Um Destino Seguindo Cristo

Encontro-me em plena solidão, numa praia deserta. O mundo, as suas imagens e as suas coisas, tudo está longínquo. Nem o eco dos seus rumores, problemas e paixões atinge este imenso silêncio. Como o céu, a planície e o mar são infinitos, também aqui os pensamentos se tornam sem limites. Neste lugar tudo é tão simples e grandioso que parece ter acabado de sair das mãos de Deus. A laboriosa cisão do dualismo, a luta entre contrários, de que é feita a vida, procuram aqui pacificar-se para se desvanecerem na unificação suprema de todas as coisas em Deus.

Aqui existo fora dos confins do espaço e do tempo, porque, no céu, na planície, no mar, não há pontos de referência, e os dias correm iguais, sem medida. Sinto-me fora das dimensões terrestres. Não adianta caminhar, porque o deserto é sempre igual, sob o mesmo céu, em frente do mesmo mar. O movimento tem relação com o limite. No espaço e tempo infinitos, a velocidade nada modifica, anulando-se no vazio. Por falta de um ponto de referência, não havendo ponto de partida ou de chegada, toda velocidade é inútil. Mesmo o correr do tempo nada muda, porque espaço e tempo não faltam. Acima de todos esses infinitos — do céu, do deserto, do mar, do tempo — o de Deus o contempla, imóvel, ao se fundirem no seu infinito.

Esta é uma atmosfera diferente que respiro, outro ambiente em que penetro, outra dimensão em que existo. Superei os limites do plano físico, a barreira da forma, das ilusões, das aparências. Sou apenas um pensamento que observa aquele que se encontra em tudo o que existe. Uma força me arrastou para fora das dimensões terrestres, na vibrante imutabilidade do absoluto.

Vivo em uma casinha humilde onde a vida, tormentosamente complicada pela civilização das metrópoles, se tornou simples e calma. Assim, o espírito se liberta de tantas necessidades materiais artificiosas e pode viver a sua vida maior em contato com as coisas eternas. Surpreende sentir o pouco de que necessitamos. E que particular sabor tudo adquire quando representa o produto da bondade, da sinceridade e do amor! Então, a pobreza se torna riqueza, enquanto a avareza e o egoísmo transformam a riqueza em pobreza. No meio da pobreza dessa riqueza o espírito se atrofia, se envenena e morre. É no meio da riqueza daquela pobreza que o espírito se expande, vive e triunfa. Pela lei da compensação, para alcançar e possuir o que se encontra mais no alto, é necessário libertar-se do que está em baixo. É no meio da riqueza espiritual dessa pobreza material que agora vivo como um grande senhor.

É neste vazio das coisas terrenas que atinjo a plenitude das coisas do céu.  Quanto mais me afasto do que é humano, tanto mais me avizinho das coisas divinas. Delas se enche esta imensidade deserta, para que se abram as portas do céu e apareçam as grandes visões. Elas constituem já uma aproximação, um antecipar-se da libertação, tentativa e ensaio de uma vida maior que me espera. Nesta paz infinita se vai formando pouco a pouco a grande corrente que se agiganta e se torna poderosa; toma-me, absorve-me em seu seio, depois me envolve como num turbilhão e me arrasta consigo para longe. Para onde? Não sei. Leva-me para outro plano de existência, onde já não sou eu que penso, mas o universo. E a sua vida que pensa dentro de mim, porque não existo mais como eu separado, que vive e pensa isoladamente, mas sou um eu unido ao todo, um elemento que vive e pensa como um momento da vida e do pensamento do existir universal. Encontramo-nos, então, verdadeiramente fora do mundo, para além dos seus limites e das suas dimensões.

É uma imersão, fora do espaço e do tempo, no infinito. Não tenho mais consciência do que deixei para trás. Sinto apenas o que me espera na frente, uma vertigem de vida nova e imensa para a qual me precipito. Eis-me ressuscitado mais no alto, transformado em outro ser, perdido numa dilatação sem limites, na vibrante imobilidade do absoluto.

Eis que a solidão deste deserto, do céu e do mar se enchem de vida. Na noite profunda vejo uma luz imensa e a ela me entrego. Leva-me para fora do mundo, onde a visão se torna real, clara, perceptível com novos sentidos.  Contemplo-a extasiado. Observo-me para controlar tudo com a razão. Olho e registro em pensamento, transporto tudo o que vejo para o meu cérebro, para as dimensões terrestres, traduzo-o na linguagem humana e por fim o fixo com palavras nos escritos.

Assim vivo nesta casinha humilde à beira do mar, num deserto povoado de pensamentos, no meio do vento e das ondas, hospedado graças à bondade e amor de um amigo sincero. Assim vivo aqui, livre e despreocupado, longe do inferno humano. Passo as noites escrevendo, ocupando-me de Cristo, como O sinto a meu lado. Ele me está olhando, e eu leio nos Seus olhos o pensamento de Deus.

Quando não me é mais possível encontrar palavras para dizer o que sinto, dominado pela emoção e pela alegria, deixo cair a pena e choro. Para o meu trabalho, e, sob o olhar de Cristo, o livro continua a escrever-se, sem palavras, na minha alma e no meu destino.

São Vicente, São Paulo

Páscoa / 1967

Neste mundo, a carne, plasmada pelo espírito para agir e se desenvolver, torna-se fatalmente, cedo ou tarde, uma prisão onde a alma fica sufocada. Para os organismos naturais, pertençam ao indivíduo ou à humanidade, só há uma saída para a vida maior: a morte. (A Grande Mônada, Pierre Teilhard de Chardin)

O Cristianismo afirma solenemente o fato da sobrevivência do espírito, mas apresenta-nos o fenômeno de forma racionalmente não admissível. E isto pelas seguintes razões:

1)  A alma não pode ter origem numa criação do nada, porque tal fenômeno não existe, nem pode existir em todo o universo, seja no estado de S, seja no de AS. Há apenas uma possibilidade de transformação da substância de uma forma em outra. Aquele conceito de criação é puramente antropomórfico, admissível somente no relativo, onde o ato de criar, transformar de um estado em outro, derivando pela criação o novo estado de um precedente, que em relação a ele é o nada. A lógica confirma o absurdo do conceito de uma criação do nada. Esta criação produziria qualquer coisa de novo que se acrescentaria a Deus. Se isso fosse possível, Ele não seria mais o todo, outra coisa poderia existir fora e além Dele. Então, Ele não seria mais Deus.

2)  Com a criação da alma no ato da concepção física, Deus deveria estar à disposição do homem que a exigisse, obrigado a criar somente quando e se este quisesse.

3)  Dado que Deus não pode ser injusto, as almas criadas, ao nascer, deveriam ser todas iguais, com as mesmas qualidades e destino. Ao contrário, sem justificação alguma, os tipos de personalidade e ambiente nos quais se nasce são diferentes, estabelecidos antes que o indivíduo possa conhecê-los e, portanto, tornado responsável pela maior parte das causas e efeitos que lhe vão trazer uma eternidade de alegria ou de dor.

4)  A criação da alma ao nascer significa uma quantidade de tempo infinita no futuro, e nenhuma no passado, a menos que não se queira admitir nenhuma, também no porvir, negando a imortalidade. O que tem um início deve ter um fim. E, se este não existe, também aquele não pode haver. Não é admissível o desequilíbrio resultante de tal desproporção de partes. A natureza do fenômeno deve ser uma só, a mesma de ambos os lados, e não apenas na parte de tipo oposto àquela que ela é do outro lado.

5)    É absurdo, porque fora de toda proporção entre causa e efeito, que, com uma vida de uma centena de anos no máximo, se possam determinar as causas suficientes para justificar como consequência uma eternidade de prêmio ou de castigo, de alegria ou de dor. Uma só vida, conduzida em particulares e limitadas condições, não é suficiente, para completar a construção de uma personalidade, não mais sujeita à evolução por ter atingido o estado final desta.    Como pode o indivíduo, possuindo somente o resultado de uma tão escassa experiência, ter alcançado uma forma em que possa ficar definitivamente fixado para toda a eternidade?

6)  Se o mal é devido à queda no AS, sem o que a sua existência não se explica, pois não pode ser obra de Deus, é absurdo que a redenção desse mal com o retorno ao S se possa cumprir: ou com o sacrifício de outros não culpados — neste caso, de Cristo — em vez de o ser com o esforço próprio, ou de um golpe com uma breve vida apenas, fugindo à longa maturação evolutiva, que é lenta transformação, a única que pode logicamente permitir o regresso ao estado de origem no S. Que dizer então, quando essa vida é só de poucos meses, totalmente insuficiente para experimentar ou aprender? Em suma, a criação da alma ao nascer exclui a evolução, sem a qual não se pode realizar uma justa e merecida redenção.

7)  A construção da personalidade humana se explica apenas como resultado de uma transmissão e acumulação de qualidades adquiridas. Ora, isto é possível somente por via espiritual através da reencarnação, não podendo acontecer pelas vias da hereditariedade fisiológica, porque esta se transfere na juventude, quando os genitores não viveram ainda experiências para transmitir; nem sucede na velhice, quando eles, tendo-se enriquecido, teriam material para propagar.

8)  Em nosso universo tudo deriva de um seu precedente que lhe é a causa e do qual é o efeito. Também a personalidade humana é um fato positivo. Ora, se ela existe, deve ter um seu precedente do qual ela deriva e que é a causa da sua existência. Se nada se cria e nada se destrói, ela deve preexistir ao nascimento físico e continuar a existir depois da morte. Sem reencarnação a personalidade humana seria um efeito sem causa. E esse efeito não é genérico, mas bem definido nas suas qualidades individuais, que revelam uma história passada.

Aqui sustentamos o fato de que vivemos num universo dirigido por uma lógica que exclui a possibilidade de absurdos que a violem. Eis que o problema da sobrevivência, que estamos colocando, implica o da preexistência, que o desencarnar traz consigo o encarnar, que a saída e a entrada na forma de vida terrestre se condicionam reciprocamente, compondo um fenômeno único, visto em duas posições diversas. Tivemos de esclarecer estes conceitos, porque, somente desta forma, é logicamente concebível a sobrevivência do espírito.

Do lado oposto ao das religiões, vemos que a ciência, depois de ter negado, na sua fase materialista, a existência do espírito, agora que se pôs seriamente a indagar no campo psicológico e parapsicológico, permanece ainda titubeante e longe de saber concluir. É  certo que a ciência tinha o dever de ser positiva, portanto de ficar no terreno objetivo, experimental. Mas isto tornou inevitável a limitação do seu campo de indagação ao aspecto material do fenômeno. Ora, o fato de lhe ter escapado a parte psíquico-espiritual dele, que, realmente, existe, não reduzível ao plano físico, não a deixou obter senão uma visão unilateral e incompleta.

Além disso, no próprio ato da observação, é bem estranho ter em conta somente o fato exterior, que representa a sua metade, e não também a outra, constituída pelo lado interior, isto é, da visão e interpretação daquela parte exterior obtida em função da natureza psíquica e espiritual do observador. Portanto, a atual objetividade científica é incompleta, e uma técnica experimental mais perfeita deveria abraçar ambos os momentos no ato da observação. A análise do fenômeno psíquico pode-se logicamente fazer não apenas por via extrovertida, observando uma vasta casuística, ou recolhendo de fatos acontecidos, ou procurando descobrir as leis reguladoras do seu funcionamento, mas também por via introvertida, pela qual o indivíduo pensante observa como nele está funcionando o seu pensamento enquanto está pensando.

Nos tratados de Psicologia e Parapsicologia usa-se em geral o primeiro método. No presente escrito usamos o segundo. Poder-se-ia dizer que, no primeiro caso, vê-se o fenômeno nos seus efeitos; no segundo, nas suas causas. É natural que a ciência tenha preferido a primeira via, porque a sua objetividade a torna exterior, enquanto a subjetividade do segundo caminho a converte em interior. Mas é evidente que se trata de dois métodos complementares para atingir o conhecimento do mesmo fenômeno, que será visto na sua totalidade e completo somente se observado de ambos os lados e penetrado pelas duas vias. Assim, o método do psíquico-espiritual pode ser concebido de forma cérebro-cêntricas e psicocêntrica, e uma sua visão total não pode ser dada senão através de uma observação ampla que os abrace em toda a sua extensão, de um ao outro dos seus dois polos.

Perguntamo-nos: por que a ciência deve limitar-se apenas ao uso do primeiro sistema de observação e, na pesquisa, não utiliza também os recursos da intuição? É certo que esta deveria dar somente a orientação, mas com isso teríamos uma investigação guiada, e não cega como hoje, abandonada à tentativa das hipóteses lançadas ao acaso. Assim se faria mais completo o método da sondagem do ignoto. Por que se recusar a ajuda que pode vir deste lado? Por causa do conceito materialista que diz: mover-nos no campo metafísico nos conduz fora da realidade? É verdade que tudo seria controlado de maneira que a intuição não se resolvesse em fantasia. Trata-se de juntar duas vias de pesquisa complementares, de as ligar em colaboração, para funcionar cada uma na sua justa posição. Não foi dito que a metafísica não seria uma realidade, mesmo que diversa daquela objetiva e experimental da ciência. Se se trata de dois pontos de vista e métodos complementares, não há razão para que, com vantagem comum, eles não devam auxiliar-se reciprocamente: o primeiro ponto de vista utilizado para a visão de conjunto é abstrata; o segundo, para o exame particular é concreto. Deste modo, lançar-se-ia a antena que explora o ignoto, para encontrar, paralelamente, uma confirmação experimental e analítica no terreno concreto. Faremos a seguir uma aplicação desses conceitos.

O problema da sobrevivência depois da morte física não é facilmente solúvel, permanecendo-se na parte externa do fenômeno, realizando-se observações de casos nos seus efeitos exteriores sem se penetrar na sua íntima estrutura psíquica, por via extrovertida, em lugar daquela introvertida.  Tomemos como exemplo as recentes investigações de Rhine neste campo. Ele utiliza o primeiro destes dois métodos. Em seu longo caminho por via analítica, não chegou senão a conclusões parciais. Limitou-se a confirmar a presença de uma percepção extrasensorial (ESP) e de uma psicocinética (PC) isto é, de modificações extramotores no ambiente devidas à energia psíquica (o espírito que atua diretamente sobre a matéria). Circunscreveu-se, assim, a constatar que penetrou num terreno que transcende as leis físicas, isto é, extrafísico.

A respeito da sobrevivência, diz J. B. Rhine no seu volume: The Reach o/ the Mind (O Alcance do Espírito), Cap. XII: "A única espécie de percepção possível no estado de desencarnado seria a extrasensorial (ESP);  e a ação psicocinética (PC) seria o único meio para influir, fosse qual fosse o universo físico" (. . . .). "Rhine coloca o problema da sobrevivência em função da ESP e da PC e o enfrenta por essas duas vias. Ele permanece em nosso plano de existência, fora daquele em que se realiza o fenômeno; assim trabalha em forma sensória extrovertida, em vez da espiritual introvertida; indaga na matéria, onde aquele fenômeno não aparece senão incidentalmente, porque aquele não é o seu meio, nem investiga no espírito, onde o fenômeno funciona normalmente, viste que este é o seu ambiente natural. Assim, Rhine vê somente o aspecto negativo do fenômeno, a sombra que ele projeta no plano físico. Desta forma, não vai além da constatação do fato de que a ESP e a PC revelam que existe, na profundidade, um funcionamento que não pertence ao mundo material em que vivemos. Mais além ele não vê, e o aspecto positivo do fenômeno lhe escapa.

Rhine, para ser coerente, não podia colocar o problema senão no plano da existência humana, isto é, o material, e não no nível próprio do fenômeno, que é espiritual, porque, se o tivesse feito, não teria sido positivo como deve ser um cientista. A ciência, para ser fiel aos seus métodos, neste caso ficou longe do centro do fenômeno, que, por mais que ela procure agarrá-lo, foge-lhe na sua essência. Aqui vemos como são grandes os limites da ciência e dos seus métodos positivos de pesquisa.

Isto nos faz pensar numa incompetência “a priori” , congênita, na ciência oficial, para penetrar na substância dos fenômenos, o que a constringe a permanecer na superfície deles. É assim que se explica como ela pode chegar, como sucede de fato, a construir uma técnica praticamente utilitária para desfrutar, para vantagem sua, as leis da natureza, enquanto não sabe chegar à compreensão da substância dos fenômenos e a uma orientação universal que resolva o problema do conhecimento.

Com o método intuitivo, nós não estamos a observar os reflexos que da profundidade do fenômeno irradiam na superfície exterior em nosso ambiente terrestre e em nossa respectiva forma mental periférica e analítica, para deduzir o que acontece no interior. Ao contrário, aprofundamos o olhar e, com outros sentidos e instrumentos mentais, olhamos o que acontece por dentro e por quê. Isto pode parecer fantasia às mentes positivas. Mas aqui, aplicando os princípios expostos no capítulo precedente, explicamos a que conclusões se chega com este outro método introspectivo e como o mesmo problema é enquadrado e resolvido. Podem-se, assim, confrontar os resultados dos dois sistemas de pesquisas.

O método da intuição não nos conduz, através de uma casuística e de um processo analítico, a uma interpretação do fenômeno em forma de hipótese e tentativas de formulação de uma teoria. Explica-nos simplesmente como ele funciona, oferecendo-nos o resultado final da pesquisa com a solução do problema. Trata-se de um produto-síntese obtido com uma outra técnica de pensamento. Enquanto a comum psicanálise se ocupa dos fenômenos que acontecem nos substratos do inconsciente, aqui se trata de uma psicossíntese que lhe observa os aspectos superiores. Segundo Jung, "a intuição é a função mediante a qual surgem percepções por via inconsciente (. . . .). Na intuição um conteúdo qualquer se apresenta como um todo completo.  O conhecimento intuitivo possui tal caráter de segurança e de certeza, que induziu Spinoza a considerar a ciência intuitiva" como a mais alta forma de conhecimento.

Similarmente Assagioli admite "a existência de uma função cognoscitiva superior com a qual se consegue uma direta e íntima compreensão da realidade. Este órgão de conhecimento direto é a intuição. Ela não é irracional, mas super-racional. Não obstante a cooperação da mente normal é necessária para o seu correto emprego. E é bom possuir uma idéia clara do que constitui as justas relações de cooperação entre as duas. A esse respeito as funções da mente são: 1) reconhecer a intuição e as suas mensagens; 2) interpretá-las corretamente; 3) formulá-las e expressá-las em palavras. A Nova Era atestará o florescer da intuição".

Estas palavras de Assagioli confirmam plenamente o método da intuição que eu usei na composição da Obra, exatamente nas suas três fases, como foi explicado no capítulo precedente. Esta coincidência, de que só agora me apercebi, é uma nova confirmação. Assim, posso dizer que apliquei, experimentalmente, sem ter conhecido, a teoria do Dr. Assagioli. O meu caso não é, portanto, mediunidade no comum sentido da palavra, mas se pode antes definir como penetração consciente na esfera do superconsciente.

Ora, mesmo que tudo isso pudesse parecer não científico, poderia ser utilizado de forma subordinada como método de indagação para formular hipóteses de trabalho, e submetê-la depois a controle experimental, verificando-se com a observação e os fatos confirmariam a intuição, concordando com ela. A investigação poderia ser orientada em parte, não como preconceito, mas como hipótese, o que pouparia o trabalho que a pesquisa implica quando avança por tentativas. Esta poderia constituir a primeira parte da investigação, consistindo numa projeção do pensamento antecipador da solução do problema tomado em exame, projeção obtida lançando para a frente os tentáculos da intuição, para depois avançar, com mais segurança, com os meios positivos do normal controle racional e experimental.

Apresentemos agora um exemplo no qual aplicaremos os princípios acima expostos. Enfrentamos o problema da sobrevivência depois da morte com o método da intuição, segundo um caminho diverso do seguido pela ciência. Vamos expor aqui os resultados traduzidos em termos de raciocínio normal. O fenômeno é, em primeiro lugar, enquadrado no sistema filosófico exposto e demonstrado em outro lugar, utilizando dele aqui as conclusões. Assim, o problema é orientado desde o princípio e isto em relação a pontos de referência estáveis, já fixados em outros escritos. Já sabemos que nenhum fenômeno é completamente insolúvel, nem compreensível, se não for visto em relação aos outros. Tomemos, então, para depois proceder por sucessão lógica, como ponto de partida, o fato de que espírito e matéria são os dois polos do ser, opostos e complementares, interdependentes e comunicantes. Eles são um aspecto do dualismo universal despedaçado, mas reconstituído em unidade no mesmo ciclo. O polo espírito significa também S, e o polo matéria quer dizer AS, que são os dois extremos do ciclo involutivo-evolutivo, que solda a fratura do dualismo, tudo reconduzindo á unidade originária no S.

O método do ciclo é universal e corresponde ao sistema rotativo, segundo o qual se move o universo físico. Este é feito de elementos de tipo esférico, de retornos cíclicos, de trajetórias fechadas, de espaço curvo. Este método do ciclo consegue compensar a complementaridade e conciliar a oposição dos dois termos do dualismo, chegando, assim, a reconstruir em unidade a cisão e a pôr de acordo os dois opostos modos de existir em um dualismo unitário constituído por um circuito que, fechando-se em si mesmo, reúne as duas metades na unidade oferecida pelo próprio ciclo. Assim, a cisão se resolve em uma pulsação de ida e volta, pela qual o afastamento do ponto de partida é compensado e equilibrado por um movimento de retorno em sentido que lhe é oposto, movimento inverso que, apesar de ser a continuação do primeiro no mesmo rumo tem o poder de o anular em direção contrária.

Este modelo universal repete-se na série vida-morte e morte-vida, na qual ecoa o circuito maior S e AS. O primeiro período do ciclo, que corresponde à fase involutiva, é representado pela descida no plano físico, na forma de um corpo, à guisa de queda na matéria, no AS, para ali realizar o esforço de evoluir e redimir-se, dele voltando a subir para o espírito e para o S. Deste modo, encarnar-se representa a condenação do decaído, porque conduz para a matéria, em forma de vida de obscurecimento do espírito ao nível sensório no plano físico. Ao contrário, desencarnar-se tende para o lado oposto, isto é, a elevar-se no plano espiritual, caminhando em direção ao S. A fase terrena da vida é feita de luta, de provas, de fadiga para subir, deslocando para o alto a própria posição ao longo da escala da evolução. O período de vida no além é, entretanto, de tipo contrário. Ele representa a segunda parte da esfera, que corresponde à fase evolutiva, ou seja, não de queda na matéria, mas de ascensão para o espírito.

Depois de haver vivido uma existência em forma extrovertida, é necessário um período de introspecção: 1) para compreender por que se viveu e o que, num mundo de ilusões, se fez de substancial, seja em bem, seja em mal; 2) para avaliar o sentido das experiências atravessadas e apossar-se do fruto, assimilando-o e fixando-lhe os resultados na própria vida como continuação do trabalho já realizado. Em suma, nas duas etapas, temos uma mesma elaboração com finalidade evolutiva, a qual se cumpre de formas opostas dentro do mesmo ciclo de ida e volta, isto é, como vida que caminha para o plano matéria e como existência que se dirige para o nível espírito. Temos uma fase de trabalho na matéria, feita de luta, e outra de trabalho no espírito, composta de reflexão e compreensão.

Estas observações tratadas pelos nossos escritos precedentes permitem orientar-nos perante o fenômeno da sobrevivência, fornecendo-nos os princípios sobre os quais ele se baseia. Não corresponde à realidade considerá-lo isolado no seio da fenomenologia de que organicamente ele faz parte. É necessário ter resolvido primeiro o problema maior, se se quiser depois solucionar as questões menores nele contidas. Neste caso da sobrevivência, trata se de uma oscilação do polo matéria ao do espírito e ao contrário Tal flutuação matéria-espírito, que neste caso toma a forma de vida-morte, é possível, porque, no fundo, neste dualismo, está contida a unidade fundamental do ser. É essa unidade que permite o trasbordamento do espírito, no âmbito da matéria, com ESP e a PC. Mas também existe um contato em sentido oposto, porquanto o pensamento para manifestar-se no plano material tem necessidade do órgão cerebral. Assim, espírito e matéria são dois aspectos extremos de uma fundamental unidade de substância, tanto que nesta a involução constitui o processo de transformação: espírito-energia-matéria, e a evolução o inverso: matéria-energia-espírito.  (V. A Grande Síntese).

Então, psique e corpo, isto é, a parte espiritual e o lado material, dos quais resulta constituído o nosso ser, não são senão duas fases diversamente avançadas do transformismo, posições entre as quais, ao longo da escala da evolução, está situado e contido o ser humano. A psique está à cabeça e se move para a conquista dos estados mais avançados; o corpo fica na cauda, representando um passado do qual a vida tende a afastar-se, conservando-o, mas retornado em sínteses sempre mais rápidas e destilado em forma de valores sempre mais concentrados. É sempre a mesma substância do ser que se transforma ao longo do seu caminho ascensional. Neste processo a psique representa a parte alta do fenômeno, onde se está operando a construção futura com a subida em direção ao S, e o corpo constitui o lado inferior do mesmo fenômeno, o caminho já percorrido nos mais baixos planos da evolução situados em direção ao AS. Quanto mais tendemos para o alto, por sermos evolutivamente avançados, tanto mais vivemos no nível espírito, mais vizinhos do S; quanto mais nos inclinamos para baixo, por sermos involutivamente atrasados, tanto mais existimos no estágio matéria, mais próximos do AS. Assim, cada ser, em alturas diversas, ocupa um trecho do caminho ascensional. E, evoluindo, desloca-o em subida, distanciando-se sempre mais do AS e avizinhando-se do S. Veremos, agora, como se verifica este deslocamento para o alto.

Estas observações permitem-nos focalizar melhor o problema do inconsciente. Por que ele existe? O que significa a sua presença tão extensa em comparação com a zona muito menor coberta pelo consciente? Só com a orientação exposta por uma filosofia universal que se reconstitui nas primeiras origens, como a desenvolvida nos volumes precedentes, pode-se dar uma resposta a esta pergunta. O ente não podia ser criado por Deus senão consciente. O inconsciente, ao contrário, é negativo, está do lado oposto à origem, que, sendo derivação direta de Deus, não pode ser senão positiva. Eis que o inconsciente só pode ser o produto de um desmoronamento, inversão ou queda, fenômeno que explicamos larga mente nos volumes O Sistema e Queda e Salvação. O inconsciente, então, é um obscurecimento da luz da consciência, uma sua inversão ao negativo, é o resultado de um desfazimento desta com a queda do S no AS.

Este fenômeno se explica em função daquele universal, já admitido: a evolução. Podemos ver todo o caminho percorrido pelo consciente de origem, seja na sua fase involutiva, de descida, até chegar à posição de inconsciente total na plenitude do AS, seja no seu período evolutivo, de retorno, até reconstruir-se na sua originária situação de consciência e conhecimento total na plenitude do S. Podemos saber porque existem no ser essas duas posições opostas  —  uma ao positivo e outra ao negativo — do fenômeno da consciência. E podemos responder a quem nos pergunte: por que, com a evolução, muda a amplitude do campo compreendido pelo consciente em relação ao dominado pelo inconsciente? É fato que o maior resultado da evolução é a conquista de consciência, isto é, o desenvolvimento nervoso, cerebral, mental, através do qual ela se dilata sempre mais, no campo da personalidade, conquistando espaço até sua total inversão, repelindo gradualmente o inconsciente até eliminá-lo. O período involutivo do grande ciclo é representado pela descida espírito-energia-matéria até a plenitude do AS e da negatividade do inconsciente. O oposto período evolutivo é representado pelo regresso ascensional matéria-energia-espírito até a reconstrução do S e da positividade do consciente. Sabemos que o trabalho da existência serve para o desenvolvimento da consciência, que a vida evolui espiritualizando-se. O grau de evolução atingido é demonstrado pela extensão da zona de consciência conquistada no campo do inconsciente. Por isso, falamos tanto aqui de superconsciente, são forças positivas que querem a evolução. O escopo desta é destruir a zona negativa do inconsciente, levando-nos à sua meta, que é a plenitude da consciência e conhecimento em Deus. Semente a intuição, e não a ciência, pode dar-nos esta orientação e nos diz porque existe o inconsciente e qual é o significado da sua presença e o desenvolvimento do fenômeno. Sabemos também que o consciente no seu nível atual representa aquela zona da originária centelha divina que, apagando-se até ao inconsciente total — na fase matéria, no fundo da involução no AS — foi acordada e reacesa pelo ser com o trabalho da sua evolução até formar a pequena luz: a nossa consciência atual, em expansão até retornar à sua plenitude no S, isto é, em Deus.

Creio que somente assim orientados, conhecendo a íntima natureza das coisas que se estão estudando, e não apenas observando as suas manifestações exteriores, se possa resolver estes problemas da psique, do espírito, da sobrevivência. Conhecendo, desta forma, o fenômeno até as suas raízes, pode-se melhor entender-lhe o significado e tirar suas consequências e aplicações. É  devida a esta fundamental unidade do ser, a qual se estende de um a outro dos seus dois polos, espírito-matéria, que pode existir uma Medicina psicossomática  e a capacidade do espírito curar o corpo com o qual está unido. A psicocinética (PC) prova que existe uma possibilidade para o espírito de penetrar no campo oposto da matéria. Há uma força psicocinética no espírito, como existe uma força atômica na matéria. Mas, se em dadas circunstâncias, entre os dois estados opostos, há possibilidade de intercâmbio, pelo fato de constituírem os extremos da mesma unidade, isto não suprime a sua recíproca independência e separatividade no momento da morte. Tanto mais que essa separatividade é apenas uma manifestação do viver por turnos nas duas formas contrárias de uma única longuíssima vida, uma em estado de repouso, enquanto o lado oposto trabalha. Trata-se de uma oposição de modos de existir em posições diversas, para se permanecer sempre vivo e ativo em cada uma das duas, ligadas em colaboração, visto que o sistema é dualístico e único ao mesmo tempo. Há apenas uma bipolaridade da mesma unidade. O ser humano é precisamente essa unidade bipolar, na qual na fase de encarnado prevalece o lado inferior ou matéria, isto é, a posição involutiva em direção ao AS, enquanto no período de desencarnado predomina o aspecto superior ou espírito, ou seja, a projeção evolutiva para o S. A emersão da parte baixa realiza-se através desta oscilação por ondas desde o vértice sempre mais alto  Sucede que, em toda encarnação, se desce cada vez menos para a matéria e, em cada desencarnação, se ascende a uma posição mais elevada no espírito.

Ora, como negar a sobrevivência, quando, deste modo, se vê o seu mecanismo em ação, as suas razões, a sua função equilibradora perante o oposto tipo de vida terrena e, finalmente, a necessidade lógica de tal sobrevivência, dada a estrutura do fenômeno vida e sua evolução no seio do organismo do todo? Não será essa convergência de argumentos mais convincente do que a casuística, na qual se dilui o pensamento da ciência? Vemos, assim, que tudo tem a sua causa no esquema geral do ser. As duas vidas, de encarnado e desencarnado, alternam-se, sustentando-se  reciprocamente, para subir em direção ao S, uma no estado matéria para executar o trabalho complementar ao que é realizado pela outra em posição espiritual. Cada encarnação é, à guisa de um recuo involutivo, uma descida na matéria para lhe suportar as provas, aprender e assim progredir. Cada vida de desencarnado destina-se a dar um salto para a frente, digerindo e assimilando as experiências vividas. O primeiro tipo de vida vai para o AS, repetindo em descida, embora sempre de forma mais fraca em cada encarnação, o motivo da queda e experimentando os castigos numa forma de vida dura. O segundo modo de existência caminha para o S, como tentativa de ascensão, colocando-se sempre mais alto em cada desencarnação, provando as alegrias do novo estado em uma forma de vida melhor. Ora, sem a sobrevivência depois da morte, não se poderia realizar o longo caminho da evolução, necessário para que se possa regressar ao S, atingindo, assim, a salvação final, o que constitui o objetivo da vida. Com estes conceitos tudo tem um sentido lógico, justo, convincente. Se os suprimirmos, a vida tornar-se-á um duro esforço inútil e o universo um organismo funcionando com imensa sapiência, mas sem significado, nem objetivo, no caos. É impossível que esta sapiência, que os maiores intelectos humanos vão fatigantemente descobrindo, se resolva naufragando, deploravelmente no absurdo; que a lógica e a profundidade do pensamento que vemos presente em tantos fenômenos se desmintam depois no plano geral que deve coordená-los para uma finalidade única.

É esta visão de conjunto que nos impede de cair na concepção unilateral do materialismo científico, que faz do homem um autômato cérebro-cêntricos, permitindo-nos ver também o homem psicocêntrico, regido por leis de outro tipo, superfísicas, eu seja, psicológicas, em vez de fisiológicas, não como extensão destas, mas baseadas em princípios independentes no seu campo. Em suma, opomos uma ciência do espírito à da matéria e podemos atingi-la com meios próprios de pesquisa, penetrando em terreno que se encontra além do da matéria.

A este respeito Rhine, no seu citado volume The Reach of  the Mind (O Alcance do Espírito), Cap. XII, diz-nos: (. . . .) "a telepatia figuraria como o único meio de intercomunicação do qual poderiam dispor as personalidades desencarnadas, seja com os vivos, seja com os não vivos . No seu livro: New World of  the Mind (O Novo Mundo do Espírito), Cap. X, Rhine diz: (....) "qualquer transmissão do pensamento de uma pessoa desencarnada a outra, ou a uma encarnada, deveria realizar-se de forma telepática" (....). Então, se o fenômeno da comunicação com os desencarnados se verifica telepaticamente, ele é independente do transe mediúnico, não mais necessário para comunicar. Nós sempre fugimos persistentemente de toda forma de perda de consciência. Isto porque a maior finalidade da vida é evoluir, e não nos quisemos opor a tal. De fato, evolução significa cada ampliação, desenvolvimento ou expansão de consciência, enquanto involução significa cada diminuição, restrição, ou supressão dessa consciência. Por isso, cair nas trevas da inconsciência é um retrocesso.  A evolução consiste em fazer-se mais consciente em vez de menos, se possível subindo ao superconsciente, pelo que abandonar o controle consciente para perder-se no inconsciente, como sucede no transe, significa descer involutivamente. Quem é mais evoluído não tem necessidade do transe para se comunicar com os desencarnados, porque ele, sendo sensibilizado, pode fazê-lo em plena consciência, sabendo perceber a sua presença espiritual como pensamento e sentimento. E isto sintonizado, telepaticamente, por afinidade.

Eis, então, que Rhine confirma as nossas conclusões expostas no capítulo precedente sobre o fenômeno inspirativo, a respeito do contato telepático com a fonte de pensamento geradora de nossa Obra, como a respeito da possibilidade de continuar a manter aquele contato também depois da morte. Pudemos observar experimentalmente, neste caso, o funcionamento de um pensamento por via não cerebral, independente do seu órgão físico e da morte deste, em vez de estar ligado à matéria e à sua decadência senil. Ter experimentado, durante quase quarenta anos, o funcionamento de um pensamento supercerebral e, agora, constatar que ele não envelhece com o corpo nos indica que tal pensamento deverá sobreviver, também, depois do desfazimento do cérebro. É certo que, se este estiver cansado ou doente, o pensamento não conseguirá expressar-se. Mas isto não implica que o pensamento seja um produto cerebral. Também um automobilista, se o seu carro estiver muito usado, não poderá desenvolver muita velocidade. Mas isto não quer dizer que ele não saiba dirigir, nem viajar acelerado. Ele poderá fazer isso, logo que dispuser de outro automóvel que não esteja naquelas condições.

Por estas vias chegamos à conclusão de que a personalidade sobrevive depois da morte. Para quem está escrevendo estas páginas não se trata somente de fé, de esperança, ou de simples resultados de raciocínio, mas de uma sensação da indestrutibilidade do eu pensante. Hoje estamos habituados a querer verificar tudo antes de admiti-lo. A aceitação pela fé, ou pela autoridade, está fora de moda. Impor verdades dogmáticas, como durante tantos séculos se usou, sem provas racionais positivas, já não serve como defesa da verdade. Diz Rhine no seu citado volume: New World of the Mind (O Novo Mundo do Espírito), Cap. VII: "Se assim (impor verdades dogmáticas), em vez de um grupo, se comportasse um simples indivíduo, ele seria julgado louco, dado que se recusa ao contato com a realidade e se aceitam fantasias não verificadas". As nossas afirmações aqui expostas respondem à lógica de um plano universal. Foram controladas por longa experimentação, de acordo com aquela lógica em contato com uma realidade vivida, e são agora confirmadas por quem aqui as sustenta através de um íntimo sentido da verdade, dado pela sensação da indestrutibilidade da parte espiritual da pessoa, não obstante o fim já iniciado da sua parte material. O resultado a que chegamos não é uma hipótese ou teoria, mas a segurança de que as coisas são como aqui afirmamos.

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Todos estamos enquadrados dentro da lei do ciclo vida-morte e não podemos existir senão como transformismo. Tudo é feito da divina substância incriada e indestrutível. Nada se cria, nada se destrói, tudo se transforma. Como poderia, então, a personalidade humana, entidade definida por si própria, e como poderia o espírito, forma de energia superior, anularem-se com a morte? Como poderia aquela personalidade, quando aparece na vida, ser um efeito sem causa, um fato sem continuação e consequência? Mas em que outro lugar vemos os fenômenos funcionarem nesse sentido. Não acontece sempre que o sucedido no passado seja abandonado, esmagado pelo futuro, que surge para lhe tomar o lugar, por sua vez rapidamente consumido pelo presente para tornar-se subitamente passado e ceder passo a novo amanhã que se lhe quer substituir? Assim ocorre com a morte. Como é possível mutilar no seu desenvolvimento o transformismo de um fenômeno? Como se pode parar o fluir do tempo, que, inexoravelmente, marca o ritmo daquele transformismo? Como pode existir um fato sem amanhã, fechado em si mesmo, completo em uma só fase do seu desenvolvimento, ou que se esgota sem deixar resíduos, traços, consequências, ou que detém o seu curso sem qualquer continuação? A estas leis universais a morte teria de fazer exceção. Por que este desvio à fenomenologia universal? Que justifica tão flagrante violação da ordem das coisas? Como pode somente este caso fugir à aplicação dos princípios vigentes? Já dissemos que o conceito do nada não pode existir senão relativamente ao modo precedentemente assumido pela substância, que continua a existir sempre a mesma através de todas as formas.

Cada um nasce com a sua personalidade já elaborada e, conforme a natureza desta, escolhe o ambiente e plasma a sua vida depois, segundo o que escolheu e viveu, tem morte diversa e enfrenta o além. Assim, cada um realiza a seu modo o princípio geral transformista do fenômeno vida-morte, e cada tipo de personalidade realiza-se de maneira diferente. Acontece que, se para os extrovertidos, para quem é fácil viver projetado para o exterior no ambiente terrestre, faz-se escuro quando o tipo de vida com a morte se inverte em direção ao interior, para o introvertido, para quem é difícil viver nas condições oferecidas por aquele ambiente, faz-se luz quando sai da prisão da matéria, para se lançar no mundo interior. Colocar-se ao nível da vida humana pode, para um indivíduo proveniente das proximidades da animalidade, significar um salto em frente, uma ascensão espiritual, mas para um evoluído pode querer dizer um retrocesso. No primeiro caso, a existência terrestre pode ser uma alegre expansão vital, no segundo uma dolorosa sufocação. Por isso a vida pode ter, para os indivíduos, significados, finalidades e resultados vários. Para quem nascer leva a ascender, isto pode querer dizer entrar num paraíso, mas para quem nascer significa descer, isto pode representar ir para o inferno. A alegria da vida está em seguir a lei da evolução, que conduz ao S. Por isso, quando a vida no nível humano constitui uma subida, porque se parte de mais baixo, ela pode ser tida como alegria, apesar de ser alegria de primitivo; porém, quando a vida é uma descida, porque‘ se inicia de um nível mais alto, então ela se torna sofrimento, mesmo que seja padecimento de evoluído. Tudo é relativo à posição que se ocupa ao longo da escala evolutiva.

Assim se compreendem as diversas atitudes dos indivíduos. Do comportamento de cada um, conforme a sua natureza, depende o seu tipo de vida e de morte. Se para o involuído o nascimento no plano físico pode significar uma melhoria, podendo viver em mais alto estágio evolutivo e, portanto, constituindo a morte uma perda, para o evoluído tal nascimento pode comportar condições piores de vida em um mais baixo ambiente evolutivo, podendo a morte ser considerada uma libertação. É natural que se encontrando eles em posições opostas, aquilo que para um é afirmação, para o outro é negação de si próprio, e ao contrário. Para quem é matéria aqui se acha a vida e, para quem está no plano do espírito, aquele nível significa a morte. Para quem é espírito a vida encontra-se neste âmbito e, para quem está na matéria, aquele nível representa a morte. Há um abismo insanável entre o homem do mundo e o do espírito. O primeiro vive para realizar no meio terreno; o segundo, no campo ideal. Eles enfrentam a vida de maneiras opostas. O primeiro quer multiplicar-se na carne para viver satisfeito no máximo bem-estar deste mundo; o segundo dirige-se para formas de vida mais altas, superando a terrestre. Para aquele esta aspiração é sonho e utopia, para o último constitui a mais alta realização, porque corresponde ao maior impulso da vida, que é a evolução. O primeiro quer gozar no presente, o segundo pretende ascender, projetado para o futuro. Aquele triunfa em vida, quando se encontra no seu ambiente, mas é derrotado pela morte, quando tem de sair desta existência. O último luta e sofre em vida, exilado na Terra, embora vença na morte, quando pode libertar-se desse mundo E este segundo caso que aqui estamos narrando.

É lógico e justo, para quem a vida é positiva no plano terreno e negativa no espiritual, que a morte se apresente negativa; e, para quem a vida se mostra positiva espiritualmente e negativa no ambiente terreno, que a morte seja positiva. Esta para ele não é o fim, mas o início de outra vida maior. É lógico e justo que as posições favoráveis e contrárias se compensem e que, nas relações entre os bons oprimidos e os prepotentes dominadores, elas se invertam. Se a existência atual constituísse toda a vida, o mundo teria razão. Mas seria um absurdo que, se ela fosse completa, se exaurisse num espaço de tempo tão breve. Então, vencer na Terra seria algo só momentâneo. Será que a existência pode ser anulada? Não. E pode-se deter o tempo? Também não. É necessário forçosamente continuar e prever, preparando essa continuação. Que sucederá a quem não o tiver feito, ou, pior, tenha-o realizado de modo emborcado? Não queremos com isso depreciar o homem de ação dirigido a finalidades práticas. Tudo isso não significa inevitavelmente que ele esteja em erro, mas apenas que o seu campo de trabalho cobre um espaço limitado, além do qual existem outras possibilidades imensas em bem e em mal que ele não leva em conta e que lhe escapam, porque as ignora. Assim, aquele homem permanece fechado no ambiente terrestre, sem vislumbrar a vida maior que existe além deste.

O homem da Terra identifica-se com o corpo e prende-se àquilo que este pode possuir, anexando-o a si O homem do espírito sente-se como personalidade distinta do seu corpo e daquilo que a este se pode juntar com a posse, a que, portanto, não se liga como coisa própria. Trata-se de duas formas mentais diferentes. Para o primeiro tudo aquilo que a vida oferece constitui um fim, para o segundo é apenas um meio. Para aquele a morte é morte, isto é, o fim, uma anulação; para o último ela é o início de uma nova vida, uma passagem, uma transformação. Apenas este sente-se ficar íntegro na sua personalidade, completamente vivo na morte, porque e impossível morrer. Então, ele se libertará do escafandro que teve de vestir para poder descer até a profundidade do plano físico, a fim de poder entrar em contato com ele. O involuído identifica-se com o escafandro e se interessa apenas por este tipo de vida, como se fosse o único e o melhor. Em vez de apressar-se a subir à superfície, procura tornar-se mais pesado ainda, carregando-se de todas as possíveis revestiduras, como riqueza, honras, poder terreno, sempre mais vastos domínios em todos os campos. Mas estas coisas são acrescentadas do exterior, portanto destinadas a serem abandonadas com a morte. Com o indivíduo fica somente aquilo que é verdadeiramente seu, as suas qualidades, ou seja, não aquilo que ele possui, mas o que ele é.

Acreditar que se possa crescer e se tornar maior só com possuir é uma ilusão, porquanto, em realidade, a existência é um transformar-se sem cessar. Querer subir é um impulso evolutivo sadio, mas não é aquele o caminho. Onde tudo continuamente se transforma, a estabilidade de uma posse definitiva é utopia, um absurdo, porque se torna uma atadura que paralisa a ascensão, atraiçoando o escopo da vida.  No seio de tal sistema, onde tudo muda sempre — e se nasce e se morre — pode-se ter apenas ou um usufruto temporário, ou um empréstimo, não uma propriedade definitiva. Somos viajantes ao longo do caminho da evolução, constrangidos a mover-nos incessantemente em direção ao seu vértice. As bagagens constituem-se um obstáculo ao avanço; aquelas comprometem, enquanto este é o que tem mais valor, porque é nele que está a salvação. A prisão às coisas é produto do AS, precisamente para frear a ascensão ao S. Trata-se de um método emborcado de crescer, porque se pretende engrandecer aprisionando-se, em vez de libertando-se para poder voar. O verdadeiro enriquecimento se alcança pela via oposta. Quanto mais nos livramos de uma prisão particular, tanto mais nos enriquecemos com a capacidade de possuir universalmente. Seguindo o primeiro método, as coisas se afastam de nós, porque, desejando agarrá-las, queremos constrangê-las à nossa vontade, fora da natural corrente das suas leis. Aplicando o segundo método, as coisas vêm a nós, por nos colocarmos no fluxo das suas leis, na via do seu natural traçado. A nossa avidez nos afasta do sucesso, o nosso desprendimento as atrai. A posse de uma coisa qualquer, enquanto parece que nos engrandece e nos dá poder, de fato tende a fazer-nos seus servos. Então, isso em vez de ser útil à pessoa para evoluir, prende-a, paralisando-lhe os movimentos e o progresso.

Aquilo que verdadeiramente podemos possuir são as nossas virtudes. Elas representam o nosso maior tesouro, é por meio delas que verdadeiramente podemos ser donos das coisas, somente sabe produzi-las e conservá-las quem tem aquelas qualidades. Estas são a nossa única verdadeira propriedade, inalienável, indissoluvelmente ligada à nossa pessoa, enquanto as coisas vão e vêm à mercê dos acontecimentos. Toda atividade humana para apropriar-se do mundo se reduz a dispor diversamente o material que se encontra na superfície da Terra, sem lhe poder acrescentar um só grama que seja. Depois de nossa temporária intervenção, tudo fica mais ou menos onde estava, para retomar o curso das suas espontâneas transformações estabelecidas pelas suas leis. E assim que de todas as grandes obras humanas não fica outra coisa dentro do homem senão a técnica que ele aprendeu para construí-las, como se elas fossem só um material de exercitação para aprender. Das coisas edificadas; de estável restam unicamente as qualidades adquiridas para construí-las. É por isso que temos o direito de moldar-nos na escola da vida, mas apenas como meio, isto é, temos o direito de dispor de tudo aquilo que é necessário para a nossa evolução, e só até aí.  Tudo vale e nos é dado enquanto serve de instrumento para caminhar rumo ao ponto final da evolução, a que tudo tende e à volta da qual gira o universo, ou seja, serve para o regresso ao S.

Estamos explicando as razões da renúncia e o justo sentido em que ela deve ser entendida e praticada. Se isto não acontece, ela pode representar somente um impulso negativo, dirigido a construir qualidades de ócio e inaptidão. A renúncia pode ser entendida como uma indiferença em relação a problemas terrenos para nos eximirmos do esforço de enfrentá-los e resolvê-los, numa santa preguiça, evitando que nos construamos através da luta pela vida. O ginásio das nossas exercitações é a Terra, e devemos atravessá-la para depois subir ao céu, e não fugir-lhe nas solidões do deserto. Ausentar-se da vida com a renúncia não é um atalho para evoluir, saltando para um plano superior de vida, livrando-se de percorrer toda a transformação evolutiva. É necessário entrar em contato com as dificuldades terrenas para lhes suportar as respectivas provas. Portanto, voltar as costas à Terra, acreditando que basta isso para ganhar o céu, sem primeiro haver amadurecido por ter aprendido todas as duras lições de nosso baixo mundo, é leviandade de inexperientes, ignorantes da técnica progressiva da evolução. Voltar as costas à Terra representa só o lado negativo do fenômeno, que deve ser completado pelo outro positivo, constituído pelo trabalho da construção espiritual, de maneira que nos tornemos capazes de saber viver em um nível evolutivo mais alto.

Pode-se cair nesse erro, renunciando-se à vida e às suas provas, como acontecia frequentemente com os religiosos medievais, que se isolavam em penitências, julgando que se espiritualizavam apenas com atormentar o corpo. Não basta morrer em baixo. É necessário saber reviver mais no alto. A ascensão ao céu não é uma fuga, mas uma lenta preparação através de aproximações graduais. Eis, então, que para ali entrar faz-se mister ter atravessado e superado todas as fases do caminho que conduz até lá. Só alguns indivíduos isolados estão maduros para tais superações. As massas encontram-se no seu elemento, na Terra, proporcionado ao seu ambiente, onde acham as provas adaptadas, necessárias para evoluírem. Entre os dois tipos, maduros e imaturos, é difícil a compreensão. Por isso os primeiros devem sair da Terra e os segundos ali ficarem para continuar a construir, com os seus próprios esforços, cada vez mais altas formas de civilização. Cada elemento tende e acaba por colocar-se no lugar que lhe compete, conforme a sua natureza, merecimento e trabalho a realizar.

A herança do homem é ser condenado a construir nas areias movediças, traído pela ilusão e pela paixão de produzir obras estáveis. A caducidade de todas as coisas é a regra neste planeta. À sua natural deterioração, para o que necessita de certa manutenção que lhe conserte o contínuo transformismo, acrescenta-se o instinto de agressividade e o sistema de luta em que o homem vive para melhor destruir tudo. Nem o fruto de nosso trabalho é estabilizado e pacificamente nosso. Dele não resta senão o fato de que tê-lo realizado nos constrangeu a aprender. Esta é a única coisa que, fixando-se na personalidade como qualidade adquirida, resta do passado, isto é, ao lado dos escombros e ruínas, uma habilidade criadora sempre crescente. Ora, o que interessa é o que permanece em nós, não o que desaparece; o que transportamos conosco não é o que regressa ao depósito das coisas; é a lição aprendida, não o instrumento usado para aprendê-la. O progresso, de fato, não consiste em acumular os produtos do trabalho do passado, mas em aprender a arte de produzi-los sempre mais, melhores e com menor fadiga. Às vezes as obras do passado e os métodos usados para produzi-los representam até um obstáculo de que é útil libertar-nos. Aquilo de que verdadeiramente somos donos não são, portanto, as coisas, que, mais cedo ou mais tarde, acabam por cair na ruína, mas é a capacidade de saber construí-las. O progresso consiste não em reunir em posses, porém em apropriar-se de uma sempre mais rica e perfeita técnica produtiva que, utilizando os recursos do ambiente, supra o nosso consumo.

Então, a coisa mais produtiva de que nos tornamos donos é a técnica construtiva, isto é, um bem em movimento que se enxerta no transformismo universal, na corrente do qual nos colocamos. O domínio maior consiste em possuir as causas, que geram as coisas, mais do que estas, que delas são o efeito. E as causas estão dentro de nós. São as nossas habilidades. Assim, um rico preguiçoso e inepto é mais necessitado do que um pobre ativo e inteligente, porque o primeiro acabará pobre e o segundo rico. Que se nasça para gozar, ou que se possa obter seja o que for não merecido, porque não ganho à sua custa, é algo em que só os primitivos podem crer. A vida, pelo contrário, é uma escola para os voluntariosos, como pode ser uma penitenciária para os rebeldes, uma casa de correção onde a Lei de Deus ensina com os trabalhos forçados e o chicote.

Quem conceber a vida conforme esta ordem de ideias sabe que a morte não lhe pode levar coisa alguma, se ele se enriquecer de valores seguros, que são os inerentes à personalidade. Mas isso pode suceder apenas quando se compreender que o verdadeiro escopo da vida é construir-se a si próprio. Então, tanto mais se vale e se é poderoso, quanto mais se sabe e se é melhor, e não quanto mais se possui. Quando se soube viver, morre-se satisfeito levando consigo o fruto do próprio trabalho. Quando não se soube viver, morre-se tristemente com as mãos vazias, sem levar coisa alguma consigo. Em cada vida se aprende mais e, quanto mais se aprende, tanto mais nos tornamos sabedores e potentes. Quando, no fim do caminho da vida, chega-se perante a morte, fazem-se as contas e se fecha o seu próprio balanço, tanto no ativo como no passivo. Se tivermos escolhido as coisas ilusórias, poucos serão os valores verdadeiros que ficarão conosco. Se nós tivermos dedicado aos tesouros da Terra, teremos de os restituir todos, inclusive o nosso corpo, que é parte do material vivo tido em usufruto para a duração de nossa vida. Tanto maior será a ruptura e o engano quanto maior for o apego. Mas a dor dessa ruptura constituirá o ensinamento mais útil que trouxermos da posse das coisas da Terra, porque assim aprendemos a não nos ligar mais a elas e a libertar-nos da ilusão que elas representam.

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Caminhando, caminhando, chega-se ao fim da vida. Ela, então, fica pertencendo toda ao passado, onde permaneceu cristalizada. Doravante ela representa algo já realizado que não está mais em nosso poder. É que ela se encontra em nossas mãos enquanto necessitamos dela como instrumento de trabalho, fugindo-nos, uma vez terminada a construção. Incumbia-nos apenas atravessá-la para realizar algumas experiências e aprender algumas lições. A jornada terminou, aquela vida não é mais nossa. É nosso apenas aquilo que ela produziu. Agora já tudo foi feito e ficou para trás no nível das coisas passadas, de que nos restam nas mãos apenas os efeitos, semente que é fruto de nossa planta, a qual voltará a nascer para gerar novos efeitos na forma de outras plantas e frutos.

Àquilo que foi feito nem Deus pode mudar. É sua Lei que as consequências das nossas ações sejam fatalmente nossas. No final chega a hora em que  escolher e querer não valem mais. Já foi suficientemente selecionado e desejado em plena liberdade. A saída está fechada. Entra-se no domínio da Lei, na sua corrente e por ela se é arrastado conforme a posição em que nela nos colocamos e as reações que provocamos. O que constituiu livre escolha se torna de agora em diante fatal determinismo, que nos cairá nas costas e nos ligará como destino em nova vida. Poderemos ainda, livremente, escolher, mas ficamos dominados pelos impulsos dos movimentos já iniciados no passado e que, por inércia, tendem a continuar na sua direção.

Caminhando, caminhando, chega-se ao último ato. Aparece o extremo horizonte para além do qual cai o pano. Na velhice quem viveu apenas para o presente, na matéria, olha para trás com saudade, agarrando-se ao passado que lhe foge. Quem viveu em função do futuro, no espírito, olha para a frente cheio de esperança na direção de nova vida que o espera. O primeiro é verdadeiramente velho, espírito e corpo O segundo é velho apenas no corpo, mas é jovem na alma. Para quem viveu preso à Terra, é o fim. Para quem viveu olhando para o alto, é o princípio.

Na corrente universal do transformismo evolutivo físico-dinâmico-psíquico, a função da vida é mudar a energia em psiquismo. É assim que se nasce inexperiente, mas cheio de energias jovens, ansiosas de fazer experiências; e se morre cansado, porém pleno de conhecimento adquirido com aquelas experiências. Isto é o que cada um faz no seu nível: um trabalho de tipo mais elevado para o mais evoluído e de natureza mais baixa para o menos evoluído. Mas para todos a vida é escola de experiências. Este é o seu escopo, isto é, cada um realiza, à altura do seu plano evolutivo, um trecho do seu transformismo dinâmico-psíquico. De fato, na velhice, executado o labor extrovertido da experimentação, o indivíduo espontaneamente se prepara para aquilo que depois cumprirá ap6s a morte, ou seja, o trabalho introvertido de elaboração do material ingerido, para assimilar e com ele construir a própria personalidade. Por isso, na velhice, não se traga novo alimento, rumina-se o velho, vivendo não de experiências, mas de recordações.

A juventude é a alvorada na qual se inicia a tarefa cheio de forças; a velhice é o ocaso da vida, quando se repousa, cansado. Na juventude encontramo-nos cheios de energia, com todo o serviço ainda para fazer. E temos necessidade das coisas materiais para fazê-lo; na velhice achamo-nos esgotados, mas com o trabalho feito. E precisamos das coisas espirituais para uma faina em sentido oposto em outro tipo de vida. Ao nascer estamos ricos de potencialidades, ansiosas de explodir no plano físico e pobres de conhecimento e qualidades mentais em confronto com aquelas que adquirimos; na velhice somos mais ricos dessas virtudes, mas pobres de energia. Este princípio aplica-se igualmente para todos. Os fatos confirmam a nossa interpretação do escopo da vida. Ela manifesta-se como uma descarga dinâmica (atividade no plano físico) e uma recarga psíquica (aquisição de conhecimento). A vida no além deverá ser o contrário, isto é, uma recarga dinâmica no repouso e uma descarga psíquica na meditação, no sentido de que o consciente se verá aliviado do material mental acumulado em vida, transmitindo-o ao subconsciente, depósito de experiências adquiridas. Acontece à guisa do estômago, que, com a digestão, enquanto se esvazia para enfrentar outra refeição, leva o organismo a assimilar o alimento, transformando-o em sangue.

Quanto mais o ser é involuído, tanto mais se sente vivo nos planos que se dirigem para o AS; e, quanto mais é evoluído, tanto mais se sente vivo nos estágios que caminham para o S. Para o primeiro a posição de encarnado na matéria aparece positiva e a de desencarnado, negativa. Para o segundo a situação de encarnado é negativa e a de desencarnado, positiva. Assim para o encarnado é vivo quem existe no seu plano físico e morto quem vive só como espírito; enquanto para o desencarnado é vivo quem existe como espírito e morto quem vive no ambiente físico. Isto será tanto mais verdadeiro quanto mais o encarnado for involuído e quanto mais o desencarnado for evoluído. É por isso que a morte inspira tanto mais medo quanto mais se é involuído e tanto menos quanto mais se é evoluído. Isto também porque, quanto mais se é evoluído, tanto mais se é espiritualmente forte e, assim, tanto menos a morte é queda no inconsciente, o que significa perder consciência, isto é, a sensação de viver. E, ao contrário, quanto mais se é involuído, tanto mais se é fraco espiritualmente.  Consequentemente, tanto mais a morte é queda no inconsciente, constituindo perda de consciência, ou seja, da sensação de viver. É assim que potencializar-se espiritualmente, subindo em direção ao S, implica uma progressiva vitória sobre a morte, no sentido de que ela perde o poder de nos mergulhar nas trevas do AS, tolhendo-nos a consciência e com isso a sensação de ficarmos vivos. Se a morte é potente ao máximo no polo negativo do ser, no AS, o é a zero no polo positivo, no S.

No momento da morte, não há mais nada a fazer senão abandonar-se no seio da lei de Deus, que sabe fazer e prover para que tudo seja feito em perfeita justiça. Não seremos defraudados de nenhum mérito. Tudo o que foi ganho nos será pago com exatidão, em bem como em mal, em forma de alegria ou de dor. Desaparecem, então, as distâncias, sempre mais débeis e longínquas, os juízos do mundo, os seus louvores e as suas condenações, que outrora pesavam tanto e que agora não valem nada. O que presentemente conta é apenas o juízo de Deus, com o qual nos encontramos, finalmente, sós. Todo o resto não nos serve, não nos interessa mais. Então, passa-se em revista o passado, que retorna perante a consciência, no fundo da qual está Deus, que fala e julga, porque a centelha originária que a criou no S se ofuscou, mas não se extinguiu com a queda no AS. Faz-se, então, a soma do dar e do haver perante a Lei. Deste modo, cumpre-se espontâneo, automático e fatal o juízo de Deus por sobre todos os do mundo. Vê-se, então, afastar-se e perder-se, a distância, a esfera da Terra com o seu formigueiro humano. Torna-se pequeno o que parecia tão grande e importante: as suas glórias, as suas riquezas, o seu poder, os seus tribunais! Perante a eternidade, visto em função de outros pontos de referência, tudo adquire um valor diverso.

Caminhando, caminhando, também estou chegando ao fim do percurso terreno. A longa vivência está para terminar. O meu trabalho está feito. A Obra está chegando ao fim. Cumpri a minha promessa e realizei a missão. Por mais de oitenta anos, até hoje, tive de ficar imerso no pântano do mundo. Mas, finalmente, chegou a hora da libertação. Cada um andará pela sua estrada, conforme as suas obras. Os aproveitadores do ideal continuarão nas suas façanhas. Eu me retraio ao seio da fonte de pensamento que me iluminou por toda a vida. Cada um conforme o destino que desejou. Afasto-me sempre mais do mundo. Cada um pela sua estrada. A qualquer um deixo a Obra. Por isso foi feita a oferta. Fiz a minha parte. Cada um é responsável apenas pelas próprias ações.

A Obra é um plano de trabalho que pode ser usado como recurso para subir, ou como um ideal a explorar. No primeiro caso, será um precioso instrumento de evolução; no segundo, para quem quiser usá-lo emborcado, um perigoso meio de involução. Tudo na Terra pode ser usado em duas direções: ao positivo, caminhando para o S, como ao negativo, aproximando-se do AS. A Obra não é um cômodo ascensor para nos elevarmos sem esforço, mas é o traçado que mostra a escada que cada um tem de subir com as próprias pernas. Todas as tentativas de desfrutar a Obra para finalidades humanas recairão em cima de quem quiser fazê-lo, para seu dano. Isto já ocorreu e continuará a verificar-se. Com isso não se realiza senão o que a própria Obra explica quando demonstra o funcionamento da Lei. Quem quiser manejar esta Obra terá primeiro de a ler toda e a compreender, para não cair nos erros e danos de que ela própria nos adverte. Esta será uma conta dos continuadores com Deus, na qual não entro. Cada um é livre, mas deve depois recolher conforme as suas ações. Será perigoso, como se costuma fazer com os ideais e como já foi tentado, emborcar para outras finalidades a função da Obra. Quantos já foram jogados ao chão ao longo do seu caminho! É perigoso ignorar e desafiar a potência invencível dos defensores das coisas do espírito.

A Obra está aí escrita. As pessoas têm quanto tempo quiserem para compreendê-la. Isto já não é trabalho meu, o qual era apenas expor tudo para que pudesse ser compreendido. Tarefas e responsabilidades estão bem definidas. A cada um o seu. Eu vou-me embora, com o meu esforço realizado, para recolher o fruto em outro lugar. Os outros ficam com o seu trabalho para fazer, se lhe quiserem recolher o resultado. No final se dividem os campos, e cada um permanece só diante da Lei, na posição que lhe compete. Os princípios expostos na Obra não são somente teorias. A Lei não pode ficar em vão e, também, neste caso, põe-se logo a funcionar. As minhas contas com Deus são coisa minha, e ninguém pode imiscuir-se; delas ninguém pode retirar nem acrescentar coisa alguma; bem assim as contas do mundo são com Deus e delas ninguém pode também subtrair ou adicionar nada. As contas do mundo são com Deus, não comigo, como as minhas não são com o mundo, mas apenas com Deus. O momento histórico é grave para todos, e cada um deve chamar a si as suas responsabilidades.

Nestes volumes conclusivos da Segunda Obra, falei também do Cristianismo, dos seus deveres e destinos, examinando as suas responsabilidades perante o problema moral e espiritual que o espera em nossa civilização ocidental. O primeiro impulso espontâneo de quem ama uma religião é defendê-la. E estranho, porém, como fui mal interpretado. Foi tomado por alguns como um assalto contra a religião aquilo que constituía uma defesa da mesma contra os falsos religiosos — e são tantos! — para que ela fosse levada a sério num momento tremendamente crítico, sobretudo para a cristandade, no qual se prestam as contas e, portanto, se devem pagar tantos erros e abusos acumulados no passado, dos quais ela é responsável.

Em virtude deste mal-entendido, quem observar aonde fatalmente conduz o desenvolvimento da trajetória deste fenômeno deve antes calar-se. E isto porque os bem pensantes, falsos crentes, cobertos de religiosidade e com isto persuadidos de terem sabido conciliar Cristo e Evangelho com as suas comodidades e negócios, não desejam ser perturbados  Eles sentem-se ofendidos por quem lhes parece ter a intenção de descobrir as suas mentiras para os denunciar, quando, na verdade, a preocupação é, apenas, a de salvá-los.

Que fazer então? Salvá-los não se pode: 1) porque não o querem e o impedem reagindo, como se se tratasse de resistir a um ofensor; 2) porque se trata de grandes fenômenos históricos sobre os quais um indivíduo isolado não representa nada; 3) porque a respeito deles não espera erigir-se em juiz e condenar, mas somente perdoar e tolerar; 4) porque incumbe só a Deus fazer justiça. Estas grandes responsabilidades não pertencem a quem não tem os correspondentes poderes e autoridade. O indivíduo não é obrigado a responder além dos limites do seu caso e posição individual.

Conclui-se daí que assim ele está proibido de cumprir o dever de intervir, enquanto lhe é imposto o de abandonar os irmãos ao juízo de Deus e à reação de Sua Lei. Será esta uma dura fatalidade imposta pela tremenda justiça daquela Lei? Dependerá isto do fato de que Deus não permite uma fácil e gratuita evasão das consequências merecidas, pelo que tudo deve ser pago por quem o mereceu? É assim que Deus torna os homens surdos aos conselhos com que desejaria salvá-los, de modo que, quando for chegada a hora do ajuste de contas, eles não possam fugir, não usufruindo de ajuda alguma.

A minha posição, então, é respeitar, calar, deixar os responsáveis entregues ao seu destino, permanecendo imparcial, antes benévolo espectador, mas separado da responsabilidade deles. Dado que avisar pode ser mal interpretado, devo, sem me envolver, ficar só a olhar como Deus disporá as coisas, como acontece com a dura lição da dor. É triste não poder gritar que a casa está pegando fogo, para salvar quem lá habita. Mas, em consciência, não se pode fazer de outra maneira. Portanto, constitui dever o mais completo respeito pela liberdade de escolha do próximo.

De minha parte a Obra foi feita e oferecida. O que restar ficará para os outros. O trabalho de a compilar foi executado nas mais difíceis condições, porque a Terra não é lugar para contemplações idealistas e realizações evangélicas. Aqui domina a lei da luta pela vida. O mundo é um campo de batalha, onde para sobreviver se torna indispensável possuir uma forma mental adequada completamente diversa da que é necessária para saber executar um trabalho espiritual. Quem é feito para este trabalho deve adaptar-se a viver em tal ambiente, que não o poupará por isso. O homem votado às coisas do espírito, se quiser sobreviver, deve entrar em guerra e fazê-la como todos, porque, se ele se distrair olhando para o céu, o mundo aproveitará para devorá-lo. Eis o que espera quem se perde na visão dos grandes problemas e esquece a realidade torturante de cada dia. Esta exige capacidade de assalto e defesa, muito mais do que qualidades intelectuais e morais.

É lógico que tudo seja assim. Na Terra são negativas as virtudes evangélicas, que, num plano superior de organicidade, são positivas, enquanto são negativas neste último nível as qualidades do animal lutador e egoísta, as quais, neste mundo, são positivas. Isto porque o nosso planeta ainda gravita, em grande parte, em direção ao AS, baseando-se, portanto, em princípios e métodos involuídos deste, em vez de se fundamentar nos mais evoluídos do S. Assim, para viver no ambiente terrestre, está mais adaptado o involuído egoísta e lutador do que o evoluído altruísta e pacífico.

A Obra foi escrita no meio dessa tempestade, aproveitando os momentos de trégua em que ela afrouxava para golpear noutro lugar, mas sempre vivendo em estado de tensão. Isto implicava um desperdício de energias, subtraído à produção. Que rendimento maior não teria sido, se tivesse trabalhado num ambiente de tranquilidade, como seria necessário para poder pensar! Talvez o fato mais prodigioso fosse que a composição da Obra pudesse ter sido levada a cabo em tais condições. Daí se pode ver em que dificuldades deve encontrar-se submergido na Terra quem luta pelas coisas do espírito, e como é justificada a sua alegria ao avizinhar-se a hora da libertação. É lógico e biologicamente justo o sistema da luta pela vida, como sucede no plano humano, por um biótipo que deve realizar a seleção do mais forte ou astuto, porque esta, no seu nível, é a forma de evolução proporcionada que ele deve executar. Mas é absurdo tal sistema contraproducente, já que paralisa o trabalho de quem quer realizar uma tarefa de outro tipo, porque lhe é mais adaptada.

Todavia, quase como conforto em hora de desalento, chega-me, enquanto escrevo esta página, uma carta de uma pessoa capaz de julgar, e emite o seu julgamento sobre o primeiro volume da Obra, A Grande Síntese, do seguinte modo: "Ao finalizar a leitura desta Obra (A Grande Síntese), temos a impressão de haver ressurgido, no século XX, um dos grandes profetas bíblicos. Igualá-la é difícil. Superá-la, impossível. Negá-la, absurdo. Discuti-la, loucura. Mas aceitá-la e senti-la são a prova de que em nós há uma centelha da divindade. Merece realmente ser encadernada no mesmo volume que o Novo Testamento, como coroamento das obras dos grandes e primeiros apóstolos. A força e a segurança fazem desta Grande Síntese uma continuação natural das Epístolas e do Apocalipse, nada ficando a dever a eles (....). Quanto à confirmação de sua Obra, a cada dia que passa sinto que cresce em todos os pormenores. Realmente a sua Obra é toda inspirada na espiritualidade maior, filtrando com fidelidade o pensamento crístico, que constitui a noosfera mais elevada do nosso planeta".

Permanece, no entanto, o fato de que a diminuição de produção representa um dano ao interesse coletivo, que assim obtém uma produção útil menor. O indivíduo que executa o trabalho, porque tem de realizá-lo em condições tão adversas, devendo vencer dificuldades, fortifica-se espiritualmente, o que o torna mais apto a ascender. No final da vida, termina-se a partida, e a Lei se apossa de nosso destino qual o quisemos construir. Então, já não podemos funcionar como causa determinante de acontecimentos. Devemos antes, fatalmente, continuar como consequência de nosso passado. Termina a hora da livre experimentação, uma vez que está exaurido o seu escopo. O passado retorna a nós, vivo, gigante, mas agora já imobilizado na forma em que foi vivido, e nele ficamos suspensos como se estivéssemos fora do ciclo da transformação. Parece que o tempo tenha parado, porque não sabe criar mais nada de novo. Inclinamo-nos sobre o passado, e ele agora pleno de outros significados recônditos, antes não suspeitados, enche a nossa vida. Vivemo-lo de novo, mas agora interiormente; não mais nas vicissitudes materiais, mas no seu significado; não mais como conquista terrena que já não nos interessa, porém como construção de personalidade. A vida assume, então, outro sentido. Fazem-se as contas do que realmente produziu o tanto que se correu. E, se não derivaram valores construtivos em sentido evolutivo, mas somente sucessos terrenos, que agora são abandonados, não resta outra coisa senão um vazio e o sentido da inutilidade de tanta fadiga. A vida só será plena e bela no seu final, se a tivermos enchido de valores substanciais, os que servem para evoluir. E será oca e triste, se a tivermos recheado de falsos valores de tipo AS, que servem para descer involutivamente. No primeiro caso, sentimos que nos dirigimos para a luz, no segundo, que caminhamos para as trevas.

No fim eis-me sozinho perante a Lei. Refugio-me nos braços de sua justiça. Através de toda a Obra observei o funcionamento dessa Lei. Sinto-a operar à minha volta, dentro de mim. Ela me expressa o pensamento e a vontade de Deus. Estou imerso plenamente nesta atmosfera feita de vida, da qual se alimenta o respiro do universo. Os sentidos físicos se extinguem, fecham-se as portas que eles abriam para o exterior, rompem-se os contatos com o mundo da matéria, e eu continuo a sentir e a pensar. O cérebro envelhece e desaparece. Eu fico. O corpo morre. Eu vivo. A minha vida se desloca do plano físico ao espiritual e se concentra na sua parte mais alta, que não morre. O meu ser se enfraquece em um nível e se fortalece em outro, no qual sobrevivo. Quanto mais o corpo definha, tanto mais me fortaleço no espírito. Morro de um lado para ressuscitar do outro. Tenho a sensação de morrer só na parte inferior de mim mesmo. E uma separação que não dá nenhuma sensação de perda, porque vale mais a parte que se adquire. Como é belo morrer quando se viveu assim! Fica-se na parte mais profunda e vital do próprio ser!

Ao concluir o meu ciclo terrestre, depois de tanto pensar e escrever para executar o trabalho que me tinha sido confiado, volta a amiga voz interior, que agora já bem conheço, a fazer-se diretamente sentir como no início da Obra. Sinto esta voz emergir da profundidade da alma e dizer-me: "Permanece calmo. Sabe que eu sou Deus. Sou Deus dentro de ti, como dentro de todos e de todas as coisas. Quem segue a Lei não tem nada a temer. Confia no meu poder. Seja qual for o assalto do mal, Eu tenho o poder de salvar-te”.

Pergunto o que essas palavras significam e como aquilo que elas dizem seja possível. E ouço a explicação. A universo está em evolução, o que dá a entender que ele não é perfeito e que se move em busca de perfeição. A meta é Deus, no centro do S; a evolução é o caminho do retorno, depois de ter havido o afastamento. A imperfeição é o estado de ruína devido à queda; a evolução é o trabalho de reconstrução da perfeição perdida. O homem encontra-se situado na periferia do S; poder-se-ia dizer no seu exterior, isto é, na matéria ou forma que envolve o espírito, no plano da ilusão sensória. Várias são as imagens com que se pode expressar esta ideia. Tal periferia, que é o AS, é feita de caos, mas, no interior, no centro, no S, ficou a ordem, íntegra, indestrutível. O homem encontra-se do lado do caos, mas dentro deste existe aquela ordem que o rege e lhe guia os movimentos, dirigindo-os para a reconstrução da mesma. É por este fato que o caos, embora feito de negatividade — e, naturalmente, por isso não poderia conduzir senão à autodestruição — é animado, contra a sua vontade, de um impulso de positividade que o leva por fim a reconstruir-se na ordem. Esta é a razão pela qual o mal, nascido como contradição, porque representa o emborcamento do bem no AS, é constrangido a continuar sempre a seguir este tipo de trajetória, isto é, a contradizer-se, pelo que no fim acaba por um instrumento de bem nas mãos de Deus. É evidente que, mesmo assumindo uma posição emborcada da revolta, ninguém pode fugir ao poder de Deus, centro e origem de tudo. Deste ponto, que permaneceu vivo e ativo também no mais íntimo do AS, deriva o impulso da evolução que leva todos a ascender.

O AS não está só. Dentro da sua casca podre reside uma alma sã e potente que o sustenta e o guia para a salvação. Ele não é senão um membro corrompido de um grande organismo que permaneceu sadio, o S, que continua a irradiar saúde para a parte doente, a fim de curá-la. O AS não se separou de Deus, fonte primeira do existir. Os raios divinos chegam também aonde a criatura quis colocar-se em posição emborcada. E tudo o que existe os recebe. A grande consolação do indivíduo condenado ao retrocesso espiritual, com ter de se encarnar no ambiente terrestre, é reencontrar esta íntima ligação sua com Deus, é rever na profundidade das trevas do AS um raio da luz divina, é ouvir a voz de Deus e sentir a Sua presença.

Vão-se as formas instáveis, ultrapassadas pela corrente do transformismo batido pelo ritmo do tempo, acossadas pelo contínuo movimento do relativo, à volta do absoluto, eterno, imóvel. A evolução não avança ao acaso. Dirige-lhe o desenvolvimento, regendo-a interiormente, o pensamento de Deus, fio condutor do transformismo, ao qual é dado um desenrolar-se lógico desde um ponto de partida até outro de chegada. É feliz, mesmo que esteja mergulhado na profundidade dolorosa da vida terrena, quem compreendeu que um Pai celeste nos espera no final do longo calvário da evolução redentora. É feliz quem sabe vê-lo vir ao nosso encontro com os braços abertos, incitando-nos a ascender, para reencontrar Nele a felicidade.

"Eu sou apenas uma gota num oceano e, por isso, não sou nada no oceano; no entanto, faço parte dele e, por esse motivo, sou um seu elemento constitutivo; eis de que maneira sou oceano". Isto é o que cada um de nós pode dizer, aquilo que somos perante Deus. Mas não basta sê-lo. O problema é sabê-lo e senti-lo. Ora, se Deus está dentro de tudo o que existe, sem o que nenhuma coisa poderia existir, Ele lá está de modo tanto mais evidente e perceptível, quanto mais o ser é espiritualmente evoluído, isto e, no regresso, que lhe é mais vizinho, libertando-se dos invólucros obscurecedores, produto da involução. Eis que a fundamental unidade da natureza entre criatura e criador é diversamente sentida por aquela, conforme o grau de evolução alcançado. É indiscutível que esta unidade existe e constitua uma qualidade indestrutível que ficou escondida no mais profundo do ser, capaz de resistir a qualquer erro ou revolta deste. Ela era indispensável para que se pudesse cumprir o ato da criação, com a qual Deus gerou a criatura extraindo-a de Si próprio, isto é, da Sua própria substância, dado que de outra maneira não podia fazer, porque Ele era tudo. É assim que o evoluído, espiritualizado, às vezes pode encontrar na profundidade de si mesmo, emergindo do inconsciente em que ficou sepultado, um eco daquele pensamento divino originário de que derivou a sua existência. O fato dele não ser percebido é devido à surdez do ser, por motivo da involução e não porque a voz de Deus silencie. A involução podia mudar o que pertencia ao ser rebelde, mas não aquilo que é de Deus.

Ora, dado que tal é a estrutura do fenômeno, é evidente que ele não pode ser senão de tipo introspectivo. Eis que só podemos encontrar Deus dentro de nós, e isto em proporção ao grau de espiritualização atingido. A sensação da presença e do pensamento de Deus, centro de todas as coisas, encontra-se interiormente, na alma, na raiz do nosso ser, e não exteriormente, por meio dos sentidos. Trata-se de escavar nos estratos mais profundos do ser, onde deve ter ficado qualquer recordação das primeiras origens. Do contrário, não se explicaria como seres provenientes dos planos baixos do AS, onde não se conhece senão morte e dor, procurassem com tanta paixão a felicidade, que, de outra maneira, dever-lhes-ia ser desconhecida. Tal impulso proveniente das profundidades do inconsciente prova que ele se recorda e faz presumir que se trata de coisa conhecida. Então, que se faça uma pesquisa profunda dentro de si mesmo, mas não no inconsciente inferior ou subconsciente, que contém os produtos dos mais baixos planos evolutivos em direção ao AS, percorridos no retorno, porém além deles e mais em profundidade, isto é, no inconsciente superior ou superconsciente. Isto no sentido de ali procurar as bem longínquas reminiscências de outro tipo de existência no altíssimo nível evolutivo do S, as que este tenta fazer reaparecer em forma de pressentimento do maior futuro que nos espera. Religião e espiritualidade vêm a ser, então, um ato de profunda auto-análise psicológica que investe sobretudo no superconsciente. Assim, elas significam um trabalho de alta intelectualidade, e é neste sentido que aqui as apresentamos. Elas assumem um caráter mais racional e positivo, o que as torna mais acessíveis e aceitáveis pela ciência.

Quanto mais o ser evolui, tanto mais ele reencontra estas realidades profundas e se liberta das ilusórias do mundo. O ser humano é uma reprodução em escala microcósmica do grande modelo macrocósmico do organismo universal. O nosso espírito eterno está dentro de nosso corpo sujeito a contínuo metabolismo, como o S é imutável no íntimo do AS, submetido a transformismo constante. Depois destas explicações podemos compreender o significado daquelas palavras: "Sabe que Eu sou Deus. Sou Deus dentro de ti". E "permanece calmo" quer dizer: faze silêncio, porque a voz interior é sutil e difícil de ouvir. Isola-te, portanto, dos rumores do mundo que te percutem do exterior e aguça o ouvido para ouvir esta outra voz. O homem ainda ignora o universo interior, que é tão vasto quanto o exterior, do qual não conhece os confins.

Há outro fato que justifica e confirma aquelas palavras. E que São Paulo - Primeira Carta aos Coríntios, 3-16 - diz: "Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito Santo habita em vós? E (id. 6-19): "Não sabeis vós que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo que está em vós (. . . .)?" São Lucas, no seu Evangelho, acrescenta (17-21): "O reino de Deus está dentro de vós". Então, se esta é a realidade, como impedir que ela às vezes aflore e que alguém se dê conta da sua existência? Perguntamo-nos se tudo isso pode ser entendido como o desejo de tomar uma atitude orgulhosa de superioridade. É certo que, neste caso, se trata de um crescimento, que, naturalmente, não pode deixar de abrir uma distância. Mas é um crescimento positivo de tipo S, portanto não simulado, egoísta, separatista, ou seja, antivital para os outros, mas verdadeiro, generoso, unitário, isto é, vital para todos, porque implica um amplexo para elevar juntamente consigo os próprios semelhantes. De tal crescimento a sociedade não poderá sentir senão vantagem A humanidade, toda inclinada para conquistas do mundo exterior, tem necessidade de quem se dedique à obtenção dos ilimitados continentes do espírito. O ateísmo é simples miopia mental. As construções mitológicas das religiões ameaçam não se manterem mais. Para que elas possam sobreviver é necessário saber ver com outra mente as profundas verdades que elas contêm.

O homem, como qualquer molécula do todo, traz dentro de si, impressos na sua própria natureza, os sinais do todo, isto é, a sua estrutura bipolar. Sabemos que o dualismo, que está na base da estrutura de nosso universo, é derivado da revolta que despedaçou em duas a originária unidade do S. Porque o homem se encontra em um todo bipolar, ele pode avançar por evolução e retroceder por involução; elevando-se espiritualmente, pode projetar-se em direção ao S, como, seguindo os seus baixos instintos, inclinar-se para o AS. A função da evolução é justamente levar da cisão dualista à unificação de tudo em Deus, através de progressiva reaproximação que tende a encurtar as distâncias entre criatura e criador. E, quanto mais elas diminuem, tanto mais se podem ouvir e compreender aquelas palavras: "Sabe que eu sou Deus. Sou Deus dentro de ti". A altura da evolução não é espacial. O alto é o anjo, o baixo é a besta. A ascensão se realiza transformando neste sentido a própria personalidade.

Na Terra vemos os dois polos flanqueados em expressões paralelas. Nos velhos castelos e cidades as duas realidades encontravam-se vizinhas. Havia as muralhas, os fossos para se defenderem e fazer a guerra e a Igreja para falar com Deus. Em escala maior, temos o Estado e a Igreja, o primeiro representando a Terra, isto é, a realidade da vida, a segunda simbolizando o Céu, ou seja, o ideal. Estes são os dois polos que, coexistindo no mesmo terreno, disputam entre si o homem.

As formas da conduta do idealista perante o mundo podem resumir-se em três fases: 1) a do jovem que, cheio de fé e de entusiasmo, crê sinceramente nas belas coisas que lhe ensinam; 2) a do homem que, colocado em contato com a realidade, descobre como, nos fatos, o mundo está longe dos princípios ideais que proclama, escandalizando-se, portanto, e reclamando contra a mentira, para que os princípios sejam vividos a sério; 3) aquela em que se compreende a inutilidade dessa boa vontade e desse esforço honesto que o mundo considera como agressividade e contra a qual reage, porque os acomodados não querem ser perturbados. Assim, resolve-se aquela boa vontade recaindo na luta geral pela vida. Então, o homem honesto termina separando-se do mundo, do destino deste e cuida de se pôr no seu caminho para ir viver em ambientes superiores, longe da Terra.

Quando se chegou a esta fase final, não se perde mais tempo em fazer o trabalho negativo de condenar o mundo, tanto mais que, se se devesse fazer o livro das acusações, não bastaria um milhão de páginas. Trabalha-se em outro sentido, para se desprender de baixo, afastando-se da Terra. No final da vida, isto é lícito, quando o trabalho a executar foi devidamente cumprido. A libertação está na superação. Quanto mais se estiver vizinho do S, tanto mais se tem a sensação com segurança de ser indestrutível e impossível uma anulação. A imortalidade com a evolução não pode levar senão para uma maior felicidade. Que se pode desejar mais? Apenas por ignorância de primitivo pode-se acreditar que cair na inconsciência seja tombar no vazio, só porque ele é nada como sensação de vida. Isto é natural para quem confunde o existir com a percepção do existir, erro em que caem os extrovertidos, que vivem da vida dos sentidos. Para eles a inconsciência é o nada. Mas não há razão para que o existir não deva ser sujeito ao dualismo, em que tudo se encontra cindido em nosso universo. É assim que esse existir pode oscilar do estado de consciente ao de inconsciente e ao contrário, dado que estes são os seus dois polos: positivo e negativo. E absurdo admitir, porque um fato ou fenômeno entra na sua fase negativa, que ele deva cessar de existir. Evidentemente, trata-se de um erro de percepção, que a lógica descobre e elimina.

Com este conhecimento do fenômeno vou ao encontro da morte. Não se trata de fé ou de esperança, mas de convicção racional e de segurança positiva. A voz de tudo isso que existe me grita que nada pode ser anulado como verdadeira morte. Vejo-a, assim, avizinhar-se para me abrir as portas de uma vida maior. Não a sinto como negação, porém como uma mais potente afirmação. O seu verdadeiro conteúdo é: libertação. Restituirá à Terra tudo aquilo que ela me deu, inclusive o meu corpo dentro do qual fiz tão longa viagem. O que pertence à Terra é justo que fique aí. Mas o que pensei, desejei e fiz neste trajeto é meu e o levo comigo. Como o avizinhar-se da hora suprema, aproxima-se sempre mais a figura de Cristo, que me sustentou neste longo esforço. Sei que o verei na hora da morte, ao cumprir a minha missão, chancela final do meu trabalho, para tudo confiar nas Suas mãos. Ele apareceu no começo desta Obra. Reaparecerá no fim. Com Cristo se iniciou a narração deste volume e com Ele se fechará. Há pouco falei de Deus, agora falo de Cristo. Poderiam perguntar-me como entendo estes dois conceitos e que relação vejo entre os dois, se distantes ou unificados, isto é, se creio em Cristo só como homem, ou em Cristo-Deus. Não tenho dúvida alguma sobre a divindade de Cristo, fato lógico, racionalmente sustentável quando seja entendido no seu justo significado. Perante o homem, Cristo e Deus representam a mesma meta a alcançar, a mesma direção do caminho evolutivo, o mesmo ponto final deste com a solução do ciclo involutivo-evolutivo, o S. Neste sentido unifico os dois conceitos de Cristo e Deus. Mas os distingo enquanto entendo Deus como o Pai, o Criador, que permaneceu no centro do S, e Cristo como seu derivado, como diz a própria palavra filho, a saber, a criatura que aquele Criador gerou. Mas o unifica de novo o fato de que o Filho é constituído da mesma substância do Pai, de modo que Cristo é também Deus.

Ora, se Cristo é o Filho, o fruto da criação do Pai, o conceito de Cristo coincide com o de S, porque a criação do primeiro volta a entrar na do segundo. O nosso universo é tão imperfeito que seria loucura acreditar que ele tivesse saído das mãos de Deus como Sua obra direta. Assim, a primeira criação foi espiritual e perfeita, como é Deus, feita de puros espíritos extraídos exclusivamente da Sua substância, porque, além do Todo-Deus, nada podia existir. Deste modo, nasce a terceira pessoa da Trindade, o Filho ou S, sendo a primeira o Espírito ou pensamento, a segunda o Pai ou ação, a terceira o Filho ou a obra realizada. Eis que, na lógica da estrutura da Trindade e do processo criativo, Cristo não pode estar situado senão no S. O resultado da criação foi um só, que se pode chamar Filho, Cristo, Sistema.

Tudo isso é Deus, porque construído com a divina substância do Criador e dela é constituído. O S representa a substância do Pai, transformando-se, com a criação do indiferenciado, em organismo ou unidade coletiva, composta de muitos elementos, que formam aquele organismo, o S, do qual o Pai ficou como centro, como o nosso espírito está no cerne de nosso organismo. Se se pudesse fazer uma comparação demasiado grosseira, poder-se-ia dizer que, na encarnação de Cristo na Terra, sucedeu como se Deus tivesse deixado que uma célula do Seu corpo se destacasse Dele para fundir-se com a nossa carne e, assim, agir em nosso mundo.

Aqui desponta outra diferença. Enquanto os elementos do S, incluindo Cristo, que ficaram isentos da revolta e da queda, permaneceram na sua pureza originária, as criaturas de nosso universo caíram no polo oposto e se corromperam no AS. Eis o que nos distingue e nos separa de Cristo. Ele permaneceu verdadeiramente Deus, porque a substância do Pai que o constitui ficou íntegra como no momento da criação, idêntica àquela da qual derivou. É assim para os outros elementos do S. Também as referidas criaturas decaídas tiveram a mesma origem e foram feitas da mesma substância; esta, no entanto, ofuscou-se com a queda, e a divina centelha se aprisionou no ciclo involutivo-evolutivo, no processo do transformismo necessário para retornar purificada ao S.

Não obstante esta imensa distância que nos separa de Cristo, a que vai do S ao AS, há um fato que nos avizinha Dele: todas as criaturas, mesmo as decaídas, são filhas de Deus. Esta qualidade de origem não se pode cancelar. Então, se o ponto de partida do nascimento é igual para todos, na base da existência de todos os seres há uma fraternidade universal que liga em parentesco, como dentro de uma mesma família, as criaturas do S às do AS. Eis o fato que nos aproxima de Cristo. Assim, temos de um lado, no S, as criaturas sem mácula, que ficaram unidas a Deus, e, do outro, em nosso universo, ou AS, as criaturas culpadas e decaídas, separadas de Deus. Porém todas as criaturas saíram da mesma criação, ainda que se depois, num segundo tempo, tenha surgido a cisão entre as que permaneceram com Deus e as que se afastaram Dele.

Os cidadãos do S são, no fundo, irmãos dos do AS. Também Cristo é nosso irmão. É esta fraternidade que nos explica o que provocou e como foi possível a aproximação Cristo-humanidade. Foi assim que a presença ou imanência de Deus se pôde realizar de modo tangível em nosso mundo, como a descida no AS de um dos irmãos não decaídos. A sua função ou missão, como no caso de Cristo, consiste em descer nas várias humanidades dos decaídos, cada vez para um tipo diverso de trabalho, como seja de poder, de inteligência ou de amor, mas sempre para funcionar como ponte entre as criaturas decaídas e o Pai, mantendo, assim, o contato sensível e incitando à solução do separatismo com o regresso do S, através da evolução redentora. Eis como entendo o Cristo, como um grande irmão que nos salva, fazendo-nos voltar a subir ao S e reconduzindo-nos a Deus.

Falei de diversos tipos de trabalho. Isto é possível, porque, sendo o S um organismo, ele resulta composto de elementos especializados em várias funções complementares, integrando-se reciprocamente. É assim que, através das diversas criaturas do S, Deus pode realizar-se assumindo inúmeras formas de manifestação, nas diversas humanidades dos decaídos, empenhado com a evolução no caminho do retorno ao S. Para mim Cristo representa o ser ideal, o modelo que a evolução me apresenta e propõe que se realize no retorno ao S. Poderei dizer: é o meu tipo, como para outros indivíduos existem outros padrões, adaptados cada um ao próprio temperamento e especialização pessoal. Estes modelos não são abstrações fora da realidade. São criaturas de Deus que existem de verdade, mesmo que apenas espiritualmente, e são cidadãos do S.

O impulso evolutivo em direção ao S leva o indivíduo a avizinhar-se sempre mais do seu próprio paradigma. Isto até porque a evolução é um processo de unificação. A vida maior que nos espera não é mais a do eu separado, mas a do eu unificado. Transforma-se, então, a visão da vida e se opera como uma transfiguração. A medida fechada de nosso pequeno eu, para nós tão grande, dentro da qual vivemos, torna-se um tipo de existência restrita, como se fora um cárcere, isolada do pulsar imenso da vida toda do organismo universal. Quanto mais se evolui, tanto mais se sente que todos os seres são verdadeiramente irmãos. Em nosso baixo nível, as outras formas de vida são nossas inimigas, porque estamos do lado do AS, onde domina o egoísmo que divide e a luta entre rivais. Mas, em plano evolutivo mais alto, em direção ao S, prevalece a unificação, pelo que aquelas outras formas de vida são nossas amigas e nos ajudam a viver. E, quanto mais se sobe, no sentido da amplitude desta união em amor recíproco, tanto maior e mais bela se faz a vida. Quando se é lançado nesta direção, a morte vem a ser libertação do estágio inferior da vida terrena, de tipo antiunitário, libertação de uma existência de prisioneiros do separatismo. Entra-se, então, na vida maior que se espraia no Amor universal. Esta não é mais um viver como fragmento da humanidade despedaçada, mas representa o existir unificado como elementos conscientes da organicidade do todo.

Nestas pesquisas permanecemos no terreno positivo.  A evolução é um fato aceito. Que ela caminha em direção à espiritualidade é uma verdade amplamente demonstrada. O conceito de evolução implica no de vários planos biológicos e a possibilidade da existência de seres mais ou menos adiantados, situados nesses níveis. É lógico que quanto mais se sobe, tanto mais eles se tornam seres pensantes e que aumente o seu conhecimento em proporção ao seu grau de evolução.

Em nosso ambiente terrestre, é conhecida a telepatia. Não há razão para que tal fenômeno de transmissão do pensamento não se deva verificar também fora do restrito campo terreno no qual o vemos funcionar. Não se pode negar "a priori" a possibilidade de uma comunicação telepática entre seres pensantes situados em diversos planos de evolução.

Tal hipótese é corroborada pelo fato de que este processo se demonstra útil aos fins da evolução, que se aproveitaria da inteligência e conhecimento conquistados pelos mais avançados para colocá-los, —- com a finalidade de ensinamento e como guia de orientação, — no nível e à disposição dos menos avançados. Outra confirmação é que na Terra é conhecido — e historicamente tem funcionado — o fenômeno da intuição, da inspiração profética, tanto que delas derivou a revelação, acontecimento espiritual de tal importância que constitui as bases das nossas religiões, nas quais é Deus quem fala. Quando se diz que estas vozes descem do Alto, entende-se que provêm de seres situados em superiores planos de existência, de pleno acordo com a teoria da evolução. Este tipo de transmissão telepática, que aqui estamos observando a propósito da Obra, já existe, portanto, nos hábitos de nosso mundo espiritual. Assistimos finalmente ao fato de que a ciência está utilizando largamente tal sistema de transmissão por radiação, com a televisão, as transmissões de imagens da lua, o rádio etc. Mais tarde a transmissão do pensamento como energia radiante será fato positivamente averiguado.

Do conjunto destas constatações se deduz não ser absurdo pensar que a vida utilize também o meio de transmissão telepática para realizar, dessa forma, o fenômeno da evolução, para ela importantíssimo, com a técnica da descida dos ideais aqui examinada.

Foi neste sentido que falamos da Obra-centro, isto é, como meio de evolução e tentativa daquela descida de ideais. Mas, se quisermos ou não admitir as suas origens super-normais, permanecerá o fato positivo da existência desta Obra e das soluções que ela oferece para muitos problemas do conhecimento que até agora eram insolúveis. Este já é um resultado que a torna útil conforme os fins a que ela se propõe. Aqui desejamos esclarecer que por Obra-centro entendemos: centro apenas como sistema conceitual e espiritual, não o sendo, em sentido algum, o instrumento terreno que a compilou. Aliás, esta sua posição de nulidade perante o valor da Obra, a sua firme vontade de não se fazer chefe terreno de nenhum grupo humano e de seus interesses foram muitas vezes declarados (cfr. Vol. Profecias, "Gênese e Origem da Segunda Obra"), para que não pudessem surgir quaisquer dúvidas a este respeito. Tivemos de insistir neste conceito, porque esta superioridade, toda espiritual e impessoal da Obra, valorizada sobretudo por ser posta a serviço dos outros, foi muitas vezes entendida como uma afirmação de supremacia humana individual por parte do instrumento. Assim, ele foi condenado por alguns, que deram prova de não ter compreendido coisa alguma do que, efetivamente, estava acontecendo.

Infelizmente, cada um não tem outro meio para julgar, senão a forma mental que possui, conforme o seu nível evolutivo e dela é difícil sair. É natural: quem pensa de certa maneira vê tudo com sua ótica, mesmo que não corresponda de fato à realidade O que vemos não depende somente do objeto observado, mas dos olhos que usamos para observá-lo. Neste caso existe um centro de tipo espiritual em cujo campo de forças se puseram a girar elementos de sinal oposto. Mas os olhos comuns não veem as coisas espirituais senão enquanto revestidas de forma material. Neste caso tal forma era representada pelo instrumento humano daquele centro. Trocaram-no pelo centro, enquanto este era somente a Obra; confundiram-no com a ideia e começaram a circular em volta dele, como se ele, e não a ideia, fosse o centro, como se a veste fosse a pessoa, o tradutor fosse o autor, ou o meio de expressão constituísse o conceito expresso. Tínhamos, assim, uma situação completamente invertida. Outra coisa ainda: os elementos periféricos não podiam fazer, porque não tinham olhos para ver a ideia, mas somente a sua forma.

Assim aconteceu: o ponto em volta do qual se movimentaram não era um centro, mas pseudocentro. Como cidadãos do AS não podiam ver as coisas senão pelo avesso e procurar inverter o centro espiritual, concebendo-o como matéria, conforme a sua forma mental. Atribuíram-lhe as características do plano humano, como egoísmo, avidez de domínio e semelhantes. Eis a que erros se pode chegar julgando as coisas do espírito com a psicologia corrente. Assim, se deixou de observar o fenômeno principal de natureza espiritual, como também se deu mais atenção à parte menos importante, em detrimento do próprio fenômeno. Somente a uma parte de sua manifestação, e deste modo observada, foram atribuídas as características que eles estão habituados a perceber.

Trata-se de uma visão sem muita profundidade. Esboça-se. então, o movimento rotatório. Mas ele não é senão o desordenado amontoar das borboletas em torno da luz, da gente atraída pelo barulho, isto é, um agrupamento caótico, que não se organiza e estabiliza num sistema. Isto pode verificar-se somente ao redor de um verdadeiro centro por parte de elementos que tenham olhos para vê-lo e mente para compreendê-lo. Assim se explica este mal-entendido. Ele é natural no caso da descida dos ideais, porque se trata do abaixamento de um nível evolutivo superior até outro inferior. E o que está mais em baixo é incapaz de compreender o que se encontra mais em cima. O remédio é um só: ver a parte espiritual em lugar da material e pôr-se ordenadamente a girar à volta do verdadeiro centro no plano espiritual, em vez de o fazer desordenadamente em torno de um pseudocentro no plano material. Procurar, então, a potência no espírito e não nos meios humanos. Este é e segredo da força.

Da natureza dos elementos do fenômeno deriva outro mal-entendido, dado pela mesma incapacidade de compreender. Como alguns puderam ver na afirmação espiritual da Obra uma vontade de determinação terrena por parte do seu instrumento, assim a atual oferta da Obra pode ser entendida em sentido material e não espiritual, não como a dádiva de uma ideia para assimilar, a fim de melhorar o próprio tipo biológico, colocando-se evolutivamente mais no alto não como uma oferta espiritual, mas como uma cessão de propriedade e de direitos de exploração de uma ideia para extrair-lhe vantagens materiais: uma utilidade concreta. No entanto, na conferência fala-se de herdeiros espirituais e de oferta simbólica. Mesmo neste caso o mal-entendido pode ser completo, dependendo igualmente da diversa forma mental usada na maneira de julgar. Dada a natureza dos elementos em campo, não podia acontecer de outra forma. Aqui, não podemos senão fazer constatações, embora necessárias, para compreender o desenvolvimento do fenômeno e vivê-lo sob sua orientação, conhecendo-lhe o funcionamento e, deste modo, prever os seus futuros desenvolvimentos. Pode-se, neste caso, controlar experimentalmente o modo pelo qual se verifica o fenômeno da descida dos ideais.

Estamos no momento em que o míssil desce em direção à Terra, entra na atmosfera e se incendeia. Encontramo-nos na última fase do fenômeno, no plano humano, onde se trava a luta pela sucessão. Então, não há mais Cristo, mas o papado e o Vaticano, que lutam para conquistar e manter o poder; não existe mais o santo, mas a ordem religiosa, que em seu nome administra a vida de uma comunidade. Ao iniciador se substitui o grupo dos seguidores, que o utilizam para os seus próprios fins. Termina o trabalho no plano espiritual e em seu lugar aparece a administração, a burocracia, entrando-se na fase da autoridade, das leis e regulamentos, da adaptação à realidade material. A ideia materializa-se de forma concreta, com templos, obras, instituições etc. Porque agora desceu à Terra, ela deve tomar um corpo, mas como faz a alma em nosso organismo animal. Começa a exploração, a degradação, até que, pelo uso da ideia, se consome a pureza do seu impulso de origem; corrompe-se e torna-se inutilizável pela série das adaptações que a torceram, ficando agora sepultada sob as superestruturas humanas. Neste momento, desce ao mundo outra ideia para recomeçar desde o princípio, percorrendo o mesmo caminho, cumprindo-se a mesma função, e assim por diante, em ondas sucessivas, operando na humanidade uma transformação em sentido evolutivo.

Esta descida é como a queda de uma estrela luminosa que se projeta nas águas do oceano. O momento que aqui observamos é o dessa queda. À idéia se substitui o grupo que a representa. Este a incorpora, e ela passa a ser o grupo, que é o seu corpo humano. Esta é a primeira fase de sua realização na Terra, e nela agora nos encontramos no caso tomado em exame. Estamos no mundo, no polo oposto ao do ideal; estamos em baixo, onde reinam, em vez de obediência e ordem, a revolta e a desordem. Assim, a primeira necessidade que surge ao descer a este plano é formar e defender um centro de disciplina e de ordem. Para que seja possível um regime de liberdade, é necessário o estado de consciência e coordenação próprios níveis mais evoluídos. Num ambiente de insubordinação egocêntrica, a liberdade é anarquia, conduzindo à dispersão e à destruição. Em nosso planeta dada a sua natureza, surge subitamente a necessidade de impor a ordem com uma regra. E por isso que a cada passo encontramos leis que traçam as normas de conduta e se fazem valer por meio de sanções punitivas. Tendo em vista que o homem é naturalmente rebelde, levado a abusar de tudo, e preciso em primeiro lugar enquadrá-lo dentro dos limites exigidos pela ordem. Eis que, ao lado da lei, surge, subitamente, um seu sistema defensivo que lhe fecha as evasões e lhe garante a aplicação. Infelizmente, numa selva povoada de animais ferozes não se pode ir ao seu encontro de braços abertos para amá-los, mas faz-se mister estar armado e ameaça-los de morte, se não se quiser ser morto por eles. Esta é a lei de nosso meio, e a ela o ideal não pode deixar de se sujeitar, se quiser civilizá-lo.

   A descida de um ideal ao nosso plano inferior de vida constitui um retrocesso. Esse ideal deve ser fechado dentro dos estreitos horizontes de um mundo que nem sequer suspeita a existência de outros mais vastos, e cuja sapiência consiste em desfrutá-lo para fins terrenos, com a astúcia, que dele faz uma máscara para melhor enganar o próximo, assaltando-o para ser o vencedor. É com esta forma mental que o ideal se encontra constrangido a chocar-se. De fato, ele pretende iluminar e educar, mas se acha perante um mundo de rebeldes que lhe resistem, porque querem, ao contrário, impor o próprio eu. Eis porque o ideal, para não se destruir nem ficar prejudicado, deve armar-se de normas reguladoras que imponham a obediência através do meio de que dispõe o homem para melhor compreendê-lo. Nasce, assim, o inferno, a galera do espírito, semelhante àquela criada por nós, porque só assim o ideal civilizador pode sobreviver e funcionar em nosso inundo, onde a tendência é virá-lo pelo avesso para colocá-lo a seu serviço.

O ideal é um centro. Mas, para poder funcionar como tal em relação aos seus satélites, não pode deixar de levar em conta a natureza deles, que é a de um plano biológico inferior. Para que eles possam colocar-se na órbita daquele centro, é necessário um estímulo que os faça sentir-se no seu nível, impulso a eles adaptado e proporcionado. Aquilo que exige e mais apreciam é uma prova de força, porque para eles isto é o que mais vale e merece respeito. Este é o tipo de superioridade que eles compreendem, ou seja, não a inteligência ou a bondade, mas a imposição do domador. Quem não possui, ou não usa estes meios, para eles não é forte, não vale, portanto não pode ser centro. Eis como nas religiões nasceu a ideia de um Deus armado de vingança contra os rebeldes. Não existe outro modo para fazer-se compreender por involuídos. Quem não usa tais expedientes é um indivíduo bom, isto é, um fraco, porque um tipo bom não é forte, não reage infligindo penas que fazem valer a sua vontade. Então, ele é escarnecido, como aconteceu com Cristo, que não quis reagir.

Na Terra, sem sanção punitiva, não há poder nem autoridade.  Para que serve a bondade em nosso mundo de luta senão para que nos aproveitemos dela, a fim de explorar o bem e submetê-lo? Ai do indivíduo que, em um momento de cansaço confiante, abandona-se aos braços do próximo.  Encontrará, então, uma fileira de salvadores e libertadores que lhe retribuirão o abraço fraternal e amorosamente o espoliarão de tudo. A primeira coisa de que necessita um ideal ao descer à Terra é a sua defesa contra os assaltos da força da mentira, é a jaula da disciplina dentro da qual deve enquadrar direitos e deveres. O anjo, se quiser sobreviver em nosso mundo e nele trabalhar, deve induzir o homem a um regime de ordem, usando os meios à sua compreensão, isto é, os da Terra e não os do céu.

Apliquemos agora esses princípios gerais no caso particular de nosso protagonista. Hoje o autor terreno da Obra é velho, está terminando a sua missão e vai-se embora. Ofereceu ao mundo o fruto do seu trabalho. A Obra, por sua vez, se encontra em uma nova fase do seu caminho, diferente das precedentes, isto é, no momento em que o ideal desce à Terra e toma contato com um plano diverso do seu. Mas pela própria natureza do mundo, não se estranha que a oferta possa vir a ser entendida como um convite a dela se tomar posse, como uma simples aquisição em sentido material e não espiritual, podendo despertar uma cupidez bem terrena, como acontece quando surge uma herança, ou um lugar se torna vago e se abre a sucessão ao poder. É necessário imediatamente tudo definir e disciplinar, porque já não estamos no céu, mas na Terra, onde o mais urgente é estabelecer a ordem para evitar abusos.

Quem fez a Obra disse claramente que se tratava de uma oferta simbólica e de herdeiros espirituais, o que significa a dádiva de uma ideia e não uma cessão de negócios. Isto é evidente, porque os legítimos herdeiros neste sentido já existem. Este problema está, portanto, automaticamente, por lei, já resolvido. Depois, uma vez que a Obra não é uma mercadoria — e a sua oferta foi espiritual — querer colocar o problema no terreno econômico e comercial significa, por parte dos que acabaram de chegar, deslocar a questão. Quando se dedica um livro a alguém, ao destinatário não cumpre por isso apossar-se da edição para fazer dela um negócio.

Não podíamos deixar de nos encontrar, também neste caso, perante a tentativa habitual, acima explicada, de emborcamento que se verifica, sempre que um ideal desce à Terra. No entanto, tudo isso foi previsto, e a nossa atitude anterior, diametralmente oposta, previu esses fatos. Portanto, o que aconteceu hoje não é novidade, mas foi há muito tempo definido na Obra, dado que faz parte da sua orientação geral. Desde um dos primeiros volumes da Obra, Ascese Mística (cfr. cap. XIII - Segunda Parte - "Minha Posição") já tinham sido expostos estes princípios diretivos. Quem tiver dúvidas pode reler aquele trecho. Estávamos então apenas no início de todo o trabalho. Depois o livro foi condenado pelo Índex, tribunal hoje desaparecido. Naquele capítulo foi dito: "Nenhuma posse (...), nada que possa solicitar os baixos instintos e excitar a sempre demasiadamente rápida resposta dos inferiores instintos do homem comum; nenhum cheiro de dinheiro, que tanto atrai os ávidos e sórdidos mascarados (...). Esta é a minha garantia (...). Esta é a minha força em face do mundo".

Repetimos estas palavras, em 1955, na Introdução ao livro Profecias, acrescentando: "Desejo que se compreenda claro e sem equívoco o meu método, que é de nunca procurar dinheiro, de nunca pedi-lo, de nunca organizar propaganda, comissões etc., para recolher dinheiro. Quem o fizer em meu nome, fá-lo sem o meu consentimento, contra a minha vontade e a seu risco e perigo". O tema foi retomado na conferência "O Nosso Caminho" (1957), na qual se diz: (. . . .), "devemos fugir da dependência dos bens materiais, porque a sua tendência é conduzir a Obra pela via dos enganos e, assim, da falência (. . . .), as grandes coisas fazem-se sem dinheiro (. . .), os meios materiais estão colocados no último lugar da Obra  (. . . .), começa-se com uma grande propaganda e faz-se uma campanha para recolher fundos (. . . .), forma-se, assim, uma montanha de interesses individuais a quem tudo importa menos a Obra (. . . .), os que mais são atraídos pelo cheiro do dinheiro são os desonestos e os interesseiros (. . . .). Tudo o que fizemos com o nosso trabalho sem o barulho da propaganda, campanhas ou recolhimento de fundos". Por fim desenvolvemos amplamente este tema no volume: A Grande Batalha (1958).

Pode-se usar um regime de liberdade quando a disciplina é espontânea consequência de uma convicção de autocontrole. Só quando ela já existe interiormente, não é necessário que seja imposta do exterior. Mas, quando a disciplina interna não existe, a liberdade pode tornar-se abuso e por isso aquela disciplina deve ser invocada. Então, é necessária a exata definição dos direitos e deveres, e respectivas posições. Assim, não se pode admitir que os estranhos à Obra possam aproveitar-se da liberdade para substituir com as suas próprias finalidades, às da Obra e as dos seus legítimos herdeiros. Em primeiro lugar, seria preciso ter confiança nos novos elementos, a qual só se adquire dando-se prova de merecê-la.

Os atalhos para chegar mais rapidamente, sem fadiga, não constroem coisa alguma. É repetido e abusado nas religiões o método humano de se deslocarem as posições do plano espiritual para o econômico e político, transformando-o, assim, num meio de domínio. É antigo o processo de administrar em nome do dono, para acabar apossando-se da sua autoridade e meios. É velha a indústria do santo, glorificado pelas suas virtudes e martírio, e depois utilizado como bandeira com a qual se esconde o prosperar dos interesses de um grupo de seguidores. Fenômeno humano de todos os tempos e lugares. A isto pode servir o ideal quando desce à Terra. Parece que, num ambiente de luta, não possa acontecer de outra maneira. A culpa está no baixo nível evolutivo de nosso meio humano. Esse é ainda o método vigente. Aqui, mesmo se por este motivo tivermos de ir contra a corrente, se for preciso lutar para não seguir tal processo, lutaremos, porque isso poderia acontecer com a Obra. Quem quiser levar a sério o que é do céu não pode deixar de se encontrar fora do trilho sobre o qual caminham as coisas da Terra. Mas esta revolta contra o mundo, que se respira em cada página da Obra, é realmente a sua maior força, a força do céu, aquela que a fará vencer.

É  nesta fase do fenômeno que se inicia o calvário do idealista. Enquanto fazia o seu trabalho, ele vivia na embriaguez que lhe dava o contato com o seu mundo superior, para ele como a sua própria casa, onde podia viver conforme a sua natureza. Mas, terminado o trabalho, se não se apressar a morrer, deverá assistir à degradação do ideal, isto é, ao seu emborcamento no plano humano. Aparecem, então, os mercadores do templo. A crucificação de Cristo torna-se Estado pontifício, a pobreza de São Francisco transforma-se num convento que vale milhões. Esta é a técnica do fenômeno da descida dos ideais à Terra. Em geral o idealista já morreu e não é obrigado a ver tudo isso. Mas, se não tem essa sorte, ele deve suportar o tormento de ver assim tratado e a isto reduzido o fruto da sua vida. Nos honestos nasce, então, uma revolta, como a de Cristo, que perdoou aos seus crucificadores, mas não aos vendilhões do templo. É uma revolta que nasce irresistivelmente ao  ver assim tratadas as coisas sagradas.

Somos invadidos pela tristeza, quando, depois de tantos sonhos e esperanças, depois de tantos impulsos em direção ao Alto, constatamos esses resultados ao se tentar elevar também os outros. O que havia acontecido, por ocasião da primeira renúncia evangélica ao patrimônio terreno, com o voto de pobreza, repetia-se agora, nesta segunda doação do patrimônio espiritual, concluindo com o mesmo assalto e destruição. É duro estar sempre a oferecer e encontrar todas as vezes o mesmo tipo de homem, na sua mesma insaciável avidez. E, quanto mais se oferece, tanto mais verificamos que vêm ao nosso encontro as goelas devoradoras da voracidade humana. Pode-se dizer à vontade, na Terra, que se ama o próximo. É perigoso amá-lo de verdade. E quem isso tentar fá-lo-á com risco e perigo, porque a lei aqui é lutar para vencer e dominar. Será possível que se deva sempre suportar a condenação de viver entrincheirado em castelos cercados de egoísmo, armado contra todos? Será possível que, em nosso mundo, não se possa viver senão na amargura das portas fechadas como em uma prisão?

Eis que no país que eu amo já aconteceu que, na metade da Obra, ela foi dilacerada. A marca ficou. Agora, quando ela se conclui, novamente se tentou despedaçá-la, e esse vestígio permanecerá nestas páginas. Embora depois isso tenha sido impedido de realizar-se, é triste ver que a oferta haja sido assim interpretada por alguns e fosse tratada deste modo a coisa que mais se quer na terra e mais se ama. Já a nova juventude começou a fazer as contas com os métodos da velha geração e assim se sujeitou a um julgamento. Quantos pecados o homem mais civilizado do futuro não encontrará no mundo atual, que julga estar procedendo com consciência, de acordo com a própria moral! Como será denunciado este tratamento sofrido pelo idealista, culpado de pretender fazer progredir um pouco os seus semelhantes!  Compreender-se-à como também, em pleno século XX, tenha havido calvários e cruzes e como isso haja deixado a sociedade indiferente, como noutros tempos os suplícios deixavam apático o meio social de então.

Para poder oferecer, teve de ser reduzido à pobreza para poder continuar a produzir, teve de pedir esmola na contínua incerteza do amanhã e, apesar de tudo, realizando um grande trabalho sem compensação alguma. Depois ver o fruto de tudo isso a serviço de outros grupos, por estes repelidos, anteriormente, porque não utilizável, para em seguida, interessar-lhes muito, já que com a oferta surgira a possibilidade de se apossarem dele. Eis o que pode ser hoje, na Terra, o calvário de um idealista. Para poder publicar a Obra, sem nenhum lucro, que seria necessário para viver, primeiro tinha de vencer o assalto da cupidez dos editores, depois pedir ajuda por compaixão e dar-se por feliz por ter conseguido publicá-la, sem que a Obra fosse confiscada por aqueles grupos e subjugada aos seus interesses; eis a "via crucis" de quem luta para construir um mundo melhor. E triste ver que, neste mundo, não existem verdades, mas interesses, que elas valem em função destes e que são sustentadas sobretudo enquanto possam ser colocadas a serviço do grupo que as proclama. O calvário do idealista consiste em ver o ideal invertido, a verdadeira finalidade reduzida pelo meio para alcançar o objetivo oposto; o anjo lançado no pântano de cabeça para baixo. Ter lutado toda a vida para afirmar um ideal e encontrar apenas indiferença e exploração! Ser sincero e não poder falar de Cristo sem ter de se misturar e se ver confundido com uma multidão de exploradores falando em seu nome! Oferecer o fruto do próprio tormento criativo e vê-lo esmagado! Para a própria paixão da ascese não encontrar outra resposta senão o cálculo utilitário! Querer trabalhar para o templo de Deus e lá encontrar os mercadores! Detestar o dinheiro e chocar-se com indivíduos que andam em busca dele! Ver Cristo enganado a cada passo, o seu sacrifício emborcado, colocado a serviço de interesses humanos, o seu pensamento desfigurado, o seu amor dilacerado pelos seus representantes e seguidores! Eis o tormento do homem espiritual.

Será sempre necessário reduzir o ideal a uma religião-jaula, na qual os seguidores estejam submetidos à força da disciplina, dada pela psicologia da sua utilidade ou dano, ao sistema policial de sanções, seja prêmio, seja pena? Mas, então, onde está a religião espontânea e consciente à qual se possa aderir livre e sinceramente? Pobre espírito reduzido a tão pouco e preso em cadeias! Que prisão é esta! Mas como permitir a liberdade a seres que não têm consciência da verdade e sentido natural de ordem e disciplina? Chegou-se ao ponto de ver o grande amor de Cristo reduzido e não podendo ser aplicado na Terra senão na forma de terror do inferno, e a bondade de Deus transformada num tribunal de onde emanavam apenas condenações. Pobre Cristo! Por maior que seja a Sua felicidade na glória dos céus, como poderá Ele não se entristecer ao ver quão pouco ajudou o seu martírio, ou que a sua paixão e sacrifício deixaram escancaradas as portas do inferno? Ou como Deus, não obstante a descida do Filho, tenha sido impotente para as fechar? Para que serve a religião neste mundo se, como sucede com todas as leis, é reduzida à arte de se lhe escapar para não ser cumprida?

Eis que o exemplo nos vem do caso maior. Como se pode pretender que, num caso muito menor, como é o da Obra, não se repita a mesma lei que regula o fenômeno da descida dos ideais? Esta é a roupagem que devem vestir quando vêm ao mundo, este é o tipo de leis a que eles devem sujeitar-se. Então, a liberdade deve tornar-se obrigação, a convicção ser substituída pelo cálculo, a adesão espontânea reduzir-se a sistema policialesco, o Amor precipitar-se numa prisão. Mas compreende-se que isto seja natural, quando se sabe que a descida dos ideais para eles significa, como se disse, um retrocesso num plano de vida inferior, uma degradação biológica, o que implica que eles sejam sujeitos a um processo de corrupção. Tudo isso faz parte do fenômeno e envolve também o idealista, que o incorpora e o vive. Isto constitui o seu sacrifício necessário para que, através dele, a animalidade humana possa entrar em contato com algo superior e assim progredir. Eis o que custa aos mais adiantados a ascensão dos menos avançados, ao evoluído, o aperfeiçoamento do involuído. Este é o escopo e o sonho do idealista e não a glória do mundo, a qual, logo que este emerge, lhe é invejada, julgando que ele se quisesse fazer chefe de grupo para se tornar poderoso e comandar. E, se ele declara quanto seja absurda tal atitude, poucos acreditam, imaginando tratar-se de um modo de esconder as verdadeiras intenções, assim a comum forma mental está longe de conceber a vida daquela maneira.

Mas deverá tudo parar neste ponto e, após tão longo caminho, não se resolver com uma conclusão mais digna? Não é possível que a negatividade do ambiente ao qual a semente desceu tenha o poder de vencer a positividade de que esta é constituída. A parte que aguarda o instrumento, enquanto assiste ao desenvolvimento do fenômeno, envolvido na lei deste, que quer o seu sacrifício (Cristo ensina) esta parte é só uma: O sofrimento! Este é a sua contribuição. O fenômeno, enquanto movimento, não termina aí, porque, sendo feito de constante transformismo, continua a desenvolver-se. Por meio do esforço do instrumento uma semente desceu à Terra e aí jaz viva, como um concentrado de energia explosiva trazida consigo de planos superiores, energia que ela contém fechada em si mesma e que quer irradiar ao novo ambiente. A semente é uma força. Carregada de dinamismo criador, ela desceu ao terreno que a acolheu para que pudesse tornar-se árvore. Esta é a vontade da semente. E ela está carregada da potência e sapiência necessárias para pô-la em movimento. Entretanto, está escondida no terreno e espera em silêncio. Na superfície passam nevascas e tempestades, calor e frio, chuvas e ventos A semente silencia e espera que chegue a sua hora. Ninguém a vê  Assim ninguém se aproxima, e a voracidade do próximo não perturba o seu trabalho interior. Liquidado o instrumento, — que por ser um homem, dá aos seus semelhantes a ilusão de ser o expoente principal, —  no exterior não fica mais nada. No entanto, aquilo que não se vê trabalhou com a íntima e secreta atividade com que a vida costuma operar e com a qual ela gera as suas formas externas.

   Então, quando o idealista tiver cumprido a sua função e morrido quando todos os assaltos contra o ideal se esgotarem — que. na realidade, foram resolvidos somente com dano para aqueles sobre os quais recaíram — quando tudo parecer já sepultado no passado, então, numa manhã de primavera, no momento azado, despontará do segredo da terra um broto que começara a crescer. Neste instante, a onda do fenômeno, depois de ter sido obrigada a imergir na Terra, começa a subir em direção ao Alto, seguindo a sua natureza ascensional.  A positividade do princípio genético que se transfundiu na semente toma a dianteira sobre a negatividade do plano inferior ao qual aquele princípio desceu e nele atua como impulso de correção, arrastando consigo para o Alto — e assim redimindo — os elementos que encontrou de tipo AS. Deste modo, a semente cresce sempre mais e o ideal cumpre a sua função. A semente por fim torna-se árvore e produz os seus frutos. Realiza-se todo o fenômeno e a finalidade para a qual ele nasceu é alcançada; o seu desenvolvimento completou-se com a realização do plano preestabelecido, segundo o qual, desde o início, tudo aconteceu.

Vê-se, então, que toda a tentativa de destruição do ideal caminhou no vazio e que ele soube superar todos os obstáculos. Isto, de resto, é natural que suceda, porque é consequência da sua natureza de tipo S, o que fatalmente o torna destinado a vencer tudo aquilo que é inferior, modelo AS. O mecanismo da evolução é tão maravilhosamente concebido que, apesar dos obstáculos, tudo termina bem. Estes contribuem para isso, realizando apenas a necessária função de resistência. É assim que o mal, em última análise, trabalha a serviço do bem. Profunda verdade que Goethe faz Mefistófeles enunciar, quando afirma: "Eu sou o espírito que procura sempre o mal e que produz o bem”. Isto pode parecer uma peça de que Deus prega a Satanás, mas, na realidade, é a partida que Satanás, dada a sua natureza emborcada, por ele próprio desejada, não pode deixar de pregar a si mesmo.

Não obstante todas as resistências, é a vida que vence a morte, o espírito que vence a matéria, o S que por fim vence o AS. Isto porque só Deus é o senhor de todos os fenômenos, conduzindo-os para onde quer. Ele é o último termo que todos devem alcançar, porque são feitos para se resolverem Nele, que é o supremo e definitivo vencedor de tudo.

No Capítulo "Gênese e Significado da Obra", tínhamos visto de relance que o fenômeno se encontra na base daquela gênese, concebido como um caso de comunicação telepática consciente entre uma fonte de pensamento ou centro irradiante e um correspondente instrumento humano, receptivo e colaborador. Acasalamento semelhante ao de pai-mãe, do qual nasceu um filho: a Obra, que cresceu depois com a sua colaboração. Tratamos deste caso inspirativo no final do livro O Sistema e em vários outros pontos da Obra. Mas não bastam estas referências para esgotar o assunto e mostrar-nos toda a arquitetura do fenômeno. É por isso que neste capítulo voltamos a observá-lo para dar-lhe uma completa e conclusiva interpretação, somente possível agora que estamos chegando à última fase do seu contínuo desenvolvimento, no momento em que a Obra chega ao fim e, com o seu trabalho, termina a vida do instrumento

De fato, não se trata de um fenômeno estático, porque ele se foi transformando, enriquecendo-se e aperfeiçoando-se pouco a pouco. É assim que de vários pontos da Obra foram dadas interpretações correspondentes ao grau de desenvolvimento alcançado pelo referido fenômeno, no momento em que ele era tomado em exame. A sua tendência foi tornar-se de receptivo e passivo, na sua forma inicial, em cada vez mais ativo e consciente, fato devido ao incessante contato do instrumento com a fonte, levando-o a educá-lo sempre mais para viver em estado de união dada pela completa sintonização de pensamento. Desta maneira o fenômeno teve um duplo significado: produzir a Obra e fazer evoluir o instrumento. Dois resultados agora alcançados em cerca de quarenta anos de ininterrupto funcionamento.

Observemos, portanto, o caso não só do ponto de vista espiritual, mas também à luz da moderna Psicanálise e Parapsicologia. Dado que, em nosso caso, trata-se também de um fenômeno de sublimação espiritual, comecemos por analisá-lo segundo os conceitos por nós sustentados e confirmados pelo Dr. Roberto Assagioli, do Instituto de Psicossíntese de Florença, Itália. Ele, mais do que outros especializados em Psicanálise, viu e pôs em evidência o aspecto sublimação das energias biopsíquicas, quer sexuais, quer combativas, tomando em consideração a zona superior do ser, aquela que neste caso mais nos interessa, isto é, a do inconsciente superior ou superconsciente. Esta parte do campo psicológico começa hoje a ser objeto de pesquisas científicas (Psicologia do alto). Procura-se, assim, penetrar no mistério do inconsciente levando em conta os seus valores superiores, ou seja, a parte que, em nosso caso, é a mais importante, desenvolvendo-se o fenômeno no superconsciente; enquanto a Psicanálise corrente toma em exame sobretudo o inconsciente inferior, que constitui a parte mais baixa do ser humano

A teoria do superconsciente foi já por nós traçada no volume Ascese Mística, Cap. XIX: "O Subconsciente", e Cap. XX: "O Superconsciente". Assagioli, no seu livro A Psicossíntese (Florença, 1966), como na edição inglesa Psychosynthesis (New York, 1965), expõe a teoria mais detalhadamente, como segue.

Num esquema gráfico ele mostra que os elementos e funções da psique são constituídos por

1) uma zona mais baixa ou inconsciente inferior, comumente dito o subconsciente.

2) uma zona mediana ou inconsciente médio, que inclui no seu meio o normal campo de consciência, ou consciência individual, em cujo centro está situado o Eu consciente ou Ego.

3) uma parte mais alta ou inconsciente superior, que chamamos superconsciente, em cima da qual brilha o Eu superior.

Usaremos neste capítulo os termos subconsciente e superconsciente no sentido que lhes é dado pelo uso comum, recordando, no entanto, que eles não significam um consciente, mas um inconsciente inferior ou superior, dado que a humana zona de consciência é limitada e está situada à altura e no campo do inconsciente médio.

À volta deste organismo psíquico assim individualizado se expande a atmosfera do inconsciente coletivo ou mundo psíquico, meta individual.

A nossa concepção em 1939 foi expressa no volume Ascese Mística, com as seguintes palavras (Cap. XX, "O Superconsciente"): "A consciência humana divide-se em duas partes: o consciente e o inconsciente. O primeiro é a consciência conhecida, normal, racional, prática que todos conhecem. O segundo se compõe de duas zonas: o subconsciente, que pertence ao passado, e o superconsciente, que pertence ao futuro (. . . .). O subconsciente contém e resume todo o passado e o leva ao limiar da consciência; o superconsciente contém em embrião todo o futuro, que está à espera de desenvolvimento".

Como se vê, a visão da estrutura do organismo psíquico nos seus pontos fundamentais é a mesma. Nós havíamos antes visto no seu movimento evolutivo, que tende, através da experiência da vida, a deslocar continuamente para o Alto, isto é, para a zona do superconsciente, e a afastar sempre mais do baixo, ou seja, da zona do subconsciente, a parte média, onde está situado o campo da consciência com o centro EU consciente ou Ego.

Segundo a nossa visão, o esquema de Assagioli não é mais estático, como um edifício, mas torna-se uma cadeia de elementos em ascensão, envolvidos num transformismo evolutivo que vai do AS ao S e aponta em direção a Deus. Assagioli quis ficar, como médico, no terreno positivo-psicanalítico, com finalidades terapêuticas, não podendo, portanto, divagar em tão vasto terreno filosófico. Mas conforta-nos a confirmação, por parte de tão ilustre cientista, de nossa teoria esboçada de passagem e que foi controlada, através dos seus escritos, durante mais de quarenta anos de experiência.

Podemos, pois, ter uma distinção não só estrutural mas também dinâmica, o que nos permite traçar os três planos nos quais a personalidade humana pode funcionar e também os que ela, segundo esquema preestabelecido, deve atravessar na sua evolução. Nesta, então, o involuído encontra-se situado no primeiro grau; o tipo médio normal, no segundo; o evoluído, no terceiro. Eles mostram de fato as seguintes características: 1) o involuído, no nível subconsciente, manifesta-se no campo da matéria como corpo e sentidos; 2) o médio normal, no plano de consciência média, apresenta-se no terreno da energia como vontade e ação; 3) o evoluído, no âmbito superconsciente, é representado na extensão espírito como intelecto e pensamento.

E assim que temos as seguintes posições:

1) O involuído é instintivo, não controlado pela razão, impulsivo, emotivo, sugestionável, receptivo, registrador de impressões e experiências.

2) O médio normal não é só dirigido pelos apetites, não é automaticamente movido por atrações e repulsões em função de alegria ou dor; ele também raciocina, calcula, prevê, dirige, organiza, atua. Todavia, muitas vezes, é usado como instrumento colocado a serviço do primeiro termo do qual realiza os impulsos. Ele é o meio realizador, o da ação.  Pode, excepcionalmente3 seguir os impulsos do terceiro termo, fazendo-se dirigir pelo superconsciente em vez do subconsciente.

3) o evoluído, no ápice da escala, por visão interior dos princípios diretivos, possuindo o sentido da orientação, é levado a dominar os outros dois termos para fazê-los avançar, procurando superar o subconsciente instintivo, dirigir o consciente racional, colocando tudo em marcha no caminho da evolução, reduzido o corpo —    animal —, transformado em matéria, e a vontade — ação — em meio para chegar a um plano de existência superior. Neste terceiro nível é o anjo que se quer substituir ao animal.

Entre estes dois extremos há luta: o primeiro para eliminar o segundo, este para não se deixar destruir. O grau de evolução é assinalado pela medida em que o anjo consegue substituir o animal. É natural que o involuído gravite mais em direção ao AS, o evoluído ao S e que o conteúdo e o fim de suas vidas sejam o oposto um do outro. O primeiro vive em função da Terra, o segundo, do céu; duas concepções contrárias que vemos existir em nosso mundo e que podemos explicar.

Colocada assim a questão e explicado o papel do superconsciente, bem mais interessante no caso parapsicológico, aqui tomado em exame, é o fenômeno inspirativo, e nele concentremos a nossa atenção. O mesmo Assagioli nos adverte de que o Eu superior não é uma simples "função transcendental", mas uma realidade psico-espiritual, da qual se pode ter uma experiência consciente. Ele admite também que, entre as várias áreas ou campos, possam verificar-se — e, na realidade, continuamente acontece — passagens e trocas de "continentes psíquicos" entre si. Aceita que elementos e funções que têm sede no superconsciente possam descer no terreno da consciência, como as instituições, as inspirações, as experiências religiosas e místicas, e que tais fenômenos sejam fatos psíquicos reais, por isso susceptíveis de observação e experiência, com método científico.

Podemos, deste modo, chegar à psicanálise do super-normal, estudar como ele funciona, como fenômeno e realidade objetiva. Podemos usar a Psicanálise mesmo no campo da Parapsicologia, isto é, dos mais altos estados de consciência no nível espiritual, ou seja, podemos ter uma Psicanálise levada do terreno do subconsciente ao do superconsciente. É por essas novas vias que chegaremos à explicação do fenômeno que há tantos anos estou vivendo e ao qual devo a produção da Obra, dele me dando uma interpretação mais exata e positiva sem ser a do simples fenômeno mediúnico, enquanto permite fazer a psicanálise deste caso parapsicológico. É meu dever investigá-lo sempre mais a fundo para compreendê-lo cada vez melhor a estrutura e o seu significado.

Mas já nos orienta em nossa pesquisa, esta distinção entre consciente e superconsciente e o conceito de uma comunicação entre eles: os dois diversos planos de evolução ou níveis de consciência. Adverte-nos Assagioli de que a intuição não caminha da parte ao todo, como faz a mente racional analítica, mas abraça diretamente um todo em síntese. Isto corresponde ao meu sistema de conceber as ideias. Não o alcanço através de uma subida do particular ao universal, à força de lógica e raciocínio, mas subitamente levado ao resultado final, como rápida visão de uma verdade conclusiva que explica decisivamente afirmando, à guisa do total de uma operação já concluída, mas tendo lugar fora do consciente.

Continua Assagioli dizendo que há fatos e funções de tipo superconsciente, em geral excluídos do campo da consciência, que algumas vezes realizam uma espontânea, inesperada irrupção no campo da consciência, paralela, mas em sentido inverso à que, no mesmo terreno, emergindo do subconsciente, gera forças e impulsos emocionais ou instintivos. Ele explica que dos planos do superconsciente o material chega já confeccionado, como algo de novo, sem relação com precedentes experiências que possam tê-lo preparado. Parece que a transmissão se realiza melhor quando o consciente é tomado de improviso, de porta aberta, não defendido por poderes inibitórios ou pela tensão da espera. Parece tratar-se de energia de mais alta frequência do que do inconsciente médio ou inferior. De outra fonte leio ter sido encontrado no ser humano duas diversas voltagens de eletricidade: uma mais baixa nos tecidos do corpo e outra mais alta no cérebro. Assim, o ato de pensar implicaria uma atividade elétrica de voltagem superior à das forças vitais.

Assagioli depois nos diz que a intuição é um meio de conhecimento superior à inteligência. A mente normal está aderente à realidade exterior, sensória. É feita para funcionar na periferia do mundo fenomênico. Para chegar aos conceitos diretores centrais, ela deve esforçadamente subir, primeiro observando o terreno por análise, depois, levantada sobre eles, tentar hipóteses, em seguida teorias parciais, depois sempre mais vastas e sintéticas. Caminho lento, como de um cego que inspeciona a estrada. Com tal forma mental, parece que as últimas conclusões sejam inalcançáveis. Ela se destina a fazer-nos conhecer sobretudo os caracteres sensíveis da realidade com o objetivo de utilização prática, enquanto a intuição faz penetrar na íntima natureza dessa realidade. Deste modo, o método intuitivo pode alcançar até onde não vai o método racional. O primeiro funciona não por análise, mas por síntese, isto é, por rápidos lampejos que iluminam, à guisa de instantânea luz vivíssima. Uma característica das intuições é que elas são fugidias, uma vibração de luz, não obstante muito vigorosas no momento em que penetram no campo da consciência. É necessário, portanto, apressar-se a registrá-las na mente, para depois analisá-las e submetê-las a controle experimental. No meu caso tomei nota delas sempre por escrito, porque ideias e soluções chegam nos momentos mais impensados como conclusão de um trabalho que se realiza no inconsciente, posto em movimento por uma colocação de problemas em busca de resolução. Eis que a experiência me confirma a teoria de Assagioli.

Podemos obter uma concepção do fenômeno intuitivo mais completa do que o apresentando sob o aspecto mediúnico, isto é. de recepção passiva de transmissões provenientes de uma entidade espiritual. O fenômeno é mais complexo e rico de elementos. O contato é ativo e consciente e não somente de tipo conceitual. O pensamento que nos invade em estado inspirativo é profundo, está no íntimo das coisas e dos fenômenos, não em posição estática, mas em incessante dinamismo, não só dirigindo tudo, mas também potencializando o funcionamento. Assim, aquele pensamento não aparece só como conceito, mas é sentido também como vida continuamente operante, revestido de energia e de forças em ação. Isto porque ele, ao mesmo tempo, é a ideia e a sua realização fundidas numa só. Outra das suas características fundamentais é ser positivo, de tipo S, isto é, construtivo, benéfico, saneador do mal, corretivo dos erros e desvios, sempre levado a dirigir o transformismo em sentido vital, em direção a melhores soluções. Esse pensamento é também uma força viva, protetora, que existe em nós para nos salvar e levar-nos sempre mais para o alto. Percebê-lo por intuição, no fundo, significa sentir a presença de Deus em nós mesmos e em todas as coisas. É esta presença que se pode chamar também S no AS e que, ininterruptamente, alimenta a vida (S), fazendo-a vencer contra a morte (AS), recuperando os tecidos lesados e saneando as doenças. Ela é a voz da consciência que nos aconselha o bem, é a força que faz nascer e crescer as formas e impulsiona a evolução para a frente; é a voz de Deus que nos chama para que se suba até Ele.

Então, a inspiração não é mais feita só de conceitos, mas de uma presença viva e vivificante na qual  eles se personificam como emanações de um ser que se torna nosso companheiro e amigo. Sentimo-lo junto a nós, pondo-se a trabalhar conosco na Obra para realizar o melhor labor da vida. Ele se torna um fiel colaborador, o fio condutor de nosso destino, o modelo ideal a alcançar, a meta de existência. Isto é o que significa sentir a presença de Deus. Ela não é só conceito-guia, mas também força-ação. É alcançada não procurando agarrá-la para apossar-nos dela, como se usa para as coisas da Terra. Estes são os métodos invertidos do AS. Ela se atinge colocando-nos em estado de calma e confiança, sintonizando-nos para melhorarmos, em posição de humildade e bondade, requintando-nos até percebermos como um sentido interno o mundo do espírito. Estes são os métodos do S, que conduzem a Deus.

Assagioli insiste no aspecto da sublimação dos impulsos movidos pelas forças emergentes dos planos inferiores. Ora, em nosso caso, não há só o fato da recepção conceitual, mas e necessário ter em conta que esta se verifica através de uma comunicação que implica e estabelece um contato entre o inconsciente médio e o superior. Realiza-se; assim, com a repetição, uma descida habitual do superconsciente no consciente, que lhe vai absorvendo e assimilando o conteúdo, produzindo uma transformação evolutiva, uma catarse ascensional da personalidade. Como o citado autor afirma, a sublimação é um processo natural, pelo que, muitas vezes, como em nosso caso, ela é espontânea e fatal.  Então, aqui mediunidade inspirativa significa também um processo de ascese espiritual. Em suma, o uso constante do estado inspirativo, como aconteceu na composição da Obra, isto é, um contínuo contato com o superconsciente, habituado a viver conscientemente naquele plano, o que não poderá deixar de transformar em sentido evolutivo a normal consciência do indivíduo, tornando-o assim apto a continuar a sua vida futura num nível mais alto. Resultado imenso no qual, como já referimos, realiza-se algo mais do que uma Obra, ou seja, um destino, de modo que os dois fatos são estreitamente conexos. Poder-se-á compreender a que consequências levará, quando se passa uma existência vivendo tão frequentemente no plano do superconsciente, isto é, superior àquele em que o indivíduo teria vivido em condições normais.

Tal sublimação é possível enquanto se baseia numa fundamental propriedade das energias biológicas e psicológicas, consistente na possibilidade da sua transformação. Ela existe em todas as formas de energia.  Freud diz (Weber, Psycho-analyse, Leipzig, 1910): "Os elementos do instinto sexual são caracterizados por uma capacidade de sublimação, se se troca a finalidade sexual por outra de gênero diferente e socialmente mais digna. À soma das energias ganha assim para a nossa produção psicológica devemos provavelmente os mais altos resultados de nossa cultura".

O próprio Assagioli estuda o processo de transformação e sublimação das energias sexuais, das combativas e das psíquicas. Estes são, de fato, os fundamentais impulsos do ser humano, isto no plano normal: sexo (mulher) para a reprodução, agressividade (macho) na luta pela sobrevivência; no âmbito super-normal, a espiritualidade (super-homem) para realizar a evolução. Trata-se., neste último caso, de uma transmutação em sentido vertical, isto é, evolutivo, interior substancial, de tipo biológico. Assim, o amor pode dirigir-se para seres mais altos, como Cristo e Deus mesmo, que se tornam um modelo ideal de que nós nos podemos avizinhar sempre mais, funcionando como polo positivo masculino, mais potente, porque mais avançado em sentido positivo na direção do S, polo de atração com respeito ao biótipo normal, que relativamente a ele é negativo feminino, mais débil, porque mais submerso na negatividade do AS. Estes são os dois extremos de tal fenômeno de transformação.

Não se creia, no entanto, que o misticismo seja um simples sucedâneo ou derivado do sexo, a saber, que para amadurecerem tal sentido baste uma compreensão daquele instinto. As transformações biológicas não se improvisam. E, se o indivíduo não for maduro para realizar essa passagem ao nível superior, se ele não começou a despertar no superconsciente, não haverá compressão que possa despertá-lo e impulsioná-lo ao esforço de superação. Produzir-se-á, ao contrário, uma contorção do instinto, mesmo que seja coberto de pseudomisticismo. Cada tipo de força pertence a um dado nível biológico. As energias que saem de baixo podem fornecer vitalidade e calor como matéria-prima para o desenvolvimento do fenômeno, mas não determiná-lo, porque são de outro tipo, inadaptado a construir formas de vida mais altas. O desenvolvimento interior pode utilizar estas energias, mas por si sós elas não são suficientes para realizá-lo. O agente transformador, dinamizante do fenômeno evolutivo, está no polo superior, é positivo do lado do S. Irradia e atrai porque que a elevação do inferior na direção do superior. Os impulsos que saem de baixo atraem em sentido de retrocesso, porque provêm do lado do AS. É certo que para realizar o fenômeno da sublimação há catalisadores semelhantes aos químicos, que com à sua presença favorecem o precipitar da combinação. Mas, em cada caso, o elemento básico determinante é a maturação evolutiva do indivíduo, alcançada por ter vivido e assimilado as experiências necessárias. E isto não em sentido genérico de provas iguais para todos, mas específico, isto é, segundo a natureza do indivíduo, que como tal deve aperfeiçoar-se, conservando o seu tipo de personalidade.

Quando se chegou a esta maturação, o fenômeno da sublimação verifica-se espontâneo e fatal, enquanto, quando ela falta, o subconsciente resiste por inércia para ficar no seu nível, ou reage para não se deslocar em direção a um plano mais alto, que não é o seu. É assim que, em vez da sublimação, pode-se obter a contorção no sucedâneo, reduzindo-a a um ato de orgulho como convicção de superioridade perante os outros o que não é superação, mas substituição de um baixo impulso por outro equivalente. É necessário ter em conta que não é fácil educar o subconsciente, forte de resistência e hábil nas escapatórias, fixado em posições estratificadas num longo passado. Em suma, o fenômeno da sublimação não se improvisa e, muito menos por imposição de métodos e práticas exteriores, aplicadas a qualquer pessoa do exterior, como um remédio qualquer. Para o involuído pode tratar-se de um inconcebível. As qualidades da personalidade são lentamente construídas, trabalhando na profundidade para realizar o maior fenômeno da vida, que é a transformação evolutiva.

Tais considerações, em princípio, mostram-nos quando o meu caso de parapsicologia é mais complexo do que quando foi definido simplesmente como mediunidade inspirativa, ativa e consciente. A este respeito já nos referimos no Cap. XIX: "Gênese e Significado da Obra" - Os perigos de entregar-se, passivamente, perdendo consciência, a qualquer entidade espiritual, Assagioli confirma:  “O abrir-se sem sapiente discriminação e vigilância aos influxos psíquicos que procuram penetrar em nós seria como deixar aberta a porta de nossa casa a qualquer um que nela quisesse entrar. É fácil imaginar como possam insinuar-se facilmente hóspedes pouco desejáveis... Não nos deixemos, portanto, atrair pelo fascínio do desconhecido, excitar pela natural curiosidade suscitada por aqueles fenômenos, deixando que eles sejam indagados por aqueles que o estudam de modo sério e científico, tomando para si e para os outros as necessárias precauções, ou correndo conscientemente os riscos daquelas experiências... É perigoso penetrar diretamente naquelas religiões, desconhecidas e pouco seguras”.

É  por isso que, no meu caso, é excluída a mediunidade de portas abertas, e a comunicação é canalizada num só sentido, em direção a uma só e bem definida fonte espiritual. A interpretação mediúnica do fenômeno, entendida dentro desses limites, não contrasta com a compreensão psicanalítica da comunicação com o superconsciente, que é justamente o plano biológico superior no qual existem as mais altas correntes de pensamento (noúres) que podem ser concebidas e mesmo personificadas como entidade ou centro conceitual transmissor. Neste caso, de fato, o sujeito fica completamente desperto e funciona não como instrumento passivo, mas num estado ativo e consciente, o que é, a um tempo, captar e receber um contato e um colóquio, uma colaboração com troca de atividade diversa e complementar.

A simples hipótese mediúnica não é mais suficiente para dar-nos uma exaustiva explicação deste caso, que é mais complexo, concorrendo com ele outros elementos. O instrumento não é cego, nem passivo; ele não recebe, mas capta; o contato com a fonte inspirativa sucede em perfeita consciência; o trabalho que se realiza é uma colaboração entre dois elementos complementares, cada um dos quais cumpre a sua específica função. Segue-se que o fenômeno se verifica por uma aproximação dos dois termos, pelo que, se o superior para avizinhar-se do inferior em sentido evolutivo deve descer, este último para aproximar-se do primeiro deve evolutivamente subir. Em consequência, isso significa funcionar mentalmente desperto no superconsciente que, neste caso, não é, como normalmente sucede, um inconsciente, mas um consciente superior. Eis já uma imensa diferença com a comum mediunidade, na qual o estado de inconsciência leva antes a fazer funcionar o subconsciente em vez do superconsciente, podendo, portanto, representar uma função involutiva em vez de evolutiva.

Na comum mediunidade a portas abertas, há, pois, o fato de que o estado de inconsciência e passividade permite toda e qualquer promiscuidade de relações, o que deixa o indivíduo indefeso, exposto a qualquer contato, mesmo de tipo involuído. Em nosso caso, uma mediunidade a portas fechadas, em estado ativo e consciente, não permite tal mistura e intromissão de estranhos no canal, que fica defendido, de modo que o contato será feito só em direção ascensional. Então, ele se realiza em função de duas finalidades precisas que alcança: a composição de uma Obra para o bem da humanidade e a sublimação do instrumento, levando-o a viver num plano evolutivo superior. Em nosso caso, o fenômeno acompanha toda a vida do autor e faz parte integrante do desenvolvimento do seu destino; realiza-se em função da lei fundamental da vida, que é evoluir e ajudar a progredir. Em suma, ele tem raízes tão profundas que tocam as primeiras razões da existência, isto é, a ascensão do ser do AS para o S.

É certo que também, neste caso, pode-se falar de entidade transmissora; ela pode ser individualizada, não segundo o conceito que da personalidade se tem em nosso mundo, e sim como dado tipo de vibração e certa ordem de sentimentos e de ideias. Então, por entidade se entende só uma corrente de pensamento com que o instrumento se harmoniza, vive sintonizado e com que, em consequência, normalmente se comunica por via telepática, porque, assimilado o novo tipo de existência e forma mental, vive em uníssono com a individualidade transmissora. Assim, é lógico que, em tais planos mais altos, esta não tenha nome, ao contrário do que ocorre em geral com os desencarnados que aparecem nas sessões mediúnicas. Em nosso caso — e esta é a sua característica mais importante — o fenômeno acontece arrastando o instrumento a um mais alto nível evolutivo no superconsciente, afastando-o precisamente dos contatos inferiores que, em geral, não faltam nos ambientes mediúnicos.

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Estendendo-se o fenômeno até ao superconsciente, ele abraça uma vasta gama de ressonância, isto é, uma amplitude biológica que atinge vários planos de evolução.  Sabemos agora que quanto mais se sobe para o S, tanto mais a evolução tende a absorver e fazer desaparecer a visão do dualismo, para avizinhar-se sempre mais, por uma recíproca complementação entre opostos, da reconstrução da unidade originária. Segue-se que o instrumento não pode funcionar sensibilizado só de um lado do dualismo que corta o ser humano nas duas metades macho-fêmea, neste caso entendido não no plano animal-humano, mas num alto nível biológico, ou seja, nas suas propriedades espirituais. Torna-se urgente um biótipo completo que possua uma personalidade estendida a ambos os campos. Isto significa: 1) Possuir as qualidades femininas de tipo emotivo e intuitivo, necessárias para poder realizar a recepção; virtudes de sensibilização para poder perceber o estado vibratório da fonte transmitente. Tudo isso situando-se no nível super-normal. 2) Possuir os atributos masculinos volitivo-racionais e ativo-realizadores necessários para poder captar aquelas vibrações, entendê-las no próprio superconsciente e depois transportá-las ao plano do consciente, traduzidas na forma mental humana, expressas em forma de lógica e de palavras.

É  preciso, em suma, saber realizar duas funções opostas isto é: 1) no plano do superconsciente saber comportar-se com sensibilidade receptiva, parte passiva adaptada a auscultar e registrar o pensamento da fonte inspirativa, incorporando dessa forma em nosso conceito material; 2) no âmbito da consciência normal saber funcionar racionalmente, afirmando-se como parte ativa capaz de transmitir aos outros em forma mental a eles acessível, expresso em palavras, aquele conceito, primeiramente incorporado. Num primeiro momento, dado que a transmissão se verifica no nível do superconsciente e que o sujeito receptor deve vibrar em uníssono, porque os conceitos são transmitidos em ressonância por via telepática, é necessário saber trabalhar consciente naquele nível. Num segundo momento, já que a transmissão deve ser manifesta em situação do normal consciente humano, é preciso saber trabalhar consciente também aí para poder formular em palavras os conceitos transmitidos. É mister possuir uma amplitude de atividade consciente que abrace o normal consciente e o superconsciente, porque é em ambos os planos que o instrumento deve saber funcionar, isto é: 1) para captar no nível do superconsciente onde escuta; 2) para expressar-se à altura do consciente normal onde fala.

Encontramos esses conceitos confirmados nos escritos de Assagioli - Grupos de Meditação Para a Nova Era, Florença — nos quais se reconhece a existência de uma função cognoscitiva superior com a qual se alcança uma direta e íntima compreensão da realidade. "Este órgão de conhecimento direto", diz ele, é a intuição. Ela não é irracional, mas super-racional. Nem tampouco a cooperação da mente deixa de ser necessária para sua correta utilização. É bom ter uma ideia clara de quais devem ser as justas relações de cooperação entre as duas. A esse respeito as funções da mente são:1) reconhecer a intuição e as suas mensagens; 2) interpretá-las corretamente; 3) formulá-las e expressá-las com as palavras".

Ora, o que Assagioli nos diz é exatamente o sucedido em nosso caso, isto é, aquilo que a natureza do fenômeno instintivamente nos levou a fazer. De fato, neste caso, realiza-se fora da consciência uma secreta elaboração de conceitos no nível do consciente superior ou superconsciente, resultados que ele me apresenta no consciente médio, no cérebro, através do normal campo de consciência. Nesta passagem deve-se verificar um abaixamento de potencial e de frequência da parte da mais sutil energia do superconsciente, para descer ao nível dinâmico da energia do consciente, ou uma elevação desse potencial e dessa frequência por parte da mais pesada energia do consciente, para subir ao plano dinâmico da energia do superconsciente, de maneira a encontrar-se, no momento do contato telepático, em um mesmo nível e assim poder comunicar. Trata-se de dois tipos de pensamento e técnica mental que, no momento do lampejo no consciente, devem-se igualar, sem o que não se verificará a comunicação e nada daquele mais alto tipo de pensamento se revelará no consciente.

O fenômeno inspirativo resulta, portanto, composto de três momentos.

1) O primeiro desenvolve-se fora do campo da consciência do sujeito, no silêncio do seu inconsciente superior. Aqui a ideia pode aparecer por três vias: a) por havê-la o sujeito captado por iniciativa própria com o seu superconsciente nas correntes de pensamento existentes naquele nível; b) por havê-la o sujeito recebido telepaticamente por iluminação, tendo-se ele sintonizado com aquelas correntes; c) por ele a haver atingido no armazém do seu conhecimento, em seu superconsciente, onde um indivíduo evoluído, mesmo que seja inconscientemente, já sabe funcionar. Os fatos nos mostram que existe um processo interior constituído por um trabalho mental que se realiza no inconsciente, seja superior, seja inferior, porque se veem aparecer no campo da consciência os seus resultados. O pensamento pode, portanto, funcionar também fora deste campo, oculto de nós. Não nos surpreendem, pois, essas afirmações.

Assim, a primeira origem da ideia pode ser devida a três fatos: o eu que capta, o eu que recebe, o eu que recorda e elabora. Nascida de tal modo a ideia no superconsciente do sujeito, este material, se já não está no estado conclusivo de produto-síntese, pode ser elaborado naquele nível pelo próprio sujeito, isto é, no seu consciente superior com a técnica de pensamento daquele plano, amadurecendo aquele material até levá-lo à sua fase final. Com isso se conclui o primeiro período do processo inspirativo. Neste momento ele alcançou e nos apresenta, destilado, o total de toda a operação, pronto o resultado-síntese que a contém e resume. Temos, desta maneira, a solução dos problemas, a visão de um determinado setor da verdade, como fase conclusiva de todo o processo interior, a qual, no entanto, dele não deixa ver analiticamente a técnica de funcionamento. Este sintético produto final é transmitido ao normal campo de consciência.

2) Superado o primeiro momento, que é o da concepção e primeira elaboração da ideia, passa-se ao segundo: o da transmissão desta, do superconsciente ao consciente. Trata-se da passagem de um plano evolutivo mais alto a outro mais baixo. Este é o momento no qual se verifica o contato necessário para poder comunicar. Para realizá-lo é preciso chegar a uma recíproca aproximação, que tem a função de reduzir os dois polos ao mesmo nível dinâmico, sem o que eles não podem juntar-se. Este nivelamento de potencial psíquico consiste numa descida do mais alto (superconsciente), ou de uma subida do mais baixo (consciente normal) e, reciprocamente, compreende ambas as deslocações, de modo que se possam encontrar. É por meio deles, de ambos os lados, que se chega ao contato, mesmo quando ele, por longa repetição, tornou-se habitual. Este e o momento em que se realiza a comunicação, que é irrupção e penetração do superconsciente na esfera do consciente.

Neste ponto a ideia muda de forma e se veste com outra técnica de expressão, isto e, passa da técnica conceptual intuitivo-sintética, própria do superconsciente, à racional-analítica do normal plano mental humano. Neste instante funciona a mente comum do sujeito no seu nível natural, e, com isso, se entra na terceira fase do processo. Mas aqui se trata de uma posterior elaboração conceptual da inspiração. Esta, em sua chegada, não é um pensamento diluído analiticamente, ainda que dessa forma seja traduzida, ela é um pensamento concentrado em síntese, em forma de absoluta conclusão visão direta de uma verdade  Do modo como tal tipo de pensamento se apresenta no consciente, depende a sua instabilidade mnemônica, quando ele aparece no nível cerebral, e a necessidade já referida de tomar subitamente nota por escrito de tais conceitos, que parecem ansiosos para fugir de um plano mental que não é o deles.

3)  O terceiro momento é aquele no qual a ideia, penetrada e revelada no consciente, ali se fixa para ser assimilada pela evolução do sujeito, ou para ser racionalmente elaborada, e depois ser exposta à compreensão dos outros no plano humano, para a sua ascensão. Nesta fase o material em conceito inspirativo é transportado à forma racional humana, trabalho confiado ao sujeito que recebe. Então, a ideia sintética e abstrata é analiticamente desenvolvida ao longo de passagens lógicas e sucessivas. É vestida de palavras escritas e de imagens que se referem ao ambiente terrestre e respectiva psicologia. Trata-se da tradução de uma linguagem para outra. Nesta etapa é o instrumento que cumpre a função específica que lhe espera no plano do consciente normal, a ele confiada, oposta àquela voltada para o inconsciente superior. Aqui ele entra em ação com as suas normais qualidades mentais para realizar um trabalho de elaboração do material em seu poder, adaptando-o, desenvolvendo-o, expondo-o logicamente, demonstrando-o e controlando-o, racionalmente, conforme as exigências da forma mental corrente.

No meu caso, tive de realizar estes dois trabalhos: assimilar o conteúdo da Obra para a minha evolução e expô-la para fazê-la conhecida dos outros. Alcançada esta sua última fase o processo inspirativo atingiu os seus objetivos e se fechou. De todo o fenômeno ficou na Terra a Obra e, para o autor, a sua ascensão evolutiva, porque ele leva consigo o fruto do seu trabalho.

Cumpre-se, assim, todo o ciclo do fenômeno nos três momentos acima descritos. Nesse processo as formas de funcionamento ativo e passivo se alternam. O sujeito pode receber passivamente, ou captar ativamente as correntes de pensamento, quando ele funciona no âmbito do inconsciente superior; e pode receber passivamente, ou captar ativamente no que respeita à zona de conceitos que o dominam no plano superconsciente, quando ele trabalha no ambiente do consciente normal. Ele é depois ativo no período final, ou seja, na elaboração daqueles conceitos neste nível, fase que, em nosso caso, compreende a compilação escrita da Obra.

Nesta deslocação há sempre uma troca entre polaridades opostas, entre um elemento que funciona ao positivo e outro ao negativo, um como fecundador, dinâmico e propulsivo, e outro como fecundado, receptivo e elaborador. Eles são constantemente complementares, mesmo nesta última parte na qual o instrumento receptor, em posição de fecundado perante o superconsciente fecundador, faz-se centro transmissor fecundador ante os leitores dos seus escritos, fecundados, por sua vez, enquanto recebem o pensamento que lhes é transmitido. Em substância, no entanto, esta posição de negatividade receptora não é passiva, porém complementar entre trabalhos de tipos opostos, ambos ativos, como ocorre entre macho e fêmea, mas em sentido inverso. O elemento passivo não é inerte. O instrumento que recebe é como a fêmea, que, recebendo o impulso dinamizante do macho, elabora-o, desenvolve-o, faz dele uma criação, sobre esta eleva uma construção, que, neste caso, é a Obra escrita. Esta, por sua vez, é dinâmica e fecundadora de almas, enquanto o autor, recebendo este impulso da Obra, pode elevar o edifício de sua nova espiritualidade.

Eis o processo e cadeia de momentos sucessivos que se realizou o meu fenômeno inspirativo e a formação concreta da Obra. Para explicar tudo isso era, todavia, necessário colocar cada elemento na sua posição, mesmo que isso pudesse parecer auto-exaltação do instrumento. O que me conforta neste caso é a constatação de que, para despertar no superconsciente, não se faz mister ser perfeito; que o fenômeno que eu vivi não implica nenhuma superioridade, o que me é provado pelo fato de que seres muito mais elevados, que realizaram trabalhos bem maiores, nem por isso foram isentos de defeitos. É  precisamente para o nosso aperfeiçoamento que acontecem tais fenômenos.

   É  exatamente porque desejaria fugir ao desgosto de falar de mim, que procuro despersonalizar o caso aqui examinado, expondo-o como se se tratasse de outros e referindo-me sobretudo à parte teórica e explicativa do fenômeno. O leitor pode imaginar que experiência espiritual é escrever tal Obra nas condições em que estou descrevendo, e como as ambições que nascem depois de tal experiência não possam ser as do normal tipo humano. A grande aspiração, entretanto, é ficar em contato permanente com aquelas altas correntes de pensamento, é viver definitivamente consciente no superconsciente, num tipo de vida muito mais intenso do que a do plano físico, para continuar a contemplar as visões da Obra e outras mais profundas, sentado ao banquete do conhecimento para sacar a fome do espírito de tudo compreender. E, perto da velhice, sinto que tanto mais luminosamente se sobrevive, quanto mais alto se transferiu o próprio centro de consciência, o que confirma as teorias expostas. As minhas satisfações nunca foram as do mundo Afastando-me dele sempre mais, cada vez menos podem sê-lo. À minha grande festa está em constatar que, enquanto o corpo vai lentamente morrendo cada dia e, assim, perdendo a vida no nível matéria, esclarece-se e potencializa-se a minha existência no plano mental intuitivo de tipo superconsciente. Isto representa uma imensa alegria de viver, dada não por me sentir de fato morrer com o corpo, mas a ele sobreviver num tipo de vida superior, mais intensa. Trata-se de uma ressurreição no espírito, de um sentido de ascensão e imortalidade, de uma plenitude vital que não há riqueza ou potência humana que possa igualar, perante a qual todos os triunfos humanos são miséria.

Como se vê, o fenômeno não tem só o aspecto parapsicológico, mas também o de catarse, enquanto cumpre uma função evolutiva na personalidade do sujeito. Em nosso caso, não se trata apenas de pensar no nível mental da fonte, mas também de viver no seu plano moral. Compreende-se, assim, como para poder cumprir o trabalho de escrever a Obra, fosse necessário seguir um tipo de vida adequado. Sendo a referida fonte algo vivo, passou a se constituir para o instrumento num modelo de existência, por estar com ela em incessante contato emotivo e mental, isto é, de sentimento e de pensamento, tornando-se uma função vital para ele necessária, pelo alimento que extrai daquele contato. Temos, pois, um fenômeno rico de conteúdo. Ele não apresenta apenas o aspecto telepático de transmissão conceitual, mas preenche também uma função de ascensão espiritual e de transformação de tipo biológico do instrumento. Todo o fenômeno é impregnado de finalidade evolutiva, que se revela ainda nos seus efeitos, enquanto ela, através da iluminação mental, tem também como objetivo a catarse e o progresso espiritual do leitor.

   Neste caso, ocorre um fenômeno semelhante ao que, num plano mais baixo, é a fecundação do óvulo por parte do espermatozóide masculino. Quando o indivíduo por evolução chegou ao devido grau de amadurecimento que o torna apto ao salto evolutivo, então, tendo o invólucro de involução ficado tênue, o princípio superior pode rompê-lo e penetrar dentro dele para cumprir a sua função. O impulso positivo dinamizante, de tipo S, vence as resistências do AS, podendo enxertar-se no terreno negativo deste para fecundá-lo com a sua potência e levá-lo para mais alto em direção do S. A fecundação neste caso conduz à unificação, não de um dualismo horizontal no mesmo plano, como no caso macho-fêmea, mas em sentido vertical, entre dois estágios diversos, super-normal e normal. Todavia, em ambos os casos, o fenômeno verifica-se conforme o mesmo princípio de fecundação, concluindo com a gênese do terceiro elemento, fruto da conjugação: o novo ser, seja o filho, seja a Obra criada.

Neste campo tudo é analogicamente regulado nos verdadeiros níveis pelas leis da vida, pelo que, quando o fenômeno amadurece, o indivíduo é atraído pelos seus impulsos instintivos, por meio dos quais aquelas leis o manejam, atraído para o outro termo em conjunção com o qual deve cumprir a sua função criadora. Então, no plano humano, ele é atraído para o outro sexo, enquanto, no âmbito super-humano, o é para centros de vida superior, com os quais igualmente se une em forma espiritual, com núpcias noutro ambiente. A lei de atração para alcançar a unificação de objetivo genético, com atividade criadora, toma a forma sexual só no baixo reino animal-humano, embora seja regra universal, ou esquema ou modelo de técnica genética em todos os planos da existência.

O princípio dos dois polos opostos e complementares que se conjugam para formar o circuito é verdadeiro em todos os níveis. Eles se aproximam para fundir-se e formar com as duas metades a unidade completa. Mas para poder fazer isso devem ser afins, coexistindo no mesmo ambiente evolutivo. Em nosso caso é necessário alcançá-lo, porque o contato é mental. Sucede telepaticamente. Exige, portanto, um estado de ressonância que só se pode verificar entre afins. Sem afinidade, não há possibilidade de fusão que unifique. E, se não existe fusão, nada se cria. Para que possa lançar a centelha criadora, consequência da unificação, é preciso que os dois polos se ponham à mesma altura. No caso do evoluído, ele não encontra na Terra o seu termo complementar. Deve, portanto, procurar outro com o qual se una num plano mais alto. Para ambos os termos a união constitui uma função vital, porque corresponde à necessidade de completar-se, unindo-se à parte oposta.  Existimos num universo despedaçado, no qual cada elemento do dualismo por si só se sente incompleto. Está, portanto, ansioso de reconstruir-se em unidade, juntando-se com o termo contrário. Por isso, em cada ser há uma necessidade fundamental de integração, que ele alcança ao se unir à sua parte inversa, sem a qual fica somente metade. Esta disposição de maneira a formar o casal representa uma necessidade basilar da vida, à qual ninguém pode fugir.

Em nosso caso, a união, a fecundação e a filiação verificaram-se no plano mental e espiritual, mas sempre em aplicação do referido princípio. Sendo assim, tal é a estrutura do fenômeno como emprego de uma lei universal, nele também presente. Mas aqui não se trata de junção de corpos em ambiente físico, mas de união de espíritos no nível mental. Aqui aparece também o lado sublimação mística, próprio das religiões. Esta é a forma que para os sensibilizados torna o amor nos estágios evolutivos mais altos, mais próximos ao S e mais afastados do AS.

Tal constatação convalida a técnica da sublimação da energia sexual, canalizando-a para funções criadoras de mais alto nível, isto é, no mundo espiritual, utilizando em forma mais evoluída a mesma carga energética e dinamismo criador. Trata-se de evoluir. Estamos na estrada da reunificação S e ÀS, ou seja, do saneamento da cisão dualística. Seguir este impulso constituí a alegria máxima, porque é a reconstrução e cura do universo fragmentado, dividido contra si mesmo, doente de separatismo. Assim, a união e a gênese são alegria em cada posição, porque sucedem em função do processo reconstrutivo da unidade no S. Então, o problema da sobrevivência material, que, no plano normal, é fundamental, torna-se secundário, e aquele da ascensão evolutiva em direção à espiritualidade, que, no nível normal, é menos importante, para deslocar-se até ao super-normal, passa a ser essencial. O que no plano animal-humano é loucura, num estágio mais alto, super-humano, converte-se em sabedoria. Aquilo que era perda depois vem a ser vantagem, e aquela loucura passa ao utilitarismo da vida. Esta acaba por aceitá-la, mesmo que, primeiramente, num nível mais baixo, já que, se fosse desvantajosa, a repeliria.

A lógica destes esclarecimentos justifica, mesmo em sentido prático-utilitário, a conduta de nosso personagem e explica por que o mundo o condenava. Há posições biológicas em certos momentos da evolução em que é necessário que a vida arrisque tudo pelo todo, quando se trata de alcançar finalidades mais importantes que as da conservação individual. Ela permite, assim, que o indivíduo se sacrifique. Por remontar cascatas, vi peixes despedaçarem-se contra as pedras, e isto a fim de botarem os ovos mais perto da fonte. É assim que, quando, no caminho da evolução, é chegada a hora decisiva da maturação, que exige o salto para a frente, a lei da sobrevivência cede passo a da evolução, que toma o domínio e a que tudo se sacrifica, contanto que se avance. Nestes momentos a luta pela vida é substituída pela evolução, isto é, por uma vida maior em mais adiantado nível ascensional. Então, constitui sabedoria arriscar aquilo que para o homem normal e estacionário representa loucura. Cada um é sábio a seu modo, um com a sabedoria de conservar as velhas posições, apegando-se às coisas da Terra, o outro por saber conquistar novas posições, com desapego completo, indiferente às coisas do mundo. O progresso é devido à coragem daqueles que quiseram, a seu risco, explorar o inexplorado. No presente caso, trata-se precisamente de uma evasão do normal para aventurar-se nas ignotas zonas do super-normal, para conquistá-lo com um tipo incomum de experiências no vértice. É uma conquista por parte do consciente, porque se trata de uma dilatação, ou seja, uma penetração consciente na zona da superconsciência. É um tipo de luta diferente da normal, dirigida a outras finalidades. O evoluído deve realizar a sua luta, ao seu nível, num mundo involuído que faz a sua guerra no plano humano.

Tais fenômenos espirituais eram antigamente tratados empiricamente e só pelas religiões. A ciência não os tomava em consideração, porque não os julgava positivos. Mas hoje se começa a admitir que considerar o super-normal como anormal não é científico. Tende-se, assim, a tomar em exame a "psicologia do profundo", dirigindo-se à investigação do inconsciente, além do subconsciente, ao superconsciente, isto é, não à zona animal do homem, mas à super-humana, de muito maior importância como valor biológico para a evolução. Esta psicologia do alto é a que contém os superiores valores da humanidade. É assim que, como referimos, a indagação psicanalítica é levada ao campo da Parapsicologia, o que é precisamente aquilo que mais interessa no estudo de nosso caso. O superconsciente contém em embrião o nosso futuro, aquele a que as religiões, a ciência, o progresso, os ideais tendem a levar-nos. Ele é o terreno onde jazem os germes de muitos futuros desenvolvimentos. Hoje ele é um super-normal, mas que está à espera de tornar-se, amanhã, normal.

Baseado nesses conceitos, é que nos foi possível melhor compreender o caso parapsicológico aqui tomado em exame. Agora que ele se está aproximando da conclusão do seu percurso, são mais visíveis o seu significado e os seus resultados. O centro de consciência do autor habituou-se a funcionar, em grande parte, no nível do superconsciente. Deslocou-se, portanto, um pouco em direção a um plano evolutivo mais avançado, no sentido do S. Transformou-se o tipo de vida e com isso o sujeito se tornou apto a continuá-la em forma diferente. Ele se destaca do ambiente terrestre, que se deixa para trás como experiência superada, juntamente com as coisas más que ela traz consigo. A transformação consiste no fato de que ele saberá, de agora em diante, pensar de maneira diversa da velha forma mental racional-analítica, a saber, de modo intuitivo-sintético, em função de outro tipo de consciência, que constituirá a sua nova forma de existir. Mudando assim a própria natureza, em função da qual tudo se concebe, ele terá a sensação de viver imerso em outro universo, porque este se lhe manifestará de maneira diferente, estabelecida pelos seus novos meios de percepção e compreensão.

Com tudo isso vimos a estrutura e a função evolutiva do fenômeno inspirativo. Tratemos agora de lhe compreender o significado biológico, seja em geral, isto é, em relação ao funcionamento da vida, seja, em nosso caso, quanto à existência do sujeito.

Já dissemos, e aqui concebemos a distinção   subconsciente, consciente e superconsciente  —  em função do movimento ascensional da evolução, pelo qual, com a experiência da vida, o ser adquire conhecimento sempre maior e, por meio da atividade no consciente, avança do subconsciente em direção ao superconsciente. É  assim que o subconsciente representa o passado, o fundo do AS, do qual emerge, e o superconsciente constitui o futuro, a meta situada nas alturas do S, em direção à qual se ascende. O superconsciente está situado do lado do S, formando a posição alta do existir, enquanto o subconsciente fica do lado do AS, para o qual representa a parte baixa, oposta. De modo que, como a evolução caminha do AS para o S, assim vai do subconsciente para o superconsciente. Que significa isto? Como é que se entende o fenômeno da queda em termos de psicanálise? Os dois fenômenos devem ser conexos, se, na queda, se fala de conhecimento e ignorância e, em psicanálise, de consciente e de inconsciente, termos equivalentes.

Com a revolta, em matéria de conhecimento ou consciência, nada se destruiu no S. A perda dessas qualidades, isto é, a derrocada delas nas trevas da ignorância e o respectivo estado de cegueira próprio do AS verificaram-se só para as criaturas rebeldes. É por isso que a evolução é um fenômeno de recuperação daqueles atributos perdidos, fenômeno a que está sujeito somente o ser decaído, que assim retorna ao S, reconquistando a sua originária natureza de ser iluminado e consciente. A evolução não se processa só do AS para o S, mas também da ignorância para o conhecimento, do inconsciente para o consciente. Como a unidade do S se despedaçou no dualismo S e AS, assim a unidade do ser se fragmentou em consciente e inconsciente, isto é, apareceu com a queda uma cisão na bipolaridade positivo-negativa, pela qual, junto ao consciente, no todo era somente positivo, apareceu o seu oposto negativo, a saber, o inconsciente. De fato, o consciente é positivo e pertence ao S; o inconsciente é negativo e faz parte do AS, e a evolução é uma conquista de positividade ou consciência.

Esta aquisição da consciência perdida e respectiva libertação das trevas da ignorância realiza-se por meio da experiência da vida. O subconsciente é a zona já reconquistada no passado, um primeiro trecho já percorrido de reconstrução da consciência do homem, ainda mal saído da animalidade. Os instintos representam a sua sapiência já adquirida. Isto prova o atraso mental do homem. O consciente é a zona na qual ele trabalha para reconquistar com a sua experiência o conhecimento perdido. O superconsciente é a faixa ainda ignorada, escondida no inconsciente, a recuperar como conhecimento do futuro. A sabedoria do S permaneceu intacta na consciência dos não decaídos e escrita na Lei. De fato, as diretivas do funcionamento do todo ficaram intactas. A sapiência quedou-se fora do consciente, ou seja, do conhecimento, só para o ser decaído, que por isso se encontra rodeado de mistérios e assim com grande parte de seu eu em trevas no inconsciente e constrangido à fadiga de descobrir e aprender tudo, obrigado com a evolução e reconstruir a sua consciência. O evoluir, de fato, é um progressivo despertar consciente no inconsciente, uma conquista de luz saindo das trevas. A sapiência ficou, mas fora do consciente, que deve desenvolver-se para reencontrá-la. As provas da vida são os choques adaptados a despertar o adormecido. Vive-se e sofre-se para despertar, com a compreensão do porquê de tudo isso, na zona mais alta do ser, ao lado do S — superconsciente relativo à evolução do indivíduo. Assim, para um macaco um nosso simples raciocínio pode estar situado no superconsciente, isto é, no seu inconsciente superior.

O subconsciente é o depósito onde se conserva registrado, como qualidades individuais adquiridas e constitutivas da personalidade, todo o material conquistado com o trabalho da experimentação biológica realizada no passado. O produto útil das vidas sucessivas é composto por zonas de conhecimento que se estratificam umas sobre as outras, as mais recentes sobre as mais antigas, em planos de consciência sobrepostos, voltados a percorrer no início de cada nova vida, mas tanto mais rapidamente em síntese quanto mais eles são distantes, repetidos e, portanto, assimilados. É sabido que  a ontogênese repete a filogênese. É  assim que o subconsciente humano é de natureza instinto-animal. O superconsciente, ao contrário, contém as experiências do futuro, mais avançadas, destinadas um dia, depois de terem sido vividas no consciente, a descer, assimiladas, estratificando-se no subconsciente para formar a personalidade do indivíduo, que está assim em processo de contínuo enriquecimento. As religiões e os ideais constituem o guia deste trabalho mais avançado. Os seus princípios são vividos para serem, depois de longa repetição consuetudinária, absorvidos no subconsciente e assim transformados em novas qualidades formadoras da personalidade, que deste modo se enriquece sempre mais e se desenvolve subindo em direção ao S.

O subconsciente pode ser considerado como uma película cinematográfica em que fica registrado todo o passado. Em cada vida se grava uma determinada metragem do filme virgem, de maneira que nele permanece escrito todo o trabalho de uma vida. Os velhos se dobram sobre si mesmos e passam o tempo a relê-lo, recordando. Os jovens pensam no futuro, os velhos no passado. Eles encontram-se em duas posições opostas perante a vida. Os primeiros olham para a frente, para um caminho a percorrer; os segundos olham para trás, para uma estrada lá perlustrada. Todo o processo evolutivo realizado até ao momento presente está registrado num imenso filme que nos mostra toda a história vivida. Ele está em contínuo aumento, enriquecendo-se sempre de novas experiências, até que abraça todo o caminho da evolução, o que significa reconquistar todo o conhecimento perdido com a queda no AS. A evolução é uma laboriosa emersão das trevas da ignorância na luz do conhecimento. O inconsciente representa a parte de ignorância ainda não destruída pelo conhecimento. A evolução é uma progressiva invasão do consciente no terreno do inconsciente para transformá-lo em consciente, o que leva a uma diminuição dos espaços dominados pelo inconsciente e a um aumento daqueles ocupados pelo consciente. O subconsciente é um inconsciente inferior, feito de material já conquistado que o ser possui em síntese como sua sabedoria adquirida. O superconsciente é um inconsciente superior a conquistar, que constituirá a sua sabedoria futura. O primeiro transmite ao consciente os resultados das suas experiências em forma de impulsos sintéticos. O segundo transfere ao consciente os seus pressentimentos, antecipações situadas ainda fora das suas experiências e à espera delas.

No meu caso, a coisa mais importante que filmei na minha vida atual foi a Obra. Cada um registra algo diferente. O filme dos jovens ainda é virgem, mas, no fim da vida, não resta senão a película gravada. Então, já não se podem registrar novos acontecimentos e, sim, apenas olhar as fotografias dos antigos. Próximo agora ao fim, estou olhando o meu filme. O meu cérebro foi a máquina de filmar. Acaba a minha vida atual, desfaz-se aquela máquina e fica a película. Agora o trabalho de registração está para acabar, mas tenho comigo todo o material registrado. Depois da morte levarei comigo o filme impresso no meu espírito, para poder ainda melhor olhá-lo, compreender e assimilar. Depois da fase extrovertida, entro agora na introvertida, trabalho inverso e complementar daquele terreno. Depois inverterei ainda estas posições, renascendo, fornecendo-me outro cérebro, nova máquina de filmar, para fazer outro trabalho em continuação ao precedente. A filmagem da Obra está pronta. E, de agora em diante, experiência vivida, patrimônio adquirido, inalienável, ponto de partida da nova experimentação na vida sucessiva.

Agora posso compreender o que ganhei com não ter querido perder tempo a ocupar-me de riquezas. Se tivesse corrido atrás delas, não teria em mão senão um filme de experiências terrenas de negócios que me teriam pregado neste ambiente inferior. Triste resultado. Bem ao contrário, encontro-me tendo nas mãos uma riqueza minha, que me leva um pouco mais para diante em direção ao S. Isto muda a minha posição evolutiva, impelindo-me para mais alto plano de existência, o que é o resultado máximo que se pode obter numa vida. Na próxima existência, com um cérebro mais aperfeiçoado, órgão adequado às novas capacidades mentais adquiridas e produto de um ambiente mais adiantado, poderei dispor de meios de compreensão e expressão mais evoluídos para satisfazer ainda mais a minha máxima aspiração, que é evoluir. Com uma máquina de filmar mais aperfeiçoada, poderei realizar novas filmagens reveladoras do pensamento que tudo move. Poderei assistir a novas expansões do consciente num sempre mais alto superconsciente, para embriagar-me com a luz que desce do S, isto é, de Deus.

Esta é a análise do fenômeno que foi experimentado no meu caso. Estas são as conclusões para a vida do sujeito que as viveu. Enquanto as religiões com constrangimentos espirituais se intrometem nas relações entre a alma e Deus, enquanto os Estados coletivizam o indivíduo, reduzindo-o a uma peça da grande máquina social, perante todas estas tentativas de enquadramento e incorporação, o indivíduo pode evadir-se do ambiente terrestre para além dos limites deste, lá aonde os poderes do mundo não chegam. Por haver superado tudo isso, livre de todas estas pressões, ele pode alcançar uma forma de vida mais alta, mais civilizada, mais feliz. Também o indivíduo considerado como tal tem os seus direitos de independência. E, mesmo que o mundo não os reconheça, quando perante as leis da vida lhe pertencem, esta os reconhece e o autoriza a fazê-los valer. O mundo não tem em conta o fato de que, por cima de todos os seus poderes, existe o de Deus, que com a Sua Lei comanda tudo, inclusive aqueles que pela sua ignorância tudo isso negam. Há um grande e inalienável prêmio para o trabalho individual de superação evolutiva, um tipo de propriedade reservada que não se pode nem roubar, nem taxar, nem coletivizar. Este prêmio consiste em poder evadir-se de um plano de vida inferior, da humanidade atual, para ir viver no meio de outros mais avançados.

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Se tal experiência tem um profundo significado biológico para o indivíduo, ela pode ter o seu sentido também para a humanidade, porquanto pode ser entendida como uma antecipação do futuro desenvolvimento desta. Observemos, portanto, o fenômeno também sob este outro aspecto.

Disse que o superconsciente contém em germe o nosso futuro e que o atual super-normal está à espera de tornar-se amanhã normal. Assagioli afirma que "A Nova Era atestará o florescer da intuição". A construção da nova civilização dependerá muito de aprofundar-se a investigação psicológica. A conformação de nossa vida depende muito de nossa conduta, e a primeira raiz desta é psicológica. O nosso mundo é feito de determinada maneira, porque também assim o pensamos e o reconstruímos. Isso diz respeito à nossa natureza, criadora da sociedade humana, à  sua imagem e semelhança. Quando soubermos pensar melhor, dispondo de uma mente diretriz diversa, poderemos plasmar um mundo diferente.

Hoje a humanidade vive no caos. Qualquer tentativa de ordem não tem valor, se não se apoiar na força. Não tem sentido a lei, se não for armada de sanções. A ordem tem de vir imposta de fora, porque o indivíduo é naturalmente rebelde. As diretivas da ação não são espontaneamente coordenadas, fruto de conhecimento e convicção. Os pensamentos que guiam a nossa conduta são de egoísmo e de luta. A grande ocupação do homem é procurar a vitória sobre o próximo e não a compreensão para chegar à colaboração. Tal caótico modo de pensar leva a uma conduta que faz de nosso mundo um inferno. A nossa sociedade pode ter um sentido, se olhada com a visão separatista do indivíduo isolado, mas representa o absurdo de uma loucura autodestrutiva se vista coletivamente. As energias psicológicas antepostas à ação não são inteligentemente guiadas para a criatividade, convergindo em direção ao bem de cada um e de todos, mas são usadas para lutar, para se destruírem reciprocamente, dissipando estupidamente, em inúteis atritos, com imenso dano, valores preciosos. À força de lhes sofrer as consequências, deveremos sair desse estado de inconsciência e de barbárie. De há muito se iniciou, aqui e ali, a desconfiança de que não somos de fato civilizados.

A futura humanidade se organizará de modo a obter de cada indivíduo o máximo rendimento possível, indo ao encontro dele, sabendo utilizar as suas qualidades, colocando-o no lugar que lhe é mais adaptado, no organismo coletivo, e não deixando-o só, obrigado a desperdiçar as suas energias para subir lutando, enquanto poderia usá-las para produzir. Então, a penetração psicológica da personalidade terá uma função fundamental. Construir o homem é problema básico, trabalho dos milênios futuros, e estamos ainda no início. É necessário educar, selecionar, guiar no seu desenvolvimento os elementos constitutivos da sociedade que hoje nascem e crescem ao acaso.

A grande sapiência a aprender é a arte da convivência, a que permite a coexistência pacífica. Muitas vezes a confraternização é, em grande parte, retórica. O impulso mais forte é o egoísmo que se torna um obstáculo à compreensão. Atualmente, não se chega à confraternização se não por motivo egoísta da defesa de um perigo comum. Assim, é o perigo comunista que faz unir os cristãos, só hoje intitulados de irmãos separados. De igual modo é o perigo chinês que avizinha os dois grandes inimigos: Comunismo e Capitalismo. Ainda, igualmente, é o perigo universal da bomba atômica que tende a unificar o mundo para a sua sobrevivência. Esta é uma confraternização baseada no egoísmo, não na compreensão recíproca. Por outro lado, é necessário compreender que é indispensável deixar a cada um, seja indivíduo, seja povo, um suficiente espaço vital sem o oprimir e, portanto, sem lhe excitar as inevitáveis reações. Estas, uma vez postas em movimento, transmitem-se em cadeia, provocando contra-reações, gerando revoltas à ordem, revoluções e aquele permanente estado de guerra que delicia a nossa humanidade. Isto significa dar e receber golpes contínuos, um prejuízo coletivo constante, um peso enorme a arrastar. Que absurdo e contraproducente método é usar as próprias energias para fabricar sofrimentos! Isto é somente admissível nas humanidades primitivas isto só se explica para os involuídos que gravitam ainda em direção ao AS. Não são, portanto, senão seres destrutivos, feitos de negatividade, enquanto exaltam como vencedor quem se afirma sobre um cemitério de vencidos. Mas a vida evolui em direção ao S, o que significa seres construtivos, feitos de positividade, para quem as energias são usadas utilmente, para criar o bem, não o mal. Eis que o maior problema da humanidade está em evoluir, para alcançar formas de vida mais elevadas.

A nova civilização consistirá em saber compreender-se e interligar-se reciprocamente em considerar o próximo como um colaborador no mesmo organismo, movido pelo mesmo interesse. Compreensão significa não procurar impor aos outros os próprios gostos e ideias em qualquer campo, como se fossem verdades absolutas, mas respeitá-los, como eles devem fazer o mesmo, cada um livre de viver conforme sua própria natureza, conquanto isto não traga prejuízo a ninguém. Não se pretenderá converter ninguém à própria fé, proclamando-a como única verdadeira e condenando as outras como erradas.

A Psicologia estudará os vários tipos de uma nova “tipologia”, de modo a prever e não a provocar a reação que cada um, conforme o seu temperamento, oferece ao mesmo fato, posição ou relação. Conhecendo a técnica psicológica do comportamento, será possível prever as consequências dos vários movimentos, provocando os bons e evitando os maus. Num regime de inteligência, as atividades dos elementos da coletividade poderão desenvolver-se em sentido convergente, em vez de, como atualmente, em direção divergente, com maior rendimento utilitário.

A atual tendência ao nivelamento é um primeiro passo neste rumo. Tal inclinação à igualdade nasceu e se explica como reação aos abusos da desigualdade, segundo o velho método da injustiça social. No entanto, a posição futura não será de nivelamento, porque não consiste em uma homogeneização que suprima o diferenciado, mas numa síntese coletiva que o respeite, coordenando os diversos elementos com funções diferentes em uma unidade estrutural na qual as suas distinções se interliguem e integrem numa ordem coletiva. Em resumo, caminha-se para um estado orgânico. Por isso, o atual nivelamento deverá ser corrigido para tornar-se uma coordenação que conserve as diferenças, mas organize as funções específicas, levando-as do estado caótico ao orgânico, da posição de anarquia e desordem à de disciplina e ordem. Isto, biologicamente, é normal. Verificamo-lo já no organismo humano, no qual as células não são elementos homogêneos, mas especializados por diversas funções, que cada uma delas cumpre de acordo com as das outras células. Conforme esta divisão de trabalho, elas estão agrupadas para formar tecidos, órgãos, grupos de órgãos, funcionando tudo disciplinadamente, segundo a natureza específica própria de cada célula. Tudo isso acontece consoante o princípio das unidades coletivas, por nós, noutro lugar, largamente ilustrado, pelo qual a evolução avança em direção ao S, constituindo com elementos menores e seus agrupamentos unidades coletivas sempre maiores. Estas, todavia, não são uma soma de indivíduos componentes, mas resultam numa construção dada pela sua organização.

Depois desta digressão sobre as bases de nossa futura humanidade, voltemos ao caso aqui tomado em exame. Ele nos oferece um exemplo, mesmo que seja de antecipação sobre as massas, que depois poderão segui-lo, inicialmente limitado a indivíduos isolados, através dos quais se pode ver qual é o caminho da evolução que nos leva para graus de civilização mais avançados. Não se trata, portanto, de um caso esporádico da realidade biológica, mas de um despertar natural que se verifica com qualquer pessoa que tenha alcançado determinado nível de maturação evolutiva

A atual maioria humana, a que impõe e estabelece o seu tipo como normal, sem outra justificação que não seja a força do número, a qual, em função dessa sua normalidade, faz para todos leis e normas de conduta, vive equilibrada e fechada no campo de consciência situada no centro do inconsciente médio, nele recebendo os impulsos do inconsciente inferior ou subconsciente, sem suspeitar uma possibilidade de superações que desloquem a sua consciência ao nível do superconsciente É com tais elementos do consciente ao nível médio que funciona a nossa vida social.

Assim se pronuncia Assagioli no seu opúsculo — Os Símbolos do Supernormal (1965): (. . ..) "considera-se "normal" o homem médio, aquele que observa as normas sociais, o "conformista". Esta normalidade e uma 'mediocridade que condena tudo o que é fora das normas e que, portanto, é considerado "anormal", sem levar em conta o fato de que muitas das assim chamadas "anormalidades" na realidade são começos ou tentativas de superar a mediocridade". Porém, agora, começa-se a reagir contra este mesquinho culto da "normalidade"; pensadores e cientistas de nosso tempo se lhe opuseram com decisão. Entre os mais autorizados, pode-se citar Jung, que não hesitou em dizer: "para aqueles que têm possibilidades muito maiores que as do homem médio, a ideia, ou a obrigação moral de ser somente normais constitui a tortura de um leito de Procusto, um aborrecimento insuportável, um inferno sem esperança" (O Homem Moderno em Busca de Uma Alma, Nova Iorque 1933).

Outro estudioso, o Prof. Gattegno, da Universidade de Londres, avançando mais, acrescentou que ele considera o homem Médio ordinário como um ser pré-humano. E reserva a palavra "Homem" (com "H" maiúsculo) só para aqueles que transcenderam o nível ou estágio comum e que são, com relação a este, super-normais.

A tudo isso acrescenta Humberto Rohden no seu volume Filosofia Cósmica do Evangelho: "Todo homem, depois de certa altura de experiência espiritual, entra, fatalmente, num ambiente de antítese com a sociedade em que tem de viver. O grosso da humanidade vive num plano de evolução apenas físico-mental, guiando-se pelo testemunho dos sentidos e do intelecto e ignorando os altos ditames da razão espiritual. Quem se eleva acima das vibrações espirituais, está sempre em perigo de sofrer uma espécie de interferência de ondas; interferência que, em geral, se manifesta em forma de conflito de ideias e ideais, acabando por criar em torno desse bandeirante do Infinito uma atmosfera de frieza, hostilidade e incompreensão. Esse ambiente ingrato leva o homem espiritual instintivamente a um desejo de solidão e isolamento, onde possa cultivar desimpedidamente essas coisas belas e queridas que, em horas de profunda contemplação, descobriu e que ama com todas as veras de sua alma. Esse homem anda mal acompanhado na sociedade e bem acompanhado na solidão".

"Os profanos e inexperientes, em via de regra, interpretam esse isolacionismo como "orgulho" (. . . .). Para o homem espiritual, porém, é esse retraimento uma válvula de segurança, um instinto de autoconservação espiritual" (. . . .)

"Sendo que essa alma criou em si, pelo diuturno contato com o mundo divino, uma antena de extrema vibratilidade, é natural que o mais ligeiro contato com as rudezas e baixezas do mundo profano lhe causem grandes sofrimentos e lhe ponham em chaga viva o delicado Eu espiritual". "A espiritualidade é a nossa maior glória e, também, o nosso mais acerbo sofrimento" (. . . .).

É deste modo que tais indivíduos, porque fora da comum medida em que todos devem uniformizar-se, auscultam o superconsciente, mesmo expulsos da sociedade. Todavia, como na primavera alguns frutos nascem antes dos outros, assim a vida costuma produzir alguns indivíduos mais avançados que chegam à maturação antecipadamente. Eles constituem as primícias da evolução, as suas vanguardas seguidas depois pelas massas. O seu despertar é isolado, caracterizado pelo fenômeno da penetração e irrupção do superconsciente na esfera do consciente. Isto pode acontecer tanto de improviso, depois de lenta e subterrânea preparação, como por gradual maturação, mentalmente controlada, como em nosso caso. Tudo isso não está fora da lógica do desenvolvimento da vida, dado que de agora em diante a evolução é de tipo nervoso e psíquico. Tudo isso está de fato acontecendo. Vemos, portanto, que, quando a evolução chega a um dado nível, ela se realiza como ativação do superconsciente, isto é, da zona superior da psique, para os normais ainda adormecidos em estado de inconsciência. A função de tais antecipadores sobre a evolução da grande massa humana é agir como antenas aptas a captar os mais longínquos horizontes que não os veem. Assim, estes são ajudados a avançar na grande marcha da evolução.

Muitos já sentem que vivemos no limiar de uma nova era. Nesse mundo do futuro, em vez de se sufocar a vida de tais seres fora de série, procurar-se-á criá-los e deles se formará uma elite, reconhecendo a preciosa função biológica que lhes pertence cumprir para o progresso da humanidade. Quantos gênios hoje não deixam de produzir por falta de compreensão! No entanto, eles representam valores biológicos de grande utilidade coletiva que são desperdiçados, porque obrigados a se normalizarem, ao terem de enfrentar a vida no nível da luta de todos contra todos. Impedindo-os de se realizarem, tolhendo-lhes a criação, tornam-se indivíduos desajustados, obrigados a se isolarem, improdutivos para a sociedade, o que significa riqueza perdida para todos. Mas isso é inevitável no atual estado de egoísmo e caos em que vive a humanidade. Enquanto não for alcançado um grau mais avançado de civilização, a tais elementos não restará outra coisa senão se adaptarem, reentrando nas filas da gente comum e desperdiçando a sua capacidade num regime de competição. A agressividade do normal involuído, sendo este o mais forte, poderá facilmente vencer o homem bondoso e genial.

Quem é mais avançado em relação à Terra não deve jamais esquecer que vive numa humanidade de outro tipo. Se o evoluído nas suas superações se afasta demasiadamente das bases sólidas da animalidade sobre as quais se apoia a vida humana, passa a encontrar-se indefeso na luta que para qualquer um, onde esteja vivendo na Terra, é lei fundamental. Para sobreviver na floresta, entre as feras, não serve de nada ser um gênio ou um santo, mas é necessário estar bem armado para defender-se. É por isso que, no nível atual, a vida tende a eliminar os melhores, feitos para ambientes mais civilizados.

Já explicamos quais são as qualidades do indivíduo que alcançou semelhante estado de consciência. Até a sua moral é diferente da comum, imposta por autoridade e seguida pelo temor de um prejuízo próprio, enquanto se procuram todos os caminhos para fugir-lhe e assim desobedecer impunemente à lei. A sua moral é de outro tipo, de convicção, não de luta, livre, mas responsável. Enquanto o indivíduo normal vive satisfeito na ignorância dos últimos porquês do existir, saciado com as pequenas coisas da Terra, o mais evoluído não pode viver sem dar-se uma resposta àqueles porquês com a qual possa dirigir inteligentemente a sua vida, consciente da função que lhe espera no organismo universal no qual ele vive enquadrado. No seu nível psicológico, sente a necessidade prepotente de tudo compreender. Não se trata de uma conversão a esta ou àquela religião ou filosofia, mas de uma mudança da ignorância ao conhecimento, isto é, de tomar consciência do pensamento que dirige o funcionamento universal. Então, as relações com o mundo se tornam diferentes. A vida passa a não constituir mais um fim em si mesma, limitada à Terra, mas é um trecho do caminho da evolução e uma preparação à sua continuação em outros ambientes. A morte, então, torna-se outra coisa. Tudo muda visto deste modo, em função de outros pontos de referência. O despertar consciente no superconsciente, isto é, num consciente mais alto, nos transforma em elementos conhecedores da harmonia cósmica de um todo vivente, afasta- nos do tenebroso caos do AS e nos eleva em direção a um luminoso tipo de vida, universal e unitário, no S.

O nosso caso, que foi definido como mediunidade, baseia-se, ao contrário, no fenômeno biológico evolutivo do despertar no superconsciente. Só depois dessas explicações, pode-se compreendê-lo na sua essência, diferenciado dos comuns fenômenos mediúnicos, por dois fatos já estudados: 1) a produção de uma Obra; 2) a transformação de um homem no cumprimento de um destino. Este e não a mediunidade é o aspecto mais importante do caso parapsicológico aqui tomado em exame.

O que nos interessa pelo seu grande alcance biológico não é provar a sobrevivência, comunicando com os desencarnados, dado que essa sobrevivência é um fato inegável, mas importa afirmar o fenômeno do crescimento espiritual sobre o qual se baseia a evolução. Ele representa a solução do grande problema da redenção, isto é, libertação de tudo o que é negatividade devida à queda no AS, que entrou a fazer parte da existência, ou seja, libertação da dor para alcançar a felicidade. É assim que a análise do fenômeno parapsicológico se resolve no estudo do fenômeno da evolução da personalidade humana. O nosso caso, em vez de fideisticamente, é visto por nós, sobretudo, com os métodos positivos da investigação psicanalítica. Assim, a nossa interpretação inicial do fenômeno como mediunidade ativa e consciente, analisada, desenvolveu-se também sob esse outro aspecto.

Isto tem a sua importância. O inconsciente trabalha, se bem que esteja fora do campo da consciência, isto é, em forma inconcebível para o indivíduo. E, do evolutivamente baixo ou alto, a saber, inconsciente inferior ou superior, envia ao consciente as suas conclusões e impulsos conforme a sua natureza, ou seja, qualidades constitutivas da personalidade. Ora, se esta é desenvolvida do lado do inconsciente superior, em vez da parte do inconsciente inferior, como na maioria dos casos, depois de uma silenciosa elaboração irrompem na consciência conceitos elevados, evolutivamente avançados, seja como nível intelectual, seja moral, seja espiritual. Mas, se, inversamente, a personalidade é mais desenvolvida no plano do inconsciente inferior, como é mais comum, surgem na consciência os produtos ou impulsos baixos do subconsciente. E isso tanto mais facilmente quanto o indivíduo se abandona no transe mediúnico, pondo de lado o seu autocontrole consciente.

Ora, esse é o grande perigo da mediunidade de efeitos psíquicos, ou seja, constituir um desabafo do subconsciente, ou de correntes de pensamento do inferior nível do subconsciente, o que representa um subproduto de nenhum valor, ou francamente prejudicial para fins evolutivos. O que mais vale e que interessa funcionar é o superconsciente, o alto plano psíquico, ou seja a sua manifestação, ou corrente de pensamento do seu estágio evolutivo através da sua consciência. Por isso, em nosso caso, evitamos que de baixo surja uma inundação de animalidade. Controlamos a cada passo o fenômeno para que isto não aconteça, bem desperto, aceitando das transmissões do inconsciente somente aquilo que a nossa zona de consciência que o recebe julga que é puro e elevado produto do superconsciente ou de correntes de pensamento provenientes de centros espirituais do seu nível. É necessário sempre controlar qual a altura evolutiva do inconsciente de onde provém, ou através do qual passam as transmissões, isto é, se ele é superior, médio ou inferior, para aceitar apenas as superiores, de alto valor ético, intelectual, artístico, religioso. A nós interessa sobretudo o que serve para evoluir, porque subir é o objetivo supremo da vida, e fugimos de tudo o que está em baixo, porque conduz ao sofrimento e à morte.

Isto é o que sucede em nosso caso. Assim, vou aprendendo e assimilando o significado do que escrevo, à medida que faço este trabalho. De fato, trata-se de uma ordem de ideias que aparece no consciente como já pré-fabricada, construída fora dele. Não preparo com esforço consciente o desenvolvimento dos temas, mas me confio a uma corrente autônoma, que me arrasta e eu a sigo. Este é um modo bem estranho de pensar, segundo o qual leio um pensamento já escrito dentro de mim, e que surge à medida que o vou lendo. As ideias nascem espontâneas, como por impulso próprio. E, se intervenho com um ato volitivo, elas se rebelam a cada obrigação e desaparecem. Mas sou eu que as leio, compreendo-as e depois as expresso em palavras. Portanto, devo estar bem calmo e concentrado, abstraído do mundo exterior, com o ouvido psíquico bem tenso para tudo perceber passivamente, sensibilizado ao ouvir, mas ativo como atenção viva, dinâmico no captar, mas não como vontade de domínio. Neste trabalho tenho a sensação de transferir-me consciente para o inconsciente superior, a fim de captar os resultados de um seu precedente trabalho secreto, mas sem poder analisá-lo, nem dominá-lo, do qual recebo as conclusões elaboradas. Isto dá-me a impressão de possuir um sentido de orientação na pesquisa da verdade. Sinto que a consciência normal irrompe para além dos seus limites, em outro mundo imenso, do qual, primeiro como num estado de exaltação mística, capto os lampejos, que depois, seguindo um desenvolvimento ordenado, procuro sistematizar racionalmente. Com tal método, quanto mais leio em mim sobre determinado assunto e, familiarizando-me com ele, melhor o compreendo, tanto mais facilmente consigo continuar a ler. Assim, fui lendo um volume após outro, como se subisse, degrau após degrau, a montanha do conhecimento, cada iluminação elevando-me em direção a outra mais alta, até me encontrar nas mãos a Obra completa.

O que me maravilha é que, com um corpo de oitenta anos, em natural desfazimento, com um cérebro fisicamente anquilosado pelas células paradas tendentes à inércia, sempre menos adaptado à ágil função de pensar, eu possa conceber com clareza e encontre fadiga apenas no trabalho de tradução verbal dos conceitos, preocupado com a exatidão fotográfica da expressão. Constato, pois, o fato de que esse pensamento mais alto, jorrando do superconsciente, me dá uma sensação de potência, dinamismo e intensa vitalidade, em estranha expansão à medida que o organismo físico se enfraquece. Tudo isso me faz sentir também como seja absurdo que a morte possa matar-me, porque, com a aproximação de tal estado de consciência, em vez de haver enfraquecimento, como acontece com o restante, ocorre revigoramento. Este trabalho para mim é vital, me dá um sentido de alegria, direi que é nutritivo, como se com ele me alimentasse, absorvendo-o de uma fonte de vida Ele me fortalece a parte que não é humana, aquela em que sinto que sobreviverei sem ser perturbado pela morte, que, naquela zona, não me pode alcançar. A passagem a outro tipo de vida, ficando desperte no superconsciente, para mim doravante não é mais apenas teoria, porém sensação, lá tenho em mãos certo resultado de todo o fenômeno: ter-me avizinhado, no longo caminho da minha evolução, um passo a mais em direção à vida feliz do S e me afastando do AS, feita de dor e de morte. Realizar uma parte da sua redenção, por pequena que seja, representa a máxima valorização do próprio trabalho. O meu ponto de partida na vida foi a procura do seu significado; o conteúdo dela foi ter-lhe dado um sentido e haver vivido para realizá-lo; o resultado final é havê-lo cumprido e possuir-lhe as respectivas vantagens.

Por uma compreensão do significado da vida, tive de empreender a luta sozinho no início deste século, quando para o Cristianismo era problema ainda importante o poder temporal dos papas, enquanto o materialismo definia o pensamento como uma secreção do cérebro. Entre os dois extremos opostos, cuidava-se sobretudo de litigar sem se haver compreendido o assunto. Só hoje religião e ciência se avizinham, começando a compreender o maior valor e verdade do conceito de mente espiritualizada, isto é, no sentido de que esta não é mais apenas uma alma, uma abstração teológica, nem somente uma função nervoso-cerebral, mas também espiritual, supercerebral. O cérebro é reconduzido à sua justa posição de instrumento do pensamento, não somente seu órgão produtor, mas de atividade espiritual, na dependência de outra fonte superior, e não como única matriz de pensamento.

Destarte, o espírito torna-se um fenômeno acessível à pesquisa científica (Psicanálise, Parapsicologia etc.). De forma positiva podem ser estudadas não só cerebrais, mas também espirituais, isto é, superintelectuais, que se manifestam através do cérebro, funcionando este como instrumento. Podem-se estudar os mais altos processos criadores do pensamento, superiores aos que podem praticar um cérebro entendido apenas como máquina biopsicológica auto-suficiente. Hoje, com a distinção entre funções cerebrais e espirituais, alcançou-se uma colocação do problema espiritual mais exata do que seguindo um conceito de abstrata nebulosidade no caso da concepção religiosa da alma, ou acompanhando um materialismo negador do espírito, no caso da ciência.

Num ambiente dividido entre religião e ciência, ambas mais decididas a lutar do que a resolver tais problemas, era difícil, no meu tempo, sozinho, saber como estavam sendo as coisas. O mundo, por seu lado, quanto à realidade dos fatos, ocupava-se mais de outras coisas do que dos problemas do conhecimento. Formou-se, então — e depois não foi mais preenchida — uma cisão entre mim e o inundo, do qual não podia aceitar a forma mental e os involuídos métodos de vida. Descobri o desentendimento também em muitos pensadores. Ele foi aprovado e por mim definitivamente aceito, quando o vi propugnado por Cristo no Evangelho. Então, fi-lo meu, em nome do espírito. Mas, sendo necessária uma religião para viver com consciência, construí outra científica, seguindo Cristo; aquela que para mim, o Cristianismo deverá alcançar, se quiser sobreviver, superando a sua forma atual. Esses problemas hoje em discussão eram já meus no princípio do século, quando em relação a eles ainda se permanecia indiferente. Não acreditava nos meus olhos ao ver como se pudesse viver tranquilo nas trevas da ignorância, sem haver uma resposta segura para os fundamentais porquês da vida. Ao contrário, cuidava-se muito do respeito para com as autoridades, para com a ordem constituída, a fim de que as posições fossem estáveis e a vida tranquila. Não se respeitava de fato que a vida social pudesse funcionar de modo totalmente diverso, como hoje se está experimentando.

Toda a Obra reflete este dissídio com o mundo, na ânsia de superar os seus velhos métodos, respondendo ao desejo de conquista do conhecimento para alcançar um tipo de vida mais evoluída. Iniciei a Obra recomeçando tudo desde o princípio, partindo do nada. O seu desenvolvimento expressa o crescimento do meu espírito, que a seguiu na sua ascensão. O mundo esteve sempre do lado oposto — o do AS — mas de forma diferente. Nos primeiros volumes da Obra, o antagonismo se manifestou como fuga do mundo, no espírito, e prevaleceu a visão do ideal, no qual me refugiei, fazendo dele o centro da vida sem tomar em consideração o nosso meio. Este é visto não como negação do ideal, mas como um ambiente apenas da sua realização teórica. A primeira fase da Obra se mantém, plena de fé e ímpeto espiritual, no plano místico. Mas, atravessada a primeira etapa, devia-se chegar à segunda fase, que não é mais de contemplação dos princípios ideais, mas aquela em que, para não ficar em vão, exige uma realização na Terra, o que não agradaria ao homem. Foi assim que, nos últimos volumes, chegando às conclusões práticas, os dois opostos, ideal e mundo, tiveram de se avizinhar e tocar, para se fundirem, o primeiro penetrando no segundo. Então, veio o choque.

O ideal não podia atraiçoar a si próprio e devia permanecer coerente. Por lei de evolução ele é feito para ser realizado. Mas o mundo não quer ser incomodado. Enquanto o tratado era longínquo e teórico, era aceito como inócua exercitação filosófica ou literária fora da realidade da vida. Mas, quando desceu ao plano das realizações práticas, sentiu-se-lhe, então, a queimadura, e veio a reação. O mundo funciona com outros princípios e não quer ideais que incomodem. Em dois mil anos, com escapatórias e hipocrisias, conseguiu-se domesticar a religião de maneira que não perturbe. É, portanto, irritante uma denúncia dos próprios erros. Por isso, repele-se o médico que diagnostica uma doença e propõe uma cura fastidiosa. Todavia, em certos momentos históricos graves, é necessário falar. Daí não vem mal nenhum, porque é só falar. A parte mais importante do discurso, Deus a pronuncia com fatos e com os acontecimentos apocalípticos que estão amadurecendo, dado que esta é a linguagem que todos compreendem.

O estilo de vida proposto pela Obra para realização, na sua parte final, tal modo de entender e dirigir a existência pode parecer estranho ao nosso tempo, que é ativo, sobretudo em direção extrovertida, no plano físico, para finalidades materiais. O homem, como a ciência, dirigiu-se ao domínio do seu mundo exterior, mas ignora ainda o do seu universo interior. Aquela visão é insuficiente, porque não abrange todo o campo da vida. Se ela modifica o ambiente a favor do homem, deixa-o, no entanto, no estado de consciência do involuído, prevalentemente dominado pelos impulsos emergentes dos baixos níveis da animalidade. É assim que da descoberta da energia atômica, obra de grande gênio, o maior uso pode resultar em prejuízo em vez de vantagem, resolvendo-se num retrocesso, pelo que teria sido mais útil se não tivesse avançado neste sentido.

É, então, urgente aprofundar o estudo das ciências psicológicas para guiar o homem com inteligência, depois de haver compreendido como interiormente ele é feito, quais são as forças que o movem e as leis do funcionamento mental com que ele dirige a ação. Nós somos conscientes apenas de uma zona limitada de nosso ser. Com este pequeno centro de consciência pretendemos guiar-nos, ignorando o que existe nas profundidades de nossa psique, nos abismos do inconsciente, de onde provêm impulsos incontrolados dos quais ignoramos as origens, a sua técnica funcional e aos quais obedecemos. A introspecção e respectiva pesquisa interior são uma lacuna que o homem moderno deve preencher, numa civilização superlativamente extrovertida, na qual se vive psicologicamente projetado para o exterior, ignorando-se a si próprio. Invade-se a matéria, mas não se sabe penetrar no homem. Exploram-se os espaços externos, mas não se sabe fazê-lo nas amplitudes interiores. As grandes descobertas do futuro — necessárias para poder dar uma alma à nossa semicivilízação da técnica, sem a qual esta é incompleta — virão da exploração do inconsciente, isto é, daquele grande mundo interior que trazemos conosco sem dele termos conhecimento.

O homem é ainda manobrado pelos impulsos instintivos emergentes de tal inconsciente. Eles plasmaram a sua ética empírica e ilógica e o impulsionam para formas de ações contraproducentes, muitas vezes desastrosas, como no caso das guerras. Estas, como a delinquência, o vício e tantos males são devidos a um modo errado de pensar, a reações loucamente provocadas por uma absurda conduta, inconsciente das suas consequências, com profunda ignorância da arte de saber inteligentemente comportar-se. Será possível que a humanidade deva ainda funcionar com tanta estupidez, de modo que use as conquistas da ciência para destruir-se? Quando poderá o homem sair de tão desastrosa inconsciência?

É necessário aprender a agir diversamente, instruindo-nos com a arte do pensamento correto, que está na base da ação, sem o que cometeremos erros e geraremos sofrimentos. Pensar corretamente significa ser consciente do pensamento que dirige o funcionamento orgânico do todo dentro do qual existimos e nos movemos. Enquanto não pensarmos a vivermos de acordo com a Lei, seremos continuamente feridos pelas suas reações. Os maiores valores que sustentarão a nossa civilização não serão técnicos, mas espirituais. E serão descobertos não penetrando no mundo da matéria, mas no da psique. Não se trata de uma conquista de meios materiais com o domínio das forças da natureza por parte de quem permaneceu espiritualmente um selvagem, incapaz de saber fazer bom uso daquelas forças, porém de uma conquista de consciência, da ampliação do domínio daquele que se tornou evoluído, capaz de compreender o verdadeiro significado da natureza e de enquadrar-se no seu inteligente funcionamento, fazendo dela uso benéfico.

É certo que o atual domínio sobre as forças da natureza conquistado pela ciência é já um início de civilização. Se é a sua base material, não é, no entanto, ainda a civilização A nova espiritualidade que a formará não será de tipo religioso fideístico, empírico, ainda com base em instintos de exclusivismo, proselitismo, fanatismo, absolutismo etc., sobre o que, em grande parte se apoiam as religiões atuais, mas será uma espiritualidade científica, racional, demonstrada, positiva e universal, como é a ciência, baseada não sobre afirmações teóricas por princípio de autoridade, porém sobre a realidade do mundo interior, hoje ignorada, mas tão objetiva quanto a do mundo exterior, agora colocada em evidência pela ciência. Está provada a possibilidade da transmutação como propriedade fundamental das energias biológicas e psicológicas, fenômeno sobre o qual se apoia a evolução, sem o que ela não se poderia realizar. A ciência estudará a química naquele processo de sublimação, substituindo o velho método da repressão no subconsciente pelo de canalizar as energias vitais em direção ao Alto. Compreender-se-á, então, entre outras coisas, que o misticismo não é um sucedâneo ou um subproduto do sexo, como foi entendido por certo materialismo que está desaparecendo, mas um estado avançado de evolução em direção espiritual, resultado da sublimação vertical de todas as qualidades constitutivas da personalidade.

                                                ******

Continuemos a observar esses fenômenos também sob outros aspectos, para penetrar sempre mais a fundo, através do estudo de nosso caso, no mistério da psique e de outros problemas afins. Para o biólogo, habituado a constatar que o funcionamento psíquico é ligado ao de órgãos nervosos e cerebrais, é difícil conceber o primeiro isolado, independente do funcionamento dos segundos, de modo que possam sobreviver depois da morte destes Isto porque a vida não oferece exemplos de pensamento sem cérebro. Ora, o fato de que o caso que estamos estudando nos apresenta um pensamento de tipo intuitivo diverso do normal, ao nível cerebral, pode avizinhar-nos da compreensão da possibilidade de separação entre as funções psicocêntricas e as cérebro-cêntricas. Tal possibilidade implica uma vida mental independente do órgão cerebral e da morte física. Esta poderia ser uma prova da sobrevivência do espírito. É exatamente neste sentido que estou realizando experiências, possíveis porque, no meu caso parapsicológico, uso uma técnica de pensamento super-normal, podendo libertar-me um pouco das normais funções cerebrais e, ao mesmo tempo, observar além daquelas uma atividade mental isolável e independente.

Havíamos já explicado as diversas características que individualizam estas duas formas mentais e técnicas de pensamento A intuitiva transcende, sem dúvida, a normal; sabe funcionar por conta própria, separada e autônoma, tanto que a regular psicologia confia a ela um trabalho diverso do seu, executado de modo diferente. Evidentemente a personalidade humana possui ainda outras qualidades, além das ligadas aos órgãos do corpo. Eis, então, que ela pode funcionar também além dos limites dados pela capacidade daqueles órgãos. Deduz-se que eles — neste caso, o cérebro e o sistema nervoso — constituem o menos subordinado ao mais, isto é, são um instrumento que o indivíduo utiliza para produzir um tipo de pensamento proporcionado ao ambiente terrestre, a fim de poder viver aqui, sendo, entretanto, capaz de uma espécie de pensamento superior a este.

Existe, pois, o fato de que o efeito deve ser proporcionado à causa e ser da mesma natureza. Ora, matéria e espírito são de estrutura diversa, e um funcionamento cerebral não é proporcionado aos efeitos mentais que o transcendem em potência e em qualidade. Um caso semelhante é o representado pela impossibilidade de admitir que o tipo de personalidade seja o produto dos cromossomos e genes que o nascituro encontra nas células germinais dos genitores. Deveremos, ao contrário, admitir que a personalidade não derive do desenvolvimento desses elementos, causa da formação do seu tipo, que deles seria o efeito, mas que é preexistente ao nascimento e que, segundo o seu tipo já definido nas células germinais dos genitores, escolhe os elementos que mais lhe são adaptados, os que mais se lhe assemelham, para continuar a desenvolver-se consoante o próprio tipo. Isto acontece por afinidade e sintonia. Só assim a evolução pode seguir um desenvolvimento lógico, não confiado ao acaso como tentativa.

Na minha registração inspirativa, sempre observei que e técnica funcional do pensamento é, neste caso, diversa da que utilizo no estado normal, para os comuns trabalhos mentais da vida. O primeiro é um pensamento espontâneo, automático, que foge ao controle e à análise, independente da minha vontade de pensar e esforço de raciocínio para compreender. Parece até que os dois tipos de pensamento sejam antagônicos e se elidam, porque a intervenção consciente do pensamento cerebral paralisa o funcionamento do intuitivo. Este foge a qualquer intervenção. Se se força, desaparece. Parece que teme a luz, a exemplo do ectoplasma, que se esconde se observado na sua misteriosa técnica funcional, como se a vontade de dominá-lo constituísse uma vibração violenta que o destruísse. Ele é um pensamento autônomo, com uma personalidade e vontade sua, que não é a do sujeito; ele pensa com uma mentalidade sua, independente das opiniões deste. Se se põe a desenvolver um tema; não o demonstra analiticamente, mas o expõe resumindo-o, condensado numa série de sínteses. Se não tomo nota imediatamente, ou uma dessas me foge, o discurso continua deixando o vazio no lugar da proposição que fugiu. Se procuro encontrá-la, recordando ou esperando que se repita, não acho mais aquela ideia, mas outra que continua o discurso da precedente. Enquanto tudo isso sucede, o meu pensamento normal procura ver como funciona o outro. E é assim que aqui posso expor estas observações. Procuro colhê-lo de surpresa para apreender- lhe os segredos. Mas estas minhas intervenções cerebrais o embaraçam e paralisam. Para uma melhor recepção é-me útil ficar ocupado e, deste modo, distrair tal atenção, por exemplo, com boa música, harmoniosa e elevada, ou olhando reprodução de quadros de alta concepção ou de paisagens bem sintonizadas. Para a mente normal isto não significa inércia e, sim, uma quietude contemplativa, um estado de vigilância tranquila, harmonicamente ajustada ao ambiente espiritual em que estou submerso, num processo calmo de tornar mais aguda a sensibilidade, porém, em sentido diverso da comum percepção sensória. Trata-se de uma experiência estranha, se confrontada com o modo normal que conheço e que uso, comumente, de perceber e de pensar. Tenho a sensação de que isso seja comunicar-se telepaticamente com correntes de pensamento individualizadas, de maneira que dão a sensação de personalidade, com a qual o contato se faz tanto mais claro e intenso quanto mais exato é o grau de sintonização alcançado.

Tudo isso me prova experimentalmente a possibilidade de um pensamento não cerebral, elaborado no inconsciente, no plano espiritual, independentemente dos meus elementos mnemônicos e de minha precedente e consciente preparação mental. Tais experiências confirmam a minha convicção da sobrevivência da personalidade depois da morte. O estudo do meu caso parapsicológico me ajuda a resolver também este problema. Ele, no entanto, é enfrentado não só genericamente, mas também em sentido específico, ou seja, e preciso ver de que forma se sobrevive. São necessárias, então, outras observações.

A oposição cérebro-espírito corresponde à matéria-espírito, e também ela é um caso do dualismo universal. Aqui temos ainda uma bipolaridade de opostos inversos e complementares. Se observarmos como se desenvolve a vida do homem, constataremos claramente um dualismo de contrários. No período jovem temos um dinamismo físico, uma efervescência sensória, uma exuberância no plano matéria para desenvolver-se e afirmar-se. Mas a carga vital se esgota com os anos. O impulso evolutivo do jovem cansa-se e diminui até parar. No período senil tudo se inverte: calma, silêncio, repouso. A vida, que primeiramente se projetava toda em direção ao futuro, ansiosa de desenvolvimento, transfere-se para o passado e dela não restam senão recordações num cérebro cansado. Passa-se, assim, à posição oposta e complementar. Tal é o aspecto bifrontal da vida normal no plano físico e mental.

Ora, se a personalidade e o corpo fossem uma e a mesma coisa e a primeira dependesse do segundo, ela deveria seguir o mesmo ritmo. Pelo contrário, a vida psíquica segue um caminho diferente, o que mostra que se trata de um fenômeno de tipo diverso, portanto separável, de tal modo que pode subsistir, mesmo que isolado, depois da morte. Eis que o ciclo mental não corresponde ao físico. Cada indivíduo chega ao máximo de desenvolvimento da sua personalidade em períodos diferentes do seu ciclo físico, e isto conforme o nível evolutivo alcançado. Assim, um primitivo involuído, como faculdade mental, subirá até aos vinte ou trinta anos. Sendo baixo seu nível evolutivo, o máximo é rapidamente alcançado, e depois as faculdades mentais permanecem estacionárias e declinam, logo que o órgão da sua expressão, o cérebro, do qual não transcendem as possibilidades, decai. Um tipo normal de média evolução, mais alta do que a precedente, subirá, como faculdades mentais, dado que elas são mais elevadas, até um nível superior e poderá alcançar o seu ápice de maturação mais tarde, por volta dos cinquenta anos. Um evoluído super-normal continuará a ascender, como faculdades mentais, uma vez que estas são ainda mais elevadas, até um plano mais alto, e isto levará mais tempo, de modo que poderá ser alcançado o ponto máximo de maturação pelos oitenta anos.

O que em geral acontece com os três tipos, na velhice e na morte, com referência às qualidades psíquicas? Aqui vemos que os decursos das suas vidas, física e psíquica, não coincidem. O órgão cerebral começa geralmente a decair entre os cinquenta e sessenta anos. No tipo involuído as faculdades do pensamento desenvolvem-se até ao seu máximo de vinte ou trinta anos, estando na dependência do órgão cerebral, diminuindo com este. Assim para o tipo normal. Em ambos os casos, a velhice física comumente conduz à velhice mental. Isto porque a parte espiritual do indivíduo se apoia toda no cérebro, que a expressa, não transcendendo os poderes do instrumento. Então, pelo fato de que a psique não é bastante potente para ter feito uma vida autônoma independente, porque acima da capacidade do órgão que a expressa, a parte mental é obrigada a decair com este. Teremos, assim, na velhice aquilo que geralmente acontece, isto é, uma descida mental progressiva, culminando na morte, que será um extinguir-se da consciência até aos níveis do subconsciente alcançados pela personalidade do indivíduo.

Nos primitivos não desenvolvidos no superconsciente, ativos apenas no plano físico, a vida é apenas corpórea, e a morte dá a sensação de anulação final. Por isso, é olhada com terror. Mas isso não quer dizer que eles não sobrevivam. Isto acontece, mas caindo na inconsciência, ou ficando com a capacidade de pensar apenas no nível do subconsciente animal. Faz realmente sofrer aquela sufocante diminuição vital, o que torna temível a morte. Extinto o cérebro, que era a zona dentro da qual estava limitada toda a consciência do indivíduo possuía, mentalmente era como se este fosse finito, mesmo que sobrevivessem no seu subconsciente resíduos de reminiscências terrestres. Para tais indivíduos a vida é a do corpo no plano físico. Por isso, temem perdê-la. E, uma vez perdida, procuram-na reencarnando-se, para tornar a viver no seu ambiente físico, o único em que se sentem vivos.

Ao contrário, no indivíduo que alcançou um desenvolvimento mental e nível de consciência psicocêntrica mais avançado que o normal, a sobrevivência da personalidade no momento da morte advém sem nenhuma perda de consciência, em estado lúcido, sem a sensação de anulação e de morte. Isto confirma o que havíamos afirmado, isto é, a evolução em direção ao S conduzindo à superação de tudo o que é negativo, próprio do AS, como ignorância, dor e até a morte

Na velhice, que é o período em que por graus se começa a morrer, pode-se constatar e controlar a realização deste processo de desfazimento mental que acompanha o do cérebro nos indivíduos cérebro-cêntricos, de desenvolvimento mental inferior ou médio, como se pode observar a ausência deste enfraquecimento nos indivíduos psicocêntricas, habituados a funcionar mentalmente no nível supercerebral do superconsciente. A constatação destes fatos faz prever como será o gênero de morte que espera o indivíduo conforme seja o tipo a que ele pertence, isto é, se ela será uma queda na inconsciência, ou uma morte lúcida, sem perda de consciência e conhecimento. Para quem conhece quais são os resultados da evolução, é lógico que assim aconteça. Deste modo ele se liberta cada vez mais da morte, na medida em que dilata e potencializa a faixa do consciente à custa da zona do inconsciente.

Este é o fenômeno que agora estou, experimentalmente, controlando com aquela morte lenta, que é a velhice. Estou escrevendo estas últimas páginas na idade de oitenta e um anos, em plena lucidez, com técnica inspirativa supercerebral, isto é, com uma técnica de pensamento que não se ressente da natural dissolução senil do cérebro. Devo constatar o seguinte fato: se bem que o meu cérebro envelheça dando-me disso sinais no seu nível funcional, as faculdades intuitivas não sofrem as consequências disso e continuam a operar em seu plano, independentes daquele fato Isto me prova que o pensamento ativo no superconsciente não depende do órgão físico ao qual aquele pensamento está ligado, quando funciona ao nível normal. Ora, estar habituado a pensar em forma mental supercerebral significa ter conquistado um tipo de pensamento não ligado ao cérebro, da morte do qual a personalidade não sente os efeitos. Este pensamento sabe assim sobreviver intacto, em plena eficiência e lucidez, ao aniquilamento do corpo depois da morte. Agora que a velhice me está progressivamente matando no plano físico, o fato de que posso continuar a viver plenamente no nível mental me indica a continuação deste tipo de existência espiritual também depois da morte material. Se esta, que já está demolindo corpo e cérebro, não altera realmente o meu pensamento, isto quer dizer que ele lhe escapa e que poderá sobreviver intacto. Tal convicção me é confirmada, porque a natural anulação senil cerebral não só não altera esse pensamento, mas, definitivamente, o liberta das coações de forma material, tornando-o cada vez mais límpido e profundo, o que faz presumir que é desta forma que ele sobreviverá.

E nesta fase final do fenômeno que, podendo observar o enfraquecimento senil do órgão cerebral, posso melhor isolar e distinguir as duas formas de pensamento que vejo funcionar: a cerebral e a intuitiva. No atual período, a primeira se faz mais cansativa, a segunda mais evidente. Durante quase quarenta anos de uso, conheço bem estas duas formas mentais, com as quais construí a Obra. O pensamento cerebral tem sido um meio de registração e fixação do lampejo intuitivo, como também um instrumento de tradução deste na forma mental consecutiva, feita de anéis encadeados na sucessão lógica do pensamento racional. O pensamento intuitivo era, ao contrário, imediatamente resolutivo. Fornecia, já elaborados, os totais das operações, para chegar ao pensamento cerebral que devia depois — e era preciso fazer-se compreender pelo leitor — realizar sucessivamente e mostrar-lhe o desenvolvimento daquelas operações. O pensamento cerebral é extrovertido, feito para entrar em contato com o ambiente terrestre e nele resolver o problema da sobrevivência. O pensamento intuitivo é introvertido, dirigido ao domínio de si mesmo e das íntimas forças da vida, outro mundo submerso e profundo, invisível na superfície. Agora constato que é a primeira forma de pensamento que envelhece e não a segunda, o que me dá motivo de crer que a primeira possa morrer com o cérebro, não a segunda. Tenho a sensação de que, quanto mais nos avizinhamos do superconsciente, tanto mais se pode atravessar a morte em estado de lucidez e consciência e que assim se possa ficar além dela. A tendência atual é funcionar cada vez mais consciente no superconsciente, que já está observando a lenta morte do meu pensamento no nível cerebral.

Isto me mostra qual é a trajetória dos dois fenômenos, segundo a qual cada um deles se desenvolve. O fenômeno ao qual agora assisto na velhice é que o pensamento não para, mas muda de forma. Ele se interioriza, vê as coisas sempre mais por dentro, em vez de por fora, para concluir em lugar de analisar. Parece que ele adquire em qualidade aquilo que perde em quantidade, porque se faz mais agudo e profundo. Ocorre como se estivesse destilando para chegar a um estado de concentração e de potencial que o cérebro não tem mais a capacidade de sustentar. Parece que o pensamento foge do plano cerebral, explodindo para além dos limites deste, a fim de transferir-se a outra dimensão. Sinto, então, que estou pensando o inexprimível e fico mudo, impossibilitado de traduzi-lo em palavras que não encontro na forma mental humana. Assisto, por um lado, ao fenômeno de uma extinção e, por outro, ao de uma iluminação, que lhe toma o lugar. Trata-se de uma substituição, com a qual não se perde, antes se ganha. Porém o trabalho de transportar os conceitos ao normal nível cerebral torna-se cada vez mais difícil, porque, quanto mais se abre o novo mundo no alto, sinto que tanto mais se afasta o velho mundo em baixo. Tudo isso me faz supor que, estabilizada de agora em diante esta trajetória no desenvolvimento do fenômeno, tal transformação continuará até à morte e depois dela, e que este será o tipo de pensamento em que sobreviverei. Assim, por natural maturação evolutiva, estarei morrendo ao nível mental normal, relativo ao ambiente terrestre e ressuscitando no plano mental do superconsciente, provavelmente próprio de outros estágios de evolução. Em outros termos, depois de uma exercitação de quarenta anos a que devo a elaboração da Obra, verificar-se-ia a estabilização definitiva do fenômeno inspirativo, por longo uso transformado em qualidade adquirida.

Tudo isso significa a futura transferência a outro plano biológico, e agora a respectiva adaptação ao diverso tipo de vida e de pensamento próprio daquele novo ambiente. Trata-se, portanto, de uma transformação justificada pela lei da evolução, segundo a qual, quanto mais se sobe, tanto mais se tende à espiritualização. Nesses mais altos níveis, o trabalho do ser já não consiste na luta para selecionar um tipo forte, o mais apto a sobreviver, porém baseia-se na conquista do conhecimento e expansão da consciência, fato que na Terra interessa só a uma minoria. Mas, neste nosso próprio mundo, para a sua evolução, o futuro da civilização está nesta interiorização de pensamento, nesta penetração introvertida, dirigida a descobrir realidades espirituais hoje desconhecidas, nas quais está a chave do mistério da vida. Como

sucede com o indivíduo na velhice, assim também com a humanidade, a maturação levará à introversão, isto é, a uma sempre maior penetração do mundo interior. No fim de cada ciclo evolutivo, no seu caminho projetado para a frente, quanto mais amadurece, tanto mais, na vida do indivíduo como na dos povos, se verifica este fenômeno: o impulso extrovertido, próprio da juventude e dirigido à experiência terrestre, no final desta é reabsorvido em sentido introvertido para depositar-lhe os resultados nas zonas interiores da vida, onde está a substância da evolução e se processa o íntimo trabalho do seu desenvolvimento. É nestas camadas profundas que a vida se retrai para realizar as suas elaborações no período pós-morte.

Como se vê, o estudo de nosso caso parapsicológico nos levou longe, mostrando-nos que se tratou não só, como já foi explicado, de escrever uma Obra, mas também de realizar o trabalho de maturação de um destino, tarefa que investe toda a personalidade humana e penetra, até as mais profundas raízes, no fenômeno da vida, da redenção, da evolução. O nosso caso contém muito mais do que um fenômeno parapsicológico, porque a Obra não foi só telepaticamente recebida ou captada como pensamento, senão também seguida como missão e vivida como redenção. A comunicação telepática não foi apenas com esta ou aquela particular corrente de pensamento, porém, mesmo que limitada a alguns dos seus aspectos, com a imensa corrente de pensamento constituída pela Lei, que percorre, onipresente, todos os caminhos do universo para lhes reger o funcionamento. Não é possível deixar de encontrá-la e de nela se submergir logo que a intuição nos faça penetrar na profundeza do ser. Assim, bem mais do que uma simples exercitação literária, a Obra é vida, ansiosa de desenvolver-se, vibrante da vontade de subir, de conquistar sempre maiores espaços Não obstante a queda, nela grita a voz do Sistema, a da divina substância de que estamos feitos e que permaneceu indestrutível em nosso universo reduzido a Anti-Sistema. Ela é a voz do Deus imanente que ficou neste mundo derrocado para reconstruí-lo. De dentro dá o impulso para emergir do AS em direção ao S.

Realizou-se a oferta da Obra, isto é, um novo passo em frente na sua longa viagem do céu à Terra. Agora o seu caminho no mundo toma uma forma cada vez mais autônoma. O filho concebido pelo pai, gerado pela mãe, que com longa elaboração interior lhe deu um corpo na Terra, tirando-o da própria carne, começa a caminhar, com as suas pernas, como criatura independente. É neste momento que aqui resumimos a sua posição, para defini-la sobre o fundo do quadro geral de todo o fenômeno. Mais adiante, em outros capítulos, observaremos este caso mais exatamente no plano parapsicológico. Agora, queremos, sobretudo, orientar-nos para compreender a sua origem, significado e desenvolvimento, no momento desta encruzilhada em seu percurso. Depois de haver compreendido como tudo isso funciona, poderemos melhor avaliar as consequências.

A respeito deste caso se falou muito de mediunidade. Ora, se isso é assim, o é em forma tão diversa da comum, que chega a ser difícil catalogá-lo sob este nome. Segundo o tipo corrente, a mediunidade é: passiva, inconsciente, irresponsável, genérica, promíscua. A mediunidade, em nosso caso, é, pelo contrário: ativa, consciente, responsável, específica, exclusiva. Como se vê, estamos nos antípodas.

Expliquemos. Não é que neste caso o sujeito não receba. Ele funciona como instrumento, mas de forma diferente. No caso comum o médium adormece, abandonando-se na passividade, como instrumento cego e irresponsável, nas mãos de qualquer entidade espiritual que queira apossar-se dele. Isto para que ela transmita a seu bel-prazer uma comunicação qualquer, sem que o sensitivo possa intervir, seja como escolha autônoma da comunicação, seja como consciência do seu conteúdo e da técnica do fenômeno. Em nosso caso, ao inverso, o médium coloca-se num estado mais ativo de superconsciência do que o normal, sabe com quem se comunica e o que lhe é transmitido; disso assume toda a responsabilidade depois de o ter bem compreendido e examinado. Ele coloca-se livremente neste estado receptivo com o objetivo de executar um específico trabalho conceitual, somente esse e não qualquer outro, para determinados fins espirituais e não somente o de comunicar. Por fim limita o contato e o mantém apenas com a fonte de pensamento dele conhecida, não se submetendo a nenhuma outra. Em nosso caso, o sensitivo não é um instrumento puramente mecânico no nível físico, como é a mão do psicógrafo.  Ele permanece no plano mental, onde funciona como colaborador encarregado de executar a parte mais simples da obra, que consiste em expressá-la com palavras, em traduzi-la na forma mental própria do estágio evolutivo humano. Encontrando-se o médium totalmente desperto e tudo controlando, esse caso possui a vantagem de não ser possível que a sua mediunidade seja utilizada como desabafo do subconsciente, deixando-a livre no estado de transe com a fonte inspirativa

A superioridade desse tipo de contato espiritual é devida ao fato de que ele corresponde aos fins da evolução, que ele corresponde aos fins da evolução, que consistem no desenvolvimento da consciência e não em paralisá-la para colocá-la a serviço de desconhecidos, cuja identidade e valor moral desconhece. Elementos ruins já ternos bastantes na Terra, para que seja necessário ir à procura deles noutro lugar. O objetivo da vida e avançar, e não retroceder. O que não serve para o fim principal que é evoluir, é de importância secundária.

Ora, a primeira coisa que se realiza nos casos de nosso tipo é exatamente a ascensão espiritual do sujeito. Assim, o fenômeno, através do qual ela se realiza, se poderia melhor chamar de "telepatia". Trata-se realmente de uma comunicação consciente entre duas fontes de pensamento: uma espiritual, e a outra encarnada no plano físico; a primeira tão imaterial que pode ser individualizada somente como corrente de pensamento ou centro conceitual irradiante. Mas o maior valor de tal fenômeno consiste no fato de que ele interessa de perto à evolução, enquanto se verifica entre dois planos diversos. Estabelece-se, assim, uma comunicação pela qual se realiza uma descida de valores ideais do Alto, funcionando um indivíduo como canal desta descida. Então, ele se eleva do plano físico até à fonte para captar-lhe o pensamento e depois transportá-lo à Terra, absorvendo-lhe o valor espiritual em primeiro lugar para si próprio. Temos, portanto, um caso de telepatia entre dois centros pensantes situados em dois níveis diferentes, resultando deste contato também uma escola de ascensão do inferior por obra do superior e em direção ao seu nível. Aqui a função evolutiva assume uma tarefa de primeiro plano, seja como descida de ideais na Terra para o progresso da humanidade, seja como ascensão espiritual do indivíduo comunicante, graças a tal estado de contato e colaboração. De fato, a fonte é conhecida; é uma só e sempre a mesma; a relação constante é devida a uma estabilidade na sintonização da qual nasce uma espécie de convivência espiritual, situação permanente, bem definida, correspondente a fins preestabelecidos.

   O fenômeno resulta, portanto, do concurso de várias condições: sensibilização do sujeito por evolução; contato com a fonte de pensamento situada num plano mais elevado; sintonização com ela; estabilização de contato telepático, através do qual se fixa a ponte da comunicação. Tudo isso deixa intactos e livres os dois centros de pensamento comunicantes, cada um ficando íntegro em sua personalidade, inconfundível, independente, sem qualquer abdicação, confusão ou mistura de tipo mediúnico. Forma-se, assim, um elo permanente entre duas consciências, uma união entre dois elementos complementares, como pode suceder na Terra, no plano físico, com o matrimônio. Fazemos esta aproximação como confronto, porque a tendência do fenômeno aqui em exame é justamente a de chegar a uma fusão estável e profunda de almas, que se ligam para fazer em conjunto um trabalho espiritual, que é o fruto a nascer desta união. Por isso falamos de colaboração.

Não se pode dizer que o princípio da união pai-mãe, da qual nasce o filho, deva ficar limitado ao nosso plano físico e que ele não se possa repetir em mais altas formas paralelas no plano espiritual, no qual os dois elementos geradores, do produto de sua união, são de natureza exclusivamente conceitual. Cada um dos dois contribui com as suas diferentes qualidades complementares. Vemos na natureza que a centelha da gênese criadora nasce sempre da fusão de dois elementos opostos desse tipo. Ora, se é difícil que tais uniões espirituais possam realizar-se no tipo corrente, que fica saciado no seu nível, porque neste plano lhe é fácil encontrar o seu termo complementar, elas são mais fáceis de verificar em nível mais evoluído. Aí constituem uma necessidade, dado que, pela sua natureza, o outro termo, para se completar, tem necessidade de encontrar o seu elemento complementar, evolutivamente, mais no alto. Isto pode acontecer sobretudo para quem, no momento em que amadureceu ao ponto de poder dar o salto evolutivo que o leva a um nível biológico superior, procura juntar-se a qualquer coisa na Terra, no plano humano, e não consegue encontrar.

Esta relação pode comparar-se também àquela que existe entre mestre e discípulo. Mas, em nenhum caso, nunca uma das duas personalidades se apossa da outra e a ela se substitui. Todavia, a diferença de nível evolutivo não impede a aproximação e a colaboração que se realizam sempre com o maior respeito pela personalidade do outro. O mestre transmite e fecunda, mas não se apossa por esse fato do discípulo, não se lhe substituindo. É lei que, quanto mais se evolui, tanto mais se respeita, como coisa sagrada, a personalidade do próximo.

Tal fenômeno não pode surpreender, porque vemos que ele não é excepcional na natureza, onde existe este princípio de dependência e subordinação de um elemento em função de outro, de tipo complementar, sem que isso signifique a sua diminuição, mas somente a sua complementação. Vemos, assim, que os planetas giram à volta do sol, os elétrons em torno do núcleo do átomo, as nações mais débeis em redor das mais potentes, os subordinados à volta do seu chefe, a fêmea em torno do macho etc. Em todos os casos, verifica-se sempre o mesmo fenômeno, pelo qual, logo que surge um indivíduo de tipo centro, dispõem-se ao redor dele e se põem com ele a funcionar aqueles que lhe são complementares. Esta é uma técnica que a vida adota para coordenar os seus movimentos e organizar os elementos menores em unidades coletivas maiores. Ora, é natural que também o evoluído seja envolvido nesta técnica e que a siga, pondo-se a operar em relação a um centro proporcionado ao seu tipo de evoluído, isto é, uma fonte espiritual situada acima do plano humano.

Forma-se um elo de relações, como um acasalamento entre o elemento periférico e o central, com recíprocas funções, integrando-as. Não podemos aqui aprofundar o estudo desta técnica, que, neste momento, observamos só para explicar o caso tomado em exame. Tudo isso sucede de forma espontânea e automática, em obediência a determinadas leis.  Querer violá-las, falsificando e usurpando posições que não correspondem à verdadeira natureza do indivíduo que as ocupa, é loucura que somente a inconsciência do involuído pode julgar realizável. Tal acasalamento é tanto mais livre e consciente quanto mais evolutivamente se sobe. Nos planos superiores, ele se alcança por consentimento recíproco e depois implica a observância dos compromissos que cada um tomou em relação ao outro, conforme a própria natureza e posição, como fazem o pai e a mãe, segundo a parte que a cada um respeita no trabalho comum de formar uma família. Como neste caso, constitui-se, então, um círculo fechado, baseado na cooperação, defendido pelo dever da recíproca fidelidade, sem promiscuidade de relações estranhas. Nestas uniões espirituais tal situação de exclusividade é imposta pela necessidade de coordenar o trabalho comum e de construir um único sistema de forças.

Nos contatos espirituais, tal exclusividade é necessária também, porque a passagem de outra personalidade através da que recebe deixa sempre vestígios. Daí a necessidade de que a fonte seja pura, bem individualizada e que fiquem fechadas as portas ao ingresso de quaisquer outras entidades desconhecidas que não se tenham joeirado e livremente escolhido. Em suma, a casa de nosso espírito não se pode deixar aberta a todos. A posição da mulher é sã e honesta, quando ela se oferece no matrimônio para formar uma família, e não quando introduz na sua intimidade qualquer macho que queira dispor dela. Deste modo a casa torna-se uma estrada suja por onde passam todos, mas impossível de ser habitada. Então, o contato é provisório e estéril, dele não nasce coisa alguma, além de um fugaz prazer, e não se chega a nenhuma construção espiritual como fruto da união. Não se forma o sistema centro-periférico, e tudo se dispersa sem fecundação nem criação. A vida repudia esses namoros vazios que não servem para os seus fins. Desse trabalho, de fato, não nasce um fruto orgânico, mas apenas detritos de pensamento, células espalhadas; não se gera um filho completo, feito para crescer e viver.

Eram necessárias essas premissas para compreender o nosso caso. Podemos, assim, entender como o fenômeno se produz pela conjunção de três elementos. Então, a Obra resulta constituída pela fusão dos seguintes termos:

1)    A fonte de pensamento, ou fonte inspirativa, ou centro irradiante, isto é, o ponto de origem do fenômeno, o elemento positivo, ativo, dinamizante, fecundador, iniciador do movimento, situado no plano espiritual.

2)    O ser humano a ele subordinado, funcionando como instrumento de recepção, mas em posição de colaborador livre e consciente que a ele se liga por adesão espontânea para cumprir o mesmo trabalho, embora de forma complementar. Este funciona como canal na descida de princípios ideais, para dar a sua expressão no plano humano. Para fazer isso ele deve receber, e também captar, pensar, interpretar, traduzir, fazer tudo o que é necessário para executar a parte do trabalho que lhe compete. Neste sentido ele é fecundado, mas não passivamente; antes é um elemento cooperador complementar do primeiro na execução da mesma Obra, ainda que seja em posição subordinada. Assim, o elemento que está no alto se abaixa, enquanto aquele que está embaixo se eleva, até se encontrarem e se fundirem num mesmo circuito. Disto se vê que a importância do fenômeno reside no seu aspecto evolutivo mais do que no telepático, que não é senão um meio para alcançar o fim maior da vida, que é a evolução, neste caso, a do elemento humano cooperador. Trata-se, de fato, como referimos acima, de uma aproximação entre dois níveis evolutivos diferentes para estabelecer uma comunicação que se resolva num curso de espiritualidade que fatalmente tende a fazer subir a parte inferior.

3)    A Obra é o terceiro termo, que resulta da fusão dos dois mencionados elementos em um mesmo circuito; é a criatura espiritual gerada da união espiritual, o filho dela nascido, ao qual o primeiro termo deu a alma e o segundo o corpo, revestindo-o de uma forma no plano sensório humano.

Como se vê, o modelo da gênese, também, neste caso, é trino, como o é no da criação universal, no qual temos os seguintes termos:

1)    A centelha do pensamento criador. 2) A ação que realiza a gênese, dando-lhe forma. 3) a Obra criada resultante da cooperação dos dois primeiros elementos.

Isto corresponde à natureza trifásica do universo: 1) Espírito. 2) Energia. 3) Matéria, em que se projeta a Trindade máxima: 1) Espírito, 2) Pai, 3) Filho.

Este fato não é para admirar num universo funcionando por tipos ou modelos fundamentais, repetidos em todas as alturas e dimensões. Depois destas observações, podemos compreender qual é a técnica da gênese de nossa Obra. No seu início as Mensagens Espirituais bem como A Grande Síntese representam a primeira manifestação de uma forma de contato no qual o receptor é em grande parte passivo e em que é outra individualidade que fala. Mas depois, rapidamente e, cada vez mais, nos escritos sucessivos, esse receptor se transforma em elemento ativo, abandonando o método receptivo para assumir o de colaborador que capta e interpreta. Neste momento, desaparecida a forma mediúnica inconsciente e passiva, quando o fenômeno assim se desenvolvia na sua plenitude, preenchendo a sua função fundamental, ele deixou de interessar ao Espiritismo, porque foram ultrapassados os seus limites de forma.

Este processo foi preparado por duas provas no período que vai dos 25 aos 45 anos do autor. Superada esta fase de maturação, despedaça-se o diafragma que dividia os dois termos e com as "Mensagens" se estabelece o primeiro contato. Neste instante aparece o voto de pobreza, necessário para que aquele contato pudesse fixar-se com estabilidade, rompendo toda a ligação com o mundo. Vê-se logo a importância desta decisiva tomada de posição perante todo o desenvolvimento do fenômeno. Como consequência desta sua primeira fase, como se referiu no final do Cap. 1 deste volume, foi traçado, na primavera de 1932, o plano de trabalho do qual depois nasceu a Obra. Naquela ocasião foi livremente fixado um compromisso de ambos os lados, com recíproco pacto de fidelidade. O centro irradiante, se bem que superior, desejava respeitar totalmente a liberdade do instrumento, oferecendo apenas e não impondo o referido trabalho, condicionando-o a uma espontânea aceitação. (Grandes Mensagens).

A gestação da Obra durou quase quarenta anos, e o feto se formou e nasceu. E neste momento que queremos aqui orientar-nos para compreender o que sucedeu. Tudo foi previsto há muito tempo, quando não era possível sê-lo, e se realizou segundo um processo lógico, desenvolvendo-se harmonicamente, com proporções de períodos de tempo e de meios adaptados ao fim, de modo que não se pode deixar de reconhecer, escondida na profundidade do fenômeno, a presença de uma inteligência diretora. E a constatação da existência de um plano preposto à sua execução, o qual se desenvolveu depois com regularidade, é a observação, agora já depois dos fatos consumados, de toda a arquitetura do fenômeno concebido e depois realizado em forma musicalmente rítmica, é a realidade desses fatos que nos impõe chegar a tão surpreendentes conclusões.

Tal compreensão do fenômeno, através da visão do seu passado, é importante, porque nos leva ao conhecimento do significado da Obra, como da sua posição atual e seus prováveis desenvolvimentos. O processo que aqui vemos em ação é um caso particular da descida dos ideais à Terra, o qual estudamos no volume anterior que tem este título. Com a técnica que aqui examinamos, neste caso uma ideia de um plano superior desceu ao mundo, formalizando-se numa Obra escrita. Ainda mesmo no estado de pensamento somente escrito e não vivido, ela é já uma criatura completa, um organismo que funciona, move-se, vive, quer viver e por isso nasceu para continuar a existir no mundo. A Obra é de tipo crístico, evangélico, como é a fonte da qual deriva, mesmo que depois tenha de se vestir de forma racional e científica para poder ser aceita no mundo. Esta criatura, assim nascida, tem agora uma personalidade bem definida e, conforme sua natureza, começa a sua peregrinação na Terra. Deste fato resultam algumas consequências.

Trata-se de um sistema conceitual, amplamente explicado nos seus detalhes até às suas conclusões. Disto se vê que não há necessidade de interpretações que lhe alterem o sentido para adaptá-lo aos interesses de um grupo, seja qual for, como se costuma fazer em nosso mundo. A Obra se estendeu até à sua atual amplitude, precisamente para que pudesse também conter a sua interpretação.

A técnica da gênese da Obra nos mostra que ela é completa nos seus limites estabelecidos, pelo que, uma vez chegada à sua última palavra, ela se fecha, o fenômeno da comunicação telepática se detém, a fonte inspirativa emudece e, tendo o seu canal exaurido a sua tarefa, a transmissão se interrompe e se cala definitivamente. A criatura nasceu, é agora um ser vivo a cujo organismo não se podem mais acrescentar modificações. Ele é defendido pelas forças do Alto que reagirão contra qualquer atentado em tal sentido. A responsabilidade e as consequências recairão sobre quem o perpetrar. Com a Obra o instrumento humano esgota toda a sua função. Não há, portanto, nada a modificar, acrescentar ou retirai àquilo que já está escrito e que permanece tal. O seu caminho leva agora, fatalmente, aquele instrumento para longe da Terra, na qual, por mais de oitenta anos, sofreu e trabalhou bastante. É lógico que ele se dirija para o outro termo com o qual se ligou, agora já definitivamente. Segue-se daí que qualquer chamada por via mediúnica será inútil, que qualquer comunicação obtida desse modo será ilusão um desabafo incontrolado do subconsciente do médium, mesmo que de boa-fé. Dizemos isto claramente neste livro para que fique escrito, a fim de evitar qualquer equívoco. Dado que o exato escopo de todo o processo foi a criação da Obra, uma vez alcançado, é lógico que o fenômeno deva se fechar, assim como se encerra toda a atividade genética quando nasce a criatura que foi gerada. É natural que, uma vez dito aquilo que se deve dizer, emudeça-se. Seria absurdo voltar a falar em outro lutar e época pela boca de incompetentes, estranhos ao fenômeno, desordenadamente, contradizendo os princípios de harmonia e organicidade observados tão rigidamente em toda a Obra.

Com isso esclarecemos a posição dos dois elementos: fonte inspirativa e seu instrumento humano. Falta agora, no momento de conclusão da Obra, estabelecer qual é na Terra a situação deste fruto derivado da sua fusão, o terceiro termo que dela nasceu, cuja gênese agora se completou. Cessa o trabalho inspirativo, e os dois primeiros componentes desaparecem da cena. Resta só o seu produto no ambiente terrestre. Agora entra em ação um novo fator; o mundo, por sua vez ativo e em outra direção, aquele contra o qual Cristo tão energicamente se declarou. De agora em diante, a execução do trabalho não depende mais dos três termos, fonte, instrumento e Obra, mas se compõe só de dois: a Obra e o mundo.

Observemos o que acontece. Explicamos no citado volume anterior o fenômeno da descida dos ideais. Estes representam novas perspectivas biológicas, antecipações de evolução, tentativas de realizações futuras lançadas em frente para explorar o desconhecido e preparar-se para entrar em mais altos planos de evolução. Trata-se de projetos de tipos de existência mais adiantada, descidos daqueles planos, como sucedeu para cada verdade revelada. O nosso mundo vive em outro nível, mais baixo, regulado por leis mais vizinhas da animalidade. No referido volume, observamos como o mundo reage contra estes impulsos ascensionais, seja rebelando-se abertamente contra eles, seja torcendo-os para os adaptar às suas próprias comodidades. Então, o ideal, ao descer à Terra, se encontra subitamente perante um inimigo que, em vez de aceitá-lo, procura destruí-lo ou explorá-lo. Isto porque esse mesmo ideal exige um fatigante esforço ascensional que o involuído não tem nenhuma vontade de realizar. Daí ser o ideal assediado por um inimigo, também porque nega as leis daquele nível inferior de vida e se propõe a substitui-lo. Os objetivos são opostos. O ideal quer, à custa de sacrifícios, a evolução em direção ao espírito; o mundo deseja, para satisfazer os seus próprios interesses e prazeres, ficar onde está. Assim, a primeira coisa que a Obra encontra na Terra é o choque com o mundo. Neste momento, o fenômeno que vimos até agora desenvolver-se de determinada forma toma outra, a de luta entre aqueles, que agora são os seus dois elementos constitutivos: o ideal e o mundo.

   No fundo, trata-se do mesmo processo de antes, que continua, porque é a Obra que, na sua forma escrita, toma o lugar da fonte inspirativa da qual contém o pensamento que nela se fixou, enquanto a humanidade receptora assume o lugar do instrumento registrador. Como acontecia no caso precedente — para a fonte de pensamento e a Obra — agora esta funciona como elemento fecundador, enquanto a humanidade é o termo fecundado. Como no caso anterior, eles devem combinar-se, desta vez com o objetivo não de elevar um indivíduo e produzir uma Obra, porém de oferecer uma contribuição para arrastar para o Alto o ser humano e criar um mundo mais adiantado. O resultado da primeira fase do processo era a Obra; o da segunda é um novo tipo de vida mais civilizada. Há, contudo, uma diferença: se mesmo neste caso a oferta respeita a liberdade do receptor, como acontece por parte da fonte inspirativa perante o seu instrumento — e, portanto, o mundo é livre de aceitar ou não — esta espontaneidade de adesão não existe por parte deste, de tal modo que o fenômeno toma, ao contrário, a forma de choque e de luta. É natural que tal descida encontre essas resistências, maiores que no caso precedente da criação da Obra, porque agora o Alto deve descer até enxertar na matéria. Ora, a primeira fonte não deve apenas revestir-se, como no caso da Obra, de uma forma de pensamento, mas tomar corpo no plano concreto da vida humana; deve penetrar nela para vivificá-la com um novo sopro espiritual.

Se estas resistências terrenas, como a maior profundidade de desnível a superar na descida, representam o aspecto negativo do fenômeno, há, todavia, nele também a parte positiva. Está constituída pela filiação do primeiro elemento genético de todo o processo qual seja o centro irradiante, seu ponto de origem, como já dissemos, por sua natureza positivo-ativa dinamizante, fecundadora e iniciadora do movimento, porque situado num plano espiritual mais elevado, mais potente do que nos níveis evolutivos inferiores, que não podem deixar de lhe ficar sujeitos.

Ora, esta positividade é uma das características fundamentais da Obra e constitui a sua força no ambiente humano, que se mostra negativa em relação a ela. De fato, ela existe como afirmação, sem luta e agressividade. O mundo existe, pelo contrário, como revolta, feita de embate e violência. A primeira é simplesmente construtiva, sem impulsos negativos. O segundo é destrutivo, impregnado de negatividade. A primeira se manifesta como oferta, como uma dádiva gratuita que respeita a liberdade do próximo. O segundo, na sua posição de receptor, se rebela para não aceitar, tentando sujeitar e explorar o doador. O próprio fato de ser mais evoluído significa estar mais próximo do S, que é positivo, portanto possuir maior dose de positividade; como, ao contrário, o fato de ser mais involuído quer dizer estar mais próximo do AS, que é negativo, logo conter maior grau de negatividade. Tudo isso está escrito nas leis da vida, e cada coisa não obstante todas as resistências, só pode terminar por colocar-se no ponto que a espera, conforme a sua natureza e o seu real valor, porque é isto que estabelece a função que ela deve realizar na fenomenologia universal e, nesta, a sua relativa posição.

Para quem compreende e aceita esta realidade não faz sentido falar de superioridade ou inferioridade. Tal valorização dos referidos conceitos em sentido humano pode aparecer somente no plano onde funciona a forma mental da luta, violência, orgulho de vencer, ideias que não têm mais sentido, logo que se supere este nível. A Obra está fora disso. Por este motivo ela apresenta-se apenas como afirmação de verdades, não como agressão para demolir outros sistemas. Se há debates, é só para oferecer melhoramentos, não para mostrar uma superioridade terrena qualquer. Em nossos livros usamos frequentemente as palavras, evoluído e involuído. Seja qual for o modo com que o leitor as queira entender, elas não são usadas com nenhum sentido de orgulhosa superioridade para dominar, ou de humilhante inferioridade que subordina. De fato, todas as posições são relativas, e, ao longo da escala da evolução, não há quem não tenha um seu superior e um seu inferior. Além disso, quanto mais se sobe, tanto mais se afirma o Amor, o princípio da unificação, qualidade do S, o que faz a superioridade consistir num dever de ajuda em relação aos inferiores, infelizmente, porém, quanto mais se desce, tanto mais domina o egoísmo e a rivalidade, o princípio separatista, qualidade do AS, o que faz conceituar a superioridade como domínio que subordina e esmaga os inferiores. Assim se explica por que, em nosso mundo, possa nascer a ideia de que à distinção entre evoluído e involuído corresponda um sentido de orgulhosa superioridade.

Estas observações mostram-nos quais os tipos de forças que entram em luta no fenômeno da descida dos ideais na Terra, do qual a Obra, cujas vicissitudes estamos estudando, não é senão um caso. O que sucede quando, nesta descida, o evoluído entra em contato com o involuído? Como vimos no caso da oferta, o elemento superior é levado, pela sua natureza, a colocar-se a serviço do inferior. Mas em que forma pode fazê-lo? Além de o educar, convida-o a evoluir, porque nisso consiste o seu verdadeiro bem. Entretanto, o involuído o entende ao contrário. Ele não quer de fato ser educado, a fim de subir, em seu próprio benefício; prefere dominar o evoluído para colocá-lo a serviço da sua involução. Então, as relações entre os dois não podem ser senão de luta, sem possibilidade de compreensão e colaboração, tendentes à violência. Neste caso, só se podem verificar duas posições: 1) o evoluído desce ao mesmo nível do involuído e põe-se a travar a luta terrena, até que um dos dois submeta o outro; 2) se o evoluído não se rebaixar a fazer isso, ensina com a palavra e com o exemplo e, depois, para não entrar em luta com o involuído, deixa-se eliminar e vai viver no céu. Este é o caso de Cristo, que rejeitou o reino terreno que os hebreus lhe ofereciam e aceitou ser rei apenas nos domínios de Deus. O caso oposto é o do que entra em luta no plano terreno, procurando utilizar o ideal para satisfazer os seus próprios interesses.  O método mais fácil e usado é o da hipocrisia, explorando a boa-fé dos honestos. O involuído se veste de evoluído e, mascarado, trava a luta do involuído. É assim que na Terra se usa o ideal pelo avesso. O sacrifício para elevar-se transforma-se em hipocrisia para explorar Quisemos esclarecer estes pontos para mostrar o que esperava a Obra no seu primeiro contato com o mundo e o que ela teria encontrado ao descer para se realizar. Mas, antes de observar estas suas novas vicissitudes, para melhor lhe compreender o significado, focalizemos outros aspectos do fenômeno, analisando a natureza e os movimentos das forças que neste caso encontramos em ação.

Falamos acima de positividade da Obra. Ela é sobretudo afirmativa. Diz: "Os fenômenos funcionam de tal modo; observem-nos; isto corresponde à realidade; eis aí as provas". Esta positividade coloca a Obra em uma posição central, porque, dada a sua natureza e qualidade, esta é a situação que a espera, e outra não poderia ser A sua natureza lhe advém da fonte que a gerou, das virtudes do seu centro irradiante, que vimos ser positivo, ativo, dinamizante, fecundador, iniciador de movimentos. Estes atributos tornaram-se assim os da Obra, e são eles que lhe conferem e, automaticamente, a fazem assumir uma posição central.

Até agora ela não se havia podido definir, porque tudo isso não tinha aparecido, dado que a Obra não tinha ainda nascido. Na fase de gestação ela necessita de paz e silêncio, porque o trabalho era interior e profundo e devia ser protegido de intromissões por parte de estranhos, inconscientes a seu respeito. Era necessário que apenas poucos compreendessem para que muitos não perturbassem, dados os seus instintos agressivos, ficando desviados para outras miragens. Assim, o instrumento pôde trabalhar afastado, e a Obra, permanecendo no terreno teórico, ideal, de exposição, que não toca em interesses concretos, deixou a maioria indiferente. Esta julgou tratar-se apenas de inócuos exercícios filosóficos. Essa incompreensão foi uma defesa necessária no período de formação da nova criatura.

Aconteceu depois que esses conceitos chegaram a formar um corpo em uma Obra completa, e esta, por ter assim tomado configuração, tornou-se visível na Terra, tanto mais que entrou na sua fase de realização. Nesse momento, ficando perceptível com novo impulso em ação para penetrar no terreno humano, era natural que ele, como as outras forças neste campo presentes, se tivesse dirigido para tomar a posição que a cada um espera, conforme sua própria natureza. Isto porque de agora em diante os conceitos da Obra não são mais apenas afirmação teórica, mas se tornaram forças em ação para as quais surge a necessidade de definir atitudes. Entre as forças da Obra e as do ambiente, nasce o choque para decidir: se devem repelir-se para se afastarem, ou se para chegar a uma coordenação de movimentos que reciprocamente as disciplinem urnas em função das outras. De fato, ao aparecerem estes impulsos, cada um dos outros reage a seu modo, uns rebelando-se contra o intruso e outros concordando, sentindo-se atraídos. No primeiro caso, a centralidade da Obra manifesta-se com efeitos negativos; no segundo, com resultados positivos. Então, em vez de causar dispersão, centraliza, porque leva os outros elementos a se aproximarem dela. Sucede que eles são incluídos no seu campo de ação e nele se dispõem em posição periférica em relação ao centro em torno do qual começam a girar.

Como se vê, tudo se desenvolve por concatenação lógica, desde a primeira fase de todo o processo, estabelecida pela sua origem inspirativa, da qual depois tudo derivou. É essa fundamental qualidade da Obra que fixa esta sua centralidade com todas as suas consequências. Desta sua primeira tomada de posição se desce depois por graus até à atual, na qual as relações entre centro e os outros elementos podem ser de dois tipos, isto é:

a) Se estes são já de natureza central, são levados a resistir contra este novo impulso rival. Então, ou travam a luta para submeter e absorver o novo elemento como subordinado na própria órbita, ou, se não o conseguem, procuram destruí-lo, paralisá-lo, repeli-lo

b) Se os elementos do ambiente são de natureza periférica, eles são levados a introduzir-se em situação subordinada na órbita do novo centro, por ele atraídos, para lhe girar em torno e formar com ele um sistema de forças do tipo supracitado, como sol-planetas, núcleo-elétrons, macho-fêmea, governo-povo  etc.  Tudo isso ocorre conforme um modelo único, que vemos repetido em todos os campos. Esta disposição em sistema circular centro-periférico, segundo o próprio sinal positivo e negativo, assumindo um movimento rotatório, é lei geral pela qual cada elemento, consoante a sua natureza, de sol ou planeta, automaticamente se coloca na única atitude que lhe é adaptada: ou de centro, ou de periferia.

Tudo isso acontece sem que o executante seja consciente destes seus movimentos e lhes compreenda o significado. E não pode ser de outro modo, porque esta é a lei do fenômeno: fundir-se em um sistema rotatório, se os sinais são opostos; ou se repelirem, se os elementos são do mesmo sinal. Isto, de fato, foi o que se verificou com a Obra nos seus primeiros contatos com os outros centros de sistemas que ela encontrou no seu caminho. Com eles ocorreu logo o choque. Isto prova que a Obra é centro, que esta e a posição estabelecida pela sua natureza. Foi assim que o Catolicismo, porque mais forte, armado da sua autoridade, súbita e definitivamente liquidou a Obra, repelindo-a com a condenação do Index O Espiritismo brasileiro procurou introduzi-la na sua órbita, aceitando a como satélite, absorvendo-a como uma contribuição. Depois alguns tendo-se dado conta do perigo de assumir a posição de satélite, ou, pelo menos, que parte dos seus planetas abandonassem a velha órbita para entrar na nova, rejeitaram também toda a oferta de colaboração. É exatamente esta reação de repulsa, esta recusa de aproximação por parte de outros centros, a maior prova de que a Obra centraliza uma ideia, isto é, um termo que não pode, por natureza, assumir posição de complementaridade perante outras ideias.

Isto se prova também por outro fato em sentido oposto: a Obra já está funcionando como centro, na medida em que já atrai vários elementos de tipo periférico que se puseram a girar à sua volta. Com isso ela manifesta que a sua natureza é de tipo positivo. De fato, ela é viva, dinâmica, cheia de pensamentos e de germes fecundadores, toca à mente e ao coração, agita, sacode, atrai. Não se consegue sepultá-la no silêncio. É necessário de qualquer modo reagir e tomar posição: ou se repele, ou se aceita. Não se pode ficar indiferente. Disto se pode deduzir qual seja o seu destino.

Esses movimentos no princípio são desordenados, como o é a fase caótica da primeira formação de qualquer sistema de forças, até que ele não se discipline, se fixe em órbitas exatas e seja construído em forma orgânica. A ideia é livre, mas a matéria é presa. E quando a ideia desce à matéria, deve enquadrar-se dentro das normas impostas pela Lei. O dever de obedecer-lhe, quanto mais se sobe para o S, tanto mais é confiado à consciência do ser. Mas quanto mais se desce para o AS tanto mais constitui coerção determinística. Isto porque os elementos do S são criaturas conscientes da ordem, obedecendo espontaneamente à Lei, enquanto as do AS são seres inconscientes na revolta, rebeldes à Lei. Esse estado de coerção é devido somente ao desejo de revolta. Afastada esta, ele não tem mais razão de existir. Quando um cidadão é consciente dos seus deveres e espontaneamente os cumpre, não há mais motivo para que sejam impostos por coação policialesca. Dado o seu tipo, as forças que constituem o fenômeno não podem alcançar outras posições.

Vivemos num universo onde o movimento de cada força, seja no plano físico, seja no espiritual, é regulado por leis, sendo utilizado para cumprir a sua própria função, para a qual é mais adaptado. Assim, cada elemento tende a realizar os movimentos necessários, a fim de colocar-se no posto que, segundo as suas qualidades, o espera no organismo universal. Então, ai de nós quando surge inimizade entre centro e periferia, entre sol e satélites, os elementos dependentes se sentem traídos pelo chefe que não cumpre mais a sua atividade vital a favor deles, aquela que lhe compete executar como centro do sistema. Quando um chefe deixa de exercer as suas atribuições para o bem do seu povo, este se rebela e o liquida. Cai o liame que mantém unido o sistema e este se desfaz. Cada posição permanece estável e pode resistir enquanto representa o cumprimento de uma função. Isto aconteceu com a Revolução Francesa e ocorre todas as vezes que a classe dominante vive à custa do país. Isto sucedeu no fim da última guerra, quando as nações vencidas se rebelaram contra os seus chefes, para se libertarem de centros de sistemas que, com a derrota, de positivos se haviam transformado em negativos. Fizemos estas alusões em campos afins para mostrar que as leis às quais a Obra está sujeita são universais e não limitadas somente a este caso particular.




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