho, que não é prosperar na Terra, mas evoluir e subir espiritualmente. A religião, ao revés, ocupa-se de domesticar o ideal para reduzi-lo aos limites da animalidade humana, transformando-o numa forma de hipocrisia, para esconder, cobrindo-se de elevados princípios, a própria involução e, ao mesmo tempo, poder eximir-se do esforço evolutivo, permanecendo comodamente no nível animal. Não importa se a autoridade religiosa se preocupa antes com o seu poder e, por isso, luta contra a falta de fé, o erro, o rebelde a ordem. Esta é a substância do problema.

A primeira coisa que a autoridade adverte: procurar comunicar-se diretamente com Deus pode significar uma tentativa de fuga do seu domínio por ter encontrado outro tribunal, a ela superior, que torna o indivíduo independente. É a possibilidade que surge de liquidação dos intérpretes patenteados, adaptados a esta função sobre a qual eles baseiam as suas posições terrenas. É o temor de perdê-las, quando é suprimida a necessidade de depender dos ministros intermediários de Deus, monopolizado em suas mãos. Eis em que consiste o pecado mortal para aqueles intérpretes: em apelar para Deus, porque isso anula a sua autoridade, que assim deixa de ser suprema, último juízo, infalível, não inquirível, absoluta, sem apelação. Então a voz de Deus fala noutro lugar, por outras bocas e pode julgar de forma diversa, até mesmo condenando-os. É natural que tudo isso leve a desencorajar os contatos diretos da alma com Deus, sem submeter-se à intervenção dos seus representantes, porque isso significa voltar-lhes as costas, não lhes dando importância. Representa, portanto, libertar-se do poder da autoridade, que assim pode ser colocada de lado por outros que queiram pôr-se a comandar em nome de Deus. Estamos na Terra e aqui o que domina é a rivalidade pelo poder. Foi por isso que a Igreja condenou muitos que, falando em nome de Deus, faziam pressão para que ela pudesse evoluir, mesmo contra a autoridade, que, pregando em nome de Deus, pressionava para que a evolução, que é ascensão para Deus, se detivesse. Também, historicamente, vemos que a religião oficial, com a sua autoridade, muitas vezes não serviu para caminhar, mas para impedir que outros caminhassem.

É certo que tal conflito não deveria nascer, porque o homem espiritual não pensa de fato em atentar contra a autoridade terrena, pela qual não se interessa. Mas a luta nasce, porque o homem espiritual, apelando para Deus, foge ao domínio da autoridade religiosa terrena. E esta é muito ciosa daquela prerrogativa, seu ideal, que, deste modo, é atacado. Ele não só foge, mas, apelando diretamente para Deus, dá um péssimo exemplo de insubordinação, ensinando aos outros que existe um meio para fugir daquele domínio. E, como o seu exemplo, convida-os a fazer o mesmo. Em suma, trata-se de um rival no mesmo jogo de medianeiro entre o homem e Deus, de um rebelde que quer substituir-se à autoridade no monopólio de interpretar o pensamento e a vontade de Deus. Essa regalia está nas raízes do poder, as quais é preciso romper.

Cada tentativa de comunicação direta com Deus é considerada como sendo uma provocação ao Seu intérprete verdadeiro, atentado ao monopólio sobre o qual se baseia essa autoridade. Eis que este homem espiritual pode contradizê-la e, em nome de Deus destruir aquele privilégio com o mesmo estilo e método da infalibilidade e inapelabilidade — já tão útil nas mãos da autoridade — em seu próprio benefício. Pode diretamente insurgir-se contra ela, opondo-lhe outra autoridade, o seu próprio tribunal, que não se discute, expedindo sentenças contrárias às suas. Por isso afirma-se que a palavra de Deus não pode ser verdadeira sem a aprovação eclesiástica. E necessário, para sua defesa, que a Igreja mantenha o exclusivo domínio dos contatos divinos, que justificam a sua presença no mundo. Assim, é a única intérprete dos textos sagrados, a única que recebe e transmite o pensamento de Deus, a única depositária da verdade. Se surgem outros intérpretes, então nasce o conflito entre eles e a autoridade representante de Deus. Nasce a heresia, o cisma, a cisão que extirpa uma parte do corpo da Igreja, colocando-lhe em perigo o poder baseado na unidade do grupo. Então, trava-se a luta pela vida. A autoridade responde ao desafio mobilizando todas as suas armas. Verifica-se, como em todas as revoluções terrenas, o choque entre a autoridade constituída e os defensores de outros princípios e governos. A luta se desenvolve como em todas as revoluções. Se o rebelde é forte pelo número de adeptos, então vence, como aconteceu com o Protestantismo. Se é fraco, vence a autoridade, que o liquida como herético na fogueira. Esta era a história até ontem. Se não fosse a atual maturação biológica, que fez evoluir o mundo, a Igreja teria ficado por vontade própria naquelas posições. Vicissitudes humanas, praticadas com métodos humanos, que nada têm a ver com o espírito e com Deus.

Tudo isso é natural e lógica consequência das leis biológicas imperantes em nosso planeta, isto é, do princípio da luta pela sobrevivência e do respectivo sistema de rivalidades entre indivíduos e grupos. Dado tal ambiente e tal nível de evolução, tudo isso se justifica. O homem espiritual, cujo caso estamos observando, vive, pelo contrário, em outra fase de evolução e, por isso, é governado por outras leis. Disto se seguem dois métodos de ação totalmente diversos. O evoluído para afirmar uma verdade põe-se a demonstrá-la raciocinando, apresenta provas para convencer e alcançar uma adesão espontânea, que é resultado pacífico e duradouro. O involuído, por sua vez, põe-se a agredir as outras verdades, acusando-as de erros e, assim, as destrói como rivais, colocando no lugar delas a sua como única verdadeira. A consequência é guerra e incerteza. Aqui vivemos num regime de luta baseada na força das próprias armas. O involuído não sabe fazer outra coisa. Constituirá, neste caso, arma sutil, e por isso não deixa de ser arma: um terrorismo psicológico que se aproveita da fraqueza mental ou do alto grau de sugestão e ignorância das massas. O inferno e os demônios são o equivalente psicológico da galera e dos esbirros. O fato de que, no campo espiritual, possa haver valores como meio de convicção para aceitação de uma verdade - meios coercivos terrorísticos, como o inferno — prova a imaturidade espiritual das massas religiosas, que só entendem os métodos terrenos de persuasão coercitiva.

Os resultados que se obtêm são proporcionais a tais processos. Com o da imposição por autoridade e ameaças de sanções, isto é, com o regime da força, mesmo que seja no plano mental, apenas se pode obter reação e luta, não convicção, mas tentativas de se evadir com o engano. Há, no entanto, um fato que justifica tais atitudes: o mundo em grande parte é constituído de involuídos, com os quais é inútil tratar com sistemas espirituais, porque os homens procuram somente a sua própria vantagem, compreendem apenas a força que se impõe e o temor do próprio dano. E, sem uma punição e uma autoridade que a aplique, não se convencem de frear os seus instintos ferozes. As massas anseiam por fugir das sanções de qualquer autoridade, seja humana, ou divina. Eis que o evoluído fica sozinho contra o rebanho e os seus chefes, relacionados a eles e reunidos à sombra dos ideais, em perfeita compreensão e acordo. Tudo isso nada tem a ver com a verdadeira espiritualidade e religião. Mas é o que funciona na Terra, porque corresponde ao nível mental do homem contemporâneo.

Cristo pregou amor e paz. O homem continuou a fazer guerras. E, se este chegar à lua e a outros planetas, armará ali outros conflitos. O próprio Cristianismo é feito de uma história de heresias e cismas, num estado de guerra contínuo. Em tal mundo cada ato construtivo acaba em litígio para destruir. Foi, portanto, natural que, neste ambiente, o desejo de nosso personagem de encontrar verdades mais profundas e convincentes provocasse como única resposta a condenação dos seus livros ao Índex. As precedentes considerações podem explicar as verdadeiras razões de tais atitudes. Agora podemos compreender como, neste caso, a autoridade tenha pensado somente em se defender, indiferente à sorte do indivíduo condenado. Uma psicologia diversa desta pertence a níveis evolutivos superiores. E, por consequência, um absurdo no atual plano humano.

Compreende-se agora o erro fundamental daqueles que pretendem reformar a Igreja. A falta de conhecimento desse fato pelo homem é a ilusão de acreditar que ele, de um dia para outro possa transformar-se. É inútil procurar reformar a Igreja se, primeiramente, não se corrigir o homem, isto é, o material de que ela é feita: sua hierarquia, e seu rebanho. Com o indivíduo atual, mais do que aquilo que se adquiriu até agora — o que é bem pouco — nada se pode obter. Com o homem de amanhã, aquele que a evolução terá levado mais adiante, entre muitos fatores servindo-se também das religiões, poder-se-á conseguir mais alguma coisa. O problema não é de religião com base em verdades reveladas e respectivas organizações hierárquicas, mas de espiritualização por evolução, o que é trabalho biológico muito demorado; fenômeno imenso, de que o homem é mais efeito do que causa, confiado à História, ao tempo, aos golpes tremendos do destino. Este é o caminho das massas. Se algum indivíduo antecipa a sua evolução e, por isso, emerge, isto é assunto que não interessa aos outros, que não pretendem por isso mudar de vida. Porque analisou o fenômeno e compreendeu que não é possível, só com dois braços, mover a inércia de uma montanha, ele avança sozinho, respeitando a bem decidida vontade dos outros de permanecerem na retaguarda. Então, ele não deve ser julgado um rebelde, mas um prudente homem de ordem.

Estando assim as coisas, não foi culpa da Igreja se, para sobreviver, não teve outra escolha senão radicar-se no mundo como poder terreno, como organização hierárquica sobre bases econômicas, como autoridade dominando o seu rebanho, porque, sem usar os métodos do mundo, não poderia alcançar supremacia sobre ele. Para melhor compreender esta conduta e ver mais em profundidade os aspectos deste grave problema, observemos agora mais de perto a origem e a estrutura da igreja e da autoridade.

                                       ******

Quais são as origens da autoridade, a sua função, o seu significado nas suas várias formas? Pode-se tratar de progenitores, educadores, ministros de Deus, professores, superiores hierárquicos, burocratas, patrões, diretores, chefes de qualquer gênero, em todos os casos se encontra uma posição constante de domínio de uma parte e de sujeição da outra. Misturados, mas em luta entre si, temos, de um lado, a organização hierárquica, que representa o modelo de coordenação dos elementos em unidade orgânica (princípio do Sistema); e do outro, o dualismo entre superior e inferior, o qual representa o tipo oposto (do Anti-Sistema), de antagonismo entre elementos que se contrapõem como rivais. Eis que o princípio unitário em que se expressa a tendência da evolução para a organicidade (em direção ao Sistema) fica poluído pelo princípio oposto, antiunitário (emergente do Anti-Sistema), que tende a cisão. Explica-se assim, como é contraditório o fato de que as tentativas de unificação em nosso mundo se façam usando a força, principio desagregante, separatista, excitando reações e produzindo antagonismos. Sucede que todo impulso em direção ao Sistema é freado por outros, resíduos do Anti-Sistema ainda não superado, os quais, em vez de tenderem para a unificação, dirigem-se para o seu emborcamento, com a luta, na cisão. A universalidade unificada, sob a direção de um só chefe, foi sempre o grande sonho, ambição imensa, em política como em religião, desde o Império Romano ao de Carlos Magno, ao Islã, ao Catolicismo, ao Comunismo. Acontece que a construção unitária é sempre corroída interiormente pelo princípio oposto (AS) da revolta, que procura despedaçar aquela unidade. Isto é o que nos mostra a História, e só com estes conceitos podemos compreendê-la.

Realmente, o princípio de autoridade dirigido para a santificada finalidade unificadora (S), apoiando-se na obediência, traz em si, em germe, aquele outro oposto, divisionista, da revolta (AS). Em suma, cada autoridade representa o princípio do S, isto é, de Deus, centro do seu sistema; mas, em nosso universo decaído, essa causa primária não existe pura, porém corrompida, aparecendo, então, emborcada na forma de uma autoridade que comanda só para sua vantagem, e de elementos seus dependentes que procuram somente a revolta contra ela. Eis em que se pode transformar — e frequentemente assim ocorre — o princípio da autoridade. Por isso, aparece a lei da luta em todas as manifestações humanas. A autoridade não é usada, como no Sistema, qual centro vital do organismo dos dependentes, mas somente para utilizar-lhe as vantagens, de modo que a sua submissão, tornada assim forçada, se reduz a uma expectativa de revolta. Isto é lógica e fatal consequência do fato de que, em nosso mundo, sob o princípio altruísta, unitário, colaboracionista do Sistema, prevalece aquele oposto, egoísta, separatista, individualista, do Anti-Sistema.

Implantado o processo da vida segundo o método da luta, não se pode fugir ás consequências que dele derivam.  Ambos os termos se põem a lutar, cada um pela sua sobrevivência. É um estado de guerra: ao lado do mais forte (porque venceu, se tornou autoridade) para defender e reforçar a sua posição de comando; ao lado do mais fraco (por isso se encontra em situação dependente), para procurar, em sua legítima defesa, libertar-se de uma autoridade que não é ajuda e, sim, peso, a fim de destruí-la, logo que esta perca a força sobre a qual apoia todo o seu poder.

Num regime de luta, a autoridade pode significar uma forma de agressão contra a liberdade dos dependentes, que essa autoridade é naturalmente levada a limitar, porque, segundo foi colocado o problema, eles não são seus colaboradores, mas seus rivais. Num sistema de cooperação, tal limitação deveria resultar de um recíproco reconhecimento de direitos e deveres, por livre consentimento e convicção de ordem, para vantagem comum. Mas, dado aquilo que é o homem, ela tende a reduzir-se à imposição forçada, o que produz a sua correspondente reação. Este impulso serve para alimentar nos dominados certo fortalecimento, até levá-los ao ponto em que possam reagir pelo enfraquecimento da autoridade. Entretanto, mesmo durante a espera, aquela imposição serve aos súditos para aprender alguma coisa, porque lhes ensina a evadir-se de qualquer maneira, com a hipocrisia e mil outras astúcias, para poder sobreviver da forma menos mal possível. Quem não tem a força defende-se com o engano. E esse engano constitui-se num trabalho mental, por ínfimo que seja, proporcionado á capacidade do involuído e que serve para desenvolver-lhe a inteligência. Para o involuído isso já é uma conquista, exigência que a vida faz a todos, ainda que ao nível de cada um. A luta tem sempre uma função criadora, levando o fraco a fortalecer-se, o ingênuo a tornar-se astuto, o ignorante a fazer-se sapiente. A sobrevivência é condicionada e a evolução é o prêmio deste esforço. Quanto mais baixo é o nível de cada um tanto mais caro se deve pagar o direito à vida.

Eis a que tende e para que serve a autoridade na Terra. Para excitar, com a opressão, a revolta dos súditos, constrangendo-os a desenvolver qualidades que ainda não possuem, o que constitui benéfica ação evolutiva para sua vantagem. Quase soa a escândalo reconhecer tais verdades. Mas não vemos que neste mundo cada autoridade, uma vez bem instalada, tende ao abuso, com que se compensa quem fez o esforço de conquistá-la? E não vemos igualmente que ao abuso costuma seguir-se uma reação revolucionária que acaba destruindo aquela autoridade, substituindo-a por outra, que, por sua vez, tende a novo abuso, terminando em outra revolução? Mas assim todos trabalham e aprendem sem trégua, e a evolução jamais para. Na sabedoria da vida tudo se torna um meio salutar para evoluir. E para isso que serve esse jogo de comando e de obediência num mundo inferior sujeito a regime de luta. É assim que, com os métodos do AS, se consegue subir para o S, e o próprio mal colabora para a ascensão em direção ao bem. É assim que, à força de injustiças de todos contra todos, (da autoridade contra os seus súditos e destes, na revolta, contra aquela), consegue avizinhar-se da justiça. Deste modo, seres ignorantes das leis da vida as aplicam inconscientemente, corrigindo-se reciprocamente dos seus erros. Constrangidos pelos impulsos opostos, vão cometendo erros cada vez menores, passando de um estado de injustiça a outro de justiça cada vez mais completo. Gradualmente, a autoridade torna-se cada vez menos agressiva, e os seus súditos se tornam cada vez mais obedientes. Os dois termos contrários aproximam-se cada vez mais um do outro, educando-se mutuamente, compreendendo-se, aprendendo a conviver, numa posição de luta e de sofrimento cada vez menores.

Sucede que, quando os dependentes, impulsionados pela opressão da autoridade, são obrigados por reação a fortalecer-se e, então, podem fazer valer os próprios direitos, ela faz-se generosa, mais razoável, mais justa e entra mais facilmente em acordo. Quando os subordinados se tornarem bastante astutos, de modo que não se deixem mais enganar, ela abandonará o método da hipocrisia, agora contraproducente, e se fará mais sincera e honesta. Entretanto pelas referidas razões, ao mesmo tempo em que a autoridade passa a ser mais condescendente e honesta, também os seus subordinados, que, então, são menos obrigados a se defender para a sua sobrevivência, podem ficar mais respeitosos para com ela. Como consequência, ocorre que quanto mais eles se tornam assim, tanto mais a autoridade — que por isso é menos forçada a lutar contra eles para a sua sobrevivência — pode fazer novas concessões a favor deles, porque agora é para ela menos perigoso. É evidente que quanto mais as massas são conscientes e menos rebeldes, tanto maior liberdade se lhes pode conceder sem o perigo que dela abusem. Então, quanto mais a autoridade for leve e transigente, tanto mais os seus subordinados poderão ser obedientes, porquanto agora o comando daquela não é para os oprimir, mas para ajudá-los, já que ela está a favor da vida deles e não contra. E assim sucessivamente.

De tudo isto se deduz que a sabedoria vai encontrar, automática e gradualmente, a solução. Mas, enquanto cada um dos dois termos não reconhecer o direito de vida à parte contrária, esta a defenderá com todos os meios. E nem autoridade, nem dependentes terão paz, até que aquele direito seja plenamente respeitado.  A solução está em chegar a um acordo, mas não, como se faz hoje, lutando para se sobrepor reciprocamente. É a tendência ao abuso de uma das partes o que constringe a outra, que não quer suportá-la em seu prejuízo, a reagir para detê-la. Nestas condições, é inevitável o regime de ataque e defesa. Até que a sobrevivência de um esteja ameaçada pelo ataque do outro, em vez de ser garantida pelo reconhecimento do direito próprio à vida, haverá luta, porque fica de pé o motivo da oposição dado pela necessidade de defender-se contra um inimigo. Basta que este se torne amigo, para que o caso seja resolvido. Nem se pode resolvê-lo de outra maneira, a não ser chegando a um estado de justiça, isto é, de reconhecimento dos recíprocos direitos e deveres. É o abuso de um lado que faz nascer a reação do outro. Suprimido um, desaparece o outro. Como se pode notar, há todo um jogo de reciprocidade, de ações e reações. Começa-se com a imposição e acaba-se pela compreensão; começa-se com a força e termina-se pela justiça; começa-se com a guerra e finda-se pela paz. Assim funciona a vida.

De tais princípios a própria Igreja nos oferece hoje uma aplicação. Ela usou os métodos de opressão por toda a Idade Média. Hoje que, pela maturidade mental dos fiéis, tais métodos se tornaram contraproducentes e se compreendeu que, dadas estas novas condições, a fé não se afirma oprimindo, mas convencendo, a Igreja abandonou a técnica dos anátemas e condenações, concedendo no último concílio maior liberdade de consciência. Mas isso pôde suceder só agora quando séculos de opressão impulsionaram a inteligência a desenvolver-se, a fim de tornar-se independente, de maneira que hoje não é mais aceito cegamente só por principio de autoridade.

O problema da autoridade passou a ser o da emancipação e da liberdade, porque, ao conceito de autoridade dominante, veio juntar-se o da libertação da sua dependência. É assim que em nosso mundo a liberdade é concebida como uma revolta contra o poder e não como um ato de pacífica coordenação no seio da ordem de um estado orgânico. Eis que imensa distância separa o conceito de liberdade pelo involuído, conforme o AS; do outro, pelo evoluído, segundo o S. Neste segundo caso, a autoridade não é, como no primeiro, uma imposição do mais forte para sua vantagem e em prejuízo do mais débil. Quando isto acontece, se é poder político, ela pesa sobre o cidadão; se é poder religioso, sobre o fiel.  Mas, quando o cidadão se fortalece pelo número e pela organização, então o Estado democrático — como agora, com a pressão do Comunismo — faz-se justo e respeitador dos direitos do cidadão. E, quando o fiel se torna mais inteligente para desvendar os mitos da Teologia e as astúcias da hipocrisia, então a religião —- como acontece presentemente, por causa da indiferença geral — faz-se mais compreensiva dos direitos da consciência. Eis através de que o jogo de forças se realiza o progresso neste terreno e como se passa, gradualmente, da fase imposição que constringe à obediência àquela de adesão convicta e espontânea. À força de fatigantes tentativas para se expandir um à custa do outro, autoridade e subordinados acabam reconhecendo os direitos da parte oposta, aprendendo a arte da convivência pacífica. Vivemos numa sociedade na qual, mesmo que se pregue o amor pelo próximo, o vizinho é quase sempre, pelo menos potencialmente, um inimigo, e àquele amor não se pode chegar senão quando cada um impõe amor ao semelhante, ou seja, com o cumprimento dos próprios deveres e o respeito pelos próprios direitos.

No atual baixo grau de evolução do ser humano, não se pode obter mais. Hoje, ainda se concebe a vida com a forma mental do Anti-Sistema, isto é, como um individualismo separatista colocado na desordem, e a liberdade é concebida como um direito à revolta para cada um se impor sobre todos. No futuro, a vida será concebida como a forma mental que se aproxima sempre mais do Sistema, isto é, como disposição de cada um na ordem coletiva, e a liberdade, como dever de obediência dentro do trabalho comum de cooperação para o bem social. Assim se compreende por que hoje a palavra liberdade é ainda o grito das revoluções, revela o instinto de luta e é sinônimo de revolta. Isto prova que o poder, muitas vezes, reduz-se a uma forma de opressão da qual o oprimido defende o seu direito à vida. Explica-se também por que hoje ainda domina tal conceito de liberdade.

Esta é a história de todas as emancipações.  Começa-se com a opressão e acaba-se pela libertação, que pode ser do proletariado contra o capitalismo dos ricos: da mulher contra a prepotência do macho; das consciências contra o dogmatismo e a intransigência religiosa etc. Cada liberdade não só deve ser conquistada, mas também representar o cumprimento de um justo direito, sem cair no abuso. Se a luta não se concluir com a justiça, mas com outra injustiça, esta provoca a reação do prejudicado. Então, a luta continuará até que se encontre o justo equilíbrio. O involuído atual ainda entende por liberdade não só a revolta contra a opressão para obter a justiça em seu favor, como também uma vitória sobre o opressor para vingar-se e oprimi-lo, alcançando, deste modo, apenas outra injustiça. Assim, invertendo-se somente as partes, quando se realiza esse mesmo trabalho, fica-se sempre no ponto de partida, porque a injustiça, causa da desordem, permanece. Então, a série de revoltas pela liberdade e justiça, não acaba mais. Enquanto triunfar o egoísmo e se procurar somente a própria vantagem, espoliando o próximo o direito à vida, continuará em cada um a luta para defendê-la, e o problema não será resolvido.

Explica-se, desse modo, a forma predominante de desconfiança de que é rodeado todo tipo de autoridade, que o indivíduo, por longa experiência histórica, é habituado a considerar como um inimigo do qual tem de defender-se. Foi assim que nasceu a luta contra o Governo pela evasão fiscal, a fim de eximir-se dos deveres do cidadão; nos países católicos, onde mais dominou a Inquisição, nasceu o hábito da blasfêmia, e outros mais. Quando as várias partes do organismo social estão em luta, ele não pode funcionar.  O estado de guerra contínuo não permite construir, porque o trabalho maior que absorve todas energias é a guerra: não só aquela entre povos, mas entre indivíduos, corpo a corpo, em cada momento e movimento. É um enorme peso de inconsciência coletiva sobre todos. Somente à força de suportar os dados e as penas a que conduz tal estado, é que se chegará a aceitar o absurdo do sistema atual e se poderá alcançar o da colaboração, fazendo cada um a sua parte por especialização de funções e coordenação de atividades. Mas quantas dores serão ainda necessárias para que o homem chegue a admitir uma coisa tão lógica e evidente!

A esta nova posição se chegará, quando a autoridade compreender a sua superioridade de comando não como um direito, mas como um dever  para com os seus subordinados, e estes entenderem a sua obediência como colaboração, e não como subserviência; quando a autoridade der o exemplo de assumir o esforço maior desta colaboração, e os subordinados se sentirem, por isso, obrigados, no interesse comum, a fazer outro tanto. Contudo, a iniciativa deve partir da autoridade, que está mais no alto e comanda. Quando, entretanto, ela pensa só em si, os seus dependentes têm o direito de fazer o mesmo, e, então, tudo se corrompe. Nesta nova posição a autoridade, sem se impor, encontra espontânea obediência, porque esta não significa sujeição ao seu egoísmo, mas adesão à sua ordem, que convém seguir. Então, essa autoridade não é um inimigo que desfruta, mas um amigo que ajuda. Para ela não serão mais inimigos os seus dependentes, e estes não terão nela mais um inimigo. Em vez de um montão de rodas, inutilizadas na sua desordem, teremos uma máquina que trabalha e produz, gerando bem-estar para todos. Hoje o mundo está carregado de males produzidos por ele mesmo no passado. É necessário anulá-los à força de inteligência e retidão. Trata-se de  um trabalho de reabsorção coletiva que exige a cooperação de todos. Mas nenhum de nós quer fazê-lo e espera que o vizinho o faça primeiro. Esses males formam uma massa enorme, e ninguém, cooperando, quer tomar a sua parte para destruí-la. A colaboração será o único modo para conseguir isso. Ao contrário, cada um procura jogá-la em cima do outro, a fim de salvar a si próprio. Assim, ela cai sobre todos e ninguém escapa. Todos nós gozamos fraternalmente o belo inferno que construímos com as nossas mãos.

Por tudo isto se vê como é inexorável a lei que impõe devamos suportar as consequências das próprias ações. O que semeamos devemos recolher. Ficamos, assim, encadeados a este estado de guerra, mesmo que ele nos atormente. E são inúteis os nossos belos planos para fugir dele. Todos desejam o desarmamento, mas quem o fizer  em primeiro lugar será morto. Quem não é forte, por não estar armado, não tem direito à vida, sendo, portanto, ridículo pensar que se renuncie a armar-se por um princípio de paz.  Procura-se, portanto, esmagar o vizinho, de modo que ele não possa reagir. Esta é a paz que se alcança com tal sistema.

Eis qual é o verdadeiro opressor: a nossa involução, a montanha de abusos acumulados no passado, a forma mental que procura continuá-los, o egoísmo, o instinto de domínio, a injustiça, com os quais se formaram os nossos hábitos de vida e se saturaram no passado as nossas instituições. A verdadeira revolta pela liberdade deveria ser contra este opressor. É desse peso que o homem deve emancipar-se, se quiser alcançar resultados sérios. A sublevação deveria ser contra a baixeza de nossa própria natureza. As outras revoluções, salvo pequenas alterações, deixam mais ou menos tudo como estava e reduzem-se a uma mudança de ocupantes nas mesmas posições e com os mesmos defeitos, para continuar a fazer as mesmas coisas. É por isso que as revoluções não resolvem, voltando sempre a limpar onde não se consegue fazê-lo nunca. De que serve substituir uma forma de Governo por outra, quando os homens permanecem os mesmos e, em nome de outros princípios comportam-se igualmente?

Esta nova revolução, ninguém a quer, nem a faz, porque não é dirigida contra as culpas dos outros, mas contra as próprias; ela não é feita assaltando, roubando, matando, porém, pedindo satisfação à própria consciência; ela não é feita para conquistar direitos, exigindo justiça dos outros para sua vantagem, mas reconhecendo e cumprindo seus deveres, exigindo justiça, em primeiro lugar, de si mesmo com sacrifício pessoal.

Como tudo é interdependente! Falar de autoridade nos levou a tratar de liberdade, emancipação, revolução, para acabar por explicar o verdadeiro significado delas em relação aos mais altos fins da evolução. Sem dúvida o homem chegará a realizar essa outra substancial revolução, que terminará por substituir todas as outras ainda formais com que o homem de hoje se deleita. Mas quantas dores serão ainda necessárias para poder chegar a compreender como deve ser feita e como adquirir a inteligência e a coragem para enfrentá-la e realizá-la! Quantos vencedores de revoluções, que por sua vez se tornarão depois tiranos, deverão ser mortos, em nome da mesma justiça pela qual eles mataram os seus opressores! Que cadeia de débitos, em nome do mesmo ideal, repetidos pelo mesmo tipo de homem, para alcançar o mesmo objetivo, acabar no mesmo abuso, provocando a mesma reação proveniente de nova revolução! Assim ela caminha, lenta e dolorosa, ficando o homem encadeado ao duro esforço de percorrê-lo. Mas tais são as leis da vida. É assim que estas funcionam para os que se colocam em posição emborcada, contra elas, embora acreditem, na sua inconsciência, ser possível não provocar reações, nem dever suportar tais consequências

                                          ******

É  um fato que a tendência moderna é a de passar de um tipo de autoridade, entendida como meio de domínio imposto, que se torna fonte de revolta por parte dos dependentes, a outro tipo entendido como meio de coordenação com a finalidade de colaborar, o que, pelo contrário, é fonte de convivência pacífica. Passa-se assim de um sistema de opressão a um sistema de compreensão recíproca, da inimizade à concórdia, da luta à unificação, o que significa um regime utilitariamente muito menos danoso e mais proveitoso. Tudo isto é o produto natural da evolução. Aqui observaremos agora a passagem do velho ao novo estilo de vida. Trata-se de uma diferente orientação devida à constituição de uma nova forma mental, o que leva em cada campo a conceber e, portanto, a fazer as coisas diversamente, fato que desloca toda a estrutura de nossa vida individual e social. Em substância, trata-se de um salto evolutivo em frente para afastar-se ainda um passo do AS e avizinhar-se do S. Trata-se de um reordenamento do caos, de uma reaproximação na cisão do dualismo, de reabsorver o separatismo na unificação, de uma pacificação no universal regime de luta, de superar o estúpido regime de agressividade destrucionista (próprio do primitivo), para chegar àquele mais inteligente e proveitoso amor construtivo, próprio do evoluído.

A grande nova construção dos nossos tempos é o organismo coletivo. E para chegar a este resultado que as relações sociais hoje estão mudando de forma. Antigamente baseavam-se em dois princípios: autoridade de um lado, obediência do outro. Estávamos na era do patrão e do servo, da força de um lado e a hipocrisia do outro. Assim cada um tinha construído a sua própria arma de ataque e defesa, necessário por que vivia num regime de luta. Hoje, pelo contrário, tende-se a basear as relações sociais sobre princípios diversos: colaboração entre autoridade e súditos, isto é, autoridade concebida como função social para o bem coletivo, à qual quem lhe está submetido espontaneamente adere pelo seu próprio interesse. Hoje, em lugar da autoridade que se impõe pela sua força, do servo que deve obedecer e, portanto, procura fugir-lhe com escapatórias e mentiras, de um sistema de guerra baseado em tais armas, existe uma tendência aos acordos claros, para se chegar a um método de sinceridade e pureza, e paralelamente a uma maior consciência de ambas as partes, dos próprios direitos e deveres.

Esta maturação de forma mental que conduz a um novo modo de conceber a vida e com isso as relações sociais, é o resultado da evolução acelerada, no momento decisivo de sua curva. E assim que as relações sociais são sempre mais disciplinadas com recíproca compreensão e justiça, em vez de serem estabelecidas como no passado, por imposição do mais forte, e como tal, usando todos os direitos contra o mais fraco que, só tem deveres. Hoje, a tendência é de regularizar aquelas relações sociais com uma definição dos recíprocos direitos e deveres, procurando-se completá-la por meio do diálogo representado com palavras e fatos, choques, abalos, adaptações e acordos que se estão desenrolando como fenômeno de grande importância na atualidade, com tendência a alcançar uma posição biológica mais evoluída: aquela que através da superação do atual estado de luta, realiza uma fecunda convivência pacífica.

Para se ter uma ideia do que foi a forma mental no passado, basta observar o modo pelo qual, na religião, o homem concebia Deus que, nas classes menos espiritualizadas, continua ainda a concebê-lo. É natural que o homem faça de tudo uma ideia própria, até de Deus, segundo as únicas medidas que possui, estabelecidas pelas dimensões, estrutura e, portanto, capacidade de entender a sua forma mental. Ora, mudando esta, ele muda, também, o conceito da divindade. É inevitável que, representando Deus a autoridade máxima, quando o homem Nele projeta o conceito que tem de autoridade, e comporta-se diante Dele, como está acostumado às autoridades do seu mundo. Assim a ideia de Deus é concebida pelo comum dos fiéis, semelhante a do servo para com seu patrão, paralelamente àquela que o súdito faz do seu governo, a mulher deve ter do marido que manda, os filhos do pai, os alunos do mestre, os dependentes dos seus superiores significando autoridade do Estado, marital, paterna, disciplinar etc. A posição de um lado é a de submissão, do outro a de comando.

Essa relação de domínio e dependência responde a uma natural graduação de poderes segundo as próprias capacidades e, numa sociedade de seres conscientes e honestos, pode constituir a base de uma hierarquia sã. Mas infelizmente vivemos num mundo de tipo oposto, isto é, baseado na rivalidade e na luta. Segue-se, então, que essa diferença de posições não gera coordenação, mas revolta e atrito. Dominando o tipo involuído egocêntrico, que detêm a autoridade, busca somente a vantagem própria contra a do rival a ele submetido; e ao contrário, quem lhe é submetido compreende a obediência como uma derrota, contra a qual é necessário defender-se para não permanecer vencido. Eis que quem vive neste nível evolutivo concebe as relações entre o homem e Deus, como as que existem entre dois impulsos opostos e interesses inimigos, isto e, entre quem quer impor-se e quem procura rebelar-se, entre quem exige obediência, porque é o mais forte, e quem não pretende submeter-se só pelo fato de ser mais fraco.

É  assim que o homem, não podendo conceber seja o que for senão com a sua forma mental, entende as suas relações com Deus semelhantes às que existiam entre escravo e senhor. Explica-se, então, a comum atitude psicológica que se costuma ter de Deus: 1) temê-Lo, porque mais forte e armado de sanções punitivas; 2) como tal tendo Ele pleno direito ao comando e dependendo completamente do seu beneplácito, porque é poderoso, pode, por isso, cometer qualquer arbítrio, até, com o milagre, violar a lei estabelecida; 3) humilhar-se para melhor obter o favor do soberano que concede a "graça" a quem quer e como quer, por razões não censuráveis que só ele tem o direito de conhecê-las; 4) procurar as escapatórias para fugir ao domínio do patrão que o exercita no seu interesse pela sua grandeza, para se afirmar a si próprio; procurando enganá-lo, fingindo-se seu fiel súdito, obediente e servidor para conseguir, desse modo, evitar a pena e ganhar o prêmio Eis a religião da hipocrisia. A ideia do amor pode até mudar esse sistema, mas ficam dele os defeitos básicos que tudo torcem, adaptando-o a si mesmo. Tal sistema infelizmente é o resultado da psicologia instintiva do homem comum, mesmo que tenha boa fé, produto do subconsciente coberto ingenuamente de hipocrisia pelo exterior. As nobres aspirações podem ser diversas, mas esta é a realidade. A natureza humana no fundo é ainda de tipo AS.

Com a passagem por evolução a uma forma mental mais evoluída, tende-se a conceber Deus de modo diferente, semelhante ao novo conceito que os súditos fazem dos seus governantes (democracia), esposa-esposo (matrimônio como colaboração entre iguais), filhos dos pais (compreensão recíproca), alunos do mestre, os dependentes dos superiores (isto é, relação de recíprocos direitos e deveres) etc. Eis que a posição do indivíduo, seja do lado do comando ou da obediência, faz-se, completamente, diversa; isto é, não mais de imposição obrigatória, mas de consciência e responsabilidade. Assim o problema é colocado diversamente por quem, suprimida a posição de dominador, falta-lhe a causa provocadora da revolta. O chefe permanece, mas como função diretiva, até necessária para os outros, e não com função de puro domínio imposto a servos. Eis que se forma também neste caso uma hierarquia, mas ela se avizinha do tipo S, ou seja, é livre e convicta, não escravagista e inconsciente, como no passado de tipo AS.

Neste novo estilo de vida as relações sociais são estabelecidas por exatos direitos e deveres, sem luta, sem vencedores nem vencidos, sem opressões escravagistas. Cada um se coordena espontaneamente com o outro elemento, consciente da posição que lhe corresponde, e coloca-se no seu lugar, porque sabe que pôr-se fora da ordem é antiutilitário e contraproducente, mesmo para ele. Ele sabe que a posição melhor para si, como para todos, é a do próprio dever, porque é a única legítima, portanto, segura para poder fazê-lo senhor dos direitos que lhe dizem respeito. Alcançada essa forma mental, as relações entre o homem e Deus são concebidas não como entre dois egoísmos rivais, mas como duas posições complementares no mesmo organismo, por ele unidas em colaboração para atingir as mesmas finalidades e o mesmo interesse.

Eis então que as relações entre o homem e Deus tendem a concebê-lo em uma forma diversa da precedente. Muda assim a atitude psicológica que se tem perante Deus: 1) não se teme mais Deus como uma autoridade egocêntrica que se impõe com promessas e ameaças sobrepostas aos nossos desejos para dobrá-los à sua vontade, mas sente-se Deus vivo em nós, enquanto somos parte do seu ser, seus verdadeiros filhos, que, portanto, em lugar de temê-Lo, O amam. Então todo antagonismo se torna absurdo como aconteceria se os órgãos do corpo se rebelassem contra o cérebro que os dirige. Isto é possível num estado de caos, não em um organismo como e a criação de Deus. A desordem pode existir somente para os seres que ainda gravitam em direção ao AS, isto é, um estado de revolta; 2) o indivíduo não vive no arbítrio do beneplácito de um Deus, que pode tudo, mesmo fazer qualquer desordem, arbitrariamente, mas é dirigido por uma Lei, que é o próprio Deus, é o Seu pensamento e a Sua vontade, Lei por Ele estabelecida, feita de normas conhecidas, em que Ele é o primeiro a ser-lhe fiel, sujeitando-se somente àquilo que Ele mesmo fixou, porque era necessário fixar para que cada ser tivesse a garantia dos efeitos, de modo previsíveis, a cada ato Seu, vivendo não num sistema de nebulosidade e de mistérios, mas de clareza e sinceridade; 3) o humilhar-se é necessário para que quem deve vencer o seu próprio orgulho, mas não existe objetivo para quem tem consciência da sua posição e nela se coloca livremente sem pensar em superá-lo. Não pede favores nem graças porque reconhece não ter direito, mas espera com segurança o que merecer conforme a Lei, sabe que num regime de ordem não se pode apropriar de um direito senão depois de ter cumprido o próprio dever. Tudo isto é de seu conhecimento, sem mistérios; 4) em tal sistema é absurdo, louco, contraproducente procurar escapatórias para fugir ao comando do patrão. Não existe mais nenhuma imposição, porque cada um a sente dentro de si como autodeterminação, como uma exigência do cumprimento do próprio dever, correspondente à utilidade do indivíduo, necessidade de ser imposto. Portanto, nenhuma elasticidade e incerteza de normas que permita enganos. Prêmio e pena são calculáveis com antecedência. Deve assim forçosamente desaparecer a religião de hipocrisia. É  verdade que o homem atual não atingiu ainda este ponto, mas ele já está se dirigindo para este novo modo de conceber a vida. É  verdade que ele gravita ainda em direção ao AS, mas é verdade, também, que a evolução é um impulso irrefreável que o arrasta em direção ao S.

No futuro Deus será concebido não como hoje antropomorficamente, mas cientificamente, como um organismo conceitual de princípios e leis sempre em ação, produtos executivos de uma vontade sempre presente em todos os campos, positivos e universais como os já descobertos pela ciência. O conceito de Deus-Lei é muito mais avançado do que o atual de Deus antropomórfico, e oferece a vantagem de que com Ele não são admissíveis acomodações e hipocrisias, porque perante uma Lei íntima em tudo o que existe, presente em toda a parte e sempre funcionando, é absurdo excogitar fingimentos para se evadir, como normalmente pode ser feito com as leis terrenas. A tendência atual é de se crer livre das leis e da sua disciplina, porque está perdendo força a mitologia do Cristianismo que fixava as normas da conduta humana. Ora, um dia o homem vai se defrontar com as mais exatas exigências e os mais graves deveres morais quando, livre mas responsável, estiver sozinho com a sua consciência perante a Lei. Então, através da sua dura experiência ele aprenderá que com a lei de Deus não se brinca, e que as atuais alegres evasões, ainda que sabiamente encobertas, se pagam caro.

Esta Lei é universal, mesmo se cada religião viu nela aspectos e aproximações diversas, mesmo se no relativo do espaço e do tempo ela se mostra em seus momentos diferentes. Portanto não mais favores, graças, milagres entendidos como violação daquela Lei, nem atos arbitrários, mas um regime de ordem, no qual também a vontade do Soberano se integra ficando regulada por ele. Então o homem se transforma como mente e ação. De rebelde à procura de evasões forçado à obediência pelo medo de um castigo ou pelo desejo de um prêmio, ele se torna um consciente operário de Deus, aderindo espontaneamente à Sua vontade, porque se sente pensamento do seu pensamento, célula do seu corpo. Tudo está estabelecido na Lei, e todos naturalmente colaboram para a sua atuação. Então o indivíduo encontra-se perante Deus numa posição diversa. Isto lhe confere honestos direitos que ele pode chamar a si, não por espírito de revolta ou de orgulho, mas porque está consciente da Lei que os estabelece e sabe o que espera a cada um quando cumpre os próprios deveres. É  a mesma Lei que autoriza e satisfaz os seus direitos. Esta é a técnica de um sistema mais avançado do que o atual, de ordem, isto é, evoluído em direção ao S. Assim o homem é elevado de dignidade porque conduzido a um estado de consciência mais profunda, mas precisamente por isso obrigado a uma mais exata observação da Lei. Viver num regime de clareza que admite tais direitos significa que não se pode esconder mais nada e que não há fingimento que possa permitir fugir ao cumprimento dos próprios deveres. Não mais palavras mas fatos; não mais tentativas de propiciar-se o favor por intercessão (a recomendação do amigo), mas apenas o real valor do mérito e das obras realizadas. Resta o amor e a misericórdia de Deus, o primeiro para suavizar, a segunda para adiar oportunamente os pagamentos, mas não para violar a justiça como se quereria.

A este novo modo de conceber as relações com Deus se deverá chegar como consequência da nova psicologia que já se está realizando nas relações sociais. A hierarquia permanece na medida em é princípio de coordenação orgânica, permanece no campo eclesiástico, civil, político, familiar, econômico etc., mas dirigida por um espírito diverso. Jamais a autoridade do velho tipo foi tão discutida, a paciência dos subordinados foi tão diminuída, a inteligência se aguçou e adestrou tanto, a fim de descobrir tudo o que se encontra atrás da cena da arte de dominar, de modo que o velho sistema já não vigora mais. Os demasiados abusos de que ele se carregou no passado o fazem desmoronar.  As grandes  palavras altissonantes soam agora a falsa retórica. Exige-se seriedade no comportamento. Assim ambas as partes se tornam mais razoáveis. Convém a ambas abandonar a luta e pôr-se de acordo. Mas até hoje a inteligência  humana ainda não se desenvolveu a ponto de compreender uma coisa tão simples. Eis que nasce a ideia do diálogo. É mais útil de um lado abandonar o chicote e do outro a rebelião, para fazer o contrário: estudar, inteligentemente, o que mais convém a todos.  Começa-se a compreender aqui o que nenhum proveito, somente prejuízo traz o atrito da luta. Assim se estuda a técnica da convivência pacífica, e se busca o entendimento.

Assim se altera o conceito de trabalho. Antigamente ele era escravidão, para vantagem exclusiva do patrão; agora ele é um meio de produção para vantagem de quem dirige o trabalho, como de quem o executa. Então o Cristianismo concedeu ao fiel que reclamava a liberdade de consciência, concedendo-lhe de igual modo o peso da responsabilidade de dirigir cada um a sua própria consciência. De agora em diante o crente não poderá mais responsabilizar a autoridade e ninguém o ajudará a carregá-lo. Para a autoridade o comando era fácil quando todos lhe obedeciam, não hoje que cada um se sente no direito de pedir-lhe que preste contas da sua conduta. Antigamente o mal se curava com o método de não deixar que fosse visto. Bastava escondê-lo.  Mas hoje isto não é assim tão fácil. Antigamente as massas se contentavam com as aparências. Hoje elas se tornam críticas e muito menos crentes. Haverá menos fé, mas tudo isso é a morte da hipocrisia.  Para afastar a mentira não há outro meio senão o desaparecimento do ingênuo que nela acredita.

Cabe perguntar-nos quais foram as causas que produziram essa triste planta que é a hipocrisia. Ela é uma lógica consequência do método vigente no passado, o do absolutismo e do egoístico espírito de domínio. Assim se explica o fato de que antigamente se exaltava a obediência como grande virtude, somente porque ela servia a quem queria dominar  Infelizmente para o primitivo a autoridade serve se é entendida em sentido egoísta. Quais os meios de defesa que ficavam então nas mãos dos dependentes? Eles tinham á escolha: 1) a força, rebelando-se, mas esta significa guerra e o mais débil não pode fazê-la contra o mais forte, que possui a autoridade; 2) a aceitação submissa mas, dado o sistema, esta significava renuncia a própria vida em favor do patrão; 3) uma posição de acordo, dado o tipo de impulsos opostos em ação, era impossível, porque cada um olhava somente ao seu interesse e não estava disposto a reconhecer os direitos do outro; 4) não restava ao patrão, com o chicote na mão, senão ser mal servido e detestado; e ao servo, de joelhos, não restava outra coisa senão fugir aos seus deveres, fingir, suportar, talvez roubar e trair, enfim rebelar-se quando no lugar da força do comando, encontrasse fraqueza. Estes os resultados do velho regime, do qual hoje o mundo procura libertar-se.

Tudo isso cai com o novo sistema de clareza, de direitos e deveres definidos, que a Lei reconhece e fixa para todos. A cada uma das duas partes a mesma liberdade e responsabilidade em posições diversas como tipo de trabalho, mas iguais em valor como função social, todas indispensáveis para o bom funcionamento do organismo coletivo. O mundo está ainda cheio das escórias produzidas pelos métodos do passado, mas vai libertando-se delas. O mal se desenvolveu escondido, subterrâneo, e por isso se corrompeu interiormente. Assim qualquer clareza ainda soa a escândalo, e aí se denunciam certas verdades agora já evidentes, que todos sabem: estas são as verdades que não se devem dizer. Quem se aninhou no velho sistema quer conservá-lo. Conforta, porém, o fato de que no momento histórico atual se constata uma tendência para uma profunda transformação, que é fatal superação do passado, porque ninguém pode impedir que o impulso da evolução triunfe e a luz vença as trevas.

                   2) A Condenação ao Index

Quisemos anteriormente observar a fundo o problema da autoridade. Podemos agora compreender melhor o significado do caso de que estamos tratando. Falando dele anteriormente, colocamos os dois termos um em frente ao outro: de um lado, a Igreja, como organização e poder, provida de autoridade; do outro o indivíduo isolado, obrigado à obediência.  Podemos, assim, ver implantado, segundo os princípios expostos, o problema da autoridade neste caso particular. Referimo-nos à condenação ao Index. Eis que nasce o choque entre os dois termos. A autoridade sente-se lesada e condena. É justo. Trata-se de um ato de legítima defesa das próprias posições terrenas, baseado sobre princípios teóricos. À autoridade pareceu que aqueles escritos a ameaçavam. Tais situações são fatos positivos e não admitem discussões. Mas elas se baseiam sobre premissas espirituais, que, portanto, não devem ser discutidas para não abalar a solidez das posições que delas dependem. Obrigação, assim, de fé cega e de aceitação incondicional daqueles princípios, mesmo para quem tem necessidade de conhecimento para evoluir e não pode cristalizar-se na imobilidade. Eis que, neste caso, o indivíduo se encontra impedido no seu progresso espiritual por aquela autoridade, cuja exata função deveria ser encorajado nessa direção. Mas, dados os princípios acima expostos, com o tipo normal humano dominante, isto é natural. Podemos agora estabelecer. a posição entre os dois termos: compreender o seu comportamento e fazer a análise do caso sob exame.

A posição desses dois termos é a seguinte: a autoridade, pelas razões mencionadas, sente-se no direito de proibir a pesquisa que ponha em discussão aqueles princípios. Mas é exatamente o trabalho dessa pesquisa que conduz ao desenvolvimento espiritual do escritor condenado. Ora, proibindo a autoridade a pesquisa, paralisa tal desenvolvimento, que representa o objetivo da instituição que ela defende e que consiste na realização de suas finalidades espirituais, lançando a culpa sobre um sincero investigador da verdade. Com isso ela comete o pecado de sufocar a espiritualidade, contradizendo-se e renegando o seu fim maior.

Observemos agora o termo oposto. Perante unia autoridade que procede assim, tem o indivíduo o dever de obedecer? Surge subitamente o problema de consciência. Ele apela para Deus. Mas vimos o apelo não ser aceito pela autoridade, porque não pode admitir que outro tribunal superior decida sem ela, servindo-se de outros intermediários para transmitir sentenças que podem, inclusive, ser contra suas normas. Diante do perigo e da ameaça, nasce a legítima defesa. A autoridade não proíbe só a pesquisa para o desenvolvimento espiritual, mas é contrária aos contatos diretos e livres da alma com Deus. Então, em sã consciência, deve-se ainda obedecer? O indivíduo sente-se paralisado no campo espiritual, próprio daquela autoridade, que, segundo os princípios que lhe são específicos, deveria, ao contrário, encorajá-lo a trabalhar naquele sentido. Pode ele, colocado contra a sua vontade nestas condições, renunciar à sua vida espiritual tão criadora, sacrificando-se neste ponto fundamental do seu ser, para prestar obediência a uma autoridade fazendo o oposto do que deveria fazer, e que, para não ser incomodada, procura deter em vez de encorajar os crentes no caminho da espiritualidade? O problema pode ser colocado em outras bases: o que vale é o princípio de legítima propriedade, segundo o qual cada um é senhor na sua própria casa. A Igreja tem pleno direito de expulsar da sua casa quem aí entra sem se lhe submeter, reconhecendo-a como dona. Assim, tudo é justo. Mas, então, adeus espiritualidade! Não se tem mais direito de falar dela, que permanece, apenas, como uma forma de hipocrisia.

No desenrolar concatenado dos referidos momentos do problema, chegamos ao ponto onde a autoridade fez o que mais lhe convinha, levando em conta os seus interesses e não os do seu subordinado; este se vê forçado à necessidade de escolher entre ela e a espiritualidade, entre o dever formal e a consciência, entre o tribunal dos homens e o de Deus. Em última análise, tomada a sua posição, que é de resistência, a autoridade fecha-se atrás da barreira das suas proibições, que detêm a entrada do invasor no seu terreno. Isto prova que o objetivo é apenas a sua defesa. Uma vez alcançado, ela não tem mais nada a fazer. E não faz coisa alguma. Quem tem muito que executar, preso como está pela ânsia da ascensão, é o nosso personagem. O seu comportamento está nos antípodas do precedente. A Igreja apenas proíbe; o seu único movimento é de defesa da sua imobilidade; a sua atitude é passiva. Ela fica na defensiva, negando uma afirmação oposta. Ele, ao contrário, é dinâmico, ativo afirmativo. Se a autoridade tivesse seguido este caminho, teria respondido com uma verdade mais comprovadora e convincente, de maneira a poder impô-la ao erro, depois de tê-lo demonstrado. No entanto, a autoridade limitou-se a retirar-se em silêncio às suas posições. A iniciativa de escolha, portanto, ficava nas mãos do outro termo. É a própria atitude tomada para cada uma das partes que automaticamente conduz a este resultado. Então, querendo o nosso personagem avançar, porque encontrava pronta a impulsioná-lo para a frente a corrente da evolução, era obediente à Lei; mas ficara abandonado pela autoridade, espiritualmente ausente de seu caso. Assim ele se precipitava na estrada da ascensão espiritual, por sua conta, mesmo que ela o condenasse. Veremos agora as consequências de tal atitude.

Chegado a este ponto, pode nascer uma dúvida: todo este raciocínio se baseia num mal-entendido. Ao homem normal, de tipo comum, que constitui a maioria, os problemas espirituais, a pesquisa da verdade, a necessidade de se avizinhar de Deus, não para pedir graças, mas para lhe sentir a presença, são coisas que de fato não interessam. A religião, em geral, é outra coisa e é usada sobretudo para satisfazer o desejo egoístico da própria salvação pessoal. A espiritualidade é entendida no sentido utilitário. O problema mais evidente para esse tipo biológico é o estômago e o sexo. Satisfeitos estes seus instintos, ele só deseja gozar a vida no ócio e engordar. Ora, a Igreja, para poder cumprir a sua função, deve ser adequada a tal tipo que constitui a massa. E, de fato, o é, porque aquele é o seu rebanho. Nem isto é difícil, porque o tipo biológico dominante é o mesmo de ambos os lados: nem se pode pretender que seja de outra maneira. É  natural, portanto, que, quando a Igreja se encontre perante tipos fora de série, nasça um conflito de incompreensão, porque a religião, necessariamente modelo, foi feita para satisfazer a maioria, não se adaptando à exceção. Esta é destinada a andar sozinha com Deus.

Ora, tudo isto não suprime o caso de que estamos tratando, ainda que o relegue para fora das regras normais. Mas, se ele permanece, devemos examiná-lo para compreendê-lo. Se não se encaixar na normalidade, dele não se deve descurar, já que representa uma tentativa de emersão evolutiva do nível animal em que a normalidade repousa feliz, tendo-se o cuidado de não fazer tais tentativas para sair dela. Vejamos, pois, o que sucede no referido caso. Se era legítima a defesa que a autoridade fazia dos seus interesses contingentes, também o era a do indivíduo quanto às suas pretensões espirituais. De um lado, havia uma autoridade que não queria ser incomodada; do outro, alguém que desejava trabalhar com a mente para resolver os seus problemas do espírito, base da sua vida, mesmo que isso pouco importasse àquela. Que da parte dela tal fosse a ordem de ideias determinantes, provava-o o fato de que, com a condenação do índex, a liquidação tinha sido sumaria, sem nenhuma explicação no ato, que não demonstrava qualquer interesse paternal pela sorte espiritual do condenado. (O documentário dessa condenação, publicado no "Osservatore Romano", Roma, 15 de novembro de 1939, é reproduzido na íntegra no lº volume da 2ª Obra: Comentários). Vê-se que o objetivo era afastar um perturbador e não iluminar um espírito ansioso de verdades. A medida era friamente administrativa e burocrática. À ovelha extraviada só se transmitia a condenação. Mas estava-se no ano de 1939. Hoje a mesma autoridade compreendeu como tais métodos, no seu próprio interesse, são contraproducentes.

É  assim que agora tudo está mudando. O período dos anátemas parece ter acabado com o Concílio Vaticano II. A Congregação do Santo Ofício mudou de nome, tornando-se uma entidade com muitas funções e setores, um dos quais destinado à censura dos livros, funcionando na prática o menos possível e existindo apenas em teoria. Atualmente, nem todos concordam com a utilidade de tais condenações; tendem até para uma reforma geral de censura religiosa. De fato, de algum tempo para cá, o Index condena cada vez menos. Depois da edição de 1948, apareceu só um folheto suplementar, em 1964, com 14 nomes. Eis uma função que, em silêncio, sem ser notada, vai-se apagando.

Hoje, encontrando-se num período de escassez em matéria de fé, para não perder os fiéis, a Igreja mudou de tática e se tornou generosa. Ao método dos anátemas substituiu o "do diálogo", que boje parece o melhor meio de defesa, dada a atual crise e fé, de que falaremos mais adiante. A mudança é imposta pela nova forma mental dominante, crítica e analítica, sensível ao raciocínio que convence e indiferente aos anátemas, que não assustam mais ninguém E a Igreja que, inspirada por Deus, deveria antecipar a evolução, eis que chega, penosamente, em último lugar, rebocada pelo progresso do mundo. O que evoluiu foi a vida, que vai toda em direção a Deus, e, nessa trajetória, tudo o que ela contém, incluindo as nossas instituições, que a seguem.

Ora, mudar de rota, dizendo que é para atualizar-se, pode parecer fácil, embora não o seja, mesmo que oportuno e necessário. Aqui se trata de uma instituição em que se incorporou uma serie de ideias, outrora eficientes, porque úteis à vida, situada então em outras fases que a evolução hoje superou. São milênios de História, de um passado imenso e diverso, o qual, mesmo que hoje incomode, em virtude do dogmatismo, não se pode mais eliminar. O problema não é só mudar conceitos que hoje não correspondem mais ao novo grau de evolução e respectiva forma mental, mas trocar hábitos seculares que os fiéis lá assimilaram, fixando-se na raça. De modo que não é fácil mudá-los. A posição deles até ontem foi tanto de obrigatoriedade, quanto de cega aceitação de verdades religiosas que lhe eram fornecidas daquela maneira, sem admitir discussão. Dominavam métodos inquisitoriais, de coação psicológica. Os crentes eram proibidos de debater os seus problemas de fé, deixados exclusivamente aos competentes "agregados aos trabalhos", teólogos que faziam e desfaziam tudo entre eles, expulsando os não especializados. Ora, com a declaração de infalibilidade, não havia outra coisa a fazer senão aceitar. Quem queria pensar por si próprio, quem duvidava e indagava para saber, pagava caro a sua atitude. Exceto poucas mentes eleitas, à grande massa, preocupada sobretudo com os seus problemas materiais, essas outras questões não interessavam de fato, custando pouco renunciar e executar um esforço mental que tinha em pouca conta. A grande maioria habituou-se voluntariamente a obedecer e, assim, a não pensar, o que no fundo correspondia à sua comodidade. Afinal, este era o caminho de menor resistência para se conseguir viver em paz. Aprendeu, portanto, educada pela Igreja, a não fazer mais perguntas e a limitar-se a observar preceitos e práticas exteriores que exigiam pouco esforço, mas que bastavam para salvar-se, objetivo final atingido a baixo preço. Isto convinha e, deste modo, era bem aceito. Tal quietismo servia também para evitar sanções eclesiásticas, já suficientes para tolher ao fiel qualquer veleidade indagatória. Este foi bem educado a não levantar problemas espirituais e a resolver tudo apenas acreditando e obedecendo. Com isso se obtinha a vantagem de não se expor a operações perigosas e, ao mesmo tempo, satisfazia a sua própria preguiça mental.

O resultado de tudo isso foi a formação de um hábito, agora já inveterado: o desinteresse pelos problemas religiosos, reduzidos a ritos e práticas exteriores, uma vez que este é o caminho mais fácil, que não causa aborrecimentos, nem fadigas mentais. Fica-se em paz com a autoridade e salva-se a alma. Conseguiu-se, assim, esquecer Deus, religião, espiritualidade, num estado de feliz e inerte aquiescência. Sucede que, neste momento, quer-se inaugurar o novo estilo do diálogo, isto é, de uma livre discussão sobre temas vinculados à ideia de proibição e perigo de dano. Como anular de um golpe uma conexão tão cristalizada de ideias? Como fazer renascer hoje um interesse que se procurou apagar? Como reanimar uma fé adormecida e educar em sentido oposto ao de uma religião formal, de rito, reconstruindo no lugar dela outra de convicção e paixão? Não basta que uma nova direção convenha à autoridade para que ela resulte aplicável e eficaz. E, quando esta indiferença foi provocada por aquela mesma autoridade, como se pode pretender evadir da lei universal, em virtude da qual ninguém pode fugir às consequências das próprias ações? Se a autoridade pensa apenas na sua sobrevivência sem se preocupar com o fiel, é natural que este não se importe com os interesses daquela. Se uma e outro viveram separados nas suas finalidades, se nos crentes foi cultivado sobretudo um estado de sujeição, é natural que eles intimamente se tenham tornado dois termos vinculados apenas por uma relação de antagonismo. E que colóquio se pode realizar nestas condições?

Fizemos esta exposição para mostrar sobre que fundo e em relação a que fenômenos maiores se desenvolve o caso que estamos observando. A recente abertura do diálogo chegou demasiadamente tarde para trazer qualquer deslocamento. Um fato ocorrido no passado permanece; nem Deus pode fazer com que ele não tenha acontecido. Pode apenas ser corrigido, e assim neutralizado com impulsos opostos, mas não anulado, reduzindo um estado de existência a outro de não-existência. O autor viveu no período da condenação, e este fato permanece. A mudança atual não pode suprimi-lo. Dois volumes 4 de sua Obra, primeira explosão de uma alma em direção a Deus, foram condenados ao Índex. Segundo a injunção do Santo Ofício, o fiel cristão deveria ter cessado a publicação e, sobretudo, o seu desenvolvimento, confirmando-o em novos escritos Desobedecer era pecado, mas obedecer significaria paralisia da atividade espiritual de uma alma, o congelar do seu desenvolvimento através da pesquisa necessária para chegar à solução, para ele urgente, de problemas dos quais a Igreja não lhe oferecia solução. A fim de não pecar devia cortar a cabeça para não pensar, aceitar com a inércia mental o suicídio do espírito, imposto em nome de Deus, para que os adormecidos não fossem perturbados por quem tinha a febre de conhecer e progredir.

Hoje a posição é diferente, e a autoridade segue outros métodos. O pecado foi só haver errado num dado período de tempo, porque, se ele tivesse sido cometido em outra época, não teria sido considerado pecado. Logo, a salvação ou a perdição são relativas ao tempo e dependem das mudanças das vicissitudes humanas. O erro foi o de se ter antecipado aos tempos, porque hoje as teorias condenadas encontraram apoio em vários cientistas, como no Jesuíta paleontólogo Teilhard de Chardin. Entretanto, o mesmo tribunal que condenava se está abstendo de fazê-lo. Teremos, então, de nos perguntar como se resolve o caso de condenações que até ontem mandavam para o inferno os atingidos. Um belo dia a Igreja se atualiza e tudo se cancela. Mas poderá esse cancelamento ter efeito retroativo perante um inferno eterno? E, se é eterno, aqueles que nele se fizeram cair não podem de lá sair somente porque o seu pecado hoje não é mais considerado tal. Então, ou aquelas almas deveriam sofrer para sempre, o que não é justo perante os que hoje podem cometer o mesmo pecado sem punição, ou deveriam sair do inferno, que assim não seria mais eterno. É certo que a autoridade se salvou, adaptando-se aos novos tempos; mas de salvar os réus no passado não se fala. Será justo perante Deus que eles sofram dano tão imerecido, quando hoje quem pratica e mesmo pecado não é mais culpado? Conforme a justiça, quem golpeia por uma culpa que não existe deve indenizar os danos. Mas a autoridade não tem esses deveres, porque, sendo a mais forte, tem o direito de fazer o que lhe convém. Teremos, pois, uma multidão de condenados na Idade Média que entravam no inferno para sempre que hoje não são mais considerados tais, mas que devem permanecer ali, embora sejam julgados inocentes. Eis de que contradições nasce a descrença.

No caso de nosso personagem, resta o fato de que quem em 1939 foi condenado, hoje dificilmente o seria. Qual é, portanto, a sua justa posição? Hoje, não é mais a de outrora. Antigamente, não se gozava da liberdade moderna. A proibição vinha da autoridade sem qualquer explicação. E, num indivíduo consciente e por sua natureza amante da ordem, podia surgir a dúvida de se encontrar em culpa e, portanto, a convicção de dever arrepender-se de ter querido pensar e compreender, empenhando-se em não cair mais em tal erro. Ora, não obstante isso, o autor não obedeceu. A voz da consciência foi mais forte do que a da autoridade. Chegados a este ponto, podemos perguntar: fez ele bem ou mal? Só agora que terminou a Obra se pode fazer um juízo, porque, na época da condenação, não foi possível.

Em primeiro lugar, não se pode negar que ser catalogado no Índex constituía no passado um grande meio de propaganda editorial, potente e gratuito. A ele deve a Obra o seu impulso editorial no estrangeiro, onde se pôde desenvolver definitivamente. Deste modo, o mundo se servia do Índex para os seus fins utilitários, resolvendo aqueles casos em favor dos seus objetivos.

Mas a condenação produziu ainda outro efeito salutar. Ela obrigou o autor a aprofundar o seu pensamento, a intensificar os seus controles para assegurar-se de estar com a verdade, a potencializar a sua espiritualidade, a fim de superar os obstáculos e resistir aos ataques. Enfim, a condenação funcionou como resistência a vencer para avizinhar-se mais ainda de Cristo, também pelas vias da razão e da ciência, segundo os novos tempos.

Hoje, depois de terminado o trabalho, pode-se ver em que vazio espiritual teria ele ficado, se tivesse obedecido, deixando paralisar a sua atividade intelectual, e qual a vantagem que lhe adveio por haver desobedecido. Isto lhe prova não ter procedido mal. Agora ele está com um grande trabalho realizado, uma Obra que de outra maneira não teria sido produzida; possui, para ele e para os que dela têm necessidade, uma religião sólida, que satisfaz razão e sentimento, positiva, demonstrável até para os ateus, de acordo com a realidade dos fatos. Foi assim enunciada, desenvolvida e logicamente provada uma teoria sobre a gênese e funcionamento orgânico do nosso universo físico-dinâmico-psíquico, partindo da primeira criação de Deus da qual teve origem a existência das criaturas, até ao seu regresso a Deus depois de ter percorrido o ciclo involutivo-evolutivo ou queda-redenção. No caminho foram atravessados os mais diversos campos: científico, filosófico, religioso, teológico, místico, ético, psicológico, biológico, social, histórico, jurídico etc. A aplicação é positiva, porque é à forma mental moderna que ela se dirige, de tipo laico, racional, não fideístico, tradicional. E usada uma linguagem clara, explicando-se tudo, e por que tanta coisa acontece de determinada maneira. Linguagem translúcida, como exige a gravidade do atual momento histórico e o seu veloz precipitar-se, que não permitem que se possa perder tempo com mentiras, atenuando-se com a hipocrisia.

Hoje, sucede as questões religiosas apresentadas ainda com linguagem convencional e com a forma mental superada dos séculos adormecidos, apoiadas em pontos declarados imóveis, que hoje, simplesmente, estão colocadas de lado, fora da vida. Só apresentando o ideal cristão, de forma diversa, como se faz aqui, ele não pode ser ignorado pela ciência, pelo positivismo ateu, pela lógica materialista, porque se revela como fenômeno de evolução no qual se realiza a superior biologia do espírito. Deste modo, Cristo fica vivo no mundo e não é mais possível ignorá-Lo. A religião regressa ao seio da vida como fenômeno biológico do qual não se pode prescindir. Então, o atual sistema de liquidá-la sem conhecê-la não é mais racionalmente justificável. Veremos mais adiante que hoje um dos maiores perigos da religião é, precisamente, a ausência de interesse por ela. Esta nossa visão positiva da religião assente sobre a realidade biológica e incomodou tanto que foi condenada. Talvez o modo de concebê-la possa representar o único meio, não obstante o Index, de fazê-la sobreviver no futuro.

Trata-se, portanto, de uma atitude construtiva, de uma tentativa de revalorização da religião, feita a favor e não contra ela. Hoje, já sopra uma grande tempestade e não há mais lugar para os adormecidos. Tais atitudes não se condenam mais e se abrem as portas à compreensão, admitindo-se o diálogo. Mas, em nosso caso, ele chega muito tarde. A compreensão póstuma não serve mais. Agora, aquele homem viveu, formou por si próprio uma fé em Cristo, demonstrou-a aos outros e publicou-a em dez mil páginas, tendo-a imprimido na sua alma e o passado se fixado definitivamente nesses resultados. As portas de uma existência quase ao termo se fecham, e o colóquio não pode deslocar mais nada daquilo que foi dito e feito, agora já encerrado dentro daquela vida. Pois um diálogo se faz entre iguais, que, por isso, se podem avizinhar, e não entre dois termos de dimensões tão diversas, colocados em posições tão distantes, isto é, um pobre indivíduo e uma autoridade situada no alto com o seu poder. Esta se ocupa com a massa, porque tem grande peso, enquanto o indivíduo por si só nada representa. Assim, cada um ficou com o que é seu: a autoridade com a sua potência, o indivíduo com a sua fé. Já há muitos séculos aquela autoridade obrigou os seus subordinados à obediência passiva, em vez da colaboração, e, neste sentido, como já dissemos, os educou. Para que eles possam ser educados em direção oposta, correrão outros séculos. Entretanto, hoje não existe mais a confiança necessária para um diálogo, nem se pode reconquistá4a de um dia para o outro. Vimos qual a posição tradicional do indivíduo perante a autoridade. Que se pode obter mais quando se emerge de tal passado?

Agora a Obra já está escrita, impressa, difundida. Qualquer intervenção é inútil. Ela surgiu num momento histórico de grandes maturações, numa hora de crise do Cristianismo, quando sua revalorização, perante a ciência e o pensamento moderno, era necessária. A nova linguagem da Obra perturbou os incomodados. Mas o precipitar do transformismo evolutivo impõe que se corra, e isto se torna difícil, porque se está sobrecarregado de superestruturas medievais. O mundo de hoje tem necessidade de libertar-se de tais obstáculos. Ele pôs-se a pensar e quer compreender. A fé em velho estilo atrapalha, porque se fez dela um instrumento de proibições, como se querer compreender fosse culpa. Atualmente, o rebanho é diferente e não se sugestiona mais à força de mistérios. Coloca-se de lado, como coisa que não serve, tudo o que respeita a fé, à religião e aos mistérios. Hoje o incompreensível não atende mais à vida. Esta se encontra perante problemas bem diferentes, graves e urgentes que deve resolver e que se está habituando a solucionar por sua conta.

O Concílio Vaticano II não abordou senão questões de superfície. Parece que também ele estava de acordo com o mundo, que considera melhor não tocar nos problemas de substância. Assim, a própria Igreja, para evitar o perigo de se meter em questões espinhosas, para as quais não possui saída, concorda com os fiéis, encorajando-os a se desinteressarem dos problemas de base. Mas que pode ela fazer se, perante as perguntas mais simples, não sabe dizer nada de positivo, recebendo ou esperando resposta da ciência materialista, até ontem por ela condenada? O mundo vê que, ao contrário, esta caminha e vai resolvendo os seus mistérios. Quem hoje fala de problemas de fé com o mesmo interesse com que se refere a problemas de ciência?

As pessoas veem esta posição de inferioridade das religiões, tanto mais difícil de superar, porque, no passado, a Igreja se aventurou e se comprometeu com afirmações definitivas, agora empenhada em manter, ainda que se pense não ser mais racionalmente aceitáveis. Todo este material a Igreja tem de arrastar consigo, mesmo que lhe paralise cada movimento. É assim que se torna difícil atualizar-se e acompanhar o ritmo do mundo, onde a ciência, hoje, se lançou vertiginosamente para a frente. Ocorre que, em vez da religião se desenvolver e expandir em novos campos, é a ciência invadindo cada dia mais aqueles setores, outrora, reservados à religião, e deles sendo expulsos. Antigamente, a religião era tudo: Governo. Tribunal, Direito Civil e Penal, Ética, Medicina, Poder Político, Econômico, Espiritual etc. Hoje ela se retrai sempre mais e perde terreno perante o Estado e a ciência, que avançam, o primeiro com O seu poder, a segunda apropriando-se, com nova competência, dos seus problemas e dispondo-se a resolvê-los sem ela, considerada incompetente para tanto. O conhecimento se abriu de muitos lados, subdividiu-se em tantos setores de especialização que não é mais possível reduzi-lo aos limites de uma religião.

Assim, o Concílio não enfrentou muitos problemas que a ciência corajosamente encara para encontrar uma resposta, que não é dada pela divina inspiração, nem pela revelação. E tal resposta é necessária para resolver seriamente também outras dificuldades de nossa vida quotidiana. O Concílio se limitou a questões mais próximas, de ajustamento e administração, como o predomínio da Cúria Romana, matrimônio e controle da natalidade, celibato dos sacerdotes, deicídio dos hebreus, unificação dos cristãos separados, reforma litúrgica, liberdade de consciência etc. Retoques, detalhes, maior amplitude de visão. Já é muito haver compreendido que a fé não se propaga por imposição, mas por convicção. Mas a velocidade com que avança o mundo é bem diferente. A ciência conquista o espaço interplanetário, as suas descobertas mudam a nossa maneira de viver, novas teorias de justiça social se sobrepõem às religiões e invadem o mundo para realizar aquilo que estas não souberam fazer.

3) A Crise da Fé

A crise é profunda, e não só do Cristianismo, mas de todas as religiões. Ela é devida a uma mudança de forma mental, tudo envolvendo. Os problemas que a religião não sabe esclarecer, procura-se resolvê-los de modo positivo, por outras vias. Os sucessos obtidos nos ensinaram que o desconhecido pode ser sistematicamente explorado e descoberto. Então, o sistema fideístico de crer sem compreender é colocado de lado como inútil para alcançar o conhecimento. E dele o mundo não tem hoje necessidade, porque é penoso e perigoso mover-se nas trevas dos mistérios. A grande crise da Igreja, de que o Concílio nem sequer se abeirou, está no fato de que o tradicional método psicológico fideístico, que funcionou até ontem, hoje vale cada vez menos e amanhã, de fato, não funcionará mais. A realidade é que poucos creem seriamente, ficando a religião reduzida a práticas mecânicas, sem espiritualidade, o que significa falência no próprio terreno onde ela deveria sobretudo afirmar-se.

Isto não quer dizer que morreu a religiosidade. O risco para determinada religião é o de tomar outras formas, quando a atual não satisfaz mais, muito embora a religiosidade continue a expressar-se. Isto é fato comum na História. Mas, para uma dada forma de religião, significa a sua liquidação. Aquela muda, embora permaneça a religiosidade, que não é uma religião codificada, porém uma permanente necessidade humana, para poder expressar-se de maneiras sempre novas. As religiões envelhecem, não a religiosidade. Infinitos são os caminhos que conduzem a Deus, e cada um é levado a seguir aquele que é proporcionado ao seu tipo individual e ao seu grau de evolução.

O transformismo evolutivo hoje está em fase de aceleração. Quem não for capaz de acompanhar a velocidade com a qual se pôs a correr a vida fica para trás. Quem viveu a sua juventude no início deste século recorda os anátemas eclesiásticos contra o evolucionismo darwiniano. O princípio da evolução ficou, e hoje até a Igreja se adapta a ele. Com o jesuíta Teilhard de Chardin a evolução tornou-se um processo de espiritualização da vida. A geosfera evolui para a biosfera, que, por sua vez, ascende para a noosfera Da civilização da matéria se sobe para a “hominização” da vida Eis incorporada a proibida teoria evolucionista, levada às suas mais altas consequências com a espiritualização. À ciência entra na religião, que, primeiramente, a nega para deter-lhe o avanço, mas depois tem de aceitá-la à força, se não quiser ser superada pelo progredir da vida. Esta caminha por sua conta, exigindo que a sigam, e ninguém pode detê-la.

É interessante observar o caminho forçado de quem gostaria de ficar para trás, imóvel, e que, apesar de tudo, deve caminhar para ascender; de quem, à força de negar, acaba por afirmar; de quem, resistindo ao progresso, termina progredindo; de quem chega afinal a fazer aquilo que proibia, isto é, evoluir enquanto condenava a evolução. É por esta via tortuosa e contraditória que, não obstante a fé e os mistérios, se passa ao conhecimento; as imutáveis verdades absolutas avançam, como acontece com aquelas relativas, completando-se com as novas descobertas humanas, e até o eterno imóvel, como todas as coisas, se transforma por evolução. Em nosso universo relativo, mesmo das verdades absolutas se apossa o transformismo evolutivo, que tudo arrasta em direção a Deus Nem pode suceder de outro modo. À Igreja, como tudo o que existe, não é permitido colocar-se fora das leis da vida.

Ora, a evolução não representa um perigo para a religiosidade, que permanece, sabendo transformar-se, com a vida, em formas cada vez mais perfeitas. A evolução representa um perigo para a forma particular em que, num dado momento, aquela religiosidade se expressa. Mas, com o progresso, aquela forma deve ser superada. Logo, é fatal que seja deixada para trás e com ela a sua própria instituição. Existe esse perigo para a Igreja, como organização terrena, sobretudo porque esta sua parte, hoje, está tomando a dianteira. O perigo é grave, porque a religiosidade, que não pode morrer, se extinguiu nas velhas formas de religião e delas exige novas. Quando a religiosidade se afasta de uma religião formal, reduzida a prática exterior, ela acaba renascendo noutro lugar. As massas já se ajustaram comodamente ao materialismo religioso, que na prática vale tanto quanto ser ateu. E a religião tornou-se política, ação social, problema financeiro, autoridade; poder. A espiritualidade é a coisa de que menos se fala O perigo se torna mais sério, porque tudo isso pode dar uma ilusão de força, já que hoje a parte terrena está no apogeu A Igreja triunfa como potência político-temporal, isto é, no polo oposto do poder espiritual sustentado por Cristo, próprio do mundo e por Ele condenado. Então, não poderá essa vitória constituir um grande perigo, já que na realidade, representa o estado de maior fraqueza, não do corpo, mas do princípio espiritual animador de todo o organismo?

Estas palavras poderão ser entendidas como uma crítica demolidora. Mas elas são motivadas apenas pelo desejo de compreender o que está hoje sucedendo, em profundidade, em tão grave momento. Acontece que o súdito obediente deve sempre concordar. Se se mostrar dissidente, mesmo que seja visando a um fim melhor, isto o torna suspeito de orgulho e insubordinação. Mas esteja tranquilo o leitor. Aqui não fala um reformador, um revolucionário, um rebelde à ordem. Um indivíduo sozinho não pode fazer nada perante a vastidão de tais fenômenos. Ele se inclina diante da autoridade, como exige quem a detém, e não pretende transformar- nada. Ele sabe: o que tiver de mudar fá-lo-á por si próprio, não existindo poder humano a impedi-lo. Apenas não pode deixar de usar os olhos para observar- e a mente para pensar. Feita a sua parte, que é de respeitar a autoridade, se põe a observar como ela faz a outra, tentando sair da dificuldade, o que não é fácil. Aqui não se trata de acusação, mas de pensamentos que um solitário troca com a sua própria consciência. Não se trata de uma atitude de oposição, mas de exposição, um pouco triste, que um nostálgico da plena realização do Cristo faz consigo próprio, para não morrer sufocado na cristandade oficial praticante e em geral descrente.

A crise é grave, tanto mais porque está escondida sob as aparências enganosas de triunfo. O Concílio não apresentou divergências doutrinárias tão agudas e comuns como ocorria no passado. O tempestuoso período das heresias parece ter acabado. Em questões de fé, não se eleva mais grito algum no mundo. Eis, finalmente, alcançada a concórdia, a unânime adesão às verdades da religião, o estado do seu completo triunfo. Trata-se, verdadeiramente, de um fato novo na História, e não podemos deixar de nos alegrar.

Na realidade, as coisas não estão assim. O Catolicismo, que conseguiu tornar-se independente do Judaísmo, superando, na sua viagem de dois mil anos, tantos obstáculos, como a Gnose, os Arianos, o Islã, os Cátaros, a Reforma protestante, encontra-se hoje perante uma crise maior. Ela é diferente das outras. Os tempos mudaram. Os perigos que em outras épocas ameaçavam a fé já desapareceram. De fato, o atual Concílio decorreu numa atmosfera de normal administração, sem conflitos de base no terreno espiritual. Isto pode parecer um estado de segurança, finalmente alcançado. com a definitiva eliminação do erro. Mas esta pode ser a paz do cemitério, no qual está sepultada a espiritualidade.

A controvérsia religiosa pressupõe um interesse de mesma natureza. Ora, ela hoje não existe mais, pois morreu este último. Não despontam mais heresias, não porque se tenha formado um acordo em matéria de fé, mas porque se chegou a um consenso coletivo em sentido oposto, isto é, de indiferença por tais problemas. Não há mais heresias, porque já não existe o substrato comum de fé sobre o qual discutir. Hoje não há mais divergências teológicas, porque ninguém se interessa mais por essas questões. Assim, nem sequer a polêmica religiosa nasce mais, porquanto não podem surgir dissidências sobre ideias abandonadas e mortas.

A crise atual é diferente das outras, que eram de luta vital. Esta é, ao contrário, uma pacífica crise de morte. A posição atual das massas é não examinar mais as verdades religiosas, para se ocuparem de outras, liquidando-as simplesmente como elucubrações inúteis, porque fora da realidade como conceitos que esgotaram a sua função e que a moderna forma mental não aceita. É por isso que desapareceu todo o sentido de agressão, todo o esforço demolidor. É a automática extinção de um velho que se deixa morrer em paz, porque não é necessário matá-lo, ele morre naturalmente. Sintoma grave, já que se trata de uma indiferença em larga escala. As iniciativas maiores, nas quais palpita e se manifesta a vida, são as ideologias econômicas-políticas e a ciência. A religião encontra-se na defensiva, subordinada àqueles movimentos, em posição secundária. Parece que a vida se retrai de um terreno agora já gasto por demasiadas contorções e adaptações que não produzem senão frutos falsificados, que ela não aceita, porque não alimentam mais. O sintoma é grave, uma vez que revela uma atitude da própria vida para com certos conceitos que ela abandona. Como objetos de museu, eles não têm senão o valor histórico ao qual pertence o passado. Não ganhamos nada em nos agarrarmos às verdades eternas para nos podermos instalar comodamente seduzidos ao lado da grande estrada evolutiva. É precisamente este fato que a cristaliza e assim lhe faz parar a vitalidade. Então, a vida avança, deixando para trás não as verdades eternas, mas o ataúde das formas humanas no qual elas foram sepultadas. Como dizíamos, é o fim de uma religião, não da religiosidade. Será o fim causado pela velhice, o verdadeiro significado da crise atual do Catolicismo? E a Obra, nascida exatamente neste momento, não poderá, entre outras coisas, representar uma tentativa, que emerge do inconsciente da vida, para salvar a religiosidade no instante em que declina a religião?

No passado se discutia sobre uma ou outra modalidade de fé, a heresia representando uma delas, mas se permanecia sempre no mesmo terreno e com uma forma mental a ele relativo. Hoje é este método de pensamento que se põe em discussão, com muita desvantagem, porque a ciência está provando quanto é improdutivo. Assim, a religião está ameaçada nos seus fundamentos, porquanto cai o processo sobre o qual ela se baseia para manter o seu domínio psicológico sobre as consciências. E da amplitude do fenômeno, não limitado a poucos descrentes que se possam isolar com condenações e expulsões pelo grupo, vê-se que se trata de movimentos de massa, que a autoridade não tem mais a força de deter e, portanto, não pode deixar de suportar. Desta maneira, a defesa da religião como organismo humano se torna cada vez mais difícil.

O trabalho dos séculos passados era diverso. A forma mental humana se havia estabilizado conforme certo modelo fundamental, e não se saía dele senão para pequenas variantes, enquanto hoje se tentam caminhos completamente novos. No passado o trabalho principal era descobrir o modo de adaptar a fé às próprias comodidades, e não resolver racionalmente os problemas da vida, como se faz hoje, enfrentando-os com coragem. O trabalho não era encontrar qualquer coisa de mais positivo que a fé, mas adaptar as exigências da vida às da fé e, dentro desta, fazer espaço suficiente para que aquelas exigências fossem satisfeitas. O problema era tanto desenvolver, quanto assimilar os conceitos da religião. Mas tudo girava em torno dela, eixo central da vida. Hoje este eixo se deslocou, e o mundo gira à volta de outros conceitos. Nisto consiste a grande revolução, a mais radical e profunda, porque expressa um deslocamento de fase evolutiva por maturação biológica. E o fenômeno investe por toda a humanidade na medida em que é determinado por movimentos da vida que arrastam todos.

A tendência atual é jogar fora muitas estruturas milenares, hoje tornadas obstáculos, para olhar de frente a realidade da vida. Estão se deslocando os pontos de referência pelos quais se fixava o que é o bem e o que é mal. A blasfêmia está desaparecendo na Europa latina, onde era frequente, porque, com a nova forma mental, a reação não tem motivo para desabafar contra seres que não interessam mais. Antigamente, vivia-se em um estado de quietude mental. As ideias eram poucas, os cérebros adormecidos, grande a preguiça, a credulidade imensa, as consciências muito elásticas. A ignorância permitia fusões estranhas entre religião e sua exploração, entre fé e as comodidades de cada um, entre ideal e ócio, entre coisas santas e sujas. Hoje as pessoas já não são tão simples que não possam ver nem aceitar tais contradições. Outrora, a religião era reduzida a clericalismo e não se podia ser bom católico, se não fosse clerical. Acreditar em Deus significava crer também no poder temporal da Igreja. Hoje o absurdo de tais posições salta aos olhos de todos e faz-se outro raciocínio. Aos pregadores da verdade colocam-se os problemas em forma positiva. Aos construtores de teologias opõe-se a moderna exigência com que cada um, com o próprio trabalho, justifica a sua posição na sociedade. E se lhes diz: vocês comem. E o que produzem? Que oferecem à coletividade em troca do que consomem? Ninguém se aproveita das referências a longínquas origens divinas, para não fazer claramente as contas e viver sem trabalhar, fazendo-se manter à custa do trabalho dos outros.

Para melhor compreender a distância entre a psicologia do passado e a atual, tomemos um exemplo. Trata-se de um passado recente. Era caso comum, até há poucos anos, na Itália, que um proprietário agrícola vivesse de rendimentos na cidade, sem fazer nada. Feitores e colonos trabalhavam para ele. A religião aprovava plenamente, até porque muitos dos seus representantes viviam, igualmente, no ócio, à custa do trabalho dos outros. Portanto, ninguém era obrigado a confessar-se de tal pecado. De resto, tudo era legítimo, conforme as leis divinas e humanas. É certo que a primeira aquisição de uma riqueza presume alguma culpa, nem sempre lícita. Mas tudo isso é imediatamente legalizado e, assim, integrado na ordem, à qual se assimila, transformando-se em direito reconhecido, correspondente à justiça. Daquele momento em diante tal legitimidade é rodeada do respeito que o nosso mundo tributa a quem possui, e ela pode, confirmando-se cada vez mais e legalizando-se, continuar sem fim, de pai para filho. Com tal sistema podia-se ter uma série de gerações legitimamente empossadas em um regime de ócio e bem-estar baseado na exploração do trabalho dos outros. A Igreja aprovada, até se aliava, dando abertamente o exemplo e porque se tratava de indivíduos por ela considerados honestos, garantindo-lhes o paraíso.

Do outro lado, administradores, operários, colonos trabalhavam para o seu patrão. Naturalmente, também eles desejavam entrar no paraíso. Mas eram pobres. E roubar — em forma ilegal — levava para o inferno. Então, para não suportarem só eles todo o dano, puseram-se à procura de um pouco de justiça. E a encontraram, compensando-se da injustiça do patrão, com outra a seu favor. Era necessário encontrar, então, o modo de roubar como bons cristãos. Era a escapatória: roubar e pôr-se de lado. Depois se confessavam e se arrependiam; em seguida, continuavam a roubar e a colocar-se à parte, e assim sucessivamente. Os primeiros que enriqueceram foram os administradores, que, frequentemente, numa só geração de absenteísmo do patrão, compravam a sua propriedade, substituindo. À hora da morte, com uma boa confissão e arrependimento, remediava-se tudo. Assim, além da riqueza, conquistava-se a salvação. Operários e colonos, por falta de forças, permaneceram pobres e deviam contentar-se com as beatitudes longínquas do paraíso. Eis porque muitas vezes são pregadas as bem-aventuranças do Discurso da Montanha por aqueles que as vão assegurando para si aqui mesmo na Terra.

Assim, durante esse tempo, todos conviviam. Reuniam-se ao anoitecer na capela da vila para, juntos, pregarem o Evangelho cada um a seu modo, e para sua própria vantagem, vivendo, de acordo uns com os outros. O patrão pregava a Deus para que o deixassem gozar ao longo da sua vida de ócio, à custa do trabalho dos outros. Administradores e dependentes pregavam ao Senhor para que lhes fossem perdoados os seus furtos, a fim de que, sem perder o paraíso, em estado de constante arrependimento, continuassem a praticá-los o mais tempo possível. Patrões e subordinados permaneciam unidos na mesma fé, na qual por fim haviam encontrado uma forma de pacífica convivência: os servos com respeito pelos patrões e estes com o devido amor pelos servos.

Este era um método comum há pouco tempo. No fundo. ele constituía uma obra-prima de equilíbrio entre forças opostas, de recíproco ajustamento pacífico, pelo qual, em comum, se dava lugar a um regime de bondade até onde o permitia a lei fundamental da vida, que é a luta, segundo a qual não se obtém a utilidade merecida senão conforme a própria capacidade, força e trabalho executado. Para além das injustiças humanas, no fundo permanecia íntegra a justiça de Deus, porque o furto atual do administrador compensava aquele outro, original do patrão. O administrador que trabalhava, tinha mais direito a compensações que o patrão, vivendo no ócio. Até da religião recebia a sua recompensa conforme a sua posição, porque lhe era reservado o posto de honra, em lugar superior, sendo objeto de veneração. Mas em substância funcionava encoberto um regime no qual, para vantagem própria, eles eram abrangidos e sob o qual se escondia o outro trabalho, também necessário para viver, com o consentimento implícito dos ministros de Deus. E mesmo nisto se via a justiça de Deus, porque a religião era tratada com a mesma hipocrisia, por ela distribuída, recebendo em troca a mesma forma de pagamento.

Este era o nível mental de muitos crentes no passado. Então, quando não se combatia a religião, procurava-se domesticá-la com astúcias. Hoje, não há mais tempo para tais jogos. No fundo, há mais sinceridade. Atualmente, tende-se a encerrar a religião no seu campo espiritual, julgando-o, como ele é apresentado, fora da realidade da vida, permitindo-lhe sempre menos a intromissão nesta. Assim, com métodos radicais, são rapidamente resolvidos muitos problemas com os quais se deleitavam os nossos avós. Já não se combate a religião, porque, na medida em que ela se mantém no seu terreno espiritual, não interessa mais. Pelo contrário, ela é combatida como um inimigo, quando sai daquele campo para entrar no econômico e político. É tomada em consideração onde ela não é religião, isto é, quando significa invasão no setor laico e social A religião está-se tornando assim cada vez mais um fato privado, pessoal e abre caminho para o princípio de liberdade de consciência, que o respeita.

Hoje o impulso não se verifica no terreno religioso, mas no econômico e político. O poder temporal da Igreja não foi de modo algum desfeito quando dos fatos de Breccia de Porta Pia. Esta história é velha e remonta ao período constantiniano, isto é, quando a Igreja se transformou de comunidade espiritual em organização econômico-política. Desde aquele momento, começou o seu poder temporal à custa da espiritualidade. O ideal, para implantar-se na Terra, deixou-se cortar as asas e se afundou no charco dos interesses e lutas do mundo. Tornada assim construção terrena, a Igreja desceu ao plano das outras estruturas humanas, vendo-se obrigada a competir com elas no mesmo nível, passando a ser sua rival no mesmo campo. Era inútil alegar direitos divinos para obter vantagens materiais. As autoridades não estavam, de modo algum, dispostas a deixar-se dominar em nome de princípios divinos superiores utilizados para este outro objetivo

Foi assim que, desde a época constantiniana, a Igreja, para disciplinar de qualquer maneira este impulso, teve de fazer ou suportar concordatas com as quais regulava as suas relações com. o poder civil, de quem se tinha feito rival. Então, o problema é colocado em comparação a duas potências humanas que definem as suas posições, direitos e deveres no plano terreno. Isto deriva do fato de que o poder religioso, saído do seu âmbito, que é espiritual, entra no campo do poder civil, com o qual começa a lutar como rival, porque como tal se tornou.

Assim, a espiritualidade transformou-se num instrumento de domínio terreno, num meio para adquirir direitos e poderes materiais. São utilizadas as origens sobrenaturais da instituição para exigir que o Estado as reconheça e faça de sua parte as respectivas concessões. Mas o Estado, por sua vez, sente-se lesado por esse pretenso poder temporal, que, à custa dele, Estado, a Igreja alega para sua vantagem, deduzindo-o da sua posição com relação a Deus. O dissídio nasce, porque a Igreja utiliza o espírito para receber vantagens no plano da matéria, entrando, assim, no terreno do Estado, que, sentindo-se em sua casa, retém para si o pleno direito de cassar o intruso. O Estado não poderia sentir-se ofendido por a Igreja alegar origens sobrenaturais, se esta não fizesse delas pretexto para adquirir poderes terrenos. A resistência do Estado provém do fato de que ela, em nome do espírito, solicita privilégios temporais. À volta deste conflito, originado pelo pretenso poder temporal em terreno de outrem, gira a história da Igreja na Idade Média. E a luta ainda continua. Faz parte da sua crise atual o domínio do Estado, que prevalece cada vez mais forte, porque ele está cada vez menos disposto a tolerar invasões.

É por isso que o espírito animador de uma instituição religiosa, muito ligada ao plano material, desaparecesse. Hoje as construções teológicas sobre as quais ela se baseia são consideradas como mitologia superada, fantasia histórica situada fora da realidade positiva da ciência E o organismo material que restou da Igreja é avaliado com igual medida de todas as outras organizações terrenas, porque é feito dos mesmos elementos, funcionando com os mesmos métodos, tendendo aos mesmos fins.

A estas condições internas do organismo correspondem as do ambiente que o rodeia, decaído em plena crise de fé. Esta é uma resposta à crise interna, e as duas se ligam e se somam numa única. O velho sistema das condenações não serve para dobrar as inteligências, mas para afastá-las à procura de outras soluções. A Igreja encontra-se perante uma transformação do modo de pensar, pelo qual o homem, tornado adulto, enfrenta e resolve os problemas por si mesmo, com a sua própria mente, em lugar das regras da tradição. Está superado o sistema dos irresponsáveis que pensam por delegação e por sugestão, os quais, para pouparem toda a fadiga, engolem um alimento já mastigado, fornecido por uma autoridade que não prova coisa alguma. Hoje a descoberta da verdade propriamente dita deve ser feita para cada um, que, se errar, deve ser responsável por todas as consequências.

O Sistema das condenações não demonstra nada, não prova, nem convence; pode servir para um primitivo sugestionável, não para um ser racional. Não se demonstra um teorema com ameaças, ou por princípio de autoridade. Entretanto, até ontem, pretendia-se a adesão dos fiéis com tais meios. Aquele sistema prova, inversamente, que se teme a discussão. Esta não seria temida, se se estivesse seguro das verdades que se afirmam. Se se possuíssem provas dessas verdades, não haveria necessidade de anátemas para defendê-las. Elas se apoiam sobre fatos e sobre raciocínio que cada um pode sempre controlar. São assim tão frágeis as verdades da religião? Por que esteve a Igreja sempre com medo de que as suas verdades não fossem reais, tanto que bastava discutir ou apresentar uma dúvida para ofendê-la? O uso do princípio da autoridade, o método das condenações, a declaração de infalibilidade, tudo isso revela falta de segurança, que a Igreja deveria demonstrar possuir, porque era sobre a segurança que se baseava a posição terrena da instituição. Como é que as verdades absolutas, transmitidas por revelação, podem ter medo das teorias de qualquer mortal que as observe mais de perto? Ou o pensamento de um escritor é ultra potente a ponto de provocar aquele medo, ou as verdades da fé são tão débeis que temem a mínima voz discordante. O que é forte não tem necessidade de ser tão protegido. O fato é que estamos perante verdades apresentadas de forma nebulosa que devem esperar, se lhes quisermos conhecer o verdadeiro significado, esclarecimento e confirmações por parte dos doutores da Igreja, teólogos e concílios, isto e, por aquelas mentes humanas que funcionam como tradutores e intérpretes, sujeitas no tempo às oscilações do pensamento humano em evolução. Então, não se sabe se, nesta colaboração, a verdade que dela resulta é produto humano ou divino, deriva de uma revelação ou de toda a elaboração que o homem depois dela fez com o seu pensamento.

A gravidade do momento crítico atual consiste no fato de que o Catolicismo se encontra numa bifurcação: se souber tomar a nova forma mental racional, científica, demonstrada nas suas afirmações, poderá continuar a desenvolver em tal direção os seus princípios e prosseguir cumprindo uma função. Se, ao contrário, quiser permanecer cristalizado, repetindo o passado, então ficará abandonado como uma velha mitologia fora de uso, como foi a paga. O desenvolvimento do pensamento humano, fatalmente, responde à lei da evolução. As religiões que não o seguem ficam para trás. Com Cristo, não se transformou o hebraísmo? Hoje o problema não é mais de ortodoxia ou heresia. Estas são velhas distinções, quando o ponto fixo de referência era dado por verdades estabelecidas pela fé. Agora o ponto de relação do pensamento humano não é mais a indiscutível revelação, mas os fenômenos ou os fatos, que nos dizem uma verdade mais restrita, porém mais positiva e segura. É esse tipo de certeza que hoje está à cabeça do progresso humano, enquanto o modelo de verdade revelada permanece inerte, como dissecado, sem perspectiva de progresso, reduzido agora a seguir o outro e constrangido a pôr-se de acordo com ele, se não quiser ficar para trás, sem ser mais tomado em consideração. Esta é a verdadeira crise religiosa moderna.

O erro não está nas verdades reveladas, mas em haver transformado a sua natureza absoluta e eterna em imobilidade, que é recusa à evolução, a maior lei da vida, a ascensão em direção a Deus. Portanto, a crise não é das verdades reveladas, mas de instituição, que, para fins terrenos, pretende reduzi-las a um estado de quietismo. A história mostra-nos que pode morrer uma religião, mas não a religiosidade. Às religiões não se podem subtrair o universal transformismo evolutivo que renova tudo o que existe. As verdades eternas permanecem. E aperfeiçoa-se a sua compreensão, elas tendem a avizinhar-se cada vez mais daquela Verdade! Da visão nebulosa da fé passa àquela mais clara da ciência. A sucessão das verdades humanas relativas constitui apenas a série dos progressivos deslocamentos que, fazendo avançar sempre o conhecimento, cada vez mais se avizinham da compreensão da verdade absoluta, colocada ali como meta-cimo do percurso da evolução. Não é senão de forma diversa a série das fases da própria ascensão para Deus. Ora, quando se alcança os pontos mais avançados da evolução, a vida abre novas portas, e por que fechá-las ou recusar-se a entrar, se conduzem a Deus?




  • pesquise na obra
  • avancemos
  • palestras e estudos
  • livro a lei de Deus
  • congressos
  • livraria