A vida é escola para aprender e subir.

Procuremos agora ver mais de perto a estrutura do mecanismo da Lei, que, como observamos, dirige a nossa vida.

Temos verificado que o homem é impulsionado para as duras experiências da vida pelo seu instintivo e irrefreável desejo de felicidade, mas que esta, na Terra, não pode ser atingida. E temos visto que tudo isso se resolve numa corrida em busca de um inacessível ponto final, que se afasta de nós a medida que nos aproximamos dele. Embora não seja satisfeito nosso desejo, realiza-se a vontade da Lei, que assim atinge o seu escopo, que é o de nos fazer evoluir, o que significa aproximarmo-nos sempre mais da almejada felicidade. Acontece desse modo que a corrida, dolorosa e cheia de desilusões, conduz sempre a felicidade, apesar do caminho ser mais fatigante e amargurado do que o homem desejaria. Outrossim, o que parecia ser crueldade da Lei, revela-se como sua bondade e profunda sabedoria.

A conclusão é a seguinte: esse jogo complexo representa somente uma escola destinada a ensinar a disciplina da Lei, a desejar com inteligência o que e possível atingir para o nosso bem, dirigindo-nos sabiamente pelos seus caminhos. O mais importante disso tudo é que vamos subindo de um plano de existência para outro mais elevado, onde vão desaparecendo a prepotência, a injustiça, a maldade, as lutas e os sofrimentos que atormentam o ser nos planos inferiores. Pelos frutos se conhece a árvore. E frutos melhores não se poderiam desejar. Isto nos prova a sabedoria e a bondade de Deus, e é um convite para nos entregarmos confiantes aos seus braços.

É possível compreender agora o significado e a boa finalidade da luta pela vida, que é a lei do nosso plano. Esta lei, nesse seu aspecto tão duro, não é princípio biológico universal, mas só qualidade dolorosa particular aos planos inferiores de existência, próximos aos da animalidade, existindo apenas como meio a ser superado e destinado a ser relegado aos planos inferiores pelos seres em evolução. Os diferentes planos de existência são regidos por princípios diferentes, de modo a desaparecerem lutas e necessidades, a medida que vamos subindo a escada evolutiva.

Chegamos ao ponto que mais toca de perto. Continuando ao longo desse caminho, acabaremos por atingir um plano onde lutas e necessidades já não existirão mais. Isto quer dizer que as necessidades da vida, pelas quais tanto se combate, serão satisfeitas sem luta, gratuitamente. Explica-se assim o fenômeno da Divina Providência, que é um fato que se realiza inclusive em nosso mundo, a benefício dos mais evoluídos, pertencentes, pelos seus merecimentos, a mais altos planos de vida. O esforço exigido pela Lei é duro, mas a sua justiça quer também que, à medida que avançamos, ele se vá tornando cada vez mais leve. Quanto mais ascendemos, tanto mais diminui o esforço necessário para continuar a ascender, aumentando ao mesmo tempo o rendimento do nosso trabalho. Com a evolução tende a diminuir o esforço requerido para continuar a evoluir, tornando-se todos os benefícios cada vez mais gratuitos. Ocorre uma coisa parecida com a velocidade do movimento. Este é tanto mais fatigante quanto mais estamos apegados a terra. Toma-se mais fácil e rápido no ar, e sem dificuldades prossegue sem esforço algum nos espaços siderais. Evolução quer dizer libertação e potencialização, chegando a anular os empecilhos que nos planos inferiores nos tolhem o caminhar. Nos planos superiores de existência desaparecem, juntamente com todas as suas tristes consequências, as duras leis da animalidade e ferocidade, predominantes em nosso plano de vida.

Compreende-se e justifica-se, assim, a dura necessidade de trabalho em nosso mundo. A última razão da existência desse trabalho não se pode, no entanto, encontrar na Terra, porque dele, em última análise, aqui não fica nada de definitivo. Tudo o que fazemos está sujeito a tal caducidade que o trabalhar parece a tarefa de um escravo condenado a construir eternamente em cima de areias movediças. Observado só na sua aparência exterior, esse trabalho parece inútil, parece uma condenação sem sentido. Mas, existe um sentido: a construção que o homem realiza não está na Terra, mas dentro de si mesmo. Se suas obras se reduzem, afinal de contas, a um deslocamento de matéria, que permanece na superfície terrestre, onde esse contínuo esforço aparenta, em sua essência, ser apenas uma corrida atrás de ilusões, não é inútil, porque não é uma vitória terrena; mas representa uma fadigosa experiência para aprender. Se não quisermos cair como presa da ilusão, é preciso compreender que o verdadeiro fruto do nosso trabalho não está na obra realizada, mas na lição aprendida, na qualidade adquirida, no progresso atingido. Só assim se explica porque as leis da vida não se interessam por aquilo que mais nos interessa, ou seja, a conservação dos resultados materiais atingidos com tanto sacrifício, e que, abandonados a si mesmos, ficam sem defesa e acabam logo por se perder. E no entanto, nem por isso o progresso para. O que permanece não é a obra realizada, mas é o conhecimento adquirido da sua técnica construtiva, com a qual se podem construir outras obras semelhantes em número infinito, abandonando-se as anteriores, que valem só como experiência. Este é o verdadeiro significado de todos os trabalhos e de todas as obras humanas. A Lei não cuida da conservação do fruto material, porque é o fruto espiritual que tem valor, e este fica gravado na alma de quem realizou o trabalho.

Podemos agora compreender o verdadeiro valor das coisas que chegam às nossas mãos. A Lei nô-las deixa possuir, manusear, dirigir; contudo, cedo ou tarde, chega o dia em que temos de nos desprender delas e, então, teremos de devolvê4as a Terra da qual tomamos, devolver tudo, até o nosso próprio corpo. Assim, todas as coisas não nos são dadas senão por empréstimo, em usufruto temporário. Nosso é só o bom ou mau uso que tivermos feito das coisas recebidas. Todo o restante fica na Terra. Isto não quer dizer que com a morte não possamos levar nada conosco. A Lei tira-nos o que é inútil, e que na ilusão da vida julgávamos ser a coisa mais importante, enquanto nos deixa levar conosco o que vale mais, o verdadeiro fruto do nosso trabalho, ou seja, a nossa experiência, representando a sabedoria, a ser utilizada por nós mesmos. Esta experiência e a riqueza acumulada, da qual somos donos, capital que teremos a nosso dispor nas futuras vidas.

Então, tudo o que possuímos na Terra é somente material escolar, meio para aprender. Também as consequências desse fato estão escritas na lógica da Lei e são muito importantes. Se a finalidade de tudo o que chega ao nosso poder é a de nos ensinar o uso certo das coisas, adquirindo-se o sentido da justa medida e as qualidades de ordem, autocontrole e disciplina, é justo que a Lei nos tire tudo, quando temos cobiça demais e fazemos mau uso dos nossos poderes. E que a Lei nos deixe tudo, quando não temos cobiça e fazemos bom uso do que possuímos. Se a perda das coisas nos abala, porque a elas estamos muito apegados, então, para aprender a lição de que elas são um meio e não um fim, é bom perdê-las, para tomarmos conhecimento de que os verdadeiros valores da vida, os que merecem o nosso apego, encontram-se noutro lugar. Mas, se a perda das coisas não nos abala, porque a elas não estamos mais apegados, então é porque aprendemos que elas são um meio e não um fim. Nesse caso, somos espontaneamente o que devemos ser, isto é, apenas administradores honestos, e podemos possuir tudo sem perigo algum para nosso espírito. Acontece, assim, que na lógica da Lei passa a não haver razão para que as coisas nos sejam tiradas, mas, pelo contrário, já há motivo para que tudo nos seja doado, porque, uma vez aprendida a lição, não há razão que justifique renúncias forçadas e limitações dolorosas. Esta é a lógica da Lei, isto é, o caminho para chegar à abundância é o desapego. A lógica do mundo é uma contradição da lógica divina, e a prova disso são os frutos que nele se colhe, isto é, luta e necessidade, onde poderia haver paz e bens em abundância para todos.

Como se vê, a Lei é inteligente, tem uma sua lógica e pode-se raciocinar com ela. Ora, a lógica da Lei é que o impasse de sofrimentos e desilusões em que se encontra o homem no seu plano de vida, tem de ser resolvido, e não pode existir senão para ser resolvido, porque, se assim não fosse, seria uma condenação louca e cruel, um trabalho duro sem escopo nem sentido. Mas, a Lei é boa e lógica, e, assim, a vida é apenas uma escola para aprender. Com isto, tudo se explica e justifica.

A conclusão desta nossa conversa, por estranha que pareça, é esta: tudo podo ser obtido, e com facilidade, mas só quando não o desejarmos mais com cobiça, porque só então, neste caso á possuir não representará mais um perigo para nós. Se o escopo de tudo é evoluir, é lógico que seja tirado de nós tudo o que constitui a base de um apego excessivo, que não nos deixaria prosseguir em nossa obra mais importante: o progresso no caminho da evolução. Em outras palavras, o que impede que tudo chegue da infinita abundância existente em todas as coisas, é a nossa incapacidade de saber fazer bom uso delas, esquecidos da verdadeira razão pela qual as possuímos As vezes faltam ao homem muitas coisas, pelo fato de não ter ainda aprendido a empregá-las sensatamente. Após atingir as necessárias qualidades de inteligência, bondade e desapego, imprescindíveis a boa direção de tudo, não há mais motivo que justifique a privação. Por que deveria a Lei atormentar-nos sem uma finalidade útil para o nosso bem? Deus não quer isto.

Na Terra, há de tudo em demasia. O que falta é saber-se de tudo fazer bom uso O homem ainda não aprendeu esta lição e, para evoluir, faz-se mister aprendê-la. Enquanto ele estiver preso aos seus baixos instintos de luta, esmagando todos com o seu egoísmo, ser-lhe-ia um dano possuir poderes maiores, e é lógico e bom que ele perca o que não sabe empregar senão para o seu próprio prejuízo. Isso revela a sabedoria da Lei. E isso é, de fato, o que acontece normalmente. O homem, descobridor da energia atômica, não possui ainda uma psicologia bastante evoluída para saber usar, sem dano seu, uma força tão poderosa. A descoberta que ainda falta, mais importante do que a energia atômica, é esta psicologia, sem a qual aquela se torna perigosa e não pode dar fruto senão de destruição. Por isso, infelizmente, é inevitável que o homem, com a descoberta atômica, destrua tudo, para aprender a indispensável lição de saber usá-la, e chegar assim a realizar A descoberta maior, da nova psicologia do homem civilizado, que sabe utilizar só para o bem da humanidade, e não para destruí-la, o progresso atingido pela ciência. Da descoberta atômica e da destruição a que ela levará, surgirá, como seu maior e verdadeiro fruto, a construção e um homem mais sábio Tudo é lógico. Se o escopo é evoluir como atingi-lo de outra maneira?

O homem está criando, com a sua cobiça de possuir demais, a sua miséria. Isto é loucura. Mas ele terá de experimentar tantos sofrimentos, até aprender que isto é loucura. Até agora ele não sofreu bastante com as suas guerras para resolver acabar com elas. Mas, chegou a hora da última experiência decisiva e esse caso será resolvido. E quando, com a guerra, for morto também o instinto feroz de destruição recíproca, então, com a destruição, acabará a necessidade e, por ter aprendido a lição, o homem poderá gozar da natural abundância das coisas, da qual somente o seu mau comportamento o afasta.

Na sabedoria da Lei, o desejo existe para ser satisfeito, e não para ser traído com enganos. Quando isto acontece, não pode ser devido senão à falha de quem deseja, porque desejou na medida e na direção erradas. Com a privação, a Lei nos fecha as portas da satisfação para que acorde em nós o desejo de coisas mais elevadas, e vamos à procura delas. É assim que, desapegando-nos das coisas inferiores e apegando-nos às superiores, conseguimos subir um novo degrau na escada da evolução, realizando dessa forma aquilo que é a maior finalidade da vida, em vez de correr atrás de dolorosas ilusões. Eis pois que, como quer a bondade da Lei de Deus, a felicidade está em nosso caminho, esperando por nós, para ser atingida com o nosso esforço, vindo ao nosso encontro, se quisermos cumprir esse dever.

Desta maneira, ficam de pé a bondade de Deus e a sabedoria da Lei, e revela-se ser justo o que ao primeiro olhar parece ser um engano cruel. Compreende-se, então, o verdadeiro sentido do jogo de nossa vida, tal qual o vemos desenvolver-se em nosso mundo.




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