A Descida dos Ideais

Para compreender o significado do presente livro devemos vê-lo enquadrado no seio da Obra da qual faz parte. Esta é composta de 24 volumes, ligados sucessivamente um ao outro como anéis de uma cadeia. Cada um deles representa uma fase da construção, um por andar, de um edifício único que é a Obra. Tal estrutura não foi premeditada e se deve ao fato de que cada volume foi vivido pelo autor, e o desenvolvimento da sua série representa o espontâneo amadurecimento do seu pensamento e personalidade.

Vejamos, pois, em que ponto da Obra, em relação aos outros, se encontra o presente escrito. O termo central dela é o livro: O Sistema, preparado pelo outro: Deus e Universo, sendo o leitor conduzido através desse último, e completado por A Grande Síntese que o precede, projetando uma visão mais próxima e acessível, isto é, o aspecto evolutivo do nosso universo. Colocadas assim as bases teóricas da doutrina, o volume O Sistema é desenvolvido mais detalhadamente por outro: Queda e Salvação.

Chegados a este ponto, e havendo sido exposta toda a teoria, com os volumes que se seguem, entra-se na fase das suas consequências e aplicações; ele é agora transportada ao terreno prático da sua realização como controle de sua verdade. Entramos na fase de conclusão da Obra. Assim nasceu o volume: Princípios de Uma Nova Ética, que se refere a problemas de moral, psicanálise, personalidade humana etc. a ele se segue o presente volume: A Descida dos Ideais, que aborda ao invés, o problema religioso. Tema importante, dado que é através das religiões que se realiza na terra a descida dos ideais, tema que interessa à vida no seu ponto central: a evolução (a salvação com retorno a Deus). Estamos preparando o volume sucessivo a este: Um Destino Seguindo Cristo, no qual se avança sobre as consequências mais concretas e realísticas aplicações das teorias básicas, sendo apresentadas em forma vivida por um indivíduo que as aplica, transportando-as para a mesa das experiências e provas da realidade cotidiana, em contato com os fatos, tal como se verificam em nosso mundo. A visão global das verdades universais é observada de novo em particular, transferida para outro nível e dimensão, em função de outros pontos de referência situados em nosso plano de evolução. Assim esta atual zona de pensamento torna-se complementar da anterior, porque aquela é teoria longínqua da realidade de nosso mundo, enquanto que esta, pelo contrário, propõe-se, ao submetê-la a controle experimental, de demonstrar-lhe a verdade. Com Um Destino Seguindo Cristo a segunda Obra vai chegando ao fim.

Os outros volumes, surgidos ao longo do caminho, representam ramificações dos conceitos fundamentais, exposições colaterais exemplificativas e complementares, para melhor iluminar, demorando-se em problemas secundários. Trata-se de digressões saídas do tema central que, no entanto, o comprovam e o aprofundam, porque ele é o ponto de referência de toda a Obra. O quadro completa-se não só em sentido universal, como também particular, composto de tantos elementos quantos são os vários volumes, ligados ao longo da linha de desenvolvimento de um processo lógico “único”, exposto por continuidade. Só agora, que estamos no final e com um olhar retrospectivo abarcamos todo o caminho percorrido, pode aparecer de maneira evidente, sendo possível formar uma visão de conjunto, a unidade fundamental de toda a Obra.

Os volumes finais dos quais o presente faz parte, são importantes não só porque derivam de um sistema conceptual orgânico, mas também porque, em de vez de se apoiarem numa doutrina particular, se apoiam sobres bases positivas e universais, como o são as leis que regem a vida e representam o pensamento de Deus, tal como se manifesta em ação em nosso plano de evolução. Estas leis existem e, para funcionarem, como de fato sucede, não necessitam de modo algum, de nossas opiniões. Elas caminham independentemente das verdades sustentadas por qualquer grupo humano, seja partido ou religião, e vemos que continuam funcionando indiferentes ao fato de as negarmos ou ignorarmos. Elas abraçam a vida integralmente, inclusive a vida espiritual monopolizada pelas religiões. O ponto de referência é portanto sólido e está aí visível, atual, objetivamente controlável, sem necessidade de mistérios, de revelações, de fé, de reconstruções históricas, de fatos longínquos. É um pensamento sempre presente, que sabe falar e fazer-se entender nos fatos, castigando-nos com as suas reações vivas e a sua lógica inflexível.

Só com tal visão realista que abarca todos os aspectos da vida, incluindo os espirituais, se podem convencer as novas gerações. Com esta finalidade de bem, a usamos e oferecemos, para salvação dos valores espirituais, apresentando-a numa forma positiva, tal como hoje se exige para que uma ideia possa ser aceita. Novas correntes de pensamentos estão agora amadurecendo rapidamente. O Catolicismo, obrigado a mover-se para não ficar atrás, abandonado, está chegando em último lugar, ofegante, e apressa-se em atualizar-se. Lança Concílios, neles vota a favor do princípio da liberdade de consciência, procura um diálogo com as outras Igrejas cristãs, abre os braços aos irmãos separados, mas para que eles façam o esforço maior de aproximação em seu favor. Em resumo, agita-se para salvar a sua posição de domínio.

Por outro lado, o Autor, a quem não interessa esta luta de grupo para defesa própria, vê-se constrangido a resolver seus graves problemas, que são de outra natureza e trata de solucioná-los por si mesmo. Ele começa a pensar e não se adapta mais a representar o papel da tradicional ovelha do rebanho, só pelo fato de ser um fiel, obrigado à obediência da autoridade; assim não se detém em inúteis dissensões teóricas, dispondo-se pelo contrário, a enfrentar e resolver por sua conta os seus próprios problemas. Pode achar inoportuno que uma religião, que ele vê que não é competente na matéria, como o é a ciência, deva imiscuir-se, sem ser consultada, nos seus assuntos. Ele pensa: sobre que bases positivas apoia-se o direito com que eles se arrogam de invadir a sua consciência, de entrar num terreno que é dele, onde, portanto, é ilícita qualquer intromissão de estranhos? Para falar com Deus não se necessita de intérpretes e tradutores. Isto é violação de domicílio espiritual. O indivíduo consciente rebela-se a esta falta de respeito ao seu direito de pensar segundo a sua consciência e conhecimento, tanto mais que semelhante invasão autoritária se faz em nome de Deus.

Por tudo isto nestes livros oferecemos o conhecimento para que o indivíduo pense e compreenda por si mesmo, e forme uma consciência própria para sua vantagem e não a serviço dos interesses de um grupo. Sem nenhuma imposição nem obrigação de crer, ele aceitará livremente, apenas se quiser, porque compreendeu e está convencido. Não pedimos fé, nem apresentamos mistérios, nem sequer um alto nível teológico. Explicamos tudo claramente para que cada um veja e julgue por si próprio. O jogo medieval da obediência baseada no princípio da autoridade, não impressiona mais. Hoje, à adesão não se chega por sugestão ou obrigação, mas por demonstração e convicção. Perante a não solicitada intromissão de terceiros na sua consciência, o indivíduo, por direito de legítima defesa, protege-se, como em pleno direito protege a sua casa e haveres contra qualquer invasor, até mesmo com maior direito porque a casa do espírito vale muito mais. Deve-se respeitar a propriedade individual e não há razões históricas ou teológicas que possam autorizar a violá-la. E no entanto, estas violações por parte de quem possuía a autoridade, foram realizadas até ontem. Depois ela se atualiza e tudo fica como se nada tivesse sucedido, porque a autoridade, uma vez reconhecida, porque é a mais forte, pode fazer e desfazer a sua verdade como melhor lhe convém. Isto pode suceder na mente humana, não porém nas leis da vida, em virtude das quais cada erro não se apaga gratuitamente, mas ao contrário, tem de suportar as suas consequências.

O presente volume, por tratar de problemas religiosos, é de atualidade. Com ele a Obra, depois de longo caminho, chega às suas conclusões também neste terreno. Isto no momento em que o mundo se encontra perante problemas graves que exigem urgentemente solução, e por isso se pôs a pensar e tem necessidade de conhecimento. Encontramo-nos todos numa gravíssima hora histórica de grandes decisões e transformações. Já não serve o velho e cômodo método de esperar que a autoridade espiritual decida para descarregar sobre ela as responsabilidades que nos pertencem. O indivíduo deve chamá-las a si, colocando-se de olhos abertos e ânimo sincero com os seus problemas, perante as honestas e sábias leis da vida. Nestes livros procuramos iluminá-los imparcialmente para que ele encontre, por si próprio, o seu caminho. mas deve ser ele a pensar, a compreender, a decidir. Não buscamos obediência, senão compreensão. Queremos ajudar, mas a vida exige que tudo seja ganho com o próprio esforço. Ela hoje chegou a uma curva do seu caminho, depois do qual será diferente e por isso exige métodos diversos. É para este novo trabalho que nestes livros procuramos preparar o leitor para enfrentar o futuro. Por isto aqui falamos de ideais e sua descida e o fazemos em forma positiva, porque agora trata-se de realizá-los a sério, passando das palavras aos fatos. Os ideais estão precisamente colocados neste futuro próximo, que se aproxima a grandes passos, e eles são a realidade insuprimível, porque suprimi-los significa estancar o desenvolvimento da humanidade.

Neste futuro próximo, a ciência prepara-se para demonstrar positivamente que o homem é também espírito e que, como tal, ele sobrevive a morte; voltando depois a ter experiências no plano de nossa vida física, até percorrer todo o caminho evolutivo, afastando cada vez mais em ascensão, que se realiza com o retorno a Deus. Por este caminho se chegará a uma religião científica que eliminará tanto o materialismo ateu como as religiões fideísticas. A ciência dominará positivamente o terreno que hoje ainda se encontra nebuloso, nas mãos das religiões. Em vez de lutarem, para eliminar-se, a ciência e fé se completarão inteligentemente e de forma recíproca. Teremos assim uma religião científica e uma ciência religiosa. A natureza universal da ciência positiva eliminará o espírito exclusivista que separa as religiões atuais, para fazer delas, em vez de diversos aspectos de verdades em luta, uma só verdade universal.

Não é pelas vias tentadas do atual ecumenismo católico que se chegará à unificação do pensamento religioso mundial. Este ecumenismo tende a uma unificação muito mais restrita, entre parentes da mesma família religiosa. Ele pode, em substância, reduzir-se a um chamado à casa paterna no sentido da absorção de ortodoxos e protestantes no catolicismo, para que se submetam a Roma. Por outro lado a antítese plurissecular Reforma-Contra-reforma, prova que no seio da Cristandade, seja católica ou protestante, prevaleceu o princípio involuído da rivalidade e luta, e não o espiritualmente superior do amor. Estamos, pois, situados no pólo oposto daquela unificação à qual o Amor Cristão devia estar. Eis que à grande unidade de pensamento religioso não se poderá chegar senão pelas vias da ciência. E espiritualmente isto representa uma grande vantagem, porque uma ciência sincera e honesta, esclarecendo as posições, reforçará o verdadeiro espírito de religiosidade, que nas religiões empíricas atuais está desaparecendo. A religião científica, porque demonstrada como verdadeira, não pode permanecer no estado de hipocrisia, impossibilitando ser tomada a sério. Esta será a religião do Terceiro milênio, feita não de autoridade e palavras, mas de livre convicção e de fatos. Não será proselitista, sectária, fideísta, dogmática, exclusivista, mas positiva, racional, demonstrada, convicta, universal. Nossa Obra será compreendida quando o homem chegar a este mais avançado grau de evolução.

A isto se chegará não só pela ação positiva e construtiva das forças do Sistema, mas também pela ação negativa e destrutiva das forças do Anti-Sistema, ambas ativas em nosso mundo. Do lado oposto ao de agora observado, vemos dois fatos convergentes que tendem a levar a uma guerra atômica. De um lado o velho egoísmo, o espírito de domínio e o instinto de violência, não obstante as religiões, ficaram intactos no homem ainda fechado na lei da luta, qualidade involuída do plano animal situado no lado do Anti-Sistema. Do outro lado, com semelhante natureza, o homem chegou de improviso a ter em seu poder meios de destruição que, se antes eram limitados e portanto não podiam produzir senão efeitos limitados, hoje, sendo poderosíssimos instrumentos de extermínio, podem chegar ao aniquilamento da humanidade. O homem não se encontra absolutamente preparado para saber usar com sabedoria semelhante poder novo, não tendo a sua forma mental progredido com a mesma rapidez e na medida daqueles poderes, antes ficando igual à do primitivo e em grande parte dirigida por velhos instintos. Em tais condições, é muito duvidoso que ele saiba fazer bom uso de tais meios. As duas condições, de fato, estão conectadas: imensos poderes e instintos atrasados. As divergências entre os povos não sabem resolver-se senão com a força, base de todo o direito. As religiões aceitam este estado de fato. Para quem ainda não se armou, não resta senão esperar a sorte dos vencidos. É assim que a posse da bomba atômica se tornou uma necessidade defensiva para todos. Hoje a guerra transferiu-se para esta nova dimensão. Assistimos uma corrida universal de produção dessas bombas, de maneira que o mundo se enche cada vez mais delas. Assim, cada dia aumenta a probabilidade de que se inicie uma explosão em cadeia, impossível de ser detida, o que significa uma carreira para a morte.

A Obra surge neste momento histórico para explicar como funciona tudo isso, e assim levar à compreensão e à sabedoria. É mais fácil não considerá-la. Mas não se pode impedir que os fatos continuem a verificar-se segundo nossa ótica, conduzindo-nos às mencionadas conclusões. De resto, segundo as leis da vida, o involuído tarda em compreender e não sabe aprender a evoluir senão através da dor. A vida o sabe e assim o trata. Com semelhante biótipo não se pode chegar à compreensão  por outro caminho. a tal resultado conduzirão dois fatos: 1) a evolução que impulsiona o homem para a frente, amadurecendo sua mente; 2) a dor que o castiga, obrigando-o a pensar. É em tal momento histórico e sobre semelhante quadro de acontecimentos apocalípticos que aparece a Obra da qual o presente volume faz parte.

S. Vicente – Natal de 1965.

I – As três fases da sua evolução

O homem encontra-se vivendo num mundo no qual cada ser tem de abastecer-se a si mesmo. É assim então que quem quer obter o que lhe é necessário para a sua vida deve ganhá-lo, lutando contra todos. Nada lhe cai gratuitamente do céu, mas tudo deve ser o resultado de um esforço seu. Esta é a origem daquilo que se chama trabalho. Também as feras na selva estão sujeitas ao trabalho, porque devem prover a sua comida, agredindo e matando os outros animais. Assim é que a lei do trabalho é uma lei biológica fundamental.

Corresponde a outra lei, também biológica e fundamental, o princípio de propriedade. Cada ser, inclusive o animal, considera que lhe pertence em propriedade o que ele conquistou com o seu esforço, isto é, trabalho, vencendo todos os obstáculos seja da natureza, seja dos seus rivais na luta pela vida. Assim as abelhas sabem que a colmeia cheia de mel é produto seu, que lhes pertence, e por isso não deixam que se lhe roube o mel por direito de propriedade e de legítima defesa do fruto do seu trabalho. Assim o cão, que em troca do pão que recebe do seu dono lhe dá a defesa da casa onde este habita, sabe que deve compensar com este seu trabalho de defesa o soldo que recebe em forma de alimento, que depois, com pleno direito, defende como sua legítima propriedade. O cão compreende também quais são os limites desta, pelo fato de não morder quem passa pela estrada mas só quem entra no terreno ou na casa do seu dono.  

Queremos demonstrar com estes exemplos, desde as suas primeiras origens e raízes biológicas, os princípios do trabalho e da propriedade são conexos, legitimados pelas próprias leis da vida e nela profundamente radicados. Eles são os princípios centrais porque fazem parte da lei básica da luta pela vida, da seleção do mais forte e capaz, como da lei do equilíbrio e justiça, pela qual tudo deve ser ganho com o nosso esforço, para chegar a ser nosso depois, de nossa propriedade e para nossa vantagem, enquanto o soubermos defender. quanto o soubermos defender. Trabalho e propriedade são princípios conexos porque, desde as suas formas de origem, é por meio do primeiro que se chega à segunda. Ora, tudo nos diz que trabalho e propriedade não são princípios teóricos, artificiais, superestrutura fora da realidade da vida, mas fenômenos biológicos e que sobre eles se baseiam as correspondentes instituições jurídicas e sociais. Estas têm, então, plenos direitos de existir pelo fato de que derivam não de abstrações, mas das próprias leis da vida, as quais se encontram por sobre toda a vontade humana, que não tem o poder de construí-las nem de destruí-las. O método melhor para encontrar um apoio seguro para as próprias afirmações é o de baseá-las sobre as indestrutíveis leis da vida. Se, apesar disto, vemos depois aparecer ataques contra o instituto da propriedade, constataremos que isto é devido a um outro fato, não por ela não ser injusta, mas pode fazer-se mau uso dela.

Para entender o fenômeno do trabalho e da propriedade, é necessário observá-lo na sua evolução. Estabelecido o conceito fundamental da sua base biológica, veremos que, evoluindo com a civilização, tal fenômeno se transforma no seio da moderna organização social. Observamos primeiramente a evolução do trabalho. Aquilo que era, na sua primitiva forma individual, luta de um ser isolado contra todos, transforma-se e, porque isto é vantajoso, realiza-se, pelo contrário, através de um sistema de colaboração. Alcança-se, assim, uma posição mais conveniente porque, em vez de dever suportar um duro regime de luta contínua contra todos, cada um oferece aos outros aquilo que ele produz com o seu trabalho, recebendo em troca dos outros aquilo que, por sua vez, eles produzem também com o seu esforço. Por evolução a vida chega a esta forma que representa uma posição de menor atrito e correspondente menor gasto de força, e com isso a vantagem de uma maior produção, o que significa maior bem-estar para todos. Assim o pesado sistema do egoísmo separatista e agressivo transforma-se noutro de maior rendimento, o da convivência pacífica e da cooperação. É assim que se passa do mundo desorganizado, de luta feroz, dos animais, ao tipo de vida coletivamente organizada da sociedade humana civilizada. Tudo isto concorda plenamente com o princípio geral, que anteriormente tínhamos demonstrado, que afirma que está implícito nas leis da existência que esta seja tanto mais dura e difícil quanto mais baixo se encontra o ser na escala evolutiva, e ao contrário.

O mesmo fenômeno se verifica no caso da evolução da propriedade. Acontece assim que, nos planos biológicos mais elevados, ela não continua sendo válida e se sustém somente enquanto o indivíduo tem a força para defendê-la com os seus braços e armas, mas dentro de um organismo social encontra-se garantida e defendida pelas leis e pelo respeito que cada indivíduo tem pela propriedade dos outros. Se cada um deve submeter-se a esta disciplina, ao mesmo tempo, por reciprocidade, ele recebe, em compensação do seu dever de respeitar a propriedade dos outros, a vantagem de ver que também a sua é respeitada. Só assim o indivíduo poderá possuir em paz o fruto protegido do seu trabalho, sem ter de lutar com as armas a cada momento para defendê-lo. Eis que, como dizíamos, a evolução conduz a um melhoramento nas condições de vida. A forma de propriedade, como se encontra nos países primitivos, regidos por uma economia de furto, é tremendamente fatigante e incerta, porque é totalmente instável, sustentável só a custo de uma guerra contínua que absorve todas as energias, não podendo produzir para todos senão miséria. Acontece assim que o regime de propriedade em comum em nenhum país é tão usado como nos regidos por uma economia de furto, onde na competição entre ladrões, ninguém sabe, nem sequer o que mais possui, o que poderá possuir amanhã, tudo ou nada, porque não há nenhuma estabilidade que garanta qualquer posição econômica. Assim a liberdade da qual o primitivo goza em maior medida que o homem civilizado, em última análise resolve-se numa escravidão às consequências do seu método, que são a guerra e a contínua falta de segurança. Assim o que parece ser um sistema de vida mais fácil e vantajoso, acaba sendo o sistema mais difícil e prejudicial. Tais são e assim funcionam as leis de vida e ninguém pode impedi-lo, nem pode fugir às consequências do seu funcionamento.

Nos países civilizados do mundo moderno, encontramos trabalho e propriedade em fase mais avançada, mais evoluída distante de sua origem, que tivemos de levar em conta para provar a existência das sólidas bases biológicas destas duas instituições. Veremos que quanto mais se civiliza uma sociedade humana, tanto mais o conceito de propriedade se transforma em sentido anti-separatista, isto é, em função de utilidade coletiva. E veremos também que o conceito de trabalho se transforma em sentido anti-egoísta, isto é, em função orgânica realizada em forma colaboracionista. Não se trata de destruição dos referidos princípios biológicos fundamentais, mas de uma sua transformação e aperfeiçoamento. Nisto consiste a sua necessária evolução. Quando tivermos compreendido que se trata de fenômenos biológicos que não é possível eliminar, mas apenas transformar por evolução, compreenderemos também que o princípio de propriedade pode ser aperfeiçoado, mas não suprimido. É por isso que não há comunismo que possa mudar as leis da vida, e qualquer que seja o programa ideológico, nunca poderá chegar a destruição, mas apenas a uma diferente distribuição de propriedade. Ela será mais justa, mais equilibrada, mas este é  problema aperfeiçoamento evolutivo e não de destruição.

Essas são as transformações evolutivas às quais está submetido o fenômeno do trabalho e da propriedade. O resultado é que o primeiro ganha como poder produtivo alcançando um maior bem-estar, isto é, progride em sentido positivo, enquanto ao mesmo tempo a propriedade se liberta do peso da luta entre rivalidades, isto é, supera as negatividades dos níveis biológicos mais baixos; submetidos às incertezas de uma contínua instabilidade. Tudo isto representa uma vantagem e a vida, que é utilitária, está sempre pronta a aceitá-lo. De resto a finalidade maior da evolução, a qual representa a sua lei fundamental, é precisamente a de alcançar uma contínua melhoria das condições da existência. Na vida há uma irresistível vontade de progresso, que, em termos mais vastos, se pode chamar tendência a avizinhar-se cada vez mais do ponto final do caminho da existência, que é Deus. O fenômeno da evolução do trabalho e da propriedade faz parte deste programa, que é de ascensão, de aperfeiçoamento, de conquista do bem e libertação do mal. Assim, se nada pode ser destruído, tudo pode ser transformado por evolução. Isto quer dizer que a verdadeira função do princípio coletivista perante as leis da vida, não é a de ser um processo de destruição da propriedade, mas apenas da sua valorização como função coletiva que no novo estado orgânico da sociedade se torna cada vez mais importante com vantagem para todos, às custas da paralela desvalorização da função de vantagem individual, e do interesse particular, hoje preponderantes. A atual tendência da evolução é a de transformar uma propriedade, que no passado era só em favor do seu dono, numa propriedade concebida preponderantemente como função social de utilidade coletiva. Esta é a tendência atual, independentemente do comunismo que não é senão um aspecto do fenômeno e consequência do movimento evolutivo, tendência devida ao novo tipo de vida organizada alcançado pela humanidade.

Focalizando melhor a nossa observação sobre o fenômeno da propriedade, constatamos que existem três fases na sua evolução:

1) A fase da conquista por qualquer meio e da necessidade da defesa armada contínua para protegê-la.

2) A fase da legitimação legislativa, na qual o grupo vencedor, que já conquistou a propriedade, torna estável a sua posição de dono e, defendendo-a com um sistema de leis, se organiza como classe dirigente, no seio de uma ordem feita para ele, a seu favor. Assim nasceu o direito romano que, definindo com normas e deste modo regulando a conduta, tornou-se estável. A seguir o regime feudal medieval desembocou no capitalismo burguês.

3) A fase da socialização na qual a posse dos bens não está reservada só em favor de uma classe dominante, mas nesta posição é admitida toda a coletividade sem exclusão de uma parte. Prevalece, assim, uma outra forma de propriedade, alcançável por todos os que trabalham, e não mais reservada apenas a um grupo limitado e privilegiado. Se bem que semelhante transformação possa, para quem possui, parecer um sacrifício, ela representa para ele uma grande vantagem. Só nesta forma de livre socialização, só através de uma mais equilibrada distribuição capitalista, pelo fato de ser eliminada a classe inimiga e perigosa dos esfaimados, sempre prontos a assaltar o paraíso dos ricos, será possível, eliminando-lhe a causa, libertar-se das revoluções que são sempre movidas pelos que não possuem contra os que possuem, hoje submetidos a uma contínua ameaça que torna incerta a sua propriedade. É verdade que seria vantajoso eliminar este defeito das posições atuais, mas isto não é possível a não ser suprimindo a causa dos impulsos agressivos contra elas. O fato de que o instinto de todos é o de melhorar, leva pouco a pouco a esta outra forma de propriedade mais garantida e estável em favor de quem possui.

Agora que examinamos o fenômeno do trabalho e da propriedade, não como posição estática, mas dinâmica, isto é, como um transformismo através dos seus diferentes níveis de evolução, observemos como, segundo o seu diverso grau de desenvolvimento, os povos concebem e defrontam semelhantes problemas nas três formas agora descritas. Existem ainda povos primitivos, subdesenvolvidos, que concebem trabalho e propriedade na primeira daquelas três formas. E há povos mais civilizados que concebem tudo isto na segunda forma mais avançada.

1) Observemos o primeiro tipo de mentalidade. Para ele constitui legítima propriedade tudo aquilo que o indivíduo consegue agarrar com as suas mãos. Ele se considera dono de tudo isso, julgando-o justo, enquanto tem a força de defender-se do assalto dos outros. Neste nível a propriedade é só posse, de livre aquisição, sem outra lei ou limite que não seja a própria força para conquistá-la e defendê-la: tudo é livre, mas inseguro e instável ao máximo, por estar continuamente assediado pela equivalente liberdade alheia de empossar-se de tudo. Neste nível a propriedade é um estado de luta contínua, na qual o maior trabalho não é o de produzir mas o de roubar, o que nada produz, a não ser guerra e miséria para todos. Temos assim uma sociedade feita de ladrões, roubando-se sempre uns aos outros, e todos pobres, porque o furto não produz, se bem que reclame grande dispêndio de energia. Se esta fosse, pelo contrário, toda utilizada para produzir, eles poderiam ser ricos. Mas é pela sua ignorância que eles estão assim condenados a fazer um duro trabalho infernal, para por fim não produzir nada e acabar na miséria. Há ainda países que vivem desta economia de furto, e este é o resultado. De que me serve que me seja permitido roubar o próximo, quando ele pode fazer o mesmo comigo e por lei de reciprocidade, porque todos podemos roubar, todos acabamos sendo roubados? Assim, pela demasiada liberdade e pela voracidade de possuir tudo cada um para si, se chega à posição oposta, que é a de um coletivismo no qual não existe mais propriedade particular garantida e tudo é de todos, porque em cada momento cada um pode ganhar tudo, roubando, e perder tudo, sendo roubado.

2) No segundo caso, a propriedade é garantida, porque o furto não é admitido. Não se alcançou ainda um regime de justiça para todos, mas já existe uma disciplina e uma ordem. Esta tem no entanto o defeito de não ser completa, por estar limitada a um grupo ou classe social, de modo que existe sempre o perigo de revolução por rebelião da parte dos deserdados, excluídos do banquete dos que possuem. Ora, semelhante perigo poderá ser eliminado em favor da segurança da propriedade somente quando a posição privilegiada dos componentes dessa classe não seja mais exclusiva para eles, mas estendida a todos. Mas, entretanto, antes de chegar a esse ponto, um primeiro núcleo de ordem, como um modelo do novo tipo de vida coletiva, já se formou no meio do caos da liberdade absoluta do caso precedente e, dentro do terreno fechado daquele recinto, se deteve a luta e cessou a incerteza porque há leis que disciplinam a aquisição da propriedade e lhe garantem a posse. Neste sistema ela não se alcança, como no caso anterior, por meio do furto, mas do trabalho, não por meio da força, mas do direito, pelo qual por um princípio não de arbitrariedade, mas de justiça, o indivíduo recebe da coletividade em troca e em proporção ao que ele lhe dá como produto do seu trabalho.

Nisto consiste a evolução, no sistema de aquisição desaparece cada vez mais a força e aparece a justiça. Esta transformação de método é fundamental do ponto de vista utilitário a favor do indivíduo e de todos, porque quanto mais se evolui em direção à justiça tanto mais tudo tende a ordenar-se num regime de equilíbrio, o que significa segurança e estabilidade. Trata-se de uma lei universal que vemos funcionar também no plano físico, pela qual uma construção é tanto mais estável, quanto mais. está equilibrada. No plano social, a esta lei corresponde outra, pela qual uma posição está tanto mais garantida quanto mais corresponde à justiça. É por isto que uma justa distribuição dos bens é condição fundamental e premissa indispensável para obter a segurança da posse. Isto não é programa político, mas é lei biológica universal à qual não se foge. Se queremos segurança e estabilidade, não há outro caminho senão basear-se sobre um princípio de justiça. Quanto mais vastos sejam os fundamentos do instituto da propriedade, tanto mais ela será garantida, e ao contrário. Quanto mais vivamos num regime de ordem, tanto mais luta e incerteza serão eliminadas, e ao contrário.

Vemos assim que esta segunda fase, intermediária de uma ordem limitada a um grupo social não é perfeita, mas que, no entanto, ela é necessária para passar da primeira fase, de luta e caos, à terceira de disciplina e ordem para todos, fase que representa a posição completamente orgânica da humanidade civilizada do futuro. Neste nível biológico mais avançado as forças da coletividade, em vez de chocar-se umas contra as outras, o que torna mais difícil a vida, se coordenam, somando-se em sentido positivo, o que facilita a vida. A isto a humanidade não poderá deixar de chegar, impulsionada pelo seu instinto de melhoramento no qual se manifesta o impulso ascensional da evolução. A tudo isto hoje não se chega ainda devido à ignorância das leis do fenômeno, pelo que não se compreende quanto mais útil seja para todos o novo método de vida. O que impede semelhante progresso é a resistência que o indivíduo opõe ao sacrifício da própria liberdade, que é forçada a permanecer dentro de normas disciplinares. O primitivo não compreende com que vantagens semelhante sacrifício é compensado. Mais para além da sua utilidade imediata, não vê o benefício de viver dentro de uma ordem que, se sufoca a sua liberdade, em compensação lhe garante a defesa e segurança das suas posições, como não é possível no mundo livre do primitivo. A sua liberdade custa-lhe caro. O homem na floresta não está sujeito a nenhuma obrigação social, porque ali não há nem leis, nem polícias, mas ele deve estar sempre armado para defender-se de tudo e de todos, o que não é necessário na cidade onde está ligado a determinadas normas de vida. Isto poderá parecer uma restrição, mas o primeiro vive em contínuo perigo, enquanto o segundo vive muito mais seguro.

3) O terceiro caso pertence ao futuro e será vivido pelas gerações mais evoluídas.

Resumindo: na evolução da propriedade temos três fases:

Na primeira não há senão guerra e caos. A propriedade pertence a quem consegue com qualquer meio dela apossar-se e até que lhe seja tirada por outro. Assim ela é de todos, como se não fosse de ninguém.

Na segunda fase há disciplina e ordem. A propriedade é protegida, se estabilizou, mas pertence só a um grupo limitado que constitui o primeiro núcleo da organização social. Mas a amplitude deste grupo vai sempre aumentando, até que na fase sucessiva abarcará a todos. Antigamente, ele era apenas uma aristocracia feudal (propriedade adquirida como conquista de guerra), e depois se ampliou como burguesia capitalista (propriedade adquirida com o trabalho produtivo). Acabará por tomar-se uma sociedade capitalista (na qual todos trabalham, produzem e possuem). Neste terceiro regime de capitalismo universal e de propriedade para todos aqueles que trabalham e produzem, não existirá mais o perigo das revoluções econômicas.

Na terceira fase, a propriedade não é exclusiva de uma classe. Ela será mais distribuída no sentido de que cada indivíduo com a vida recebe o direito a possuir o mínimo indispensável para viver, junto com o correspondente dever do trabalho. A evolução consiste no transformar o furto em trabalho e para todos este em propriedade e bem-estar.

A estas três fases de evolução da propriedade correspondem três fases da evolução da forma de trabalho:

1) Trabalho-guerra. Não há senão luta material agressiva para apossar-se de tudo com a força, sem nenhuma ordem ou limite.

2) Trabalho-serviço obrigatório. Ele é regulado e protegido, não para apossar-se de tudo, mas para produzir, no entanto sujeito à obrigação e a cargo só de uma parte da coletividade, às ordens de uma classe dominante que, com as leis e a força, mantém uma ordem com a qual ela domina a classe dos seus dependentes.

3) Trabalho-produção, livre e universal. Ele é igualmente regulado e protegido para produzir, mas não está só a cargo de alguns a favor de uma classe limitada, pelo contrário é o trabalho de todos a favor de todo o organismo social, trabalho livre e organicamente realizado para o bem-estar de todos e não só de um grupo privilegiado.

II - Propriedade-abuso, economia de furto e cálculo das consequências.

Observamos o trabalho e a propriedade no seu movimento evolutivo e vimos que ele consiste em substituir à liberdade desordenada a disciplina, ao caos uma ordem, ao estado de guerra um estado de paz, ao método do tudo lícito o dos recíprocos direitos e deveres. No primeiro caso o tudo permitido para mim o é também para os outros, enquanto no outro caso o mesmo fato de eu reconhecer os meus deveres a favor dos direitos dos outros me dá o direito de exigir a meu favor os deveres dos outros. A evolução produz vantagens. Se não as produzisse, a vida não aceitaria um esforço inútil e não evolucionaria.

Um negro africano dizia: "porque devo fazer o trabalho de criar a minha vaca quando, roubando-a ao vizinho, a encontro já pronta?" Limitado ao interesse pessoal, por uma mente que não sabe ver para além dos limites do momento e da esfera individual, este raciocínio pode parecer justo. Mas ele não pensava que, depois, um outro vizinho lhe roubaria de novo a vaca, porque fazia o mesmo raciocínio. Então a segurança de possuir a própria vaca deve ser paga com o dever de respeitar a vaca dos outros. Não há outro meio. Muitos gostariam de viver num mundo onde fosse possível roubar o próximo, sem que eles pudessem por sua vez ser roubados, isto é, gozando de uma propriedade garantida só para eles. Mas por reciprocidade, que é lei que vigora em todas as coletividades, isto não é possível. Aos desonestos agradaria viver num mundo de honestos generosos e desinteressados para tirar deles melhor proveito, mas não compreendem que, com semelhante método de ir à pesca dos bons, trabalham a favor de uma seleção dos piores. Acaba assim por ficar só um mundo de parasitas, que terminam por morrer, porque não se pode viver explorando-se uns aos outros sem nada produzir. A vida está regida por leis às quais ninguém pode fugir. A imbecilidade do ignorante consiste em crer que com a astúcia, se possa atuar em plena liberdade, sem se importar nada com essas leis. Acontece então que ele cai na sua própria armadilha, porque depois tem de pagar as consequências.

Observemos agora como funciona este fenômeno, que frequentemente indivíduos e povos estão vivendo por sua incapacidade de entender a estrutura de tais leis. Poderemos assim compreender como e por que desmoronam nações que se baseiam numa economia de furto, em vez de numa economia de trabalho. Observemos os princípios gerais dos quais também este fato deriva. Não há dúvida que o universo, e dentro dele o nosso mundo, em todos os seus aspectos, está funcionando. Funcionar implica uma norma, uma lei que dirige e regula esse funcionamento. Uma lei presume uma inteligência que a formulou e uma vontade e poder que impõe que essa lei se realize nos fatos. É evidente que tudo isto não pode ser o homem a fazê-lo, o homem que de cada fenômeno não sabe senão pouco ou nada. Ele existe dentro destas leis e não pode fazer outra coisa senão obedecer, enquanto que, com a ciência, trata de compreender o que está acontecendo.

Um dos aspectos destas leis é o econômico, estamos agora observando-o. Também neste terreno reafirma-se o princípio geral, isto é, que quem não obedece deve depois pagar as consequências. Nos meus livros calculei o valor destas consequências em proporção ao erro cometido. Aqui no entanto estudamos o caso particular do mundo econômico. Ora, da maneira pela qual vemos enquadrado o problema, conclui-se que a nossa posição não é a do moralista que exige ou pelo menos aconselha uma determinada conduta. Estas nossas palavras não são para ordenar, já que não temos poder para isso, nem para aconselhar, porque nos falta autoridade, nem para exigir porque respeitamos a liberdade de todos. As nossas palavras são para demonstrar quais as consequências que nascem, não por vontade nossa, porque elas são fatais, mas pela automática reação por parte destas leis, conforme nós as excitamos com a nossa conduta. Cada um permanecendo livre de fazer aquilo que quer, podemos só mostrar o que é inevitável que suceda depois como resposta àquilo que quisemos fazer. Pertence à lei e não ao homem corrigir a quem errou. Ela sabe, pode fazê-lo e o faz. Nada podemos acrescentar, ou tirar, ou modificar, na sua justiça. Não tem sentido intrometer-se. O que é necessário é entender como automaticamente funciona o fenômeno. Quando fazemos movimentos errados, contra a Lei, não se pode fugir à sua reação. Esta se manifesta por meio da dor que se encarrega de avisar o indivíduo que ele errou, fazendo-lhe assim passar o desejo de continuar errando. Para que acrescentar palavras às quais estamos acostumados a não prestar ouvidos, quando a dor é uma linguagem tão clara e convincente que todos a compreendem? É por isso que aqui estamos só explicando, porque todo o resto acontece depois de per si. Espomos portanto só uma constatação de fatos, uma fotografia objetiva do automático funcionamento do fenômeno, de modo que saiba o que lhe sucederá quem, dentro da Lei em cujo seio todos vivemos, ainda não sabe mover-se, chocando-se assim com ela e provocando consequências dolorosas. Quando um indivíduo se põe contra as normas da lei da gravidade violando-as, é esta lei que vence e não o indivíduo, que acaba por cair e matar-se. Pode ele com a sua força e astúcia. paralisar esta lei, de modo que- ela não funcione?

Para o indivíduo a presença da lei significa disciplina, dentro de uma ordem que exige ser respeitada. Ora, se a posição à qual a Lei tende a levar tudo é equilíbrio e justiça, é evidente que os métodos humanos da força ou astúcia para dobrar a Lei ou procurar fugir a ela, não podem alcançar mais do que um êxito de primeiro momento, fictício, constituído em realidade só por um débito para com a justiça, divida que depois é inevitável ter de pagar. Sucede então que quem quer vencer é vencido, quem quer enganar é enganado. É a Lei que se encarrega de restabelecer o equilíbrio, que o ser rebelde queria violar. Daí se origina o princípio pelo qual quem faz mau uso de uma coisa, seja poder, riqueza, saúde, acaba por perdê-la. É pelo mau uso que tudo se gasta e morre. Assim uma propriedade maculada por desonestidade, furto, exploração do próximo, uma riqueza contra a justiça, é um fenômeno desequilibrado que não pode manter-se de pé e portanto tarde ou cedo acaba por resolver-se, desfazendo-se. As forças negativas de que tal propriedade se constituem a corroem por dentro e não se detêm enquanto não tenham destruído. O abuso dá frutos imediatos, mas traiçoeiros. O jogo seguro é só o de longo prazo, o da honestidade.

Quando a classe dirigente, que possui os meios e com isto o dever da direção do país, não cumpre a sua função, a vida a elimina. Assim nasceram a revolução francesa e a russa. O comunismo foi gerado primeiro pelos ricos que fizeram mau uso da sua riqueza, e o mesmo fenômeno está pronto a repetir-se em todos os países onde se verifique o mesmo fato. Não por vontade deste ou daquele grupo político, mas por lei universal, histórica e biológica. Ora quem compreendeu como funciona este fenômeno, sabe qual é o sistema para evitar tal desastre. Semelhante assalto à propriedade não pode verificar-se quando não haja sido violada a lei de equilíbrio, isto é, justiça. Equilíbrio é necessário entre direitos e deveres, e a posição torna-se desequilibrada, e por isto perigosa, quando se estabelecem só os direitos e se esquecem os deveres. O equilíbrio da justiça exige que o nosso direito possa nascer somente quando primeiro tenhamos cumprido o nosso dever em favor do direito dos outros, e que o direito dos outros possa nascer somente quando eles tenham cumprido o seu dever a favor de nosso direito. Se a nossa propriedade e riqueza for um privilégio de classe, defendida com a força, se este é o princípio sobre o qual se baseia a nossa posição, ninguém poderá impedir que os que estão fora deste grupo, logo que consigam assenhorear-se daquela força, a utilizem para sua vantagem, como a classe dirigente, com o seu exemplo lhes ensinou o que deve fazer. A força é coação que sustém posições desequilibradas que se mantém de pé enquanto aquela força as sustém e que a Lei mantém em contínuo estado de sítio, circundando-as constantemente e minando-as para destruí-las. A história nos ensina que o sistema da força não resolve, porque leva a um regime de continuas reações revolucionárias. Se já existisse justiça econômica e se o Evangelho fosse praticado e não só pregado, as revoluções nada teriam que fazer e não haveria a causa que as provoca. Quando não existe abuso, não há lugar para a correção. Então existe um método para evitar as revoluções, mas o homem ainda não está bastante evoluído para saber usá-lo, este é o mal.

É lei, propriedade e riqueza podem subsistir de uma forma estável só quando quem as possui cumpre os deveres relativos a elas. Somente nestas condições a vida respeita o direito de quem possui. Fora deste equilíbrio pode existir somente um estado de guerra contínuo pela diferença do que se possui. Há povos que ainda vivem nesta dura fase involuída de primitivos. A posição das nações mais civilizadas é a de tender a um equilíbrio cada vez maior entre direitos e deveres, o único fato que pode garantir a segurança do que se possui.

Um dos maiores abusos da propriedade e riqueza é o de aproveita-los como meio de luxo e ócio, em vez de cumprir com o dever de utiliza-las como meio para realizar um maior trabalho produtivo, em proveito da sociedade. Eis então que luxo e ócio, em vez de trabalho e produção, representam uma posição invertida, contra a Lei, que reagirá destruindo-a. A posição duradoura não é a da exploração dos outros para vantagem própria, mas aquela na qual quem possui trabalha a favor da utilidade coletiva.

Aqui não falamos de destruição do instituto da propriedade. Ao contrário o defendemos e é por isso que estamos descrevendo os fatos que conduzem à sua destruição. Conforme o uso que se faz da propriedade e da riqueza, os países do mundo podem dividir-se em duas partes: de um lado os povos trabalhadores que, num regime de livre iniciativa, usam o capital como instrumento de produção, fazendo-o frutificar com a sua atividade; do outro lado os povos ociosos e escravagistas, que usam o capital só como instrumento de ócio, para fazer-se manter pelo trabalho dos outros, julgados servos. Trata-se de duas formas mentais opostas. Perante o problema fundamental, que é o da produção dos bens, eis que no primeiro caso o capital representa um valor ativo, positivo, útil, a favor da sociedade e do seu melhoramento. No segundo caso ele representa um valor passivo, negativo, uma economia de exploração prejudicial para a sociedade, que assim piora as suas condições e se dirige à sua destruição, porque tudo isto absorve em vez de produzir.

Num país, quando se estabelece uma economia de furto em vez de trabalho e produção, quando prevalece uma estrutura social de exploração e o valor não está na capacidade produtiva, mas na organização parasitária, então naquele país o terreno está pronto para que as leis da vida fatalmente lancem aquela reação que se chama revolução e que hoje toma o nome de comunismo. Esta é constatação de fatos, é o diagnóstico do normal desenvolvimento da doença.

Procuremos agora, seguindo as leis da vida, estabelecer a medida para calcular o peso deste perigo. Observemos agora como neste caso essas leis funcionam nos três planos: físico, biológico, econômico.

No plano físico, vemos que uma torre que está inclinada para um lado não cai até que o seu centro de gravidade, isto é, a perpendicular que desce do centro da circunferência superior da torre não toque o terreno fora da circunferência base da mesma. Há equilíbrios estabelecidos e tudo se desmorona quando se transpõem seus limites fixados.

No plano biológico um organismo doente não morre enquanto a sua resistência orgânica, isto é, o poder das suas células sãs for maior que o ataque microbiano ou que o poder tóxico das suas células doentes. Quando o primeiro é menor e o segundo é maior, então o organismo morre. Também neste caso constatamos a presença de equilíbrios e limites, passados os quais o fenômeno, fatalmente, resolve-se com a morte do doente.

No plano econômico vigora a mesma lei de equilíbrio. Um organismo econômico pode suportar até 50% de furto, exploração, corrupção, falsidade etc.; mas quando este limite é passado, a doença torna-se mortal e aquele organismo se desagrega. Tudo o que existe é um edifício construído com vários elementos, segundo um plano básico em que tudo está estabelecido em função de determinadas proporções. O edifício se mantém de pé pelo fato de que são respeitadas determinadas leis de equilíbrio entre forças positivas e negativas. Quando prevalecem as primeiras o organismo resiste; mas quando prevalecem as segundas, então não pode deixar de desmoronar-se. Neste caso está demasiadamente deteriorada para que possa  salvar-se, já que o limite estabelecido foi superado. Uma vez alcançado aquele ponto, a torre automaticamente cai; não se ganha nada em alimentar o doente com transfusões de sangue são, porque também este acaba por deteriorar-se misturando-se com o sangue corrompido; assim num regime econômico, baseado sobre a corrupção e sobre o furto, nada resolvem transfusões de ajuda econômica do exterior; elas acabam por misturar-se e fundir--se absorvidas neste tipo de economia cancerosa, tornando-se assim alimento não para o doente mas para a doença.

Assim nos dizem as leis da vida, as mesmas em todos os níveis. Mas elas nos dizem também qual é o remédio. Se há um limite por elas estabelecido, o remédio está em não o superar, porque agora sabemos que, para além dele, a salvação não será mais possível, e a lei resolverá o caso, destruindo a construção mal feita e para isto não suficientemente forte para ter direito à vida. Destruir a construção mal feita, no plano econômico, pode significar desagregar os elementos constitutivos de uma ordem social para reuni-los novamente noutra forma, segundo outros princípios, o que pode levar à destruição do instituto da propriedade, porque dela foi feito mau uso. Assim, observando o tipo de economia de uma nação, e o nível da referida percentagem, pode-se, com antecedência, fazer o diagnóstico do mal e prever o desenvolvimento da doença. Come se pode calcular o momento em que a torre cai, ou em que o doente morrerá, assim se pode calcular o momento em que num país pode estalar a reação da lei e por falta de equilíbrio pode desmoronar o edifício, para que tome o seu lugar outra forma de vida. Esta reação da lei é, como o micróbio que mata o doente, uma força encarregada pela vida de cumprir a função, para ela importante, de liquidar os ineptos e destruir tudo o que está corrompido. Aqui falamos como o faz o médico, não com o fim de matar, mas de salvar o doente. Mas com isso não se pode impedir que quem faz o mau uso da saúde, como da propriedade e riqueza, acabe por perdê-la, porque é lei da vida que tudo o que foi arruinado, por mau uso, seja destruído.

Tudo isto pode acontecer em alguns países que se encontram em tais condições. Mas o mundo, no seu conjunto, vai pelo caminho oposto, o do trabalho produtivo. O novo impulso do mundo moderno é: trabalhar. Nisto concordam capitalismo e comunismo que não são senão dois métodos para fazer a mesma coisa: trabalhar para produzir e assim elevar o nível de vida. Se a forma é diversa, a substância é a mesma. Neste ponto fundamental. Estados Unidos, Europa, Rússia, China etc., serão de acordo, porque estão realizando o mesmo programa de trabalho. Não podia ser de outra maneira, porque ninguém tem o poder de modificar as leis da vida. Se se quer o bem-estar, meta universal do homem civiliza- do. é necessário conquistá-lo. Não há ideologia ou programa político que possa modificar este estado de fato. Nenhum homem pode sair das leis que regulam a vida. Assim o trabalho hoje não é, como na Idade Média, reservado só aos dependentes, considerados servos, num mundo no qual para o senhor não era vergonha mas honra o não fazer nada. Hoje o trabalho é de todos, se bem que em forma diferente, isto é, de quem está no alto para dirigir, como de quem está em baixo para executar. Só nesta forma de trabalho produtivo, para todos, o organismo econômico poderá resistir a qualquer agressão e ficar de pé. Ele será são e forte e ninguém poderá vencê-lo.

III - O valor do Trabalho

A nova palavra de ordem do mundo moderno é: trabalhar. Um dos principais fatores da atual transição evolutiva da humanidade consiste nesta sua nova atividade que se está realizando, assumindo um conceito novo do trabalho, bem diferente do que tinha na Idade Média. Tal superação de forma mental implica imensas consequências no terreno da produção, da riqueza, da elevação do nível de vida.

Na Idade Média o valor não consistia em trabalhar e produzir, mas em saber guerrear para dominar e fazer do próximo o seu próprio servo, explorando o seu trabalho. A nobreza baseava-se sobre este princípio. Era respeitável quem, como cavaleiro valoroso, sabia tudo conquistar com a espada, isto é, roubando e matando. Quem trabalhava e produzia era um servo, sujeito ao seu senhor. O valor e a honra consistiam em submeter e em mandar sem trabalhar. Ser ativo no produzir, que é o que constitui as bases da vida e do bem-estar, era considerado vergonha de servos. O mundo vivia ainda numa fase caótica na qual valia apenas quem sabia vencer na luta. A pirâmide do regime feudal apoiava-se sobre a opressão do povo, a favor dos poucos que emergiam por gestas guerreiras pessoais, num regime de ócio e pirataria, para vantagem própria e não da coletividade. O guerreiro não trabalha e não produz, mas vive de rapina. Quando se tem tal conceito do trabalho e não se valoriza a primeira fonte de toda a criação, não se pode recolher senão miséria. A aristocracia era filha da espada, isto é, violência e abuso, depois tudo legalizado, tornado hereditário, constituído em castas, munidas com as suas ordenações jurídicas defensivas.

É desta forma mental e tipo de economia que hoje, não importa se em forma capitalista ou comunista, o mundo está saindo. Tal transformação está facilitada pelo fato de a técnica científica ter dado mais rendimento ao trabalho. Os grandes valores daquele tempo, como a coragem agressiva, o instinto guerreiro, a honra de soldado, o amor à pátria etc., estão passando de moda, porque não são mais estas as qualidades que servem para a sobrevivência do grupo, que portanto não tem mais razão Para exaltá-las. Com a nova técnica de guerra atômica têm mais valia o cientista e o organizador industrial e produtor de meios bélicos do que o feroz líder de exércitos; para a vida hoje são mais úteis a inteligência e o trabalho do que o primitivo instinto do guerreiro. Exalta-se o dominador das forças da natureza, do que o domador de homens.

Esta transformação de método de vida tem a sua profunda razão biológica. No passado a vida tinha necessidade de produzir um biótipo capaz de vencer para sobreviver num ambiente hostil. Hoje, pelo contrário, semelhante tipo de lutador é um gerador de atritos que se torna cada vez mais contraproducente numa sociedade coletivamente organizada. Pelas novas condições de vida, que apresentam utilitarismos de outro tipo, se tende assim a relegar para o terreno dos não civilizados ou delinquentes, os guerreiros, antigamente triunfadores nos campos de batalha. Na atual passagem de grau de evolução a vida quer selecionar um outro tipo mais adequado às suas novas condições. No seu desenvolvimento a humanidade não pode deixar de seguir a lei das unidades coletivas, pela qual a evolução dá origem a unificações cada vez mais vastas dos elementos componentes. Ora em tal processo os individualismos separatistas por excessivo egocentrismo, antigamente preciosos para a sobrevivência, se tornam um perigo social que a coletividade procurará afastar do seu seio. Não há dúvida que a vida da humanidade em nosso planeta está tomando agora esta nova direção orgânica, de que as formas socialistas, comunistas, coletivistas etc., representam as primeiras tentativas de realização. Chegar-se-á assim a eliminar completamente o atrito dispendioso e a pesada passividade do guerrear, e a isolar, como um indivíduo à margem da lei, que não sabe enquadrar-se nesta nova ordem, depois de um trabalho tão fatigante de milênios hoje finalmente alcançada. Assim à medida que se vai formando uma maioria do novo tipo de homem, o velho, no qual persistem os instintos atávicos do involuído, será cada vez mais empurrado para a margem da sociedade, até ser expulso como elemento anti-social. E, pelo contrário, se afirmará o tipo evoluído que soube tornar-se adequado às novas condições de vida, isto é, o indivíduo pacífico, inteligente, ativo, apto a produzir com o seu trabalho o bem-estar no seio de uma sociedade que se tornou por evolução de um amontoado caótico num organismo coletivo.

O homem, nas novas condições de ambiente, transformando a sua forma mental e chegando a um novo modo de conceber a vida, por sua vez reage sobre o ambiente, transformando-o mais rapidamente, entrando assim e fixando-se cada vez com maior estabilidade numa fase de evolução, como novo tipo biológico. A vida se encaminha deste modo para a superação das suas formas passadas, baseadas na lei da luta pela seleção do mais forte, do individualista egocêntrico anti-social, e se prepara para a construção de um novo homem social, adequado a viver já não guerreando no caos, mas como um elemento que forma parte de uma coletividade orgânica. Passar do estado caótico ao estado orgânico representa um imenso salto para a frente e implica uma mudança radical de método de vida. De resto é natural que, passando de um nível evolutivo a um superior, variem também as leis às quais o ser está sujeito e que portanto, neste caso, a lei animal da luta pela seleção individualista do mais forte seja abandonada para favorecer, pelo contrário, a seleção do mais adequado a viver em vez de isolado no caos, unificado com os seus semelhantes em forma orgânica. A biologia não deve ser concebida como fenômeno estático, mas dinâmico, isto é, não só em função de um dado tipo de lei, mas de uma série de tipos de leis, em contínua evolução, constituindo outros tantos degraus do caminho ascensional do ser. É natural então que, agora que o homem está para sair da sua fase animal, ele se afasta também da lei correspondente, que é a da luta por esse determinado tipo de seleção.

De cada fenômeno existem sempre as razões profundas e procurando-as, pode-se chegar às primeiras origens dele. O método preponderantemente animal, com o qual a vida humana funcionou até agora é de tipo involuído, atrasado, mais próximo da extremidade negativa da existência, que chamamos Anti-Sistema, do que da extremidade positiva, que chamamos Sistema. Segundo o nosso conceito de biologia em evolução, a cada plano de existência corresponde uma sua lei a ele proporcionada. Ora o método ainda vigente no nível atual animal-humano, isto é, o uso da força, imposição, coação, dependentes de um dominador que quer reduzir tudo em função do seu próprio egocentrismo, é o método do ser anárquico rebelde do Anti-Sistema. Mas dentro deste ficou Deus imanente, isto é, continua contra essa tendência de desordem funcionando, intimamente, com ação constante, corretiva, a tendência oposta para repor tudo na posição de ordem, equilíbrio e justiça, que é a do Sistema. O significado profundo do fenômeno da transição evolutiva que a humanidade está hoje cumprindo, consiste precisamente na deslocação que nos afasta um passo mais do Anti-Sistema e nos avizinha do Sistema.

Vemos esta transformação atuar nos campos mais diversos, que representam casos particulares dos referidos princípios gerais. Um destes casos é o que está hoje em ação, da emancipação da mulher. Referimo-nos a ele porque tal fenômeno está conectado com o da propriedade e do direito do mais forte. Efetivamente a posição da mulher no passado estava determinada pelo princípio que ela era propriedade do homem, tendo sobre ela direito somente em virtude da sua força. Se ela encontrava nele o dono que a possuía, encontrava também o proprietário que a defendia como coisa sua. Este conceito de mulher-propriedade prevaleceu durante milênios, porque convinha também a ela, resolvendo-lhe o problema, para ela grave, da defesa. Então ela devia consequentemente possuir uma personalidade adequada a tais condições de vida, isto é, devia primeiramente obedecer, servir, pensar com a cabeça do homem como um seu apêndice, ter os gostos dele porque, por direito divino fabricado por ele com a sua força, era o dono. Mas dono significava também aquele que sabe fazer a guerra para defender o grupo familiar dos inimigos, aquele que leva para casa a presa da caça para o alimento, ou seja, nos tempos modernos, o equivalente soldo para viver.

Enquanto nos países mais atrasados a mulher continua na posição de coisa possuída, o que lhe permite viver no ócio, o novo conceito correspondente ao dinamismo dos tempos modernos, a mulher que trabalha e produz. Vemos também aparecer neste campo a função e o valor do trabalho, o que entra em nosso tema. Este fato dá à mulher a independência econômica, o que implica importantes consequências, de fato a deslocação da sua posição. É assim que quem leva para casa os meios para viver não é só o homem, o que coloca a mulher no seu mesmo nível, que não é mais o de serva sua. Paralelamente, o homem, não tem mais apenas uma dependente a manter, funcionando como espelho no qual ele possa ver refletida a potência da sua força, mas tem junto de si uma colaboradora, uma companheira de luta que se coloca a seu lado no mesmo trabalho produtivo, uma aliada ativa, não uma coisa inerte possuída.  

A superação evolutiva reside então no fato de que a união não se faz mais segundo o princípio da imposição forçada, conforme a lei biológica do animal, mas se realiza segundo o princípio orgânico-colaboracionista, que, por evolução, se vai afirmando em novo nível biológico que a humanidade se prepara a conquistar. Neste plano de vida vigora de fato uma outra lei, a da coordenação entre direitos e deveres, a da cooperação e não da luta entre elementos componentes. A união então realiza-se entre dois seres que compõem um par de forma diferente mas do mesmo valor, os quais se acasalam somando as suas capacidades produtivas. Então o valor e a honra que o defende, residem naquela capacidade. Assim avança o fenômeno evolutivo que está agora em ação, pelo qual o biótipo humano passa do nível animal, isto é, ventre, sexo, luta e trabalho físico, ao nível do qual, pelo contrário, prevalecem as funções nervosas e cerebrais, isto é, mente e inteligência. O fenômeno evolutivo avança em todos os seus aspectos. Também a procriação será realizada com sentido de responsabilidade, porque ela implica o dever da educação, base de civilização. Antigamente o homem gerava como o faz o animal. Uma vez nascido o filho, depois de rápidos cuidados maternos, ele era abandonado a si mesmo. Hoje fazer isto significa lançar na rua indivíduos que amanhã serão um perigo social, lançar nas costas da coletividade o peso morto de muitos seres inadaptados à vida civil, para manter com o trabalho dos outros. A natureza admite a abundante e indiscriminada procriação nos primitivos, para depois selecioná-los, matando uma boa parte deles. Nos países civilizados, para manter o nível alcançado, e não retroceder à barbárie medieval, é necessário, mais do que produzir a quantidade, selecionar a quantidade; mais do que uma prole abandonada e dizimada pela natureza, uma prole protegida para sobreviver, e depois ser educada para ter condições de produzir, servindo de ajuda e não de obstáculo ao progresso. Como se vê, em relação ao passado, as leis do novo plano biológico são diversas. Para evoluir, não se pode deixar de utilizá-las.

Os mais diversos problemas da existência são, nos tempos modernos vistos e resolvidos em forma diferente do passado. Aos nossos antepassados isto pareceria uma desapiedada exposição de verdades recônditas, que era conveniente não deixar ver. Mas o querer hoje banir estas verdades acomodadas ao uso do mais forte vencedor, é um ato de sinceridade que conduz à clareza e com isto à mais exata compreensão e justa solução dos problemas da vida. É mais honesto basear-se e procurar diretivas sobre leis biológicas positivas, racionalmente controladas, que sobre proclamados direitos divinos ou artificiais legalizações de interesses do grupo dominante. Hoje se começa a pensar e se quer ver e saber o que há atrás do cenário das aparências, das verdades gratuitamente afirmadas; quer-se saber o porquê do lícito e do ilícito. Para as mentes simples dos nossos pais bastavam as poucas regras da vida civil, ditadas pela religião e pela lei, para que tudo se resolvesse, observando-as. Isto era suficiente para fazer o bom cristão e o cidadão, a pessoa de bem, ainda que aquelas regras deixassem uma larga margem de escapatórias e permitissem uma elasticidade de atuação, que o conhecimento das leis biológicas, e uma ética positiva sobre elas baseada, não permite. Esta é u‘a imoral mais profunda, que penetra na estrutura psicológica do indivíduo, antigamente fenômeno ignorado, assalta-o com a psicanálise, mas também o compreende, o ajuda, reconhece-lhe os direitos, clareando aquela névoa de mentiras a que ele estava constrangido por legítima defesa. Antigamente, cumpridas as vigentes regras formais, sancionadas pelo consentimento no qual a maioria, em defesa dos seus interesses achava conveniente concordar, era fácil fugir-lhes, continuando a satisfazer os seus desejos, desde que se soubesse camuflar debaixo das belas aparências. Mas quando a ética se baseia sobre leis da vida e se penetra no subconsciente até à raiz dos nossos pensamentos e atos, então a ficção não serve, as velhas armadilhas não funcionam mais. É mais honesto dizer que não se crê em muitas coisas, que simular que se crê e procurar fazer crer aos outros que se crê nelas, para poder assim fazer melhor os seus próprios negócios. O ateísmo é um erro. Mas é melhor a sinceridade do ateu, do que a religião da hipocrisia. Como um grande vento, a ciência, com a sua forma mental positiva, se encarrega de desmantelar tantas superestruturas seculares, que são também compromisso, contorção de verdades, adaptações cômodas, quando não são diretamente artifícios para esconder injustiças. O problema terreno está reduzido aos seus elementos essenciais: só quem trabalha e produz, isto é, dá à sociedade o equivalente daquilo que dela recebe, tem direito de ser cidadão. Conceito simples, posição clara, balanço de direitos e deveres, sem possibilidade de pretextos que permitam o ócio. Sã e saudável lei do trabalho, psicologia retilínea, filosofia dura mas honesta, aderente à realidade da vida. Valorização do trabalho, bem feito e bem pago, mas liquidação de quem não o faz ou faz mal.

Com esta nova forma mental, o indivíduo vale pelo que sabe fazer, pela sua capacidade produtiva, pela sua atividade de trabalhador. A divisão mundial entre capitalismo e comunismo torna-se problema secundário perante o problema fundamental que, no plano econômico, é o de produzir. Só depois, quando se produziu, pode surgir o problema de como distribuir. Mas quando não há senão miséria, mesmo que se queira distribuí-la, permanece miséria. Insiste-se na distribuição antes da produção, porque o homem atua ainda com a psicologia do primitivo, aquele que vimos anteriormente que resolvia tudo roubando a vaca do vizinho, sem compreender que semelhante sistema é o caminho aberto não ao bem-estar mas às revoluções, isto é, destruição e pobreza, em vez de produção e abundância. O que leva a semelhante psicologia é também o fato de que frequentemente prevalece o conceito de propriedade-ócio-exploração, sobre o de propriedade-trabalho produtivo.

É verdade, que o capitalismo se torna um mal quando o rico é só um parasita, economicamente negativo, que sem trabalhar vive à custa de quem trabalha, fazendo-se assim manter pela sociedade. Quando o capital não serve para produzir mas para o ócio e para gozar, quando a riqueza se adquire com o furto e se mantém com o trabalho dos outros em vez do seu próprio, é claro que então, tendo-se ela tornado um mal, a vida procura eliminá-lo. Este é um princípio daquela ética biológica da qual agora falávamos, à qual era possível fugir no passado, mas hoje não. Quando em qualquer campo político religioso econômico social se insurge contra uma instituição não é esta em si a que é combatida, mas sobretudo o mau uso que dela se faz. Então para eliminar o abuso, procura-se destruir a instituição, para substituí-la por uma diferente, frequentemente sem compreender que, enquanto o homem continua sendo o mesmo, ele será levado a realizar à custa de nova instituição, os mesmos abusos de antes, com as mesmas consequências agora observadas.

A história mostra-nos quais são as causas destas reações, que a vida desencadeia precisamente para libertar-se de um mal e reconquistar a saúde. Sabemos assim de que depende o ateísmo e como na medicina se conhecem as condições que preparam o terreno onde pode atacar uma doença, sabemos qual é num país a conduta que abre as portas ao comunismo. Como há indivíduos, pela sua estrutura orgânica predestinados a uma determinada doença assim há países predestinados ao comunismo. A culpa é do doente que com o abuso gastou o seu organismo, oferecendo com isso um convite ao assalto do mal. Assim a natureza põe à prova o indivíduo: ou sabe defender-se, vence e se cura; ou, pelo contrário, morre e é substituído. Também tudo isto forma parte da moral biológica, que trabalha com fatos e não com palavras. Então os povos trabalhadores invadirão a terra daqueles que o ócio fez ineptos, porque hoje não é mais lícito manter improdutivo o capital de um país rico de recursos naturais, sem o explorar. Dado que tal inaptidão pesa sobre a economia mundial, a sociedade humana, cedo ou tarde, acabará por realizar essa expropriação forçosa por razões de utilidade pública.

Como se explica esta tendência a tornar-se preguiçoso, no parasitismo, que vemos aparecer logo que um indivíduo ou uma classe social alcança o bem-estar? Trata-se de um repouso que a vida concede aos que acabaram de triunfar, porque é merecido pelo esforço da conquista. Mas o mal é que eles quereriam acomodar-se definitivamente na bela posição de descanso, e então a vida os expulsa. Eles tratam de estabilizar definitivamente o nível alcançado, fixando-o e protegendo-o com leis e instituições, em formas hereditárias, de modo a poder conservar tudo para sempre. Mas é precisamente neste momento, em que creem ter resolvido o problema da sua situação, que a vida começa a trabalhar contra eles. A existência fácil torna-os ineptos. A vida deixa que aqueles que perdem o exercício da luta se debilitem para elimina-los. Entretanto os excluídos do banquete, conservados despertos pela fome, os não triunfadores, empurram de baixo para chegar à superfície e se estão continuamente exercitando para o assalto. Enquanto os que gozam de bem-estar se debilitam, eles se exercitam e se fortificam. Os dois fenômenos, seguindo caminho oposto, tendem ao mesmo ponto, que é aquele em que, perante uma aristocracia debilitada, incapaz de defender-se, levanta-se o assalto dos rebeldes, tornados fortes pela vida dura, prontos a tudo devido ao desespero. Eles têm consigo as leis da vida, que quer o esforço e a vitória, e está pronta a premiá-la na medida que ela merece. A vida quer ao mesmo tempo também que esses rebeldes sejam utilizados como elementos de destruição desse não-valor biológico que aqueles ineptos representam, porque esta é a lei, isto é, que quem nada vale não tem direito à vida. Então enquanto se encerra o ciclo dos antigos triunfadores agora já em descida e liqüidação, se inicia o dos novos que o realizarão todo, terminando-o em descida, como fizeram aqueles que eles eliminaram. Estas são as ondas segundo as quais se efetua a evolução humana na sua parte mais material, a do plano econômico. Este processo depende de uma lei geral que vemos realizar-se em menor escala para os indivíduos e famílias, seja em maior escala para as nações e povos.

Haveria um meio de evitar estes desmoronamentos, isto é, que os triunfadores usassem da sua posição privilegiada em benefício da coletividade e não só de si mesmos, como função social e não egoísta individual, procurando cumprir, no seio do organismo em que vivem, a parte que lhes corresponde como dever e não só aquela que eles proclamam como direito. Quando por evolução a sociedade humana chegar ao estado orgânico, a classe dirigente que dispõe dos meios de subsistência e das alavancas de comando, não pode ser mais a massa amorfa dos vencedores da vida que para se banquetearem se sentam sobre as costas dos vencidos, mas deve constituir, no organismo social, o grupo dos elementos escolhidos, das células selecionadas, colocadas no alto exatamente para cumprir, como o faz o cérebro, as funções diretivas e não as inferiores do estômago só para engordar. Numa evoluída sociedade orgânica, a atividade de cada elemento se coordena com a dos afins em função da utilidade coletiva. É assim, numa nova posição cada vez mais unificada, reabsorvido gradualmente o desagregante e egocêntrico separatismo individualista da precedente fase caótica. Então a posição de dirigente não é mais para conquistar em benefício próprio, mas função social com o objetivo da utilidade coletiva. Muda completamente o modo de entender o significado da própria posição privilegiada. Hoje com frequência, especialmente nos países mais atrasados, as células dos tecidos musculares colocam-se no lugar das nervosas e cerebrais, não para produzir energia volitiva e pensamento, mas para extrair para si a produção alheia e as vantagens da coletividade. Esta é política cancerosa que mata o país. Numa humanidade civilizada, as células de tipo menos evoluído permanecerão no lugar que lhes corresponde para cumprir a função de que são capazes, porque corresponde à sua natureza; elas permanecerão ali para obedecer e executar. Mas por outra parte as células nervosas e cerebrais não abusarão da sua superioridade de dirigentes, mas exercitarão o seu domínio para a vantagem de todos, incluídos aqueles que estão em grau evolutivo subordinado; e. assumirão a responsabilidade e todos os deveres inerentes à sua posição de comando, exercitando-o somente para o fim supremo de todos, que é o bem coletivo. Deste exemplo se vê quão distante estamos ainda de uma sociedade civilizada, que verdadeiramente mereça tal nome.

Pode-se assim compreender como, mesmo hoje, quem se encontra no alto da escala social e não entende esta sua posição como função coletiva, mas só como utilidade pessoal, sem cumprir todo o trabalho que lhe corresponde, atraiçoa a sociedade de que faz parte se ele deste modo abusa, com o seu exemplo ele semeia em todo o país o costume do abuso, educa para o mal, com as suas mãos forma uma raça de revoltados, prontos a saltar-lhe em cima, ou também de servos traidores dos quais não obterá senão mentira e engano. É inútil iludir-se que baste cobrir tudo com belas aparências. Quem está em baixo olha a substância, e quando esta queima, fica impressa no subconsciente, que um dia tomará a sua vingança. O exemplo que desce do alto é uma tremenda autorização à imitação, sobretudo quando convém, mesmo que se saiba que é mau. Assim a corrupção rapidamente se estende, invade e infesta tudo. Os astutos, que creem saber enganar, acabam por receber de volta a mesma mercadoria que eles põem em circulação. Numa sociedade tudo funciona por reciprocidade e o mal não pode deixar de regressar à sua fonte. Quando no tão declamado sistema da liberdade se excede, cai-se na desordem, que é o estado que preludia as mais graves doenças sociais. Como poderia não desagregar-se- um organismo em que as funções cerebrais fossem executadas por células selecionadas de tecidos menos evoluídos, ou pior ainda por células de tecido canceroso?

A economia de furto é uma economia negativa de destruição, não positiva, de produção, é uma atividade parasitária em favor da doença, não da saúde, é a economia do cancro que prospera matando. O câncer é um pseudo-organismo, baseado sobre a anarquia é a desordem, sobre o egocentrismo separatista, o que significa um estado de primitivismo, uma posição involuída atrasada, isto é, mais perto do caos do Anti-Sistema do que da ordem do Sistema. É tal posição involuída que implica na ignorância, da qual depende a incapacidade de compreender as vantagens de viver pelo contrário num estado orgânico, de disciplina e ordem. Pela lei das unidades coletivas a evolução realiza-se por unificações sempre mais vastas. É assim que quanto mais involuído é o indivíduo, tanto mais ele ficará egoisticamente isolado em guerra contra os seus próprios semelhantes (estado caótico, em que domina a lei da luta pela vida); e quanto mais evoluído for o indivíduo, tanto mais ele será induzido a unificar-se com os seus próprios semelhantes, (estado orgânico, no qual domina a lei da colaboração).

As células do câncer são involuídas, e é por isto que são incapazes de coordenar-se num organismo autônomo com um governo próprio central, isto é, de alcançar semelhante grau de unificação. Por esta sua incapacidade não sabem viver senão parasitariamente, apoiando-se num outro organismo, reproduzindo-se desordenadamente num regime de caos que se pode ver quão longe está do baseado na especialização de funções, depois coordenadas em colaboração, para constituir um organismo coletivo. Isto mostra como estão atrasadas aquelas células na sua capacidade de constituir-se em unidade, que é o que revela o grau de evolução.

Trouxemos este exemplo das células do câncer para fazer compreender a forma e o porquê da conduta de cada elemento de uma sociedade humana primitiva. Eles não sabem funcionar todos em conjunto, organicamente, mas só como rivais, anarquicamente. É a sua involução que os leva ao separatismo, pelo qual em vez de se coordenarem, rebelam-se a qualquer disciplina, põem-se a lutar para dominar, refratários a qualquer função unitária. Os indivíduos que aplicam a economia do furto, como as células do cancro, correspondem aos elementos de uma sociedade primitiva. Do mesmo modo que elas não se enxertam na ordem do organismo que as hospeda, para cooperar, mas tornam-se egoisticamente inimigos dele, assim aqueles indivíduos, em vez de cooperarem para produzir, põem-se a roubar, e em vez de unir-se opõem-se à coletividade para explorá-la. A sua natureza de involuídos não lhes permite compreender mais e atuar melhor. Como elementos inconscientes, eles atacam, devoram, acabam por matar o organismo no qual vivem e se movem.

A grande revolução moderna é a revolução do trabalho. Ela foi possível graças aos novos meios produtivos da técnica industrial. A humanidade prepara-se para dirigir a sua atividade de conquista cada vez menos para a guerra e cada vez mais para o trabalho. O mundo pôs-se hoje a trabalhar, não importa se em forma capitalista ou comunista. Se o comunismo tentou destruir a propriedade isto sucedeu porque ela se havia transformado em base de parasitismos, de abusos anti-sociais. As revoluções aparecem quando há que pagar essas culpas e sanear essas doenças. Nos Estados Unidos, onde possuir serve para trabalhar e produzir mais, não há nenhuma necessidade de destruir a propriedade a fim de fazer a revolução do trabalho, porque ela já está feita. Esta é necessária onde os ricos não trabalham e extraem o seu bem-estar do trabalho dos outros. Mas onde o capitalismo é um meio para trabalhar e produzir, não há nenhuma razão para que deva ser eliminado.

Este perigo, por mais absurdo que pareça, pode subsistir no seio do próprio comunismo, e veremos como. Ele não destruiu a propriedade, o que é impossível, mas só a atribui diversamente, fazendo-a subsistir em forma de capitalismo de estado. Eis que subsiste o perigo que anteriormente mostramos, pelo qual pode acontecer que os novos triunfadores, para gozar o fruto dos seus esforços, tomem os defeitos daqueles que substituíram, encaminhando-se assim para o mesmo fim. Uma revolução econômica e uma ideologia não têm o poder de transformar a natureza humana. Existe então o perigo de que a classe política dirigente, que tomou o lugar da antiga aristocracia, acabe por imitar a atuação e repetir os seus erros com as mesmas consequências, o que é tanto mais fácil quanto mais envelhece a revolução, isto é, se afaste das condições que determinaram o impulso de origem.

O despertar da humanidade baseia-se na produção de meios que lhe assegurem a sobrevivência. Isto é o que interessa à vida. Este despertar de atividade trabalhadora e produtora, combinado com o imenso rendimento que lhe pode dar a moderna organização científica, e a tendência a um coletivismo unitário, representam um novo modo de compreender a vida, e devido aos seus efeitos, assimilam a passagem de uma época a outra. Algumas nações já entraram nesta nova fase, libertando-se do passado e renovando-se plenamente. Mas há povos que, preguiçosos e pobres, permanecem ainda apegados a uma forma mental contraproducente, ligados a uma moral de honra e desonra, de patrão e servo que corrói toda a colaboração, produzindo só luta, rancores, caos, e por fim destruição de todos. Os mais progressistas começam, pelo contrário, a compreender que é mais conveniente pôr-se a trabalhar e produzir com o trabalho organizado do que pôr-se a roubar e explorar com a forca ou astúcia. A própria psicologia de guerra, com a balança do terror, isto é, a perspectiva de acabarem todos destruídos num mundo em alarme, está sujeita em parte a ser refreada. Eis que toda a psicologia medieval representa um modo de viver do qual o mundo procura afastar-se em direção a uma sua nova maturidade e superação evolutiva. Começa-se a compreender que é mais conveniente, em vez de gastar as energias em atritos, canalizá-las em direção ao trabalho produtivo. Assim se vão desvalorizando os velhos sistemas e cada vez mais se aprecia este que dá mais rendimento. Chegar a compreender uma nova verdade é o trabalho mais difícil, mas biologicamente o mais importante; possuí-la é o resultado de fatigantes experiências, mas representa a capacidade de assumir novas direções na evolução da vida. Adquirir uma nova verdade significa enriquecer o próprio patrimônio com conhecimento e potência,  ter  ascendido  evolutivamente,  com  todas  as consequências que tal fato implica; significa ter dado um novo passo em direção ao alto entrando num mais elevado nível de vida. Neste caso a nova verdade consiste no ter compreendido o valor do trabalho.

Fim

Ofereça um cavalo a quem disser a verdade, e dele necessitará para fugir e pôr-se a salvo.

Provérbio Oriental

O Cristianismo não nos interessa como organização terrena, como atividade política, como fenômeno de grupo, proselitismo para reforçá-lo, nem como egoístico cálculo de salvação depois da morte. Este é o seu lado "mundo", desgraçadamente necessário para que qualquer coisa possa existir na Terra. O Cristianismo interessa-nos enquanto ideia de Cristo e não como adaptação desta à involuída natureza humana; interessa-nos naquilo que não é mundo mas contra o mundo; isto é, como ideal de superação humana, como princípio de evolução, como meio de ascese espiritual tal como deveria ser e como Cristo queria que fosse.

Recordemos, o fenômeno religioso é de importância biológica universal e não apenas de fé para os crentes, porque ele faz parte do fenômeno da descida dos ideais à terra, o que é tentativa de evolução, objetivo para o qual vive a humanidade. É neste sentido que aqui colocamos o fenômeno religioso. Se fizermos observações, antes será por amor ao ideal e não por espírito de crítica demolidora, como pensam todas as vezes em que se discute um problema, já que o instinto do homem é a luta. Nada, pois, de polêmica agressiva, mas somente um sincero desejo de ver claro, primeiro porque temos necessidade de compreensão do que está sucedendo e onde se vai terminar, depois porque o momento histórico gravíssimo impõe a todos que compreendam e cada um assuma as suas responsabilidades. Estamos convencidos que erigir-se em juízes e condenar seria inútil orgulho que nada resolve. O que  importa é explicar e compreender, porque não é julgando e condenando que se descobrem e eliminam os erros, finalidade de quem procura o bem. Não nos interessa a luta, porque não representa coisa alguma; não temos posições para defender, porque não temos o desejo e muito menos o poder de destruir nada. O médico não se põe a lutar contra os doentes; antes se associa a ele para eliminar o mal e por isso lhe diz qual  é, sem ofender o doente por este motivo.

Pode suceder que a alguns lhes agradem estas observações porque permitem notar defeitos alheios no campo religioso, prestando-se a desacreditar e demolir, podendo assim ser utilizados para fins agressivos, que não estão em nossas intenções. Quem no entanto quisesse compreender e utilizar estes conceitos em tal sentido, seguindo deste modo as vias do mal, se exporia ao perigo de que a Lei reagisse fazendo recair em cima dele o mesmo mal que ele quereria lançar contra o próximo.

Vivemos numa hora apocalíptica, de desmoronamento de valores espirituais, e dói-nos ver a que desastrosas consequências pode levar a traição do ideal. Os tempos estão maduros para chegarmos a uma prestação de contas. Os velhos andaimes ameaçam ruir e de nada serve escorá-los. Não é mais hora de retoques porque o edifício está caindo e é necessário refazê-lo desde o princípio, tomando Cristo a sério, como ninguém o faz agora: nem o rico, com o seu egoísmo e hipocrisia religiosa, nem o pobre com a sua avidez e frequente espírito de violência. Temos, assim, dois tipos de Evangelho, o capitalista e o comunista, adaptado cada um aos seus próprios interesses. Há leis que regulam o funcionamento de tudo o que existe. Quem as conhece vê que elas estão agora  prontas a reagir contra erros e abusos milenários que tendem a torcer e desviar o caminho da evolução, suprema razão da existência: o regresso a Deus.

Ocupamo-nos do Cristianismo que, no momento, vemo-lo com uma visão mais ampla e profunda posição como fenômeno religioso, em geral, representando a base religiosa emergente.

O maior perigo atual não é o ateísmo positivo e retilíneo da ciência que, com as suas novas construções, forçando o Cristianismo a defender-se e a atualizar-se, indiretamente o fortifica e rejuvenesce, mas são os falsos crentes que constituem uma doença interna, um estado de decadência orgânica, de corrupção da religião, de desfazimento que tende à morte. O perigo não é tanto o ataque comunista que vem de fora, quanto a mentira que vem de dentro. Quando tudo isto contagia a massa, a doença se expande por todo o organismo e o mata. Fazer calar o médico, porque o seu diagnóstico perturba, não salva da doença. Entendê-la  exclusivamente como o ataque de um micróbio inimigo e crer que  baste mobilizar-se para destruí-lo, não resolve o caso porque permanece a vulnerabilidade orgânica, debilidade da qual qualquer outro micróbio inimigo estará pronto a aproveitar-se. Ao médico honesto não lhe resta senão cumprir com o seu dever de expor o diagnóstico. Depois se cala. Ele não pode colocar-se contra o doente, tanto mais que neste caso ele não tem os meios, porque se trata de grandes desvios e só as leis da vida possuem a inteligência e o poder necessários para realizá-las. Essas leis costumam eliminar o que não cumpre a sua função vital, Assim, quando uma religião não cumpre o dever que, no plano da evolução, lhe corresponde, ela é eliminada. E o seu dever é o de fazer descer o ideal à Terra, função fundamental para os supremos fins da existência.

Cumpriu e cumpre o Cristianismo tais funções ou os valores espirituais que ele possui ficaram sepultados debaixo das superestruturas com as quais o mundo os sufocou? Na inevitável simbiose entre Cristo e o mundo não terá vencido o mundo, prevalecendo sobre Cristo? O Cristianismo é ainda cristão ou com o tempo se transformou noutra coisa? De que serve reunir-se em concílios, se esta é realidade dominante? As maiorias podem exprimir as correntes dominantes no mundo e o fato de aderir a elas parra estabelecer verdades baseadas no consentimento comum, pode constituir um apoio e ser ato de prudência nas decisões ao evitar riscos de erros perante o mundo, mas isto significa fazer-se guiar pelo pensamento dele e não colocar-se por cima, guiado só pelo espírito que não segue as humanas vias burocráticas. Aqui não se trata de concordar mas de renovar-se. As verdades relativas do mundo podem ser constituídas por um preponderante consenso de homens, não assim as de Deus. E as renovações são saltos para a frente que só indivíduos isolados, excepcionalmente dotados, sabem pensar e têm a coragem e a força de lançar. Com efeito estas reuniões são  prudentes, hesitantes, ligadas ao passado, enquanto, nas grandes curvas históricas, quando o mundo explode, pode ser necessário, em vez de retoque preguiçoso, uma renovação a fundo. Hoje no mundo se pensa, se procura, se exige mais do que o velho estilo religioso pode oferecer. Hoje, pretende-se saber a sério, por isso se duvida e se controla, exige-se a linguagem positiva da ciência e se deixa de  lado o que não é racionalmente convincente. Não se fica mais  persuadido por tradições, sugestões, irritações, por princípio de  autoridade. Deseja-se compreender com a própria mente e não com a dos dirigentes a quem no passado se delegava a função de pensar que fornecessem as verdades já confeccionadas, prontas para uso. Hoje, os olhos do mundo não se dirigem mais às velhas formas  fideísticas, que parecem ter esgotado a sua função criadora, mas à ciência que conquista e produz, vive para construir o futuro e não só para conservar o passado, vai em direção da vida que não quer dormir, mas avançar.

O impulso de evolução faz pressão e prepara-se para deitar abaixo as resistências. Dado o seu nível biológico o homem  frequentemente está movido não pelo clamor da procura da verdade, mas pelo instinto de defesa do seu grupo, sobre o qual se baseiam os seus interesses. Assim nasce o choque entre quem sustém o ideal para este fim e quem sustém o ideal pelo ideal e não para os  interesses que ele encobre. Ambos falam a mesma linguagem, usam as mesmas palavras, sustentam as mesmas verdades, mas para fins opostos. Acontece então que quem quer proceder seriamente perturba quem usa o ideal para outras finalidades, e que portanto o condena para eliminá-lo. O melhor amigo da religião, aquele que mais a toma a peito para salvá-la, incomoda com o seu zelo fora de hora, num mundo que tem outras coisas para fazer, e acaba  sendo tomado por um inimigo e portanto combatido. Pode suceder também que os verdadeiros inimigos da religião caiam no mesmo erro, mas em sentido oposto, porque as aparências os induzem a crer que encontraram no condenado pela religião, precisamente por este fato, um inimigo desta e portanto amigo deles, enquanto é  exatamente o contrário: isto é, ele é amigo da religião e inimigo deles. Mas eles o julgam pronto a confraternizar-se com eles para ir  contra uma religião que, pelo contrário, ele quer salvar.

Daqui nasce um mal-entendido e um emborcamento de juízos devido às opostas formas mentais: a do mundo e a do ideal. Despertam então os inimigos da religião e tentam aliciar  convertido a eles, o maior amigo daquela, que foi tomado como inimigo. Tudo, entretanto continua a desenvolver-se em favor do bem, porque para o triunfo da religião, contra a própria vontade dos seus representantes que o condenam, contribui, não obstante, a ação do seu maior amigo repelido. Tal acontece porque, por incompreensão, ele foi considerado como inimigo, do qual parecia necessário  defender-se, por estar sustentado pelos inimigos da religião. Isto  depende do sistema de luta vigente próprio do plano biológico humano. Neste plano uma melhoria evolutiva mais comumente se alcança por purificação forçada - causada pelo assalto de inimigos o qual, mostrando os defeitos obriga a elimina-los - do que por carinhosa ajuda de amigos que aconselhem tal trabalho. Esta obra de  purificação, apesar de necessária, em vez de ser confiada ao amigo é  confiada ao inimigo, despertando para confraternizar com aquele que para melhorar a religião fazia notar os seus pontos débeis. Assim é utilizado indiretamente pela vida para os fins da evolução também o verdadeiro amigo das religiões, aquele que é repelido por elas como inimigo porque toma a sério o ideal. Isto não tem nada a ver com as conversões oficiais. Quem é intimamente irreligioso permanece sempre assim seja qual for a fé que professe exteriormente e quem é verdadeiramente religioso possui a substância de todas as religiões e permanece o mesmo em qualquer delas. Não necessita, pois, mudar de forma, que é fato exterior, e muito menos fazer disso objeto de público rumor. Os íntimos fatos espirituais tratam-se só com Deus e não se mostram ao mundo para fins propagandísticos.

Tal funcionamento invertido explica-se como lógica consequência de um regime baseado na luta e mentira e não na cooperação e sinceridade, qualidade de mais avançados planos de vida. Mas se a luta é a lei do nível biológico humano, ao ideal que desce ali não lhe resta senão adaptar-se a esta lei, transformando-se num meio de luta, isto é, numa forma de fingimento para disfarçar-se melhor e alcançar deste modo o que na Terra é a finalidade suprema, isto é, vencer. A isto se reduz frequentemente o uso das religiões, ou seja, não à realização terrena do ideal, mas à sua exploração em defesa de interesses humanos. Pode acontecer que, por estes motivos o difundir-se da pregação e da expansão propagandística de uma religião, na realidade signifique uma campanha em favor de  interesses de grupo. É possível que isto pareça fingimento, mas  num regime de luta é natural que o que mais se faça seja aquilo que menos se deva dizer . Quanto mais um grupo religioso se torna grande e com isto mais poderoso na Terra, tanto mais nele aumenta o  número dos elementos falsos e aproveitadores, que se aproximam, porque quanto mais aumenta a potência material, tanto mais há para aproveitar. Tal poder leva a imiscuírem-se elementos negativos, leva à corrupção e enfraquecimento do grupo, terminando pela sua liquidação. Cuidem-se, pois, as religiões de sua grandeza terrena. Esta corrói a verdadeira força, que não pode ser senão espiritual e prenuncia um fim próximo. Isto corresponde à justiça das leis da vida para as quais quem não cumpre mais a sua função não tem mais razão de existir.

Não é diferente no nível biológico humano, onde tudo é utilizado na luta pela sobrevivência. Vemos isto no caso de Teilhard de Chardin. Enquanto ele morria só e incompreendido,  ninguém se interessou por ele, a ninguém importava nem as suas  teorias nem as suas desgraças. O interesse apareceu quando para os inimigos da Igreja surgiu a possibilidade de utilizar Chardin para um ataque contra ela, para mostrar os seus erros e acusá-la. Ele tornou-se importante só quando pôde servir para estes outros fins. Surgiu então uma quantidade de defensores seus, em nome da  justiça reivindicadores da vítima inocente, do mártir do ideal,  chorando sobre o caso digno de piedade, porque isto servia para, com a plena autorização dos princípios superiores, poder santa e  impunemente agredir a Igreja inimiga, considerada culpada e portanto digna de condenação. Assim camuflados de justiceiros, honrando a  moral, fica-se da parte da razão e pode-se utilizar uma santa  glorificação para melhor assaltar e destruir um inimigo. Na luta, agredir e liquidar em nome do bem oferece a grande vantagem de poder  fazê-lo com a aparência de máxima integridade, o que permite extrair vantagem do apoio que dá a aprovação geral.

A luta desperta reações, assim vemos no campo oposto, o eclesiástico, o fato de se ocuparem novamente de Teilhard, que antes passou desapercebido mas agora se tornou importante por tratar-se da defesa própria. Por esta razão, calando o que neste  caso pode ter sido erro seu, e que a parte oposta põe mais em  evidência, a Igreja trata de domesticar e adotar as teorias de Teilhard, primeiramente suspeitas de heresia, procurando enquadrá-las no  terreno ortodoxo, assim satisfazendo a necessidade urgente, para não  ficarem para trás, de atualizar-se perante a ciência. Querer-se-ia assim converter suas ideias numa contribuição à teologia, o que até ontem foi totalmente condenado, sobretudo a teoria da evolução. Mas o próprio inimigo que agride a Igreja é o que a obriga a realizar um passo para admitir o que já se consegue negar, princípios novos e tão evidentemente demonstrados pela ciência, que não é mais lícito condená-los. Quando aquilo que foi julgado erro não se mais deixar de considerar verdadeiro, porque se tornou verdade evidente, então procura-se adotá-lo como tal, para que desapareça o próprio erro. Mas sem esse assalto, o progresso não se teria realizado. Assim é a agressão do inimigo que nos obriga a melhorar, evoluindo. Método bem humano e que nada tem de divino. Se o inimigo é débil, procura-se fazê-lo calar, mas se, por consentimento universal, ele é forte, é melhor tornar-se amigo dele. Então abre-se a compreensão para com a nova verdade, e trata-se de aceitá-la adaptando-a para uso próprio e colocando-a a serviço do próprio poder. Quem dirige é o pensamento humano que evolui e as religiões tem de adaptar-se para segui-lo, avançando com ele, se não quiserem ser deixadas atrás pelo progresso da vida.

Quando esta, sob as aparências, é a realidade dominante, como impedir com semelhante forma mental que o ideal na Terra não seja usado como um meio de luta, em função dos interesses materiais? O indivíduo é levado a conceber tudo, tanto Terra como céu, em função de si mesmo. Se um selvagem encontrasse na floresta um aparelho de rádio ou de televisão o utilizaria do único modo que ele pode compreender, isto é, faria dele uma caixa de transporte, um recipiente para frutas, uma armadilha para caçar animais, se serviria dos fios elétricos para atar, do que brilha para adornar-se. Isto faz o homem imaturo com os ideais.

Para a maioria involuída a moral consiste no máximo resultado útil obtido com o mínimo esforço e desvantagem. E a  medida da utilidade é dada pelo bem-estar do corpo, uma vez que o indivíduo vive ainda no nível animal e os valores espirituais são escassamente compreendidos. Esta é a moral do seu plano; é a este nível que é obrigada a descer a moral do ideal e do evoluído. Mais do que isto o primitivo não pode compreender. Assim ele não toma conhecimento de problemas mais vastos, não os coloca sequer, e portanto para ele não existem e desta forma estão todos implicitamente resolvidos. Nas zonas superiores, para ele inexploradas, ele é amoral e irresponsável. O seu ponto de vista é inconcebível que a moral evangélica seja feita para ser vivida. Na sua opinião é bom tudo o que serve para viver, inclusive a prepotência e a mentira, e é mau tudo o que limita a sua vida, mesmo a virtude, os deveres de honestidade, a sinceridade, a bondade, o altruísmo. A contradição entre palavras e fatos ofende o evoluído, mas não ofende o primitivo que não a percebe. Por que prejudicar o próximo deve ser um mal, quando ele traz bem a quem o faz? Esse mal alheio não se  percebe, enquanto o bem próprio se sente perfeitamente. Não há  razão pela qual não se deva explorar o ideal e a religião quando isto traz uma vantagem tão positiva. Sobre o assunto não há realmente nenhuma dúvida. "Se me enganasse, isto deveria trazer-me um mal e, se, pelo contrário, me traz um bem, constitui prova evidente de que não me equivoquei, porque é com este bem que sou premiado. Quando, pelo contrário, para seguir o ideal me imponho sacrifícios, o sofrimento que ele me traz prova-me haver errado". Diante de semelhante forma mental não há por que não se reduzir a religião a uma forma de hipocrisia quando isto traz benefício.

Este tipo de moral explica-nos por que o ideal apenas  descido na Terra, em vez de encontrar uma aceitação espontânea,  choca-se com a resistência do involuído que não quer sacrifícios, e  então, para realizar-se, deve assumir a forma coativa. Verifica-se uma espécie de aprisionamento que é um encerramento progressivo da animalidade e da sua moral involuída, para limitá-la até eliminá-la, substituindo-a pela espiritualidade e pela sua moral evoluída.  Lamentavelmente não há melhores meios para educar o involuído do que os do seu plano. Eles são devidos à sua imaturidade e não são próprios do ideal, cujos métodos de vida são diversos. A moral  superior do ideal, feita de renúncia à animalidade e de esforço de  superação, moral negativa no plano terreno de vida, pode ser vivida por quem se dirija para outro tipo de vida para além do atual,  porque está maduro para alcançar níveis biológicos superiores. Mas  a  quem não está maduro para realizar um tal salto em frente, não lhe resta senão realizar-se na Terra tal como é em seu atual nível  evolutivo, e este é o caso da maioria. Para este o que contém a  verdade é positivo para a vida, é o mundo, que é o terreno das luas  realizações, e o negativo é o ideal que pretende deslocar o centro da sua existência mais para o alto, onde ele ainda não sabe viver. Por isto rebela-se contra o ideal e este, para realizar-se na Terra, deve assumir a forma coativa e basear-se sobre psicologia utilitária do  prêmio ou da pena, da vantagem ou do dano, das honras ou da prisão, do paraíso ou do inferno, porque este é o único raciocínio que o primitivo compreende. No plano do ideal a psicologia determinante não é esta, mas a da lógica, da justiça, da convicção.

Constatamos, assim, uma luta entre dois tipos de existência e entre os dois correspondentes planos biológicos. Enquanto o ideal luta para dominar e transformar a seu modo a animalidade, esta  luta para aprisionar o ideal. Trata então de cristalizá-lo nas formas, de deter a sua ação paralisando-o assim ao aprisioná-lo no plano  físico. Enquanto o S luta para levar tudo do AS para o S, o AS luta por levar tudo do S ao AS. Cada um deles quereria destruir o outro para substituí-lo. Ao assalto do espírito contra a matéria para fazê-la subir, responde o assalto da matéria contra o espírito para fazê-lo  descer. Enquanto o ideal realiza a sua obra de penetração no mundo para salvá-lo, este, com as suas adaptações, executa o trabalho de corrupção do ideal. Por isso as religiões envelhecem e de tanto em tanto surge um novo profeta para reanima-las e purificá-las com novas injeções de ideal. Este deve descer à Terra que é o reino da matéria. É verdade que uma forma é necessária para dar corpo às ideias, um recipiente para contê-las e conserva-las. Mas o homem acaba por aderir ao invólucro em lugar de aderir ao conteúdo, à forma em vez da substância, termina por adorar a imagem em vez da ideia. Sucede então que, quanto mais aumentam as construções no plano físico tanto mais se enfraquece a espiritualidade que as  anima e justifica. Então o ideal perde-se nos seus revestimentos. Tornou-se templos, riqueza de meios, organização hierárquica, administração burocrática, autoridade e poder terreno, e desaparecem  sufocadas as construções internas, aquelas que fazem o homem novo e nas quais se realiza o ideal.

Quando se chega a este ponto, acontece o emborcamento. O que era a finalidade, a realização do ideal, se transforma num meio para alcançar as realizações terrenas que se tornaram a  finalidade. O centro operante se desloca da religião para o mundo que venceu, transformando-a em mundo. Assim o ideal, em vez de cumprir a sua função, que é a de fazer evoluir para fins  super-humanos, é transformado em objeto de exploração, para fins humanos. Então a religião torna-se carreira, parasitismo, sectarismo,  organização de interesses. Nesta fase, dos dois inimigos, cada um dos quais quereria tudo para si, é o mundo que vence. Por isso o período da maior pureza de uma religião é o inicial, depois do qual o  misturar-se com o mundo começa a corrompê-la e as super estruturas  humanas acabam por sufoca-la. Então ela desmorona e, como há  pouco dizíamos, se recomeça desde o princípio com um novo profeta. Tudo é transformismo e evolução na vida. Assim, conforme a fase em que se observa uma religião no ciclo do seu desenvolvimento, a encontramos em estado maior ou menor pureza, porque na mistura estão diversamente dosificados o ideal e o Mundo. A princípio vence o primeiro. depois, o segundo. Mas quando este último toma a dianteira, o impulso evolutivo comprimido pela resistência do AS explode, a forma se despedaça, a tempestade varre com os resíduos e no terreno purificado é lançado de planos biológicos mais avançados o impulso de um novo ideal. Este é mais evoluído do que o precedente, capaz de levar o homem mais para a frente, pode assim continuar a sua construção num nível mais alto, também porque pode utilizar o trabalho de assimilação, cumprido por obra da religião precedente .

Esta é a história das religiões e a técnica da sua evolução, que leva o homem cada vez mais em direção à sua meta espiritual: Deus. É certo que a maturação de conceitos e formas mentais não é uma religião que a cumpre, mas sim a evolução que arrasta tudo, mesmo as religiões. A realidade biológica representa, no fundo, as mais velhas e tenazes estratificações da vida, agarradas à matéria e resistentes a todo transformismo. São necessários os terremotos  espirituais, golpes tremendos por parte do ideal, como foi a descida de Cristo na Terra, para deslocar um pouco para diante a inerte  grande massa humana, submersa no plano animal. É certo que a pressão do alto para penetrar as camadas biológicas inferiores é grande, mas também é certo que estes resistem desesperadamente ao impulso  evolutivo, opondo o seu impulso involutivo, que em vez de subir para o S, pretende descer para o AS. O que é mais avançado volta-se em direção ao que está mais baixo para arrastá-lo para o alto, e por isso quer penetrá-lo, mas não o pode fazer senão na medida estabelecida pelo grau de maturação e consequente receptividade do inferior. Deus não pode revelar-se na Terra senão nos limites do concebível humano, isto é, segundo a capacidade do recipiente que pode  recebê-lo. É o espaço visual dominado pelo  nosso cérebro, é a amplitude de nossa mente, o que estabelece a medida da manifestação de Deus na Terra; em resumo é a nossa capacidade de compreensão. As coisas espirituais mais maravilhosas, como as coisas alcançadas com as maiores descobertas científicas, não existem para o ser até que ele construa para si mesmo, olhos que lhe permitam vê-las. É assim que, no meio das luzes enceguecedoras de Deus, ele pode estar balanceando-se na escuridão. Nas religiões, as mentes estreitas não veem estes conceitos mais vastos, este Deus muito maior, e ficam aferradas à terra negando-se ao progresso.

Não se podem compreender as religiões separadas das leis que regem a vida. É verdade que o ideal está por cima da realidade biológica, mas é verdade também que, para realizar-se na Terra, ele deve submergir-se e fundir-se nesta. Se ele permanece puro na sua altura, ele fica também fora de nossa vida. Assim é o mesmo  exercício da sua função civilizadora que lhe impõe uma dose de degradação e corrupção.

As religiões são um serviço para a massa; devem,  portanto, adaptar-se às suas exigências, mesmo que  ela esteja bem longe de ser evoluída. Em todos os governos as massas impõem limites ao poder dos chefes. Estes têm a força da autoridade; aquelas, a  força do número. Cada um dos dois termos comanda só até que  o outro lhe permita. Assim os dois poderes, mesmo nos estados totalitários, limitam-se reciprocamente porque as massas incorporam as leis da vida às quais todos estão submetidos, inclusive os tiranos.  Nenhum dos dois termos tem um poder absoluto. As massas têm  o poder lento e maciço da matéria; os chefes, o poder ágil e requintado da mente. Cada um deles quereria sujeitar o outro a si mesmo. Há sempre lutas entre povos e governos. O acordo é dado pela  preponderância de um sobre o outro, e isto é estabelecido por aquele que consegue impor-se por ser biologicamente mais dotado e mais forte. Assim as nações evoluem em direção a um estado aristocrático que em seguida se corrompe. Então toma a dianteira a massa que se revolta, para seguir a mesma corrida em ascensão ,e com o aburguesamento das revoluções, faz acabar com as precedentes aristocracias.

Nas religiões, as massas comandam a sua parte e o ideal deve adaptar-se a satisfazê-las. Assim encontra no campo das representações do rito, das imagens, das concessões à superstição, do fanatismo, do materialismo religioso do primitivo. As religiões  devem descer ao nível mental do povo ignorante. Os chefes devem cobrir-se de mantos e decorações, representar a comédia dos cetros, tronos, mitras, coroas e semelhantes símbolos e, assim revestidos, saber fazer o duro jogo da vida. O mundo quer que o divirtam,  impõe estas representações e se faz servir sem piedade. As massas dão a seu beneplácito e permitem aos poderosos mandar, se lhe  satisfazem os seus gostos. O poder baseia-se também sobre um estado  psicológico, em um consentimento público. De outra maneira ele é  tirania. Os chefes necessitam de gozar de uma certa confiança e  simpatia. Não basta cumprir com o seu próprio dever perante Deus, é necessário também fazer aquilo que as massas julgam, com a sua mente, que é dever. Então quem manda e quem obedece? E qual é o nível mental das massas do qual depende o seu juízo?

Não há posição social que nos coloque fora da lei da luta pela vida. Ninguém pode sair do domínio das leis biológicas do Planeta, nem sequer as religiões reveladas, quando nos seus  representantes tomam forma humana. Aquelas leis continuam  funcionando mesmo para quem se converte em ministro de Deus, ainda que ele as ignore ou as negue. Pode livrar-se delas somente quem tenha evoluído o suficiente para superar o plano biológico do homem atual, e assim estar maduro para entrar num superior. Mas, Para fazê-lo, não bastam os mais altos cargos do mundo. Estes são forma, não substância, aparência e não valor intrínseco. O homem permanece o mesmo biótipo e pertence à posição evoluída que lhe corresponde, qualquer que seja a posição social ocupada.

Hoje, dada uma nova maturidade e penetração psicológica, é cada vez mais difícil camuflar-se a estas realidades, que terminam sendo mais visíveis. Antigamente se podia facilmente fazer passar por verdade coisas hoje inaceitáveis sob o controle da razão. A tendência atual é de renovar as dimensões de tudo, analisando-lhe as causas biológicas e psicológicas que produziram um consentimento a respeito de determinadas ideias. Hoje faz-se a psicanálise das concepções sobre as quais se baseiam tantos castelos religiosos,  teológicos, políticos, sociais, para ver o que nelas há de sólido e de verdadeiro, e o que fica depois de tal exame. Que pretende realizar a vida através destas suas formas? É verdade que ela as aproveita para alcançar os seus fins e neste sentido leva o homem a atuar através de impulsos que o deixam acreditar que ele obedece à sua vontade. Se o homem tivesse sido abandonado a si próprio, com plenos  poderes, ter-se-ia destruído há muito tempo. Para dirigir, conhecimento e boa vontade são necessários, e a vida quer continuar, por isso se impõe com a sua sabedoria.

A mente humana cria as lendas e os mitos que servem à vida. O estabelecer-se de uma verdade baseia-se sobre um  consentimento humano e o estabelecimento de um consentimento tem  bases utilitárias, isto é, tem lugar em função do fim supremo que é a sobrevivência. Esta é a realidade fundamental, mesmo que ela  esteja escondida debaixo das mais variadas superestruturas. A massa humana formada tanto por quem comanda como por quem  obedece, massa de indivíduos e povos em posições diversas, encontra-se toda encerrada dentro destas leis e ambiente biológico mais ou  menos no mesmo nível evolutivo, dominados pelas mesmas  necessidades vitais, elaborando os conceitos e as atividades  necessárias para sobreviver e evoluir. O pensamento de Deus, que rege a vida, encontra-se na profundidade do fenômeno e tudo e a todos move sem que o saibam. Assim a grande máquina funciona e avança. Existe dentro dela a necessidade de resolver todos os problemas: o do pão quotidiano, o de dar e continuar a vida nos filhos, administrar os estados, as religiões, vencer as guerras, adquirir o conhecimento,  evoluir por fim em direção a Deus. A vida deve resolver todos estes problemas em função do último, o maior.

Vivemos numa época em que a velha espiritualidade  morreu e a nova, sobre bases científicas positivas, ainda não surgiu. Cada século desenvolve um pensamento próprio para realizar uma criação diferente. Este pensamento hoje é científico, realizador na matéria; este é o tipo de impulso que hoje move a humanidade. As religiões, encerradas nos seus velhos castelos, permaneceram ali atrasadas, enquanto o mundo caminhou sem elas e agora se  esforçam por alcançá-lo por meio da operação que chamam: atualizar-se. No entanto, porém, por sua inércia, o mundo se esvaziou de  espiritualidade, o ideal se evaporou nos céus. Na arte e na literatura isto é evidente. Das religiões ficou a estrutura exterior, mas a casa está vazia, mesmo que por fora esteja bem conservada.  A espiritualidade tornou-se uma das tantas mentiras convencionais,  com as quais muitos concordam. Continua-se, assim, exaltando Cristo com palavras idealistas, mas para o uso que se costuma fazer Dele o argumento se tornou suspeito. A fé fica para os ingênuos, que é mais fácil enganar. Domina a moral do interesse próprio, o ideal é repelido também nos fatos por quem o professa na palavra, e a estrada principal é a da mentira. Esta é a base dos colóquios hoje em moda e por isto eles não se resolvem em compensação e colaboração. À força de falsificar o sentido das palavras, chegamos à confusão de  idiomas da torre de Babel. Então o colóquio se rompe porque de nada serve a palavra dita, não para expressar, mas para esconder.

Por que motivo as religiões tendem a transformar-se em hipocrisia? Analisemos o fenômeno. Elas na Terra representam o ideal, realizam uma descida de planos evolutivos mais avançados, são uma antecipação de estados que o homem viverá no futuro,  para os quais hoje não está ainda maduro. As religiões pregam  bondade e não resistência, renúncia e altruísmo, enquanto a vida real se baseia no interesse e na luta, na rivalidade e no egoísmo. Para a vida no seu nível evolutivo atual, aquele ideal representa uma loucura de auto-destruição e por isso naturalmente é levada a repeli-lo. Agora veremos que isto é relativo à sua atual posição, e que já não é  verdade noutra posição evolutiva. Na Terra, entretanto, não se pode eliminar a presença do ideal, porque a sua descida é necessária  para o progresso da evolução. O resultado de tal necessidade não é uma aceitação pacífica, mas um choque e uma luta entre o ideal e a realidade da vida, pelo que ele é torcido para ser adaptado a ela, isto é, reduzido a uma forma de mentira. A religião impõe ao homem abandonar a arma da força que lhe é necessária para  defender-se, e então ele usa um seu sucedâneo, que é o fingimento. A vida pretende sobreviver, com o mínimo esforço, e assim resiste ao impulso evolutivo que lhe impõe esforços e perigos e, para  esquivá-los, se retorce em direção ao baixo. É por isto que a descida dos ideais na Terra pode servir para desenvolver a técnica da dissimulação.

Agora, nos perguntamo-nos: se o fenômeno está fatalmente  colocado desta maneira, na forma de um entrosamento à força entre opostos, será possível que a manifestação das religiões na Terra não possa tomar outra forma senão a de engano? Este fato pode fazer pensar que em semelhante ambiente este tenha de ser a sua natural interpretação. Estamos de fato no nível involuído que outro uso não sabe fazer do ideal senão em função da luta pela  sobrevivência, dado que ele se apresenta com leis e modos de viver próprios dos planos mais evoluídos, mundo incompreensível para o imaturo. Então este abaixamento de nível se chama hipocrisia, mas isso é uma natural adaptação às nossas próprias dimensões conceptuais, que não são apropriadas ao ideal, nem à sua função.

Existe, no entanto outro fato. Fazer-se semelhante uso do ideal pode ser verdade em forma relativa, para quem pensa com a psicologia do involuído e atua com relação aos seus pontos de referência. Mas logo que se sai de semelhante ambiente e plano evolutivo tudo muda e o ideal serve para os seus verdadeiros fins, que se alcançam com outros métodos. Ele revela-se como afirmação criadora, enquanto a vida resolve diversamente o problema da  sobrevivência. Mas para compreender que o ideal pode ser utilizado nesta outra forma muito mais proveitosa, é necessário haver superado o plano animal-humano e ter alcançado um superior onde regem outros princípios. Eis que a suposição de que o ideal possa servir somente como engano não tem mais valor, porque fica limitada ao ambiente terrestre e aos que nele permanecem ainda involuídos. Mas para além desse ambiente e para aqueles que, ainda que vivam nele, não são involuídos, o ideal realiza a sua maravilhosa função, a de ser instrumento de evolução.

Foi dito que a religião pode ser utilizada como uma forma de hipocrisia, não é uma acusação, mas a constatação de um natural fato biológico, que como tal se explica e se justifica. Tais posições oblíquas se justificam por serem transitórias, explicam-se porque são inevitáveis, na luta de penetração que o ideal deve cumprir para poder enxertar-se no mundo, seu inimigo. O ideal não pode vencer a não ser por graus, e a hipocrisia, como arma e luta representa  um requinte  perante a violência.Com a astúcia entra em função o cérebro em vez dos músculos e se inicia o desenvolvimento a inteligência que um dia chegará inclusive  a superar esse seu atual método de luta. Hoje, educação, religião, moral, consistem em grande parte na arte de dissimular. Amanhã, pelo contrário, elas consistirão na arte de nos compreendermos e de nos ajudarmos, com uma conduta de evoluídos, como é a indicada pelo Evangelho. Ao longo da natural linha de evolução dos meios da defesa da vida, está primeiro a violência por meio da força, depois o engano por  meio da astúcia, e finalmente a colaboração como resultado de uma consciência coletiva e de vida organizada. Como se vê, a  evolução conduz naturalmente ao Evangelho. As religiões, seja no polo ideal, seja no polo mundo, formam parte do fenômeno biológico e são reguladas pelas leis do seu desenvolvimento. Se no mundo a  realização do Evangelho é ainda um sonho longínquo, observe se ele já está penetrando, ainda que seja só em forma de palavra, mesmo que não vivida, de aparência exterior, de máscara para cobrir a feroz realidade da vida. No mundo, que procura dominá-la, existe no entanto esta semente, com o seu impulso de crescer tenazmente esforçando-se, e por lei da vida destinada a vencer, porque representa o futuro da evolução.

Se hoje, na sociedade civil já não se tolera a violência. porque se formou um poder central capaz de impedi-la, impondo a sua ordem, assim também brevemente não será mais tolerado o engano, porque a inteligência se terá desenvolvido para destruir essa intenção nos outros e, relativamente a si próprios, para compreender quanto é contraproducente usá-lo. A humanidade procurará  libertar-se de tal obstáculo aos seus movimentos, fruto da sua ignorância. O fato de as ciências psicológicas irem penetrando cada vez mais, no reino do pensamento nos vai conduzindo forçosamente  em direção a um regime de sinceridade. Com o tempo, os castelos  da hipocrisia, mesmo a religiosa, serão desmantelados e assim a humanidade poderá libertar-se do inútil esforço de ter de viver de fingimento, caminhando sobre as areias movediças do engano. O desenvolvimento da inteligência porá a nu o jogo e assim o tornará impraticável. Não dando ele mais proveito, será abandonado.  Entretanto a multidão dos ingênuos que se deixam enganar diminui cada vez mais: eles despertam ou são eliminados. O engano pode dar fruto enquanto exista quem caia nele, a falsa verdade pode Ter êxito enquanto exista a fé de quem creia. Mas cai o jogo se numa verdade nos interessamos principalmente em descobrir a mentira que ela esconde. Por isso em matéria de religião se insiste tanto  sobre a fé e se condena como perigoso aquele que quer pensar e compreender demasiadamente.

O mundo atual procura, em cada campo, um honesto e sincero esclarecimento de posições. Que aquilo que há de verdade permaneça e brilhe ainda mais, mas que seja eliminado o que é falso. À verdade nada tem de temer. Isto pode parecer tempestade de destruição, mas é trabalho de saneamento. Erros e defeitos se curam à luz do sol e não ocultando-os. É preferível ver a realidade a escondê-la, compreender o erro e evitá-lo a persistir nele,  melhorar a condenar. O princípio de autoridade já não basta; é  necessário convencer e para convencer é necessário estar convencido, o que significa discorrer não só com proposições lógicas mas também com fatos. Isto é o que a vida hoje exige para a salvação dos seus mais preciosos valores.

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Continuemos a observar o fenômeno religioso, mas sob  outros aspectos, tratando de compreendê-lo cada vez melhor na sua substância biológica, isto é, em relação às leis da vida, dado que elas representam o ponto de referência mais sólido e positivo sobre o qual apoiar-nos. Estas leis não são uma artificial construção da mente humana. Elas existem de fato e vemo-las funcionar em todos os fenômenos, inclusive no religioso. Como este também faz parte da vida, não pode ficar situado fora das suas leis. Depois, penetrando-o psicanaliticamente, poderemos compreender o que está atrás da cena, escondido na profundidade de tantas manifestações humanas nesse setor e descobrir a razão da forma que assumem. Este é o trabalho que agora estamos fazendo, deslocando gradualmente o nosso olhar para poder observar o fenômeno no maior número possível de posições.

O que a vida pretende realizar através das formas das religiões? Que sabe a sua inteligência extrair desta mistura entre ideal e mundo, entre o divino e o humano? Cremos que as religiões não podem ser compreendidas a não ser entendendo-as na sua junção biológica. Encontramo-nos perante dois fatos positivos: 1) que o Cristianismo existe; 2) que a vida elimina tudo o que não realiza uma função vital para os seus fins. Então, se o Cristianismo existe, e tempo não faltou para que, como inútil, fosse eliminado, isso  significa que está cumprindo uma função. O problema agora é só ode descobrir qual é. E, dado que sabemos também que o principal fim da vida é a evolução, pode-se pensar que, ainda que apenas biologicamente falando, a função do Cristianismo é de caráter evolutivo.

Recordemos ainda que esta dissertação não é realizada com fins polêmicos para defender uma verdade já confeccionada porque se baseiam sobre ela as nossas posições e interesses, ou com objetivo agressivo para destruir outras verdades, porque nelas se baseiam outras posições e interesses. A nossa finalidade é somente de pura investigação. Queremos só compreender o porquê da existência e de uma determinada forma de funcionamento dos fatos que vemos existir. Não temos uma tese preconcebida para demonstrar, não estamos ligados a conclusões preestabelecidas, a posições a defender. Só desejamos conhecer e assim resolver problemas. Portanto nada temos da habitual posição dos contendores em luta, tão comuns em tais casos. Não procuramos ter razão sobre um adversário. vencendo-o com argumentações. O nosso inimigo é o desconhecido e podemo-lo vencer somente com a luz do conhecimento.

Como sempre, seguimos o nosso método que, se é analítico, o é apenas num segundo tempo, na fase de controle. Iniciamos em forma sintética, com a visão dos princípios diretores, que para outros é a conclusão. Não seguimos o caminho que do particular, tomado como ponto de partida, se eleva ao geral, ponto de chegada, mas do geral, nosso ponto de partida, descemos ao particular a quem pedimos a prova para concluir. Primeiramente vemos, por visões interiores, os princípios, depois a realidade que deles deriva e por eles está regida, enquanto a forma mental normal  primeiramente observa por visão sensória a realidade exterior e depois sobe aos princípios, mas olhados quase com desconfiança, como uma duvidosa generalização com falta de positividade.

Deus existe no absoluto, e o homem, como há pouco referimos, forma Dele a ideia que pode ser contida dentro das dimensões da sua capacidade de compreensão. Portanto ideia relativa em evolução. Isto significa que o seu ponto de partida, do qual depois evoluirá, é dado pela natureza do ser humano, que é dividido em dois termos opostos e complementares, isto é, separados para  reunir-se: macho e fêmea. Assim eles não são senão dois polos da  mesma unidade. Isto corresponde ao dualismo universal, do qual este caso não é senão um momento, dualismo no qual se parte interiormente a unidade do todo.

A ideia de Deus que existe na Terra depende mais dos limites da forma mental do homem que a concebe do que daquilo que Deus é no absoluto e para nós inconcebível. Por este motivo encontramos dois tipos de divindade ou dois aspectos da ideia de Deus, isto é, o aspecto masculino, que é o de Moisés, e o aspecto feminino, que é o de Cristo. De fato o de Moisés era o Deus  senhor, egocêntrico, zeloso do seu poder, o Deus dos exércitos,  dominador, chefe do seu povo eleito, contra os outros povos. O de  Cristo é o Deus justo e bom, que redime com o seu sacrifício as culpas dos outros, o Deus do Amor, generoso e universal, conceito mais vasto que aperfeiçoa e completa a crua e limitada justiça do homem.

Deus em si mesmo é tudo, pode, portanto, ter muitos outros aspectos. Mas o homem, não podendo sair do concebível do seu mundo biológico do qual é filho, viu apenas os aspectos mais próximos dele. Na sua evolução vai compreendendo-os por graus, acrescentando às suas concepções precedentes outras cada vez mais avançadas, construindo-se assim o seu edifício de conhecimento, fundindo-as nele para chegar à compreensão de um Deus cada vez mais rico de aspectos, grande e completo.

Este dualismo positivo-negativo do conceito homem-mulher, encontra-se também nas religiões. O primeiro a  aparecer foi o Deus homem, que se baseia na força que é o elemento mais necessário para a afirmação da vida nos mais baixos níveis de evoluções. Sobre esse conceito base, proporcionado ás exigências biológicas impostas pelas condições de desenvolvimento, elevou-se depois o conceito do Deus do Amor, como um seu requinte, como sobre as vitórias sobre outros povos por meio da força, se elevam as aristocracias construtoras de formas de vida mais requintada e períodos de paz que permitem o florescimento das artes, da cultura, de civilizações cada vez mais avançadas.

Encontramo-nos, pois, perante um fenômeno de evolução. Este fato oferece-nos sólidas bases de apoio, por duas razões: 1) Porque a evolução é um fenômeno já positivamente provado; 2)  porque a evolução, como já demonstramos suficientemente, para o  homem já não se realiza no plano orgânico-fisiológico, mas no mental e espiritual, isto é, consiste sobretudo no desenvolvimento nervoso, cerebral, intelectual. Já vimos que o avanço nessa direção se realiza com a técnica da descida dos ideais, tendentes a estabelecer novas formas de existência alcançadas, ao entrar em pianos  biológicos mais evoluídos. Ora a função das religiões é de concretizar o fenômeno dessa descida, elas representam, pois, um canal, através do qual se realiza a evolução. Eis que podemos compreender a  posição e função das religiões perante as leis da vida. E, se realizar a evolução hoje significa espiritualizar-se, então as religiões  adquirem um significado positivo de imenso alcance, isto é, o de ser um instrumento de evolução, situado em posição central no seio do maior fenômeno da vida, como é a evolução que enquadra o seu transformismo em função a um supremo fim a alcançar.

Podemos, assim, compreender por que, tendo a religião a tarefa de fazer o homem evoluir, antigamente devia cumprir esta função no nível animal, agora o cumpre no nível humano, amanhã o fará no nível super-humano. É assim que a forma das religiões muda com a sua evolução, porque o nível biológico de que desce o ideal é diferente, segundo o grau de desenvolvimento alcançado. Assim esse ideal provém de um plano cada vez mais alto, porque deve acompanhar o movimento da vida que se desloca em sentido ascensional .

Eis porque as religiões tendem a espiritualizar-se, porque estão estreitamente conexas com o fenômeno evolutivo. Na sua primeira aparição elas são vizinhas da animalidade, tanto mais quanto mais involuído é o homem. Mas com a evolução se elevam como toda a vida se eleva, espiritualizando-se, dado que,  como agora dizíamos, o fenômeno evolutivo, quanto mais sobe tanto mais se torna fenômeno de espiritualização. O ponto de partida está em baixo, a base é dada pelos instintos do primitivo. Se as religiões são uma descida do alto em direção ao baixo, isto acontece porque este quer ser também um processo de elevação do baixo em direção ao alto, isto é, de sublimação dos instintos elementares do animal.

Assim, o Cristianismo se torna mais evoluído, mais espiritualizado,  poder-se-ia mesmo dizer uma forma mais civilizada de  hebraísmo, segundo os precedentes conceitos, respondendo mais à   concepção feminina do que à masculina da divindade. Estas  afirmações fazem surgir na mente mais vastos problemas. No  desenvolvimento deste fenômeno vemos que se conectam, colocando-se  paralelos estes conceitos: isto é, pensamos que existe uma relação entre o evoluir, o civilizar-se, que tanto pode ser um espiritualizar-se  como pelo contrário um aristocratizar-se em sentido anti-masculino,  de feminilização. O que significam estas concomitâncias que aproximam estas posições como numa parentela? Isto interessa às religiões, porque o ciclo do seu nascimento, desenvolvimento e decadência é um cicio biológico que faz parte do nascimento, desenvolvimento e decadência das civilizações, fenômeno por sua vez compreendido dentro do mais vasto representado, nos seus altos e baixos, com altos sempre mais altos e baixos cada vez menos baixos, através da onda progressiva da evolução (V  "Trajetória típica dos motos fenomênicos", Cap. XXVI de A Grande Síntese).

No ciclo das civilizações vemos, no começo, a explosão de um povo jovem, guerreiro, conquistador, que na plena posse das suas qualidades masculinas, espacial e economicamente se expande, toma posse, domina, enriquece, até a um máximo em que o  fenômeno se cansa, se torna mais lento, até afogar-se no ócio e no bem--estar.  As qualidades se invertem. A primeira fase é de esforço,  esfaimada, rude, a segunda é de repouso, saciada, requintada; a primeira é guerreira, destruidora, forte, masculina a segunda é pacífica, fecunda feminina. É assim que todas as revoluções por aburguesa-se, sentadas sobre as conquistas feitas.

Que significa isto? Então, o processo civilizador  consiste em feminilizar o macho? Ou, num mais alto sentido, o processo evolutivo realizado em dois tempos e posições dois elementos opostos pelo que quando o homem terminou de a sua parte, deve ceder o passo à mulher que o substitui, colocando-o em posição secundária, e quando a mulher terminou a sua sucede o contrário? Mas, se o processo da civilização consiste no feminilizar o macho, então semelhante feminilização deve ter um conteúdo em sentido evolutivo que a justifique, isto é, ela não deve cumprir só a função de debilitar o macho no seu nível involuído de força, mas também de substituir este enfraquecimento compensando-o com a conquista de algum outro valor que preencha o vazio, de modo que a vida não fique em perda, que ela não toleraria, já que sempre quer avançar. Esta feminilização faz parte, pois, do processo evolutivo, no qual vemos que trabalha também o elemento feminino que, se é negativo, o é somente em relação ao elemento masculino, enquanto em si mesmo é igualmente construtivo, com qualidades, porém, diferentes das do homem. Assim este feminilizar-se não é um efeminar-se, isto é, um corromper-se nas qualidades inferiores da mulher, mas é também um sublimar-se nas suas qualidades superiores.

Deste modo, os dois seres opostos trabalham alternativamente, cada um repousando e deixando-se arrastar quando o outro dirige e constrói, e por sua vez dirigindo e construindo quando o outro descansa e se deixa arrastar. Eis que não se trata senão de uma divisão de trabalho entre dois seres inversos e complementares, ou entre duas formas do mesmo ser, isto é, do ser no seu aspecto masculino e do ser no seu aspecto feminino. Então o período de decadência das civilizações por feminilização não é senão uma parada no exercício das qualidades masculinas, parada da qual a mulher se aproveita para ensíná-lo a tornar-se aquilo que ela já é, e que ele ainda não sabe ser. E não é fácil com a paciência saber vencer a violência, com o amor suavizar as arestas do egoísmo, com a bondade travar os excessos da força, e assim disciplinar, plasmando a matéria prima, dada pelo macho forte e feroz, para chegar a  domesticá-lo transformando-o num ser civilizado.

O elemento mulher aproveita-se do cansaço do  homem para inculcar-lhe as qualidades que lhe faltam, enriquecendo-o e completando-o. Trata-se de duas posições diferentes do ato  construtivo da vida, sempre construtivo, ainda que seja de valores  diversos, por turno, mas todos úteis para a existência. Não se pode  negar, com efeito, que, se a construção de impérios com o esforço  bélico representa uma conquista da vida, é conquista, ainda que seja de outros valores, também a formação das aristocracias, feitas de elementos selecionados como requinte, sensibilização, mais  aperfeiçoados na ciência das relações sociais, elite biológica produtora de valores mais apreciados, como a cultura, a arte, o pensamento em alto nível. O macho guerreiro, por si só, não saberia fazê-lo sem a ajuda de um mestre, o qual no entanto para poder educá-lo, sendo débil, tem necessidade de ser defendido pelo aluno, mestre em outra matéria. Mas este, em vez de proteger, frequentemente usa a força para destruir estas construções superiores não armadas para a guerra.  Assim Cristo, portador dos mais altos valores morais, foi morto por primitivos ferozes, assim foi dominada pela invasão dos  bárbaros a civilização de Roma, assim, com a carnificina do Terror, a Revolução Francesa varreu com os requintes da aristocracia, acabou com aquele período feminino da história para lhe substituir  um masculino, abandonando-se ao impulso oposto, o da expansão guerreira.  

Neste momento é o homem que toma a dianteira e se faz valer como é, ou seja, ele que não sabe criar senão numa atmosfera de destruição, esperando que venha depois a mulher que, com  infinita paciência, recolha os restos partidos, os reordene, os reúna,  faça deles, com as suas qualidades coesivas e conservadoras, uma  casa, uma igreja, uma família, uma sociedade. Também o homem  sabe fazer tudo isto, mas o faz impondo-o do exterior, à força, enquanto a mulher o faz, trabalhando por dentro, com amor. A mulher domina e o homem depende quando ele é débil por ser criança, doente, ou velho. Quando o homem é jovem e forte, então é ele quem domina e a mulher quem depende. Assim quando dizíamos que o cicio de uma civilização, na sua segunda fase, desce, se corrompe e se extingue, e que a grandeza por ele alcançada se  desagrega, pensamos em função do homem tomado como nosso ponto de referência, vendo a aparente construção masculina mais do que a construção de tipo feminino, silenciosa e escondida, que assim nos aparece como se fora uma decadência. Mas isto é só em relação ao homem. A vida é sempre construtiva, ainda quando parece  destrutiva, porque, nesta fase, ela realiza construções em sentido oposto àquele que, com mente masculina, chamamos construtivo.

O resultado de todo este trabalho é uma substituição dos valores mais baixos do primitivo pelos mais requintados valores do civilizado, o que significa a realização do processo evolutivo. A renovação em que ele consiste verifica-se através de uma destruição em baixo, compensada por uma reconstrução mais no alto. Em substância, trata-se de uma função criadora, operada através do transformismo, cujo verdadeiro significado agora compreendemos. As fases de decadência que corrompem servem para eliminar  aquilo que é inferior, para dele se libertarem e substitui-lo pelo que é superior. A civilização corrompe o homem como animal para que nele desapareça a besta e se reconstrua no nível da moral, da  inteligência, da organicidade social. É com esta substituição que a vida se salva da decadência, porque ela, lançando fora os valores mais involuídos e conquistando outros mais evoluídos, não se mutila, mas se renova, não se empobrece, antes se enriquece. Os dois movimentos da destruição e reconstrução, morte e renascimento, existem para resolver-se numa renovação. Encontramo-los compensando-se também no plano físico, no qual o homem mata com as  guerras, e a mulher amando o homem, cria novos seres, colaborando assim para essa renovação com uma divisão de trabalho no destruir e reconstruir.

Chegados a este ponto, é necessário compreender um fato fundamental: que tudo isto acontece em função da evolução, faz  parte da sua técnica construtiva. Para este objetivo existe o  metabolismo da vida, feito de morte e renascimento. No plano físico, se os nascimentos não compensam as perdas da morte, tudo acaba num cemitério. No plano espiritual, se as reconstruções em alto nível evolutivo não compensam as destruições em baixo nível, se apenas matamos o involuído sem fazer renascer no seu lugar o evoluído, então negamos a evolução e vamos contra a vida. Se não se faz da morte um meio de renovação e superação, ela se torna o fim de tudo. A salvação está apenas na evolução, isto é, na capacidade de reconstruir-se mais no alto.

A salvação é problema fundamental e agora vemos como ele representa o termo conclusivo de uma concatenação de elementos. A salvação para a humanidade consiste no civilizar-se. Mas as civilizações, chegadas ao seu apogeu, corrompem-se ao feminilizar-se e assim decaem. Isto tem acontecido porque este feminilizar-se não constitui um acrescentar de qualidades novas às da masculinidade, mas uma substituição delas; é uma parada no caminho da evolução e não uma conquista que avança. Noutros termos, para ser vital o civilizar-se, deve ser alcançado, somando e não substituindo, isto é, deve ser constituído pela feminilidade somada com a masculinidade, e não em vez de masculinidade, como sucede no declínio das civilizações. Anteriormente fizemos notar este perigo  também no momento histórico atual, no qual o tecnicismo nos prepara o luxo de muito tempo livre e correspondentes ócios.

As civilizações decaem porque representam uma feminilização  que não se acrescentou à masculinidade mas a substituiu, cor- rompendo-a. Ora o civilizar-se deve representar uma evolução, requinte e aperfeiçoamento, uma continuação em sentido ascensional da masculinidade, e não de uma degeneração em inércia e debilidade. Engordar, mesmo sendo um enriquecer-se de reservas alimentícias, se se realizou com sacrifício dos ossos,  sem conservar a sólida estrutura orgânica de base, não é saúde mas doença, e pode conduzir à morte. O civilizar-se deve ser constituído por um aperfeiçoamento das qualidades fundamentais de força sobre as quais se baseia a vida, e não por uma sua supressão a favor das qualidades  opostas. O civilizar-se deve ser um enriquecimento e não uma mutilação da vida. A salvação está na evolução e esta é uma mudança para avançar, não para retroceder.

O fenômeno constitui-se dos seguintes momentos: 1) evolução e não enfraquecimento das próprias qualidades, tanto  da parte do homem quanto da mulher, sem que cada um perca nada,  desenvolvendo essas qualidades até um mais alto nível biológico; 2) enriquecer-se por parte de cada um dos dois elementos coma absorção das qualidades da outra metade, complementares as dele, de modo a ser cada vez menos "metade" e tornar-se cada vez mais um ser completo ; 3) fusão de todas as qualidades num único biótipo que as possua todas, nele atingindo assim, com a superação do atual estado de cisão, a unificação das duas metades.

Estes três momentos: 1) a evolução, 2) a absorção, 3) a unificação, estão conectados pelo fato que a aquisição das qualidades da metade complementar e o processo de unificação entre essas duas metades realizam-se mais facilmente num nível evolutivo  superior. Isto significa que quanto mais o macho se torna homem e a fêmea mulher, e depois o homem se torna super-homem e a mulher super-mulher, tanto mais fácil é para cada um dos dois entender e assimilar as qualidades do outro, coisa impossível de levar a cabo, sem cair em desvios e inversões, no plano animal humano  somente sexual com respeito a funções exclusivamente colocadas com anterioridade para fins de procriação. Aqui não se trata de mudar de sexo mas de ampliar a própria personalidade As qualidades fundamentais do elemento positivo ativo, o homem, são força agressividade. As do elemento negativo e passivo, a mulher, são debilidade e amor. No nível animal humano estas qualidades  tomam a forma de egoísmo e prepotência no homem, e escravidão e sexo para a mulher. Num plano mais alto estas qualidades do lado do homem tornam-se inteligência e ação; do lado da mulher, intuição e bondade. É neste nível que pode ter lugar  a absorção das qualidades opostas, isto é, que o homem pode sensibilizar-se e adquirir da mulher as qualidades do coração, e a mulher pode fortificar-se,  tomando do homem as qualidades racionais da mente, como as da energia e potência realizadora.

O fato de tal processo de unificação se realizar mais facilmente num nível evolutivo superior, faz parte também do plano geral da evolução. Sabemos com efeito que o separatismo é tanto maior quanto evolutivamente mais baixo se encontra o ser, isto é, próximo do ponto máximo de revolta e cisão que é o Anti-Sistema e é tanto menor quanto mais alto o ser ascendeu, isto é, próximo ao ponto máximo de obediência e unificação que é o Sistema. É por isto que, quanto mais se é evoluído, tanto mais fácil é unificar-se, dado que o caminho da evolução vai do Anti-Sistema ao  Sistema, isto é, do estado de separação ao estado de unidade.

Este fenômeno verifica-se também no plano das civilizações.  No desenvolvimento do seu ciclo, parte em ascese e parte em descida, vemos que, num primeiro tempo, o elemento masculino começa e lança o movimento. Depois que este chegou ao seu ápice, a ação do elemento positivo cessa e toma a dianteira o elemento negativo, no que tudo termina por afogar-se. Isto acontece porque este é apenas "metade", e não aconteceria se contivesse também as qualidades do termo oposto. É assim que as civilizações se tornam cada vez mais estáveis quanto mais se enriquece o elemento negativo - com as qualidades positivas necessárias para substituir, no período de decadência, o outro termo cansado, sabendo dirigir-se, por si só, com funções positivas.

Para o futuro a unificação, entre as duas metades tornará as civilizações cada vez mais resistentes à decadência.  Paralelamente poderão surgir outras mais avançadas pelas seguintes  razões. O princípio masculino pode iniciar cada novo ciclo de  civilização de um ponto de partida situado num nível mais alto do que aquele em que foi iniciada a anterior civilização. Este nível é  dado pelo caminho ascensional percorrido por ela e representa o fruto do seu trabalho, fruto que a nova civilização pode recolher porque o encontra pronto como resultado do ciclo percorrido pela antiga. Partindo deste ponto mais avançado, o princípio masculino pode  ascender mais do que da vez anterior e, proporcionalmente na fase de descida da civilização, decair menos. Isto significa aproximar-se cada vez mais do Sistema e afastar-se do Anti-Sistema. Como já dissemos anteriormente, a onda da civilização, por progressivas oscilações, desenvolve-se, deslocando o seu vértice cada vez mais em direção ao alto.

Assim, as civilizações tornam-se cada vez menos unilaterais. Quanto mais alto está o seu nível evolutivo, tanto mais fácil é o recíproco completar-se dos dois termos, masculino e feminino, significando  que o positivo se suaviza cada vez mais com as qualidades do negativo, e o negativo se reforça cada vez mais com as qualidades do positivo. E isto sucede num nível evolutivo sempre mais alto, em forma de enriquecimento recíproco e não de corrupção e decadência nas qualidades de baixo nível do termo oposto. Foi neste alto nível que o Cristo-amor completou o Moisés-força. Assim o Novo Testamento não destruiu mas desenvolveu o Velho. Cristo pôde construir mais no alto, porque devido ao esforço realizado pelo Hebraísmo, o ponto de partida do Cristianismo era mais avançado.

Assim nasceu  o Cristianismo. O seu sinal é a cruz, a sua força é o martírio. Ela foi de fato fundada por Cristo, primeiro mártir, e pelos mártires dos primeiros séculos. O sinal masculino é a espada. Na passagem de um termo ao outro, constatamos um emborcamento de valores. Poder-se-iam chamar também sadismo e masoquismo. O valor da mulher está em saber sofrer, o do homem em saber fazer sofrer. A primeira está feita para suportar, o segundo para infligir dor. A estratégia da mulher é a fuga. A do homem  perseguir e matar. Cristo não é guerreiro, pelo contrário, escolhe a  posição de vítima. É o cordeiro inocente que se sacrifica. O homem, pelo contrário, é lobo, à procura de cordeiros, vítimas para devorar.

Mas, nem por isto ao princípio feminino faltam meios de defesa que lhe garantam a sobrevivência. No plano animal tem o poder da fascinação do sexo com que subjuga o homem. No plano espiritual tem o poder do desarmado pelo ideal, que aparece também na Terra proveniente do mistério do além, onde também o homem terá por fim de ir parar e não sabe se a espada lhe servirá ainda, ou se, pelo contrário a vida, que é o que mais o preocupa, se defenderá, com a retidão e a inocência desarmada, em vez de o fazer armando-se. Surge a dúvida sobre se a outra vida é regida por outros princípios, pelos quais a vítima inocente, num regime de justiça onde se prestam as contas, seja, pelo contrário, o mais forte. Vacila então a fé do homem na força, que torna tudo lícito na Terra. O Cristianismo é debilidade, renúncia e pranto frente à força e vitalidade eufórica do mundo. Mas eis que a vítima vilipendiada na Terra, Cristo, ressurge fulgurante de poder para julgar. Invertem-se os papéis. O mais desprezado dos vencidos torna-se o senhor supremo. Então o triunfo da espada é efêmero. E depois, o que sucede na eternidade? Também na Terra, nas curvas da história está escondido o imponderável pronto a castigar inclusive os mais furtes, em nome de um princípio que não é a força.

Muitos são os recursos do princípio feminino, que transformam em poder a sua debilidade. O martírio, também na Terra, será verdadeiramente uma derrota? O sangue dos mártires fecunda a Terra onde cai e a ideia pela qual eles morreram germina gigantescamente. O martírio cria seguidores, porque é prova de verdade daquilo por que se dá a vida. Então o ideal se torna epidêmico. Levado ao plano da dor e do sangue, ele é compreensível a todos e com o exemplo sugestiona e arrasta. Tanto isto é verdadeiro que um partido que quer fazer-se forte, atraindo seguidores, se apressa em fabricar os seus próprios mártires. Usa-se semelhante indústria também em política. Eis que a inocência da  vítima pode conquistar mais do que a espada do guerreiro. As perseguições difundem-se e fazem triunfar a ideia dos perseguidos. A força moral vence mais do que a material, o princípio feminino do sacrifício supera em potência, ao masculino do domínio.

É assim que aquele princípio feminino pode ter uma importantíssima função, a de educar o homem. A tarefa do Cristianismo é a de inculcar-lhe as qualidades superiores do princípio oposto. Eis a obra civilizadora do Cristianismo, dirigida a domesticar no mundo o desencadeamento da prepotência dos homens, ensinando-lhes a virtude de saber trabalhar em colaboração num regime de paz. Portanto: desinteresse, retidão, espírito fraterno, não-resistência. A religião tende, enquadrando-o numa disciplina, a domesticar o homem forte e a defender a mulher débil. Os três votos franciscanos: pobreza, castidade, obediência, arrancam a prepotência pela raiz. Os primeiros a aceitar Cristo foram os humildes das classes mais pobres, porque Nele encontravam defesa contra os prepotentes. Perante o comando, a mulher obedece, o homem rebela-se. Perante Deus, a mulher reza, o homem blasfema. A mulher naturalmente adere à religião, porque esta, representando o princípio que pretende domesticar o homem, oferece-lhe defesa. Vemos isto no instituto do matrimônio. A mulher não tem necessidade de ser forçada a esses três votos porque frequentemente já está em dependência econômica do homem, com o dever de castidade fora do matrimônio (adultério condenado só para a mulher) e ligada ao marido em posição de obediência.

O Cristianismo se enxerta, plenamente, no processo evolutivo, na medida em que ele trabalha pela superação da lei biológica da luta pela seleção a favor do mais forte, imperante nos planos mais baixos, para chegar a praticar, pelo contrário, o tipo de vida social orgânico próprio do homem civilizado no qual ao estado de luta do separatismo individualista se substitui um estado de paz na ordem coletiva. Para alcançar esta unificação, é necessário colocar em eficiência as virtudes femininas de compreensão e coesão, que são as mais adequadas para aproximar e coordenar em cooperação os ferozes egocentrismos masculinos que tratam de destruir-se reciprocamente. A função da mulher é a de tratar de separar os homens para que não se matem, é a de, pelo contrário, fazê-los trabalhar para produzir, e alimentar a vida, não para destruí-la.

Podemos,  agora,  compreender  o  significado  do Cristianismo perante as formas de atividade dos dois termos biológicos fundamentais, perante o desenvolvimento do ciclo de uma civilização, perante o processo evolutivo. Explica-se assim também o tipo de paixão escolhida por Cristo e a forma pacífica de holocausto escolhida pelos seus seguidores nos primeiros séculos de fundação do Cristianismo. Perante as leis da vida, como se justifica este fato? Cristo tinha, portanto, estabelecido que o seu tipo de ação fosse de tipo feminino? Na realidade a sua bondade se tinha resolvido num convite ao uso da maldade por parte dos outros. As culpas de Judas, de Pilatos, do Sinédrio, dos hebreus, foram provocadas pela atitude de vítima, desejada por Cristo. Poder-se-ia dizer: ele o quis. A não-resistência atrai o agressor, a ingenuidade atrai o engano, porque a impunidade é o grande sonho de quem faz o mal. Na Terra é necessário impor o bem por disciplina e protegê-lo pela força. Em semelhante ambiente, a bondade torna-se culpa porque, deixando o mal impune, o encoraja. Cristo primeiramente declarou guerra ao mundo. Ele desafiou os seus inimigos, depois se ofereceu a eles sem armas. Que tática é esta? É evidente que não lhe restava senão o martírio. Isto é perfeitamente lógico, segundo as leis do mundo. Mas acaso Cristo não as conhecia? Segundo a lógica terrena da força, Ele era vítima, um vencido, um falido. O mais forte tinha o direito de eliminá-lo e com isso se terminava a luta.

Ao contrário, não teria Cristo conhecido tudo muito bem, mas querido vencer, manifestando-se como princípio feminino de civilização, dando ao mundo um impulso neste sentido, como depois de fato sucedeu? Não se pode igualmente dizer que Cristo fosse um vencido, porque soube vencer, embora numa forma muito estranha para o mundo, fora do seu terreno, isto é, depois de morto, o que é mais difícil que durante a vida. Venceu não ficando no âmbito das leis da Terra, mas superando-as, não passando pelo princípio masculino, mas vencendo-o por outras vias. Venceu em altíssimo nível, no plano do ideal. Mas de tudo isto o elemento humano viu e compreendeu bem pouco, e se interessou somente em vencer, no seu baixo nível, aquilo que aos seus olhos apareceu apenas como uma expressão do princípio feminino, existindo naturalmente para ser dominado pelo masculino. Representantes disto não faltam na vida, prontos a aproveitar-se de quem se apresenta desarmado, e logo apareceram. Do ideal de Cristo eles viram sobretudo o que lhes poderia servir em Terra. Transformando-o, assim, em interesse humano, puseram-no a serviço do mundo, fazendo do poder espiritual um poder temporal. Agora nos perguntamos: isto foi traição ou foi complementação?

Procuremos  compreender a lógica com a qual se desenvolveu o fenômeno. Já noutro lugar nos fizemos esta pergunta, mas a consideramos sob outros pontos de vista. O emborcamento teve lugar com a doação de Constantino. Naquele momento ao feminino que informa o Evangelho, se substitui o princípio masculino de domínio realizado por uma casta eclesiástica baseada na própria autoridade. A religião então, passada para as mãos de homens que atuavam com psicologia masculina, assumiu outro tipo de trabalho. Mudou de sinal, isto é, em vez de cruz tomou a espada, em vez do amor praticou a luta para o poder temporal, em vez de apontar em direção ao céu, tornou-se instrumento de domínio terreno.

Aqui  não  discutimos  se  isto  foi mal, culpa ou necessidade. O nosso objetivo é compreender, não criticar. Se a vida o permitiu, ela deve ter tido as suas razões para fazê-lo. O fato do emborcamento permanece. Se ele se verificou, se está ainda de pé, isto significa que tinha uma função para cumprir. O que significa, então, tudo isto? A primeira coisa que se vê é que nos encontramos perante um Cristianismo que se colocou era posição invertida em relação ao seu fundador, perante uma religião que se tornou mundo e com isto passou para o lado do inimigo, uma religião, que mudou de sinal, assumindo o do princípio masculino. Esta não é a vitória de Cristo, mas a vitória do mundo sobre Cristo. Resultou dela uma religião que, em vez de assumir a tarefa da superação do separatismo egocêntrico que conduz à luta, para chegar a um estado orgânico de ordem coletiva, continuou esse separatismo e estado de luta, limitando-se em substância só a disfarçá-lo sob aparência de amor cristão, transformando-se, assim, numa forma de hipocrisia.

Teria sido uma necessidade? Se é verdade isto, pela imaturidade dos tempos, é tudo o que se podia exigir num primeiro momento, e se assim se pode justificar o que sucedeu, não se altera o fato positivo da existência de tal emborcamento. Pode ser que esta hipocrisia constitua somente um primeiro passo no esforço de domesticar o homem: esforço procedente do exterior em direção ao interior e conformando-se em princípio só com o externo, mas permanecendo mentira perante os impulsos íntimos, que ficam intactos, não atingidos pela religião. Mas permanece o fato da contradição, o contraste entre as palavras e os fatos, entre o que se professa e o que se faz. Mesmo que se trate apenas de uma fase necessária de transição, justificável porque no futuro deverá ser remediada, este é o atual estado do Cristianismo.

Se é vitorioso como organização terrena, fica em posição inferior, como função espiritual.  A febre de ascese em direção ao alto, chama da religião, apaga-se no conservadorismo agarrado à evolução para detê-la, ou também se torna paixão masculina atraída pelo domínio econômico ou político, mesmo que formalmente velada de amor cristão. Então a religião transforma-se num aproveitamento utilitário em favor de elementos socialmente improdutivos, uma escola de preguiçosos comodismos, ou ainda, se pelo contrário prevalece a atitude masculina de luta, então tudo está falsificado e não pode dar por fruto senão mentira. Agora que compreendemos qual deveria ser a verdadeira função civilizadora do Cristianismo, perguntamo-nos se ele até hoje a cumpriu. E se ainda não a cumpre, as consequências podem ser graves, porque sabemos que a vida liquida com tudo o que não serve aos seus fins, quando não realiza a função que lhe foi confiada.

Quem é atraiçoado neste caso, é a vida e é impossível que ela não reaja. É seu objetivo fundamental, que neste caso está comprometido, isto é, a evolução, porque não temos o anjo que se substitui à besta, mas é a baixa animalidade humana envernizada de anjo, que pretende parecê-lo. Então tudo se reduz a uma mudança de estilo no antigo método de luta, pelo qual a arma da astúcia substitui a da força. É verdade que, na economia da vida, até isto serve, porque em vez dos músculos tende a desenvolver a mente, que já é coisa mais evoluída. Mas é desenvolvimento na forma oblíqua de engano, e a isto fica reduzida a ação evolutiva da religião. Então esta ação não consiste em eliminar a luta entre egoísmos, mas em continuá-la sob outra forma, isto é, em vez de se matarem, enganando-se reciprocamente. Com semelhante mudança a vida não se moraliza, mas se desmoraliza.

O conteúdo da religião não é então a luta pela superação evolutiva, mas um enquadramento terreno para radicar-se no mundo; é um organismo burocrático, composto de cargos, posições sociais, carreiras sobre bases econômicas. O meio acaba tornando-se o fim. Então, seja talvez mais por inconsciência e nesse caso sinceramente, as vocações surgem em função dessas vantagens positivas. Para uma mente positiva, que não sabe entender para além do ofício, isto pode ser totalmente moral. Na sua simplicidade um involuído, mesmo que seja ministro de Deus, em plena consciência, pode crer ser cristão apenas porque cumpre os atos de uma disciplina exterior inerente ao seu ministério, recebendo honestamente, em compensação deste seu trabalho, os meios para viver. Para quem não vê mais além do justo intercâmbio, isto também responde à retidão. Mas o Cristianismo é outra coisa, está situado noutro nível de evolução. Ele não é somente um serviço, como pode parecer às pequenas almas. Ele é uma paixão de espírito com funções criadoras, para transportar a vida a planos mais altos revelados pelo ideal, ainda que quem não está biologicamente maduro o entenderá a seu modo, procurando, portanto, baixá-lo ao seu nível, de ofício, crendo em boa fé ser cristão e chamado por Deus.

Deixemos  de  raciocinar  com  os  homens e raciocinemos com Cristo e com a lógica da vida. A humana se explica em função do nível evolutivo de que é produto. Então perguntamo-nos: Cristo fez um trabalho inútil? Por que sofreu a sua paixão se estes são os resultados? Pode-se admitir que o homem se engane, mas não Cristo. Não sabia Ele a que biótipo se dirigia, que na ferra a vida obedece a outras leis e que portanto se faria da sua doutrina um uso emborcado? Então também a vida errou porque deixou deter a evolução, fez falir o ideal e assim vai desperdiçando os seus melhores valores e os esforços que custa produzi-los. Mas se tudo isto não é admissível, qual o significado do que parece um erro, e se o é, como se pode salvar sendo utilizado para o bem, o maior objetivo da vida?

Como sempre, quando parece que ela se engana, isto depende somente de nossa má perspectiva do problema. Observando bem veremos que cada coisa está no seu justo lugar e cumpre logicamente a sua função. A finalidade das religiões não será acaso a de espiritualizar sobretudo o indivíduo mais necessitado por ser imaturo? Acontece então que nas religiões é envolvido sobretudo aquele que é imaturo e por isso acredita que o método mais proveitoso de utilizar o ideal é o de desfrutá-lo para fins terrenos. É precisamente este tipo o que mais necessita de ser submetido a um estreito contato com as zonas do ideal, para assimilá-lo. Por este motivo precisamente este é submetido à dura disciplina do religioso e com isso recebe a lição mais enérgica, aquela que a tal tipo mais dói e que portanto será melhor sentida. Ela de fato lhe é imposta na forma mais adequada, isto é, de coação, tanto mais forçada quanto mais imaturo é o indivíduo, enquanto ela é tanto mais fácil, de espontânea aceitação, quanto mais o indivíduo é maduro. Já explicamos que o meio mais adequado para domar o involuído é a coação. Assim, proporcionando os meios à realidade e ao objetivo, o bem é alcançado na forma devida.

Se alguém, sem sê-lo, se quer fazer educador só para usufruir as vantagens do mestre, é um bem, a fim de que ele possa progredir, que seja preso como numa armadilha, na disciplina de educar. Eis então que a religião se torna uma prisão na qual automaticamente são fechados aqueles que mais têm necessidade de injeções de ideal para amadurecer num tipo de vida superior. Cumpre-se assim a função civilizadora da religião, começando por obrigar os aspirantes a educadores a educarem-se.

É inegável que na organização religiosa as posições materiais baseiam-se sobre princípios espirituais. Come-se e vive-se em função destes. Isto obriga a defendê-los porque são um meio para sobreviver, sendo pois transportados ao terreno real da luta pela vida, o que obriga tê-los em conta para salvar as posições materiais que sobre eles se baseiam, mesmo que em si mesmos, por amor ao ideal, eles não interessem.  É assim que os princípios espirituais se tornam sagrados, preciosos, intangíveis.  É assim que se forma a mistura de mundo e ideal.  É assim que surge a necessidade de conhecer a espiritualidade, de tê-la presente, de sentir-se o seu peso e fazê-lo sentir. De outra maneira a espiritualidade passaria inobservada.  É assim que, misturando-se com a Terra, na Terra consegue valorizar-se o ideal. A vida não errou, porque encontrou a forma que permite que em nosso mundo Cristo seja tomado em consideração.

Cristo também não errou, porque a religião cumpre a sua função civilizadora ainda que em posição emborcada de hipocrisia. Assim os mais astutos, que fazem melhor carreira e mais sobem nos cargos, são aqueles que mais se encontram ligados à figura de Cristo, mais em evidência, com a obrigação do exemplo, aqueles que mais estão obrigados a imitar o Mestre, o que significa alcançar o bem como um fim. Efetivamente quanto mais o indivíduo trata de enganar vestindo-se de hipocrisia, tanto mais, em tais posições, é constrangido pelo ideal e dele recebe as saudáveis lições. A massa popular, mais simples e irresponsável, está menos comprometida com ele e pode permitir-se mais evasões. Os mais aperfeiçoados na arte sutil de enganar o ideal, são aqueles que mais ficam atados a ele por toda a vida. Assim esta não se engana quando faz ministros de Deus aqueles que Dele mais necessitam.

Deste modo, realiza-se o jogo da vida, que sabe o que faz. Apesar de tudo, o Cristianismo cumpre a sua função civilizadora. De fato, quando ele é usado como hipocrisia, serve para transformar, como já indicamos, a brutalidade animal e a força física em trabalho e qualidades mentais, passando a exigir, então, a luta uma atividade cerebral, como o exige o uso da astúcia. Mas sucede que, ao mesmo tempo, isto obriga o indivíduo a viver em contato com os superiores princípios do ideal que o levam a transformar a astúcia em retidão, isto é, a levar as qualidades mentais ao nível de qualidades morais e espirituais. Eis que o trabalho, em sentido evolutivo, realiza-se plenamente, e assim a vida não se engana de maneira nenhuma porque alcança a sua única finalidade, evoluir.

O jogo da vida se desenvolve, seguindo logicamente as leis e os objetivos desta. Homem e mulher funcionam como os dois polos do mesmo circuito. O positivo é feito para enxertar-se no negativo, o negativo para ligar-se ao positivo. Então que outra alternativa restaria ao princípio feminino se não cair em poder do princípio masculino? É natural então que, logo que o elemento masculino encontre o feminino, tome posse dele e utilize para o seu egoísmo as suas qualidades de bondade e sacrifício. Este princípio funcionou também para o Cristianismo. Até a doação de Constantino, o Cristianismo foi heroísmo de martírio. O princípio feminino triunfava e o masculino estava à espera. Aquela doação levou o fenômeno para o terreno deste. Nesse momento o princípio masculino despertou e iniciou, dentro do Cristianismo, o seu oposto tipo de atividade, tomou posse do feminino, e o amou a seu modo, adorou-o e o levou consigo para torná-lo grande no seu mundo. Fez-lhe uma casa, milhões de casas, catedrais belíssimas, vestiu-o de imagens, de arte, de rito, cobriu-o de riquezas, deificou-o, mas naturalmente a seu serviço, isto é, pertencendo-lhe como homem egoísta e senhor, como ele faz com a esposa. Atraiçoou-o por isto? E a esposa se sente atraiçoada se o homem a domina para subordiná-la a si? Não, porque isto corresponde à sua natureza e função que é a de estar, nesta posição, a única possível para ela, junto ao homem dominador e assim induzi-lo a evoluir.

Assim aconteceu com a Igreja. Com este matrimônio, o princípio masculino do mundo tomou posse do princípio feminino de Cristo para utiliza-lo a si, e o princípio de Cristo ligou-se ao do mundo para fazê-lo evoluir. E atendido assim, o que pode parecer um híbrido composto e uma contradição, é pelo contrário uma colaboração de opostos. No final o homem dominador fica dominado pelo seu termo complementar e assim se desenvolve no terreno oposto, adquirindo as qualidades que mais lhe faltam para ser completo. Por outra parte, o elemento feminino recebe em compensação a vantagem de poder penetrar no mundo e assim ser valorizada a sua função educadora. O espírito pode enxertar-se na realidade de nossa vida e trabalhar para civilizar o homem. Sem esta servidão ao homem, que se bem a utiliza para si no entanto lhe dá eficiência, a mulher ficaria estéril, sua presença inútil, sua existência falida. Todos vivemos em função de uma obra a realizar, de um fim a atingir. Se abdicarmos disto, a vida se forma inútil.

A Igreja, como organização humana, ao tornar-se poder terreno, transformou o ideal de Cristo em mundo, biologicamente não traiu, mas cumpriu uma função que, dado o grau de evolução humana, era um mal inevitável, que no entanto se justifica como fase transitória do seu ciclo evolutivo. Tudo está feito para ascender. No final do ciclo a missão dos dois esposos terminou. A mulher, carregada de anos e joias, está velha. O homem tornou-se um repetidor cansado de antigas fórmulas e não sabe viver senão de recordações. A vida os superou. O espírito deve renascer mais evoluído, enriquecido com experiência anteriores para iniciar um novo trecho do caminho, partindo de um ponto mais avançado, portanto mais espírito e menos mundo, para tornar-se ainda mais espírito e menos mundo. Um pouco mais adiante o mesmo jogo continua. O que fica é a evolução no caminho cada vez mais para o alto, em direção a Deus.

Tudo se explica e se encontra no lugar que lhe corresponde. Sem aquilo que parece traição ao ideal, este ficaria incorrompido nos céus e o mundo involuído e estacionário na Terra. Se para o progresso é necessário tal descida, esta só pode realizar-se sob a forma de conspurcação do ideal e traição por parte do mundo. A mentira deve-se à necessidade de emborcar o ideal para introduzi-lo no mundo, seu oposto, e não pode mudar de um momento para o outro; precisamente para muda-lo é que o ideal deve descer à Terra.

Por este caminho, chega-se à construção do homem espiritual, que aprendeu a não abusar mais da sua força, antes de usa-la em forma de bondade benéfica, a que o levou o princípio feminino, em vez de usa-la sob a forma de egoísmo para prejuízo alheio, de acordo com a lição do princípio masculino. Paralelamente a potência do princípio masculino conduz à construção da mulher forte no plano da inteligência e do trabalho, não escrava, mas aliada do homem para colaborar com ele na obra da construção da civilização. Este ponto final é dado pela conjunção dos dois opostos no que de melhor eles são, isto é, pelo super-homem enriquecido pelas qualidades da super-mulher e ao contrário. Assim a evolução cura a cisão, levando cada vez mais o ser em direção ao máximo termo unitário, centro da unificação, Deus.

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Neste e nos precedentes capítulos sobre o Cristianismo, dissemos que ele, além de representar a realização da ideia de Cristo na Terra, é uma adaptação que o mundo, como seu inimigo, fez de Cristo a si próprio. Para compreendê-lo bem, observamos o caso sob vários aspectos, mudando pontos de vista e de referência. Como sucede nas administrações deste mundo, os ministros tomam posse da propriedade alheia para usá-la como se fosse sua, para os seus próprios fins. Não seria possível que neste caso o homem mudasse improvisadamente de natureza para atuar, como ministro de Deus, em forma diferente. Concluímos, por fim, que nem por isto o Cristianismo faliu, porque, apesar de tudo, ele cumpre a sua função. As conclusões são, pois, otimistas, pelas seguintes razões:

1) O Cristianismo é fenômeno em evolução, concebemo-lo portanto como um Cristianismo progressivo, o que significa que ele poderá fazer amanhã o que não fez até hoje, isto é, tornar-se verdadeiramente cristão, superando o atual estado de hipocrisia. Não se trata, pois, de falência, como pode fazer pensar o passado, mas de uma futura realização da ideia de Cristo.

2) A função do Comunismo é a de levar o Cristianismo à sua verdadeira posição estabelecida por Cristo, fazendo-o retomar o signo da cruz, o qual, no passado, foi substituído pela espada e hoje pela luta política e pelo poder econômico. Assim ou poderá surgir uma diferente organização eclesiástica para o lugar da atual, ou na atual haverá uma substituição por homens diferentes, que viverão o Cristianismo como Cristo o concebeu e não como eles o adaptaram.

3) Nas páginas precedentes, sustentamos que, apesar de tudo, o Cristianismo, que enfocamos no Catolicismo, cumpriu e cumpre a sua função civilizadora quando obriga os mais astutos, que gostariam de aproveitar-se da ideia de Cristo, acabam ficando ligados a ela, o que não pode deixar de educa-los à força, prendendo-os numa férrea disciplina moral.

As leis da vida querem a evolução e se cumprem, a paixão de Cristo não foi inútil, que o fenômeno da descida dos ideais não deixa de se realizar. A falsificação alcança somente quem a realiza, e não quem obedece a vontade de Deus, impulsionadora do progresso. Os erros humanos podem retardar o caminho de quem os realiza, mas não podem deter a marcha da evolução. Assim nem Cristo nem a vida se enganaram. No fundo a corrupção do ideal, pelo fato de que a descida deste ao nível humano é uma necessidade, é um mal inevitável porque sem ele não haveria possibilidade de progresso para os menos evoluídos, ao mesmo tempo que é um mal útil, porque permite este progresso. É assim que tudo está no lugar que lhe corresponde e se move em direção ao seu fim. A descida dos ideais, apesar de tudo, funciona para a salvação do mundo.

Procuremos, agora, enfocar o problema do Cristianismo, observando sob vários de seus aspectos, sejam positivos ou negativos, particularmente numa espécie de psicanálise. Isto nos permitirá compreender como surgiram, como funcionam e em relação a que finalidades biológicas existem várias das suas formas, sejam elas produto consciente ou subconsciente da necessidade de alcançar o objetivo mais urgente, que é a conservação do grupo. Veremos que, se elas, perante a lógica do ideal pregado oficialmente, são contradição absurda, não o são perante a lógica das leis da vida que impõem a luta pela sobrevivência a qualquer custo. Veremos assim melhor ainda como a sua simbiose com o mundo maculou o ideal, submetendo-o às suas exigências materiais. Veremos como funcionam as leis da vida e da descida dos ideais no caso do Cristianismo. Procedemos sempre estando orientados por um sistema científico-filosófico completo, que nos dê a razão de tantos fenômenos biológicos e psicológicos inerentes ao funcionamento da vida.

Dissemos: a função das religiões é a de fazer descer os ideais à Terra, introduzindo assim e antecipando, num plano evolutivo inferior, as leis de um superior, para fazer ascender a humanidade até ele. Daí deriva a importância biológica das religiões, devida a esta sua alta função evolutiva. Então o trabalho que as espera é o de levar a animalidade humana ao nível do ideal, como também é o de adaptar o ideal à animalidade humana. Estas adaptações são o preço que o Sistema deve pagar ao Anti-Sistema, se quer que este lhe permita entrar e permanecer no seu terreno que é o mundo. Isto pode representar, com respeito ao alto, um processo de degradação por retrocesso involutivo, mas significa avanço com respeito ao plano baixo. Assim a superação da animalidade não se pode obter senão por meio deste contato entre os dois termos. Mas eles são antagônicos, portanto em luta, cada um para destruir e eliminar o outro. É assim que o primeiro ato do Anti-Sistema, quando entra em contato com o Sistema, é tratar de emborcá-lo para submetê-lo aos seus fins terrenos. O ideal desce do Sistema para levantar na sua direção o Anti-Sistema. Este responde, tratando de rebaixar o Sistema ao seu nível.

Assim explicamos o comportamento das religiões. Cristo não aceitou adaptações, não pactuou com o mundo. Este então o matou, O expulsou e Cristo foi viver em outro lugar. Mas os seus Ministros e seguidores devem continuar a viver na Terra, e portanto desceram a pactuar com o Anti-Sistema; desde que deixem de qualquer modo sobreviver o ideal no mundo, se adaptaram a conviver com o inimigo, pagando, com estas adaptações, o direito de habitar em casa alheia. Assim coabitam: o ideal tratando de santificar o mundo e este tratando de corromper o ideal. A posição das religiões perante as leis da vida terrena é, pois, clara. Explica-se assim o fenômeno de não cumprimento dos princípios de Cristo por parte dos seus representantes e seguidores.

Tampouco o Cristianismo podia colocar-se fora das leis biológicas vigentes. Se os anjos querem viver no inferno, devem adaptar-se ao tipo de vida dos demônios. De outra maneira têm que ir-se embora. Eis o Evangelho reduzido a doses homeopáticas. Que encontramos na vida do princípio do desinteresse, da não resistência, do amor a teu próximo etc.? Eis um Evangelho diluído nos opostos métodos do mundo. Sob aparências contrárias, domina o instinto gregário, o espírito de grupo, a organização de interesses de casta. Esta é realidade subentendida, que se presume, com a qual tacitamente se concorda. Se surge quem quer atuar a sério, então tem lugar o choque, porque se descobre o mal- entendido, dado que os fatos não correspondem às teorias pregadas. Na realidade o ideal de Cristo está longínquo e se encontra, pelo contrário, a classe social que O representa: um exército em luta em primeiro lugar pela sobrevivência própria. Estamos na Terra e aqui este é o problema fundamental.

Se não quisermos perder-nos no irreal, a posição na Terra não pode ser colocada diversamente. Somos constrangidos a isto pelas próprias leis da vida que eliminam a quem não obedece a elas. Disto nasce uma série de consequências; em primeiro lugar, a necessidade de possuir, ainda que o Evangelho proponha o contrário. Esta contradição poderia autorizar alguém a criticar as religiões de não cumprimento e das ditas adaptações. Aqui fazemos imparcialmente só uma observação. Esta acusação valeria se fosse feita por amor à virtude por parte de quem a apresenta. Mas que vale quando é feita por quem só a prega e se serve dela para apanhar em falta os outros, ainda que seja com razão, voltando contra eles a sua própria pregação? Estas acusações são feitas com finalidade positiva, ou apenas com o objetivo de demolir um rival? Eis que se recai no terreno da luta e ninguém está ausente. Então o Evangelho é transformado por ambas as partes numa arma para destruir-se no duelo, ao exigir do outro, em nome de princípios, aquilo a que a cada um dos dois mais importa, isto é, uma renúncia que, empobrecendo o seu antagonista, o elimine da vida. E então, se a acusação de mentira se baseia na mentira, que vale esta acusação? Isto pode mostrar-nos para que serve o ideal na Terra.

Não nos iludamos. Para o triunfo de uma ideia na Terra é necessário vencer no plano humano, porque em nosso mundo só o vencedor tem o direito de estabelecer a verdade. O vencido é considerado culpável. Então o ideal deve submeter-se às leis da Terra. Depois da necessidade de possuir, indispensável meio de domínio, a necessidade de conservar esta posse. A eternidade dos princípios tende a concretizar-se numa eternidade de meios materiais necessários para sustentá-los na Terra. Disto nasceu em várias religiões, o instituto da castidade do clero; em vista de tais fins positivos fez-se dele uma virtude. A sua verdadeira função é, pelo contrário, a de eliminar as consequências econômicas da procriação. Evita-se assim o possuir em favor do grupo familiar em vez do grupo eclesiástico, evita-se a perda da obrigação de deixar por herança aos familiares, herdeiros legais, ao invés da coletividade religiosa. Sem filhos tudo fica dentro da organização eclesiástica. Assim se fecham as portas de saída, enquanto ficam abertas as da entrada.

Na Terra, os grupos de qualquer gênero estão em rivais posições de guerra. Daí a necessidade de viverem compactados como soldados, sem ter entre os pés o travão de pesos mortos para arrastar, como são mulheres e filhos. Então o sexo torna-se pecado porque tem como resultado a procriação derivais pretendentes  à  posse.  Principalmente  no  passado  quando, sendo desconhecidos os métodos de controle da natalidade, não havia outro meio senão a castidade.

Formou-se assim uma moral em função das leis da Terra onde o possuir representa a base da vida. No passado a conquista dos bens, mais do que o trabalho, se fazia com a violência, que aos eclesiásticos era proibido usar. Portanto para lutar não restava outro meio senão estas medidas. De tudo isto, ou seja, de razões econômicas na luta para a conservação do grupo nasceu a exaltação da castidade. É por isto que ela se tornou uma virtude, mesmo que biologicamente não o seja. Poderia sê-lo, se tal renúncia fosse útil a vida na medida em que se realizasse em função de uma correspondente conquista espiritual. Mas na realidade nem sempre acontece que esta negação num nível baixo seja compensada por uma afirmação noutro mais alto. Sucede então que para a maioria composta de imaturos, tudo se reduz a uma limitação, em vez de uma criação e expansão. Assim a castidade imposta à força por outras razões, em vez de levar à sublimação, leva ao contrário, à hipocrisia ou, o que é pior, as substituições e desvios patológicos. Tal virtude baseia-se em necessidades práticas e a ideia da catarse evolutiva, como fato excepcional, não basta para justificá-la.

Disto nasceu um espírito da sexofobia dominante do Catolicismo. E compreende-se como, um Evangelho nada sexófobo, se insistiu tanto na castidade, enquanto se passa por cima do assunto riqueza, para o qual o Evangelho reserva as mais acerbas condenações. A razão disto reside no fato de que o verdadeiro objetivo escondido é a conservação do grupo e para esta finalidade a renúncia ao sexo representa uma ajuda, enquanto a renúncia à posse é um obstáculo. É por isto que tanto se insistiu em fazer da castidade uma virtude, apresentando-a como uma sublimação, esta, na prática, também não se realiza.

Os dois impulsos: fome e sexo, são tão fundamentais que derivaram deles dois biótipos, cada um especializado em uma destas duas funções. O primeiro dos dois é produtor de bens, e na luta pela sobrevivência está encarregado de defender a vida. Por isso é egoísta, apegado à posse, interessado, calculador, mas é também trabalhador e criador, se bem que sobretudo para si, com egoísmo e avareza. Adora ao deus dinheiro, em compensação é casto porque é frio. Em se tratando de sexo, é virtuoso e puro. O segundo tipo é consumidor de bens e, na luta pela sobrevivência, está encarregado de continuar a vida. Por isso é altruísta, desprendido da posse, desinteressado, generoso, mas também anda em busca do apoio material que o sustente enquanto ele deve cumprir o seu diferente trabalho. De fato não sabe produzir, mas sabe amar e proteger. No sexo, ele é um pecador, mas a respeito da riqueza ele não tem apego e é virtuoso.

Temos aí uma divisão de trabalho, de aspectos, de juízos. No fundo o primeiro é tipo masculino, dominador, o segundo é tipo feminino, obediente; ambos, em duas formas diferentes, empenhados no mesmo trabalho da luta pela sobrevivência. Vemos prevalecer o primeiro nos países frios, onde essa luta é mais dura. Assim, ao Norte da Europa, o Cristianismo se tornou rígido Protestantismo, que preferiu ao Evangelho a Bíblia, código de um povo guerreiro. O Segundo tipo prevalece nos países cálidos, onde aquela luta é menos dura. Assim, nas zonas meridionais, o Cristianismo transformou-se no Catolicismo mais acomodativo, que à Bíblia preferiu o Evangelho, baseado no amor.

Tudo isto nos diz a psicanálise das religiões, mostrando- nos uma diversa realidade escondida sob as aparências. Quem olha em profundidade não se deixa enganar pela vestimenta exterior. O que conta perante a vida é a realidade interior, aquilo que realmente se sente e se faz, aquilo em que de fato se crê e não aquilo que se diz que se crê. O mundo gosta de cobrir-se de ficções, que no entanto nada deslocam nem salvam. Somente se soubermos ver aquilo que se oculta atrás delas, a verdadeira vida, poderemos compreender o que está sucedendo no mundo.

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Um  outro  importante  aspecto  do  Cristianismo  é representado pelo fenômeno do materialismo religioso. Isto deve-se ao fato de que o homem, quanto mais primitivo é, tanto mais concebe as coisas em forma materialista, em função do ambiente terrestre segundo o qual construiu a sua forma mental. Este modo tão comum de entender as coisas do espírito é devido ao grau de involução em que se encontra a humanidade, isto é, mais do lado do AS do que do lado do S, pele que é o primeiro que prevalece ainda sobre o segundo. Então o ideal, para poder existir no mundo, é abaixado ao nível deste, ou seja; submetido a retrocesso involutivo. É a forma que vence a substância, a qual fica sufocada dentro dela. O homem por comodidade, adapta tudo a si próprio, trazendo-o ao seu nível. É assim que encontramos os atributos do S torcidos na forma de AS, isto é, vemos nas religiões, em vez de um processo de espiritualização da matéria, um de materialização do espírito, em vez de uma elevação do homem ao nível do ideal, um rebaixamento do ideal ao nível do homem.

O Cristianismo, também ele, seguiu em alguns casos esta tendência bem humana pela qual as coisas do espírito são concebidas em forma materialista. Foi assim que a vitória de Cristo sobre a morte e a continuação da sua vida foi entendida principalmente no plano físico, como ressurreição do corpo. Mas Cristo não era o corpo, era o espírito que não estava morto e que, tendo ficado vivo, para permanecer como tal, não tinha necessidade de ressuscitar. Como se vê, o problema da ressurreição de Cristo foi apresentado em forma totalmente materialista, identificando Cristo com o seu corpo, e como se fosse necessária a sobrevivência deste para que ele pudesse ficar vivo, enquanto a vida do espírito, na qual consiste verdadeiramente a pessoa, é independente da morte do corpo.

 Assim foi entendido o fenômeno da sobrevivência de Cristo esquecendo-se que o seu verdadeiro ser é espiritual e não físico.

Aqui, queremos ressaltar não é a negação da ressurreição de Cristo; afirmamos isto sim, que não havia nenhuma necessidade da sua ressurreição corpórea para que Ele pudesse permanecer vivo, como era necessário para ser triunfador. E esta era uma necessidade psicológica na mente dos seus seguidores, para que eles pudessem ter a segurança, para eles indispensável, de que Cristo não estava morto mas sim ainda vivo, não tinha desaparecido, mas estava presente para sustentá-los. Para quem vive no espírito esta ressurreição física passa a segundo plano, porque é só a de um acessório transitório da verdadeira personalidade que é eterna. Mas a lógica de uma mente materialista é diferente. O homem quer primeiramente satisfazer as suas necessidades psicológicas. Nós mesmos não choramos um defunto como morto? Para os discípulos de Cristo era antes de mais nada o homem que tinham visto morrer. Para que ficasse vivo era necessário portanto fazê-lo ressuscitar como corpo. Os próprios hebreus, matando o corpo de Cristo haviam desejado e crido matar a Cristo, mas não fizeram outra coisa senão libertá-lo de uma pesadíssima vestidura. Mas destruída a veste, que se acreditava ser o próprio Cristo, era necessário que Ele ressuscitasse vestido com ela, para que aquela gente pudesse acreditar que Ele estava ainda vivo. Assim, confundindo a veste com a pessoa de cristo, mandou-se para o céu Ele e ainda aquele produto de refugo, natural da terra e a ela pertencente.

Com a mesma forma mental materialista foi concebida a Eucaristia, interpretando em sentido concreto as palavras de Cristo e com isto querendo dar-lhe um corpo, como se Ele, sem esta forma material, não pudesse existir entre nós. Eis a matéria trazida de novo a primeiro plano. É evidente que Cristo dela não necessita para estar presente entre nós. Quem tem necessidade dela é o homem, que não sabe conceber a existência sem uma forma material. Claro que toda a forma mental quer estar atendida nas suas exigências, mas corresponderia mais à verdade libertar-se desta ideia materialista que, para que Cristo possa estar presente, seja indispensável uma forma material; que Ele possa estar presente só na hóstia e lhe seja proibido estar fora dela. Com isto não queremos dizer que não esteja na hóstia, tanto mais que isto é necessário para satisfazer a necessidade da mente humana de localizar o espírito reduzindo-o na dimensão espaço. Mas dizemos que o espírito está livre destas materializações e que Cristo está presente também onde quer que haja uma alma que O compreenda e O ame.

Cristo tendo entendido tal necessidade psicológica do homem, ofereceu pão e vinho como formas materiais necessárias à concentração do pensamento e assim facilitar a sintonização espiritual.

Interpretar este fato como uma transformação do pão e do vinho em carne e sangue, pode gerar mal-entendidos. Dizemos isto devido à forma mental materialista, que chegou a procurar em laboratório a prova desta transformação. Tratando-se de fenômeno espiritual, foi um verdadeiro absurdo, encontrando portanto, um resultado negativo .

É necessário reconhecer que tem de servir à maioria e não se lhe pode exigir mais do que até certo limite. A espiritualização é progressiva, como é a evolução da qual ela faz parte. Se a religião quer cumprir a sua missão, deve adaptar-se às necessidades da maioria. Ora, não se pode negar que para os milênios passados algum progresso foi realizado. As relações entre e homem e Deus eram, antigamente, concebidas só antropomorficamente, como entre servo e amo, o primeiro procurando conquistar favores do segundo com ofertas e sacrifícios. No princípio, estas eram vítimas humanas, provavelmente com a intenção de saciar a fome de um deus antropófago. Depois sacrificaram-se animais que eram consumidos pelos ministros de Deus. Com o Cristianismo, o sacrifício é simbólico, sem derramamento de sangue, mas ainda ligado matéria. Com a evolução, este processo de purificação continuará, espiritualizando-se ainda mais.

Mas, o valor da eucaristia não cessa por isso. Basta permanecer no seu terreno que é espiritual, e não pretender fixá-lo em formas materiais. Então a existência de uma vestimenta exterior na dimensão espaço, perceptível aos sentidos como instrumentos do espírito, continua sendo uma coisa necessária, mas somente como meio para cumprir uma função espiritual.

Não estamos dizendo heresias. Nesta nossa época de atualização já há teólogos que admitem que quando se diz que o pão e o vinho da missa, misteriosamente, se tomam o corpo e o sangue de Cristo (Mysterium fidei), a transformação essencial reside no significado mais do que na substância dos elementos. Então a função da hóstia não consiste em se ter tornado carne mas em constituir um ponto de convergência psicológica em direção ao qual dirige e concentra a fé do crente, fé com imenso poder criador. A forma mental humana, instintivamente materialista, tem necessidade destes apoios no sensível e concreto, e isto é o que dessa maneira se lhe concede. Mas é necessário dar-lhe o seu verdadeiro valor, isto é, de meio para fins espirituais e não transformá-los naquilo que não são nem podem ser. Estamos no terreno somente espiritual. A substância é mental. Neste plano existem as coisas em que cremos. É uma existência feita de pensamento, que acaba depois por tornar-se material, porque a semente da realidade exterior está no interior.

Tudo isto não exige que alguma coisa se desloque na forma exterior. Ela pode ficar como é, com o valor de forma e não assumindo exclusivamente o de substância. A função criadora do ato material da comunhão baseia-se então, mais do que na transubstanciação, na formação interior da imagem de Cristo que, localizando-se na hóstia, pode assim tomar forma mental e chegar a existir no plano do espírito. Apoiando-se neste centro de focalização psicológica, se canaliza e com repetição se estabiliza uma corrente de pensamento orientada em direção a Cristo, cuja figura se constrói assim como uma realidade interior da alma do fiel. Tudo isto faz parte da técnica construtiva da personalidade por meio da aquisição de novas qualidades, conforme o método dos automatismos. Assim o fenômeno é visível em toda a sua estrutura e funcionamento e, em forma racional aceitável para todos, mostramos como alcança os seus fins.

Deste modo, o fenômeno espiritual da união com Cristo pode assumir o significado positivo da identificação com o modelo de vida superior, o que não tem mais o aspecto, que para alguns pode ter, de fantasia de místico, mas representa o fenômeno biológico da maturação evolutiva, que é um fato positivo que a ciência não pode negar. Pode-se assim chegar, com esta técnica psicológica, a assumir formas de vida mais elevada, fazendo dela um meio para realizar a evolução, antecipando-a com a descida dos ideais. Trata-se então não só de uma prática religiosa mas de um trabalho ascensional que se cumpre, apoiando- se numa posição biológica mais avançada, representada pelo modelo ideal. Trata-se de um problema que não diz respeito só às religiões, mas que é funda- mental para a vida: o progredir. Na sua vastidão exorbita os limites de uma regulamentação humana em função dos fins de uma determinada religião ou de uma certa casta eclesiástica. Para as almas prontas, a imensidade de Cristo não resiste mais dentro do cerco das formas, explode e as transborda, rompendo os diques postos para as massas pela mecânica das religiões. Então, por cima de todos os poderes humanos e as limitações estabelecidas pelos seus representantes, é o puro poder do espírito que triunfa com Cristo.

Pode parecer que estas observações se propõem a destruir os velhos castelos da fé, no entanto tendem a um fim construtivo, para substituí-los por algo sólido, baseado na realidade biológica, num momento no qual esses castelos estão caindo por si só. A hora da fé cega e da religião por sugestão terminou. Hoje o que não é claro e comprovado é deixado de parte. Estes escritos, além disso, não estão dirigidos às classes sociais que só pensam por sugestão. Eles não são perigosos porque se dirigem, pelo contrário, às camadas sociais superiores onde se pensa, se avalia, se tem o dever de compreender para assumir as próprias responsabilidades.

Ora, a classe sacerdotal, apesar de tudo, soube cumprir a sua função que era a de fazer descer e fixar na Terra o ideal de Cristo, embora apenas na proporção em que a vida podia absorvê-lo nessa sua fase de evolução. Portanto, o objetivo, que durante aquele lapso de tempo se devia alcançar, foi atingido. Não há, pois, que escandalizar-se porque o resultado não podia ser diferente, devendo ficar proporcional ao próprio grau de evolução. Não importa que isto tivesse de suceder, já que a consciência estava em formação, usando o indivíduo como instrumento através do inconsciente, não importando em que forma se tivesse que resolver o problema, quando fosse resolvido. Assim se deixou funcionar o espírito de grupo quando isto servia para mantê-lo de pé e era necessário para manter a presença de um ideal na Terra. Deste modo a vida permitiu que ele ficasse envolvido em superstição, fanatismo, dogmatismo, sectarismo, já que, de qualquer modo, ele se libertaria no futuro destas escórias. Entretanto vinha-se realizando trabalho de evolução, mesmo que num baixo nível biológico. Um ideal cristão íntegro, aplicado de repente, haveria queimado tudo e sendo desproporcional à receptividade humana de então, teria sido destrutivo em vez de construtivo. Ele devia colocar-se a serviço do homem, para que o homem se pusesse a seu serviço. Para que este possa subir, o ideal deve descer, porque também o mundo em baixo tem as suas leis e exigências, como existem também no alto.

O homem faz na Terra construções a serviço do ideal, mas as utiliza também a seu serviço, e habita dentro delas fazendo ali o que quer. Tais posições se fixam e se codificam em leis, instituições, hierarquia, com prerrogativas por toda a vida, inseparáveis de lugares e pessoas. A vida tolera tudo isto enquanto lhe sobra uma margem útil para os seus fins evolutivos. Mas, quando a matéria substitui o espírito e o mundo chega inclusive a sufocar o ideal, porque o hedonismo do grupo prevalece sobre o cumprimento da sua função, então a vida, na sua marcha progressiva, destrói estes que de instrumentos se tornaram obstáculos, e irrompe arrastando-os. Se, para perdurarem as posições, foram elas indissoluvelmente ligadas às pessoas, já que não há outro modo de libertar-se delas, liquidam-se com elas também essas pessoas. O que garante a continuação de uma posição é o cumprimento de uma função pela qual ela existe, e não a sua inamobilidade. A vida sabe varrer bem tudo o que vai contra os seus fins. Isto sucedeu com a monarquia e a aristocracia, por meio da revolução francesa e depois da russa, e pode suceder com qualquer instituição que resista à vida, esta quer avançar.

Dada a técnica da evolução, o grupo eclesiástico não pode deixar de encontrar-se suspenso entre o divino e o humano, encaixado dentro do dualismo ideal-mundo, envolvido na luta entre estes dois termos opostos, nela empenhados para vencer e progredir. Para sobreviver na Terra, o grupo deve no entanto defender a sua autoridade e posições terrenas, mesmo se com isto contradiz e se opõe ao ideal. A luta do anjo é para transformar a besta em anjo. A luta da besta é para transformar o anjo em besta. A lei do amor deve conseguir implantar-se no seio da do egoísmo, sendo praticada por quem pertence a esta segunda lei. Em semelhante ambiente - uma vez que os ministros de Deus são frutos desse ambiente - não se podia construir uma religião diferente. Era necessário utilizar o material humano existente, não se podia importá-lo do céu. De resto, com uma super-raça, o ideal já estaria realizado. Então ele não teria mais uma função civilizadora a cumprir, ao contrário do que sucede quando desce num nível inferior. Tal é a engrenagem das leis biológicas e da sua técnica funcional. Se se queria que a idéia de Cristo permanecesse na Terra, havia que degradá-la para adaptá-la a esta, porque sem um retrocesso involutivo, o ideal não é aplicável em nosso mundo. Eis o que significa tomar corpo na forma concreta de uma religião. Degradação do ideal, mas sublimação da animalidade humana, para encontrar-se no meio do caminho, que é de ideal degradado e de animalidade sublimada: uma posição híbrida que parece contradição e mentira, mas que é também aproximação de extremos opostos e trabalho de transformação do mais baixo a fim de que ele alcance um nível mais alto.

Assim, em vez da elevação do humano até ao divino, frequentemente chegou-se só ao abaixamento do divino até ao humano. Na Terra o ideal não podia tornar-se senão um instrumento de luta. Aqui isto é quase uma necessidade. Deus está no alto, longínquo, invisível; o mundo está próximo, tangível, com as suas térreas exigências materiais. A lei da vida é de utilizar tudo para a própria conservação. Para ela, no nível humano, é lógico que o ideal deva ser usado primeiramente para viver na Terra, em vez de ser usado como esforço para subir aos céus. No plano animal-humano o ideal é um absurdo, uma loucura, é exigir que se viva segundo as leis de outros mundos demasiado diferentes do nosso. Aqui a existência da luta para viver e sublimar-se é utopia perigosa. Ê mais fácil defender-se do que subir. Não há margem para superações evolutivas.

Se queremos fazer uma ideia da estrutura do biótipo situado no polo oposto, o do espírito, observemos a figura de Cristo. Nela encontramos qualidades de doçura feminina, não no nível sexo, mas no da bondade e amor de espírito; e masculinidade, não no nível de força para submeter egoisticamente, mas no nível de potência de espírito para ajudar. O primeiro está no plano do homem, o segundo no do super-homem. As reações de Cristo foram com efeito coerentes com essa Sua natureza. Daí o mal-entendido como seus contemporâneos. Judas atraiçoou Cristo porque estava provavelmente revoltado pelo fato de ver que o seu chefe, que ele exigia que fosse rico e poderoso, era somente bom, o que segundo ele significava ser inepto. Também os crucificadores de Cristo lhe diziam: "Se é verdade que és poderoso, salva-te, se és o filho de Deus, desce da cruz!" O mal-entendido é o mesmo. Para todos eles o valor e o poder que Cristo se atribuía devia consistir numa prova de força, no nível humano, terreno. Para eles a potência espiritual não tinha sentido, porque não servia para nada. Era loucura de sonhadores. Eles pensavam: de que te serve seres Deus, se agora te fazes matar? Eles não podiam compreender esse outro tipo de poder super-humano que do vencido de uma hora e de um pequeno grupo de homens, fez o vencedor nos milênios e o chefe espiritual da parte mais civilizada da humanidade.

No mundo vale só o que serve para viver. Por isso tudo transforma para sujeitá-lo às suas necessidades. Também por isso Cristo foi entendido sob duas formas diversas pelas duas raças que o aceitaram. Temos com efeito o tipo de Cristianismo latino, isto é, Catolicismo, e o tipo de Cristianismo anglo-saxônico, isto é, Protestantismo. Assim Cristo foi entendido em forma diferente pelos dois grupos, cada um segundo a sua própria natureza. Igualmente sucedeu com o Comunismo, que se dividiu em dois, em Rússia e China, cada um dos dois povos entendendo-o e usando-o a seu modo para os seus próprios fins.

A contradição entre ideal e realidade desaparece quando se entende o ideal não como um estado que deveria existir: já realizado, mas como uma meta ainda para alcançar. Então a religião já não é contradição, mas um processo evolutivo em ação, de contínua aproximação a Cristo. A quem está mais avançado parece não cristão quem se encontra mais atrasado, isto é, mais longe de Cristo. Pode pelo contrário crer-se bom cristão quem segue apenas algumas práticas exteriores, sem suspeitar o que significa ser cristão. Cada um entende Cristo segundo a sua natureza, o vê segundo a sua amplitude de visão, se aproxima da religião conforme as suas capacidades e a utiliza a seu modo, alguns para santificar-se, outros para mentir e desfruta-la, outros para salvar-se, outros para perder-se. Cristo pode ser usado também ao revés, para descer em vez de para subir. Há fervorosos praticantes e crentes ortodoxos, substancialmente piores que muitos ateus honestos e sinceros.

Para compreender o Cristianismo é necessário entendê-lo não como um edifício já feito, mas em via de construção, como uma perfeição a alcançar, um ideal em marcha, um plano de trabalho a cumprir ainda, cuja realização está situada no futuro. Esse ideal enxerta-se na vida gradualmente. Se atualmente ainda triunfa a imperfeição humana, caminha-se no entanto para a perfeição evangélica; se ainda predomina o animal humano, o anjo o espera no futuro. O valor do Cristianismo está dado pelo grau de concretização do ideal, alcançado na Terra. Ele deve ser julgado em função do trabalho evolutivo já cumprido e do que mostra que saberá cumprir. Assim, contradições, adaptações e enganos se explicam e se justificam perante as leis da vida.

Pode-se então dizer que o Cristianismo mais do que uma realidade é uma esperança. No estado anual as massas aceitaram o ideal, enquanto o puseram a serviço das suas necessidades. De Cristo a vida tomou o que lhe servia para satisfazer a sua necessidade de evoluir, que representa precisamente uma sua função fundamental. Deste modo, o mundo adaptou Cristo a si como melhor lhe convinha. Mas assim Cristo entrou e instalou-se no mundo, por sua vez para adaptá-lo a si e transformá-lo a seu modo. Sucedeu que, enquanto o mundo tratou de adaptar Cristo para seu próprio uso, teve no entanto de transformar-se um pouco para avizinhar-se Dele, figura junto à qual achou que tinha de viver. Esta coabitação na Terra obrigou a avizinharem-se os dois termos, permitindo deste modo que se cumprisse a função do ideal, que é a de realizar a evolução.

Não há dúvida de que a vida alcança este objetivo. A semente se adapta ao terreno, mas o utiliza também para desenvolver-se. Entre ideal e mundo há luta, um para vencer o outro, mas há também colaboração para o mesmo fim, que é evoluir. Para que os ideais possam exigir do homem o esforço de ascender a formas superiores de vida, devem satisfazer as suas exigências atuais; para induzi-lo ao esforço de criar-se um futuro maior devem ajudá-lo a viver no seu presente. Em resumo, Cristo devia adaptar-se a oferecer também uma utilidade imediata que satisfizesse um pouco o mundo. Para que seja possível a redenção, o evoluído deve descer ao nível do involuído. Assim Cristo desceu verdadeiramente, avizinhando-se do homem e permitindo que este o utilizasse para si a seu modo. Isto é intoxicação do ideal, mas é também como se fora um casamento com ele. Assim é que tudo o que é evoluído, e por isso positivo, poderoso e fecundo, vai para diante e arrasta consigo tudo o que é involuído, e portanto negativo, débil, para fecundá-lo e levá-lo mais para a frente. Temos assim o iniciador e os seus menos evoluídos seguidores.

Neste jogo de adaptações pode-se ver como o homem se satisfez tratando de utilizar a Cristo.

1) A primeira satisfação que o homem procurou em relação a Cristo, foi a de matá-Lo, e, mais ainda, torturando-O. Para eliminar um inimigo basta matá-lo. Mas aqui há um desabafo de sadismo próprio da natureza humana. Isto até há tempos recentes foi feito em nome da justiça. A sociedade tem o direito à legítima defesa e por isso à eliminação ou isolamento dos criminosos, mas não tem o direito de tornar-se cruel, o que é só prova de ferocidade. No passado se fazia dela, nas execuções, um espetáculo público, com o pretexto de executar assim uma função educativa exemplar.

2) Cumprido o primeiro disparate, a humanidade durante mil anos, gozou com a sádica recordação, Que pode haver de espiritual e de elevação para a alma na reconstrução mental da tortura física? Não se compreende. Não obstante a literatura religiosa aperfeiçoou em todos os detalhes tais descrições. Isto mostra em que forma negativa o homem vê o triunfo do espírito, isto é, mais como perseguição de corpo do que elevação de alma. Estamos nos planos baixos da evolução, nos quais se manifesta o subconsciente pelo qual "a tua morte é a minha vida", e portanto o triunfo vital é precisamente a morte alheia.

3) A paixão de Cristo foi utilizada para alcançar outra por parte dos cristãos, a de proclamar-se inocentes, desabafando assim o instinto de agressividade ao lançar sobre outros a culpa do delito de ter crucificado Cristo, sejam os romanos pagãos, sejam os hebreus deicidas, isto é, inimigos do próprio grupo por serem seguidores de outra religião. Mas não pertencerão todos à mesma humanidade? Culpar os outros não tira a responsabilidade, tanto mais que na Idade Média, mais ou menos todos, fizeram ainda pior. É sempre o mesmo homem que, com os mesmos instintos, faz as mesmas coisas.

4) A paixão de Cristo foi utilizada ainda de outra maneira, isto é, como aproveitamento do esforço alheio para gozar as vantagens não merecidas, porque não ganhas com o próprio esforço. Cristo que biologicamente isto pode ser justo, mas só no nível do involuído, como meio para obter em benefício próprio a maior utilidade com o mínimo esforço. E dado que Cristo, a parte ofendida, se cala, não existindo da Sua parte reação para temer, não há razão- para não se aproveitar. Assim se formou, e permanece, o mito da redenção, obtida gratuitamente, porque Cristo, com a sua paixão pagou e deste modo o homem se salva sem esforço, ficando comodamente redimido pelas dores dos outros em vez de o ser pelas suas próprias. É conveniente e prova de habilidade saber utilizar para este fim também a infinita bondade de Deus, que se prestou amavelmente ao jogo enviando o Seu único filho, colocado a serviço do homem, que certamente o merecia por representar o mais alto produto e objetivo da criação. Que importa se, pelo contrário, a justiça exige que os erros de cada um se paguem com as dores de cada um e não com as dos outros, quando este segundo sistema é muito mais cômodo?

O homem colocou Deus a seu serviço, encarregando-o do trabalho de polir-lhe a alma, pagando os seus débitos. Daí se depreende que sentido de egoísmo e orgulho, que espírito de domínio está aninhado dentro do subconsciente humano. Lamentavelmente as coisas para o homem são diferentes do que ele deva crer. Deus deixa andar. Mas isto não evita que na realidade quem erra pague porque isto é necessário para aprender, e não há escapatórias. Cristo não sofreu para pagar em nosso lugar, mas para mostrar-nos, com o seu exemplo, como se deve pagar e como nós, cada um a parte que lhe respeita, deve pagar com a sua própria paixão. Cristo nos fez ver qual é o caminho que devemos percorrer para redimir-nos. Por isso devemos imitá-lo, fazendo nós aquilo que ele fez, e não só contando Sua vida ou tratando de explorá-Lo.

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Tudo isto não quer dizer o fim do Cristianismo, a igreja é instituição humana que pode mudar de forma, inclusive da atual. A ideia de Cristo é uma semente enxertada no sangue da humanidade, uma semente viva que quer crescer e dentro desta tornar-se grande e ser assimilada. Tratemos agora de ver o lado positivo do problema, isto é, quais são os elementos construtivos a favor da realização do ideal cristão na Terra. O homem, encontrando-se em baixo, oferece as resistências; a ideia, estando no alto, oferece os impulsos para o progresso. Enquanto o homem se preocupa em explorar o ideal, este, pelo contrário, tende a apossar-se do mundo para civilizá-lo.

A casta sacerdotal está no meio, entre as duas tendências. intermediária entre o ideal e o mundo. Nos períodos ascensionais, de espiritualidade, aquela casta cumpre a sua função no sentido da ascensão; nos de retrocesso involutivo ela descai e se corrompe. Quando a percentagem de conspurcação do ideal supera os limites que se podem suportar, aquele organismo desfaz-se e acaba. Então, como já referimos, a liquidação é automática. Quando uma instituição não serve mais aos fins da vida, esta a abandona, como estando à margem da lei, para que morra. Quando no grupo religioso o ideal fica só como um pretexto para finalidades terrenas, e assim desaparece a sua função evolutiva, então esse grupo biologicamente já não tem razão de existir, devendo, pois, ser liquidado. Tem direito de viver só quem satisfaz as exigências da vida, e entre elas é fundamental o evoluir.

Ora, o Cristianismo quis fixar-se em verdades absolutas. procurou assim apoiar-se em soluções alcançadas de um modo definitivo, a respeito das quais as possíveis objeções já tinham sido todas previstas. Depois, para evitar surpresas, a revelação foi definitivamente encerrada, de modo que, em conclusão, as posições terrenas já se não podiam destruir. No entanto continuou o tempo caminhando e o pensamento a avançar de maneira que a imobilidade serviu somente para deixar-se superar. O castelo fechado, que devia ser uma defesa, se tornou assim uma prisão. Deste modo a Igreja se encontrou como paralisada dentro daquelas suas soluções, em sua época aceitáveis porque proporcionadas aos tempos, mas que hoje já não o são mais, devido ao desenvolvimento mental moderno, perante o qual, tratando-se de verdades eternas, elas deviam permanecer verdadeiras. A Igreja assim ficou petrificada, sem elasticidade para avançar, impossibilitada de torcer a realidade dos fenômenos para fazê-la coincidir com o modelo fixado, como também transformá-lo para o fazer coincidir com essa realidade. A verdade é progressiva, move-se e caminha. O absoluto é estático e sólido, garante as posições de longa duração, sonho dos acomodados, mas não caminha e, num universo em marcha, isto significa ficar atrás, abandonado.

Quem conhece as leis da vida sabe que o ideal não pode morrer, porque ele deve realizar uma função evolutiva. Se o instrumento humano a que estava confiado esse dever se torna inadequado, será liquidado e substituído. Então aquela função será executada por outro, mas ela permanece, porque ninguém pode deter a evolução. A salvação da ideia de Cristo está, pois, garantida. As próprias leis da vida o exigem. É necessário apenas ver a que para o grupo a que foi confiada. Aos conservadores de posições isto poderá parecer um cataclismo destrutivo, mas isto significa a salvação espiritual. É neste sentido que as forças do inferno não podem prevalecer seja como for que o homem faça, Cristo vence. A maior arma da Igreja para a sua própria defesa é a de realizar a sua função espiritual conforme o comando de Cristo e as leis da vida.

Se a Igreja se decidiu hoje a formar uma frente única religiosa, reaproximando-se dos seus velhos inimigos, agora chamados irmãos separados, isto se deve a que as inimizades particulares desaparecem ao surgir um inimigo comum, que é hoje o Comunismo. Não significa isto que se passe da luta ao amor, mas que ela se transfere em direção a outro objetivo, e em vez de desabafar- se contra os indivíduos, se lança contra o inimigo de todos eles. Por isso hoje se procura a unificação. Mas esta é só estratégia de guerra. Os inimigos aceitam-se como amigos só para fazer força contra outro inimigo maior. Isto são só precauções humanas para defender as posições próprias. Pelo contrário, o programa da vida é evolução e está, na fase atual, significa espiritualizar-se, fenômeno que se realiza com a descida dos ideais, e o executá-los é dever das religiões.

É muito provável que o Catolicismo deva dar um grande passo para a frente, em direção à sua espiritualização, porque só nisto pode consistir a sua salvação. Trata-se de um processo contínuo e gradual de desarticulação de superestruturas, para reencontrar, no fundo das formas, viva a substância. Talvez um esclarecimento de posições levará a distinguir, mais além das aparências, entre os seguidores de Cristo e os administradores da sua propriedade terrena, entre o verdadeiro crente, ainda que não ortodoxo e praticante, e quem passa por religioso por ser exteriormente devoto, amigo do clero e do partido eclesiástico. Ser cristão é outra coisa e, para sê-lo, talvez não seja necessário ser católico no sentido ortodoxo. Uma coisa é pregar, outra é praticar; uma coisa é ser, outra é aparentar. Perante Deus, fazer crer aos outros a própria santidade não serve para nada. O valor não está no reconhecimento exterior, mas nas qualidades individuais, interiores. As glorificações oficiais servem perante o mundo, mas bem pouco perante Deus. Pode-se ser formalmente ótimo católico ou crente de qualquer religião e substancialmente péssimo cristão. O grupo necessita de seguidores para fazer-se forte, mas isto é coisa do mundo. Pode estar mais perto de Deus um condenado pela autoridade, do que esta que condena em nome de Deus. A consciência é tremendamente responsável, mas é livre, por sobre qualquer coação humana.

O mais importante numa religião não é o poder econômico, político, social, do grupo, mas antes, que se tenha experiências de Deus. Se aparece um santo, ele é acolhido com desconfiança. pela chamada prudência. Ao não comprometer-se com juízos, a autoridade pensa, antes de mais nada, em salvar- se a si própria. Às vezes condena, depois parece que aprova, e não se decide a reconhecer o santo senão, quando chegar o consentimento unânime que a liberta de todo o risco de erro. Havendo-se posto assim no seguro, santifica-o para a sua própria glória, mas quando o santo está bem morto e não podem surgir surpresas com fatos novos. Tudo está inteligentemente regulado.

Isto não impede que, particularmente, o indivíduo não possa ter experiência de Deus, e tomar-se santo por sua conta se desejar. É um problema de foro íntimo. No entanto, é lógico que este não pode pretender da autoridade um reconhecimento oficial, implicando responsabilidade. Então é natural, por parte da autoridade, uma legítima defesa contra quem quereria, que ela se comprometesse para vantagem dele, deixando à autoridade o risco do erro. Ora, só o fato de basear a santidade própria sobre reconhecimentos humanos, significa não ser santo e não se ter verdadeiras experiências de Deus; significa pelo contrário procurar a glória do mundo e pedi-la à Igreja, porque só ela dispõe dos meios materiais para referendá-lo. Portanto se queremos verdadeiramente fazer-nos santos, devemos fazê-lo em silêncio, só perante Deus, sem o dar a conhecer a ninguém, sem excitar o vespeiro dos juízos humanos.

A salvação da Igreja está na sua purificação. E esta é progressiva, solicitada pelas próprias leis da vida. Na Idade Média a Igreja estava no nível terreno do Império. Depois foi libertada do poder temporal. A evolução a libertará do poder econômico e político. Assim ela se avizinhará cada vez mais da sua forma mais pura, que é a do poder somente espiritual. A imprensa anuncia uma diminuição do número das vocações religiosas, de 152.000 sacerdotes em 1871, a 50.000 em 1965, enquanto, no mesmo lapso de tempo, a população duplicou. Este fato coincide com a perda do poder temporal, que antigamente devia representar uma atração para o sacerdócio reduzido a carreira, com a correlativa posição econômica, frequentemente a base do surgir do muitas vocações.

Para o espírito, porém, este fato é um progresso. A perda em quantidade, como número, pode estar a favor da qualidade, isto é, menos elementos mais selecionados. O resultado pode ser uma religião mais perfeita. As dificuldades afastam os exploradores do ideal, e o espírito não poderá senão extrair benefício disso. Talvez uma perseguição comunista execute essa operação para purificar e salvar a Igreja espiritual. Ser-se-á então cristão de verdade e muitos, que hoje se classificam de católicos, se afastarão. Não servirá mais então o jogo da hipocrisia e não se tratará mais de recorrer a ele. A religião será um fato íntimo, mas sentido, não será classificável através do que se possa ver pelo culto externo, não realizável com exibicionismos. Quando não houver mais vantagem em enganar, ninguém será mais levado a fazê-lo. E a alma, colocada perante a dor, saberá sacudir o fácil ceticismo moderno e deverá na profundidade reencontrar a Deus.

Para compreender aquele estado, de fato, é necessário dar-se conta de qual é a forma mental do homem atual, E a religião é obrigada a respeitá-la. O motivo, na virtude, como no arrependimento, é egoísmo. A moral baseia-se na sanção final do paraíso ou do inferno, isto é, no cálculo da utilidade ou dano, em termos de alegria ou dor. O cálculo é fácil: o pecado é agradável, porque satisfaz a própria natureza inferior. Por isto se pratica. A renúncia para subir é penosa. Por isso se foge a ela. Então não se aceita praticá-la senão em vista de uma satisfação que nos compensa no sofrimento enfrentado e da satisfação perdida para seguir a virtude. É preciso que a alegria que se conquista seja maior do que a que se perde. Dizia S. Francisco: "Tanto é o bem que espero, que cada pena me deleita". Não se renuncia ao menos a não ser para conquistar o mais. Fugir da dor, buscar o prazer, ganhar cada vez mais, esta é a psicologia humana e também a lógica da vida. Nas religiões o jogo é mais vasto, chega mais longe, transportando-se a prazeres espirituais superiores na outra vida, mas o cálculo é o mesmo e baseia-se sempre na presunção de um lucro.

Isso implica uma consequência. Este motivo totalmente humano, tão profundamente egoísta, leva perante o ideal a uma moral imoral. Segundo ela, o indivíduo preocupa-se com o respeitar as normas impostas só em função do seu dano ou vantagem, o fundo desta sua moral é que, com semelhante código não mão, ele preocupa-se somente em salvar-se a si próprio. Isto significa que, realizada no seu interesse a estrita obrigação, sente que já cumpriu o seu dever. Se cai o mundo, isto não lhe diz respeito, porque ele já assegurou a própria salvação. Se as consequências de sua ação, executada segundo as regras, são desastrosas para os outros, isto o deixa indiferente. A sua moral limita-se ao seu fato individual do sacrifício realizado e da recompensa a receber, enquanto que quem sente a moral do ideal ocupa-se de fazer o bem ao próximo para proveito deste e não só em função da própria salvação. Cumprindo por cálculo o dever imposto, assegurado com isto o futuro, individuo fica livre, sem outras ataduras, para fazer aquilo que quer. Temos assim a moral do fariseu, exatíssima nas formas, mas egoístas e calculadora. Pode-se dessa maneira, pensando só para si, seguir a mais irreligiosa das morais, permanecendo perfeitamente ortodoxo, praticante, perfeito cristão.

Qual é a atual psicologia do crente, com que ânimo se põe ele perante Deus? Quais são, atrás das aparências, as verdadeiras convicções que estão no fundo da alma humana? Aqueles que a moral oficial condena, enquanto ela não toca aos que foram bastante astutos para não se deixar apanhar em falta, são verdadeiramente malvados ou fazem a guerra normal, necessária na luta pela vida, como o impõe o ambiente terrestre? O crente sabe muito bem, por experiência atávica, nele radicada em forma de instinto, que a necessidade mais urgente não é ser bom, mas hábil no próprio interesse, que a justiça, a providência de Deus, a honestidade do próximo são coisas em que não é bom confiar demasiadamente, porque a realidade é diferente. Também os ministros de Deus o sabem. Não é culpa de ninguém se esta é a realidade da vida. É assim que as pessoas de bem, mesmo as mais crentes, pensam, antes de tudo, em fazer os seus negócios terrenos, deixando ao espírito o que resta de espaço vital. Não é que não agrade a ajuda de Deus. pelo contrário, até se sonha com isso e se invoca. Mas sabe-se que é mais positivo defender-se por si próprio, com os mais positivos métodos terrenos. Trata-se de jogos incertos de esperança, como o querer vencer na loteria. Eles são adequados aos débeis que não têm nem força nem inteligência para saber atuar por si só. Quem possui estes meios os usa para si e, se não os usa, é porque não os possui. Então a religião serve, sobretudo, para recolher à guisa de hospital espiritual, os ineptos à vida. Os tipos biologicamente fortes não gostam de recolher-se nos recintos da virtude e vivem ao ar livre, segundo as leis da Terra, as da fera livre na selva. Eles aceitam a luta para vencê-la, sem religião entre os pés. É assim que de um desencadeamento de egoísmos, sob aparências enganadoras, é feita a realidade da vida social.

À religião resta então uma função de reservas: a de ser um refúgio para velhos, um hospital para doentes e feridos, uma consolação para aflitos, a enfermaria da vida. Estas são as suas retaguardas, protegidas, enquanto os mais fortes se arriscam em primeira linha, no meio da luta. Enquanto tudo vai bem, vive-se lutando descarada e abertamente. Quando vai mal e chega a dor, então nos retraímos da luta, feridos, e vamos à igreja para orar. Quando se perde na luta, procura-se sobreviver criando outra força com a esperança. Então se crê e se invoca a Deus para que nos salve. Esta é uma outra forma em que é utilizada a religião, isto é, como proteção e salvação dos vencidos. Assim eles podem curar as feridas e recuperar as forças para retomar a luta, como também podem encontrar um tipo de trabalho útil, que não seja o de fazer a guerra. A religião pode ter também uma função no plano animal humano. O homem, conforme as suas qualidades e condições, sempre a utiliza de algum modo. Se ele é forte, se liberta dela para lutar sem obstáculos; se é astuto, explora-a com o engano; se é débil ou vencido, se refugia nela em busca de proteção. Deixa-a pregar à vontade, escutá-la quando a religião nos quereria sinceros e desarmados. Mas cada um sabe em que mundo vive e que nele há bem outras coisas para fazer. E se existe alguém ainda com tão boa fé que queira viver aqueles ditames, a dura realidade rapidamente o dissuade, porque ele será esmagado pelos mais fortes e astutos, e porque de fato se encontrará em dissonância com aquilo de que estão convencidos e que praticam os pregadores de virtude, e num contínuo mal-entendido fora das bitolas sobre os quais caminha a sociedade humana.

Vejamos, agora, como o biótipo humano, sendo de tal natureza e feito para viver em semelhante ambiente, se acerca de Deus na oração e de que modo estabelece as suas relações com Ele. Claro que o homem não pode fazê-lo senão com a sua forma mental. Então ele primeiro fará os seus negócios no mundo, depois, se as coisas andam mal, entrará na igreja à procura de conforto e ali encontrará quem deveria ser o médico da alma, o qual, no entanto, vivendo deste trabalho, deve lutar para manter o domínio espiritual do qual a sua vida depende. O médico então procede à lavagem da alma do doente, fazendo-se juiz dele, transformado em pecador penitente e receitando-lhe o remédio que deveria curá-lo, na forma de penitência com a qual ele, sob ameaça de penas na outra vida, paga o débito contraído com Deus. Assim o pobrezinho foge de uma dor presente para ver surgir perante ele uma outra dor futura, sai da luta para defender a sua vida neste mundo, para entrar em luta para defender a sua vida no outro mundo. Em ambos os casos permanece a mesma forma mental, isto é, continua-se a luta com os mesmos métodos, conduzindo-a até perante Deus. De resto o homem não pode possuir senão uma mentalidade e é natural que a utilize para todos os usos da sua vida, tanto materiais como espirituais.

A religião satisfaz o desejo de continuar vivendo depois da morte, mas então também depois da morte lhe deixa o risco de cair na dor. O motivo é o mesmo: não há vida sem possibilidade de dor. O subconsciente por dura experiência o sabe bem e não o esquece. Eis então que o crente, na oração, se aproxima de Deus para salvar a sua vida no além, como no mundo luta para salvá-la no presente. Então como ele concebe a Deus? A idéia de pecador e inferno é certamente útil para a sobrevivência da casta sacerdotal, mas faz de Deus um senhor armado de sanções penais, que pode aplicar porque é o mais forte. Idéia aceita porque é fácil de conceber, porque é uma reprodução da do soberano terreno. Perante ele somos súditos, dependentes do seu beneplácito, que é mistério indecifrável; não se tem direitos, mas só o dever da obediência. Ele outorga dons e graças, a seu arbítrio, segundo critérios ignorados. Não resta senão inclinar-se e aceitar, ficando na obscuridade. Fala-se de justiça, mas nos fatos ela pouco se vê aplicada na Terra, torna-se portanto difícil imaginar que, noutro lugar, isto possa suceder. Talvez o seja no céu, mas é coisa que fica longínqua, quem sabe onde e quando, não é portanto controlável nem persuasiva.

Observemos a realidade. Se roubo e se o faço de maneira a que não me descubram e não tropece com a justiça, e assim me torno rico, o resultado é que vivo bem e sou respeitado. Se Deus está presente e este é o resultado, isto significa que se o sei fazer, Deus me recompensa deste modo. Este prêmio me prova com os fatos que agi segundo a Sua Vontade. Depois de me ter premiado deste modo, que me pede Deus ainda? Que eu me arrependa e o venere. Isto também é fácil, com confissões e práticas religiosas, depois do que fico em paz. Por que não resolver assim o problema se os resultados são tão bons? Não são estes os melhores e não é instintivo no subconsciente o procurar o caminho mais fácil para proteger a vida? Se Deus, nos fatos, deixa que na Terra vença o mal e se Ele é o dono, não corresponde ao servo ensiná-lo e exigir retidão. Seria orgulho, portanto deveria ser castigado. É melhor então, com todo o respeito, seguir a corrente, estando de resto a virtude no obedecer. Aceitamos a lei da Terra, porque esta é a que aqui ordena e não a do céu. Inclinemo-nos e desfrutemos da situação. Este é o natural raciocínio humano.

É inevitável, estabelecida a posição na forma de relação entre patrão e dependente, ela traga consigo os defeitos que lhe são inerentes. De tal premissa não pode derivar outro tipo de consequências. O servo é o débil a quem corresponde obedecer. Ao patrão que é o mais forte, os direitos; ao outro, os deveres. Estabelecidas as relações entre homem e Deus, em semelhante base de luta entre egocentrismos opostos (devida certamente à involução humana, mas nem por isto menos real), ao súdito não lhe resta senão aplicar a Deus os métodos que na Terra usa para com os seus semelhantes. De resto isto é aquilo que o instinto lhe ensina. Então, tratando-se de um patrão mais forte, não resta senão inclinar-se para cativá-lo e obter favores. É necessário ir dizer-lhe que somos bons como ele quer, mas ter o cuidado de não o ser a sério, porque sabemos bem que seremos devorados. De resto o exemplo dos pregadores nos ensina que estas coisas são para serem ditas e não para serem feitas.

Aqui tratamos de explicar-nos como as religiões tendem a transformar-se em hipocrisia. Essa é a consequência deste modo de conceber as relações com Deus, segundo a forma mental humana, que frequentemente é também a do clero. Portanto não colaborar com Deus, com a face descoberta, claramente e sem buscar escapatórias; não adular para obter graças devidas não a um mérito, que num regime de justiça é direito, mas ao capricho de um patrão, porque é o mais forte, oferece o que quer e a quem quer. O servo aspira a tornar-se um favorito e, faz-se de bom para tornar-se agradável e assim obter vantagens. Nasce daí um obséquio que tende a transformar-se em tentativa de corrupção do poder. Esta forma mental envolve o ideal quando desce à Terra e trata de corrompê-lo para adaptá-lo a si própria. É natural que o homem se coloque por si só em posição de servo, porque é nesta forma de relações que ele se habituou a viver na Terra. E o que pode no plano humano fazer um servo, se a arte de enganar o patrão é a que a sua posição lhe ensinou, a arma com a qual pode e sabe melhor defender-se?

Exigir um comportamento diverso seria pretender que o homem não fosse o resultado da longa história vivida por ele, e que ficou estampada no seu subconsciente. É verdade que com tal psicologia, conexa com o espírito de domínio, a classe sacerdotal salvou a sua sobrevivência, mas pagando-a com estas consequências espirituais. Daí provém uma oração com a qual se trata de cativar a simpatia do Senhor, trepando pela escala hierárquica dos santos, interpostos pela intervenção amistosa, pela qual se pode ser perdoado por um mal que se continua a fazer, por estar convencido de que ele é indispensável para sua sobrevivência, perdoado por um bem que não se realiza, porque não se é ingênuo para arruinar-se, ao fazê-lo, num mundo semelhante. Com os poderosos não se raciocina. Por serem fortes, eles têm o direito de estabelecer a verdade e de impô-la aos outros.

Tudo isto é certo no ambiente e nível humano. O que existe por cima dele ou nas profundidades já o explicamos nos volumes: O Sistema e Queda e Salvação. O fato é que existe uma Lei, estabelecida por Deus, escrita nos fenômenos, funcionando sempre e em toda a parte, Lei que começa por ser respeitada por Ele, porque assim obedece só a si mesmo. Esta Lei é o pensamento de Deus fixado de modo impessoal, sem egocentrismos, justa e incorruptível. É uma lei de harmonia, cuja presença se sente, deslocando-se evolutivamente em direção ao alto, e segundo sua forma mental humana.

Numa humanidade mais evoluída as relações entre homem e Deus serão concebidas em forma totalmente diversa. O erro atual está em crer que com Deus não se raciocina, o defeito está em não sentir o Seu pensamento que, no entanto, se expressa em todo o lugar e momento. Não se trata de egocentrismos rivais, mas de colaboração no interesse do próprio operário; não se trata de luta, mas de unificação que é útil à vida; não se trata de comando e obediência, mas de amizade inteligente. Nos planos mais altos da vida, a psicologia animal-humana da luta torna-se um absurdo contraproducente. Eis que então a relação entre os dois termos, homem e Deus, muda completamente de natureza. Nasce daí outro tipo de religião e outro estilo de oração. Mas para chegar a isto o homem deve superar a animalidade na qual ainda está submerso. Os que podem compreender tudo isto são raras exceções. Assim se continuará reduzindo o ideal às dimensões que se adaptam à maioria, segundo a sua forma mental.

Trata-se de alcançar um modo mais evoluído de conceber a vida, no qual o instinto de luta, o espírito de domínio, serão superados; a ideia de egoísmo e arbítrio de um patrão não terá mais sentido, a imposição forçada não será mais praticada. Então a vida será dirigida por uma justiça super-humana, estabelecida por uma Lei e funcionando conforme os equilíbrios de uma ordem soberana, na qual tudo conscientemente se coordenará e colaborará. No passado a ordem não pode existir a não ser imposta por coação, porque o mundo era caos, e os homens rebeldes. Então Deus não podia ser concebido como centro de uma ordem, senão como patrão absoluto no caos. Este é o ponto de partida, aquele é o ponto de chegada da evolução do conceito de Deus. Moisés o concebeu naquela fase inicial. Pôde-se assim começar a construir uma ordem, mas com meios coativos, que não foi compreendida nem convenceu. No entanto cumpriu a sua função e serve ainda, porque, evoluindo de semelhante estado inicial, se pode alcançar uma ordem cada vez menos coativa e cada vez mais compreendida e que convença, até atingir a fase orgânica da vida, que é a da cooperação inteligente e espontânea. Mas, para chegar a isto, o homem tem de superar a sua atual forma mental.

A velha psicologia religiosa, com a qual hoje ainda a alma se coloca perante Deus, cairá. O crente compreenderá que não se encontra perante um Deus que se pode enganar antropomorficamente e já não pensará em enganá-Lo. A tal modo de pensar, se substituirá a adesão espontânea a uma lei justa, que é útil respeitar. A mentira e a desordem não terão mais razão de ser, porque se compreenderá que não convém, com tais métodos, fazer mal a si próprio. A vantagem residirá em estar unidos, o dano na luta entre rivais. Entender-se-á então que o amor ao próximo como a si mesmo é o negócio que dá mais lucro. O egoísmo será deixado aos involuídos, incapazes de compreender mais. Deus não será entendido como uma ameaça que se teme ou um patrão para enganar, mas como a primeira fonte de todo o nosso bem. A deslocação de posições é fundamental. Não se gravita mais como hoje em direção ao AS, mas em direção ao S. Deus não será um patrão que se sobrepõe para dominar, mas representará o mesmo que o cérebro e o coração em nosso corpo, dos quais depende a nossa vida. Então desaparece a ideia de domínio e de sujeição, devidos a interesses opostos e fica a da cooperação para um único interesse, o mesmo para todos. A posição do crente perante Deus toma-se então de espontânea obediência por livre e convicta adesão, de inteligente compreensão, confiança, unificação.

Antes de encerrar este tema, observemos outros aspectos da técnica usada pelas religiões para realizar a descida dos ideais. Sabemos que se trata de uma importante função biológica que elas executam em sentido evolutivo. É dever da classe sacerdotal o de proporcionar os meios para que este fenômeno possa realizar-se. O ideal é uma realidade futura, ainda a realizar. Trata-se de antecipar a existência de mais evoluídas formas de vida, que na realidade ainda não estão em ação. Elas então são criadas em primeiro lugar no pensamento com um ato que se chama "fé". No processo criador, o primeiro momento verifica-se na mente, da qual depois desce até tomar forma concreta na realidade exterior. Para este objetivo deifica-se um modelo humano e, assim sublimado, ele é colocado no mais alto dos altares para expressar que deve estar por sobre os nossos pensamentos, porque está por cima de nossa vida como uma meta a alcançar no caminho da evolução. À força de superações devemos tomar-nos iguais a esse modelo. Por isso se reveste de símbolos esplendorosos e se coloca num campo de luz e beleza. É apresentado com o ornamento de todas as virtudes, para que atraia pela sua perfeição. Através desta representação, forma-se na mente uma imagem do modelo, na qual se concretiza. Efetua-se assim o primeiro passo da realização do ideal, pelo fato que desse modo, ele já começou a existir como realidade mental.

Uma vez fixada a meta, já não resta outra coisa senão procurar alcançá-la. O caminho está traçado e basta segui-lo. Pode-se então pôr em ação a afinidade emotiva que favorece a atuação de novos estados de ânimo. Coração, sentimento, paixão, podem dar um salto para a frente. O que ainda não existe na realidade material, pode assim encontrar-se como realidade espiritual, da qual derivará depois a material. Vemos manifestar-se o poder criador da fé. Agarrando-se ao ideal colocado no alto e tratando de elevar-se até ele, pensando-o e perseguindo-o, a realidade da vida transforma-se, evolui e se eleva. Uma vez criada a nova realidade psicológica, esta modelará também a exterior, concreta, construindo-a segundo o tipo que se pensou e se quis. Assim o ideal submete a vida a um contínuo processo de sublimação, lançando-a cada vez mais para o alto, em direção ao S. É assim que surgiu e se está fixando a ideia de Deus, de bem, bondade, justiça, num mundo animal feito de força bruta, mal, ferocidade, injustiça.

Com esta técnica começa-se a acender o desejo de um mundo melhor, de grande valor, porque desejar significa tender à sua realização, mesmo que represente uma realidade que ainda não existe de fato. Eis como a utopia de hoje está destinada a tornar-se a realidade de amanhã. Trata-se de uma técnica evolutiva, na qual estão chamadas a funcionar as forças espirituais para chegar ao resultado positivo de criar o homem novo. Tudo isto está implícito nas leis da vida que quer ascender. É sua insuprimível necessidade a de evoluir para um futuro mais alto. Por isso a fé é também uma necessidade e fator biológico, porque, com os seus poderes criadores, é elemento determinante do fenômeno da evolução. Efetivamente, as religiões mudam, mas a religiosidade permanece; mudam as crenças, mas fica a fé; variam os grupos sacerdotais, mas fica o sacerdócio. Com o tempo os meios de expressão acabam por sobrepor-se à ideia e a substituem, sufocando assim o primeiro impulso da vida, que por sua vez destrói esses meios, tornados já inúteis, porque vazios da ideia, seu princípio vital. Novos instrumentos são então chamados a cumprir a função de fazer descer o ideal à terra. porque os velhos não são um veículo, mas um obstáculo. Não obstante a função fica, mas confiada sucessivamente a órgãos que de- vem ser cada vez mais evoluídos para poder cumprir um trabalho também cada vez mais evoluído. Assim avança a grande marcha da evolução com a descida dos ideais, através do canal das religiões.

 A técnica é de tipo espiritual, interessa, pois, à psicologia. Dela constituem parte importante, as imagens, o simbolismo, a sugestão, a projeção do pensamento, toda a encenação do rito. Esta tarefa exterior serve para realizar outra, interior, que é a formação da imagem mental na qual a ideia é personificada e levada do plano espiritual, onde para o imaturo é irreal, ao plano sensório onde é real.

A ideia em si é abstrata e foge à compreensão das massas. É necessário levá-la com representações concretas ao seu nível mental. Precisa-se pois, da construção de formas materiais que sirvam como instrumento de expressão da ideia, de modo que ela possa ser percebida com os sentidos. Com semelhantes meios se vai construindo o edifício mental estabelecido pelo ideal. Eles constituem o seu ponto de partida. A representação exterior outorga a imagem que concretiza a ideia; as práticas exteriores, com a repetição, a fixam; a fé abre as portas da alma a fim de que a ideia entre e ali fique. Por isso existe o rito e se insiste em praticar e crer. Estes são os momentos de uma sábia técnica psicológica que os representantes terrenos do ideal usam para se afirmarem no mundo, com o objetivo de criar novas formas de vida.

Trata-se de educar as massas. Aqueles que raciocinam, analisam e compreendem, são poucos. Elas recebem passivamente no subconsciente, aceitam por sugestão, sem compreender, como sucede na domesticação dos animais. Aprendem por repetição, sem pensar, tratando de esforçar-se o menos possível, continuando por inércia a moverem-se mecanicamente, ao longo do caminho dos velhos instintos, traçado pelo passado. O fenômeno é psíquico, mas nem por isso é consciente, o que não impede que ele funcione e alcance a sua meta. Por isso notamos anteriormente que a religião insiste nessa posição mental que se chama fé e dá grande importância ao fato de praticar, que serve para fixar o novo à força de repeti-lo. Estes são dois momentos da técnica psicológica dedicada a realizar, por assimilação automática, a descida dos ideais. Se na fé se elimina o controle racional, isto não significa que ela não tenha uma função construtiva. Mais ainda, se sem aquele controle o consciente é usado, pelo contrário, em atitude passiva, é precisamente para facilitar a receptividade do espírito e com isto a admissão de novas ideias. Para este objetivo o discutir com análise crítica pode ser contraproducente. A finalidade é de cumprir uma função educadora não de conquistar conhecimento, desenvolvendo a mente. Para quem não sabe pensar, colocar-se no terreno das análises pode só gerar confusão e cisões. Por isso o Catolicismo afirma uma verdade revelada que não se admite discutir, e prefere a inércia mental do fiel que crê e não pensa, cego mas obediente, ao desejo de conhecer a verdade por parte da mente aberta, mas independente. A massa é feita de primitivos que não sabem conduzir-se e ao Catolicismo serve esse tipo corrente, usando as formas pedagógicas a ele adequadas, para levá-lo mais adiante. É natural, no entanto, que para aquele que se encontra, por maturação própria mais adiantado, semelhantes métodos façam atrasar em vez de fazer avançar. É assim que os mais evoluídos não podem marchar nas filas sem ficar espiritualmente sufocados. Por isso eles permanecem religiosos, mas sem intermediários, os quais, se não são evoluídos, abaixam tudo ao seu nível, ainda que sejam sempre preciosos e indispensáveis para educar os menos evoluídos.

Assim, com a sugestão por meio da pregação, com a longa repetição de pensamentos e de atos conexos a determinados estados de ânimo, com esta técnica que vai do externo ao interno, algo se imprime e se fixa no inconsciente. Em virtude de uma tendência, diria celular, à repetição rítmica, estabelecem-se mecanicamente automatismos, que depois se tomam hábitos, por fim instintos, o que significa criação de novas qualidades na personalidade que, enriquecendo-se, deste modo evolui. Esta é a técnica com a qual a vida conserva e armazena as suas experiências, a técnica proporcionada ao biótipo dominante, hoje ainda usada, funcionando em estado de inércia mental, por sugestão e imitação. Técnica sábia por ser adequada ao terreno no qual se trabalha, sabendo utilizar os seus escassos recursos, o que não é fácil, tendo que satisfazer a necessidade fundamental, que é a de fazer evoluir. O movimento está canalizado segundo a Lei e aponta em direção à grande meta, Deus. Tudo se encontra no seu devido lugar, adequado às condições do ambiente, à natureza humana, ao seu grau de desenvolvimento, à finalidade a alcançar. Eis que o Catolicismo usa a técnica mais adequada, dada a involução humana, para realizar a descida dos ideais à Terra. Estamos ainda nos primeiros graus da espiritualidade, nos primeiros passos de um caminho imenso. Mais não se pode pedir ao homem atual. As realizações espirituais possuídas conscientemente têm que se alcançar ainda no fundo e entretanto a fé as antecipa em forma de esperança e de sonho. A atuação do ideal está ainda longínqua. Cristo, do alto, observa, e espera, e o homem na Terra caminha, caminha, para chegar a realizar o reino de Deus.

Concluamos este escrito. Percorremos um longo caminho observando o trabalho que executam as religiões, sobretudo o Cristianismo, para realizar o fenômeno da descida dos ideais na Terra. Olhamos imparcialmente, não para julgar em base a teses preconcebidas ou interesses de grupo, mas sobretudo para compreender o significado do que vemos suceder no mundo. Se de qualquer maneira se devia fazer um diagnóstico, não se podia deixar de ver também o mal. Mas, onde o encontramos também vimos o bem para nos agarrarmos a ele e salvar o que se podia salvar. Apesar de tudo a nossa visão é otimista, porque temos fé na vida, na sua sabedoria que é a de Deus, que a dirige. Por dentro desta nova perspectiva, trabalhamos em sentido positivo, construtivo e não em sentido negativo, destrutivo. Falamos claro porque o mundo tem necessidade de clareza e os problemas resolvem-se, enfrentando-os, e não esquivando-os ou escondendo-os.

É  necessário salvar a substância das religiões, porque os seus edifícios terrenos ameaçam cair. É necessário compreender que elas não podem liquidar-se como hoje se quereria, porque cumprem uma função biológica fundamental: a de realizar, com a descida dos ideais, a evolução. A ciência, o materialismo, o comunismo, assaltam as velhas construções da fé que se desfazem na mente das massas, enquanto o mundo não tem ainda nada que as substitua no campo espiritual. O conservadorismo prudente, isto é, o ficar protegido dentro da casa quando esta se nos cai em cima, pode significar a morte. Não é honesto alimentar a hipocrisia de moda, colocando-se na sua corrente, porque vivemos numa hora decisiva e a via dos enganos pode ser catastrófica. Os velhos métodos para manter de pé as religiões e o seu poder, não servem mais. A vida deixa sobreviver somente aquilo que lhe é útil para evoluir e o campo espiritual é biologicamente importantíssimo. Hoje, as aparências já não bastam, as astúcias não persuadem. Desejam-se verdades positivas, sólidas, convincentes, para benefício das massas e não só de uma classe dominante.

O catolicismo procura atualizar-se. Mas não bastam os retoques. É necessário renovar a forma mental para reencontrar a substância sepultada sob as formas e recomeçar desde o princípio. É preciso regressar às fontes, ao Evangelho esquecido, tomando Cristo a sério e tirando do meio tudo aquilo que em tantos séculos foi sobreposto a Ele pelo homem e foi interposto entre Ele e nós. É necessário exumá-lo do túmulo dado pela mecânica da burocracia eclesiástica. A tarefa de salvar a ideia de Cristo corresponde ao Cristianismo.Hoje, saltam aos olhos as contradições que antigamente passavam inobservadas, como pregar o amor evangélico e abençoar as armas, exaltar a pobreza e possuir riquezas, difundir o ideal com os métodos de luta política. Por sua parte a ciência, com a medicina por um lado, defende a vida, por outro, constrói a bomba atômica para destruí-la, e as religiões não têm nenhum poder para impedi-lo. Vivemos numa época de desagregação moral. Mas será o mundo imoral porque está corrompido, ou porque, hoje se deixa ver tudo por uma sã necessidade de sinceridade, como reação à hipocrisia do passado, que deixava tudo bem encoberto? Não será mais honesto falar abertamente, para que sem fugas e ficções tudo seja conhecido e enfrentado e possa ser melhor resolvido? Não será isto uma. necessidade de destruição do velho, mesmo do bom, contanto que se limpe a sujeira, onde tudo estava misturado?

É verdade que se nota em cada campo uma tendência à  superação, que é ao mesmo tempo revolta destrucionista contra o passado e ânsia de encontrar qualquer coisa de novo e melhor. Mas, se não se conseguir criar algo melhor que substitua o que se destrói, esta ânsia de renovação nos deixará cair no vazio.

Compreende-se e justifica-se esta revolta. Mas ela constitui só o lado negativo do fenômeno. Ele, dada a ação lógica da vida, deve ter também o seu lado positivo. Não podemos, pois, deter-nos no seu aspecto destrutivo; se não quisermos ser unilaterais, temos de ver também o seu aspecto complementar, construtivo. Portanto nada de pessimismos nem filosofia de desespero, hoje em moda. Tudo isto é para os espíritos decadentes. Nós cremos na vida, no ideal, no futuro. Precisamente porque nos encontramos no meio da negatividade destrucionista, devemos ser positivos e construtivos. Neste escrito, a nossa crítica tem valor somente como meio de renovação e melhoramento. Exatamente porque o mundo está em descida, é necessário executar o esforço da reascensão. Pode-se sentir o atual desespero destrutivo e até tomar parte nele, mas só como uma fase que tem de atravessar para sair dela melhor, para curar-se e não para morrer. Estamos de acordo em que os velhos ideais, esplêndidos e altissonantes, estão reduzidos a hipocrisia, com o mau cheiro da mentira, mas precisamente por isso devemos purificá-los e criar outros novos com os quais se possa avançar.

Se o mundo está corrompido, há que reagir para salvar- se. Se a reação é em descida em vez de o ser em subida, é o fim. É necessário empreender o esforço da reascensão. Os débeis acabam no ateísmo, na inércia, nas drogas, no vício, no desespero, no suicídio. A esta tendência opomos a esperança, a fé criadora, a superação no espírito, a potência do ideal. O caminho da evolução está traçado, em subida não em descida. É necessário emergir em direção à vida que está cada vez mais no alto, e não deixar-se tragar pelo pântano, o que significa morte. Nestes escritos traçamos no alto um ideal e a ele nos agarramos para ascender, porque queremos a vida, sempre mais vida. Rebelamo-nos ao retrocesso involutivo, a grande ameaça atual em direção à qual tantos se lançam inconscientes e, aos ataques do Anti-Sistema respondemos com um grito de guerra em nome do Sistema.

Se os velhos ideais, reduzidos a poder do subconsciente instintivo, foram abaixados por este seu nível animal, temos de retomá-los e revivê-los levantando-os até ao plano racional e científico, sustentados pelo controle do pensamento. É preciso compreender que, se os ideais decaíram, não é porque foram falsos, mas pelo abuso que se fez deles. Corrigido o abuso eles valem e servem à vida. Ficar no nível de uma ciência materialista espiritualmente agnóstica, significa não compreender a vida e querer deter a evolução. O futuro pertence a quem luta para avançar.

O mal, num mundo que se afunda, a reação de muitos, consiste em deixar-se afundar cada vez mais, em tornar-se piores, acelerando a descida para perder-se em vez de salvar-se. Mas é o tipo de reação que mostra qual é o valor biológico do indivíduo, estabelece qual é o seu nível evolutivo e o seu futuro destino. Sabemos que a vida não deixa subir aos que não o merecem. Hoje é a hora em que se fazem as contas. Há um obstáculo a superar. Ele está interposto entre dois planos de evolução. Quem não o souber superar não passará e ficará em baixo, em seu inferior nível biológico.

Este é o fenômeno a que estamos assistindo. É a hora do exame e do juízo. A vida está efetuando uma seleção para eliminar os indivíduos, nervosa mental e espiritualmente ainda não maduros, não adaptados a saber viver num plano evolutivo mais avançado. Hoje é hora do salto. Quem preparou para si mesmo as pernas salta para a frente; quem não as preparou fica atrás. Tem lugar a separação: à frente vão os evoluídos para formar um humanidade nova, verdadeiramente civilizada; atrás do obstáculo que não souberam superar, estão os involuídos, qual lastro e camada baixa da humanidade, à procura de outros níveis inferiores. Conhecemos os métodos da vida, que sabe colocar cada coisa em seu lugar, com o seu verdadeiro valor. No passado tal seleção realizou-se no plano da matéria e força bruta. O biótipo que a vida queria construir era o homem fisicamente forte, o guerreiro feroz e vencedor, domador de um mundo inimigo. Hoje a seleção realiza-se no. plano nervoso e cerebral, da inteligência e do espírito. O homem está adquirindo novas qualidades mais requintadas, potencializa-se e sensibiliza-se, está aprendendo a trabalhar em novos campos com novos meios, dominando novas forças. Isto exige outra consciência e conhecimento, poderes superiores de controle para dirigir as novas capacidades. Não mais cavaleiros da espada, mas da mente e do pensamento, da alta tensão psíquica, como é a vida moderna.

O homem novo não pode maus aninhar-se nas posições oferecidas pelos valores tradicionais, baseadas num consentimento convencional construído em tomo delas, antigamente necessário para dar uma certa estabilidade à sociedade humana em períodos de longa incubação. A tempestade atual destrói os ângulos mortos nos quais podiam entrincheirar-se os comodistas de antes. Os ideais do passado representam um produto cansado, já demasiadamente explorado, e o homem novo encontra-se perante problemas imensos e deve resolvê-los. Terminou o período da inércia espiritual conservadora no qual a animalidade, satisfeita pela vida vegetativa, não se propunha problemas. Hoje o Comunismo assoma para acabar com todas as religiões. Antigamente a propriedade era garantida e ficava numa família por séculos; hoje nos perguntamos quanto durará. Antes só alguns iam à guerra e os políticos que a declaravam ficavam em casa; hoje a bomba atômica destrói tudo e está suspensa sobre as cabeças de todos. Antigamente poucas ideias bastavam para viver e se transmitiam de pais para filhos; hoje a ciência com as descobertas e a técnica desloca cada dia os limites do conhecimento e as condições de vida. Antigamente dormia-se sobre o leito da tradição; hoje se estremece no caminho das revoluções.

Ai de quem se lança por atalhos para fugir ao esforço da ascensão no momento decisivo da curva, quando a evolução se dirige a uma solução. O período atual não é de espera e repouso. Quem não enfrenta o caminho que sobe pela encosta íngreme do monte, fica atrás, superado. Só a quem for para a frente, pertencerá um melhor futuro. Esta nova forma de seleção biológica não é senão o último momento de uma maturação milenar. Nesta transformação evolutiva aflora aquela longa preparação e irrompe, exigindo a sua conclusão.

Está escrito nas leis da vida que ela caminhe neste sentido. Semelhante escolha do caminho põe em jogo o problema da salvação. Deve-se avançar porque a vida não é um fim em si mesma mas está feita para evoluir, subindo cada vez mais em direção a Deus, em Quem se conclui a grande marcha ascensional. A salvação conquista-se de grau a grau, elevando-se cada vez a um nível biológico mais alto. A humanidade está saindo da menoridade e prepara- se para tomar as diretivas da evolução no seu planeta. A vida é vida só enquanto é uma superação contínua. Vai-se do AS ao S. Na curva atual tem lugar a passagem da esfera de atração do AS à de atração do S, isto é, do estado de caos ao de ordem orgânica. A humanidade se encaminha para a harmonização, a colaboração, a unificação, condições em que será superado e deixado para trás o tradicional estado de luta com todos os erros e dores com eles conexos. Trata-se de um tipo de vida mais alto e feliz, mas ele não se alcança sem um esforço que, no entanto, traz consigo a sua justa recompensa. Ela consiste em poder sair das camadas baixas da animalidade para transformar-nos em verdadeiros homens e amanhã em super-homens.

A humanidade necessita chegar a uma religião científica, como também construir uma ciência que entenda e explique as religiões, sustentando-lhes o conteúdo; para melhor orientar-se, tem necessidade de utilizar todos os valores biológicos, isto é, todo o conhecimento, energias e ideias que possam ser úteis à vida. Hoje, pelo contrário, encontramo-nos ainda numa fase de inimizade entre ciência e fé. No entanto, a verdade é uma só, e estas não são senão duas diferentes maneiras de vê-la e apresentá-la. Cada um, partindo exclusivamente do seu ponto de vista, julga possui-la toda e assim contrapõe a própria visão de um aspecto da verdade às outras visões e aspectos, condenando-os como erro. Daqui derivam atritos, exclusivismos, sectarismos nos quais se expressa, também neste campo, a lei da luta pela vida.

É necessário unificar o pensamento humano com uma síntese que possa fundir as especializações analíticas da ciência com as verdades intuitivas universais das religiões, não demonstradas mas complementares das científicas, racionalmente demonstradas. Hoje, o conhecimento está dividido, é unilateral, incompleto. Torna-se necessário uni-lo, fundi-lo numa verdade única que o abarque todo; tanto o particular como o universal. O atual espírito de análise deve ser integrado com um paralelo espírito de síntese, se queremos que a ciência não se perca em detalhes práticos e utilitários, sem alcançar o essencial e o universal. Hoje, a ciência tende a um tecnicismo dirigido a fins concretos. Escapam-lhe assim, cada vez mais os valores morais e espirituais, que no entanto são indispensáveis à vida para orientar-se e dirigir-se. Se não se obtiver uma visão de conjunto que, além da técnica do funcionamento dos fenômenos, nos diga também o porquê e a finalidade de tal funcionamento, ficaremos sem um princípio que nos guie em nossa conduta, inclusive na sábia utilização dos produtos da ciência. O cientista desdenha ser filósofo. O filósofo não é cientista. Uns e outros prescindem das religiões. Tanto progresso intelectual acabará numa torre de Babel onde será impossível compreenderem-se uns aos outros e coordenar os próprios esforços, fundindo o conhecimento numa única sabedoria? Não basta ver os fatos isolados. É necessário compreender também as suas relações e o significado do seu conjunto.

Que faremos de tantos especialistas isolados, tendentes sempre mais a separar-se, quase a eliminarem-se como rivais, dedicados a cavar no terreno da investigação um buraco fino e muito profundo, sem saber fazer surgir uma visão geral de todo o terreno sobre o qual trabalham? É necessário conhecer também isto, para se saber o que há à volta daquele ponto que se está aprofundando. Isto é necessário num universo orgânico no qual tudo está ligado num conjunto através de proximidade, causalidade, afinidade, e tanto mais repercute em todo o resto quanto mais lhe está próximo no espaço e no tempo. Assim, pelo contrário, se isola o fenômeno particular do total e universal. A ciência clássica distingue, enquadra, mas assim separa em vez de unir os elementos do todo. Para ela o resto é metafísica. Assim, separando as coisas nos seus elementos constitutivos, e os fenômenos nos momentos do seu desenvolvimento, não se obtém o conhecimento senão apenas uma sua parte ou aspecto do todo.

Para o cientista, o filósofo não é positivo. A filosofia não merece atenção porque se ocupa de coisas afastadas da realidade. Para o filósofo, o cientista é um ignorante dos problemas universais. Se o filósofo se torna cientista, é julgado um incompetente. Se o cientista se torna filósofo, este o recusa porque não usa a linguagem e a técnica conceptual da investigação filosófica. Não obstante, sem a cooperação de todos os investigadores e sem a confluência de todos os rios da sabedoria não se conseguirá ver qual é o lugar que corresponde ao homem no universo da matéria, da vida e do espírito, não se conseguirá captar à completa dimensão biológica do homem. Uma visão limitada ao particular é uma visão incompleta.

Deste modo, a ciência deixa de lado fenômenos de imenso valor humano, como as indemonstráveis intuições das religiões que no entanto levaram a consequências históricas, sociais, políticas, de suma importância perante o fenômeno evolutivo da humanidade. Entre tais afirmações, sobretudo a judaico-cristã soube inserir o conceito de Deus na vida do homem, como princípio unitário, síntese máxima e ideal orientador da vida: visão de conjunto que permite uma compreensão mais ampla e profunda da história e do fenômeno social, na medida em que este não é senão um momento do fenômeno vida, e a história não é senão um momento do fenômeno evolução. Só assim o homem pode estabelecer a sua posição no tempo em relação a momentos muito longínquos, o que dá à sua existência um significado muito mais amplo e completo. Será um progresso imenso para o homem ampliar as dimensões de tempo e espaço em função das quais ele vive. Ele se encontrará existindo assim em função de um universo mais vasto e mais conhecido do que aquele em relação ao qual ele até agora viveu, o que lhe oferece possibilidade de uma sempre maior orientação, segurança e potência.

Uma visão de conjunto, síntese universal, pode dar-nos a concepção unitária do todo, na qual não poderá deixar de desaparecer a atual cisão do pensamento entre o aspecto materialista e o espiritualista da mesma verdade, superando assim aquela fase mais primitiva do conhecimento, qual seja a concepção separatista. Se hoje, como dizíamos, o cientista filósofo é condenado pelos cientistas porque não é bastante técnico e positivo, e pelos filósofos porque não sabe usar a linguagem e os conceitos filosóficos, pelo contrário a sua função é a de não ficar encerrado em nenhum dos dois campos, mas a de espraiar-se em ambos, dando às especulações da filosofia as bases positivas da ciência e elevando as constatações positivas da ciência até às abstratas generalizações da filosofia. Trata-se de alcançar uma fusão na qual cada uma das duas partes dê a sua contribuição completa, e não fazer uma união à força, na qual, em vez de cooperarem, procurem prevalecer uma sobre a outra, adaptando-a aos seus próprios objetivos. Não é um aproveitamento e deformação da ciência para fazê-la concordar com a filosofia ou religião, concordância do materialismo com o espiritualismo, nem uma contorção ou mutilação da filosofia ou religião, para fazê-la concordar com a ciência, deformação do espiritualismo para fazê-lo aderir ao materialismo. Nada de confucionismo ou acomodações oportunistas, mas convergência, através da qual as duas visões, de opostas se tornam complementares, e em lugar de lutar para eliminar-se, acercam-se para se compreenderem e colaborarem. Superando as negações mútuas, trata-se de somar e fundir ambas as afirmações. A ciência pode oferecer a parte experimentalmente provada e positivamente segura. As religiões podem oferecer o que a ciência não pode dar porque lhe falta, aquilo que as religiões alcançaram com outros meios, que a ciência não os possui. Quem decidiu que a intuição, a inspiração, a revelação não podem representar um meio de investigação e oferecer uma contribuição ao conhecimento? Este isolamento numa dada visão da verdade, fechando-se os olhos porque não se quer ver o que possa haver mais além, um tal exclusivismo e separatismo, são qualidades do primitivo egocêntrico e involuído, significam miopia, psicologia limitada, estreiteza de horizontes conceituais, aprisionamento mental apriorístico. A evolução do pensamento deverá abandonar esta sua atrasada fase e chegar assim a possuir a realidade numa dimensão mais completa. Nada nos autoriza aprioristicamente a afirmar que o método de investigação usado trela ciência deva ser o único e definitivo, e que ele, por evolução do instrumento psíquico humano, no futuro poderá ser superado.

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A nova realidade a que a ciência deverá positivamente chegar amanhã não poderá limitar-se à dimensão matéria. O problema do espírito existe e não se resolve, negando a sua existência, como até agora o fez a ciência materialista. É justo que se deva ser positivo e por isso evitar perder-se em lucubrações filosóficas fora da realidade. Mas só porque pelos caminhos da ciência não se consegue alcançar alguns aspectos da vida, e porque a metafísica não os explica em forma positiva, não se tem por isso o direito de suprimi-los desdenhando considerá-los e interessar-se, tomando conhecimento deles. Por que ao cientista - quando recolheu e tem diante dele uma série de fatos garantidos como verdadeiros, porque experimental e racionalmente controlados, inclusive nas suas consequências - se lhe deve proibir meditar sobre eles, transformando-se em filósofo pensador que deseja conhecer não só aquela realidade mas também o seu íntimo significado? Por que lhe deve ser proibido penetrá-la também neste seu nível mais profundo? Por que deve ser anticientífico interessar-se também por estas outras possíveis faces da verdade: Com que direito negar "a priori" uma possibilidade de ampliação do conhecimento positivo inclusive deste aspecto? Assim se corre o risco de ficar isolado na visão de alguns aspectos limitados dos fenômenos, permanecendo na ignorância a respeito dos outros.

É verdade, não podemos dizer que compreendemos o homem todo quando nos limitamos a observar só a sua estrutura orgânica, que no nível físico, químico e biológico expressa a sua personalidade através de um mecanismo nervoso cerebral. Não o teremos assim mutilado fazendo dele uma imagem incompleta e que por isso não responde à realidade? Por que não querer ver todo o fenômeno, inclusive nos seus níveis mais altos?

Temos motivo de crer numa dúplice estrutura do universo, num aspecto bifrontal, já intuído pelos pensadores e de que a ciência suspeita, duplicidade pela qual, além da realidade fenomênica exterior, deve existir outra interior, a qual constituiria a verdadeira substância do universo e que nos pode revelar o seu verdadeiro significado. Nós já defendemos isto, afirmando o dualismo S e AS. Então um pampsiquismo anima todas as coisas, ilumina-as por dentro dando um profundo significado à sua existência, conceito ainda não alcançado pela ciência. Também a matéria se anima. Por que deve isto estar fora da realidade. Não está em oposição à ciência positiva, mas é um seu complemento, representa um edifício mais alto que se pode construir sobre as suas bases sólidas. Nestes níveis mais altos, a matéria continua existindo com as suas leis e propriedades, mas ainda que continue a segui-las, é utilizada para outros objetivos de tipo mais evoluído e complexo. Então o simples fenômeno físico-químico se aproxima e é levado a concordar com outros fenômenos afins mais adiantados. Ele aparece assim existindo numa nova dimensão, sendo coordenado em função de uma finalidade superior, para a qual é dirigido e em função da qual o fenômeno passa a existir com outro valor e significado, visto que já não está isolado e fechado em si mesmo, mas aberto e em movimento em direção àquela finalidade.

Esta nova perspectiva amplia e aumenta tanto, que tudo transforma. Já não se trata de um simples fato exterior, porque agora ele contém um psiquismo interior que veio anima-lo. Psiquismo que, antes desse fato, não existia, e do qual agora se tornou expressão. Então ele se nos revela sob uma luz diferente porque já não o vemos esgotar-se em si mesmo, completo apenas nessa sua forma, mas sim existir em função de outros valores interiores, até então desconhecidos de nós. Somente olhando mais acima algo mais vemos crescer nos fenômenos, um enriquecimento de qualidade e significado, como se vistos em função da evolução, movendo-se nesta nova dimensão eles se dilatassem e agigantassem.

Como se explica que na semente, o mais se desenvolve do menos? Tal crescimento parece um aumento para quem vê só a forma física, isto é, o instrumento material da existência. A ciência positiva parou somente neste aspecto do ser, aspecto que, se não constitui toda a realidade, é no entanto uma parte importante dela. Mas para compreendê-la toda é necessário ver também a outra parte, interna, escondida, que foge à investigação sensória e que é a verdadeira causa daquele "mais", representado pelas formas que depois vemos aparecer no exterior, em nosso plano sensório. Compreende-se então que este florescimento exterior não é uma criação, ainda que seja de progresso através da evolução, mas sim é uma restituição, isto é, uma reconstrução daquilo que pertenceu ao S e que agora por involução se encontra decaído no AS. A ciência atual vê somente o lado exterior do fenômeno do ser, isto é, uma parte dele. Isto não está errado; apenas é incompleto, porque ela ignora o lado oposto e complementar, que é o princípio interior animador das coisas.

A progressiva complexidade das formas que expressam o psiquismo não é a causa do seu progressivo aperfeiçoamento, mas o efeito deste. O sistema nervoso e cerebral, mais complexo no homem do que nos animais que o precederam evolutivamente e que hoje são inferiores a ele, não é a causa da sua maior inteligência, mas o instrumento mais complexo de que esta necessita para poder expressar-se no plano sensório e chegar ao contato com este plano. Ou, mais exatamente, as duas partes se compenetram num dualismo de duas complementariedades opostas que constituem a mesma unidade. O homem poderá construir cérebros eletrônicos, mas com isto somente reproduzirá o instrumento exterior do pensamento, a mecânica de que este se serve para a sua manifestação. Estas serão sempre máquinas inanimadas, geradas por ação exterior e não por uma autoconstrução interior. Falta-lhes a parte interior do fenômeno, a que encontramos na vida. Estas máquinas poderão ser um instrumento a mais que se acrescenta àqueles que o pensamento já construiu para si mesmo no plano orgânico, e que ele poderá utilizar junto àqueles instrumentos. Mas trata-se sempre de um instrumento subordinado ao pensamento e tem portanto que ficar sempre ao serviço deste pensamento que só o homem possui.

 A ciência materialista, para permanecer positiva, desinteressou-se, como se ele não existisse, deste outro lado do fenômeno que lhe escapava. Mas que na vida exista também esta contrapartida imaterial prova-o o fato de o instrumento com o qual ela se manifesta ser uma estrutura que se apoia num processo de renovação contínua. Trata-se de uma arquitetura não estática, mas dinâmica, funcionando organicamente por constante destruição e reconstrução, como sucederia num edifício cujos elementos componentes fossem continuamente substituídos por outros, colocando-se os novos exatamente no lugar dos velhos, de maneira que, mudando até a matéria-prima o edifício permaneça o mesmo. Assim o indivíduo se transforma, ficando no entanto o mesmo indivíduo. Isto permite que o ser, apesar de continuar sendo o mesmo, se transforme por meio daquelas imperceptíveis deslocações sucessivas; através das quais se realiza a evolução. Obtém-se assim um instrumento maleável, que se adapta às exigências do psiquismo que dele se serve segundo as suas necessidades, proporcionalmente ao seu diverso grau de evolução. Este transformismo é um fato positivo inegável. O que permanece estável no meio desta corrente de matéria flutuante é o tipo de organização que guia e disciplina os seus movimentos, é o princípio diretivo constante que dirige o fenômeno todo. Eis qual é a outra parte interior que o completa. Sem esta faltaria o que nele é constante, o que permanece onde tudo muda, o que une os momentos sucessivos do transformismo e impede que ele se disperse, canalizando-o ao longo de um caminho marcado e fazendo-o convergir em direção a um objetivo pré-estabelecido.

A unidade individual de cada ser, que o distingue de todos os outros, é este eu interior que é a alma do fenômeno vida. Deste fenômeno a ciência deverá chegar a ver, além do aspecto físico exterior, também o espiritual, e isto inclusive nos graus mais involuídos da existência, como na matéria. Ela é considerada inanimada, mas já se descobriu de que complexo pensamento está saturada, e que dirige o seu funcionamento. Graus diversos de psiquismo, mas psiquismo onipresente, em forma de pensamento, de princípio, de lei diretiva. Em qualquer nível o sistema é o mesmo: seja o psiquismo inferior ou superior, mais ou menos desenvolvido, mas sempre em evolução, o que está menos avançado contendo em germe o que depois aparecerá mais avançado. É uma espiritualidade universalmente imanente nas formas que lhe fornecem consistência física e constituem o seu instrumento de expressão. É assim que não se podem. separar um do outro, tanto o aspecto material como o espiritual do fenômeno, tanto o transcendente como o imanente. A matéria por si só não é completa nem auto-suficiente, não basta para explicar e governar a vida sem o suporte de um psiquismo animador e regulador.

A contraposição entre matéria e espírito deriva, como um momento seu, do principio universal do dualismo que abarca tudo e tudo envolve, pelo que devia surgir uma cisão também entre estas duas posições da existência. E isto corresponde à realidade. Mas o erro consiste em querer entender tudo isto como um antagonismo de opostos, quando se trata só de unilateralidade de termos complementares, dos dois polos de uma mesma unidade, polos que, em vez de a despedaçar em dois, fazem dela um compacto indivíduo, mantendo-se sempre como tal, não obstante sejam dois os momentos que o constituem. A realidade é dupla, mas é uma só. A divisão se deve ao fato de que ela pode ser observada sob dois pontos de vista diferentes. O céu e a Terra, o alto e o baixo, espírito e matéria, estão incluídos no mesmo universo. A realidade material e a espiritual são posições diferentes da mesma realidade, que pode ser vista tanto no seu aspecto científico como no metafísico. A unidade que de fato existe é um composto, uma fusão de dois momentos, o princípio espiritual que anima a forma material e a forma material que veste e expressa o princípio espiritual. Na realidade não existe o espírito por um lado e a matéria por outro, mas sim um espírito encarnado e uma matéria inteligentemente organizada. E a organização se torna sempre mais complexa quanto mais alto e espiritual é o grau de consciência que naquela forma encontra o instrumento da sua manifestação. A compenetração entre os dois termos é profunda; na posição em que eles se apresentam na Terra, durante a vida, não os podemos separar porque formam uma só realidade, mesmo que seja lógico que, depois da morte da parte física, o indivíduo se retraia no outro polo do ser, pelo fato de o dualismo, sendo unidade, significar oscilação de um extremo ao outro dela. A ciência olha o lado material; a metafísica, o lado espiritual desta unida realidade que é o homem vivo. Medicina e biologia dedicam-se ao corpo, as religiões, à alma. Mas em vez de colaborar, somando os seus esforços, estes dois ramos do saber se eliminam. Quanto mais a ciência progredir, tanto mais deverá aprofundar a sua investigação, penetrando no terreno da metafísica; e quanto mais esta quiser ser completa, tanto menos poderá prescindir de conhecer o instrumento da manifestação do espírito.

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Esta união de dois opostos, isto é, o mesmo dualismo no seio da mesma unidade, encontramo-lo em medida muito maior no fenômeno máximo de toda a criação, porque não se pode isolar Deus do Universo, o transcendente foi imanente, o espírito animador de todas as formas nas quais ele se manifesta. O princípio que rege o fenômeno é sempre o mesmo. Nós, que examinamos nos volumes: A Grande Síntese, Deus e Universo, O Sistema, Queda e Salvação, todo o ciclo involução-evolução, isto é, afastamento e regresso, sabemos que esta conjunção de opostos não é eterna, porque o dualismo no qual se cindiu a unidade é fenômeno transitório, devido à revolta e queda, e sanável com o retorno do termo emborcado, o AS, no seio do outro de origem, o S, isto é, Deus. Eis que a forma, o instrumento de expressão constituído pela matéria, é só um meio destinado a desaparecer no fim, reabsorvido no psiquismo animador. Assim a matéria voltará ao estado de origem: o espírito; o AS ao S; o Deus imanente, isto é, projetado na forma do universo físico, seu corpo e instrumento de expressão na fase evolutiva atual, voltará ao seu aspecto de Deus transcendente. Saneada, com a evolução, a queda por involução na matéria, tudo voltará ao estado original de pensamento. Esta atual necessidade pela qual o espírito não pode manifestar-se senão através do instrumento matéria, como vimos agora, esta obrigação de descer, fundindo-se nela para encontrar ali a sua expressão, é como uma corrupção por involução, e que, no entanto, por evolução aquele mesmo espírito vai cada vez mais se libertando, constituindo-se formas sempre menos materiais e mais refinadas e sutis, aptas a expressá-lo à medida que, evoluindo, se aperfeiçoa. Deste modo, ao longo do caminho da evolução a estrutura do instrumento se transforma nas suas características, estando em proporção ao grau de evolução da unidade espiritual que se deve servir dele para a sua manifestação. É assim que, com a evolução, o meio de expressão ou instrumento de trabalho, para acompanhar em posição paralela o desenvolvimento psíquico, se completa, se complica, se sutiliza, direi quase, se desmaterializa, se faz um órgão sempre mais inteligente, mais a fim do pensamento, que deve funcionar através de tal mesmo.

Esta é a história da evolução. Ela vai desde o polo matéria ao polo espírito. Hoje, no nível atual, encontramos estas duas posições do ser coexistindo e fundidas, porque a matéria não foi ainda superada e ainda falta para chegar ao espírito. Mas no fim o dualismo deverá cessar, porque o aspecto matéria da substância será reabsorvido no seu aspecto espírito. Se o instrumento no qual hoje vemos submergido este último, é um produto da involução, é lógico que, por evolução, ele deva perder sempre mais as qualidades da matéria, até desaparecer como tal, e adquirir sempre mais as qualidades do espírito, até ao ponto que, reconstruindo-se este em toda a sua potência e pureza, não tenha mais necessidade de enxertar-se em tais meios para funcionar e encontrar a sua expressão. Neste processo, vemos que a matéria sofre uma profunda transformação que a elabora, a organiza, dispondo os seus elementos constitutivos em formas sempre mais complicadas. Já notamos isto na diferença que há entre as células do sistema ósseo e muscular e as do sistema nervoso e cerebral. Na construção dos organismos, a tendência da evolução é superar e fazer desaparecer as qualidades físicas, para dar lugar às psíquicas. É assim que, sobre a matéria, termina por prevalecer cada vez mais o que é pensamento e espírito; sobre a quantidade, a qualidade; sobre a massa dos elementos, a complexidade da sua organização. Este amalgamar-se contínuo de espírito e matéria num único composto, transforma em profundidade a estrutura desta, levando-a desde este seu estado físico a um estado mais evoluído no qual perde as suas qualidades de matéria e, por uma espécie de redenção por evolução, adquire as do termo colocado no polo oposto, ao que tudo tende, o espírito.

Vivemos num mundo de verdades relativas, que podem parecer contraditórias, enquanto são complementares. Assim espírito e matéria são aspectos diferentes do mesmo princípio, olhados de pontos de vista distintos. Trata-se de visões parciais que basta reunir numa visão global mais vasta, para que desapareça nela a contradição. O problema do espírito não se resolve, negando a sua existência senão enfrentando a dificuldade de compreender o fenômeno. Significa simplesmente renunciar ao conhecimento o fato de eliminar "a priori" os aspectos da realidade que nos incomodam porque não sabemos explicá-los e não sabemos onde colocá-los, porque não encontram lugar em nosso sistema.

A vida é um processo de espiritualização. A evolução assume assim um sentido totalmente diferente do materialista darwiniano, torna-se um movimento ascensional, Uma obra de construção de valores em sentido espiritual . Aquele princípio evolucionista, que na sua primeira aparição foi combatido pelas religiões, porque lhes parecia contrário por ser ateu, negador do espírito, pode hoje ser entendido como uma sua confirmação cientifica, porque sustenta a ascensão espiritual dirigida para Deus, ponto conclusivo que explica e justifica o desenvolvimento de todo o processo evolutivo.

Matéria e espírito, de dois opostos inconciliáveis se reduzem a duas posições da existência. A tarefa da evolução é de mudar o valor dos dois termos, transformando o primeiro no segundo, de modo que, no fim, o dualismo seja sanado e venha a cessar a oscilação da existência de um ao outro dos dois polos. Por fim, percorrido todo o ciclo involutivo-evolutivo, deve chegar o momento no qual - por ter toda a matéria sido reabsorvida no estado de espírito, e a forma mutável transformada na eterna substância, o universo físico (AS) substituído pelo universo da consciência (S) - também o Deus imanente se retrairá deste seu aspecto de manifestação exterior e voltará ao seu aspecto verdadeiro, eterno, imutável, de Deus transcendente, qual centro de sua verdadeira criação, que é o universo espiritual.

Observemos vários fatos e seu significado. Temos esta estrutura substancialmente unitária e só transitoriamente cindida num dualismo por sua natureza destinado a ser sanado; vemos que a cisão nos dois polos é só um incidente dentro do princípio de unidade que permanece intato e soberano. Em todo o processo involução-evolução o ponto de partida como o ponto de chegada é o espírito, que só transitoriamente se desmoronou na matéria para reconstruir-se mais tarde no seu estado de origem. O eterno centro de tudo é o Deus transcendente, isto é, o espírito, mais acima do seu aspecto secundário e transitório de Deus imanente, submergido no ciclo involutivo-evolutivo, onde a transcendência não se anula, mas, apesar de interior, é sempre presente e ativa. Tudo isto nos mostra que a base da existência é o espírito, e que o instrumento de que ele se serve na sua atual posição dentro do ciclo involutivo-evolutivo, é só um acessório temporário, devido à necessidade de manifestar-se em nosso baixo plano de existência. Se hoje o ser se encontra em fase de oscilação entre o polo espírito e o polo matéria, e se, no estado de vida física, não podemos ver o espírito existir a não ser amalgamado na forma, sem a qual no plano físico ele não encontra expressão, isto não significa que noutras fases e posições da existência (ainda que estas não possam hoje ser tomadas em consideração pela ciência porque estão situadas fora do terreno positivo da realidade sensória), o espírito não se possa isolar e existir por si mesmo, sem ter necessidade de tal instrumento de sua manifestação, sem o qual hoje na Terra não se advertiria a sua presença.

Estas considerações nos levam a ter que admitir a sobrevivência do indivíduo no estado de espírito, o que significa a possibilidade de ele viver também sem corpo, independentemente deste seu meio de expressão no plano físico, meio do qual se separa com a morte, deixando-o como matéria insensível em decomposição porque dele fugiu a vida que está no espírito. É assim que a este lhe é possível, até durante a existência no plano físico, funcionam. Independentemente de tal instrumento, por cima das possibilidades imateriais dele, transcendendo os seus limites. Esta possibilidade de superação do meio físico de expressão, por parte do espírito, corresponde a sua progressiva potencialização por evolução, o que é admissível para quem compreendeu que a função desta é uma libertação dele, espírito para devolvê-lo no fim ao seu estado de origem. Eis como surge a possibilidade de pensar não só cerebralmente, por lógica e raciocínio, mas também, espiritualmente, por intuição; e compreende-se como isto possa suceder nos indivíduos mais evoluídos que na vida se acostumaram a praticar especialmente esta segunda forma de pensamento. Isto forneceria uma prova de que é possível separar um funcionamento no plano do espírito, de um funcionamento no plano cerebral, isto é, separar a verdadeira mente do seu instrumento, de maneira que ela possa manifestar-se autônoma, e isto sucede tanto mais quanto mais por evolução esse espírito se potencializou e se tornou independente. De fato a evolução é um processo que faz libertar o espírito da necessidade de possuir um instrumento físico para poder alcançar a sua manifestação.

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A evolução é um regresso a Deus. Dizemos "regresso" porque é absurdo ir em direção a Deus, movendo-se de um primeiro ponto de partida que não seja Deus. E Deus não é pessoa no sentido humano, isto é, de pensamento que para manifestar-se necessita de um instrumento físico. Se se quisesse ver a Deus nesta posição do ser, o encontraríamos tal no Seu aspecto imanente em nosso universo, que seria então o instrumento da Sua manifestação, como um Seu corpo, isto é, a forma que permite a sua expressão no plano físico. Mas Deus em sua verdadeira essência é transcendente, é puro pensamento, como o homem é antes de tudo espírito, pelo que a sua verdadeira essência é dada pelo seu ser espiritual que, no entanto, se une ao corpo como a um seu instrumento. Esta identificação a encontramos também entre Deus e a Sua manifestação que é o nosso universo. Isto significa que dentro deste, como o espírito no homem, encontramos Deus como princípio animador, sem o que o universo seria coisa morta, sem alma, um cadáver, como o é o nosso corpo quando o espírito o abandona. Assim a presença deste em nosso organismo físico não seria senão um caso menor daquele máximo, que é a imanência de Deus em nosso universo.

Ora, regresso a Deus por evolução significa regresso do ser ao estado transcendente (S) de puro pensamento, porque Deus em Si mesmo, por cima desta sua transitória projeção em nosso Uni- verso (AS) é puro pensamento, existente sem necessidade da forma que agora o expressa nas dimensões inferiores do plano da matéria.

Isto que parece separação entre transcendente e imanente não é cisão. Pelo contrário, tratando-se de dois polos ou aspectos do ser, isto não os divide, mas os unifica, é uma ponte que os mantém ligados c comunicantes. É assim que encontramos o pensamento do Deus transcendente animando as formas da existência, princípio vital, sempre criador na regeneração da morte contínua, princípio diretivo do funcionamento orgânico do universo, qual inteligência que concebe a lei e vontade que a realiza. É deste modo que o céu tem o seu eco na Terra e aqui podemos voltar a encontrar os seus traços e a sua expressão. É este fato que mantém compactados Céu e Terra, espírito e matéria, a substância e a forma, transcendência e imanência, Deus e universo. Desta forma Ele está presente como numa Sua manifestação que O expressa e O revela. Nas entranhas da matéria, a afinidade e atração entre átomos e moléculas, por mais que tais manifestações estejam distantes do amor, dele nos oferecem um apelo e uma semelhança. Assim o que acontece na coordenação das partes e dos movimentos no seio de um organismo, repete-se nas leis que regulam os contatos e combinações mútuas entre os elementos componentes, indicando-nos a presença de uma mesma inteligência diretriz. É questão de grau de manifestação de um mesmo princípio fundamental, como de um motivo base, que aparece pouco a pouco e sempre se vai desenvolvendo mais até encontrar a sua plenitude no S. Vemos existir, já nas formas mais elementares, como encerrado numa semente, o que depois chegará a ser amor-sexo no nível vida, e consciência nos planos superiores desta, até chegar ao Amor e onisciência de Deus. Continuidade universal, pela qual não existe um momento do todo que se possa isolar do resto, que com ele não tenha relações e nele não se repercuta. O todo-Deus é um conjunto orgânico absolutamente incindível. Assim se compreende como esteja ligado ao espírito, que dispõe dele como de u‘a máquina que move, que controla e da qual se serve para poder viver no plano físico. Dada esta compenetração e colaboração, é natural que o instrumento tenha de acompanhar, com o seu aperfeiçoamento, a evolução do espírito, tornando-se assim sempre mais organicamente complexo, de modo a poder responder às crescentes exigências da personalidade que se serve dele. E quando dizemos que este instrumento é matéria, devemos recordar que matéria significa uma organização de cargas dinâmicas e uma lei reguladora dos seus impulsos, combinações e movimentos, tudo fundido no mesmo funcionamento, o que significa algo mais de tipo conceptual e dinâmico do que material. E então, para além de tantas distinções, não encontramos no fundo senão uma única realidade, uma mesma substância à qual todas as coisas são redutíveis.

Somos nós, imersos no relativo, que dividimos, isolamos e contrapomos os seus diversos aspectos. Mas no fundo ciência e misticismo, racionalidade positiva e intuição, não são senão diferentes modos de ver a mesma, única, universal realidade, que é Deus. Dele, suprema verdade, o pensamento humano se acerca gradualmente. No nível mais concreto e positivo, o da matéria, temos a análise científica com os meios sensórios e experimentais. Depois ternos as concepções reflexivas da filosofia que se elevam mais acima do concreto no universal, atuando por abstrações. Temos, finalmente, a teologia que se projeta no céu das causas primeiras. Cada um explora a sua zona e por espírito de domínio quereria dar-lhe valor universal, eliminando as outras que, não obstante, lhe são complementares. Assim, desta maneira é igualmente incindível o aspecto espiritual das coisas do seu aspecto material. Quem se detém num deles e nega o outro, dá prova com isto de falta de conhecimento. Quando não se sabe solucionar um problema, elimina-se, negando, a existência dos fatos em vez de se admitir a própria ignorância. Para libertar-nos do peso do desconhecido, suprimimos o que escapa à nossa compreensão. A ciência não chegou ainda a comprovar positivamente a existência de Deus, mas à medida que progride em profundidade, ela não poderá deixar de ver este princípio universal, inteligente e regulador de todos os fenômenos. Num primeiro momento ele deverá ser admitido pelo menos como hipótese indispensável para poder explicar tantos fatos que vemos harmonicamente coordenados num funcionamento orgânico, ligados por uma rede comum, segundo um plano de trabalho subordinado a um determinado fim: fatos que não se podem explicar a não ser em função de uma íntima sabedoria orientadora. Com o progresso da ciência, não se poderá deixar de descobrir que Deus é o ponto final da evolução, em função do qual ela existe; é o que a explica e assim se justifica o imenso trabalho de ter de percorrer um caminho tão longo; não se poderá deixar de descobrir que, naquele supremo ponto de convergência, o incessante transformismo fenomênico deverá encontrar a sua solução porque ele terá esgotado a sua tarefa, que é a de reconduzir a substância desde a sua fase de matéria (AS) à sua fase de espírito (S).

Será um conceito novo para a ciência atual, afirmado e demonstrado por nós, este de uma evolução que é espiritualização, o que lhe dá um sentido e um valor superior, pelas religiões já visto e afirmado por intuição. Este é o nosso físico-dínamo-psiquismo, é o florescer de uma biosfera a partir da geosfera e de uma noosfera a partir da biosfera, como diria Teilhard de Chardin. Então ciência e religião se darão conta que contrapuseram, como inimigos, aqueles que não eram senão dois aspectos da mesma verdade. Então já não se condenará como panteísta quem não pode conceber Deus só no seu aspecto transcendente, isolado do universo, mas  sim que O sente também no seu aspecto imanente, ali presente, qual pensamento diretivo e vontade animadora do transformismo fenomênico, identificado com as leis da existência, que são expressão do Seu pensamento: um Deus independente e não obstante intimamente ligado a todas as formas do ser, que não são senão formas do Seu ser. Então o natural e o sobrenatural não são duas posições contrapostas, mas dois graus do mesmo processo evolutivo, isto é, de reaproximação de Deus. Eles não se excluem, não se contrapõem, mas se completam, porque o grau superior é a continuação do inferior, no qual está contido como germe e do qual se desenvolve.

Um conceito completo de Deus não pode ser dado senão pela fusão dos seus dois aspectos: o central, ponto de convergência do todo, Deus pessoal e transcendente; e o periférico, divergente na multiplicidade das formas de sua manifestação, Deus impessoal e imanente. Trata-se de uma natureza sustentada pela presença de Deus, que a ajuda a elevar-se, até junto Dele, através do sobrenatural. É certo que a matéria encontra-se nos antípodas do espírito, representando a posição mais afastada de Deus. Mas isso não significa que ela fuja Dele, que Ele não a alcance, mantendo viva com a Sua presença a complexa organização. Não é panteísmo dizer que a unidade permaneceu íntegra por cima do dualismo e que o amor de Deus tudo reúne e mantém unido. E a ideia de Cristo nada perde em valor se o concebermos como incorporação do princípio de evolução que quer levar o homem a Deus, e se à redenção dermos um significado aceitável para a ciência, isto é, de salvação por evolução, realizada por ascensão da matéria ao espírito. Até à ideia do Satanás do Cristianismo se pode dar assim um significado aceitável enquanto o podemos conceber no polo oposto do princípio de evolução e salvação (S) representado por Cristo, isto é, como personificação do princípio de involução e perdição (AS) situado no polo oposto do dualismo interior da mesma unidade do todo-Deus.

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Muitos conceitos do Cristianismo não são hoje aceitáveis porque são expressos em forma não científica, antiquada, dependentes de sistemas filosóficos superados; não são aceitos por serem apresentados em forma fideística irracional, agora já demasiadamente afastada da psicologia moderna positiva; por não ser enquadrados num sistema científico-filosófico que os explique e justifique, dado que eles nasceram por inspiração ou intuição, isto é, por visão não controlada objetivamente. Isto não significa que os conceitos estejam errados, mas assim ficam suspensos no ar à mercê do mistério, ao realizarem-se abandonados no subconsciente, porque na prática permitem adaptações e evasões, chocando-se às vezes com a realidade biológica, resolvendo-se até num absurdo. As religiões futuras, se quiserem sobreviver, deverão voltar a tomar, desde o início, este material imenso acumulado nos séculos, voltar a elaborá-lo, sistematiza-lo, completa-lo, atualizá-lo, não como se ensaia agora com retoques de superfície, mas com uma revisão e reorganização de fundo que incorpore e assimile o pensamento laico científico, outro material imenso ainda mais gigantesco.

Como acabamos de dizer, o conceito do sobrenatural pode subsistir se é entendido como nível evolutivo mais avançado, e não como uma super-natureza, que se contrapõe à própria natureza, como se pudessem existir duas naturezas diferentes, dirigidas por duas leis diferentes, o que é absurdo. De fato, não temos senão diferentes graus de evolução da mesma natureza dentro da única Lei de Deus. O único sentido que se pode dar a esta concepção é evolucionista. A natureza é o nosso nível biológico com as suas respectivas formas de vida, no lado AS. A super-natureza pode significar níveis biológicos mais avançados, em direção ao S, antecipados hoje pelos ideais e alcançáveis amanhã por evolução. Assim a contradição entre dois opostos, dentro da mesma obra de Deus, desaparece porque se torna lógica sucessão de momentos consecutivos, ambos necessários dentro do mesmo processo evolutivo.

Da mesma forma se poderia dar ao conceito de "graça" um significado positivo racionalmente aceitável. Poder-se-ia chamar "graça" à resposta de elementos mais avançados, por parte dos graus superiores de evolução, em relação à tentativa do ser para ajudar a alcança-los; ao estender-se do S em direção ao AS para fazê-lo subir até ele, noutros termos, à manifestação da presença, no mundo, do Deus imanente que dirige e ajuda a evolução. Assim às várias intuições das religiões, apresentadas como verdades, se pode dar um significado que as faça aceitáveis, evitando que sejam lançadas ao esquecimento. Assim a "graça" poderia expressar o fenômeno da inspiração e conectar-se com o da descida dos ideais.

É certo, se estes conceitos permaneceram até hoje de pé, isto se deve a que neles tem de haver algo de verdadeiro. Mas é necessário encontrá-lo e dizê-lo, se queremos que a mente moderna os tome em consideração. Eles são o produto de outros processos mentais superados hoje, conduzidos em função de outros pontos de referência, de modo que, apresentados como melhor convinha no passado ao qual eram adaptados, hoje resultam inaceitáveis pela mente moderna que os encontra sem sentido. Há que se levar em conta que hoje é diferente a maneira de conceber as coisas. Portanto é difícil fazer concordar uma religião filha do passado com o pensamento científico moderno. O grande drama espiritual do mundo atual consiste em que o desenvolvimento do pensamento diretivo passou da religião, que ficou para trás, à ciência que, pelo contrário progredindo, agora já tomou a iniciativa avançando por sua conta, independentemente da fé, tornada pensamento secundário. Hoje quem se deve atualizar é a religião transformada em serva da ciência, atrás de quem tem de correr para não ficar atrasada. Inverteram-se os papéis: é a sabedoria de Deus o que passou para a retaguarda e tem que fazer-se arrastar pela sabedoria do homem. A religião trata de salvar-se adaptando-se, mas a revolução do pensamento é demasiado grande para poder remediá-la com as habituais acomodações. Remendar a casa não resolve. Ela foi construída para inertes e tempos demasiados diversos, para que hoje se possa habitar ali. Se se pretende que não fique deserta, é necessário refazê-la sobre os mesmos fundamentos de Cristo, mas refazê-la desde os alicerces. Hoje, as afirmações metafísicas gratuitas e não provadas, baseadas sobre a tradição e o princípio de autoridade, apoiadas em pontos de referência arbitrários, não resistem ao contato com a realidade positiva dos fatos e não são mais levados em consideração. Não é que as verdades das religiões não sejam verdadeiras. Mas demasiadas incrustações e superestruturas medievais as taparam e as sufocaram. É necessário regressar às suas fontes, eliminar o supérfluo, dar-lhes a sua verdadeira dimensão, completá-las, desenvolvê-las à luz do progresso mental moderno. Seria necessário ter a força de realizar este passo para a frente e assim alcançar a ciência. Mas assusta o risco de sair das velhas estradas, falta a fé e a coragem para aventurar-se no novo, falta a visão clara de uma verdade mais evoluída e mais completa, pelo menos de uma sua apresentação em tal forma, e faltam os homens que saibam produzi-la, novos gênios da verdade que tomem o lugar dos sonolentos repetidores das velhas fórmulas, dos burocratas da fé, arraigados defensores das coisas velhas porque se encontram na base das suas posições terrenas.

A ciência move-se diretamente ao conhecimento do funcionamento dos fenômenos e do porquê das coisas, e não está obstaculizada pela preocupação de fazer concordar os fatos com as lendas bíblicas e a tradição, para lhes salvar o valor. Isso interessa somente àqueles que, sobre tais bases, apoiam a existência do seu grupo que os protege, mas não interessa aos investigadores da verdade, aqueles que querem saber como de fato tudo se desenvolveu no passado. Perante o pensamento moderno, muito mais maduro, que valor positivo podem ter afirmações provavelmente simbólicas, apresentadas em formas antropomórficas, a única linguagem que naquele tempo os homens podiam compreender? Como tomar ao pé da letra uma narração que devia esconder conceitos mais complexos, impossíveis de expor a quem não os podia entender? Como pode uma era de pensamento mais evoluído aceitar o pensamento mais primitivos das épocas anteriores? O investigador não pode trabalhar amarrado a tudo isso, paralisado pelo fardo de tantas soluções já estabelecidas, que desejariam fixar o seu pensamento, detendo-o num grau de evolução mental já superado. As teorias do passado podem interessar à história da filosofia, ao professor que as estuda, mas estorvam o caminho para quem quer, pelo contrário, construir e progredir.

É claro, que as religiões continuarão tratando de conservar o seu patrimônio tal qual é. Elas deste modo assumem a função da conservação, mas certamente não a do progresso, pelo que o pensamento continua avançando por sua conta sem elas, que não têm o poder de detê-lo. A evolução é lei divina e fundamental da vida, e a ninguém é permitido paralisá-la. Mas eis que entretanto nasce assim a luta entre o velho que não quer morrer e o novo que deve desenvolver-se. O primeiro resiste, mas, por lei da vida, acaba sendo vencido pelo segundo. A renovação realiza-se através desta luta na qual triunfa o mais forte, que é o novo. É a própria lei de Deus que o quer. Vive-se para avançar. Hoje, as religiões representam o velho; a ciência, o novo. A função desta não é a de destruir as verdades daquelas, mas de esclarecê-las e atualizá-las, eliminando o que já não é aceitável, como também têm a função de demonstrá-las e desenvolvê-las. Eis que de fato na luta o novo coloca-se a serviço do velho, porque o ajuda a sobreviver no que ele tem de bom, enquanto que sem esta renovação apenas lhe restaria morrer definitivamente. Se soubermos pôr cada coisa no seu lugar, vemos que tudo cumpre a sua função e por isso é útil à vida e tem então a sua razão de existir, justificando -lhe a presença.

A religião não se pode suprimir. Mas podemos imaginar quão mais inteligente e convincente deverá ser a religião do futuro, que produto mais racional da compreensão das leis da vida, em vez do cego produto do subconsciente instintivo. Será uma religião mais forte e mais pura, mais clara e mais honesta, porque caminhará paralela à ciência, sua aliada; será uma religião iluminada não só pelo relâmpago da intuição reveladora, mas também pela trabalhosa construção mental, fruto do esforço humano, para desembocar numa norma de conduta ou moral mais sólida, demonstrada, mais sincera e justa do que a atual, a qual é o resultado não de uma compreensão dos problemas, mas da luta pela vida. Não se pode parar a criação religiosa só porque neste terreno tanto já se fez no passado. O caminho dos profetas, dos grandes inovadores, dos gênios, dos santos e dos pensadores, não pode deter-se. Onde tudo evolui sem pausa, nem sequer as religiões podem parar. O trabalho do passado deve continuar noutras mãos, noutras formas, continuar com a vida que avança. Renovar não é destruir é prosseguir. Como aconteceu no caso de Cristo um novo testamento está sempre em ação para desenvolver o antigo. É o pensamento de Deus que avança na Terra, mostrando-se sempre mais. A revelação tomará outras formas, seja de descobrimento científico, de síntese filosófica, de revolução social, ou de nova ordem política, mas não pode parar. A evolução deve levar a uma purificação das religiões, porque conduz a um esclarecimento de posições, a uma superação da luta, entre antagonismos, a uma racionalização das relações entre os homens e Deus. Para o homem civilizado isto será mais produtivo, inclusive espiritualmente, porque se apoiará sempre menos sobre a coação psicológica do terror, instrumento de que se abusou demasiadamente até agora, e cada vez mais sobre a livre persuasão e convicção espontânea.

Antigamente, o céu, morada de Deus, era aquele espaço desconhecido que estava por sobre os cimos dos montes e dos pináculos das torres das igrejas. Hoje, esse céu os astronautas o estão explorando sem lá encontrar nem anjos nem santos. Hoje, as religiões necessitam do cientista que nos saiba dizer algo mais do que elas não sabem dizer. É necessário definir, com critérios mais positivos, os conceitos vagos que hoje são objeto de fé, aclarar o que se entende e o que se quer fazer com a espiritualidade, demonstrar para que ela serve, provando a sua utilidade e justificando a sua aceitação. Tudo isto é necessário, se se quer que as pessoas se interessem por tais coisas, porque a tendência atual é, com todo o respeito, a de simplesmente abandoná-las a um canto, como inúteis, e assim, sem nem sequer dar-se ao trabalho de destruí-las, deixá-las morrer por si só.

A crise mais profunda dos tempos modernos é o antagonismo entre ciência e fé. A primeira agora já avança por si própria e não se interessa mais pela segunda, da qual, dado que não serve, prescinde. Certas ideias, que antigamente foram fundamentais, parecem não dizer nada à mente moderna. As religiões dormem e a vida caminha. Elas pretenderiam deter a vida e a vida as deixa para trás. A ciência produziu coisas extraordinárias, e entusiasma, porque avança. As religiões permanecem ruminando as suas verdades eternas e já não interessam porque não produzem nada. Deter-se num mundo em marcha é morrer. Por motivo de se quererem conservar, este é o risco que correm as religiões. Se se intenta algo para avançar, a reação é a condenação. Ai de quem incomoda os que dormem! Quem o faz é um herético. E então, por que perder tempo numa luta inútil para fazê-las caminhar à força, quando isto é tão reprovável? Não é melhor deixá-las dormir e avançar sem elas? E hoje isto é possível porque a ciência construiu as suas próprias pernas e sabe andar só. E isto é precisamente o que o mundo hoje está fazendo. Mas, por que estamos obrigados a chegar a tais conclusões?

Neste volume, como nos precedentes, continuamos viajando pelas estradas do pensamento para analisar como é feito e o que quer este estranho animal, que se chama homem, que, no entanto aspira tornar-se superior; e igualmente para compreender o porquê da sua conduta tão ilógica  e contraproducente. Quem aqui escreve teve de fazer trabalho de pesquisa para sua própria orientação, pela necessidade de viver  inteligentemente, com consciência e conhecimento, compreendendo aquilo que se faz e por quê, para dar à vida um conteúdo sério que não a transforme numa perda de tempo à caça de ilusões. Tudo isto,ele fez, em primeiro lugar para si, para conquistar a sua verdade, e, num segundo momento,  oferecendo-a aos outros na eventualidade que a eles também possa  servir. Chegados a um determinado grau de evolução biológica, que é o desenvolvimento mental e correlativa capacidade de compreender,  não se pode mais viver como autômatos inconscientes manobrados  só pelos instintos, pois sente-se a necessidade de saber para orientar a sua própria conduta em função de uma finalidade superior  a alcançar, inteligentemente coordenados no funcionamento do todo, para realizar um plano que explique, justifique e valorize a vida. Deste desejo nasceram estes livros, o presente e os outros que o precedem, escritos também na esperança de que cheguem a  satisfazer um igual desejo que possa ter nascido em indivíduos situados numa posição biológica semelhante. Pode suceder que outros para encontrarem satisfação necessitem de outras verdades. Tudo  depende do grau e tipo de ansiedade que cada qual sinta, segundo o seu próprio temperamento, especialização de atividade e nível de evolução. Mas o que vale para todos não é tanto uma verdade tomada em empréstimo de outros, fornecida já pronta, como se costuma fazer, com as instruções para o seu uso, mas a verdade que se  descobriu por si mesmo, com as suas próprias forças, que não é repetição do pensamento de outros, que se aceita já confeccionado, mas sim que foi laboriosamente conquistada, experimentando na própria vida e pensando com a sua própria cabeça, olhando com os seus próprios olhos dentro das coisas e do seu funcionamento, para ler o pensamento que ali está escrito.

Nestes últimos livros, conclusivos da Obra podemos descer cada vez mais aos pormenores, focalizando a observação sobre fenômenos em detalhe, porque já foi traçado e demonstrado o sistema científico-filosófico-teológico básico , necessário para a orientação, sistema ao qual podemos agora, a cada momento, referir-nos para explicar, na lógica do todo, a do caso particular, o porquê da sua estrutura e funcionamento, dado que é difícil entender um fenômeno separado do todo, do qual forma parte, não orientado e enquadrado no plano geral. No fundo não estamos aqui senão fazendo as explicações da teoria universal estabelecida nos volumes precedentes, as quais não são apenas explicação de casos e fatos mas também ampliação e controle da verdade daquela teoria. Levada continuamente e mantida em contato com a realidade, com ela a teoria não se choca, encontrando fatos que a contradigam, mas pelo contrário encontra confirmações que a provam. Portanto, tudo isto demonstra que aquela teoria é verdadeira.

Pudemos apoiar-nos sobre tão vastas premissas, foi-nos possível conceber o Evangelho não só como elemento de uma particular religião, mas como um produto universal da vida, que por meio de Cristo foi lançado à Terra como antecipação de futura evolução humana. Assim, o Evangelho já não se nos apresenta apenas como problema religioso, mas biológico-ético-social, presente em qualquer lugar em que o homem se encontre, ou o ser que tenha alcançado o seu grau e tipo de evolução. Foi-nos possível observar o funcionamento do fenômeno: a descida dos ideais à Terra, tampouco controlável em forma positiva tratando dele não de forma vaga e misteriosa com que falam as religiões e o espiritualismo, mas na forma racionalmente convincente da lógica e da ciência, como fenômeno enquadrado em leis conhecidas como a da evolução e orientado no funcionamento do todo. Foi-nos assim possível  realizar o exame do fenômeno da descida das coisas do céu tão difícil de captar, com a forma mental positiva do mundo.

Observemos, até aqui permanecemos no terreno do conhecimento puro. Devemos então completá-lo dando-nos conta também de um outro fato. Existe um outro problema, que é o da realização prática dos ideais descidos do céu quando se trata de se materializarem no ambiente terrestre. Transportar estas teorias à realidade da vida humana poderá parecer fácil a um teórico.  Mas nos fatos o problema não é tanto o de possuir o conhecimento  ideal de um sistema novo e perfeito, quanto o de dispor de material humano adequado a realiza-lo e depois capaz de o fazer funcionar. É inútil dispor de planos teoricamente perfeitos, quando o material que se deve utilizar cai aos pedaços, de corroído. O céu deve contar com as condições que oferece a vida terrestre. Então o problema  básico não é o ideal, mas sanear tal material humano, construir o homem. Como, para construir o organismo humano, antes de coordenar nele infinitas células, foi necessário construir o indivíduo-célula  e cada uma destas, assim, para construir o organismo coletivo - humanidade -,  é necessário construir cada um dos indivíduos, seus elementos. Pelo contrário na descida dos ideais, admira-se a beleza destes, pensando pouco no uso que o homem será capaz de fazer, quando se apropria deles no seu mundo. Atua-se como se a perfeição do sistema pudesse ser suficiente para suprir a imperfeição do instrumento da sua realização.

Nas revoluções, há mudanças de regime, de partidos,  de religião, se altera a forma e permanece a substância, isto é, o mesmo homem que faz as mesmas coisas, tendo apenas mudado o estilo, a forma, a bandeira, o princípio teórico em nome do qual se fazem as coisas. Dessa forma os melhores programas e os mais altos ideais, no fim, não servem para nada, dado o uso que deles se faz. É inútil fazer uma máquina perfeita para depois  entregá-la nas mãos de um macaco, se não se pensa primeiro em  transformar o macaco para não destruir a máquina por ignorância. É assim que os melhores sistemas chegam ao mesmo fim. Eles são aceitos verbalmente, divulgados, tomando-se o credo de um  movimento, mas com a secreta intenção de explorá-lo para obter proveito. Então acontece o inevitável. O involuído que não compreende nada das leis da vida e que se encontrou manejando forças que não conhece, não consegue senão produzir o seu prejuízo. Assim ele fica com o edifício demolido em cima de si mesmo, e com a  necessidade de recomeçar desde o principio tantas vezes enquanto não tenha aprendido a lição, isto é, a saber fazer o justo uso dos ideais que descem à Terra. A penitência é dele. Mas como podia ele de outro modo evoluir? Não será esta na realidade a história  da descida dos ideais?

Ora, a nossa tarefa não pode ser a de impor outra conduta para  transformar o mundo, mas somente a de explicar o que nele sucede; deve contentar-se em compreender aquilo que o homem faz, o porquê e as suas consequências, e não forçá-lo a proceder de u‘a maneira em vez de outra. Nós podemos mostrar como funcionam  as forças da vida, mas nada podemos sobre os seus movimentos.  A reação punitiva que retifica os erros está escrita na Lei e funciona  automaticamente e nenhum ser tem o poder de modificá-la. A uma criança que pratica movimentos arriscados pode-se dizer: "toma cuidado que podes cair e magoar-te", mas não se pode evitar que para ela funcione a lei da gravidade. Por isso procuramos explicar àqueles que possam compreender como funciona o fenômeno, dando um significado exato às palavras.

O céu de onde os ideais descem não é aquele Alto do qual se fala com significado vago, não se sabe onde, como e em que sentido está situado, porque a este conceito não foi anteposta uma teoria geral do conhecimento em cujo seio pode orientar-se. Para nós o céu de onde os ideais descem é constituído por planos biológicos ou níveis de evolução mais avançados, neste sentido superiores (o Alto), planos que é lógico que no processo evolutivo sejam alcançados no futuro. É natural por isso que o ideal hoje represente utopia, porque ele é uma antecipação que desce ao nível terrestre inferior, para que nele se inicie o trabalho de realização daquele ideal. As religiões são então um dos meios que a vida utiliza para a descida dos ideais na Terra, no seu processo de antecipação do futuro, para que assim ele possa atuar na realidade dos fatos. Compreende-se  deste modo a função educadora e civilizadora das religiões e explica-se a contradição entre o que elas recomendam fazer e o que em realidade se faz. Uma religião estende-se de um ao outro destes seus dois extremos: aquilo que se diz que se faça, que se prega, mas que ainda não se faz e que é programa na expectativa de realização futura; e por outro lado aquilo que se faz e que é a realidade da vida, aquilo que ao ideal das religiões cabe lentamente transformar. Elas estão entre estes dois polos: o polo anti-sistema, do involuído e o polo sistema do evoluído. Uma religião na sua amplitude abarca, entre estes dois extremos, todos os graus de desenvolvimento que entre eles estão compreendidos, isto é, uma escala que vai do pecador ao santo, ao longo da qual os indivíduos estão situados e procuram subir.

Assim, a contradição desaparece e fica a função evolutiva das religiões que então não devem ser entendidas como são apresentadas, isto é, como verdades absolutas e imutáveis, mas como verdades relativas, em evolução, proporcionadas a maturação  alcançada pelos seus componentes, portanto progredindo incessantemente, mudando, mas com relação ao ponto fixo final da evolução, situado  no absoluto, do qual essas religiões mais ou menos se avizinham,  o seu ponto de referência em função do qual se realiza a sua progressiva deslocação evolutiva. Ora este fenômeno permanece incompreensível, se olhado com a forma mental das teologias vigentes, feitas de abstrações situadas fora da realidade da vida, na verdade  apegadas ao absoluto pelo desejo de eternizarem em seu nome,  imóvel, a sobrevivência do grupo. Apresentando assim, como aqui fazemos, todo o processo fica logicamente explicado. As sucessivas  reencarnações permitem à assimilação de novas experiências e com isto a aquisição de novas qualidades, através da sua fixação no subconsciente em forma de automatismos. Trata-se de um progressivo  enriquecimento, melhoramento e potencialização da personalidade.  Eis em que consiste a ascensão do Anti-Sistema ao Sistema, da matéria ao espírito, elevar-se em direção a Deus. Tudo isto não é um dogma de uma ou outra religião, é simplesmente biologia, é técnica evolutiva racional e experimentalmente controlada. Assim podemos explicar o significado mais profundo quando falamos de céu, de espírito, do Alto. Então estas palavras não expressam mais apenas uma vaga aspiração da alma, mas assumem um sentido positivo,  um valor real controlável. É assim que o Evangelho não fica fechado numa religião, mas assume um significado biológico universal,  como lei da vida humana do futuro, porque é precisamente para nos preparar para este novo tipo de vida que o Evangelho existe na Terra. Eis que a sua presença no mundo mesmo quando este o inverte e atraiçoa, é justificada, e ele não obstante tudo, cumpre  a sua função, logicamente, segundo as leis da vida e o plano da evolução. Assim tudo está claro e compreensível, assim se esclareceu  o labirinto das contradições, fez-se luz sobre tais problemas  espinhosos, e pode-se avançar, vendo a estrada sobre a qual se caminha. Poderemos assim viver as religiões já não como crentes cegos, mas com os olhos abertos, como crentes videntes e iluminados.

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Impulsionados pelo desejo não de agredir para destruir, posição  negativa da qual nos afastamos, mas para preparar com atitude positiva de construtores para uma religião mais evoluída e inteligente, qual será a de amanhã, entremos agora em maiores detalhes,  observando as posições do atual momento nos vários campos para  compreender que perigos nos ameaçam e em direção a que novas formas e modos de conceber a vida, a evolução nos conduz.

Observemos a atual crise do catolicismo. A que fizemos e ainda  fazemos não é a crítica das religiões, mas da conduta do atual biótipo humano quando ele, na posição de involuído, se encontra envolvido no problema religioso. Foram as poucas observações  feitas neste sentido referentes à Igreja, há mais de trinta anos, de A Grande Síntese ao "Index" que provocaram, entre outras razões, a condenação daquele livro. A honesta tentativa de harmonizar  ciência e fé para atualizar um cristianismo em crise, porque ainda  medieval, pareceu heresia, um perigo para as almas piedosas. E com o "Index" o perigo foi afastado.

O problema continuou. Então era só a voz de um pobre  homem isolado ou de poucos pioneiros, e era fácil fazê-los calar.  Mas hoje aquele problema tomou-se universal pesando como uma ameaça, e os dirigentes são obrigados, não podendo já sepultá-lo  no silêncio, a afrontá-lo e resolvê-lo. Hoje são as massas que querem saber a verdade, fazem-se sempre mais numerosos aqueles que pensam e que, portanto exigem resposta às dúvidas e soluções dos problemas que se tornaram candentes. Enquanto o mundo avança vertiginosamente, os dirigentes dormem entre as almofadas das velhas teologias nas quais ninguém acredita, por se terem feito representantes do eterno, pensando haver de tal modo encontrado o segredo para conservar eternamente as suas posições.

Hoje, em 1964, em autorizadas revistas italianas, por  declarações do próprio clero, encontramos, catalogadas, as seguintes constatações:

1) Os indiferentes constituem já pelo menos os dois terços  da população. Esta constatação feita por uma revista italiana, refere-se à Itália, isto é, a um pais que é o centro do catolicismo. Em 1950, em Roma, verificava-se que só 25% da população era  praticante. E praticante pode não significar que seja de fato crente.

2) As vocações ao sacerdócio vão rareando cada vez mais.

3) A difusão da psicanálise que vai substituindo o confessor;  o afirmar-se do culto da psicologia que explora os segredos do inconsciente e pode curar os seus males, conceitos desconhecidos ao confessor.

4) O desejo de espiritualidade se desloca, procurando satisfação  fora da religião porque nela não a encontra, dirigindo-se para formas não religiosas, não ortodoxas.

Tudo isto é constatação de fatos, de fonte católica. Procuremos  compreender ponto por ponto o que eles significam

1) O grande inimigo do doente não é o micróbio que o ataca, mas é a sua fraqueza orgânica que permite que tal assalta tenha êxito. Assim o grande inimigo do Cristianismo não é o  materialismo e o Comunismo, isto é, os assaltos que vêm de fora, mas é a cristalização, o cansaço senil, a inércia espiritual, a indiferença geral, que são o mal que está dentro do organismo da religião. Inclusive se poderia dizer que as primeiras causas da doença, aquilo que atrai o assalto microbiano e a sua ação destrutora, é o estado estragado do organismo. Em resumo a patogênese depende antes de mais nada da insuficiência e vulnerabilidade orgânica e não do  assalto microbiano, que delas é uma consequência. Quando o ataque  chega e encontra o organismo são e armado para resistir, ele mesmo o fortifica, despertando a reação do instinto vital de defesa e impulsionando-o à vitória. O outro caso é mal de velhice, que deixa morrer tranquilamente em silêncio. Então, materialismo e  comunismo teriam nascido como um efeito de tal debilidade orgânica, chamados pela vida e utilizados como instrumentos de liquidação daquilo que esgotou a sua função biológica.

É importante para a própria sobrevivência compreender a estrutura de tal fenômeno. Para que o doente se possa salvar, é necessário um diagnóstico exato, porque só deste modo se sabe  dirigir a própria ação defensiva contra o verdadeiro inimigo, que neste caso não é tanto o assalto proveniente do exterior quanto a debilidade do organismo contra o qual aquele está dirigido. Isto significa que o tratamento para a salvação consiste não só em  armar-se para combater contra o inimigo, o que é inútil quando não se possuem as forças espirituais para conduzir à vitória semelhante batalha, mas também em sanar as próprias debilidades fortificando-se no terreno reservado à própria competência, onde se é mais potente e onde os demais não podem entrar: o espiritual. Uma semelhante transformação seria um remédio seguro. Mas ele representa  sacrifício, o medicamento é amargo e procura-se evitá-lo por outros  caminhos. Para quem representa o Evangelho não existe outra salvação a não ser segui-lo, pois para quem caminha pelas estradas do espírito o poder e a defesa não podem estar senão no plano espiritual. Ligar-se às forças do mundo significa atraiçoar e portanto perder esse poder e aquela defesa. Este pode ser o erro fatal. Claro que uma operação cirúrgica é melhor fazê-la por iniciativa própria do que ser imposta pelos outros. Hoje tudo parece calmo, como se estivesse no cume do poder. Na Igreja não há cismas, reações  agressivas. Na Itália todos ou quase, se declaram católicos,  respeitosamente, por tradição. Mas o problema religioso não interessa mais. Será esse desinteresse o cansaço senil que precede a paz do cemitério? Não se perde mais tempo em discutir e muito menos em agredir.  As novas gerações perguntam-se o que significa esse mundo que ficou fora da realidade. Com delicada deferência, como se deve fazer  com as coisas beneméritas e preciosas, a vida abandona a religião,  como a uma senhora velha e inútil, incapaz de caminhar, à margem da estrada, e continua avançando por sua conta.

2) Quando as células novas não se substituem mais às velhas, o organismo não se renova e a sua vida acaba. Então ela passa para outro organismo porque o velho já não lhe serve. Hoje está desaparecendo a razão pela qual se realiza essa substituição. Se o indivíduo é espiritualista, ele se vê obrigado a entrar num  organismo principalmente político e econômico, no qual a espiritualidade  se situa num segundo plano. Se o indivíduo atua por cálculo,  não há razão para que ele deva eleger uma carreira de muitas renúncias e escassa remuneração. No passado, a vantagem econômica  e uma boa posição, podiam, mesmo que inconscientemente, dar origem a muitas vocações. Mas hoje o poder terreno passou a outras mãos e a vida oferece outras vias mais proveitosas. É natural  que na Terra o cálculo da utilidade material esteja na base da vida. Por outro lado, quem deseja saber não estuda teologia, mas se satisfaz com conhecimento científico mais positivo e, quem quer ganhar, obtém deste conhecimento resultados mais concretos e  vantajosos. Para se apoiarem, restariam as massas supersticiosas  e ignorantes. Antigamente elas podiam servir de base, mas nos países  civilizados elas hoje vão desaparecendo.

3) Atualmente, a técnica psicológica e terapêutica do pecado e remissão  com a penitência não governa mais perante os novos conhecimentos  psicoanalíticos adquiridos. A cura do erro mental não se faz mais com base em abstrações filosóficas e teológicas situadas fora da realidade biológica e com regras mecânicas, mas sim em forma mais inteligente e positiva, com a indagação no subconsciente,  na estrutura da psique, com a demolição daquelas construções mentais erradas e esclarecimento daqueles enredos psicológicos  chamados complexos etc.. O confessor não possui nenhuma  competência na matéria, a indagação psicológica descobriu novas  profundidades na alma, portanto ele não pode assumir a direção da vida espiritual alheia, tarefa complexa, de gravíssima responsabilidade. Por isso muitos se dirigem ao psicanalista. Isto não representará uma solução melhor mas demonstra que a necessidade de uma  orientação espiritual subsiste e dirige-se a outro lugar, porque o  confessor já não o satisfaz. Este com a sua posição de tribunal armado de penas infernais, adapta-se cada vez menos à mente moderna, porque, frequentemente, se trata de um enfermo que invoca compreensão e ajuda, busca um médico e não um juiz que só sabe fazer-se intérprete e instrumento da vingança de Deus.

4) Confortando-se com a ideia de uma sobrevivência do desejo de espiritualidade, as referidas revistas admitem que tudo se pode remediar, falando uma linguagem nova, com a chamada "atualização”, como se para poder resolver um caso tão grave pudesse bastar uma substituição de palavras e posições, assim como se faz com a moda. Claro que se trata de uma crise. Então, vendo em perigo a própria sobrevivência, o clero se apressa a fazer reparações, e, para remediar, adapta-se atendendo às exigências dos novos tempos. Mas poderão bastar as hábeis medidas preventivas? Não se tratará agora de uma crise mais profunda, devida a um método milenário não cristão de contorção do ideal, crise travada por séculos, mas que por lei da vida não pode deixar de explodir, destruindo as velhas instituições corrompidas por este seu intimo negativismo? A espiritualidade não se perde, mas se desloca, buscando outros  organismos. Que significa isto? Representada na forma usada pela  organização eclesiástica, ela já não cumpre mais a sua função, porque é um produto repelido. Poderá a vida manter de pé uma organização  que, não realizando um trabalho útil, não tem mais razão de existir. Em vez do problema da espiritualidade, não teria sido o da própria sobrevivência o que mais interessou e ainda interessa àquela  organização? As massas observam, tornam-se inteligentes, querem ver e não estão mais dispostas a aceitar só por principio de autoridade e de fé. A sociedade moderna se está transformando num organismo no qual cada indivíduo deve dar à coletividade uma contribuição útil, enquanto paralelamente a este seu dever tem o direito de exigir que todos os outros, em contrapartida, façam o mesmo. Os parasitismos não são mais admitidos, todos devem  produzir alguma coisa cumprir uma função, inclusive no campo  espiritual. Assim se observa, se controla, se fazem as contas,  abandonam--se as teorias e procura-se o concreto,  eliminando-se o que não serve.

Torna-se pouco convincente esta mudança de métodos, como acontece no terreno da moda, e isto, principalmente por  tratar-se de quem baseia a sua posição sobre princípios absolutos e eternos. É o mundo que estabelece e impõe esta moda, e é o  absoluto que a ela se adapta, aceitando as suas diretrizes.  Existe também o método tradicional de aliar-se sempre com o mais forte,  no passado com os ricos, os poderosos, e hoje procurando ir de encontro às massas pobres porque, organizando-se e fazendo-se valer pela forca do número, elas se estão tornando as mais fortes. E para o objetivo da sobrevivência, dará indefinidamente resultado este  tipo de jogo? Isto parece um duplo jogo: aliar-se por um lado com Deus por outro com o mundo, seu inimigo, uma posição insegura por ser contraditória. O homem já não é a criança de ontem; vê, observa, e tendo-lhe sido inculcado o respeito, respeita, cala  e afasta-se. Numa época na qual se faz um novo exame de todos os  valores humanos para selecionar o melhor e descartar o inútil, os erros passados, antigamente suportáveis, vêm à superfície e já não se  toleram. Historicamente a religião que deveria ter denunciado os abusos dos ricos para ir ao encontro dos necessitados, afiada com os primeiros, havia-se transformado num tranquilizante, ópio dos povos, para manter quietos os pobres, exortando-os à virtude da  paciência e prometendo o paraíso a quem sofre, enquanto os outros gozavam imediatamente o paraíso nas suas costas.

Para que servem estes remédios improvisados? Não será uma grande ilusão esta de crer que o Cristianismo se possa  salvar só com tais paliativos, só com retoques de forma, em vez de mudar radicalmente de método, fazendo-se cristão a sério, tomando uma posição nítida do lado do espírito, sincera, sem compromisso com o mundo, ao aceitar as suas modas e ao colocar-se à sua  disposição para salvar a sua própria posição? Agora já se vê o jogo destas adaptações, com finalidade de conciliar à força dois termos opostos. Um poder que dura há dois mil anos não pode fazer outra coisa senão adaptar-se às mais contraditórias posições históricas, mesmo aquelas que são o mais estridente contraste com os princípios  professados. A história fica escrita e não Se pode apagar. Parece que aquilo que no meio de tantas mudanças, fica sempre imutável, podia-se dizer o ponto absoluto de referência, é o método da  conveniência própria, um argumento que o mundo bem conhece e  compreende. Então ele apercebe-se do poder que tem de impor-se às religiões, vê que na Terra ele é o dono, é quem manda; a ele até o absoluto obedece, adaptando-se às suas vontades e desejos.

O Comunismo não poderia avançar, se os pontos  débeis da parte oposta não constituíssem outras tantas portas abertas para o deixar entrar. Um organismo forte não adoece. Uma doença é sempre a consequência de um defeito ou culpa. Mas então se  vive com o médico no hospital. Mas que esforço, que trabalho, que despesa, recuperar a saúde! E então surge a pergunta: se estão se iludindo aqueles que creem que seja possível salvar-se com tais recursos, o avanço do Comunismo não representará antes uma nêmese histórica, uma fatalidade inevitável, enquanto tudo isto não é senão o pagamento das dividas contraídas perante as inexoráveis leis da vida que exigem justiça. Não seria então mais salutar, inclusive do ponto de vista da própria sobrevivência, pôr-se sinceramente a trabalhar exclusivamente para as coisas do espírito? Mas pode surgir a dúvida: compreenderão as massas ou será já demasiado tarde para que elas se possam interessar por um trabalho de profunda renovação espiritual ao qual se tomaram completamente insensíveis, depois que aprenderam a mentira institucionalizada? O exemplo do jogo das acomodações veio de cima, os fiéis o aprenderam e, por ser cômodo, já não renunciarão a ele. Claro que ele deu, no passado, vantagens imediatas e a ele se deve em grande parte a sobrevivência milenária. Mas é inevitável que se deva depois chegar até às suas últimas consequências de cada coisa. A salvação a longo prazo está no jogo único, retilíneo, sincero. Todo o desvio desta conduta poderá seduzir-se, no momento, pelas vantagens imediatas que se oferecem, mas representa um princípio negativo de envenenamento e corrupção que tende a destruir o organismo envenenado.

Não possuirá a Igreja uma força espiritual toda sua? Por que então renuncia a esta força imensa para servir-se e cair vítima da outra, a ilusória, a do mundo? Cada nação ou povo tem algo para dizer nesta nossa hora histórica, e a Igreja, se quisesse, teria coisas tremendas para dizer. A tempestade é forte. As velhas tapeçarias que tudo cobriam e escondiam, voam com o vento. Procura-se repará-las e não se vê que é a casa que se desmorona e que é necessário fazer outra desde a base. O ciclone chega, o terremoto está em ação, e entretanto não se pensa senão nos retoques. A aristocracia francesa antes da revolução, como também a russa ficavam inertes. Isto talvez porque, quando chega a hora e o tempo está maduro, é inútil pôr-se a reparar a velha casa que não serve mais. Então a vida não perde mais tempo com isso e põe-se, pelo contrário a construir tudo desde o princípio. O problema atual não é o de saber-se adaptar ao colorido do novo ambiente humano para sobreviver, de aceitar em posição de subordinado as transformações que ele impõe, e isto para salvar a sua própria posição; trata-se de gritar bem alto a palavra do espírito, fazer ver com o exemplo que ela é verdadeira e em nome dela e por seu intermédio colocar-se por cima do mundo, consciente do grande valor que se possui e que se tem o dever de afirmar para que a humanidade seja salva. É  necessário conquistar o sentido da sua própria missão no mundo e com a própria vida pôr em evidência os valores do espírito, para fazer tocar com as mãos quanto é real o seu peso e valor. É necessário descobrir e compreender que o espírito representa uma força tremenda maior do que a da bomba atômica, à qual ele se pode  contrapor, vitoriosa. Mas para chegar a isto é necessário sentir, encarar, viver o espírito, afirmando-se numa luta superior, tipo evangélico, conduzida com os fatos e não só com as palavras. É necessário compreender que as medidas tomadas com o objetivo de salvar os próprios interesses, nada salvam, nem sequer estes.  Semelhante método é negativo, expressa um desvalor, uma  incompreensão da situação, firma inaptidão para salvar-se.  Para fazer isto é necessário ser positivo no sentido construtivo  que a vida exige, pôr-se assim em colaboração com ela e, se não  o fizer por pensar só em si próprio, ser então por ela abandonado.  Cuidado com o meter-se contra a vontade da vida que quer progredir. Ela está pronta a ajudar a subir quem possua um valor, a fazer vencer  quem a secunda nos seus fins e se oferece como instrumento  para a realização destes As religiões possuem este valor, têm o seu monopólio, mas em vez de utilizá-lo, o deixam dormir bem guardado em cofres de ouro, para dar-se conta, um dia, que eles estão vazios, porque o espírito, que ninguém pode encerrar, fugiu, para ir reviver noutro lugar.

Lógico, o desejo de espiritualidade permanece de pé. Não se pode destruir esta que é uma necessidade humana, uma ânsia natural de evolução, que faz parte das leis da vida. Mas é precisamente nisso que, em vez da salvação, reside o perigo para a religião. É certo que o impulso em direção à espiritualidade não desaparece, mas é obrigado a dirigir-se a outra parte. Isto sucede precisamente porque a religião não sabe mais satisfazer este desejo de espiritualidade, o que quer dizer que não cumpre mais a função que lhe dá o direito à vida. Isto significa a falência da religião e a intervenção das forças da vida para liquidar a sua atual forma, que não corresponde mais aos imperativos que ela impõe. É assim que a espiritualidade permanece, mas abandona uma religião que não a satisfaz mais. Pode acontecer que noutro lugar seja pior, e que pouco beneficio traz mudar de casa. Mas a verdade é que  uma casa inóspita se abandona. E se continuará andando à procura de outra, para satisfazer o seu desejo de espiritualidade. É provável que se encontrem sempre as mesmas coisas porque o homem é o mesmo em toda a parte. Então a quem clama por espiritualidade não resta senão ficar só com Deus, dado que para ele as casas do mundo são quase todas mais ou menos inabitáveis. Não podendo ele sozinho fazer algo para a salvação dos outros, não lhe resta nada senão ficar observando como se arranjarão os habitantes dessas casas, que ameaçam ruir sobre eles. Ele se afasta em silêncio, respeitosamente, como fez Teilhard de Chardin, permanecendo fiel a Deus como ele o sente, e ao seu ideal ao qual não pode renunciar sem atraiçoar-se a si próprio. Tudo acaba por chegar e todos deverão resolver os seus problemas.

Já falei claramente há trinta anos. Hoje se pode ver quão fundado era o meu temor de uma crise de religião, quão grave e iminente era o perigo previsto. Um indivíduo isolado pode tratar somente de não errar para si, ficando responsável só por suas ações. Ele não pode impedir que o homem seja o que é, e assim  permaneça de fato. O clero não pode ser constituído por super-homens, nem uma consagração e enquadramento disciplinar nisso pode transformá-los, nem pode fazer com que intimamente eles não continuem sendo o que são e não funcionem com a forma mental do homem do nível evolutivo atual.

É verdade que hoje a Igreja trata de renovar-se. Mas sobre ela pesa o seu passado durante o qual muitas vezes se colocou nos antípodas do Evangelho em contradição com Cristo, aceitando o poder temporal, fazendo guerras, aliando-se com os ricos poderosos, metendo-se em política. Como reabsorver tudo isto? Como fazer esquecer este passado? Ele é pesado e as instituições milenárias não podem evitar ter de arrastá-lo. Uma casa na qual se habita há dois mil anos torna-se tremendamente velha, não mais adequada a poder viver-se dentro dela. Então, ou ela é deixada respeitosamente em pé como um documento histórico e se vai habitar outro lado, ou ela é destruída para utilizar a área edificável onde construir um novo edifício. Isto é necessário também para resolver o problema da defesa, que, em nosso mundo feito de luta, é sempre fundamental. Como o resolve a Igreja?

Já que o Evangelho a despojou das armas materiais com as quais se conduz a luta na Terra, na qual no entanto se tem de viver, e já que num mundo de luta uma arma é indispensável, à Igreja não restaram senão as armas espirituais, isto é, de natureza psicológica. Mas, com o andar dos tempos, estas se tornaram antiquadas. Elas governam perante a forma mental ignorante, supersticiosa e sugestionável do passado, mas hoje não governam mais perante a moderna mente crítica e racional. Acontece então que não vale mais nada tratar de defender o velho castelo de grossas muralhas, fossas e arcabuzes, no período da bomba atômica. Não persuade mais, e portanto é de efeito psicológico negativo, a teoria de um inferno pela qual um anti-Deus vence definitivamente a Deus, fixando-lhe a falência para toda a eternidade; não aterroriza mais uma ferocidade cruel da qual, devido à nova civilização, falta a experiência quotidiana, que antigamente mantinha viva tal psicologia que no mundo moderno vai perdendo cada vez mais significado como valor defensivo. Portanto mesmo se quisermos ficar só no terreno da luta pela própria sobrevivência, as armas que a Igreja possui não lhe servem mais para este objetivo.

Ela teria meios maravilhosos para resolver o problema, porque Cristo não a deixou sem armas, mas lhe deu outras, de outra natureza. O difícil é compreendê-las e querer usá-las. A Igreja teria podido superar este problema da necessidade de uma defesa com armas terrenas, emergindo por sobre o plano humano em vez de ficar ali submersa, e colocando-se exclusivamente sobre o plano espiritual. Existiria um argumento poderoso: o de afirmar a presença de uma Lei de Deus, racionalmente compreensível e cientificamente demonstrável, à qual ninguém pode fugir e pela qual qualquer esforço que o homem faça, no final não é a sua prepotência que vence, mas é a justiça de Deus que sobre todos e tudo comanda. Mas para muitos a aceitação de tal princípio encontra dificuldade porque não admite escapatórias, não permite fáceis acomodações, não suporta aquela elasticidade pela qual, sofisticando e interpretando, se podem levar as teorias a qualquer conclusão que se queira. Usando este outro sistema, da total sinceridade sem artifícios, aqueles que antes de mais ninguém deveriam não só pregar, mas também viver os princípios, seriam os dirigentes. Claro que então a defesa seria automática; mas defesa da instituição e não somente dos integrantes que a representam, porque a estes importa, em primeiro lugar, a defesa de si próprios, e a defesa da instituição só existe em função da sua própria defesa.

Como se vê, se necessitar-se-ia de uma outra forma mental que não se pode pretender do homem situado no atual nível de evolução, obrigado, portanto, a funcionar com a forma mental construída pelo seu passado, proporcionada a um ambiente de luta e suas respectivas exigências, no qual, para viver, é necessária uma arma e, em que a justiça do involuído não reina ainda, por causa do estado involuído. Explicar semelhantes conceitos significa muitas vezes pretender a compreensão daquilo que, num dado nível biológico, representa ainda uma coisa inconcebível. Trata-se de duas formas mentais e posições totalmente diferentes. O involuído, para sobreviver, problema fundamental para todos, procura tanto a arma material quanto a psicológica, porque ele está submerso no nível  evolutivo onde impera a lei da luta e a vida é concedida só a quem sabe guerrear e vencer. O evoluído, ainda para sobreviver, porque pertence a um outro plano de evolução, onde é o estado orgânico o que prevalece sobre o caótico, adota a lei do "ama ao teu próximo", onde o método da opressão é um absurdo contraproducente e vale o da  justiça, que é o método do Evangelho e do verdadeiro cristão.

Ora, se este método, é inaplicável, por imaturidade biológica para resolver o problema, vai-se em busca de outros expedientes. Reveste-se a Deus não mais de poder punitivo (antigamente eram os raios de Júpiter), mas de misericórdia e de bondade. Como ainda o sistema de atemorização não tem mais  aplicação, escolhe-se a arma do convite atrativo, esquecendo-se porém de que estamos na Terra, onde continua a vigorar a lei do mais  forte, onde cada dependente sabe quando o patrão se faz bom, isto é, porque ele se tomou fraco, e que é esse o momento para cair-lhe em cima. Se do plano do espírito se desce ao do mundo, então é necessário aceitar os tristes métodos deste: se recebemos astúcia, responda-se-nos com a desconfiança, porque à nossa ação de um determinado tipo não podemos pretender que nos responda  uma reação de tipo diferente.

Usa-se em defesa própria o princípio de autoridade, mas que a origem da qual ela deriva é a força, depois ordenada e apresentada numa forma de legalização que se chama justiça. Assim o princípio de autoridade leva consigo uma triste tradição, porque, mais do que para educar e ajudar a evoluir, como deveria ser a função das classes dirigentes, muitas vezes serviam para desfrutar e oprimir, isto é, para deseducar e ajudar a involuir. Em semelhante regime, como é interpretada uma ação de bondade? Procurar-se-á utilizá-la com desconfiança. A bondade será interpretada como uma debilidade da qual, sem comprometer-se, rapidamente se tentará tirar proveitos. Abandonados assim os processos de atemorização com castigos no além-túmulo, agora que eles  perderam o seu poder psicológico, as armas do amor, usadas somente para sobreviver na Terra e não para as conquistas espirituais,  poderão servir para este outro uso, que é o de salvar as próprias  posições terrenas? O exemplo de Cristo mostra-nos que o amor na Terra quando não é em função do sexo que leva à procriação, é sacrifício que conduz à morte. A autoridade se desarma e cede? Então o momento é bom para afirmar, contra a autoridade, a liberdade, ideal que naturalmente os subordinados interpretam como vantagem própria. Eles sabem que a autoridade não cede por amor, mas porque não tem outro modo para salvar a sua sobrevivência. Se tivesse  sido por amor, poderia ter-se manifestado muito antes e não só agora obrigado pela ameaça de um perigo. Persuadirão estas tardias conversões ao amor evangélico, quando as massas, à sua própria custa, aprenderam que as melhoras se obtêm conquistando-as com as próprias forças e não esperando-as da generosidade dos demais? Quando os ricos eram poderosos, a Igreja, apesar de que o Evangelho os condene, apoiava-se neles. Mas hoje que sobre eles paira o perigo do Comunismo, eis a Igreja indo ao encontro das massas pobres, agora tornadas poderosas, adaptando-se a elas, e com atitudes evangélicas apoiando a justiça social. Quando Luís XVI, herdeiro de uma monarquia que havia atraiçoado a sua função, pela sua bondade confiou no povo e, para evitar derramamento de sangue, afastou de Versalhes os destacamentos de defesa, esse povo se aproveitou para fazer o rei prisioneiro e não se deteve até que o matou. Mas talvez fosse inútil resistir porque os abusos passado; daquela monarquia era necessário pagá-los e foram pagos. Ninguém pode impedir que às causas, mesmo longínquas, se sigam-se os respectivos efeitos.

Para que serve apresentar, hoje, um Deus vestido de  bondade e misericórdia senão para oferecer uma escapatória muito rebuscada à absoluta justiça da Lei? A vida é utilitária e trata de desfrutar de tudo para subsistir. Quando encontra quem cede por bondade, serve-se dele para tirar vantagem, não para recompensá-lo com o sacrifício antivital de outra tanta bondade em proveito de outro, em vez de si próprio. Então a bondade serve para o abuso, porque alimenta a esperança de que a justiça não se cumpra. Tentativas de evasão e de aproveitamento, se bem que absurdas e ilusórias, mas que são no entanto frequentes porque fazem parte do utilitarismo em que se apoia a economia da vida, e que leva a procurar o atalho para chegar ao maior resultado com o mínimo esforço.

Hoje, as belas construções religiosas nas quais tranquilamente dormiam os povos nos séculos passados, já não governam. Tem-se necessidade de honestidade, sem a qual acaba a confiança e os clientes se vão. Estamos em época de revisão de todos os valores e se varrem as superestruturas inúteis. Vai-se ao terreno firme. Descobrem-se as leis que regulam a vida, que assim é  enfrentada na sua substância, em contato com a realidade biológica. Procura-se endireitar e, quando não se consegue, procura-se eliminar tudo o que, mesmo que seja em si mesmo ótimo, se tornou venenoso pelo mau uso que se faz dele. O que sucedeu com as monarquias, procura-se fazer agora com o instituto da propriedade e pode suceder com o Cristianismo, com o próprio Comunismo, ou com qualquer instituição que queira coloca-se em tais condições antivitais. A vida tende a destruir tudo o que por mau uso haja sido corrompido. Também no campo fisiológico, um organismo viciado tende à morte.

Por isto é perigosíssimo em religião o duplo jogo, por um lado com Cristo e por outro com o mundo, porque se somam os perigos e não as vantagens. Por isto, se a atitude evangélica da  Igreja fosse só oportunismo para sobreviver, o remédio seria pior que o mal, talvez uma tentativa de suicídio. De resto a perda de um Deus, como foi apresentado até hoje, que se dedica a comandar e exigir sacrifícios, pode despertar em muitos, poucas lamentações. Para a vida libertar-se de quem se dedica a fazer temer e servir mais do que a ajudar, é mais vantagem do que dano. Então, para que tire proveito deste conhecimento de uma outra face de Deus, é necessário que esta transformação do império em amor, da autoridade em compreensão, seja real, tenha lugar nas almas, que esta nova face de Deus se faça ver através daqueles a quem corresponde expressá-lo com evidência. Tudo isto não significa senão regressar ao verdadeiro espírito cristão, ao Evangelho, e como dizemos sempre, torná-lo a sério. Trata-se de uma reforma de substância e não de forma, não de uma atividade exterior à procura de meios e de prosélitos, de número e de poder, mas sim de um novo modo de conceber a vida, de um Evangelho ainda não visto e passado em silêncio até agora. Trata-se de fazer ver pelos fatos aquilo que vale e pode o espírito, perante o mundo, por sobre ele. Se o bem-estar econômico hoje é supremo ideal, é necessário fazer ver que ele não basta, que ele contém uma imensa lacuna que é necessário preencher, um vazio que é a falta de outra riqueza que é preciso oferecer e da qual o mundo tem fome. Mas, para oferecê-la é necessário possui-la.

Quando a religião realizar uma função útil à vida, que também dos valores do espírito, e não representar somente a sobreposição de uma casta pelo seu próprio interesse sobre as utilizadas como pedestal, só então a religião voltará a ser e, como valor biológico, terá direito à vida. Hoje o homem é prático e concreto. As incontroláveis autorizações divinas convencem mais; não basta fazer-se representantes de Deus para justificar o próprio poder. É necessário demonstrar a sua utilidade social. Na sociedade moderna, de todos se exige um trabalho, uma produção, uma função útil à coletividade, uma contribuição para ela, que, em troca, dê o direito de viver ali. O resto é parasitismo, que já não se suporta. E o trabalho espiritual é um dos mais preciosos porque representa uma função necessária à vida, a de fazê-la avançar ao longo da estrada da evolução. O bem-estar material representa a satisfação das necessidades animais do involuído: viver e multiplicar-se, e ninguém lhe nega a importância. Mas o que mais vale na vida é o que está em cima e não atrás da evolução, é o espírito que avança em direção ao Alto. Hoje se emborcam as posições e se coloca o bem-estar material como um fim e não como um meio para um fim mais elevado, que não seja o de gozar animalescamente na Terra, mas o de ascender a formas de existência superiores. A vida só pela vida é um círculo vicioso, é um trabalho que se anula consumindo-se a si mesmo. Numa biologia completa há lugar - e que lugar! - também para as religiões, porque elas, com a técnica da descida dos ideais, cumprem uma função fundamental, qual seja a de ser instrumento de realização da maior finalidade da vida, a evolução.




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