Trata-se de um pequeno caso, adequado, no entanto, a revelar-nos as condições espirituais de nosso mundo atual. Isto é o que mais interessa observar. O Prêmio Nobel de Literatura de 1964 foi outorgado a Jean-Paul Sartre. Quem era Sartre?

Em primeiro lugar, é absurdo negar a existência de Deus, como o faz Sartre. De uma coisa que verdadeiramente não existe, não se possui sequer a ideia; quando se nega a sua existência, porque essa coisa é conhecida, logo existe. Quanto mais se nega a existência, tanto mais o próprio fato de negá-la prova que ela existe. Mas, então, o que se quer negar quando se nega a Deus? Pretende-se somente destruir com a própria negação, nunca a existência de Deus; é impossível negá-la, porque ela não depende das nossas opiniões; fácil é destruir a afirmação alheia da sua existência, isto é, a ideia alheia de que Deus existe. Isto não passa de uma guerra entre opostos pensamentos humanos, com eles a existência objetiva de Deus nada tem a ver. Deus assim continua existindo independentemente das afirmações ou negações humanas, que não vão além de quem as expressa, e naturalmente, nenhum poder tem sobre a existência de Deus.

A negação de Sartre não tem bases objetivas, não é o resultado positivo das suas observações baseadas nos fatos e de deduções racionais deles extraídas. A sua negação é simplesmente um estado psicológico seu, reação aos duros sofrimentos que encontrou na vida. Arrastado pela segunda guerra mundial, na sua terra invadida, oprimido e isolado, forçado ao silêncio, a uma vida subterrânea, num ambiente inimigo, prisioneiro num campo alemão de concentração, cavou dentro de si, no seu eu, e extraiu essa filosofia desesperada que se chama existencialismo. Os seus romances apresentam uma série de crises emocionais, tristemente vividas por pessoas atormentadas. A sua mais importante obra filosófica é um tratado com cerca de 700 páginas, intitulado: L’être et le Néant.

“Diz-me como reages e direi quem és”. Golpes na vida há para todos. Cada indivíduo reage diante deles, de forma distinta, e com isso revela a sua verdadeira natureza. Não sendo positiva a sua filosofia, a única coisa que Sartre pode nos oferecer é mostrar-nos seu tipo de reação. Ao expressá-la, atribui a causa a Deus, ao absoluto, à filosofia, ao mundo; em realidade não expressou senão a sua reação pessoal, não fez mais do que revelar-se a si próprio, elevando a sistema filosófico o que era a premissa axiomática, indiscutível, de cada afirmação sua, isto é, a sua forma mental, o seu temperamento, o seu tipo de personalidade e, portanto, de reação. Pode-se afirmar isto porque em iguais condições de opressão e de dor, outros indivíduos, de diferente estrutura mental e moral, reagem de um modo totalmente diverso, fazendo aflorar elementos opostos aos negativos, respondendo, em lugar de uma reação egocêntrica contra Deus, com a afirmação de Sua ordem vitoriosa sobre o mal, reencontrando nessa ordem, em defesa da própria vida, o manancial da própria potência espiritual.

Então, a filosofia de Sartre não é uma filosofia de potência, apoiada em bases positivas, mas de fraqueza porque se apoia sobre base negativa, tal como o egocentrismo do indivíduo que se auto-eleva pretendendo substituir-se por Deus; não é uma filosofia de esperança e salvação, mas de desespero e perdição; não é a filosofia de quem vence, mas de quem fica derrotado na luta pela sobrevivência. A própria vida, medindo-a com o seu metro biológico positivo, condena tal filosofia negativa, perante o supremo fim da sobrevivência, como sendo uma coisa gasta, decadente, antivital. Nietzsche, outro negador de Deus, teve pelo menos uma fé, se bem que emborcada, involuída, mas poderosa e vital: fé num super-homem bestial, tentativa de herói satânico, que tem a força de erguer-se diante de Deus como um desafio, possuindo a coragem de conduzir, sozinho contra todos, uma luta sobre-humana para se manter e vencer em posição de anti-Deus, dominador do caos.

Em Sartre não há sequer esta força positiva, involuída, horrorosa, mas tentativa de potência e grandeza. Em Sartre a vida retrocedeu um passo a mais em direção à anulação. Ele expressa e personifica o processo humano, que está em ação, de destruição dos mais altos valores morais, única perspectiva de um futuro melhor, esperança a que a vida se aferra, antecipação do ideal ao longo do caminho da evolução para dar-se a força de chegar até lá. Em lugar de avançar para ascender e viver sempre mais, Sartre nos canta a marcha fúnebre da vida. Em lugar de despertar o espírito com altos conceitos vivificantes, a mente se esvazia no nada, a alma se apaga sem esperança, tudo se afunda na negação. Sartre se enxerta na anulação espiritual e moral dos tempos modernos, que ele simboliza e reflete, descendo ainda mais do que Nietzsche. A pintura, a escultura, a música, nas suas loucas expressões, negadoras de todo o princípio de harmonia e beleza, feitas de deformações involuídas que se querem fazer passar por profundos conceitos, também as formas da arte e do pensamento encontram-se hoje em fase de destrucionismo. Vivemos na época das demolições.

É verdade que a velha casa está podre e se está destruindo. Mas a vida ao negativo é morte. Em nossos dias, à negação há que contrapor uma paralela afirmação que permite à vida ressuscitar noutra forma. De momento não se veem sinais de reconstrução de uma nova casa, ela no entanto, é necessária para se poder viver em qualquer lugar. Sartre é simplesmente um destruidor que tende ao vazio, através da anulação das ideias fundamentais, fruto do trabalho milenar que conduziu à conquista dos mais altos valores da humanidade; perante a evolução, inclusive biológica, são de primeira necessidade. Os homens práticos, de ação, poderão zombar destas afirmações, para eles teóricas e fora da realidade da vida. Mas não sabem que a demolição espiritual implica, como consequência, na demolição material, representando a última fase do mesmo processo de destrucionismo, e, nesta forma concreta, faz-se compreensível a todos, quando não for demasiado tarde para deter o movimento. Mesmo que o mundo não o compreenda, a destruição dos valores espirituais leva à destruição dos materiais, valores estes que constituem o mais precioso tesouro para o homem atual; ele próprio a provoca com a inconsciência de uma criança que, brincando com um revólver carregado, poderá matar-se a qualquer momento. Para melhor satisfazer a voracidade do estômago, é mais prático e de tangível utilidade imediata eliminar o esforço de fazer o trabalho de alimentar o cérebro. Assim se goza e se engorda. Possuirá, porventura, o estômago a sabedoria e a consciência para dirigir os movimentos do corpo? Onde irá terminar se for abandonado a si próprio? Como a defesa e a sobrevivência do corpo depende de um guia, o cérebro que o move, também a conservação dos bens materiais depende da existência das diretivas espirituais. Hoje, neste mundo, devido à potência dos meios destrutivos, é necessário redobrado juízo para não acabar matando-nos a todos, à força de desapiedados egoísmos. Vai-se perdendo a cabeça ao eliminar esses freios espirituais, feitos de ordem e justiça, que são os mais aptos a salvar-nos.

É alarmante que o mundo tenha respondido à tendência destrucionista de Sartre, não reagindo ou rebelando-se, mas seguindo-o; é também grave porque prova que o mal não é a exceção de um caso individual, mas é um fato coletivo, dado por uma corrente psicológica, expressa com a filosofia da moda, que se chama existencialismo. Se não se trata de um caso isolado e isolável, se o mundo aceita Sartre, se este é o tipo de pensamento que a Europa, à frente, lança como modelo de vida, a Europa que representa o ponto mentalmente mais avançado, o cérebro do mundo, então, devemos crer que tudo está se desfazendo, porque o cérebro está gasto e se vai à deriva sem diretivas. Estamos, pois, em fase de involução, em lugar de evolução; caminha-se para trás em lugar de ir para diante. Quem conhece as leis da vida sabe que terrível coisa significa, em termos de embrutecimento e dor, um retrocesso involutivo. Quando a cabeça se põe e olha para trás, todo o corpo a segue e se põe a caminhar em sua direção. Quando há reação ao mal, este entra e vence, destruindo o organismo. Quando na alta cultura, encontra ressonância, isto é corrosivo e destrutivo, então é a vida mesma que está ameaçada nas suas primeiras origens espirituais. Isto não é questão de fé, desta ou daquela opinião. Falamos em termos de uma biologia positiva do espírito, para quem a conhece, é cientificamente controlável. Quando vemos que os bons exemplos passam inadvertidos, sem despertar eco algum nos espíritos, quando vemos que os maus exemplos são espontaneamente seguidos, despertando ecos, interessando à crítica, encontrando seguidores, então devemos concluir: precipita-se pelo caminho da negação e o pior está por acontecer, porque se vai em direção ao vazio e ao nada, onde a vida se apaga.

O fato de o Prêmio Nobel de Literatura ter sido, neste ano de 1964, conferido a Sartre, prêmio que representa o pensamento oficial, julgando o melhor produzido em nosso tempo, confirma as precedentes afirmações, daí haver motivo para crer-se que foi conferido em sentido oposto ao desejado pelo próprio Alfred Nobel, fundador do prêmio. Pode-se assim compreender o erro e seu perigo que este estímulo representa. Não se trata apenas de ter tirado uma ajuda aos construtores, mas de ter ajudado aos destruidores, acelerando a velocidade na descida. Não se pode deixar de ver em tudo isto uma vingança histórica lançada em direção destrutiva, que se liga no campo espiritual, enquanto no terreno material se está preparando com a contínua e sempre mais difundida construção de bombas atômicas. Assim, o destrucionismo no campo espiritual chegará até às últimas consequências no campo material. Vivemos num universo em que tudo está ligado e repercute de um polo ao outro, de modo que nenhum movimento se pode isolar das suas repercussões.

Falamos de vingança histórica. Não é possível que a ameaça de um cataclismo possa ser justificado como resultado somente da agilidade ou inexperiência de quem o provoca.

Mesmo se na superfície for o contrário, o que rege na profundidade da vida é um princípio de justiça, pelo qual o que nos acontece, em bem ou em mal, é merecido. Então perguntamo-nos: quando, durante séculos, acumularam-se erros e culpas e se continua a cometê-los, hoje, acrescentando-se potência a requinte? Quando o pensamento filosófico, em lugar de dirigir, é um cancro que corrói, enquanto a ciência, o mais alto produto da inteligência, prepara a destruição da humanidade? Perguntamo-nos, ainda, se não será merecido e fatal, o destino que cada um terá de cumprir-se? Há quem creia: basta negar uma coisa para que ela deixe de existir, basta ignorar as leis da vida para que elas deixem de funcionar!

Já falamos de uma grande alma, Teilhard de Chardin, que trabalhou no sentido oposto, construtivo, para trazer um ideal à Terra e não para destruir os vestígios de outros; para fazer-nos avançar evolutivamente, e não para retroceder. Como cientista, procurou trazer-nos Cristo pelas vias positivas da observação e da lógica. Mesmo assim, foi condenado, pela sua Igreja, ao silêncio e a morrer tristemente no exílio. Eis o tratamento que em nosso mundo obtêm os construtores. No entanto, são indispensáveis à vida para compensar o trabalho dos destruidores, tendentes a deixá-la abandonada no vazio. Junto aos cemitérios cheios de túmulos, é necessária uma contínua produção de recém-nascidos. Vive-se enquanto se caminha. Livremo-nos de parar ou retroceder, A Igreja segue o mesmo caminho e se alia com os distribuidores do Prêmio Nobel, em sentido oposto, executando o mesmo movimento que conduz ao mesmo resultado. Tudo caminha, na mesma direção negativa, seja no caso de Sartre, como no de Teilhard de Chardin; estimulando o mal, por um lado, obstaculizando o bem, por outro. O ponto de chegada é o mesmo. Impulsiona-se o avanço dos destruidores, paralisa-se a obra dos construtores. Colabora-se em plena concórdia. A conclusão não pode ser senão uma só, ou seja, a que explicamos. Quando se trata de uma vingança histórica e, portanto, de um destino, porque foi merecido, este torna-se fatal; quando se optou pela corrida em descida e já não é possível deter-se, então sucede que ficamos cegos, para que a lei se cumpra; não somos capazes de ver o perigo, nem a própria salvação. Talvez, nesta cegueira, necessária para que se faça justiça, consista o drama do atual momento histórico.

Sim! Neguemos os valores superiores! Emborquemos as partes. Em lugar de colocar o estômago a serviço do cérebro, coloquemos o cérebro a serviço do estômago. Abandonemos o leme da vida, deixemo-la sem diretivas ir à deriva em lugar de guiá-la com sabedoria, mantendo-a ao longo do caminho da evolução, o da salvação. Onde pode ir bater um automóvel numa corrida, quando o chofer está enlouquecido? Esqueçamo-nos da fundamental função biológica de orientação que os ideais cumprem para nos levar em direção ao melhor. Assim seremos presos no vórtice espantoso dos retrocessos involutivos que se fecha em espirais cada vez mais estreitas até chegar ao fim da destruição da raça humana, se esta demonstra ser inepta para a vida. A vida já destruiu tipos biológicos que se colocaram nessas condições, sabemos ser este o seu sistema e, portanto, está pronta a fazê-lo também com o homem. Tornemo-nos loucos, pois. Mas a vida não brinca.

Há dois milênios que o cristianismo luta para civilizar o homem, com um trabalho paralelo ao das religiões irmãs nos outros continentes. Agora deixam-nos desencadear de novo a besta, uma besta que não só possui dentes caninos e garras, flechas e espadas, mas também bombas atômicas! Premiai os destruidores! Que o mundo os clame e os siga! Sufocai os construtores, fazendo-os morrer sepultados no silêncio! Ciência, filosofia e religião, parece que todos ignoram as leis que reagem a estes erros, com Deus ou ignorando Deus, estas leis funcionam, feitas de forças invencíveis que atuam segundo princípios que nenhuma negação pode anular; forças, alimento vital, que exaltam a quem trabalha segundo a sua ordem; negando-se, esmagam a quem tenta rebelar-se, indo contra a sua corrente. Negai, negai! Negareis antes de tudo a vós próprios. Destruí e sereis destruídos. O que lançais para fora de vós, cairá sobre vós. Este é o produto da sua semeadura hoje, pesando sobre o mundo. Ninguém pode escapar às consequências do que foi feito, merecido por nós. De nada serve negar. Os erros se pagam da mesma forma. Como se as opiniões humanas tivessem o poder de alterar a estrutura da existência e as leis que dirigem o seu funcionamento! Sim, proclamemo-nos livres! Experimentemos violar as leis da vida, e veremos logo o que sucede. A nossa cegueira pode-nos fazer crer que sabemos vencer. Mas, quando pela nossa astúcia imaginarmos ter enganado a Deus, então, tudo cairá em cima de nós. Destruamos os alicerces da casa da vida, superiores valores do espírito, e veremos o nosso fim. Tanta fome de liberdade, mas é só fome de animalidade; é impulso em direção negativa, para retroceder e ficar em baixo, eximindo-se da fatigante disciplina da evolução. Retroceder significa voltar aos níveis evolutivos mais baixos, onde a vida é mais dura; significa involuir até ao estado feroz da besta. Quem sabe se não é este o futuro para o qual a humanidade se está preparando?

O momento é tremendo. Os velhos valores esgotam a sua tarefa e funcionam com esforço. Os novos não se veem surgir. Que diretivas daremos ao caminho da vida? Concordamos que se abusou tanto dos velhos ideais que hoje, na sua forma atual, já não servem, embora haja o que renovar-se. Mas para renovar-se há que substituí-los com o melhor e não com o pior. Para retroceder, é melhor não se mover. Se não avançamos em direção aos valores superiores, continuando o caminho neste sentido, retrocede-se até ao nível animal. Em certo momento, oferecem-nos um existencialismo ateu e pessimista, como sistema filosófico levado a conclusões éticas, com pretensões de moralista! Deseja-se encher o vazio com o vazio. Oferece-se como diretiva uma ausência de diretivas, ou pior, uma diretiva em descida, que acelera a destruição. Esta é a vitalidade do câncer. Até este é movido por um impulso de multiplicação vital. Mas em que sentido? No sentido da auto-anulação. Temos, pois, uma filosofia emborcada, dirigida a destruição da vida, porque nega o espírito, que é vida, e faz-nos retroceder para mais longe de sua meta, Deus, ponto ao qual tende a evolução. Num momento crítico, é necessário um impulso para diante, porém, é dado um impulso para trás com a oferta de um banquete de pseudo-valores e de negatividade destruidora!

Em Sartre, não encontramos uma revalorização de valores, mas uma sua desvalorização. A destruição, quando é necessária, é admirável só como condição, primeiro momento, de uma paralela reconstrução. Aqui falta o segundo termo que justifica o primeiro. Isto é nihilismo, é a desagregação do existir, é o triunfo do não-ser. É necessário, pelo contrário, saber reconstruir, ter a força de subir, se não queremos deter a nossa evolução na qual está a salvação. É certo que estamos carregados com todos os erros do passado, mas vivemos para não os cometer mais; estamos cheios de imperfeições, mas vivemos para aperfeiçoar-nos; o mundo está cheio de falsos cultos e de ideais prostituídos ao interesse, mas vivemos para purificar-nos e aproximar-nos sempre mais de Deus. Sobretudo, no momento atual, temos necessidade de uma filosofia sã, vivificadora, saneadora, cheia de valores vitais; ao contrário, no seu lugar é nos oferecida uma filosofia cheia de ansiedade e de desespero, que não resolve problema algum. A negação mata, não saneia. Uma filosofia feita de pessimismo não pode cumprir funções vitais e curativas. A angústia só abate. Nada se pode construir sobre um estado de espírito apreensivo. Poderíamos ver neste fato a verdadeira face do mundo, que assim nos aparece com uma expressão de angústia. Mas esta é a tristeza de quem perdeu o caminho da evolução e com ele a esperança da salvação e se encontra perdido, só, no deserto. Corresponderia à face do pensador, que representa a intelectualidade dirigente, o dever de orientar o caminhante desviado. Ao contrário, faz sua esta angústia, deixando-se arrastar, e a apresentar como sistema filosófico. Mas quem assume a função diretiva, do médico, tem o dever de curar e tratar de dar saúde ao doente. Se, pelo contrário, adoece com ele, usa o mesmo leito, ele preparando-se também para morrer, esse médico, mais doente do que o doente, não serve, para ele não há mais possibilidade de salvação.

Assim caminha o mundo de hoje, indiferente ao seu eterno destino, sem entender ao profundo significado da existência e à sua suprema finalidade. É absurdo dizer: “(...) a existência febril, impossível que se chame destino (...)”, quando isso significa, para quem queira, a ascensão ao céu, a conquista de uma existência superior. É natural: quem segue a filosofia da anulação encontra-se isolado, aniquilado, perdido no vazio, oprimido pela angústia, na qual a vida chora o seu fracasso. A negação a entristece porque a vida está feita para afirmar. Este é o sofrimento dos autocondenados à morte, que repeliram a supervida do espírito. Esta é a sorte das almas vazias, dissecadas, congeladas, amantes da negação. A vida que se faz poderosa no espírito, nada teme: na morte está cheia de alegria da ressurreição, na dor está rica de esperança, não conhece a angústia do vazio, porque é ativa em cada instante pelo trabalho da própria superação, na conquista por meio da evolução. Uma tal vida é dinâmica, criadora em cada momento, iluminada pelo conhecimento, poderosa de recursos interiores, jubilosa por suas realizações que a levam cada dia mais alto.

Negando Deus, em Sartre, na dor fica só a angústia. É o pranto da alma arrancada da primeira fonte de sua vida, sem meta e sem esperança de salvação. Em Teilhard de Chardin, junto a Deus, na dor permanece a consciência de uma supervida, do sofrimento ressurge-se na alegria. É a alegria da alma que se une cada vez mais à sua fonte de vida. Quando a selva arde, é natural que o pássaro, com a sua evolução fabricou as asas, possa voar para longe e se salve; ninguém pode evitar que o verme morra, porque, mais atrasado, ainda não chegou a construir tais meios. As leis da vida continuam funcionando mesmo para quem as ignora ou as nega.

               

Perante Sartre e o existencialismo, fixemos claramente a nossa posição. Não estamos do lado negativo dos destruidores dos valores espirituais, mas do lado positivo, afirmativo dos construtores. A nossa filosofia, por ser feita de esperança e de coragem, está no polo oposto à de Sartre, feita de pessimismo e de desespero. Para nós, o ideal não é de ilusão e traição, mas, qual antecipação de evolução, representa um positivo valor biológico. Para nós a afirmação da existência de Deus não é o produto de uma fé, mas é uma certeza derivada da constatação da presença de uma suprema Inteligência anteposta ao funcionamento orgânico do universo. Dizemos com Sartre que o homem é um desgraçado, mas acrescentamos que ele pode e deve superar a sua desgraça. Constatamos as dores do mundo, mas nem por isto nos deixamos vencer, abandonando-nos na inércia, porque compreendemos a sua função criadora, impomo-nos, pelo contrário, o esforço de superá-las, isto depende de nós e é possível, porque assim o querem as leis da vida e está escrito o que se deverá realizar no futuro, por evolução. Trata-se de conceitos que, noutros lugares, largamente ilustramos e demonstramos. A nossa atitude é ativa, de quem caminha em direção à vida; não é passiva, de quem se deixa ir para a morte.

São simples os raciocínios do existencialismo na sua sumária liquidação de Deus. Os ateus dizem: “Deus criou as criaturas para fazê-las sofrer; como o mal em Deus é um absurdo, Deus não existe”. Este discurso significa: “O que verdadeiramente importa sou eu, eu sou o centro e tudo deve existir em função de mim, tudo quando está contra mim deve ser eliminado. Deus faz-me sofrer, havendo-me dado essa triste vida. Então, eu O rejeito. Ele não existe”. Quem assim raciocina não compreende que não é Deus quem faz sofrer as criaturas, porque estas sofrem como consequências dos seus erros e para aprender a não errar mais. Quem daquele modo raciocina demonstra, com isso, encontrar-se ainda evolutivamente atrasado na direção do AS. Prova-o esta sua psicologia de rebelde, que o induz a lançar a culpa sobre Deus, contra Quem se revolta, em vez de lançá-la sobre si próprio. Esta é de fato a mentalidade do biótipo AS, negando, na dor procura a fuga; afirmando, procura a salvação.

Segundo a tese existencialista, o universo seria um absurdo. Nela nada teria sentido e a liberdade humana, aparecida por acaso num mundo incoerente, seria inutilizável para qualquer finalidade de bem. Pessimismo cheio de horror e náusea, completamente oposto à concepção cristã. Seguindo esta, colocamo-nos nos antípodas e, cheios de esperança, procuramos os valores positivos, construtivos, com uma forma mental do tipo S. Se estamos em baixo, na desordem e na dor, é porque somos ainda atrasados. Mas o caminho da evolução está aberto diante de nós para que o percorramos, a redimir-nos e emergir sobre o estado atual. O homem tem nas mãos os meios para avizinhar-se sempre mais da felicidade e isto pode acontecer, bastando que saiba merecê-la, movendo-se com inteligência e consciência, segundo a Lei de Deus, no seio da qual vive. A vida, compreendida e vivida a sério, é uma imensa obra de construção.

Mas o existencialismo se explica. Sartre, por si só, não poderia fazer nada. Nele, o seu sistema tomou corpo e encontrou a sua expressão, uma corrente já formada no subconsciente coletivo, um estado de ânimo de desespero, devido a duas guerras ferozes e inúteis, destruidores de toda fé e ideal. Por isso, o destrucionismo existencialista, uma vez encontrado o terreno adequado, teve seguidores e sucesso. Quem está cansado e doente de desilusões, prefere abandonar-se no caminho fácil da descida antes que esforçar-se pelo caminho árduo da subida. As massas comodistas procuram fugir ao trabalho sério, construtivo, que exige pensamento, esforço, sentido de responsabilidade. Estimula-as, pelo contrário, o atalho da evasão e a inércia do pessimismo. Mas, assim não se resolvem os problemas e se pagam as consequências.

Tudo isto é prova de debilidade e decadência. Ao ataque do mal, não respondeu a sã reação de um organismo forte que quer superar os obstáculos para sobreviver, mas a reação oblíqua e patológica de um organismo doente, impotente para vencer a doença. Isto se torna tanto mais grave por estar afetado o cérebro da humanidade, representado pela elite intelectual da civilização europeia. Trata-se de uma psicose que corrompe o centro diretivo, aquele que deveria assumir a tarefa de orientação espiritual do mundo. Se o cérebro está doente, que sucederá com todo o resto do corpo? Se a mente que deveria estar à frente do caminho da evolução, anteposta ao trabalho de antecipar e avançar, está corroída e se está desfazendo, se o dirigente do veículo se perde e sai da estrada, então o desastre é inevitável. Devemos aqui explicar como tudo isto pode acontecer.

É o pensamento que se encontra nas raízes da vida. O desmoronamento espiritual precede o desmoronamento material e lhe anuncia o começo. O triunfo de Sartre pode ser um sintoma premonitório, junto com outros detalhes, e está amadurecendo o fenômeno da liquidação da civilização europeia. Não vemos os filósofos e pensadores no terreno da ação e da realização. No entanto, são eles os primeiros motores das revoluções e revoltas das épocas seguintes. Karl Marx antecipou os levantamentos políticos do século XX nas salas de leitura do British Museum. As acesas polêmicas de Sören Krierkegaard assentaram as bases sobre as quais Sartre construiu o existencialismo.

Assim, por obra de um só pensador, a semente é lançada. Se encontra o terreno adequado, desenvolve-se rapidamente, afirmando-se segundo a sua natureza. Assim sucedeu com o Comunismo e com o existencialismo. Formam-se correntes de pensamento coletivas e vão-se amadurecendo os fenômenos sociais nos quais aquelas tomam corpo, até alcançarem a sua realização como fato histórico.

Os fenômenos seguem, com um ritmo de sucessão de fases, a trajetória do seu desenvolvimento e, uma vez iniciada, são levados pela sua lei a percorrê-la até ao fim. É difícil detê-los, porque até ao seu esgotamento, continuam atuando as forças que os puseram em movimento e só um equivalente impulso em sentido contrário pode neutralizar. Assim, desde o começo, o observador atento pode ver qual será o futuro desenvolvimento do fenômeno porque, uma vez lançado, ele se mantém inexoravelmente fechado dentro das normas da lei, reguladora do transformismo. Sabe-se, então, a direção e as soluções finais que, fatalmente, a história conduzirá. Esta avança por fases sucessivas, ligadas uma à outra, como sua consequência necessária, porque implícita na fase precedente. Quando a história se canaliza por um determinado tipo de fenômeno, deve seguir os períodos do seu lógico desenvolvimento, conectados, condicionando-se uns aos outros, como os anéis de uma mesma cadeia. Vários elementos com várias funções, cada um para cumprir a sua, escalonam-se sucessivamente no tempo: o pensador, o revolucionário, o guerreiro, o líder, o estadista, o político, as massas que os seguem. Cada um é, por sua vez, atraído, envolvido, colocado em movimento, todos ao trabalho, vencedores e vencidos, hoje lançados para posições superiores quando a sua colaboração é útil e se adaptam ao seu mandato, cumprindo a sua função histórica; amanhã, porém, abandonados e liquidados quando já não servem mais. Cada um crê ser uma força autônoma, trabalha para si e não é senão um instrumento, um momento de um processo histórico, um elemento que vale só em função do trabalho a cumprir, em relação ao qual o indivíduo ocupa a posição que o valoriza. Regidas pelo princípio das unidades coletivas, vemos as unidades menores unirem-se organicamente para formar uma maior. Assim, no desenvolvimento destes fenômenos vemos os movimentos dos elementos menores coordenarem-se instintivamente para determinar os movimentos maiores. Semente e terreno, impulsos e ambiente, chefes iniciadores e massas, espírito revolucionário e resistências, ações e reações, impulso inovador e consentimento dos seguidores, todos acabam por colaborar num único concerto que a história logicamente desenvolve, arrastando todos no seu progresso.

Com esta consideração devemos enfrentar o fenômeno existencialismo. Mais do que uma teoria, como fato individual não conduz a nenhuma consequência, o que a torna importante é o consentimento, é a aceitação como um fenômeno coletivo e lhe confere volume, extensão e significado. Então, a teoria filosófica se enxerta na vida, torna-se realidade histórica, porque transformada em forma mental coletiva, entra no terreno das realizações. Quando uma filosofia, imperante porque chega a alcançar tão vastas ressonâncias, é uma filosofia corroída, torna-se um perigo social, através do grupo que a incorpora e a expressa, tomando-a como bandeira e fazendo-se expoente dela. O fato de a doença ser de caráter social faz pensar num estado de decadência da sociedade. Não é importante uma doença que fica limitada a um só indivíduo ou a poucos, mas torna-se grave por assumir proporções epidêmicas.

Matar o ideal é perigoso, ele cumpre uma função biológica necessária, de orientação da vida projetada em direção ao futuro. Se a envenenamos no seu nível mais alto, o espiritual, acabaremos por envenená-la toda, também no plano material. A medicina psicossomática reconhece que a origem de algumas doenças orgânicas deve procurar-se no terreno psíquico. Em tal caso, as etapas sucessivas da ação da psique sobre o corpo são: “Distúrbio psicológico, anomalia funcional, alteração celular, lesão anatômica”. Existe uma psicogênese das doenças físicas. Perante a higiene psíquica, a humanidade encontra-se na idade pré-desinfecciosa, indefesa contra os ataques e os venenos psíquicos do ambiente. Se a vida se corrói no seu polo espírito, acabará por corroer-se também no seu polo matéria. Se destruímos a saúde do órgão de orientação diretiva, destruiremos forçosamente, a do organismo físico que depende dele.

O espírito se encontra mais avançado no caminho da evolução. Está à frente do comboio, iniciador da marcha. O resto o segue. Se suprimimos o ideal, obstruímos a via de nosso desenvolvimento e recaímos na baixeza animalesca de nosso passado biológico. Se nos matamos a nós próprios, porque a vida atraiçoa o seu fim maior, a evolução, está emborcada, é a morte. Perde todo o sentido e valor, a sua existência fica reduzida a um charco inútil, sem meta e sem futuro; quando, na verdade, trata-se de um meio precioso que possuímos para alcançar os mais altos destinos.

Parar no meio da universal marcha evolucionista significa ficar atrasado e ser superado. Se nos retiramos do nível biológico mais avançado, o do espírito, o centro da vida retrocede para reconstituir-se num plano inferior, mais involuído, o animal. Tendo-lhe sido fechado o caminho da evolução, a vida retrai-se, contraindo-se em inferiores dimensões biológicas. Então, a civilização desmorona-se na barbárie, a ordem no caos, o bem-estar na miséria e no sofrimento. O castigo mais grave, golpeando a revolta à ascensão, é a lei da própria vida, é contração de dimensões biológicas, é redução de espaço e de expansão vital, é mutilação e sufocamento da existência. O maior perigo que ameaça a humanidade, nesta excepcional hora histórica, quando se encontra numa curva do seu caminho evolutivo, é o de um retrocesso involutivo. Agora que os tempos estão maduros para avançar, ao contrário, retrocede-se. A filosofia da negação leva à involução. O destrucionismo tende ao retrocesso.

Nós estamos do lado da vida e da sua evolução, sustentamos os seus direitos e o dever de fazê-los valer; ao lado do Cristianismo, sustentamos os mais altos valores da civilização, os do espírito. Deixamos às clínicas psiquiátricas as filosofias suicidas, doentes de negação e de desespero. Na luta, devemos arder de fé; a dor deve reforçar-nos e ser vencida pelas potências do espírito. Queremos uma virilidade superior à primitiva e agressiva de nosso mundo, para vencer em planos mais elevados. A nossa Obra é uma reação a essa destruição espiritual que, neste período de decadência do mundo, tende a fazer-se universal na pintura, escultura, música, literatura, moral e filosofia. O valor reside no resistir a essa destruição, ou melhor, no lançar-se a construir para se preparar a preencher o vazio a ser deixado. Por isso, não oferecemos uma filosofia de palavras, sutil de requintado bizantinismo, vã e decadente, como a que está hoje em moda. Oferecemos uma espiritualidade forte, positiva e criadora, de superação evolutiva e de construção biológica; é uma espiritualidade que não se apoia apenas sobre convencionais bases fideísticas religiosas, mas sobre controláveis bases científicas e racionais.

Parece, no entanto, que a humanidade está mais apta a responder aos apelos do mal do que aos do bem, prefere aderir a quem a convida a seguir o cômodo, mas perigoso, caminho da descida do que a quem lhe propõe o fadigoso, mas saudável esforço da subida. Este é o drama humano que o triunfo do existencialismo nos revela, isto é, os construtores permanecem incompreendidos e isolados e os destruidores, que impulsionam para o pior, são compreendidos e seguidos. Isto significa que a humanidade não gravita em direção ao S, mas ao AS. Retrocesso a estados mais involuídos, a níveis de vida inferiores, cheios de trevas e de dores.

Esta desordem central que está no espírito, de consequência em consequência, pode concretizar-se nos fatos até levar-nos a uma guerra atômica. A opinião pública preocupa-se com o atual aumento vertiginoso de população, problema de que já tratamos. Como um pressentimento, pode surgir a dúvida de que este aumento seja um sinal de uma providência que a sabedoria da vida previdente toma para assegurar a sua sobrevivência, isto é, poderia ser um sintoma revelador de aproximar-se de uma paralela e correlativa destruição demográfica. Explicar-se-ia este aumento, determinado pela necessidade de nos encontrarmos prontos para enfrentar o novo assalto à vida, vencendo-o ao compensar as grandes perdas de uma guerra atômica. Na sua imensa experiência, a vida sabe muitas coisas como o prova o fato de que soube chegar, até aqui, superando muitos outros cata-clismos. Nos seus equilíbrios a vida, dessa maneira, com o aumento da população, resolveria o problema da sua defesa, e com a destruição, corrigiria o excesso da superpopulação. Isto não surpreende a quem conhece os métodos da natureza. Por outro lado, eles são impostos por ser necessário respeitar a liberdade humana, liberdade de errar para ser obrigado a corrigir. Se o homem está louco, que pode fazer a vida a não ser correr atrás dele para remediar as suas loucuras? Se lhe tivesse sido possível, o homem já teria destruído o planeta há muito tempo.

Só assim tudo se salva: da liberdade de chegar a uma superprodução demográfica decorre a necessidade de equilibrá-la com uma compensadora superdestruição demográfica, objetivando a sobrevivência da raça humana e a necessidade de fazer esta nova grande experiência para acabar, para sempre, com as guerras, pagando o homem com a própria dor o erro e aprendendo a não repeti-lo. Se, para ensiná-lo não há outro argumento a não ser a sua dor, pelas vantagens que daí derivam, vale a pena deixá-lo enfrentar semelhante experiência, mesmo que ele tenha de a pagar bem caro.

Como dizíamos acima, para a medicina psicossomática, também princípio de solidária correspondência entre os fenômenos, a lei é: à desordem espiritual deve, fatalmente, seguir a desordem material. Se hoje constatamos a presença da primeira, devemos, logicamente, esperar a aparição da segunda. Esta destruição, no plano físico, seria, na lógica sucessiva dos momentos do fenômeno, o ponto final do seu desenvolvimento, expresso na sua fase inicial de preparação da atual desorientação espiritual, da qual o existencialismo faz parte e é uma expressão.




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