O Catolicismo na grande batalha A involução das massas e sua incapacidade de autodirigir-se. O princípio da autoridade. Disciplina e obediência. Fé e ortodoxia. Pode dar-se liberdade aos imaturos? As adaptações da Igreja e as escapatórias do mundo.


Não podemos deixar de observar o contraste e o êxito da luta entre os dois elementos opostos: espírito e matéria, Evangelho e mundo, e isto, justamente, no próprio seio do órgão social e historicamente especializado para realizar a grande função de estabelecer contatos entre o céu e a terra, com o objetivo de espiritualizar o homem, o que, em termos científicos, quer dizer fazê-lo progredir ao longo da estrada da evolução que, como já  mencionamos e mais tarde demonstraremos, caminha para a espiritualidade. Esse órgão é representado pelo Cristianismo, que se constituiu uma religião. Naturalmente nos referiremos ao nosso mundo ocidental, onde isso ocorreu, e onde esse fenômeno esta funcionando há dois mil anos.

Desde o inicio, e até agora ainda, o Cristianismo se acha envolvido na resolução do tremendo problema da descida dos ideais à terra. Pode interessar-nos ver como, neste caso, foi resolvido esse problema, que procuramos resolver nestas páginas. Desde o início achou-se a Igreja de Roma com a necessidade de aceitar, como código de vida, o Evangelho, que era a lei estabelecida pelo seu Fundador. Vimos que o Evangelho significa a lei do evoluído, ou seja, de um tipo raro na terra, e vimos qual é a revolução que essa lei quer operar. Como fez essa instituição para sobreviver e permanecer coerente com seus princípios, para resolver o conflito, estando constrangida ao mesmo tempo a viver no mundo, tendo que apoiar-se nele também como coisa humana, que não podia deixar de ser, e tendo de sofrer por isso, inevitavelmente, a influência dele? Que aconteceu nesse ponto de aproximação entre o céu e a terra, de maior conexão, e por que nesse ponto devia ocorrer o enxerto do espírito na matéria? Que ações e reações produziu esse contato entre os dois extremos opostos, especialmente no órgão encarregado de realizar essa função? E neste caso, como foi dirigida e quem venceu a grande batalha que estamos estudando: foi o Evangelho que transformou o mundo, ou foi o mundo que transformou o Evangelho? O resultado obtido até agora foi a espiritualização da matéria, ou a materialização do espírito? Sem dúvida, os dois elementos têm de coexistir no Cristianismo, que não pode eliminar de si a idéia de Cristo, nem o fato de que precisa viver na terra. Como foi possível realizar tão difícil convivência, que já de per si é um problema árduo a resolver, à espera de que, com o tempo, possa solucionar-se o outro, o da vitória definitiva de um dos dois antagonistas sobre o outro?

Já aludimos, no meio do cap. II do volume precedente, A Grande Batalha, à função que na terra têm as igrejas constituídas, para aqui transportarem seus ideais. Elas são, ou deveriam ser, o ponto de encontro de dois planos de vida: como organização humana representam, ou deveriam representar, o vaso material que recebe do céu e conserva na terra o conteúdo espiritual que as religiões dispensam ao mundo para o seu progresso. Nestas, nas doutrinas, nas instituições, nas formas e até nos templos, o ideal imaterial toma corpo em construções de pedra e organizações de homens. Ora, é evidente que o valor e o poder das religiões residem em seu conteúdo espiritual, que é a alma que as sustenta. Se o vaso está vazio, torna-se ele uma mentira, um corpo sem alma, isto é, um cadáver. Ora pode acontecer que o vaso se torne esplêndido e imenso, mas que, quem tiver cuidado desse trabalho, tenha deixado evaporar o precioso licor que estava dentro dele, de modo que agora aquele vaso nada mais contém. Nas religiões, como em nosso organismo, é necessário haver equilíbrio entre espírito e corpo. Um espírito só, sem corpo, passa despercebido. Um corpo só, sem espírito, torna-se cadáver putrefato. Vimos, no princípio do capítulo precedente, como as religiões tendem, hoje., a ser concebidas materialisticamente. Ou seja, como a forma mental dominante em todos os campos é o materialismo, assim ele permanece, mesmo quando se cobre de formas religiosas, dando lugar a coisa ainda pior, que é o materialismo religioso. Sendo assim, seria este um triste indício de decadência. Se o cristianismo se tivesse realmente transformado num corpo sem alma, só lhe restaria a sorte que se reserva a um cadáver.

Vimos como o indivíduo pode conduzir a grande batalha por si mesmo, em casos isolados. Vejamos agora como a costumam conduzir na terra, no reino de Satanás, os homens encarregados de tratar dos negócios do espírito e de Deus. Vejamos quais são as atitudes assumidas e os expedientes usados neste trabalho de cristianização do mundo ocidental, que retorcimentos terá de suportar uma lei feita para os anjos, para poder tornar-se realizável num mundo feito para as feras. No esforço da autoridade espiritual para aplicar essa nova roupagem à  humanidade, para fazê-la, ao menos, parecer civilizada, até que ponto se conseguiu colocar a mordaça na animalidade rebelde? Logo que nos afastamos do caso excepcional, a grande massa das multidões, que constituem o rebanho a guiar, só pode oferecer-nos, no máximo, as primeiras aproximações elementares do ideal. Seria absurdo pretender mais. Não se trata tanto de ter realizado, quanto de saber o que pode sobreviver do Evangelho nesse ambiente, o que permaneceu do choque entre o encarniçamento dos pregadores de virtude, armados de terrores e sanções para domar a animalidade humana, e o encarniçamento do rebanho, cuja animalidade não aceita de maneira nenhuma deixar-se sufocar pelos ideais. Seria interessante ver também como, debaixo do nobre manto dos ideais, muitas vezes não se tem podido deixar de continuar a conduzir a desesperada luta para viver, que é patrimônio de nosso mundo. Talvez somente levando em conta o que verdadeiramente é a natureza humana, poder-se-á compreender, em muitos casos, em vez de nos escandalizarmos e condenarmos.

O ser espiritualmente maduro baseia-se na substância, dando à forma o valor que ela merece. Quanto mais o ser esta adiantado, mais livremente aceita por convicção, e maior conhecimento possui para poder autoguiar-se. Diante de que elementos se achou o cristianismo, desde o seu primeiro aparecimento e, em grande parte, se acha ainda? Uma religião não se apoia em pequenos grupos de eleitos, mas nas grandes massas dos fiéis; não deve tratar com poucos escolhidos de exceção, mas com o tipo biológico comum, que ia vimos o que é. Multiplicando esse tipo pela massa imensa das multidões que formam as religiões, poderemos perceber o peso que, em todas as manifestações da vida, poderão exercer os instintos dessas multidões. Ora, é um fato positivo que o cristianismo nascente se encontrou diante de uma forma mental primitiva dominante, a materialista, mais capaz de perceber a forma do que a substância; uma forma mental involuída, que não sabe aceitar livremente por convicção, mas, tal como ocorre no plano animal, só obedece por temor; uma forma mental que não tem conhecimento além dos limites da luta pela vida, e que, portanto, é absolutamente incapaz de poder autoguiar-se no terreno das coisas espirituais.

Ora, tratar um primitivo como homem civilizado, é um erro que logo aparece nas suas conseqüências tristes. Não podem dar-se pérolas aos porcos; não se pode dar alimento espiritual puro, sem revestimento de formas, a quem apenas sabe conceber coisas materiais; não se pode dar liberdade a quem esta habituado a funcionar apenas debaixo do aguilhão do mando; não se pode dar direito de autodecisão a quem não possui nenhum conhecimento para dirigir-se. Não estamos aqui para aprovar e condenar, mas apenas para observar e compreender. Assim nos explicamos porque a direção tomada pelo cristianismo desde seu primeiro nascimento teve de ser a da disciplina. Disciplina e não liberdade. Isto significa autoridade em quem manda e obediência das massas.

Sem dúvida, não é esta a idílica atmosfera do Evangelho; mas este é constrangido a tornar-se assim, quando desce a terra. Diante da imensa multidão, representada pela psicologia dominante, nada pode funcionar senão com a psicologia do próprio prejuízo e da própria vantagem, egoisticamente pessoal. Teve, assim, o Evangelho de haver-se com o duríssimo egocentrismo individual. Sem o terror do inferno de um lado e a cobiça de ganhar um paraíso do outro, nada se teria podido obter do ser humano. E, dado que, como massa, ele representava a força maior, só restou ao cristianismo aceitar-lhe as exigências psicológicas. Trabalho, alias, não difícil, porque afirmar-se o princípio da autoridade nos chefes e de obediência nos fiéis, representava não só o único meio indispensável para manter a disciplina — e com isto poder realizar a própria função espiritual — mas correspondia ao instinto natural de domínio dos chefes e ao estado de servidão a que estavam habituados os fiéis. Isto era justamente o que se fazia para todos na vida social, dirigida por esses princípios, que correspondiam exatamente ao tipo biológico predominante em todos os lugares. Não se pode esperar que os dirigentes de uma religião representem uma raça diferente da comum, uma raça guiada por outros instintos.

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Assim, imposto pelas exigências do ambiente humano e gerado pelo instinto da luta na seleção do mais forte, nasceu o princípio de autoridade no cristianismo, como nasce em qualquer agrupamento humano. Assim como Cristo teve de tomar um corpo físico quando quis descer à terra, assim o Evangelho teve de aceitar os métodos e as leis do mundo, quando quis nele realizar-se. Esse sistema esta em vigor até hoje. Alguns mais amadurecidos sentem que deveria ser diversamente, e se acham constrangidos dentro de uma disciplina que só admite a posição do crente que aceita em obediência. Mas eles são apenas uma exígua minoria, e as minorias nunca têm razão. A Igreja não pode ocupar-se deles, mas apenas da massa, que é bem diferente. Para os favorecer, seria mister abrir as portas a uma liberdade para a qual os outros não estão de maneira nenhuma maduros, estando prontos a fazer péssimo uso dela. Assim, — tal como ocorre com o divórcio, mesmo que em alguns casos seja útil — não é solução ideal.

Desta forma, a Igreja continua a tratar os seus súditos como crianças, a quem não compete indagar a respeito de mistérios nem resolver sozinhos os problemas, porque aquilo que se deve saber e crer já é oferecido confeccionado e pronto para o uso como os remédios que engolimos sem refazer o diagnóstico do médico que no-los prescreveu, nem a analise química do laboratório que os confeccionou. Resolveu?se, assim, o problema da maneira que o ambiente humano permitia: os dirigentes assumiram a responsabilidade de guiar e aos discípulos menores de idade só restou crer, ouvir e aprender. Não se usa diariamente esse método nas escolas? É método imposto pelas condições humanas, e enquanto essas condições não mudarem, como mudar-se o método? Poderemos escandalizar-nos com o fato de que a Igreja dá provas de não acreditar no amadurecimento espiritual de seus filhos. Mas como acreditar nele, se esse amadurecimento não existe, de fato, na maioria? Se a humanidade estivesse verdadeiramente amadurecida, não haveria necessidade de autoridade, de coações, de sanções, em campo algum, nem mesmo no social. Ora, existe algum estado que não tenha exército e polícia, alguma lei que não prescreva penalidade ao seu não-cumprimento? Não é esta a forma mental dominante? E como poderiam as religiões abrir uma exceção, como se operassem num mundo diferente? E como dizer toda a verdade a um tal tipo de homem, pronto a reduzir tudo em função de seus instintos e interesses materiais? O próprio Cristo não pôde dizer tudo às multidões. Assim, a verdade esotérica, plena e completa, só pode ser patrimônio de pequena parte da humanidade, enquanto à massa pode ser dado como alimento apenas a parte exotérica, limitada e pública


Como a capacidade criadora de um chefe é medida pela capacidade de correspondência de seus súditos, assim também o que constitui o campo de ação de uma religião é o grau de compreensão e o nível de evolução de seus prosélitos. Como pretender que compreendam, aqueles que não sabem pensar? Explicar tudo, então, significa apenas gerar dúvidas sem fim e uma confusão geral. Eis a necessidade da fé. Cristo não podia dizer: olhai, as coisas são assim, porque vo-las explico e demonstro; mas teve de dizer: acreditai, porque vo-lo digo eu; e como prova, faço-vos milagres, já que isto é o que mais vos convence. Depois, nas coisas humanas, aparece logo a questão prática de obter o máximo resultado com o mínimo esforço. Ora, mesmo que o homem comum tivesse inteligência para enfrentar e resolver os problemas do conhecimento, ele preferiria poupar tempo e esforço, aceitando as soluções que já se encontram prontas, feitas por outros mais competentes e especializados. Um dos maiores problemas humanos é o de poupar trabalho e satisfazer a todas as necessidades próprias, inclusive às espirituais, com o menor dispêndio possível de energia física e mental. Onde existe um esforço muito grande para fazer, o homem pára. O que ele compreende em primeiro lugar é cansar-se pouco e fazer-se servir. Nisto ajuda-o a construção em série. Assim, já que é cansativo e difícil achar a verdade por si, o mundo vive em qualquer campo de verdades já feitas, oferecidas no mercado das idéias por aqueles que, por outras razões, acharam útil especializar-se nesse trabalho. Na prática, não se acha o grande pensador, mas o manual que, para nosso uso, esmiuça o pensamento em ordem alfabética.

Estabelecido o princípio de autoridade, de disciplina e de obediência a um governo central, tende assim a religião a transformar-se numa grande maquina burocrática, constituída de homens que disciplinam o seu trabalho na forma regular de administração. Desponta então o instinto humano expansionista que, se nos estados fortes assume a forma de imperialismo, realizado com a guerra, nas religiões tem o aspecto de proselitismo, para aumentar o rebanho. Rebanho significa criação de ovelhas em série, ou seja, produção de um dado tipo de fiéis, para os quais já está estabelecido como devem pensar, em que precisam crer, e o que é mister fazer. Só assim pode obter-se a disciplina indispensável para que o soldado possa ser enquadrado e o exército possa começar a marchar organizadamente. Para quem lê o Evangelho, pode parecer absurdo que dele possam tirar-se estas conseqüências. Mas a culpa não é do Evangelho, e sim do mundo que impõe suas leis a quem quiser entrar em seu terreno. Certamente, para ser vivido como ele é, o Evangelho exigiria um mundo de santos. Mas isto não existe na terra, e, mesmo que pudesse formar-se um governo de santos no mundo religioso, esse governo seria logo liquidado pelos métodos humanos. Assim se explica por que as religiões tendem a tomar a forma que lhes e imposta pela natureza humana e pelas condições do ambiente terrestre.

Formou-se, assim, o modelo estandardizado do crente disciplinado e obediente, nos pensamentos e nas obras, o tipo do perfeito ortodoxo. Ele aceita tudo sem discutir, não importando se não entende. A compreensão é um fato interior, pessoal, difícil de controlar, ao passo que discutir tem sabor de revolta e semeia escândalo. Mas o indivíduo comum foge desse esforço. Seus instintos e objetivos são outros. Sua psicologia é utilitária e simples. Cada um quer viver depois da morte, e viver o melhor possível, como procurou fazer na terra. Ora, as religiões ensinam que, fazendo certas coisas, depois se vai ao paraíso, e fazendo outras vai-se sofrer no inferno ou alhures. O raciocínio da própria alegria ou dor é compreendido por todos. Façamos então aquelas coisas que nos trarão vantagem, mesmo se custam um pouco de esforço; e não façamos as que nos trazem prejuízo, embora custe isto um sacrifício. É opinião corrente que esse cálculo corresponda, depois, aos fatos; isto é afirmado por grandes autoridades, e, portanto, aceitemo-lo. Além disso, ninguém mesmo sabe, com segurança, por experiência própria, como se passam realmente as coisas. Seguro é só aquilo que temos hoje em mão. Assim raciocina o homem prático, apto a viver na terra. Já  falamos desse materialismo religioso, pelo qual qualquer coisa, na terra, tende a ser concebida materialisticamente e a ser transformada nesse sentido.

Que podem, no fundo, as religiões? Algumas práticas exteriores, alguns possíveis sacrifícios e deveres, crer ou não crer em algumas coisas, que é bem difícil controlar se são verdadeiras ou não; aliás, coisas longínquas que pouco tocam na realidade da vida. Feitas as contas, convém fazer esses pequenos esforços, em vista de uma utilidade futura, que também poderia ser verdadeira. Por que, então, não fazer tudo isso, quando, além do mais, pode obter-se com isso estima, confiança, que se concedem às respeitáveis criaturas que pensam bem, se não mesmo poderes e honras? Por que não agir assim, quando isto pode salvar-nos a alma na outra vida, enche-nos de bênçãos nesta, e agir assim não faz mal a ninguém: ao contrário, é um bom exemplo, louvado como virtude? Assim surgiu a acomodação, e o acordo é completo dos dois lados: as religiões mantêm a sua unidade na disciplina e obediência dos fiéis; e estes, com pouco incômodo, calculam obter uma boa vantagem.

Surgem as dificuldades quando aparece o indivíduo que quer agir seriamente, e portanto exige chegar ao fundo dos problemas, porque ele quer pensar, compreender, e finalmente resolver, já que ele tenciona, depois, viver a sua fé. Ser ortodoxo no caso comum é fácil. Trata-se de dizer que se crê, dizê-lo com a boca e também com toda a boa-vontade do coração e da mente, sem dúvida de boa-fé, mas sem saber o que significa crer e sem compreender o significado das coisas em que se diz acreditar. Para um indivíduo imaturo é equivalente e indiferente aceitar esta ou aquela idéia, pois logo que se sai do terreno das coisas materiais, tudo se perde, para ele num oceano de pensamentos impalpáveis. Mesmo para ser herege são indispensáveis certa inteligência e interesse pelos problemas que estão para além  da materialidade da vida. Mas à grande maioria só importam, ao invés os que estão próximos e são tangíveis. Daí se conclui que a perfeita ortodoxia pode ser efeito não de uma fé mais viva, mas da falta de interesse, conseqüência implícita do estado mental que explicamos, o materialismo religioso. Então, a aceitação cega e completa liberta o crente de entrar em questões espinhosas, inúteis porque insolúveis para ele, e representa muito menor esforço sepultá-las sob o belo manto da fé, para ocupar-se, em lugar disso, com o que interessa muito mais, as coisas deste mundo. Quem não escolhe o caminho de menor resistência e cansaço? Por que não acreditar em tudo o que as autoridades ensinam, quando isto custa tão pouco e não traz conseqüências no terreno prático, em que está o nosso tesouro? Esse também é um modo de enfrentar e resolver os grandes problemas do espírito. Por isso, é fácil ser ortodoxo, quando esses problemas pouco nos atingem, porque se sabe que a vida prática é outra coisa, e o que nos interessa são os negócios da matéria e do mundo.

Mas existem, embora excepcionalmente, indivíduos maduros, para os quais as coisas espirituais têm suma importância. Eles sabem o que significa acreditar e, para crer seriamente, precisam compreender, porque de sua fé dependem conseqüências importantes em sua vida, a orientação e a conduta próprias. Para poder agir de conformidade com a própria fé, é preciso compreender bem aquilo em que se crê. Se não for assim, chamemos fé não a um conhecimento preciso, apto a guiar-nos, mas a um vago nevoeiro que permanece nos céus sem interessar nem atingir a nossa vida. Estes amadurecidos não têm medo de pensar e de esforçar-se contanto que chequem à verdade, e a uma convicção própria profunda. Eles não podem desinteressar-se dos problemas do espírito, e fazer calar a sua fome de conhecimento, em relação às coisas supremas. Não podem deixar de ser honestos diante de Deus e da própria consciência, e não podem dizer que acreditam firmemente naquilo que não compreenderam, e que lhes não interessa absolutamente nada compreender.

Ora, acontece que, para as religiões oficiais, baseadas, como vimos, na disciplina e na obediência, esses que, espiritualmente, deveriam ser aceitos como os melhores elementos, são considerados os mais perigosos, como logicamente o seria, num exército organizado, um soldado que, por ter muito zelo e inteligência, quisesse examinar os planos do próprio general. Essas qualidades que trazem desordem, não são admitidas nem no soldado, nem no fiel. No seio da ordem constituída, tudo o que é insubordinação traz desordem, semeia escândalo. Podem esses indivíduos estar animados das melhores intenções, mas, no organismo constituído, não há lugar para eles; a grande máquina esta construída para funcionar por meio da aceitação cega de uma doutrina já feita, e não para elaborar a cada passo uma nova. Os reformadores serão úteis, sem dúvida, para fazer progredir o pensamento humano, mas o que mais interessa aos organismos constituídos é, sobretudo, conservar a ordem     em que eles se fundamentam, e não procurar novas idéias que a perturbem. Então, o tipo do pesquisador que não  pensa com a cabeça dos chefes mas quer pensar com a própria, que não crê cegamente mas quer antes compreender e discutir, e com isto ameaça tornar-se um inovador, é olhado com suspeita, como um perigo para a integridade da doutrina, como um rebelde, o mais difícil de todos a ser enquadrado na perfeita ortodoxia. Por isso, os inovadores mesmo se forem santos, são inicialmente olhados com desconfiança, apesar de mais tarde — após severo controle e uma vez que se compreendeu sua utilidade — serem aceita suas idéias. Ninguém é tão perigoso e importuno quanto aquele que, em nome dos próprios princípios da religião — porque é honesto e sincero — se sente autorizado a sindicar, perturbando assim soluções já alcançadas e confirmadas pela autoridade, ameaçando, mesmo sem o querer, a deslocação das pilastras em que se apoia todo o edifício. Tais seres, rebeldes às mentiras convencionais da sociedade, gostam de dizer a verdade, o que constitui grave escândalo em nosso mundo. Assim, eles são condenados por todas as religiões, ou seja, pelo mesmo tipo de homem que se encontra em todas as religiões

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Diante do princípio da autoridade, façamos esta pergunta: pode dar-se plena liberdade a um ser, quando ele não possui o conhecimento necessário para autodirigir-se? Deve tirar-se a liberdade daquele que não saberá usa-la bem, mas só em prejuízo próprio?

Dominar o próximo, impondo-lhe a própria vontade, é coisa normal e natural na terra, no plano biológico animal do involuído. Aí a autoridade é patrimônio do mais forte, que venceu os mais fracos, em relação aos quais, portanto, só por esse fato, têm direito à obediência. Sem um comando, uma disciplina, — e portanto uma diminuição de liberdade — não pode construir-se um organismo na terra. Se se desejasse fazer do cristianismo uma instituição neste mundo, era mister obedecer às exigências desse ambiente. E eis por que, neste ponto, ele não pôde manter-se divino, mas teve de tornar-se completamente humano. Constituirá isto um defeito, ou uma culpa sua?

Podem apresentar-se dois argumentos em sua defesa. 1º) A impossibilidade pratica de fazer-se obedecer, se não foi usada a autoridade, fato, portanto, necessário para poder realizar o dever de cumprir a própria missão na terra. Mesmo para o espírito, não há outro meio de realizar-se neste plano biológico. 2º) A parte divina da instituição permanece inativa apenas momentaneamente, à espera de manifestar-se cada vez mais, gradativamente, conforme o permita a civilização do ambiente. Ela se conserva escondida no íntimo, em potência, como uma arvore está na semente, mas para revelar-se depois, cada vez mais. Então, o princípio divino permanece invariável. O que muda é o grau de sua manifestação e realização na terra, permitido pelas condições desta. O uso do princípio da autoridade, ou seja, desse método de tratar, na prática, com as massas humanas, as coisas do espírito, seria apenas transitório; como uma flor que se conserva ainda fechada como defesa, mas pronta a abrir-se para a liberdade do ar e do sol, logo que a tepidez de um ambiente mais civilizado o permita. Não é o divino que evolui, mas a capacidade humana de compreendê-lo e realizá-lo. Só o absoluto pode permanecer imóvel em sua perfeição. Todo o resto, inclusive as religiões que o representam, não podem deixar de evoluir para a perfeição.

Isto significa que as instituições do cristianismo, em primeiro lugar a Igreja, deverão, com a evolução do homem, afastar-se cada vez mais dos métodos do passado, para introduzir novos, mais adequados. Ou seja, será mister afastar-se cada vez mais do princípio da autoridade e caminhar para o princípio da liberdade. E isto porque o primeiro corresponde ao estado involuído da matéria e ao plano biológico da animalidade, ao passo que o segundo corresponde ao estado evoluído do espírito, e ao plano biológico da humanidade futura.

Só assim se consegue resolver o conflito entre o espírito do Evangelho, que se baseia na livre e espontânea adesão à substância, e os sistemas autoritários e formais, que tiveram de ser adotados na prática. Como poderia conceder-se o direito de livre exame ao homem ainda primitivo, quando a Igreja cobiça solução urgente de outro problema bem diverso, o de sobreviver, salvando a própria unidade? Diante dessa necessidade premente, qualquer idéia de liberdade significa uma revolução perigosa, para a qual já os ânimos tendiam por si mesmos exageradamente. Ao invés de encorajá-los, era preciso freá-los, porque outras tarefas bem mais urgentes se impunham de momento. É verdade que o Evangelho se levantara justamente contra o formalismo farisaico, mas é também verdade que permanecíamos no mesmo mundo, onde impera a mesma psicologia humana, que, se não quisermos cair no caos, exige uma disciplina rígida sob o comando de uma autoridade. Sem dúvida, para ser perfeita, uma Igreja deveria ser constituída só de santos. Só então o Evangelho poderia ter realização completa. E certamente uma tal Igreja de santos saberia tratar muito bem das coisas do céu. Mas será que saberia tratar das coisas da terra? Os santos, em geral, não se ocupam com estas coisas, pois lhe são contrários e no entanto elas são necessárias para quem desejar construir neste mundo, mesmo no sentido espiritual. E é este precisamente o trabalho da Igreja: o de tratar na terra das coisas do céu, adaptando a este ambiente as verdades eternas, para torná-las assimiláveis a ele. Assim se justifica a presença de práticos e administradores na Igreja. Acham-se eles situados no pólo da matéria, enquanto os santos estão no pólo do espírito. A dificuldade esta em manterem-se equilibrados entre os dois extremos opostos, sem que um tome completamente o lugar do outro. Uma igreja apenas de santos, sem os homens do mundo, permanece no céu e não trabalha na terra. Uma Igreja só de homens práticos, feitos para a matéria, estaria falha em sua substância espiritual e seria uma mentira.

Estas são as condições que a realidade impõe. E de fato, foi isto que ocorreu, e que se pode explicar assim. Então, no seio de uma religião, ao lado dos que vivem os problemas longínquos do espírito, é indispensável haver lugar também para os que vivem próximos da matéria. Mas eis que surge uma conseqüência gravíssima: assim tem direito de ingresso numa religião, que deveria ser coisa espiritual, esse mesmo mundo que o Evangelho condena tão explícita e energicamente. As íeis e os tão condenáveis métodos do mundo se acham numa posição legítima, em sua própria casa, aí justamente onde jamais deveriam comparecer. Mas então, se quisermos ser coerentes, temos de, pelo menos, reconhecer que, por enquanto, o Evangelho não precisa ser aplicado, porque nas condições atuais humanas ele é inaplicável. Mas reconhecer essa sua inaplicabilidade não o fará tornar-se utopia, e sua descida na terra uma falência?

As religiões, que deveriam ser coisa espiritual, acima das lutas terrenas, estão imersas no mesmo conflito, próprio a todas as formas de vida no planeta, e têm que albergar em seu seio os que lutam pela supremacia material, que comandam e se fazem obedecer impondo-se às consciências. Os que deveriam ser banidos deste terreno, já não são mais tolerados como mal e erro, mas incorporados como úteis e indispensáveis. Estes, que ao menos deveriam reconhecer sua posição ínfima, subordinada à do espírito, muitas vezes na história assumiram, e fixaram sua posição como predominantes, à custa da posição espiritual, diante da qual eles poderiam no máximo ser suportados como um meio. Então as posições são invertidas e no próprio centro do terreno, reino do espírito, entra, vence e governa justamente o inimigo condenadíssimo: o mundo. Que significa isto? Mas então a lei de Deus, para conseguir realizar-se na terra, teve de inclinar-se diante da lei dos homens?

O    conflito entre Evangelho e mundo, se neste mesmo mundo parece mais calmo, porque é o inferior que vence, torna-se vivíssimo no seio das religiões, porque aí nos encontramos no terreno em que o espírito se sente mais em casa e mais faz valer seus direitos. E quer fazê-los valer precisamente na terra, que é justamente a pátria de seu adversário, o mundo. É natural que este resista, porque não quer ser destronado, mas continuar dono do campo, com os próprios sistemas. Neste mundo caiu o Evangelho. Que acontece então?

Numa escola, sem dúvida, o mestre tem de ensinar. Como seria belo se pudesse fazê-lo com amor, armado apenas de bondade e amizade, como ensina o Evangelho! Mas se os alunos são rebeldes, como poderá ele agir, no interesse mesmo deles e do próprio ensino, senão com uma autoridade e sanções que lhe permitam manter a disciplina? Sem dúvida que o ideal seria o respeito às consciências e à personalidade individual, ou seja a posição que está nos antípodas do absolutismo dogmático, feito de autoridade e disciplina. Mas é também verdade que não se pode respeitar a liberdade de um selvagem, porque, se o fizermos, ele se aproveita disso para matar-nos. E então, quem realizará a missão de civilizá?lo? Demonstramos, neste volume, que existem as armas do Evangelho. Mas tão grandes forças será que se adaptam aos pequeninos usos comuns, e depois, chegam todos a possuí-las e manejá-las? Se elas não estão ao alcance de todos, como contar com elas? E então, como pode o homem comum deixar de recorrer às que lhe são acessíveis, as oferecidas pelos sistemas do mundo?

Como pretender que todo um grupo de homens, como é o organismo que na terra dirige uma religião, pudesse apoiar-se apenas em meios sobre-humanos, acreditando poder ir para frente somente à força de prodígios? Não poderiam eles pensar que isso constituiria, diante de Deus, a maior das presunções, e que, justamente, essa falta de humildade paralisaria a ajuda, sendo portanto mais positivo não confiar nelas, e apoiar-se, ao contrário, em base mais sólidas: as próprias forças, poucas, mas seguras? Era mais prático recorrer aos métodos já experimentados no mundo, cuja técnica e resultados, já se conheciam, tanto mais acessíveis, quanto mais correspondentes à própria forma mental, e tanto mais espontâneos quanto mais radicados nos próprios impulsos e instintos. Não é fácil que homens comuns encontrem prontamente a força e a coragem de abandonar-se, como quer o Evangelho, à Divina Providência! Como vencer a tentação de tomar a estrada de todos, se a própria natureza dos alunos o impunha, como único caminho para conseguir realizar a própria missão, que era a de mantê-los disciplinados, obedientes à lei, que deveria fazê-los ascender, para salvá-los?
     
Com a melhor boa-vontade, não era possível satisfazer a todas as exigências opostas. Se se quiser ser práticos, usando os sistemas do mundo para atingir a realização dos princípios, então se acaba limitando a liberdade do ser. É verdade que não se pode dar-lhe essa liberdade, porque ele faria dela mau uso, com prejuízo seu. Mas assim tende-se a fazer do ser um autômato. Privamo-lo da experiência feita à sua custa, a única que verdadeiramente ensina; e então, como pode aprender? É verdade que o pai amoroso que sabe, deveria impedir que o filho caísse nos perigos, mas é também verdade que os filhos protegidos demais crescem sem experiência, indispensável para não cair nesses perigos. Se, para ensinar, tirarmos a livre experimentação, substituindo-nos à escola da vida, então impediremos que ele aprenda e, ao invés de ajudar a evolução, nós a deteremos.

Como se vê, a liberdade é fundamental, tem uma função sua, importante, e como tal deve ser respeitada. Tirando-a, são criados escravos ou rebeldes. É mister, ao contrário, ensinar a saber usar bem a liberdade, para que se possa concedê-la sem prejuízo. A disciplina pode ser imposta aos menos amadurecidos só para seu bem. Logo que eles progridam um pouco mais, a liberdade será um direito deles. A lei da vida é a evolução e esta leva ao sistema, a Deus, a quem não se pode chegar senão livres, e jamais como autômatos. É indispensável então reconhecer que, admitindo-se a disciplina que tende a fabricar o escravo autômato, isto só é tolerado de momento, porque o objetivo último é construir o homem consciente, que sabe livremente autodirigir-se. Então, a restrição da liberdade constitui só um fato transitório, destinado a ser gradualmente eliminado, concedendo-se progressivamente liberdade, em proporção ao conhecimento adquirido, e na medida merecida, que dê garantia ao seu bom uso, desde que seja liberdade útil, e não prejudicial. Quem dirige as almas, deve estar do lado das forças do bem que, se tiram, não o fazem para tirar, mas para dar; se limitam, é para depois conceder liberdade; forças que, mesmo que pareçam fazer o mal, fazem substancialmente o bem.





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