A Tecnica Funcional da Lei de Deus

Observamos o fenômeno de nossa vida e destino. Existir, no relativo, significa possuir uma duração própria, como transformismo fenômenico, que é o incessante caminho do devenir, ao longo do qual se move. Este movimento é na direção evolutiva, isto é, na direção do AS para o S. Cada forma de existência, cada fenômeno, cada vida é constituída por uma trajetória ao longo do qual se movem. Esta trajetória tem o seu percurso estabelecido pelos impulsos que a lançaram. Cada fenômeno está fechado dentro da sua lei, que lhe estabelece o desenvolvimento. O mesmo acontece no fenômeno de nossa vida. Pode-se estudar a estrutura da personalidade humana enquanto é constituída por um feixe de forças em movimento.

Observemos o caso de nossa vida. Voltemos a conceitos já observados para tratá-los agora mais a fundo. Já tratamos em outro lugar da estrutura e da formação da personalidade. Do nascimento até os vinte anos, o indivíduo trabalha no seu desenvolvimento físico e mental, repetindo e reassumindo o caminho que sua evolução percorreu no passado até chegar ao ponto em que se encontra. Mas, findo este trabalho  de repetição no qual a trajetória da vida retorna sobre si mesma para reassumir todo o passado, na época da maturidade se inicia o lançamento da trajetória de uma nova vida. Esta se desenvolverá em obediência ao lançamento inicial, até atingir seu apogeu, para depois descer, descrevendo um arco e fechar sua trajetória.

Quais são os princípios que regulam este arremesso em órbita, para seguir o trajeto que chamamos destino? Esse trajeto só chega a ser conhecido pelo indivíduo já velho, com o caminho já percorrido, quando retrospectivamente tudo pode ver. Mas jovem, ignorando-o, ele o segue por instinto, movido por seus impulsos, agindo sem consciência do que faz. Estamos numa fase determinista. Nesse período, com experiência mínima, tomam-se as mais graves decisões e as posições que constituem as bases de toda uma vida, as quais permaneceremos ligados até o fundo. Se fosse justo responsabilizar o indivíduo, lógico seria que ele tomasse suas decisões na velhice, isto é, em estado de maior consciência e maturidade espiritual. No entanto acontece o oposto. Ele faz o arremesso no momento em que é mais inexperiente, incapaz de prever, deixando-se cegamente dirigir pelos seus impulsos. Então nos perguntamos: que significam os impulsos que movem o indivíduo, como existem, quem os construiu? São eles o resultado do passado, porque dependem das qualidades  com que o indivíduo construiu seu tipo de personalidade, que permanece definida por elas, como um feixe de forças em movimento, interligadas num campo dinâmico fechado. Tudo isto se formou através de experiências de vidas precedentes e representa o resultado impresso no subconsciente, constituindo o capital armazenado que o indivíduo carrega consigo na vida sucessiva. São essas as qualidades que estabelecem quais são as atrações e as repulsões que determinam, no ambiente, a escolha de uma coisa ou de outra.

Desde o ingresso na nova vida tudo está fixado, o que significa que já estava estabelecida a direção da trajetória, porque o arremesso foi feito desde o final da vida precedente, pelas forças livremente em movimento e que acompanham o indivíduo até a sua exaustão.

 Tudo se faz segundo a lógica e a justiça. Ocorre no momento devido, corresponde ao mérito, respeitando a devida responsabilidade. Quando o indivíduo atinge a maturidade, não é necessário que ele seja esperto e consciente para escolher, porque a escolha já foi feita, sendo essa mesma escolha conseqüência do tipo de trajetória que foi lançada.  Agora ele já não pode mudá-la, e é por isso que ele  apresenta-se sob a forma de fatalidade do destino.

Pudemos assim compreender o que é o destino, a técnica funcional desse fenômeno e a lógica de sua estrutura determinística, que, se parece violar o nosso livre arbítrio, na realidade respeita-o plenamente. Ao nascer, a personalidade é nitidamente individuada, não só como estrutura, por suas qualidades, mas também como trajetória em movimento, resultante das forças que nela estão atuando. Isto significa que a órbita do próprio destino já está estabelecida e calculada em função apenas desses elementos componentes. O indivíduo na época de sua maturidade, como conseqüência da vida precedente e das conclusões deste, fixa com impressão indelével na personalidade os resultados da sua experiência. Nesse momento é preciso ajustar contas com a bagagem que cada um traz consigo, acumulada no passado. É com esse material que vai ser construído o próprio destino. Por isso ele é determinista, e se apresenta com caráter de fatalidade, porque não é senão conseqüência de resultados já fixados de experiências não em fase de formação, mas realizadas e concluídas. Por exemplo, se explica como irmãos nascidos dos mesmos pais e crescidos no mesmo ambiente, recebendo a mesma educação, percorrem vidas diferentes, com destinos diversos. É que o patrimônio pessoal de um não é o mesmo do outro e, portanto, só podem seguir trajetórias diferentes. Na mesma casa os procedimentos não são iguais, e da mesma coisa farão usos diversos. O que decide mais do que aquilo que a vida nos oferece, é a aceitação, é a preferencia e isso depende exclusivamente do indivíduo.

A parte mais importante da própria vida, cada um a traz consigo. Então é inútil dizer depois: “se tivesse feito de outro modo”. Dado que não se pode fazer de outra maneira. Para proceder de outra forma é necessário ter outro destino. Mas como o indivíduo pode ser outro, com outro tipo de personalidade e com outras qualidades? Que se procure, pois, viver corretamente porque tudo recai sobre nós. Uma vida errada nos liga a um doloroso destino de correção, o que significa uma grande fadiga, a que ficamos ligados. Urge corrigir, pois, em tempo, a trajetória, enquanto a percorremos durante a vida, introduzindo nela, com o nosso livre arbítrio, novas modificações, ou melhor, ainda não lançá-la de modo erado, para que não se fixe e não se torne destino fatal.

É importante o problema da correção de trajetória do próprio destino. Importante para a nossa evolução e redenção. Tal correção não é fácil. Segundo o próprio tipo de destino, as forças que constituem a personalidade atraem as forças afins, com as quais estabelecem uma ligação, formando em torno do indivíduo uma atmosfera semelhante a ele, que ele respira, e de que se nutre, confirmando as suas qualidades, boas ou más. Isso reforça os impulsos que deram origem ao lançamento da trajetória e tende ainda mais a mantê-la ao longo de sua linha de desenvolvimento, resistindo aos desvios, de modo que ela chegue à sua conclusão boa ou má, segundo a direção assumida. Certamente, se essa direção estiver errada, a correção requererá um esforço proporcional a fim de empurrá-la noutro sentido, esforço que somente o indivíduo que vive tal destino pode fazer, porque o projétil lançado e as forças que o movem são as qualidades pessoais.

Eis então que se pode estudar uma técnica para praticar uma terapia dos destinos errados, pela correção das trajetórias mal orientadas que levam a espatifar-se contra a resistência da Lei, que não se deixa violar como, na sua inconsciência, o indivíduo quereria. Esta será uma terapia à base de antídotos adaptados para neutralizar as qualidades venenosas adquiridas em vidas anteriormente erradas. As várias morais que a humanidade possui têm justamente a finalidade de impedir, com uma sábia conduta, a formação de trajetórias de tal tipo e, uma vez formadas, corrigi-las, reconduzindo-as à sua justa direção, a estabelecida pela Lei.

Sem dar explicações, tais morais desempenham esta importante função de modo simples, proporcional à ignorância das massas, ditando normas práticas, prontas para o uso, confeccionadas para tal fim. Estas morais são como trilhos oferecidos como guia pré-estabelecida para não errar a direção no lançamento das trajetórias, evitando, dessa forma, a implantação de destinos errados.

Tenha-se sempre em mente que para os seres rebeldes que tentam lançar órbitas erradas do tipo AS, a Lei, que dirige nosso universo já fixou qual é o tipo de órbitas para seguir segundo o modelo dado pelo Sistema. Ora, aqueles que praticam o mal pretendem estabelecer em oposição a órbitas de tipo Lei, órbitas do tipo anti-Lei, na mesma direção, mas em sentido contrário. Ocorre então o que sucederia a um automóvel que se lançasse na contramão enfrentando o tráfego contrário. Então é fatal o choque com a Lei. Mas as forças que a constituem são mais poderosas que as que formam a personalidade do indivíduo, que, deste modo acaba levando a pior, enquanto a Lei continua intacta e triunfante em sua rota. Não é mais conveniente observá-la do que expor-se a sofrer as duras conseqüências a que leva quem tenta infringi-la? É inútil tentar, pois a Lei é mais forte e vence. E, apesar de tudo, o homem é tão ignorante que se julga sábio quando se põe a funcionar contra Ela.

É fato positivo e inviolável que diante de qualquer desordem está a Lei. Esta fica em seu lugar, quer o homem a compreenda quer não. Deixando-o, pelo contrário, pagar, duramente, com a própria dor o erro de ir contra ela.

É inútil iludir-se. A revolta queria destruir o Sistema, no entanto ,produziu uma zona periférica emborcada. O Anti-Sistema, em cujo centro ficou o Sistema, isto é,, Deus, que dirige o funcionamento de nosso universo, para levá-lo, através da evolução, à salvação com retorno a Ele. Isto significa que no centro de tudo está Lei, incumbida – como o espírito em nosso corpo – da função de dirigir tal funcionamento. Esta não é uma fantasia, mas uma teoria demonstrada em nossos dois volumes: O Sistema e Queda e Salvação. Para redimir-se, é fundamental a correção das trajetórias erradas. Já vimos o caso de um destino isolado, de uma única trajetória. Este fenômeno, lançamento e correção, pode verificar-se para cada um ou para muitos indivíduos, que são milhares e milhares. Será que conseguimos imaginar milhares de vidas lançadas em órbitas, cada uma com a sua trajetória, no oceano das forças do transformismo universal fenomênico, em movimento dimensionado à evolução, orientadas e impulsionadas pela Lei na direção do S? Que rede de reações e combinações poderá verificar-se na aproximação e encontro dessas trajetórias? Cada órbita se encontra numa posição de desenvolvimento diferente, tanto no início, como no apogeu e na sua conclusão. E cada uma é exatamente regulada pela lei, claramente individuada, de modo a nunca perder a sua identidade em qualquer estado de reação ou combinação em que ela possa encontrar-se. A cada conclusão segue-se o lançamento de uma nova trajetória, cada uma ligada à precedente como conseqüência, num encadeamento que se perde no infinito. E não obstante cada reação e combinação é regulada por um dinamismo calculável com exatidão. E isto é apenas um dos aspectos do fenômeno vida.

Quando começamos a penetrar um pouco mais na íntima estrutura de tais fenômenos, ficamos perplexos. Ficamos tomados por uma espécie de estupor mágico, encantados na contemplação da técnica desse funcionamento. Tem-se a sensação de ver longe, no horizonte, brilhar o pensamento de Deus. Quando observamos a trajetória de desenvolvimento e o comportamento de um fenômeno, embora limitando-nos a este apenas, observamos a técnica funcional daquele pensamento. Pode-se assim chegar, tanto pelas vias da inteligência como da ciência, aos entusiasmos do místico, agora porém racionalmente calculados. Assim também a mente com a fria contemplação da Lei e daquele pensamento, pode alcançar os êxtases semelhantes aos obtidos pela ascese mística. Nos meus primeiros volumes experimentei os ímpetos mais elementares, os do coração, no plano do sentimento. Mas aqui, nestes últimos volumes conclusivos da Obra, mais maduro depois de tanto caminho andado, experimento os arrebatamentos mais complexos e profundos, os do pensamento, que se apossam da mente implicando em conhecimento. Atinge-se assim um misticismo mais maduro e evoluído, que se elevou do coração à mente, do sentimento à inteligência, do amor a Deus à contemplação do Seu pensamento. Este é o misticismo da ciência, o da nova religião do futuro.

Quando se abrem à compreensão  essas espirais de luz, sente-se o abalo de uma poderosa liberação. Quando um cientista faz uma descoberta, naquele momento, ele deve sentir-se arrastado pela onda avassaladora do pensamento de Deus, que lhe falou, num átimo de sublime contato lhe revelou um pouco de si mesmo. Esta também é uma revelação, é adoração, e é o senso de veneração que sentirá vibrar no fundo da sua alma o mais evoluído homem do futuro ao dar-se conta de que nas suas descobertas ele se encontra diante do pensamento de Deus.

Uma religião baseada na fé era necessária no tempo da ignorância,, em que a mente era ainda incapaz de pensar por si mesma e imatura para compreender. Mas hoje tal sistema é contraproducente e leva ao ateísmo. A falta de crença não é mais possível diante do fato positivo da existência de um pensamento sempre, e por toda a parte funcionando, cuja presença é evidente porque é impossível não esbarrar nele a cada passo. E se esse pensamento é Deus, como podemos ser ateus? Que pensamento é este tão evidente que, se lhe propõe quesitos para resolver, ele responde, exprimindo-se na linguagem concreta dos fatos, por meio do funcionamento dos fenômenos, através da evolução do seu devenir?

Do panorama restrito dos fenômenos individuais não podemos deixar de passar aos vastos panoramas de princípios universais. Na verdade, tudo é interligado, o particular ao universal, no qual encontramos a orientação e a justificação dos nossos conceitos no particular. Pensamos nos destinos do mundo em relação a esses princípios. É evidente que sua trajetória é mal orientada e que necessitaria de uma correção. Os métodos vigentes de violência e da mentira são contra a Lei e não podem conduzir senão a desastres. Como aplicar aqui uma terapia dos destinos errados? Raciocinar é inútil; a força não serve porque não resolve, como o prova a história. E quando uma trajetória é anti-Lei só há uma solução: o choque contra a Lei, isto é, o esfacelar-se contra as suas invencíveis resistências e ficar massacrados. E depois sofrer, pensar e aprender, através da experiência, uma dura lição. Não é este o método normal de ensino na escola da vida? Pode-se assim calcular onde vai chegar a política mundial, baseada no espírito de domínio que até agora só levou a guerras. É verdade que esta luta desenvolve a inteligência, mas a que preço e em que nível? Se é este, porém, o nível evolutivo da humanidade, como levá-lo a um outro superior? Os golpes da Lei tornam-se, portanto, inevitáveis, porque a essa altura outros métodos educativos não são producentes. Tudo é lógico e está em seu lugar. Métodos e resultados não podem ser diferentes. Há, porém, uma grande reviravolta (contrapartida) a Lei é justa, as trajetórias, as responsabilidades, os destinos são individuais. Quem quer salvar-se pode fazê-lo sozinho, viva do modo em que viver. A Lei lhe responde com a linguagem com a qual se lhe fala, pagando a cada um segundo o seu mérito, restituindo segundo o que se lhe dá.

 

Quando um leitor apressado vê que o autor volta a determinado argumento, diz: “Mas ele já tratou disto, está repetindo”. E assim fica na superfície. E não compreende que este repetir é devido ao fato de que os nossos conceitos giram todos em torno de um pensamento central que é continuamente retomado, porque é o ponto de referencia de todos eles. O que parece repetição é, antes, um aprofundamento; é busca de precisão para resolver os problemas enfrentados com maior fidelidade; é um penetrar cada vez mais fundo no pensamento que dirige os fenômenos examinados. Assim, a nossa pesquisa segue um caminho em espiral, que busca aproximar-se cada vez mais do centro daquele pensamento. Este centro é Deus, um infinito, irredutível às nossas dimensões, portanto, para nós, inconcebível na sua essência. Mas isto não impede as possibilidades de aproximações sucessivas na tentativa de compreensão  daquele pensamento, uma progressiva abertura de nossa mente ao conhecimento. Mesmo que, no relativo em que estamos situados, o absoluto não seja atingível, aquele relativo está sempre a caminho, na tentativa de aproximar-se daquele absoluto. Nestes livros estamos, pois, a caminho, percorremos um trecho dele, ansiosos sempre por avançar.

Já conquistamos o conceito de Sistema( S) e Anti-Sistema (AS) a que nos referimos continuamente, e este se orienta a cada passo. Conhecemos o esquema fundamental da estrutura de nosso universo físico-dinâmico-espiritual  com esta bússola nas mãos, podemos saber em cada ponto de nossa navegação no oceano do desconhecido, onde está o Norte e assim dirigir nossa busca com mais segurança. Cada problema pode, de saída, já ser colocado com uma aproximação mais segura de verdade e probabilidade de solução, diverso do cego método da tentativa. E isto acontece pelo fato de que não se parte da dúvida e do desconhecido, mas de um princípio universal de base, já demonstrado e aceito.

Pelos argumentos tratados o leitor poderá deduzir que estes sejam livros de filosofia, distantes, pois, da realidade da vida. No entretanto estes livros estão bem ligados à vida, uma vez que não ficam na superfície, mas penetram-na em profundidade. O conceito de Deus, que aqui expomos, revoluciona o capítulo precedente. Não se trata de teóricas análise científica dos problemas teológicos, enfrentado-os com métodos de pesquisa positivos. Foi assim que pudemos falar de uma religião científica unitária no capítulo precedente. Não se trata de teóricas elucubrações ociosas. Se quisermos salvar as religiões, é preciso encontrar um Deus que os ateus não possam negar, como negam facilmente o antropomórfico Deus atual.

Uma vez que o pensamento humano tenha entrado nesta ordem de idéias e canais de pesquisa, podem seguí-lo conseqüências revolucionárias, com grandes deslocamentos em nossa vida. A aceitação de tais conceitos diretivos implica na formação de uma estrutura mental diversa da atual, da qual deriva uma ética também diferente e desta de um modo também diverso de comportamento. De uma conduta diferente derivam depois outras conseqüências para o bem ou para o mal, isto é, eliminação das dores e conquistas de satisfações, ou seja, mudanças nas condições de vida, com reações no campo psicológico-espiritual que podem levar a novas mudanças evolutivas e assim por diante. Tais fenômenos são conexos e se desenvolvem em cadeia.

Assim, a obra é feita de um único pensamento, sempre mais aprofundado. Este pensamento é a Lei. Aproximamo-nos dele em dois momentos: primeiro, para conhecê-lo, depois para obedecer-lhe. Conhecê-lo é importantíssimo, porque isso nos faz evitar os erros que são a causa de nossas dores. Se este conhecimento não é adquirido por esforço da mente, devemos conquistá-lo à custa de sofrimentos. Ninguém pode escapar da obediência à Lei sem pagar as conseqüências. O fim da Obra é iluminar, ensinando com métodos de compreensão, menos duros que os de semelhante escola. A arte de viver consiste no desenvolvimento  da inteligência para compreender mais a Lei, e compreender mais serve não só para obedecer-lhe melhor, como também para estar melhor e sofrer menos. O nosso objetivo é prático e utilitário.

Encontramo-nos diante de um fato positivo. A Lei resiste como um muro contra toda desordem. E, atenta à sua integridade, resiste contra quem ameaça desequilibrá-la. Essa Lei não é uma coisa longínqua e genérica. Nos seus princípios fundamentais é como uma árvore feita de um tronco central, de que partem muitos ramos e uma infinidade de folhas. Assim a lei geral se subdivide em muitas leis menores, que são tantas quantas as formas dos seres e dos fenômenos. Estes se reagrupam, segundo o ramo de que derivam, mas, por outro lado, eles se subdividem até chegar aos mínimos particulares que encontramos na realidade. É preciso aprender a mover-se com disciplina, respeitando as normas estabelecidas por essa ordem inviolável dentro da qual estamos situados. Ignorá-lo significa sofrer depois. Só com conhecimento e obediência se pode evitar a dor. Isto é o que a Obra quer ensinar. É inevitável, portanto, girar continuamente em torno do ponto central, que é a Lei, a qual pode assumir mil formas e aspectos segundo o problema particular submetido a exame, dando um lugar a um tratamento estritamente unitário, embora subdividido em inumeráveis particulares.

Tudo que existe está imerso nessa Lei; não podemos, pois, ir de encontro a ela a cada passo. Devemos compreender que a finalidade da vida é redimir-se da dor, efeito da revolta, e que isto só se consegue através da evolução. Se num primeiro momento a revolta contra a ordem do S gerou o caos do AS, num segundo momento a disciplina da ordem deve reconstituí-lo tal como nasceu no S. Sabemos que o fio condutor do caminho da existência é constituído dos seguintes termos, reunidos no mesmo ciclo: ordem no S, revolta, involução até a dispersão daquela ordem no caos do AS, estado de ignorância, erro, dor experiência, conhecimento, obediência, retorno à ordem do S. Assim, o ciclo se fecha, tornando ao ponto de partida. Eis que a lei da existência é o avançar em direção ao S, ao longo do caminho da evolução.

Quando se assume esta forma mental, a separação entre a ciência e fé, entre materialismo e religião, entre ateu e crente, perde a importância. Vê-se, então, que qualquer que seja nosso comportamento mental, a Lei funciona igualmente para todos. O ateu vive imerso no pensamento de Deus tal como o crente. O homem de ciência não faz outra coisa senão estudar esse pensamento numa de suas ramificações. Ele observa seu funcionamento e sabe que, se não lhe segue com exatidão as regras, em leis invioláveis estabelecidas pelo pensamento divino, o resultado que vai obter será um desastre. Quando o cientista quer enviar um míssil à lua, deve estudar todas as regras que aquele pensamento estabeleceu e deve obedecer-lhes, se não quiser ver destruídos os seus mecanismos. A Lei com os fatos fala claro. Se o médico não observa as leis do funcionamento orgânico, mata o doente. Se o engenheiro não respeita as leis da gravidade, de equilíbrio, de resistência dos materiais etc., a sua construção cai. Se um indivíduo pratica o mal, acreditando que vai ter recompensa, esse mal termina por voltar-se contra ele mesmo.

Estas são as respostas da Lei, um diálogo permanente que se mantém com o pensamento de Deus, em todo o campo. Então se vê como ele está presente, porque se não compreendermos a sua palavra, se nos enganamos, então ele no-la repete, corretamente, na língua que melhor compreendemos, a dos fatos, fazendo-nos pagar o erro. É preciso mais que ateísmo para negar as evidencias. Este é um Deus, cuja existência ninguém pode deixar de reconhecer, porque, para os surdos, sabe falar bem alto. E isto é verdade em todos os campos, da matéria ao espírito. O conhecimento dos fatos não é senão um prolongamento do conhecimento da existência de Deus. Trata-se, pois, somente de fazer avançar a ciência ainda materialista a fim de que possa chegar mais alto até compreender também os problemas do espírito. Com os seus métodos experimentais positivos, o conhecimento levará também aos bancos de prova dos laboratórios os fenômenos desse tipo, para compreender-lhe a técnica funcional e descobrir-lhe os princípios diretivos, já estabelecidos pela lei geral dada pelo pensamento de Deus.

Trata-se de uma revolução profunda que ocorrerá, antes de tudo, no cérebro humano. Não se pretende dizer com isso que se possa compreender completamente a Deus, conquistando o absoluto. Pode-se, porém, chegar a um contato direto com Deus até onde permitir o caminho percorrido na evolução, em proporção ao desenvolvimento atingido pela nossa inteligência e, pois, capacidade de compreensão. Não se pode superar tal limite, mas, até aquele ponto, o contato é possível e o diálogo pode ser uma real troca de idéias. Ora, o livro da vida já foi todo escrito por Deus, mas ao homem falta ainda olhos para lê-lo e a mente para compreendê-lo. Ele poderá lê-lo, cada vez melhor, à medida que a evolução desenvolve aqueles olhos e aquela mente. A história da humanidade é todo um diálogo com Deus. Diálogo profundo e completo.

Na presente obra, são já quase quarenta anos em que estou empenhado sozinho nesse diálogo, que vejo desenvolver sempre mais, e que deverá continuar cada vez mais estreito na eternidade. Nasci sem conhecer o verdadeiro significado da vida e sem encontrar quem o conhecesse e mo explicasse. Agora posso morrer satisfeito por tê-lo compreendido, graças ao diálogo, vivendo com consciência e com conhecimento, e desse modo lançando, na direção desejada por mim, a trajetória do meu futuro destino. Jamais se poderão apreciar suficientemente as vantagens que traz o saber assumir conscientemente as rédeas da própria vida. Significa evitar montanhas de erros e, pois, de sofrimentos. É natural que a ignorância seja um grave perigo, porque leva a desastres contínuos.

A ciência atéia está de fato cumprindo um diálogo com o pensamento de Deus, que se lhe revela cada vez mais a cada descoberta. O ateísmo não é contra Deus, mas somente um anticlericalismo, isto é, contra a concepção eclesiástica de Deus. Em resumo, trata-se da costumeira guerra entre os homens, na qual Deus não entra. Seria ridículo pensar que Deus pudesse ser envolvido em nossas lutas humanas, e que devesse estar à mercê de nossas opiniões. E uma guerra contra Deus é absurda, porque é uma guerra contra a primeira fonte de nossa própria vida. De fato, o Anti-Sistema, por sua negatividade anti-Deus, tende à própria autodestruição. Uma completa ausência de Deus é impossível, porque é uma ausência da própria vida. Assim ateu quer dizer sem vida, isto é morto ou em descida para a morte. O comunismo não é ateu. É só anticlerical. De fato, ele continua o seu diálogo com o pensamento de Deus, pensamento que estuda atentamente quando busca conhecer o funcionamento da lei para não cometer erros quando envia mísseis ao espaço. Deixemos de lado o Deus fabricado pelas religião para seu uso eclesiástico. Seus fins e funções são limitados ao grupo que o elegeu como cabeça para satisfazer suas necessidades. É natural que tal Deus não possa ser universal, superando os limites de grupo. E não há razão para cair no ateísmo se tal Deus às vezes parece ilógico e inaceitável. Se desaparecessem as religiões atuais, ainda assim Deus sobreviveria de outra forma, cada vez mais sentido no íntimo, e cada vez mais amplo como universalidade. Este será o melhor canto que a ciência positiva poderá elevar à glória de Deus.

Colocados na estrada de uma religião positiva, toda a vida individual e social poderá ser orientada de outro modo. No campo moral, poder-se-ão prever as conseqüências das próprias ações, controlar a correção da trajetória do próprio destino e o lançar a partir de novo impulso e desenvolvimento nele contido, calculando-lhe a natureza. Em vez de comportar-se como hoje, às cegas, em relação ao futuro, poder-se-á, com uma regulamentação racional da própria conduta, estabelecer previamente uma planificação da própria vida, dirigindo-a conscientemente para os fins pré-estabelecidos, evitando erros e dores que os seguem. A ética poderá tornar-se uma ciência exata e isso é possível porque ela faz parte de uma lei justa. Certamente, então, a conduta humana seguirá métodos diversos. Cada pensamento e ação deverá ser feito com absoluta sinceridade e honestidade, dirigido para fins determinados, porque se sabe que a Lei é justa e responde com a mesma linguagem que se usa com ela. Assim, pois, não é mais concebível uma religião de hipocrisia, porque se poderão calcular os efeitos desastrosos que os impulsos de forças negativas pode produzir, pesando sobre quem as lança. Porque terá base utilitária, o raciocínio será convincente, claro, evidente; sem mistérios e fé cega, tangível nos efeitos, principalmente porque honesto. Compreender-se-ão então que péssimo negócio pode ser semear o engano para recolher engano. A Lei responde restituindo o que lhe foi dado e dando o que foi merecido. Assim, o que conta não é o que se diz, mas o que se faz. O atual sistema de comportar-se como astutos que sabem o que fazem é simplesmente louco. Mas a dor desperta a inteligência e a humanidade cansará de sofrer, até chegar a compreender que convém adotar um tipo de vida diferente.

Por ser maduro, tudo isso é evidente. Mas as velhas formas mentais resistem e se rebelam contra as mudanças. Não queremos correr o risco de perder-nos, saindo dos velhos binários comprovados pela experiência. De fato, o ser, embora situado no AS, tende ao S, o que significa que, apesar de situado no relativo, onde a verdade é relativa e progressiva, sente confusamente uma certa ânsia do absoluto. Busca então realizá-lo como pode, fazendo dele uma imagem que lhe corresponda, declarando e afirmando, com absoluta e definitiva, a sua posição alcançada na progressiva conquista da verdade. Então, cada inovação é julgada como erro, heresia, e condenada, portanto, para que seja destruída. Tudo isso é um impulso instintivo, produzido pelo inconsciente. O novo é recusado porque atenta contra a segurança garantida à vida pelos antigos métodos, que deram prova de ser úteis para tal fim. Assim se explica a resistência do passado, a sua sobrevivência no presente, e a sua predisposição contra o futuro.

O problema se resume em luta pela própria sobrevivência e não em conquista de verdade. O mundo interessa-se mais pelo primeiro aspecto que pelo segundo. Trata-se sempre da velha verdade constituída sob a forma de religiões, mas cujo objetivo fundamental consiste em cada uma manter o monopólio do seu Deus, concebido segundo a forma mental específica, instigando-se a diferença do próprio grupo contra todos os demais.

Como se vê, fundamental na Terra é o problema biológico da luta pela vida, e não o da busca da verdade. Postos um diante do outro, o primeiro vence o segundo. Interessa ao homem a satisfação imediata das suas necessidades, não conhecimento por si mesmo. É com esta realidade da vida que o ideal tem de ajustar contas todas as vezes que busca descer à Terra. Mas é então possível haver obstáculos à grande função biológica do ideal, que é o de fazer evoluir? Quem tem razão? É louco quem, num mundo feito de guerra, enquanto ferve a luta, se põe a fazer pesquisas sobre a verdade; mas louco é também quem, na sua ignorância, violando a lei, atrai tantas dores. No entanto ambos têm a sua parte de razão, porque o realizador prático busca viver bem no presente, e o idealista trata de criar para si um mundo melhor. Estes contrastes entre opostos são inevitáveis numa vida feita de transformismo, razão pela qual tudo é um transformar-se, em fase de transição. Mas podemos perguntar-nos: estará o valor da vida apenas nessa luta exterior? Estará a sabedoria apenas no vencer a luta para viver como vencedores, ou tudo isso não é senão um meio para aprender e, pois, progredir para formas de vida mais evoluídas? Em suma, será a vida fim em si mesma e valerá mais pelas suas realizações longínquas situadas numa outra vida, à qual é sacrificada a presente?

Devemos descuidar-nos dos problemas reais do presente, para cuidar dos hipotéticos do futuro, ou descuidar destes últimos para ocupar-nos apenas dos primeiros? Qual dos dois métodos é mais vantajoso? O ideal é uma inovação ainda não ratificada pela experiência, numa tentativa que pode frustar-se, um salto no escuro. Por que como imprudentes devemos aventurar-nos por estradas inexploradas?

Pode-se responder que tanto o realizador prático quanto o idealista têm, cada um, sua sabedoria, mas em função de pontos de referência diversos. Cada um faz o seu trabalho: o primeiro o exaure no presente, na Terra, conseguindo aqui seus os objetivos imediatos; o segundo vai além do período de vida física e se estende ao futuro. Mas cada uma das duas posições tem o seu pró e o seu contra. O primeiro se tornará rico e poderoso, terá glória e júbilos, mas chegada a morte, é o fim e tudo cai para ele, que só então se dá conta de que os valores do mundo, entendidos como último e exclusivo fim, são ilusões. O segundo viverá de renúncias e atribulações. Será desprezado como inepto, mas terá tirado da escola da vida uma aprendizagem que não é ilusão, porque, quando chegar a morte, se encontrará no caminho da evolução. O que de fato acontece é que cada um busca realizar-se a si mesmo segundo sua natureza. Assim faz o trabalho a que melhor se adapta e colhe os resultados relativos a ele. Cada um recebe em pagamento pela Lei, com justiça, a recompensa que buscou e mereceu, segundo o destino que com o seu passado construiu com as próprias mãos.

A justa posição é a de usar os valores do mundo, mas não como única finalidade, e sim apenas como meio para conseguir um fim mais alto e longínquo, aquele proposto pelo ideal. Aceitar assim o mundo, mas em função de uma superação. Deste modo a vida na Terra se torna uma escola de aprendizagem. Então, a sabedoria está em servir-se dela para preparar-se, a fim de entrar na outra vida, em uma posição espiritual mais elevada. É respeitada assim a imperiosa necessidade de ocupar-se das coisas materiais indispensáveis para viver, mas, ao mesmo tempo, este trabalho é canalizado num sentido evolutivo, em direção ascendente, para o alto, de modo que não dê apenas um fruto imediato, mas seja também útil para a nossa evolução.

 

  A hipocrisia é o câncer das religiões. Corrói até matá-las”.

 Observamos um caso particular de consciência, e do comportamento que deve seguir o indivíduo espiritualmente mais sensível que a média, ligado a uma religião mais de substância que de forma, porém ainda enquadrado na prática, dentro das normas impostas pela forma mental das massas.

Há na sociedade indivíduos profundamente espiritualizados que, por isso, custam a entrar na corrente em que se encontra a maioria.

Muitas vezes  a força do número estabelece a lei e a verdade. Quando o erro é da maioria, não é julgado erro, mas verdade; e quando a verdade é de uma minoria, não é julgada verdade, mas erro. Parece que a verdade, quando não está imbuída de alguma força para fazer-se valer, perde o valor e se reduz a uma afirmação teórica que não se pode realizar. Retirai de qualquer doutrina a força que lhe confere o número de seguidores e ela ficará uma idéia desvalida e só, que pode ser mais bela e perfeita, mas não é levada em consideração. Por isso cada religião se apoia no proselitismo, que corresponde ao imperialismo no campo político, o valor prático de qualquer grupo vem do seu poder de conquista e domínio.

Que deve, pois, fazer o indivíduo em minoria? Ele pode escolher um entre vários caminhos existentes, e adaptar-se às preferencias da maioria; mas representa para ele uma religião de forma, escassa em substância. Adaptar-se e aceitar tal mentalidade significaria renunciar à vida espiritual vivida em profundidade, isto é, mutilar-se nas regiões mais altas do seu ser. Isto, para quem é espiritualizado, é a mais penosa e também danosa das experiências, a do retrocesso involutivo que o leva a viver em nível espiritual mais baixo.

O indivíduo mais evoluído tem um outro conceito de Deus, de Quem as massas fizeram uma representação para seu uso e consumo, reduzida às dimensões do que podem conceber. O homem mediano concebe um Deus antropomórfico, feito à sua imagem e semelhança. Ora, uma redução em tão estreitos limites é inaceitável para quem pensa mais profundamente. O homem mais evoluído concebe Deus como pensamento sábio que funciona em cada forma e fenômeno, em toda parte e sempre presente, a Quem é preciso prestar contas em cada movimento. Tal pensamento a todos regula através de uma Lei estabelecida com exatidão, e que não se pode violar sem pagar as conseqüências. Trata-se de conceitos positivos, racional e experimentalmente controláveis, de que a ciência pode apoderar-se para construir uma nova religião, baseada na lógica dos fatos, portanto, universal.

Como se vê, neste caso, o problema religioso é colocado de forma diferente. Mas, ao invés de abrir as portas a tais conceitos, mais aceitáveis pela ciência, se insiste nos antigos, que parecem feitos justamente para empurrar as mentes cultas a uma sumária negação, terminando na irreligiosidade do ateu. A esses resultados, podem levar os velhos métodos.

Quando uma religião impõe o conceito de um Deus exclusivamente pessoal e transcendente, o evoluído espiritualizado, embora desejando obedecer pode dizer a si mesmo – “eu não posso aceitar porque os fatos me falam da imanência de Deus em todo o universo. É verdade que Ele é o centro do universo, por isso pode ser entendido também de forma pessoal, o que não me impede de ver que Ele é também periférico, isto é, presente em tudo que existe. Concebendo-o assim, sinto a Sua presença e não posso negá-la para admitir um Deus imensamente distante, que se ausenta da sua criação, isolando-Se na Sua transcendência. Mas se assim fosse, tudo morreria no mesmo instante. E eu preciso desta presença para viver, porque sinto que aquele separar-se de um Deus relegado a tal distancia me mata. Sei que Deus está presente em tudo, como pensamento diretor, como dinamismo que anima todas as formas da existência em que Se exprime. Assim também em mim, como em toda a criatura, Deus está presente. Eu sou célula do Seu organismo vivo em todos os seres; devo por conseguinte, pensar em uníssono com o pensamento daquele organismo que dirige os movimentos, e devo funcionar segundo os princípios que o regem, isto é, segundo a Lei Dele. Certamente, Ele é o Eu central do organismo do Todo. Como acontece conosco, o eu central não se isola dos elementos que o compõem, existindo também em cada célula, que só pode viver em função dele, em estreita união e comunhão com Ele. Deus é a vida presente em toda a parte. Retirai do ser este liame e ele morre. Deus é a existência. Um isolamento de Deus na sua transcendência destruirá a criação, porque O retiraria da corrente do existir. Não sei se isto é panteísmo. Mas sei que não posso renunciar a esta presença de Deus, porque é essa presença que me faz vivo na eternidade. Uma tal renúncia romperia o fio da minha vida, que me une a Ele de Quem a recebo”.

Compreender e viver tudo isso é fundamental para o homem espiritual, mas pouco interessa às massas. Não se trata de abstrações teológicas, mas do modo de conceber a vida e de realizá-la diferentemente da maioria, com resultados diversos, aos quais – quem os conhece – não pode renunciar. Muitos solucionam os elevados problemas espirituais, como os da consciência e conhecimento, de modo muito fácil, isto é, ignorando-os ou suprimindo-os, ocupando-se somente do estômago e do sexo. Desse modo se obtém a vantagem de simplificar a vida e de suavizar a fadiga da luta, reduzida às conquistas mais elementares.

Tudo isso se explica. A força da evolução é poderosa e conduz ao S, sendo essa redenção a lei fundamental e a razão da vida. Mas, a tudo isto se opõe uma outra força, também poderosa, a da involução que tende ao AS. Esta conduz a uma descida, sempre mais acentuada. É a negação que leva à perdição, que se opõe a positividade salvadora. Eis o que significa o retrocesso involutivo a que se reduziria o homem espiritual, se se adaptasse ao nível das massas que gostariam de detê-lo no seu plano.

A posição delas é completamente diferente. Elas não possuem a força da evolução, e não saberiam usar a autonomia espiritual se a tivessem, por isso não a desejam. É necessário compreender-se também a sua forma mental. Para viver, a ovelha necessita de um rebanho e de um pastor que a conduza. Deixada sozinha em liberdade, não sabe aonde ir e se perde. A autonomia, que para a pessoa evoluída e espiritualizada tem um valor inestimável, para a ovelhinha não é uma vantagem, mas um perigo ou um dano. Assim se explica como funcionam as religiões, sua estrutura hierárquica de rebanhos e pastores. Esta exprime os valores desses seus termos, e corresponde à natureza dos vários elementos biológicos que a compõem. Se os pastores comandam é porque as ovelhas não sabem dirigir-se sozinhas, tem, pois, necessidade de alguém que lhes preste este serviço. Por isso, elas são obedientes, porque com sua submissão recebem benefício. A vida é sempre utilitária.

Formam-se, assim, o grupo e o espírito de grupo que mantém unido o rebanho sob a tutela do pastor. E quanto maior o grupo, maior é seu poder. Por extensão progressiva vai-se realizando gradualmente o processo de coletivização. Mas o sistema é ainda de uma massificação sob um pastor e patrão que impõe a ordem com regras próprias de disciplina. Com esse biótipo (ovelha) não é possível ir mais adiante, isto é, além da estrutura pastor-rebanho, que só atinge o nível atual. Um mais avançado tipo de coletivização, para o qual está pronto o indivíduo evoluído, e que ele poderia realizar se encontrasse um ambiente humano do seu tipo, é composto de indivíduos autônomos espontaneamente irmanados em consciente colaboração para obtenção de uma vantagem comum. Mas as organizações humanas de qualquer gênero não alcançaram ainda tal nível evolutivo.

Segundo as leis da vida, é preciso ter  as qualidades necessárias, para pode dirigir e quem não as tem deve obedecer. Liberdade e comando significam responsabilidade. Inaptidão e preguiça levam a um estado de sujeição. Todos quereriam eliminar o reverso da medalha e fazer-se servir gratuitamente. Mas é preciso pagar-se com a obediência o serviço que presta aquele que dirige. Não obstante, é preciso aprender autodirigir-se. Se até ontem as massas ficaram submetidas, isto ocorreu porque, por imaturidade e inércia, preferiram a via da paciência, para elas menos cansativa e menos arriscada.

Uma outra via pode ser escolhida pelo indivíduo mais evoluído que se encontra em minoria; não a que agora se enquadra como uma verdadeira adaptação, mas a de uma falsa condescendência, mimetizando-se externamente na aparência, isto é, o caminho da hipocrisia. A vida costuma usar a mentira, quando não há outro meio, como elemento de conciliação entre opostos. É um acordo na aparência, que se limita a esconder a dissensão que permanece, já não sincero e visível, mas tão distorcido que poderia parecer consenso. Isto se justifica enquanto é uma tentativa, uma antecipação daquela verdade, à qual se chega somente pela evolução. Todavia, mesmo este é um modo de chegar a uma convivência pacífica, preferível a um estado de guerra.

A vida que é utilitária, escolhe sempre o caminho do menor esforço e maior rendimento. Mesmo sendo a mentira remédio de ínfimo grau (os mais evoluídos a rejeitam com desprezo, resolvendo os problemas com inteligente sinceridade), é neste sentido pragmático que a vida aceita a hipocrisia, quando é obrigada a recorrer a ela, porque, em face da involução do indivíduo, neste nada encontra de melhor. Obviamente, mentir não é honesto e é necessária muita insensibilidade moral para adaptar-se à mentira. Mas quando o acordo não é conseguido em sua reta posição, a vida tenta consegui-lo numa falsa posição invertida que, não sendo uma concordância, é, pelo menos, um tácito compromisso que, bem ou mal, já aproxima as duas partes contrárias e permite uma primeira forma de pacífica convivência entre opostos. Eis a função biológica da mentira. Assim se explica como a vida, honestamente utilitária, a ela recorre, seguindo a lógica do seu princípio do mínimo esforço.

O indivíduo pode adaptar-se e assumir a forma mental religiosa imposta pela maioria, quando ele é involuído, detentor daquela sensibilidade que permite tais sedimentos morais. Mas a isto não se adaptará um evoluído, detentor de outra sensibilidade, de modo que o método da hipocrisia permanece impraticável para este. Tal método resulta válido sobretudo para os menos evoluídos, sendo útil para esconder a forma mental que os leva a desfrutar da religião por interesses materiais, tais como obter respeito, autoridade, posição social e o bem-estar que tudo isso traz consigo.

Nem a adaptação sincera nem a hipocrisia são aceitáveis para o indivíduo mais evoluído que se encontra em minoria, há, para ele, um terceiro modo de resolver seu caso: o isolamento, que pode parecer a muitos como indiferença religiosa, ausência espiritual, descrença e ateísmo; sendo por isso causa de escândalo. Tal método é condenável diante do mundo, mas ele é melhor que os outros dois diante de Deus, porque evita o retrocesso evolutivo do primeiro, e o sedimento moral implícito no segundo. Excelente é o espírito de conciliação que lubrifica os atritos e atenua os choques, mas não dessa forma. Reduzir uma religião a uma forma de hipocrisia é menosprezar Deus, e é necessário um alto grau de insensibilidade moral para fazê-lo. É preferível um ateísmo sincero e convicto a uma falsa religiosidade.

Como se vê, nos dois casos, o modo de conceber a vida é completamente diverso, levando consequentemente a uma ética e a um comportamento também diferentes. As religiões oficiais são o resultado de um longo processo de adaptação da idéia-mãe que as gerou, aos instintos, inclinações e necessidades humanas, desenvolvido no inconsciente das massas. O homem espiritualmente evoluído permanece fiel a idéia-mãe e rejeita as acomodações. Vem daí a dissensão. Ora, esta adesão a idéia-mãe não é utopia, porque ele não a recebe cegamente de um profeta fundador de religião, mas controla-a e aceita-a enquanto lhe é confirmada pela observação do funcionamento que dirige tudo o que existe, isto é, por um fato experimentalmente positivo e universal.

O homem não tem consciência da presença de tal pensamento, não tem idéia do seu poder absoluto e, resistindo-lhe e pondo-se em contradição a ele, não compreende que cataclismas atrai. Na sua ingenuidade, crê até que a Lei de Deus possa ser enganada e que dela possa fugir com astúcia. Esta, no entanto, impõe um equilíbrio inviolável segundo uma justiça calculável com exatidão matemática. Segue-se-lhe uma moral férrea e que realmente funciona, em lugar da moral do mundo, elástica e cômoda, mas enganadora.

Quem segue a primeira sabe que todo abuso produz uma privação na mesma proporção; sabe que, para colher, precisa semear; que para receber é preciso dar. Quem roubou deve restituir, não dar apenas uma esmola, mas tornar a dar tudo o que foi roubado, mais os juros e os ressarcimentos dos prejuízos causados. Até que isso não seja feito, até que não seja mudado o método de ação, aquele roubo produzirá miséria. Pela mesma lei, toda generosidade produz abundância. Isto parece contradição, porque termina obtendo-se o contrário do que se quereria. Mas este fenômeno se explica. Se nossa ação tivesse a direção da Lei, os resultados positivos corresponderiam à natureza positiva do impulso que os produziu. Mas, estamos situados no AS, isso significa que a nossa ação vai, de preferência, na direção da anti-Lei. Eis porque, no campo do fenômeno, temos um impulso determinante de sinal negativo ao qual só podem corresponder resultados negativos. O AS é um campo emborcado e só pode emitir impulsos deste tipo. O ser, porém, gostaria de, ao emitir o impulso negativo, conseguir resultados positivos. Ora, é natural que esteja enganado; então grita que a vida é uma ilusão. Mas iludido é somente aquele que entende tudo ao contrário; tudo o que é fatal, dada a posição contrária em que foi construído o AS. Seria absurdo tentar conseguir resultados de sinal positivo, lançando a trajetória em direção oposta. Isso só pode levar a efeitos do mesmo sinal.

Que acontece então? O AS, feito de revolta, pretenderia a vitória do erro. Impossível, porém, porque o senhor é o S, isto é, Deus. A ação produz o efeito contrário ao desejado, em vez de dirigir-se no sentido correto, vai para o sentido oposto e assim, em vez de conseguir o fim desejado, produz a reação da Lei que arrasta ao reendireitamento da posição errada, o que para o ser significa conseguir os resultados opostos aos desejados. Para quem compreende o seu funcionamento, o fenômeno é evidente. Quase sempre é ignorada a presença ativa da Lei que se interpõe entre a ação do ser e os resultados por ele buscados; presença que não se leva em conta, embora seja dela e não de escolha individual que dependa o desenvolvimento do fenômeno. Quando há conflito entre a vontade da Lei e a do ser, então se verifica o choque de força que se chama reação por parte da primeira, tendendo à correção do movimento anti-Lei na direção do S. Trata-se de uma ação salvadora, porquanto reconduz a negatividade à positividade, corrigindo desse modo a posição contrária do AS na direção justa do S. assim, a ação anti-Lei termina por concluir segundo a Lei. É nesta técnica que está o segredo da salvação universal.

Para o ser situado no AS, dirigido em sentido contrário, isto parece um erro, porque ele não consegue a alegria que buscava, mas a dor; não um sucesso, mas uma derrota. Ele não compreende o porquê de não conseguir os seus objetivos, mas aquela dor e aquela derrota o salvam, e é por este caminho que ele alcança os fins da Lei, que são a seu favor e não contra. O fim último é a salvação, e o ser o atinge contra a sua vontade, obrigado pela Lei a mover-se na direção contrária àquela por ele escolhida no início dos seus movimentos. Explicamo-nos assim como a procura da felicidade, feita com os métodos do mundo, termina sempre na dor, isto é, exatamente no devido ponto, seguindo o caminho justo, que é o da correção do erro e não o do sucesso do mal.

Tudo se explica e se resolve quando se compreende este jogo de forcas opostas, positivas e negativas, apocalíptico conflito entre o bem e o mal, fatalmente dirigidas para a vitória do bem. É assim que, sem mistérios, com lógica evidente, se pode compreender quais são as vantagens de viver na ordem da Lei, em vez de na desordem da anti-Lei. É assim que viver honestamente, segundo o S, não é uma posição de fracos, iludidos pelas teorias moralistas e condenados pela realidade da vida, mas o método mais vantajoso porque é o único que conduz à vitoria final.

Descobrimos, dessa forma, quais os meios de defesa da Lei fornecidos aos justos que parecem inermes no mundo. O S não os abandona porque o S é sempre vivo e está presente também no AS, como uma alma que o sustivesse em seu íntimo. O homem que vive segundo a Lei e com isso se põe no campo de ação direta do S, é mais potente que o homem que vive contra a Lei, na posição inversa e negativa do AS. Deste mecanismo a ciência ainda nada sabe, entretanto ele funciona. Continua a tentativa de mudança do S em AS. Tentativa desvairada, porque só serve para despertar na Lei reações que depois se pagam com a própria dor. No entanto, com uma reta conduta, lançando essas forças na direção justa, poder-se-ia recolher o bem, em lugar do mal, e construir destinos de paz e de alegria, nunca de ansiedades e sofrimentos.

Queira ou não, o homem vive dentro da Lei como um peixe dentro do mar. Por mais que tente rebelar-se, ele não pode existir senão enquanto está dentro da água, como não pode viver sem a atmosfera terrestre. Em nossa vida, quando fazemos mau uso de uma coisa boa, buscando realizar a inversão de valores, vemos que ela se torna má para envenenar-nos. Diante do abuso não há outro remédio senão o justo pagamento que corrige a inversão recolocando-nos na ordem, de acordo com a Lei. Assim, quem quer libertar-se das conseqüências do mal feito, não tem outro meio senão fazer outro tanto de bem. A compensação entre dois impulsos, positivo e negativo, deve ser exata. Para retornar ao ponto de onde se desceu, é preciso refazer para o alto todo o trecho percorrido até embaixo. Orar e invocar é útil, mas só como acessório. O problema não será resolvido até que todo o trabalho da subida não for concluido e o  pagamento não for realizado.

 

 

Na Idade Média o domínio era dividido entre a autoridade espiritual e a temporal, entre o pacífico poder religioso e o guerreiro poder civil, entre a cruz e a espada, entre o papado e o império. As comunidades humanas se agrupavam em torno do templo e do castelo. Prevaleciam, pois, os dois tipos biológicos: o religioso e o guerreiro. O único elemento produtivo, o tipo do trabalhador, ficava-lhes submetido como servo e às suas custas eles se mantinham. Somente hoje o tipo do trabalhador foi valorizado. Trata-se de um deslocamento de base que mudou toda a ética e os princípios sobre os quais se apoia a organização da sociedade. Isto deriva tanto das condições de vida conseguidas, dos novos conceitos diretivos adotados agora, quanto da organização do rebanho humano em novas formas. Pela primeira vez na história, a coletividade se encontra em vasta escala, desperta, sente-se a si mesma e como tal se forma uma consciência, de modo que as massas trabalhadoras se afirmam, fazendo valer a suas forças, com reconhecimento do seu valor econômico como produtoras de bens. Disso se segue que seu advento e seu triunfal ingresso na história levou o enfraquecimento da importância e o processo de decadência dos outros dois elementos sociais: o religioso e o guerreiro. E este é, de fato, o fenômeno a que assistimos hoje. A sociedade tende sempre a apreciar os elementos produtivos e a deixar de lado, como inúteis os improdutivos. Pergunta-se a esses dois tipos para que servem, que coisa produzem para a sociedade. E, quando se vê que são passivos, tende-se a eliminá-los. O conceito de produção pode entender-se em amplo sentido, inclusive no de valores espirituais e morais, úteis, também à coletividade. Trata-se utilitarismo “latu sensu”, que não é o restrito à moderna economia dos consumos.

Assim, o problema da vida é colocado em bases totalmente diferentes, isto é, as do trabalho produtivo e não do domínio imposto sobre as massas ignorantes e desorganizadas, por isso mesmo fracas e, pois, facilmente subjugáveis seja com a força das armas materiais, seja com a força das armas psicológicas e espirituais. Mas mesmo aqui, vemos a sabedoria e bondade da Lei de Deus que dirige a vida. Estes estados de sujeição são dolorosos e a dor é o grande mestre que ensina, porque obriga a pensar, a compreender-lhe a origem, para se conseguir evitá-la. A dor desenvolve a inteligência e isto significa evoluir, representando consequentemente a solução de todos os males e o maior bem possível. Todos os indivíduos subjugados, por sua própria e triste condição, terminam por ser obrigados a despertar da inércia; eles são levados a reagir, isto é, a fazer o esforço necessário a fim de conquistar um valor, sem o que não é possível fazer-se valer, porque não se podem abraçar direitos senão quando se faz tudo para merecê-los.

Para compreendê-lo, consideremos o fenômeno reduzido à sua estrutura esquelética de realidade biológica. Consiste no fato de que cada um procura viver a seu modo, segundo sua natureza, o melhor possível, e com menor fadiga e mal-estar possíveis, utilizando para este fim, em seu favor, os elementos que encontra no seu ambiente. O fundo do ser humano é freqüentemente feito de preguiça, de egoísmo, de utilitarismo aproveitador. A paciente passividade e a ignorância das massas convidavam, no passado, o fácil triunfo sobre elas, absorvendo-as à vontade, por quem soubesse, usando a força ou a astúcia, elevar-se acima delas. Mas era preciso, moral e legalmente, justificar essa falsa posição, não falsa diante das ferozes leis biológicas, mas falsa diante dos princípios oficialmente proclamados, perante os quais era preciso também salvar as aparências, para melhor ter as massas subjugadas. É assim que, no passado, se usava cobrir aquela dura realidade biológica, feita de instintos nada nobres, com os preciosos mantos das altas teorias e nobres ideais.

O tipo religioso, para melhor sobreviver protegido pela luta na sua posição de privilégio, se tinha feito representante de Deus, exibindo virtudes e cobrindo-se de investiduras divinas. Podia deste modo justificar seu positivismo econômico, apoiando-se em construções ideais impostas pela fé e fundadas na revelação e no mistério, meios utilíssimos, neste caso, porque autorizavam a paralisação da atividade racional que, como inquisidora de verdade, era um meio perigoso, porquanto levava a descobrir e a suprimir o jogo.

Para justificar-se moralmente diante dos outros princípios, pregados para uso das massas a fim de que continuassem obedientes, e, ao mesmo tempo, para conservar a sua posição de domínio, escondendo o seu parasitismo econômico, mantinha outros ideais que lhe eram úteis, porque construídos para seu uso, à semelhança daqueles do tipo religioso. Assim , neste caso, não somente a preguiça e a astúcia, mas também a força e os instintos agressivos foram cobertos com o ideal do valor, do heroísmo do guerreiro, do patriotismo - e com os relativos martírios e sua interessada e partidária glorificação.

Ao homem não é agradável que se perceber seus instintos inferiores, que o aproximam do animal. Gosta de escondê-los e para isso lhe servem os ideais, que lhe permitem aquilo que mais lhe interessa, a satisfação dos instintos, enquanto ocultam aquela inferioridade, que por contraste ressalta a bela figura do homem superior que vive de princípios. Adaptações da vida que tudo sabe utilizar, até mesmo o ideal, razão pela qual, quando, pela imaturidade dos indivíduos, não o pode fazer no sentido evolutivo, dele se serve como meio para defender-se na luta pela sobrevivência.

Esse mundo medieval, vivo até há pouco, está hoje desaparecendo por fatal maturação biológica. É verdade que está morrendo, mas dizê-lo desagrada a quem cresceu dentro dele e com ele estruturou sua forma mental. Desagrada porque destrui-lo significa destruir, com ele, a si mesmos. Estas são, pois, verdades que não podem ser ditas, pois acabariam por revelar um sentido de agressividade que não é necessário e nem oportuno. Para concluir o atual trabalho de renovação, não se necessita de velhos bem pensantes. Basta esperar que estes morram por si mesmos. As novas gerações ignorar-lhes-ão a forma mental e os métodos, arrastadas por outros problemas. Houve um tempo em que o passado era liquidado com a violência, cumprindo uma carnificina. Hoje, a passagem do velho ao novo se faz sem barulho, respeitosamente, por graduais transformações, por natural maturação e renovação, sem agressões destrutivas, sem reações violentas e sem a reativação de baixos instintos.

Assim, vemos cair, pacificamente, na zona do silêncio, o convento e a fortaleza, os heroísmos de santidade e os de guerra, o conceito do mundo regido por dois poderes: o espiritual e o temporal, que foram, há tempo, base da vida social. Estas duas instituições já não servem para o crescimento. Assim, a vida já está construindo outras. Em seu lugar está surgindo a instituição do trabalho; cada elemento da sociedade deve ser produtivo, e em compensação provido do necessário por toda a vida. Deverá, pois, ser eliminado como anti-social tanto o rico que vive ociosamente de renda, quanto o pobre ocioso que morre de fome; tanto o renunciatário improdutivo, quanto o irresponsável que se reproduz além do limite estabelecido por seus recursos e os da coletividade. Com as novas gerações, irá morrendo a velha forma mental, substituída pela nova, razão por que  a velha ética, embora continuando na nova, não será compreensível; com o progredir da vida, pouco a pouco a sociedade chegará a organizar-se com métodos mais evoluídos e perfeitos.

Tudo isso não significa que o espiritual e o temporal não devem mais cumprir sua função, mas que a cumpram de outro modo. O espiritual será mais positivo, consciente e responsável, como convém ao adulto, para realizar-se na vida seriamente, e não será apenas um sonho ou aspiração; e o temporal saberá lançar com a técnica, as bases da produção dos bens necessários para viver num nível humano e civilizado.

Trata-se de dois métodos diversos de enfrentar o problema da vida. Naquele  tempo, dada a fase atrasada da evolução em que se encontrava o homem, a economia da produção dos bens necessários se fundava no assalto e no furto mais que no trabalho. Hoje ocorre, justamente, por razões de evolução, que o homem prepara-se para superar aquele tipo de economia, com outro superior, que, em vez de valorizar o herói conquistador, ladrão e assaltante, valoriza o trabalhador pacífico, mas que produz; o que foi  função menosprezada do servo, é hoje virtude de cidadão útil a coletividade.

Ao conceito-base de uma propriedade estática, hereditária, defendida por leis imoóveis, religiosas e civis, se substitui-se, hoje, o conceito fluido e dinâmico da produção e consumo, defendido por direitos e deveres em termos de justiça social. A isso conduziu o desenvolvimento tecnológico, tanto quanto o do sentido orgânico social e espírito coletivista, o que deu maior rendimento ao trabalho, que assim assumiu um outro significado e valor. Este, de fato, hoje não representa mais a condenação dos vencidos, reduzidos a escravos, mas exprime a potência produtora das mãos e da mente do homem. Outrora quem trabalhava era um escravo; hoje é um produtor. A justiça distributiva já esteve confiada à espada; agora depende da organização social.

Estes fatos nos fazem compreender por que, no passado, exaltava-se, com o Cristianismo, a religião do sofrimento. Se este, então, era virtude, era necessário porque a ordem social se baseava no desfrutar de uma vítima (mulher, servos etc.), no momento, tal virtude é contraproducente, e a ordem social esta fundada em outros princípios de justiça, com outros direitos e deveres. No passado havia muita gente sem direitos e apenas deveres, gente que era preciso manter quieta na sua posição com esperanças e consolações. E o Cristianismo satisfazia esta necessidade. Com o seu aparecimento, porém, aos párias foi reconhecida uma alma, passando-se a considerá-los como seres humanos, com direito, com preferencia sobre os ricos, ao menos no Céu. Foi um primeiro passo. O caminho foi continuado, depois, pelo comunismo, embora com métodos diversos, deu-lhes direito também aos bens terrestres.

No passado, a sociedade era composta de patrões e servos e a matéria dos direitos e deveres não era disciplinada e sim confiada à espada. Porém mesmo neste nível se formou um equilíbrio: enquanto ao servo convinha deixar-se dirigir e defender, ao patrão cabia fazer-se servir. No fundo, cada um dos dois tinha como compensação uma vantagem, estabelecendo-se já uma espécie de justiça social. Formou-se, então, uma simbiose que permitia uma convivência pacífica.

Naquela fase evolutiva, enquanto cumpria sua função, estas relações eram justas. O problema da injustiça e da vítima configurou somente hoje, quando se concebe a vida de outro modo, de forma coletiva, numa sociedade organizada. Ocorre então que o indivíduo pode, cada vez menos, isolar-se no seu egoísmo e ficar indiferente ao mal do próximo, porque este mal também é percebido como sendo seu próprio mal, ao passo que lhe era indiferente enquanto percebido como alheio. Na posição separatista do passado, o teu dano era, muitas vezes, o meu bem. No estado de sociedade organizada, o teu prejuízo é o meu prejuízo, pelo qual me devo interessar, para evitá-lo. Esta transformação está implícita quando se caminha para uma economia unificada, baseada na socialização dos interesses, danos e vantagens.

Tal transformação só é possível hoje através da técnica que torna mais rendoso o trabalho, e paralelamente a novo amadurecimento mental das massas. Houve um tempo em que, a força de compromissos e adaptações, se havia estabelecido uma ordem e a sociedade a conservava de forma ciumenta, porque, não sabendo inventar algo melhor, não tinha outro meio para esquivar-se ao caos. Ora, o fato novo que desloca os antigos equilíbrios em que se apoiava a massa é que esta se tornou mais inteligente, descobrindo a potência da organização e cooperação, que valorizam como número, potência antes desconhecida e inutilizada, porque dispersa em virtude de um individualismo separativista, causa de um contínuo e desgastante recíproco atrito. Houve um tempo em que o povo era obrigado a viver de forma subordinada e em função das classes dominantes e sem interesses, porque, pela própria imaturidade, não sabendo orientar-se por si mesmo, o povo precisava apoiar-se nelas. Hoje, porém, aquele povo se desenvolveu a ponto de dar-se conta de que constitui a base da estrutura social, feita de quem trabalha e produz, portanto, valendo tanto quanto quem comanda. Na organização coletiva é um adido a uma função diversa, de mesmo valor ao de quem dirige aquele trabalho e produção.

Na sociedade futura, não haverá mais pobres, porque se impedirá a sua formação, seja com a regulamentação demográfica, seja com o trabalho organizado e obrigatório para todos, seja com as necessárias providências sociais. O desenvolvimento da inteligência levará a compreensão  de que é contraproducente o individualismo levado até à inconsciência, ignorando o prejuízo que o egoísmo inflige ao próximo, pela dispersão de energia que custa, fazendo da sociedade um campo de lutas ferozes. Compreender-se-á que o mal, posto em circulação por quem quer que seja, danifica a coletividade de que cada um faz parte, do mesmo modo que esse mal termina com o retorno àquele que o emite. Compreender-se-á que, no seio de uma sociedade, é impossível isolar-se; que não se pode, sem dano, ser rico entre pobres, e fruir entre quem sofre; que a vida é feita de leis, razão porque não se pode fazer o mal sem pagar depois. Sem teóricos idealismos, que só convencem os que gostam de crer neles, mas objetivando um evidente utilitarismo prático, compreender-se-á a conveniência de superar o antigo método desagregador da luta de todos contra todos, a fim de substitui-lo pela colaboração. O problema não é ético, mas de rendimento positivamente calculável. Este será o novo Evangelho, adaptado às novas condições de vida produzidas pela civilização, convincente, porque racionalmente utilitário. Sem heróicos altruísmos e compensações ultra-terrenas, compreender-se-á que o prejuízo do vizinho não é vantagem para mim, porque redundará no meu próprio dano, não convém, pois, proporcioná-lo.

Há, também, o reverso da medalha. Houve um tempo em que a arte, a poesia, os valores espirituais ocupavam lugar de honra, deixando que quem cultivasse tão nobres coisas morresse de fome. Hoje se tenta relegá-las a um “hobby”, um passatempo, nas horas livres permitidas pelo trabalho, que é a única coisa que importa, porque é a única atividade produtiva. Houve um tempo em que éramos primitivos e ferozes, mas na desordem havia lugar também para os ideais, um lugar estimado e admirado. Hoje somos mais educados, já nos preocupamos em não deixar ninguém na miséria, mas o ideal desapareceu. Este ficou relegado entre as coisas supérfluas, não necessárias à vida. Assim se conquista o bem-estar, mas como acontece com toda conquista, paga-se sacrificando o melhor.

Eis, portanto, os tipos de valores sociais aqui examinados. Temos o poder espiritual, o temporal e o econômico, representados por três tipos de homem: o religioso, o guerreiro, o trabalhador, que desempenham sua função unindo-se segundo três modelos de vida associativa – o convento, a fortaleza, a oficina. Cada um destes tipos de vida representa uma instituição que é construção de uma unidade coletiva, na qual segundo princípios e necessidades diversas, se organizam os vários elementos humanos. Ora, o fenômeno a que assistimos, no atual momento histórico, é o desaparecimento dos dois primeiros tipos de vida em favor de um terceiro. Hoje a técnica substitui a cruz e a espada, e o homem não é mais uma alma para ser salva, ou herói habituado a vencer os inimigos, mas um produtor e consumidor de mercadorias. Trata-se de uma transformação profunda, de uma revolução incruenta; transformará o mundo como nenhuma outra precedente revolução.

Hoje, os dois primeiros tipos de vida estão velhos e cansados, exauriram sua função biológica e foram substituídos pelo terceiro.

A grande organização industrial, as contínuas descobertas, a tecnização da vida, tomam o lugar dos antigos ideais tanto civis como religiosos. Tempos atrás, a mecânica da produção era iniciante e movia os primeiros passos à sombra da Igreja e do castelo, senhores do campo. Diante do Papado e do Império, senhores do mundo,, o artesanato era ainda uma pobre coisa. o trabalho era atividade servil, desdenhada pelo senhor, armado cavaleiro e conventuais contemplativos. A cruz e a espada dominavam as massas inermes e ignorantes. Mas estas, embora de forma servil, trabalhavam e dessa forma adquiriram qualidades que os dirigentes, no ócio, as perdiam-nas.

A vida sempre caminha. Assim os patrões se tornaram ineptos e os servos hábeis. Estes, com seu esforço, resistindo à opressão dos senhores ominosos e a hostilidade da Igreja, criaram a ciência que leva a uma técnica de vida nova, que, por sua vez, reage hoje, criando um novo tipo de homem. Tudo é concatenado e interdependente. Com a sua mente, o homem fez a ciência, que, por sua vez, refaz a mente do homem. As novas condições de vida, criadas pela técnica moderna, reagem sobre ele, criando um novo tipo de civilização. Ir até os planetas, deslocarem-se milhares de pessoas de avião em alta velocidade, comunicar-se por rádio e televisão, saber logo, em qualquer parte onde se esteja, tudo o que ocorre no planeta, abolir o trabalho físico confiado às máquinas e substituí-lo pelo trabalho mental etc., constrói um ambiente novo. Vivendo nele o homem não pode deixar de transformar-se. Eis então que o mundo do passado se afasta e desaparece, refugiando-se nas recordações históricas e nos museus, circundado pelo respeitoso silencio dos cemitérios.

Se a forma é diversa, a finalidade mais urgente e imediata é sempre a mesma: a sobrevivência. Houve um tempo em que essa luta se desenvolvia em dois níveis: 1) no plano da existência terrena, ela se travava entre indivíduos rivais que disputavam entre si o espaço vital; 2) no plano da existência depois da morte, esta luta era contra eles mesmos, para assegurá-la, com virtudes e renúncias, superando a própria animalidade.

No presente, esta mesma luta ainda se realiza: 1) no plano da existência terrena para conquistar o espaço vital, valendo-se da inteligência, a fim de penetrar as leis da vida e utilizá-las em benefício próprio; 2) no plano da existência depois da morte, esta luta é eliminada, pelo fato que a ciência ainda não dá soluções positivas e então, dado que para a mente moderna mitologia e mistérios não são mais levados em consideração. Enquanto se espera uma solução, estes problemas são, no momento, deixados de lado. Assim, hoje, o espírito de luta se dirige para outro objetivo, isto é, muito menos contra o próximo ou contra si mesmos, (o que no passado se fazia com o espírito agressivo característico do involuído), e muito mais contra a ignorância, o ócio improdutivo, o parasitismo; e se surge luta, ocorre num plano mais alto, não mais muscular, de guerreiro feroz, mas nervoso e cerebral, de competição intelectual.

No passado, no seu terreno e condições de vida, teve o seu valor e cumpriu a sua função. Os guerreiros tentavam construir e manter  a ordem social com as suas instituições; os monges e o clero tinham que defender-se de ataques bélicos, salvar a cultura e fazer orações e penitencias para a salvação espiritual. Tudo isso não era fácil e devemos a esse trabalho o fato de a civilização poder chegar ao nível atual. Eis que a função desempenhada no passado não se desvaloriza, mesmo se a civilização hoje lhe impõe a superação. Cada coisa, se coloca no seu lugar, tem a sua importância e seu significado.

O respeito pelo passado, reconhecimento do valor da função por ele desempenhada não pode e não deve impedir a transformação no sentido de um tipo de vida mais evoluído. A religião que outrora detinha o poder político e hoje se mantém como poder econômico, deverá assumir-se como poder espiritual. Os instintos agressivos, que no passado definiam o herói glorioso na guerra, hoje são concebidos cada vez mais como qualidades anti-sociais, próximas da delinqüência. Mesmo a nova técnica bélica, baseada mais na inteligência que na ferocidade, não convida mais ao desabafo daqueles instintos bestiais, que antes podiam conduzir às mais altas honras. Semelhante moral era justa, enquanto necessária para a sobrevivência, então reservada somente aos fortes. Confirmava-o o instinto da mulher que, na escolha do macho, quando se sentia atraída por ele.

A tudo isto substitui, sobretudo, o trabalhador da mente que, aprendendo e fixando no seu inconsciente capacidades técnicas e culturais, vai construindo a personalidade numa direção diferente, a do conhecimento e a da produtividade, conquistas que no passado estavam em germe, ainda não desenvolvidas, seja em profundidade, ou extensivamente às massas. Os idealistas do passado, tendo alcançado isoladamente altos graus de evolução, poderiam olhar com desconfiança aquilo que lhes pode parecer degradação da espiritualidade na técnica, e do trabalho de elite em um trabalho de massa. Mas é preciso compreender que a humanidade hoje está começando a construir, desde as bases, o edifício de uma nova civilização, e que deste edifício está pondo agora em nível mais baixo, as fundações. Uma vez lançadas estas, continuar-se-á a subir até os ideais, mas, partindo de bases mais solidas, se poderá subir mais alto, até onde não se podia com seus métodos nos séculos precedentes. Do passado nada morre. Tudo apenas continua e renasce de novo para desenvolver-se ainda mais. Poder-se-á então atingir uma espiritualidade positiva subtraída de um conhecimento profundo de um mundo que as religiões tratam hoje apenas como matéria de fé, envolvido em mistério. Assim, a evolução avança e se podem realizar os tipos de vida sempre mais altos.

A função da presente obra é a de levar Deus para fora das Igrejas e das religiões, a fim de colocá-lo de forma racional e positiva diante da ciência, de modo que esta, de agnóstica e atéia, não mais O possa ignorar. Para chegar a isso, é necessário elevar o conceito de Deus, fase antropomórfica, com que era pensado no passado, ao conceito da Lei, funcionando em toda a parte, com o qual a ciência não pode deixar de encontrar-se  a cada passo  e, pois, de prestar-lhe contas. O primeiro passo é o da laicização e universalização das religiões particulares, ainda hoje separadas e inimigas, penetrando em todas as manifestações da vida e não apenas alguns setores particulares. Trata-se de uma abolição de fronteiras, uma ampliação de horizontes, uma tentativa de colóquio para chegar à atualização.

Outros passos virão depois. A evolução chega por aproximações sucessivas. A fase que se constituirá mais tarde por essa orientação geral da ciência em relação aos fins últimos da existência será a do conhecimento e uso da técnica funcional desta Lei. A partir dela penetrar-se-ão os muitos aspectos, para viver as suas aplicações e conseqüências. Será a fase da transformação biológico-social da humanidade, a fase sucessiva à atual, que é de orientação e de preparação daquela transformação. Assim, tudo se prepara primeiro e depois se realiza com lógica, equilíbrio e medida, como quer a Lei.

 

 

 Vemos a verdade como uma abstração através da existencia de  pessoas que nela crêem; observamos ainda que uma verdade só existe na Terra enquanto vivem as pessoas que nela acreditam. Isto porque não existe, no nosso mundo (AS), uma verdade universal.  Encontramo-la, às vezes, fragmentadas em infinitas verdades particulares, que são as de cada uma dessas pessoas. Estas, porém, representam o ponto de partida e a matéria prima de uma reconstrução da verdade universal do S, o que se consegue pelo princípio das unidades coletivas, isto é, por reagrupamentos sempre mais vastos de mentes que aderem a uma verdade particular e atraídas, reciprocamente, por afinidade. Evolui-se, assim,  em direção a unidades coletivas cada vez mais amplas, mas que antes de unificar-se (S), lutam entre si para destruir-se (AS), uma acusando a outra de erro, enquanto não passam de aspectos diversos da mesma verdade, lutando para entender-se e, enfim, unificar-se. Que a evolução leve à unificação das verdades particulares, vemo-lo hoje em religião e em política, numa universal tendência à unificação, cuja finalidade é sanar o estado de cisão e luta que prevalecia no passado. É assim que, à concepção de uma verdade cada vez mais vasta, se chega através da unificação das verdades relativas particulares. Certamente existe a verdade universal absoluta. Mas esta é a longínqua meta da evolução e hoje, para o homem, somente existe na medida dada pela aproximação que ela atingiu na sua compreensão, em proporção ao desenvolvimento de sua forma mental.

De fato, encontramos aqui na Terra são agrupamentos de indivíduos de forma mental afim, defendendo uma verdade comum, relativa a eles, e válida para seu grupo. Assim as religiões são reagrupamentos de indivíduos, que, pela raça, história, posição geográfica, grau de evolução etc., se encontram de posse de um dado tipo de forma mental que possibilita seu reagrupamento em torno de um determinado tipo de verdade, pois, em torno de um dado pensador-chefe que a proclamou. Morrendo ele deixa-a no mundo, mas se ela não responde a necessidade e gosto das massas ele, por maior que seja, terá falado aos surdos, inutilmente. O fundador faz sozinho a metade do trabalho do lançamento de uma religião. A outra metade depende da aceitação por parte das massas, que, depois transformam tudo, adaptando-o para seu uso às medidas e formas que suas necessidades e capacidades exigem.

Explica-se, assim, como as várias religiões do mundo concebem Deus e O adoram em formas tão diversas. Deus é o ponto de convergência de todas elas, tão longe do céu, no qual todas se encontrarão unidas um dia no futuro. Uma religião é a construção mental que o homem faz por si mesmo, é concepção de Deus que ele pode atingir segundo o seu nível de evolução, relativamente à sua natureza; concepção, pois, particular, não universal, impotente para conseguir unificações mais vastas dos que as conseguidas pelo próprio grupo religioso. Trata-se de verdades que não superam os limites do grupo. Aponta-se para o absoluto, mas o absoluto está no S, no alto da escalada evolutiva, no extremo limite do grande caminho da subida, enquanto nós estamos no AS, inexoravelmente mergulhados no relativo. É verdade que o universo está cheio de Deus, que não há ponto, momento, fenômeno em que Ele não esteja vivo e presente, tal qual a Lei que é pensamento com direção e vontade que trabalha. Mas, também, é verdade que o AS é um invólucro que encerra em si o ser e o isola e separa como uma barreira da capacidade de sentir aquela presença, ficando aprisionados até romper tal invólucro com a evolução.

O estado atual do homem, diante da verdade é, pois, de separação, de cisão entre tantas pequenas verdades isoladas, egocêntricas e em luta entre si. Enquanto o involuído permanecer fechado nos estreitos confins da pequena verdade individual, em antagonismos com a dos seus semelhantes, o evoluído é, ao contrário, levado a conhecer verdades sempre universais. Com a queda, a unidade de conhecimento se fragmenta num caos de pequenas verdades rivais, em posição de concorrência. Assim se explica não só o atual estado divisionista, mas também o processo, hoje em ação, de reunificar essas verdades separadas, em grupos cada vez mais vastos. Na realidade, são apenas aspectos diversos e modos de conceber a mesma verdade, e, no entanto, não se conhecem e se condenam reciprocamente. Mas o processo evolutivo é de unificação, que já se iniciou e se realizará sempre mais no campo religioso como no político  para todas as nações.

Com a queda, o ser se fechou no limite das dimensões espaço e tempo. A forma mental humana, que é o instrumento, construiu-se em função de tal limite. O ponto de partida e de referência para cada concepção foi o terreno de sua propriedade, sobre o qual está a casa em que vive com a própria família. Eis subitamente a idéia de confim e de defesa contra os invasores; são vizinhos e estranhos que desejam entrar, como se entrassem em seus próprios terrenos. Assim procedem para roubar as mulheres e os haveres, a fim de satisfazer às duas necessidades básicas da vida, sexo e fome, correspondentes às necessidades de convivência, seja como raça seja como indivíduo.

Sobre esse esquema se constrói o castelo, guerreando contra todos. Hoje, esse castelo na tem muros e fossas, mas barreiras legais, econômicas, morais e sociais. O princípio é o mesmo, quer se trate de indivíduos ou de povos. Luta-se para invadir e para não ser invadido, em todos campos e níveis.

O homem levou consigo ao campo espiritual essa forma mental. Assim, ele constrói uma visão da vida, que é a sua verdade, a que mais lhe serve para viver. Ele considera-a sua, de sua propriedade e a defende contra outras verdades, as quais, por sua vez, são construídas por um outro homem, que, igualmente delas se serve e que as defende como propriedade suas.

Temos, assim, verdades limitadas para uso próprio, relativas a cada um; ciumentas, inimigas uma da outra. Estão separadas, mas cada uma é um centro de consciência e conhecimento e é um foco em expansão. Cada verdade tende assim a dilatar-se invadindo o campo da consciência e da vida do outro. O princípio imperialista é uma qualidade humana que se revela em cada manifestação, tanto no terreno político como no religioso, dando lugar a guerras, que são, na substância, da mesma natureza.

A maneira de cada povo e nação, cada religião tende à conquista, além de ser proselitista, dogmática e querer invadir e dominar as consciências. Daí vem a intransigência e o absolutismo egocêntrico. E nasce assim o fenômeno do imperialismo religioso.

Isto tem uma explicação: com a queda, a verdade se fragmentou em inúmeros momentos separados, egocêntricos, inimigos, em luta para sobrepor-se um ao outro, gerando o caos. Para fazê-los voltar ao estado de ordem em posição unitária não há outro modo senão reagrupar, gradualmente, em unidades sempre maiores, os elementos rebeldes e separados, impondo-lhes à força uma disciplina contra a sua vontade de desordem e separatismo. Esta é, de fato, a história e a técnica construtiva dos agrupamentos humanos, políticos e religiosos. Temos sempre um chefe que, com meios materiais e espirituais, se faz centro e se impõe por um poder superior. Temos a fase do conquistador, depois a do poder, a do expansionismo imperialista. Tudo depende da natureza humana, feita de uma forma mental que aplica em tudo o que faz e constrói. Se temos, porém, um imperialismo religioso, também temos uma verdade em contínua expansão, resultado de uma contínua conquista. A necessidade de evoluir está na base de nossa vida, e por ela se justifica em qualquer campo o método imperialista expansionista e de conquista dominadora, porque esse é um meio para chegar a unificação, que é um dos grandes fins da evolução. Vemos assim como tudo funciona e encontra a sua justificação, com a sua explicação lógica.

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Não só no campo da verdade e da religião encontramos os indivíduos que as aceitam, transformando-as para uso próprio em verdades e religiões particulares. Também no campo da moral, não encontramos uma única e universal, mas tantas morais quantas são as consciências individuais. Não falamos aqui da moral oficial, altamente proclamada e pregada, para uso da massa, feita de normas gerais que deveriam regular-lhe a conduta. Isto é o que se diz, que serve freqüentemente para mascarar o que se faz. Falamos aqui da verdadeira moral, a que não se mostra a ninguém, mas que cada um aplica conscientemente segundo sus natureza e forma metal, os únicos meios de julgar e orientar o que se possui. Esta é a moral da qual estamos verdadeiramente convencidos, mas que fica escondida por ser posição de batalha e uma arma na luta pela vida.

Dessas morais individuais existem tantas quantas são as posições de cada um ao longo de sua estrada evolutiva. Os íntimos julgamentos variam de acordo com as posições assumidas, que representam o ponto de vista pelo qual cada um olha o mundo. Assim, um involuído julgará tolo um evoluído que se sacrifica pelo ideal, e do sacrifício deste só perceberá o modo de aproveitá-lo em vantagem própria. Por sua vez, um evoluído se ofenderá com o modo materialista pelo qual o involuído entende a religião, reduzida a prática exteriores, vazias de espiritualidade, e, pior, reduzidas a dogmatismo, fanatismo,  proselitismo, intransigência agressiva contra outras religiões. Tais métodos são contra a moral das religiões e, não obstante, essas religiões são usadas porque respondem a uma outra moral, a real,  aplicada aos fatos.

Esta não é a étical ideal, que o futuro haverá de realizar através da evolução, mas é a presente tal qual se vive, é a moral biológica que funciona atualmente, não fundada sobre a compreensão e cooperação, mas luta para impor-se, porque só o vencedor tem direito à vida. Aquela outra é uma moral teórica, repetida em voz alta para esconder o estado de involução que ainda se encontra o animal humano. A praticada, porém, é esta moral biológica, egoísta e estritamente utilitária, anteposta a um fim importantíssimo que é o da defesa da vida num mundo hostil que continuamente em ameaça.

Ora, isto não significa que o homem que a segue seja mau ou tenha má fé, só pelo fato de que não pratica a moral que ele defende em palavras. Simplesmente, ele não está amadurecido para saber viver no nível do ideal, aplicando-lhe os princípios. Ele não é imoral, mas amoral.

Imaturidade não é maldade. Ele não é, pois, culpado. Simplesmente cuida de resolver o problema mais urgente; o de sobreviver – e trata de ser prudente quando não quer arriscar-se em perigosas explorações nas terras desconhecidas do ideal. Deixa tudo isso para o futuro, pensa: havendo a eternidade, para que apressar-se? Fica, então, ligado à matéria, à parte animalesca, porém mais segura realidade biológica. Ele tem boa fé, porque, no seu nível de evolução, toda a consciência que conseguiu formar no passado e que agora possui, a longa experiência através de duras provas conquistadas, lhe dizem que é necessário permanecer utilitarista sem deixar desviar por sinais perigosos; buscar, pois, vantagens imediatas e concretas, sendo experts antes de qualquer outra coisa.

O que se faz por instinto é um produto do inconsciente, em que funciona a inteligência da vida substituindo a do indivíduo, insuficiente ainda para orientá-lo. É verdade que o homem faz as coisas mais importantes da sua vida, como nascer, reproduzir-se, morrer, com muito pouca liberdade de escolha, movido por forças desconhecidas.

No mundo de involuídos, o evoluído surge como um revolucionário que quer fazer antecipar os tempos e se destaca do nível das massas, pretendendo acelerar-lhe o ritmo evolutivo, evolução a que elas se recusam, porque isso significaria precipitar os lentos deslocamentos de sua maturação. Não obstante vários profetas foram aceitos, significando serem eles também úteis à vida, a partir do momento em que ela os produz e os aceita. Não importam as adaptações necessárias para chegar à aceitação.

Num primeiro momento, isto pode parecer escandaloso pela falsificação dos ideais, depois de um exame mais amadurecido, se vê como tudo não passa de um calculado desenvolvimento de forças, canalizadas em sentido pragmático, a fim de que todas dessem o maior rendimento possível, segundo a sua natureza, para o bem do ser que deve ascender. Ora, se a vida, cujo funcionamento é dirigido pela Lei, que é o pensamento de Deus, aceitou o ideal na sua economia, embora somente na medida que esse ideal podia ser utilizado segundo a maturidade atingida pelo homem, tudo isso prova que é necessário o ideal descer à Terra. Assim, o surgimento de profetas, santos, gênios, produz sempre um certo rendimento biológico, em sentido positivo. Cristo, apesar de tudo, sobreviveu no mundo, em virtude do fato de que as massas, no seu inconsciente, por instinto de evolução, sentiram que Ele num certo sentido, embora percebido de forma nebulosa como aspiração a realizações futuras.

Descem, assim, à terra, os ideais como uma chuva benéfica sobre a selva árida e feroz. Vagam aqui e ali, alimentando o cimo das árvores mais altas, prontas para recebê-los e assimilá-los. Permanece em baixo a selva árida e feroz, onde os seres continuam os mesmos, só podendo ver com os olhos que têm e agir segundo a sua natureza. E ele está certo, dentro da perspectiva da sua verdade, relativa ao nível da sua evolução, uma verdade que pode ser um terrível erro para quem vive em posição mais avançada. Os delinqüentes, à sua maneira acreditam estar certos, do mesmo modo que a fera que devora a vítima está certa, isto é, no nível da fera. Que ela esteja vivendo a sua verdade, prova-o o fato de que não se engana, pois com tal conduta resolve o problema maior que é o da sobrevivência. A culpa da besta está apenas no fato de ser obrigada a resolvê-lo daquela maneira, enquanto que o homem civilizado pode permitir o luxo de resolvê-lo sem catástrofes e risco de vida, chegando a culpar aquele que não procede do mesmo modo. Inclusive ele, porém, se encontra diante do mesmo problema de viver e o sente tão vivo que tenta resolvê-lo não só na Terra, mas também depois da morte no céu  se faz sacrifícios, é com essa finalidade.

Para um selvagem, na sua inocência, pode parecer justo roubar e matar, quando isso lhe servir para a sua sobrevivência. Ele terá remorso e se julgará inepto se não tiver roubado, matado suficientemente, porque sua consciência animal lhe diz que faz bem quando age em benefício próprio. E que age bem prova-o o fato indiscutível, mas convincente a sua consciência, que matando e roubando tem vantagens. O bom sabor da carne humana e o bem-estar do ventre saciado persuadem de forma indubitável o antropófago de que comer o homem branco é coisa boa; como a posse da botina roubada que permite gozar melhor a vida persuade o ladrão de que é ótimo roubar sem se deixar prender; como saber usar a astúcia para enganar a boa fé dos honestos, pela vantagem que deles obtêm, persuade o astuto de que a hipocrisia é louvável. Cada um no seu nível está certo, e, na sua ignorância, tem razão. Ele é, pois, a seu modo, inocente. Mas isto não impede que cada um receba o que merece, isto é, a pena máxima, que não é, como se pensa, ficar momentaneamente derrotado na luta, mas ser uma criatura daquele nível e o dever de nele permanecer, quem sabe por quanto tempo, mergulhado nas trevas e nas dores relativas.

 

 




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