Em nossos escritos, encontramos e usamos um ponto fixo de referência em função do qual nos é possível formular juízos. Este ponto de referência, situado fora e além, exatamente no polo oposto do transformismo universal, tudo envolve no seu movimento. Este ponto imóvel e absoluto que dessa sua posição dirige tudo o que é móvel e relativo, é o pensamento de Deus que não ficou abstrato, nos céus, mas está expresso, escrito e legível na Sua Lei, que constitui a norma anteposta como guia do funcionamento orgânico do universo. Esta Lei, nos seus vários capítulos e planos de atuação, para o homem não é toda compreensível e é conhecida só numa parte mínima. As descobertas da ciência não são senão progressivas revelações deste pensamento e Lei, funcionando já nos  fenômenos independentemente do fato de que o homem o conheça ou não. À medida que progride, ele vai dominando uma amplitude cada vez maior daquela Lei, o que também para os ateus significa acercar-se de Deus. É em função deste pensamento orientador da existência que, nos limites do conhecimento humano, nós fazemos  perguntas e podemos dar respostas.

Permanecendo agora num terreno humano, isto é, das  conseqüências e aplicações dos princípios gerais da referida Lei, nos perguntamos: Qual é a posição atual da humanidade em relação às suas metas futuras, isto é, o que a história pretende hoje realizar? Colocando-nos perante a presente realidade histórica, podemos mais exatamente perguntar-nos: se é Deus que com a Sua Lei dirige a história, que significa então e para onde se dirige a atual difusão do materialismo e do comunismo ateu? Trata-se de fatos situados em polos opostos, positivamente existentes. Mas como explicar a contradição entre eles? Se Deus é o verdadeiro senhor e se o Seu pensamento ou Lei constitui a norma que deve ser aplicada, por que ocupam nos fatos esta oposição de contrários e esta resistência à sua atuação? Se por um lado temos o polo positivo onde tudo é sempre construtivo, que trabalho útil corresponde cumprir a este oposto impulso negativo, de destruição? Não se tratará então de uma fase destrutiva necessária enquanto se cumpre, em função de uma oposta realização construtiva? Ora é o negativo que trabalha em favor do positivo, é o mal que é colocado a serviço do bem. Mais particularmente, tudo isto talvez responda à necessidade de varrer com as construções humanas feitas através do tempo sobre a ideia de Cristo, tão desvirtuada ao longo do caminho, para regressar a ela e realizá-la desde o princípio, como Cristo queria que o fosse.

Nas revoluções vemos que a fase destrutiva é necessária para nos libertarmos do que é velho, que ocupa o terreno sobre o qual se possa reconstruir mais em direção ao alto, e vemos que ela é o natural precedente de uma sucessiva fase construtiva para  alcançar posições evolutivamente mais avançadas. Isto é o que  normalmente vemos suceder nas revoluções, usadas pela vida como  método normal de renovação. Então o Comunismo poderia ter uma função histórica construtiva inclusive em sentido cristão lato. Em sentido lato, quer dizer que a função não é a de constituir nos planos de Deus um instrumento para chegar à vitória do atual grupo social que hoje se qualifica representante de Cristo. Trata-se, pelo contrário, do triunfo da ideia de Cristo, que uma vez que não lhe sirvam, pode desvincular-se dos seus atuais representantes, porque o que importa nos pianos de Deus é o avanço daquela ideia e não os interesses e sobrevivência destes. A sua liquidação pode ser automática, indispensável ao progresso, quando eles não cumprem mais a função que perante a vida lhes justifica a existência:  fenômeno biológico normal quando tais condições se verifiquem.  Podem então formar-se outros grupos, compostos de homens novos, ou seja, pode ser utilizada a mesma organização atual, mas com homens renovados no seu espírito, selecionados na luta, purificados pela dor, e levados por isto a representar Cristo não só na forma, mas também na substância. Trata-se de uma posição totalmente  diversa porquanto a atividade e o centro dos interesses deve passar do exterior ao interior, da aparência à substância, da realidade  exterior do mundo à interior do espírito.

Qual poderia ser então mais exatamente, de um ponto de vista cristão, a função do Comunismo? Já que o Evangelho que sustém a justiça social, por razões de imaturidade da raça humana, isto é, tanto de governantes como de governados, não foi até hoje aplicado senão em mínima parcela, e já que Cristo não podo Ter sofrido para ensinar em vão, sucede então que a vida, que o homem não pode deter, confia a outro, fora do atual Cristianismo, a tarefa de realizar com outros meios e forma, esse programa lançado há dois mil anos e que os cristãos ainda não realizaram. Então Deus permite que os demônios se desencadeiem, reativa as forças negativas e as utiliza para realizar o que as positivas ainda não fizeram. A princípio, o desenvolvimento histórico não estava ainda maduro para esta reforma e Deus deixou dormir o Cristianismo no cômodo leito das adaptações humanas. Mas agora se chegou a uma curva do caminho da evolução e é necessário despertar, mover-se, caminhar. A função histórica do Comunismo pode ser precisamente a de despertar os adormecidos, para os tirar do leito das suas comodidades, e deve fazê-lo pela força, porque o mundo se organizou na defesa das suas velhas posições de comodismo, e resiste não se dispondo a renunciar a elas. Eis então que para abrir caminho, a força é necessária, a coisa que o Cristianismo não pode usar e que agora lhe vem em sua ajuda numa hora decisiva, quando, depois de dois mil anos, o sistema apenas da bondade deu prova de não ser suficiente para transformar o mundo em sentido evangélico. A força é de fato, nas transformações sociais, a primeira fase, a revolucionária e destrutora. É de tal forma que nascem as revoluções, para depois de desenvolver seguindo a sua lei fatal. Os violentos da primeira hora são depois liquidados, quando a sua função de varrer o que é velho está cumprida. Quem com feno mata com ferro morre. Robes Pierre foi guilhotinado e a sua morte marcou o fim do Terror. Ficam, e são depois chamados a atuar, os mais calmos, para realizar o trabalho de instalação nas novas posições e de assimilação das novas ideias, e para se reconstruir num plano mais alto, uma nova ordem.

Historicamente, em sentido lato, o Comunismo poderia ser útil ao Cristianismo, a fim de que este seja purificado, condição indispensável para que possa continuar a cumprir a sua função, que justifica a sua existência. A tarefa do Comunismo seria, portanto, a de salvar o Cristianismo da sua liquidação. Lição forçosa, dada a tenacidade de resistência da parte do que é velho. Ajuda de Deus, mas não em favor dos homens para manter as suas posições terrenas baseadas no Cristianismo, mas sim em favor do ideal cristão, para que ele seja vivido e realizado. Porque à vida interessa a evolução, a conquista das finalidades da história, a atuação dos princípios superiores e não a prosperidade de um determinado grupo humano. A vida tende a acabar com o que é improdutivo, porque não contribui para a realização dos seus fins.

É necessário compreender o que está hoje sucedendo.  Pode ser um mal-entendido identificar o ministro de Deus com o ideal cristão, enquanto nos fatos se pode tratar de duas coisas diferentes, isto é, pode suceder que em vez de viver em função do ideal, se use o ideal em função da própria vida, subordinando-o a esta. Trata-se de um emborcamento de posições, de uma inversão de valores, pelo qual não é a espiritualidade que vence o mundo, mas este que vence aquela. Pode ser que hoje a história queira endireitar estas posições e repor cada coisa em seu lugar, isto é, não mais o ideal ao serviço do homem, mas o homem ao serviço do ideal. Em resumo, a ideia de Cristo finalmente se move para vencer deveras o mundo, ainda que este se tenha acostumado a vencê-la, e este decidido a continuar por este caminho.

Esta imensa onda de ateísmo que invade o mundo, também composta de cristãos, não será doença do Cristianismo, para curá-la sendo necessária uma salutar operação cirúrgica? Que os homens do Cristianismo possam, como homens, ir para a falência, é possível, mas não se pode admitir que isto suceda com Cristo. Claro que não há mais remédio para eles quando se separam da primeira fonte de vida espiritual e ficam sós no mundo inimigo. Eles se poderão perder, mas nem por isso poderão paralisar a obra de Cristo, que está por sobre todos os interesses humanos e elege os seus instrumentos onde quer.

Se hoje o mundo, com o ateísmo, se afasta de Cristo, isto pode não representar protesto contra Ele, mas contra quem O representa. É notório que a blasfêmia está mais difundida nos países onde mais dominou a Santa Inquisição, exercitada em defesa da religião. Os ateus frequentemente surgem não porque queiram pôr-se contra Deus, mas porque, desiludidos, se colocam contra os seus representantes. Estes são a coisa concreta que se vê neste mundo e, quando ela não corresponde às afirmações, então se foge para outras lides; há quem, para libertar-se da contradição, nega tudo, e quem vai buscar a Deus em outra parte e se converte para entrar noutros equivalentes, ou bem O busca por si só, sem esses intermediários. Quando estes passam a pertencer ao mundo, não representam senão a si mesmos. Então o ateísmo os repudia, e os que não querem dessa forma aniquilar-se seguem sós com Deus. A luta é entre os homens e não contra Deus, porque ninguém pode ter interesse em lutar contra quem está fora do mundo, tão longínquo, invisível e inalcançável. A revolta pode nascer só de uma rivalidade entre semelhantes, por um prejuízo recebido, o que é absurdo em relação com Deus.

Para convencer é necessário estar convencido, assim como para fazer a fé é necessário primeiro tê-la dentro de si, isto é, crer a sério, com fatos e não só com palavras. A pregação que não corresponde à realidade da vida não persuade e se toma o hábito de escutá-la apenas como uma bela apresentação. O ideal reduzido a exercício de retórica não arrasta porque falsifica o que devia ser paixão avassaladora, afirmação sentida, testemunha sincera de realização vivida. Quem escuta percebe este atentado à sua boa fé, mas porque lhe convém, acostuma-se ao cômodo jogo das adaptações. Então a religião se reduz a uma farsa coletiva convencional na qual todos estão tacitamente de acordo. O rebanho é constituído de homens do mundo que conhecem as astúcias da vida, sabem perceber e gostam de descobrir o que se esconde atrás das aparências. O mundo está cheio de enganos, está acostumado a desconfiar e se apercebe prontamente quando se usa o ideal à procura do ingênuo para crer nele. O muito insistir na fé cega do crente pode dar lugar a suspeitas porque se presta otimamente para prender os simples de boa fé. Por fim se põem todos de acordo porque é cômodo para todos não aprofundar em demasia o porquê das coisas e permanecer na superfície.

No entanto, quando tudo isto se torna hábito, sistema de comum aceitação e se fixa numa forma mental; então a religião se corrompe e decai. Que resultados espirituais se poderão assim obter? Se a semente que se lança na alma dos fiéis é desta qualidade qual poderá ser a planta que dela nasce? É certo que os ingênuos são muito procurados em nosso mundo, mas é também verdade que a sua espécie, sob os duros golpes da luta pela vida, tende a desaparecer. Como pode um edifício baseado sobre o ideal e sobre a fé nele depositada, sobre a sua sincera e fiel atuação, deixar de desmoronar, quando as posições são assim emborcadas, quando a fé assume um outro significado e a incredulidade quase se torna um ato de sinceridade, é fácil o desmoronamento.

O mundo está mudando e exige clareza. A melhor renovação que pode fazer o Cristianismo não é de formas ou de rito, de tolerância ou expansão de domínio, mas é a de crer verdadeiramente, a de oferecer ao seu rebanho a demonstração racional para  poder assim crer, compreendendo e não de olhos fechados com fé  cega. É enfim, a de fazer-lhe sentir que existe quem crê a sério, tanto que vive a sua fé e, pelo fato que crê, lhe dá a prova com o exemplo.

Antigamente, a astúcia aconselhada por Maquiavel passava por sabedoria. Ele dizia que era necessário mostrar as virtudes, mas cuidado com o possuí-las e praticá-las de verdade, deixando-se enganar pelos princípios idealistas, estes devem ser pregados para que outros os pratiquem e seja assim mais fácil dominá-los. Hoje, no entanto, cada vez dá menos resultado fingir para que os outros creiam. Pensar que eles se deixem assim facilmente enganar não é astúcia, mas ingenuidade. O número destes diminui cada dia. Aquela era uma fase mais primitiva, e desde então o mundo caminhou. Torna-se cada vez mais assinalada a tendência de colocar de lado o hipócrita que engana, como elemento anti-social. O método de Maquiavel pressupõe o ingênuo que crê, enquanto hoje o comum é deparar-se com a reação do enganado. Eliminando o ingênuo, aquele método falha e é o que hoje está sucedendo, como resultado benéfico do seu longo uso. Assim foi eliminado qualquer tipo de fé e as massas foram educadas em sentido oposto, ou seja, obrigadas a desenvolver a desconfiança e com isto o sentido crítico e o controle, tornando mais apurada a inteligência. Estes são os salutares efeitos da prática generalizada e constante, em todos os setores humanos, desse método da pesca do ingênuo, segundo Maquiavel. Surgiu em sentido criador, por obra de uma força negativa, uma automática seleção natural pela qual só sobreviveram os mais astutos, os menos dispostos a crer e a cair como presa dos enganos dos outros. Eis ainda um caso no qual o mal é utilizado para os fins do bem, pelo que, com a evolução, o negativo tende a inverter-se no positivo, não apenas autodestruindo-se, mas funcionando como elemento de construção.

Hoje, procura-se a substância. Os homens não se contentam mais com vagas promessas de incontroláveis alegrias longínquas, situadas no além, compensadoras das dores atuais, que em vista de tal consolação devem ser suportadas pacientemente, enquanto outros mais afortunados gozam a vida no bem-estar. O homem moderno é positivo, exige realizações imediatas e concretas e, quando se trata de promessas, quer ver claro sobre a sua futura viabilidade. Agora ao pobre já não lhe basta o submisso dever de depender da generosa e caprichosa concessão de benesses por parte de quem possui. O humilde pedir por compaixão se transformou hoje no direito à vida, que não pode depender da vontade dos poderosos que se dignem reconhecê-lo concedendo favores, mas é regulamentado como todos os direitos, sobre princípios de justiça. Então não mais apenas beneficência porque quem dá se dignou a isso, insuficiente compensação às diferenças de posição, mas sim cálculo positivo de direitos e deveres entre os elementos do organismo social, para realizar-se imediatamente na Terra sem problemáticos adiamentos para as outras vidas, organizando o trabalho e as previdências sociais em favor de cada um dos componentes da coletividade.

Se hoje, do lado do Comunismo como do Capitalismo é possível realizar tudo isto, deve-se ao fato de que as mais baixas classes sociais alcançaram uma certa consciência coletiva, que é necessária para saber organizar-se em formas inconcebíveis na Idade Média, e assim poder atingir o exercício dos próprios direitos. É assim que a humanidade desperta, se organiza, se coletiviza, em mais equilibradas formas de justiça social. É natural que, se o mundo fosse mais evoluído, não haveria sido necessário o assalto revolucionário comunista para decidir-se a iniciar esta nova ordem de coisas.

O que representa, portanto, na evolução da vida, o fenômeno Comunismo? O que ele significa no pensamento de Deus, a que nenhum fenômeno pode escapar, pensamento precedente à direção da história, nela presente também neste caso e momento? Em que posição se encontra este acontecimento perante o outro, muito mais vasto e importante, o de Cristo? Estará talvez nele incluído, constituindo uma fase transitória do seu desenvolvimento? Por caminhos tão diferentes, com métodos e movimento opostos, que parece queiram anular-se um ao outro, não quererão eles levar a humanidade ao mesmo ponto? Trata-se de uma luta entre dois inimigos inconciliáveis para destruírem-se, ou, pelo contrário. De uma inconsciente colaboração para realizar a mesma construção. O Comunismo ateu, nos grandes desígnios de Deus que ele ignora, não trabalharia, sem sabê-lo, ao Seu serviço, para realizá-los, apesar de varrer com tudo aquilo que em nome de Cristo foi feito para os interesses humanos? Em última análise, qual é a verdadeira função do comunismo?

Não se pode contestar a sua expansão e é necessário  explicá-la. Sem interesses partidários e preferências pré-concebidas queremos compreender o que está sucedendo em profundidade e o porquê. Admita-se ou negue-se a existência de Deus, resta o fato de que a vida, e com ela a história, está dirigida por uma inteligência. Vemos que há uma Lei que para todos, crentes ou ateus, reage  contra o erro e o corrige, obrigando-nos com a dor a reconstruir a  ordem violada. Quem conhece as leis da vida sabe que um afastamento do reto caminho da evolução é envolvido num processo de retificação. Em termos religiosos se diz: é a mão de Deus que faz justiça. Em termos racionais se diz: é um movimento de força do imponderável incumbido de restabelecer os equilíbrios alterados.

Ora, pela mesma natureza negativa de tais impulsos reativos, funcionam neste caso espontaneamente as forças do mal, isto é, as do Anti-Sistema, que são particularmente adequadas a uma ação agressiva e destrutiva. No plano físico isto se repete no caso de um organismo corroído contra o qual a vida lança a doença para provar a sua resistência, obrigando-o assim a lutar e com isso a  desenvolver as suas qualidades sãs e vitais, ou também para liquidá-lo se não é capaz de fazê-lo, por estar demasiado corroído. Vemos portanto que tais medidas corretivas fazem parte das leis da vida. Considerar que os ateus estão isentos delas seria como pensar que eles pudessem, por ser incrédulos em matéria de doenças, ficar imunes aos ataques patogênicos ao seu organismo. O ateísmo não outorga imunidade contra as consequências do erro e não subtrai  ninguém às leis da vida. Ao erro humano não é dado o poder de deter a sua aplicação.

As doenças, como as revoluções são tempestades de  purificação, meios de reação contra a deterioração, que corrompe e  destrói. No fundo se trata de cataclismos vitais, com o objetivo de saneamento. A atual crise do mundo é de sinal positivo. Ela não é feita só de destruição, mas no meio da destruição contém também grandes impulsos construtivos. Ela é uma crise de morte no que respeita ao passado, mas é crise de nascimento no que respeita ao futuro. Prova-o o fato de que a temperatura psíquica da humanidade está subindo rapidamente. O Comunismo é uma das forças que está funcionando dentro do desenvolvimento deste fenômeno Mas é necessário ver em que posição e a fim de cumprir que  função. Pelo fato de estar incluído num processo de evolução, hoje particularmente intenso, ele não se torna, só por isso, uma força de tipo positivo, de bem, de acordo com o Sistema. O Comunismo continua sendo uma força negativa, do mal, do tipo Anti-Sistema. No percurso da História dirigida pela Mente universal, esta utiliza aquela força com uma finalidade de bem, isto é, de destruição com um objetivo construtivo, impulso negativo guiado para concluir a sua ação, alcançando resultados positivos, por fim como um  benéfico mal necessário.

Talvez seja função histórica do Comunismo também a de provocar uma reação purificadora do Cristianismo, obrigando-o a seguir o seu ideal, vivendo-o na forma em que, pelas razões anteriormente explicadas, não pôde fazê-lo até hoje. Assim o Cristianismo poderá tornar-se cristão. Este seria o verdadeiro triunfo de Cristo, resultado imenso, que vale as dores que custará para alcançá-lo; verdadeiro impulso para a frente no caminho da evolução, com redução de poder terreno e correspondente conquista de valores espirituais, um verdadeiro progresso em direção a formas de vida mais elevadas, isto é, civilizar, transformando o mundo em sentido cristão, ou ainda, regressar ao centro do caminho da evolução,  sobre o qual a vida nos quer reconduzir, quando nos perdemos pelas vias do mundo.

O Comunismo representa um impulso em direção a este endireitamento. Por haver resistência à transformação, é necessário que este impulso seja enérgico, feito com meios persuasivos, e o Comunismo bem o conhece. A luta é grande porque o Cristianismo resiste para conservar a velha ordem cujas vantagens goza e sobre as quais baseia as suas posições. No entanto ambos estão fechados dentro do mesmo processo histórico, para realizar a mesma obra de construção. O Cristianismo possui a ideia; o Comunismo, a força que obriga a realizá-la. A ideia por si só permanece uma abstração fora da realidade. A força, sem a ideia que lhe dirige a ação, pode ser levada a realizar as piores coisas. A vida produz os opostos, depois os aproxima em posição de complementaridade para  fazê-los colaborar, lutando como rivais para alcançar o mesmo fim, como acontece na luta - colaboração entre os opostos - complementares, macho-fêmea, do casal destinado à procriação. Por lei de evolução é lógico e justificável que, numa primeira fase do seu  desenvolvimento, no passado, o Cristianismo para chegar até hoje  tenha tido que aceitar os métodos dos tempos, adaptando-se ao estado involuído da humanidade de então. Mas pela mesma lei de evolução é lógico é necessário que hoje, em uma mais avançada fase de  desenvolvimento seu e do mundo, o Cristianismo se desperte e passe de verdade à realização do seu programa, aproveitando a oportunidade e os incitamentos que Deus lhe oferece nessa nova maturidade histórica. Num universo em que tudo está conjugado e atua em colaboração, negativo e positivo, mal e bem, trabalham de acordo, se bem que em posições reciprocamente emborcadas, incluídos num mesmo processo bifrontal a favor da evolução. Depois, as revoluções acabam por devorar os seus filhos e o mal acaba por eliminar-se- a si mesmo. Fica o bem que, com o seu esforço invertido, o mal conseguiu no entanto estimular purificando-o, e renovando-o. Fica, para as novas gerações, a deslocação evolutiva assim conquistada.

Este é um novo método de vida, utilizar tudo num sentido criador, mesmo o que é destrutivo. Assim o Comunismo, visto em sentido lato, pode ser entendido como uma reação corretiva por parte da Lei de Deus, como uma tempestade de dor; cuja função é a de despertar o espírito, meta da evolução. Foi dito que: "o Comunismo testemunha os deveres que o Cristianismo não cumpriu". Mas por que o testemunha? Para os cumprir ou só para fazer ressaltar que não foram cumpridos e assim sentir-se autoriza- do a agredir e liquidar a quem deveria tê-los cumprido? De que púlpito parte a pregação? Como pode fazê-la um Comunismo que nos fatos pratica métodos que estão nos antípodas do Evangelho? Quem tem defeitos, como pode condenar os defeitos dos outros? Mas então os homens são todos da mesma raça e fazem em toda a parte as mesmas coisas. São os fatos e o modo de atuar que, por detrás das palavras e das ideologias, revelam qual é a realidade. Mas então se à teoria não corresponde a prática, se o Evangelho comunista mata em nome do ideal, enquanto o Evangelho de Cristo induz a deixar-se matar pelo ideal, tudo isto significa que de fato os dois Evangelhos estão nos antípodas e um é o contrário do  outro. Por isso se vê que confiança pode merecer um Evangelho  comunista camuflado de Evangelho cristão. É inútil mudar os termos. Os dois terrenos são completamente diversos: um é material, o outro é espiritual; um é político, o outro é religioso. Que significa este apropriar-se do Evangelho para usá-lo ao contrário, para  destruir a Cristo e levar à supressão do setor espiritual da vida?

Então, a função do Comunismo não é a de cumprir o Evangelho- não realizado pelo Cristianismo, mas é a de castigar o Cristianismo por não o haver realizado e obrigá-lo, portanto, a fazer com os seus próprios métodos persuasivos. Se é indiscutível que na Terra, devido à natureza do homem, com os métodos evangélicos, feitos para seres mais evoluídos, nada se obtém, isto permite ao  Comunismo insurgir-se no campo das atuações terrenas, que não é o da espiritualidade.

O fenômeno se explica. O Evangelho está marcado ao longo da linha da evolução como realização futura e por isso hoje se apresenta no alto, por sobre a vida vigente, como ideal que antecipa o amanhã, do qual está à espera para tomar corpo na Terra. O Comunismo surge, pois, dois mil anos depois de Cristo, em tempos mais maduros que tornam possível uma tentativa de uma mais equitativa- distribuição de bens, não só como caso isolado por iniciativa individual e fins espirituais, mas em escala social por organização coletiva e atuais finalidades terrenas. Eis porque o Comunismo se encontra realizando alguns pontos do Evangelho. Mas mesmo nestes, há uma grande diferença: o Comunismo não se limita a  aconselhá-los, mas os realiza, não os propõe ao indivíduo para a sua perfeição, mas os impõe às massas, não se ocupa de longínquas metas espirituais mas de imediatas realizações humanas. Disto deriva a diferença de método. Quem trabalha só no terreno do ideal por seguir a técnica evangélica da bondade, mas quem deve agir na Terra, deve seguir os métodos do mundo, bem diversos dos de Cristo, feitos para as realizações espirituais, enquanto aqui na Terra estamos no plano material. Os métodos evangélicos presumem um grau de evolução e civilização ainda não alcançado. É assim que, numa humanidade ainda imatura, a força e a violência, que estão nos antípodas do ideal, podem formar parte indispensável da técnica da sua descida na Terra. Esta descida implica ingentes deslocamentos de ideias, interesses e posições, e o estabelecimento de uma nova ordem no lugar da velha que não se deixa demolir, não se pode obter senão à força. Um pioneiro isolado pode vencer com o martírio; as massas, não. As funções históricas do Cristianismo e do Comunismo, mesmo que ao longo do caminho possam encontrar algum ponto de contato, são diferentes. O primeiro estabelece as metas longínquas, ainda situadas no nível super-humano do ideal, enquanto o Comunismo está no meio do mundo para dar um estremecimento que leva à realização concreta. Mas é evidente que,  devido à estrutura de nosso mundo, não há outro caminho, ainda que isto pareça uma contradição, para passar da teoria do Cristianismo pregado, à prática do Cristianismo vivido. No-lo prova o passado. Trata-se de uma tentativa inicial de involuído, como o provam os métodos usados, inevitáveis quando se quer realizar algo no atual nível evolutivo da humanidade, como movimento de massa. Descer à atuação prática significa dever mergulhar em nosso mundo tal como ele é, para realizar um trabalho que só quem tem a força bruta do primitivo pode ter a capacidade de cumprir. Depois desta nova irrupção de impulsos evolutivos, sobre a estrada aplainada pelo cilindro compressor de revoluções e guerras, o novo cristianismo, purificado pela tempestade, poderá retomar o seu caminho triunfal em direção a Cristo.

Este é o fenômeno nas suas grandes linhas. Mas que  sucederá, se olharmos mais em detalhe, mais de perto? Vivemos num momento histórico decisivo, de deslocações de equilíbrios e  posições, de mudanças profundas, que levam a humanidade a gravitar em direção a outras metas e a realizações em função de outros  pontos de referência. Uma necessidade de sinceridade e clareza  impulsiona a uma revisão dos valores tradicionais, para eliminar os  fictícios e ficar com os reais. O Cristianismo está colocado numa  bifurcação: ou se faz cristão a sério ou será liquidado, porque não  cumprindo mais a sua função, não tem mais razão de existir. Então o desenvolvimento do programa evangélico poderá continuar, mas confiado a outros homens, a outros instrumentos de Deus, novos chamados, adequados à realização daquele ideal, que é fatal que se deva cumprir. A atuação dos planos de Deus não pode ser limitada aos interesses de uma classe dominante. O Evangelho, além de fenômeno religioso, é também fenômeno social e biológico, de importância fundamental no desenvolvimento da evolução da Vida no plano humano da coordenação coletiva para passar à fase orgânica. Neste desenvolvimento está envolvida a existência de todos os homens, dos cristãos como dos ateus. A descida dos ideais se realiza através das religiões, todavia faz parte integrante do fenômeno da evolução, que antecipa e obriga a avançar, interessando, portanto, também à ciência positiva dos ateus.

A função do Comunismo pode ser a de despertar o Cristianismo e, obrigando-o a cumprir a sua função, contribuir para que ele não seja liquidado pela vida. O Comunismo pode ser entendido como um bisturi em mãos de um hábil cirurgião. O bisturi corta as carnes, mas o cirurgião sabe o que faz, opera para curar, não para matar. A vida está do lado do doente para curá-lo, por isso, o opera, porque quer que viva e que evolua ainda. Curar-se para o Cristianismo significa reencontrar os seus valores mais vitais, que são os espirituais. Se ele voltar a encontrar a Cristo, salvar-se-á; de outro modo ficará só e, sem Cristo, se perderá. O que morre não é Cristo, mas sim a organização humana à qual a Lei de Deus já não permite viver visto que ela já não O representa.  É com esta condição que Cristo permitiu a sobrevivência.

Não é com finalidade destrutiva que estamos fazendo estas afirmações mas ao contrário. A lógica colocação deste fenômeno, fazendo-o compreensível, nos permite conhecer qual deve ser a  técnica defensiva da parte do Cristianismo contra o assalto comunista. Que deste lado se ataque e que do outro se resista em posição de defesa, é fato evidente. Mas como conduzir a defesa? Foram  usadas as armas espirituais, excomunhões e similares. Mas estas  sanções se realizam no além, estando, portanto, fora do terreno  positivo, o único que leva em conta a parte oposta. Trata-se de pressão psicológica, válida só enquanto exista um estado de fé e correlativa sugestionabilidade, coisas que, com o materialismo desagregante, vão desaparecendo. Procurou-se então pactuar, buscando o colóquio, para amansar o inimigo. Procurou-se assemelhar a ele pelo  caminho das concessões, para chegar a uma convivência pacífica.  O Comunismo aproveitou-se disso sempre para avançar.

Haveria uma tática segura, mas é a mais difícil de realizar e  consiste em eliminar os próprios pontos fracos, que são como portas abertas que permitem ao inimigo entrar. Que poderia o  Comunismo contra a pessoa de Cristo? Não haveria nada que  reprovar-lhe nem tirar-lhe. Se o Cristianismo se tornasse como Cristo, que poderia o Comunismo objetar-lhe? Este pode atacar onde o Cristianismo não é como Cristo. Se o Cristianismo permanecesse por sobre o mundo, fora do campo político e econômico, ou seja, no espiritual que de direito lhe pertence, isto é, num terreno de não existência para o Comunismo ateu, as razões de ataque deixariam de existir. Mas o problema é que para a maioria dos homens, o terreno espiritual é zona de não existência, do qual se foge para não renunciar à vida, isto é, à sua forma material, que é a única que consegue conceber. Mas já vimos como o Cristianismo se adaptou ao mundo, nele vivendo como mundo, chocando-se portanto com o Comunismo no terreno onde este quer imperar. No entanto para um organismo da natureza espiritual, como é o Cristianismo, não há outro meio de defesa senão o de permanecer coerente aos princípios básicos da instituição, o que representa também uma força proveniente de um plano que o Comunismo não conhece, a  espiritual, tão válida e concreta para quem sabe usá-la, como a  material. A reação defensiva não consiste mais em colocar-se no nível do atacante, onde este é forte, o nível onde vence o poder econômico, a astúcia das alianças com os poderosos e a curta sapiência do mundo, rebaixando-se a lutar com ele no seu terreno, mas consiste em elevar-se sobre ele, atuando num plano onde o mundo não chega,  e com forças que ele não conhece e que não lhe obedecem.

Quem é imparcial saber ver também o que sucede  na parte oposta. O Evangelho comunista é verdadeiro Evangelho,  ou é Comunismo disfarçado de cordeiro, Satanás mascarado de Cristo? Não convence aquela pregação de justiça evangélica  realizada com meios ferozes, que mais do que justiça parece astúcia para penetrar melhor, assim camuflado, em casa alheia,  aproveitando a credulidade dos ingênuos. Depois, uma vez dentro,  a realidade é bem diversa. O comportamento no desenrolar  dos fatos revela o verdadeiro conteúdo da ideologia. É assim  que a prática não corresponde à teoria em nenhuma das duas partes.  Na realidade Cristianismo e Comunismo não são senão dois grupos  de homens é interesses, os quais, à sombra dos ideais, fazem no  mesmo nível a mesma guerra pela sobrevivência própria.  Não temos portanto, como deveria ser, o choque entre dois  planos biológicos, um superior e um inferior, entre o ideal e o mundo, entre espírito e matéria, mas entre dois grupos substancialmente da mesma natureza, que atuam com os mesmos métodos humanos, situados no mesmo nível. Pelo fato de a luta travar-se entre semelhantes, no mesmo terreno, ação reação são do mesmo tipo. Podemos assim explicar a razão pela qual o assalto do Comunismo toma também esta forma de engano.

Tínhamos anteriormente explicado que este ataque é devido à reação da Lei com que a inteligência do universo dirige o funcionamento orgânico deste. A reação é contra uma violação da ordem e o seu objetivo é o de restabelecer o equilíbrio violado. Podemos aqui permitir-nos formular estas apreciações enquanto as deduzimos como consequência de soluções gerais já alcançadas por nós noutro lugar, que lhes constituem a base, em tal sentido que nos autorizam aqui a concluir. Ora, a razão é que a reação da Lei é levada a assumir a mesma forma e a seguir o mesmo tipo de erro que a gerou, pelo fato de a reação não ser senão o mesmo impulso violador que retrocede contra quem o lançou. O primeiro e o segundo movimento não são senão as duas fases de ida e volta do percurso do mesmo impulso. Causa e efeito não podem deixar de ser da mesma natureza. Quem engana lança sobre si mesmo o engano. A falsa santidade acaba por fazer aparecer o diabo vestido santo. O Comunismo é levado a usar a técnica do engano, atraído a isto pelo fato de que o erro, com o qual o Cristianismo provocou a reação da Lei que usa como instrumento o Comunismo, é do mesmo tipo. É o Cristianismo que deste lado lhe abriu as portas, que com este tipo de ponto fraco e consequente vulnerabilidade, lhe ofereceu o "lugar de menor resistência", onde é mais fácil romper para penetrar nas defesas do inimigo.

Como a força do assalto microbiano está na vulnerabilidade  orgânica do indivíduo, assim a força do Comunismo é dada pelos pontos fracos do Cristianismo. Qualquer atacante estuda  as brechas que oferece o inimigo a ser atacado. O Comunismo descobre e utiliza estes pontos. Nas nações eles são os governos fracos e corrompidos, a desorganização, a miséria. No caso do Cristianismo, um deles é a tradicional simbiose Cristianismo-Capitalismo.  Assim o primeiro saiu do seu terreno espiritual no qual o Comunismo não tem acesso, para entrar no terreno específico deste, que é o terreno econômico. A referida aliança forma o grande grupo  das classes dominantes, das pessoas de bem que estão do lado da ordem e das virtudes, que devem, portanto, demonstrar que respeitam aquela e possuem estas, sob pena de serem acusadas de falsas. Eis então que os que mostram tão excelsas qualidades caem nos  laços por eles mesmos lançados. O seu inimigo exige que eles  mantenham a sua palavra e pratiquem nos fatos as virtudes que professam, isto é, que sejam bons, honestos, justos de verdade, porque tudo isto os desarma, por isso constitui uma debilidade na luta, o que agrada à parte oposta, porque facilita a sua vitória contra eles. Fazer a guerra contra um santo que se deixa martirizar, perdoando, é mais fácil que fazê-la contra uma fera ou um inimigo bem armado.  Se Cristo, em vez das Suas legiões de anjos, tivesse empregada legiões de soldados aguerridos, os romanos e os judeus O teriam tratado diversamente .

Com esta simbiose com o Capitalismo, o Cristianismo desceu do seu superior plano espiritual para submergir-se naquele terreno, onde está situado o Comunismo. É neste nível humano, bem diverso do divino, que tem lugar o choque. Lutar contra Deus em si mesmo, não interessa ao ateu, porque é absurdo lutar contra o que se pensa que não existe. A luta surge quando na Terra aparecem, em forma tangível, homens que, como representante de Deus, atuam no plano humano. Então a luta do Comunismo contra o Cristianismo não é entre o homem e Deus, mas é luta entre homens, não é luta de princípios mas de interesses, isto é, dos homens que assim procedem na Terra em nome da ideologia comunista e daqueles que o fazem como representantes de Deus. Ao Comunismo não interessa a negação teórica de Deus, mas a negação prática das organizações humanas que em Seu nome possuem poderes econômicos e políticos. Da sua parte, o que é puramente espiritual, sendo de domínio íntimo, escapa a qualquer intervenção do exterior. É difícil, portanto, controlá-lo coativamente. O choque depende  assim desta descida do Cristianismo do espiritual para o temporal, o qual coloca o primeiro no mesmo nível do segundo. Se o Cristianismo tivesse ficado no seu plano, se não tivesse baixado até  tornar-se coisa do mundo, como é o Comunismo, teriam faltado os pontos de contato e de rivalidade, motivo de luta. Esta é inevitável entre dois grupos humanos que usam bandeiras diversas. Deus está por cima de todos, dirigindo tudo para os seus fins, diferentes dos  humanos.

Nos planos de Deus, para que serve então e onde quer chegar esta luta? O seu resultado benéfico poderá ser que o  Cristianismo seja obrigado pelo Comunismo a retirar-se mais ainda do terreno material, para expandir-se no seu, que é espiritual,  deslocando os seus interesses do primeiro para o segundo. Isto é o que Deus quer, porque isto é espiritualização e como tal regressa ao  plano fundamental da evolução, razão da existência. Noutros termos, no desenvolvimento da história, seguindo os planos de Deus, o grupo humano Comunismo assalta o grupo humano Cristianismo para forçá-lo a espiritualizar-se, a subir, aproximando-se de Deus. É um regresso a Cristo. Este é o significado do ataque comunista.

O engano do Cristianismo, neste caso é substancial,  desenvolve-se no terreno concreto, como é o econômico. Ele pregou aos pobres a não resistência, a aceitação do sacrifício,  exaltando-os em teoria, compensando-os com consolações de  além-túmulo e deixando-os na Terra entregues à sua miséria.  Por outro lado, aliou-se com os ricos e poderosos da Terra, salvando assim os seus interesses e deixando aos deserdados as consolações do céu  e a honra de saber sofrer. Se. o Cristianismo. hoje vai ao encontro das  classes mais pobres, é porque elas se organizaram e assim se tornaram poderosas. No passado não existia sertão a esmola e a beneficência,  não o direito ao trabalho e à vida. O Cristianismo, se no passado  tirou vantagem desta aliança, hoje não pode deixar de estar envolvido nas consequências que dela decorrem. Da formação do binômio Cristianismo-Capitalismo inevitavelmente deriva que ambos tenham a mesma sorte. Desde que o primeiro deitou raízes na  Terra como Capitalismo, é natural que o Comunismo queira elimina-los ao mesmo tempo, como expressão do mesmo sistema. Hoje,  explicamos já, o pobre não se contenta mais com simples concessões que o colocam à disposição do arbítrio alheio, mas assenta os seus direitos e os faz valer, exigindo que os outros cumpram com os seus deveres a seu respeito. O Cristianismo havia criado a ovelha paciente e submissa, que espera e agradece, mas o Comunismo está criando o indivíduo organizado que discute sobre justiça social e exige a sua explicação.

Tampouco, porém, pode a ação comunista, por este lado, ser justificada, porque à fraude do Cristianismo corresponde a  fraude do Comunismo, que faz alarde da justiça social para melhor penetrar e dominar. Em teoria, ele se proclama defensor dos  deserdados, sublevando-se contra as injustiças do mundo. Mas na  prática, deste nivelamento que benefício gozam as massas? Este novo método de vida social melhora as suas condições de existência em confronto com a dos países capitalistas? O Comunismo quereria ser uma tempestade de saneamento contra tantas injustiças, mentiras e corrupção. Estas de fato existem e a revolta contra tudo isto é uma esperança de libertação, que o impulsiona em direção ao Comunismo. Trata-se de um impulso para o negativo, isto é, determinado não por uma atração em direção a uma ajuda, mas por uma  repulsão que induz a fugir de um inimigo e um perigo. Mas pode a  passagem de um partido político a outro transformar o homem  e torná-lo melhor? Por acaso não continua sendo o que é, para fazer as mesmas coisas em qualquer partido em que se encontre? Existe no homem um desejo de justiça que, no entanto, tende primeiramente a realizar-se em favor do seu próprio egoísmo, começando  pelos direitos próprios e pelos deveres dos demais. Dentro desta obscura revolta, contra tantos males sociais em busca de honestidade e   justiça, frequentemente se agitam os impulsos mais baixos e desordenados. Tudo isto é náusea da corrupção alheia, mas é também  desejo de fazer o mesmo e inveja por não poder gozar as mesmas vantagens. Não se quer a mentira dos outros porque nos traz dano, mas se substitui alegremente pela própria que nos traz vantagem. Preferir-se-ia, inclusive, arriscar, uma destruição geral, na esperança de que, na confusão haja individualmente alguma coisa a ganhar. Então, com a palavra justiça, se quer mascarar a tentativa  de aproveitar e o desejo de vingança.

O resultado de tudo que observamos é, pois, a luta de classes, ódio entre elas, impulso à guerra. Por este caminho, os dois grupos que proclamam o Evangelho chegaram ao seu polo oposto, isto é, da paz às ameaças de guerra, da colaboração à agressividade, do amor ao ódio. Assim o Evangelho foi atraiçoado por ambas as  partes, a única coisa em‘ que concordam e colaboram os dois inimigos. De quem é a culpa? Se o remédio é pior do que a doença e o  médico está mais doente do que o doente, não será ela de ambos? Assim o mundo tomou um caminho de egoísmos e antagonismos, de destruição e de dor. O mundo. está carregado de ódio e arde do desejo de descarregá-lo. sobre alguém. O Comunismo o recolhe, o organiza, o canaliza para utilizá-lo para os seus fins de domínio através do ódio de classes sociais, de baixo para cima, generosamente intercambiado de cima para baixo. Mais eis que a tão invocada  igualdade, se já não está alcançada no terreno econômico, já o está no terreno do egoísmo. Esta cisão entre classes sociais inimigas é o amor evangélico  Tudo é negativo, involuído, de ambas as partes. Este é o produto do Evangelho do Cristo, como o do  Evangelho do Comunismo? Ou tudo o que se faz no mundo não é senão um emborcamento do Evangelho? A realidade escondida por baixo das palavras e dos ideais é bem diversa è não poderá deixar de  produzir os seus efeitos. O resultado de tanto progresso científico é que o mundo hoje vive sob o terror de uma guerra atômica e parece  que a dor é a única palavra capaz de fazer-se compreender em todas as línguas. Então, depois de imensas tempestades destrutivas, os sobreviventes, fraternalmente, tratarão de pôr-se de acordo, nos fatos sem mais enganar-se com as palavras. Então poderá aparecer o Amor, o Evangelho verdadeiro, vivido a sério.

A estrada é longa e estamos nos começos da grande curva.  Não estamos formulando teoria. Estamos contando uma história,  em grande parte ainda futura. Se Cristo prometeu o triunfo da Sua verdade, esta deverá acabar por afirmar-se mesmo se para  vencer a tentativa do homem de deter a evolução e retroceder ao  Anti-Sistema, semelhantes tempestades de dor sejam necessárias. Mas sabemos que o desencadear das forças negativas não é para chegar à sua vitória, senão à vitória das forças positivas. O resultado de um ataque não é sua afirmação, mas sim a afirmação da reação que  ele provoca. Do ataque comunista, das revoluções e das guerras poderá surgir um Cristianismo purificado. Então Cristo poderá ressurgir no coração dos homens e o Seu Amor realmente afirmar-se no mundo. Se a culpa do Cristianismo foi a de materializar-se no  mundo, o saneamento que o Comunismo e as consequências dele provocarão consistirá em obrigar o Cristianismo a espiritualizar--se, apoiando-se exclusivamente em forças deste tipo, inacessíveis  para os involuídos que não podem usá-las, porque não as conhecem  e nas suas mãos elas não funcionam.

Se, dada a imaturidade evolutiva do homem, o Cristianismo  não pode até agora alcançar uma maior aproximação da  espiritualidade, hoje que a humanidade está evoluindo rapidamente, o ataque do Comunismo e um batismo de dor podem ser providenciais para dar ao Cristianismo um impulso para o alto e repor o mundo no caminho da sua progressiva espiritualização. Não se pode  culpar o Cristianismo de não haver avançado mais do que a  humanidade no passado. Mas culpado seria se hoje não respondesse de uma forma positiva, neste momento historicamente mais adequado  a um salto em frente, aos incitamentos que lhe são oferecidos para que ele se decida a ascender. Se o passado é justificável, já não o seria a continuação dos velhos sistemas, agora que a  humanidade está saindo do estado de involução a que eles estavam  condicionados. Se o grande abalo chegou hoje, é porque é hora de despertar. A vida sabe o que quer e, para alcançá-lo, proporciona os  seus impulsos às condições do momento, à capacidade de responder, e os põe em movimento quando há uma possibilidade de êxito. Porque as guerras se tornam cada vez mais ruinosas para os vencedores que para os vencidos, e as revoluções se transformam chegando  até onde os seus promotores não pensavam; porque a vida tende a evoluir, espiritualizando-se, é provável que o resultado mais útil de tão grandes choques não seja a vitória de um grupo humano, religião ou partido, de um país contra outro, mas do Cristo purificador  de todos, para o bem de uma humanidade que O compreendeu, e que,  finalmente, encaminhada pelos acontecimentos que a fazem amadurecer, se decidiu a civilizar-se a sério,  vivendo realmente a lei de Cristo.




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