O Evangelho e os bens materiais. Cristo ignorava a realidade da vida? Quem tem razão, Cristo ou o mundo? Como entender o Evangelho? Os pobres de espirito. Os deveres de quem possui. As acomodações. O Evangelho tira-nos a preocupação do trabalho, mas não o trabalho. Ócio é desonestidade. Os colaboradores de Deus. A psicologia do dinheiro. O fator espiritual na construção e o peso do imponderável. Utilitarismo inteligente.

É  no terreno dos bens materiais que se torna mais vivo o contraste irreconciliável entre o Evangelho e o mundo, entre o evoluído e o involuído. Como podem concordar dois tipos humanos e dois métodos de vida, dos quais o primeiro abandona com indiferença as coisas da terra, considerando-as secundárias, e o segundo faz consistir seu principal trabalho na vida no aferrá-las e mantê-las seguras? Parece que as coisas estejam sendo olhadas de dois pontos diversos, com olhos diferentes. Olhadas do céu, as coisas da terra, porque estão longe, parecem pouco importantes, ao passo que são importantes as do céu porque esta o mais próximas. Olhadas da terra, as coisas do céu, porque esta o longe, parecem de somenos importância, enquanto as da terra, porque próximas são importantes. Mas procuremos compreender.

O Evangelho toma, logo de início, nítida e inexorável, a sua posição, quando diz as palavras já citadas: "Ninguém pode servir a dois senhores... Não podeis servir a Deus e a Mamom . E para atingir a perfeição, aconselha logo dar tudo aos pobres, afirmando ser bem difícil que um rico entre no reino dos céus. Quem quiser salvar sua vida no sentido humano, a perderá; e quem a perder para conquistar a vida mais alta que Cristo nos mostra.

E o Evangelho acrescenta, explicando: "Não vos preocupeis pela vossa vida, quanto ao que comereis, nem pelo vosso corpo, quanto ao que vestireis. A vida não vale talvez mais que o alimento e o corpo mais que a roupa? Olhai os pássaros do céu: não semeiam, não ceifam, não recolhem em celeiros; e no entanto vosso Pai celeste os alimenta. E vós não valeis mais do que eles? E quem de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um cúbito à  própria estatura? E por que preocupar-vos tanto com a roupa? Considerai como crescem os lírios do campo; eles não trabalham nem fiam. E no entanto eu vos digo, que nem Salomão em todo o seu esplendor, se vestiu como um deles. Se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao forno, com quanto maior razão vos vestirá a vós, homens de pouca fé? Não vos preocupeis dizendo: que comeremos ou que beberemos, ou que vestiremos? Por tudo isto se preocupam os gentios; mas vosso Pai celeste sabe que precisais dessas coisas. Vós, portanto, procurai sobretudo o reino de Deus e Sua justiça, e todo o resto vos será dado por acréscimo. Não vos preocupeis, portanto, pelo amanha porque o amanha se preocupará por si mesmo. A cada dia basta o seu cuidado. (Mateus, VI: 24-34).

Não se poderia imaginar maior reviravolta dos mais fundamentais instintos da vida, que o homem teve de aprender em longa e dura experiência num ambiente hostil, em que só vive quem sabe surripiar dele o necessário e impor-lhe suas próprias exigências. E o Evangelho ainda acrescenta: "Não acumuleis tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os consomem e os ladrões os desenterram e roubam"... Infelizmente é verdade que a ferrugem e a traça consomem e os ladrões roubam, mas isto representa apenas o esforço indispensável para defender o que é necessário à vida. É fácil dizer; não penseis no amanhã — poderia responder o mundo —; mas se o amanhã chega e não estamos providos, faltará ate o necessário. É belo saber que o Pai celeste sabe que precisamos de todas essas coisas. Contudo é um conhecimento que servirá para Ele, mas não para nós, que certamente não vemos chegar a nossa casa, da parte Dele, aquilo de que precisamos todos os dias. Sabemos, por dura experiência, que, se não o procurarmos com o nosso esforço previdente, nada chegará a nossa casa. Ao contrário, poderemos contar com alguma coisa, se tivermos acumulado um tesouro na terra, ao qual podemos recorrer para suprir nossas necessidades, e dessa maneira conseguir uma trégua na luta diária pela vida.

Assim, aos olhos do mundo, que sabe que de fato as coisas se passam de outro modo, o Evangelho se apresenta como uma sublime ignorância das realidades da vida. Como se explica isso? Será possível que Cristo não se tenha dado conta dessa realidade, das verdadeiras condições em que se desenvolve a vida do homem? Sem dúvida Ele fala de outro tipo de vida, feita para outro tipo de homem, que não o atual: um tipo novo, o evoluído, no qual o atual deverá transformar-se. Cristo refere-se ao luminoso futuro da humanidade e não a seu bestial passado. Provam-no suas palavras: "Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei, que assim vos ameis uns aos outros". Não representa isto uma reviravolta completa na fundamental lei biológica da luta pela seleção do mais forte? Isto significa passar a um plano de existência em que predominam leis diferentes: e a vida se protege e desenvolve, baseando-se em outros princípios.

Mas Cristo, mesmo ao preparar o homem de amanhã, sabia que estava falando ao homem de hoje. Como poderia pedir-lhe o impossível? Com efeito, o mundo não lhe deu ouvidos, e assim se explica isto, sem dúvida, um fato inegável. Quando o homem prático, que luta em sua vida árdua, ouve estas belas mensagens que descem do Alto: tem a impressão de que provém de um mundo cujos habitantes podem permitir-se o luxo de ter belos sonhos, porque suas condições de vida sem preocupações, lhes permitem ignorar ou esquecer a nossa realidade humana e dura. Quem vive, para si, aquelas belas máximas evangélicas, ao invés de pregá-las aos outros? As próprias e várias religiões cristãs, baseando-se no Evangelho, acusam-se mutuamente, em nome dele, de possuírem bens terrenos; enquanto, na prática, elas os possuem. A única forma, neste caso, de se lembrar do Evangelho, parece ser aquela de cada um escandalizar-se daquilo que pratica somente quando o vê praticado pelos outros, ocasião de que se aproveita para acusar o próximo. Mas isto corresponde perfeitamente ás leis da vida no plano humano, que coloca no ápice da escala dos valores, os meios humanos; e até Deus só é respeitado porque poderoso e temível. Nesse plano, em que vencer é a coisa mais importante, é natural que cada um queira tudo para si e tenha inveja das riquezas que exprimem as vitórias dos outros.

O contraste entre   duas leis que querem dirigir o mundo, a do passado e a do futuro, ou seja, a animalidade e o Evangelho, apresenta nos fatos estranhas contradições entre o que é o que deveria ser, entre o que se diz e o que se faz. Acontece que as próprias ordens franciscanas que se baseiam na pobreza, têm posses. Como se resolve esse conflito? Diante das claras palavras do Evangelho e dos fatos que se comprovam, temos apenas três soluções: 1) O Evangelho é um belo sonho irrealizável hoje na terra; portanto, não se pode tomá-lo em consideração. Neste caso, o mundo tem razão em não aplicá-lo. 2) O Evangelho é feito para ser vivido na terra; Cristo deu ordens para que fossem cumpridas. Neste caso, o mundo está mentindo, porque não pratica o que prega. No primeiro caso, o mundo tem razão e Cristo está errado. No segundo caso, Cristo tem razão e o mundo está errado. De qualquer forma, um dos dois deve ter errado, e este é o fato que pode justificar o conflito, que, sem a culpa de ninguém, não se explica. Qual dos dois está errado? Então o Evangelho representa um extremismo espiritual que não pode ser aplicado á vida prática material; e esta representa um extremismo material, que a vida espiritual não tolera. Mas é possível que a obra de Cristo se resolva num antagonismo insanável?

Mas pode haver uma terceira solução, que poderemos chamar de conciliadora. 3) Consiste ela em adaptar os dois extremismos, um ao outro, escolhendo um caminho intermediário, uma posição de compromisso. Isto significa aplicar o Evangelho não-integralmente, mas em doses percentuais, que sejam suportáveis pela atual natureza humana, sem que lesassem demais as necessidades materiais da vida terrena. Isto é concebível, se pensarmos que a realidade prática resulta do passado, e que o Evangelho quer sobrepor-se a natureza humana animal de que ela deriva, para transformar essa realidade e essa natureza em novas formas de vida que entrarão em ação no futuro. No alvorecer, por exemplo, a luz e as trevas travam entre si grande conflito, mas até desaparecer a noite e despontar o dia, vivem elas numa posição de compromisso, misturadas; embora elidindo-se mutuamente, atravessam um processo de transformação e, no fim, garante que a luz, neste caso o Evangelho, deve vencer. Só assim poderá solucionar-se o problema, sem atribuir a Cristo ou ao mundo um erro que eles não têm. Dessa conclusão resulta a grandeza do Evangelho, tão grande, que o homem ainda não pode nem mesmo compreender e muito menos realizá-la Entretanto, conclui-se também que o homem ainda vive numa fase da vida animal, de que seria urgente sair, civilizando-se.

Pode-se então conceber o Evangelho como uma meta a alcançar, como um estado de perfeição a que o homem ainda não chegou, mas ao qual devera chegar fatalmente. De outra forma, que sentido teria a pregação de Cristo? E parece uma hipótese bem difícil de admitir-se, que Ele não soubesse o que fazia, tão  grande é a sabedoria demonstrada em Suas palavras.

Descendo agora a maiores particularidades, como deveremos entender aquelas palavras acima citadas? Elas dão-nos a impressão de que o Evangelho vai contra a vida e que esta se retrai espantada de tão absolutas renúncias. Procurar somente o reino de Deus, ter de dar tudo aos pobres, estar excluído do céu só pelo fato de ser rico, negar-se a si mesmo, não poder salvar a própria vida senão com a condição de perdê-la em relação ao mundo, e tudo isto imposto sem possibilidade de adaptações, que tornem possível uma conciliação entre os dois extremos opostos, trunca profundamente a vida humana, que por instinto, reage para não se deixar destruir. Não lhe e permitido salvar nada do que mais lhe satisfaz e que julga indispensável.

Isto levaria a outra conclusão, que, no entanto, temos de considerar inadmissível, por ser absurda: ou seja, que o Evangelho, sempre afirmativo e construtivo, pertença, ao invés, as forças negativas da destruição. Seria isto possível? E, no entanto, vemos que existe uma Providência defendendo a vida. Esta possui uma sabedoria sua íntima, muito acima de nossa vontade e conhecimento, sabedoria da qual somos grandemente devedores, por termos chegado até aqui, e por conseguirmos sobreviver a cada minuto. Seria possível que Cristo se tivesse colocado contra essa vontade de viver, a qual o ser obedece irresistivelmente por instinto, e que constitui um impulso fundamental determinado por Deus e indispensável, para que se cumpram os destinos do Universo? Não, não é possível. Mas então, que sentido devemos dar as palavras de Cristo?

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Diz o Evangelho que procuremos "acima de tudo" o reino de Deus e Sua justiça, ou seja, em primeiro lugar, e não por último, ou absolutamente nada, como quereria o mundo. Aconselha-nos a dar tudo aos pobres, mas como um caminho de perfeição que, como tal, só pode ser excepcional. Sem dúvida, será necessário que alguém possua bens da terra, mas não os deve possuir como rico, com egoísmo e avareza; não acumulando-os para si e, nesse intuito, subtraindo-os aos outros, mas deve possuir com espírito de pobreza, sem egoísmo nem avareza, sem querer insaciavelmente acumular sempre mais, como em geral ocorre, antes colocando o supérfluo a serviço do bem alheio, agindo como dono que centraliza tudo em si mesmo, como administrador que, com seu trabalho fecunda sua propriedade, tornando-a mais produtiva, só a cedendo aos outros quando estes dêem prova de serem bastante competentes e trabalhadores, para que os bens não sejam destruídos ou tornados improdutivos. Cristo não pode querer o desperdício e a destruição, não pode querer o ganho sem merecimento. Cristo quer levar-nos aos mais modernos conceitos, que o mundo está começando a compreender: o de conservação do direito de propriedade, mas abrindo sempre mais espaço aos deveres inerentes a obrigação de realizar sua função social. O Evangelho dirige-se contra os ricos, e não contra os bens em si mesmos, que também são obra de Deus, para que sejam colocados a serviço da vida. O mal começa quando se invertem essas posições e a vida é posta a serviço deles, isto é, quando se sacrifica o bem do próximo por egoísmo. Antes de mais nada, o Evangelho vê o lado espiritual do problema, no qual está situada a raiz de tudo; dirige-se, pois, contra o estado d‘alma comum aos possuidores, contra a psicologia do rico, e a combate por causa dos danos que ela produz.

O Evangelho nos quer pobres de espírito, desprendidos, homens que aprendam a possuir com outro espírito, totalmente diverso do que é próprio ao tipo biológico comum humano, espírito que pode permanecer intacto em qualquer regime econômico. Só a revolução de Cristo chegou a substância, para renovar a fundo o homem, única maneira de resolver o problema econômico. Com todas as outras inovações, exteriores e formais, o homem permanece sempre o mesmo, fazendo as mesmas coisas. Pertencer a este ou aquele regime econômico, possuir ou não possuir, tem sempre uma importância relativa diante de nossa psicologia íntima, de que somos dotados. Por isso, não se iludam aqueles que possuem, pensando achar em nossas palavras uma justificativa ou autorização para possuir de modo próprio. Se não possuírem com esse espírito novo, como quer o Evangelho, este continuará condenando-os. Ele respeita a propriedade e também as riquezas, mas já vimos em quais condições. Ele não admite que o indivíduo possa ter, em relação à coletividade, fins negativos ou maléficos, mas apenas positivos e benéficos. O Evangelho, que é justo, não pode admitir nenhum direito sem os correlativos deveres.

Eis o que significa: "procurar o reino de Deus e Sua justiça". É natural, então, que o resto nos possa ser dado por acréscimo. Quando for eliminada toda a destruição de bens, que deriva das guerras, e de todos os atritos das rivalidades sociais; quando a vida não for uma corrida desesperada ao dinheiro, mas uma colaboração honesta de gente de boa-vontade, é fácil imaginar como também o problema das necessidades será automaticamente resolvido e o resto, de que fala o Evangelho, nos será dado verdadeiramente por acréscimo.

O Evangelho não é destrutivo e antivital, como pode parecer. Ao contrário, ele representa um novo modo de conceber a vida, para ajudar-nos a enfrentar e resolver, com sabedoria, os nossos problemas. Alguns existem que se revoltam contra o Evangelho, porque acreditam na riqueza, mas ele condena a cupidez. Há outros que se apoiam no Evangelho porque presumem que a Providência esteja a seu serviço, poupando-lhes todo trabalho. Há os heróis da santidade que têm a força de vivê-lo cem por cento, e há os que pensam bem, e o adaptam as próprias comodidades e o vivem na medida em que ele não perturbe os próprios interesses. O fato positivo que existe e se antepõe a tudo, é o tipo individual, o temperamento de cada um, que transforma todas as coisas que encontra, as leis e usos sociais, a moral, as religiões e também o Evangelho, para adaptá-las a si mesmo. Todas essas normas querem fazer vergar o indivíduo. Depois, é o indivíduo que quer fazer vergar essas normas a seu gosto, adaptando-as para vivê-las a seu modo. Antes de tudo, cada um diz "eu". A autoridade, que deveria coordenar esses diferentes tipos para deles fazer uma unidade, é apenas outro "eu" maior e mais forte, que procura impor-se a todos os outros que, ou concordam que ele se lhes convém; ou o suportam, se são fracos; ou fogem, se são astutos; ou se rebelam, se são fortes.

O próprio Evangelho não podia escapar a esse processo geral de adaptação, necessário na terra para poder alcançar sua realização, processo no qual ele é, na prática, transformado, entendido e aplicado em função dos vários tipos de personalidade, procurando cada um destes tipos fazer dele o uso que mais lhe convêm. A verdade que existe antes de tudo e se antepõe a todas as outras, é, o próprio tipo de personalidade, com seus instintos e qualidades. Em relação a esta, as outras verdades coletivas parecem secundárias, e contra elas, aquela verdade luta a cada momento, com êxito diferente, para afirmar-se. Mas, como a natureza tende a construção de biótipos em série, eles podem, em certo número, aproximar-se por semelhança, e assim formar grupos e correntes, nas quais podem concordar e permanecer unidos. Desta maneira, conseguem existir idéias aceitas pela psicologia coletiva, desde que correspondam a um nível médio e exprimam um fundo comum na forma mental da maioria. Mas o ponto de partida, mesmo destas verdades mais gerais, — pelo menos como aplicação vivida —, é o biótipo individual e seu grau de maturação evolutiva, que estabelece, antes de tudo, o que o indivíduo pode compreender e realizar, dos ideais que lhe são dados ou ensinados. Sem isto, as idéias mais sublimes permanecem aptas só para o céu, de onde descem, e jamais poderão tornar-se verdades vividas pelo homem na prática de sua vida, ficando então sua descida à terra, coisa estéril e inútil.

Por isso, o Evangelho achou muitos sequazes. Mas que sequazes? O Evangelho os transformou, ou estes transformaram o Evangelho? Ou, na luta para se transformarem um ao outro, adaptaram-se num compromisso de meio-caminho, que permitisse a ambos sobreviver? Mas se o tipo humano predominante não sabe fazer mais do que isto, por que escandalizar-se com a História, se este era o único meio possível para que ao menos a letra do Evangelho chegasse até nós? Além disso, o que se pode pretender do homem com um passado selvagem tão recente? Por que não escandalizarmo-nos conosco, que nos julgamos mais civilizados e agimos pior?

É o homem que quer trazer tudo ao seu nível, adaptar tudo aos seus instintos, utilizar tudo para vantagem própria. O homem é destrutivo, e não o Evangelho. Este pode parecer antivital, se entendemos por vida a do nível animal, mas ele é extremamente vital, se, ao invés, entendemos por vida aquela do nível espiritual. Ele só é inimigo das formas inferiores de existência, e isto porque quer realizar, em seu lugar, as superiores. Ele contrapõe-se ao mundo, só porque quer substitui-lo pelo reino de Deus. Por isso o Evangelho pode parecer destrutivo aos olhos míopes do mundo que, como tal, considera destruidores todos os que, para fazê-lo progredir, querem sua renovação. Sem dúvida, o Evangelho representa a mais enérgica negação dos princípios em que se baseia a vida do mundo, e contra essa negação rebelam-se aqueles para os quais essa vida é tudo. Que afirmação suprema constitui, em compensação, o Evangelho; afirmação de uma vida muito mais alta e poderosa, que o mundo não toma em consideração, porque não a vê.

Então, quando o Evangelho nos diz aquelas estranhas palavras: "Não vos angustieis pela vossa vida...", não devemos, céticos, voltar as costas aquilo que em nosso mundo —  do qual bem se conhecem as duras necessidades — pode parecer uma zombaria. Ao contrário, devemos procurar compreender o verdadeiro sentido dessas palavras, seu bom-senso, útil para nós, que vem ao nosso encontro inclusive para ajudar-nos na vida deste mundo. Essas palavras não foram ditas ao acaso, e no trecho citado nas páginas precedentes, elas são repetidas com insistência: “Não vos preocupeis, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou que vestiremos? ... Vosso Pai celeste sabe que tendes necessidade de todas essas coisas....Não vos preocupeis, com o amanhã....”

Parece que Cristo, falando assim, quer primeiramente colocar-nos em estado de calma, de confiante tranqüilidade, libertando-nos da ambição que nos faz maus, assim como da ânsia da preocupação, que paralisa: duas ansiedades perigosas, das quais está cheio o mundo. Para ajudar-nos nesta libertação da psicologia das desapiedadas exigências do contingente, o Evangelho mostra-nos horizontes bem mais amplos, que são nossos, sem dúvida, mas que nossos olhos não vêem; recorda-nos que Deus fez tudo, e que, como Pai, não pode abandonar suas criaturas. Com estas palavras, parece: que Cristo tornou seu o sacrifício humano de viver em tão duras condições, e que, para aliviar-nos, nos quis explicar que, no fim de contas, a vida não está toda aqui, que é inútil lutar por ela além de certa medida, porque depois virá coisa bem diferente. Com isto, o Evangelho quer colocar cada coisa no seu devido lugar, libertando-nos de uma superestima errônea da vida presente, que, em última análise, é o que é, e merece o que merece. Certamente, se o homem é interessado, não é pelo gosto de sê-lo, mas isto constitui a última conseqüência de longo passado de lutas terríveis para sobreviver em ambiente hostil. Mas agora é preciso subir mais, e para isto, corrigir os instintos que ficaram como resíduos desse triste passado. Neste sentido, o Evangelho vem ao nosso encontro e ajuda-nos, altamente afirmativo e construtivo, benéfico no bem mais real e duradouro.

Precisamos observar, agora, que, em muitos casos, é justamente neste ponto do "não vos preocupeis" que costumam nascer mal-entendidos. Entre tantos usos que se podem fazer do Evangelho, existe também o que pode ocorrer, quando ele cai nas mãos de quem procura não preocupar-se, descarregando nas costas dos outros trabalhos e deveres que lhe pertencem. Estas pessoas podem gostar muito desse trecho do Evangelho, porque até lhes parece mentira que tenham encontrado alguém que tranqüilizasse ainda mais sua inerte tranqüilidade, encarregando-se de substitui-los em seu trabalho. Então, eles bendizem o Pai celeste, —  que imaginam transformado em servo deles — , que se encarrega de prover-lhes gratuitamente as coisas da vida. Então, têm sempre o Evangelho entre as mãos, sentados, esperando o maná do céu.

Iludem-se, porque o Evangelho não nos foi dado para nos apropriarmos de direitos ou receber serviços, mas ao contrário, para realizar todos os nossos deveres com o nosso esforço pessoal. O Evangelho acompanha-nos, ajuda-nos, santifica-nos, mas não nos tira o trabalho, não nos exime do esforço que nos compete. O Evangelho quer tirar-nos a ânsia do trabalho, mas não o trabalho, quer que o façamos com ânimo tranqüilo, o que significa menos esforço e maior rendimento; quer que o realizemos com inteligência e amor, o que o torna interessante e útil, inclusive para o espírito. Cristo vem ao nosso encontro para ajudar-nos na dureza desse trabalho. Ele não o ignora, e o lembra no fim do trecho supracitado e que estamos comentando: "Não vos preocupeis com o amanhã, porque o amanhã se preocupará consigo mesmo. A cada dia basta o seu cuidado". O Evangelho, que é sempre afirmativo e construtivo, quer eliminar de nossa atividade a sua parte negativa, que é a preocupação, a ânsia, qualidades que nada criam e, ao revés, são contraproducentes, porque paralisam; e quer substituir essas qualidades negativas por nossa confiança em Deus, atitude positiva que torna mais fecundo nosso trabalho, menos pesado nosso esforço. Isto é o que podemos, honestamente, pretender do Evangelho. Nada mais. É inútil que se refugiem em algumas palavras do Evangelho os que não têm vontade de trabalhar. Poderão dizer talvez que foram enganados, mas isto não os ajudará. O Evangelho quer-nos honestos, e a preguiça e uma forma de desonestidade.

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O irreconciliável contraste que vimos existir entre o Evangelho e o mundo no terreno dos bens materiais, apresenta-se-nos também sob outros aspectos. Sem dúvida, o trabalho é uma necessidade inderrogável da via humana. Mas, nas duas posições opostas — a do Evangelho e a  do mundo, ou seja, a do evoluído e a do involuído —  o trabalho se nos apresenta em duas formas bem diferentes. O trabalho do primeiro é inteligente, fecundo, confiante e satisfatório. O do involuído é forçado, penoso, desconfiado e incompleto. O Evangelho desejaria transformar este segundo tipo de trabalho, no do primeiro tipo. Com efeito, este último faz-nos colaboradores de Deus, enquanto instrumentos de Sua vontade, numa obra que, sendo um fim de si mesma, já representa por si uma graça. O outro tipo de trabalho, como se usa na terra, é geralmente instrumento de interesses, em função de egoísmos, o do empregador e do empregado, dois impulsos egocêntricos opostos que lutam, como rivais, para cada um deles apoderar-se de tudo. Deriva daí um atrito desgastante que custa desperdício de valores, até mesmo econômicos; daí resulta não colaboração, mas inimizade, que constitui uma perda comum: um sistema errado, porque contraproducente justamente onde devia ser produtivo; um sistema em que o empregador procura desfrutar o operário, e este, enganar o patrão, substituindo o princípio fecundo da colaboração, pelo desagregante da luta.

Com estes dois tipos de trabalho, o homem procura construir suas obras mais diversas. Entretanto, elas não são igualmente rendosas, e seria lógico escolher o que custa menos cansaço e produz maior vantagem. Correspondentemente, há dois métodos para construir: com os poderes materiais do mundo e com os poderes espirituais do céu. Veremos, agora, como merece mais confiança o segundo, que, com segurança maior, pode garantir-nos a vit6ria, ao passo que, no primeiro, acreditam os simples, que se deixam enganar pelas miragens do mundo.

Que faz este, quando quer construir qualquer obra? Começa por recolher os meios materiais, vai à  procura deles e os acumula na maior quantidade possível. Mas bastarão eles para construir? Façamos uma montanha de matéria prima e de dinheiro Com isto teremos recolhido meios, mas ainda nada teremos criado. Ocorrem, ainda, outros elementos, especialmente o trabalho do homem, e com isto fatores psicológicos e espirituais que são, em última análise, os que constróem, com aqueles meios. Os meios, sozinhos, continuam inertes, se não intervém o pensamento, a vontade e a ação do homem, para movimentá-los e utilizá-los, transformando-os, de materiais de construção, na obra construída. Então, entram nesta outros elementos e, para consegui-la, mister se torna levar em conta também as forças do imponderável. Portanto, se quisermos construir solidamente e não arriscar a falência da obra, teremos de ocupar-nos também com as coisas espirituais da alma e do céu. E se não soubermos levá-las na conta devida, nossa ignorância ou negligência poderão fazer-nos cometer erros, que mais tarde teremos de pagar.

Não há dúvida: o motor íntimo que dá impulso à obra, a dirige e leva a termo o seu desenvolvimento, dando seu cunho à execução do trabalho e portanto a toda a construção, é de natureza espiritual, e não reside nos meios materiais. Os homens práticos poderão rir ceticamente destas afirmações, e não levar em conta esses elementos. E, no entanto, a forma substancial que, em última análise, sustenta uma obra, está toda aí. Os meios materiais, o dinheiro, são a matéria-prima ou os meios para movimentar o homem. São, sem dúvida, um elemento indispensável, uma poderosa mola. Mas de que forma, e em que direção os movimenta? E se, sozinha, essa mola o movimenta mal, não é indispensável, igualmente, ao menos um corretivo que melhore a ação, tornando verdadeiramente produtivo um impulso que, sozinho, pode ser até mesmo destrutivo?

Ora, qual é o estado espiritual que está geralmente ligado aos meios materiais, qual é a psicologia do dinheiro? Não é decerto a psicologia do amor fraterno, mas a de rivalidade e luta feroz, de egoísmo e de avidez. Trata-se de elementos que poderão interessar cada indivíduo, mas que são estreitamente desagregantes em qualquer atividade coletiva, em que é necessário organizar-se, colaborando, para chegar à  construção. Todavia esses elementos sozinhos, tendem a transformar um campo de trabalho num campo de batalha. Então, o objetivo principal que deveria ser o de construir bem uma obra, transforma-se e torna-se o de enriquecer cada um por si, tirando-se desse trabalho a maior vantagem individual possível. Teremos; então, apenas uma atividade de exploração da obra, que se torna um pretexto, uma mentira, para encobrir outros fins bem diversos. Todo trabalho de construção fica assim interiormente minado, corroído por esta vontade que quer encaminhar-se para outras finalidades bem diferentes da de produzir bem e seriamente. O fator espiritual, que os homens práticos se acham com direito de não levar em conta, como se se tratasse de fato desprezível, sem importância, pode, ao contrário, assumir uma tão grande importância que, quando estiver desgastado, poderá minar toda a obra, levando-a à falência. Assim se explica que tal aconteça no meio de tanto progresso técnico.

Dir-se-á talvez: devemos então suprimir os meios materiais e o dinheiro? Não! Aqui desejamos apenas colocar cada coisa em seu lugar, dando-lhe o que lhe compete, segundo sua própria importância, sem supervalorizar uma nem subestimar a outra. Ora, o mundo de hoje é levado a basear-se quase totalmente nos meios materiais, acreditando que eles sejam tudo. Aqui reside o erro Com isto não queremos dizer que não precisamos deles. Certamente que precisamos. Mas não deles, apenas. É necessária alguma coisa mais, ou seja, que se saiba usar deles com outro espírito, que os complete, coordenando-os para um fim, colocando-os, em relação a este, na posição de instrumentos ou meios, cimentando-os num estado orgânico que os torne construtivos. Se assim não for, aqueles meios ficarão dispostos de modo errado, e sua quantidade se tornará contraproducente para a obra. Trata-se de elementos mortos em si mesmos, que são postos em funcionamento através do trabalho, que é uma atividade do homem, na qual, portanto, não pode deixar de influir o fator psicológico, que, assim, assume a sua importância no êxito da obra. Onde quer que apareça a mão do homem, não se pode esquecer a presença do espírito. Daí a necessidade de levá-lo em conta. É verdade que, sem meios materiais não se pode construir, mas é também verdade que os meios materiais, eles só, se não os soubermos utilizar, poderão levar a falência.

Por isso, grande é o perigo quando a eles se atribui demasiada importância, dando-se-lhes função preponderante, quando toda a obra fica dependendo exclusivamente deles e da psicologia que lhes é inerente. A idéia de dar-lhes valor absoluto ou preponderante, como se eles fossem onipotentes, é o caminho mais curto para chegar à falência da obra, pelo menos se ela é nosso verdadeiro objetivo. Se o objetivo, de fato, for outro - como por exemplo o de produzir dinheiro — pode-se até atingi-lo. Mas então acaba-se entendendo que a obra era apenas uma mentira, preparada para outros fins bem diferentes,a tal atitude não é honesta, sendo necessário pagar por isso mais tarde.

A presença do dinheiro numa obra, mesmo que seja indispensável, tende, por sua natureza — se não for corrigida e disciplinada — a levar-nos pelo caminho dos enganos, num; terreno mal seguro de areias movediças, prontas a tudo engolir. É  bom estarmos prevenidos de tudo isto, e tratarmos o dinheiro com as devidas cautelas, com certa desconfiança, não lhe dando valor maior do que o que ele merece, tendo em conta que, em última análise, a causa primeira do êxito não está nos meios materiais, mas nas forças espirituais que os movimentam. Jamais esqueçamos que a vida obedece muito mais as causas profundas, que não vemos, do que às superficiais, com as quais tanto contamos. A história e a vida mostram-nos que obras muito bem armadas dos meios mais poderosos faliram miseravelmente, apesar da existência desses meios. Isto quer dizer que eles, sozinhos, não bastam, e que existe algo tão poderoso quanto eles, que se esconde no imponderável, sem o que pouco podem: algo que é mister levar em grande conta.

Qual a obra que pode ser realizada sem o elemento fé, ou pelo menos convicção? O que pode levar a cabo tantos interesses separados, aos quais importa tudo o que serve a vantagem individual, e nada à  realização da obra? Quando o estado de alma dominante é o egoísmo e o interesse, e satisfazê-lo é a única finalidade, que se pode alcançar, senão a satisfação deles? Que poderão produzir os maiores meios materiais, quando infectados por essa psicologia? As próprias coisas ficam permeadas pelas sutis vibrações das causas que as geraram e das forças que as movimentam. Que se pode obter quando a obra está corroída na própria raiz da ação, por esses impulsos interiores?

Por isso, o dinheiro pode ser perigoso, e isto pelos sentimentos negativos e desagregantes que atrai e traz consigo, introduzindo-os na obra. Por isso, quando é necessário recorrer a ele, é preciso usá-lo como são usados os venenos nas farmácias. Eles são úteis e às vezes até indispensáveis na medicina, mas ficam bem fechados em seus recipientes, com uma etiqueta par fora que diz: "veneno" para avisar do perigo. Por que veneno? Em si mesmos, os meios materiais não são maus. São obra de Deus, úteis à vida que, sem dúvida, deve ser vivida. Mas tornam-se venenos quando o homem, por causa deles, se torna ávido, agride o próximo, explora, esmaga, escraviza os fracos. Para conquistar o poder do dinheiro fazem-se as guerras e enche-se o mundo de sofrimentos. Não nos rebelamos contra o dinheiro honesto, fruto do trabalho, abençoado por Deus; mas contra o dinheiro ensangüentado, que gera tantas dores, amaldiçoado por Deus. É este dinheiro que foi chamado de esterco do demônio, enquanto que o Evangelho elogia a esmola da viúva. O erro consiste no dinheiro demasiado, não honesto, não fruto do trabalho, não meio para coisas boas, mas fim em si mesmo. Em vista disso é preciso introduzi-lo com cuidado nas próprias coisas, porque ele é como uma arma que pode defender, mas também matar; é como um veneno que pode curar?nos de uma doença, mas também dar-nos a morte.

O    perigo não reside no uso do dinheiro, mas no querer-nos basear exclusivamente nele. Qual a obra que se pode construir sobre o fundamento que nos oferece a psicologia do dinheiro? Logo que se lhe espalha o cheiro no ar, qual é o tipo de homem que imediatamente chega correndo? Certamente não é o homem trabalhador, honesto, sincero, desinteressado, que é o elemento mais adequado para construir, mas o que procura acima de tudo realizar os seus negócios, apto a construir para si, destruindo, porém, para os outros. Quem quiser, portanto, realizar uma obra, principalmente se for espiritual, precisa em primeiro lugar afastar esses elementos e proteger-se contra o dinheiro que os atrai. Quem procura, em primeiro lugar, acumular dinheiro, acaba ficando cercado por essas forças negativas, ansiosas por destruir tudo. Assim o dinheiro pode transformar-se de auxílio em obstáculo.

E assim voltamos sempre à causa primeira de tudo, causa que está no espírito. As coisas em si mesmas não são nem boas nem más. Tudo depende da intenção e do objetivo com que são feitas. Elas só entram no mundo moral com o uso que delas faz o homem. Tudo é bom, quando bem usado; tudo se torna mau; quando se usa mal. E o substrato espiritual que valoriza ou desvaloriza tudo, servindo de apoio e constituindo o fundamento em que tudo se baseia.

O homem inteligentemente utilitário não se deixa enganar pelas miragens que a avidez lhe oferece, e nas quais os simples acreditam e caem, mas, para construir solidamente, leva em conta também o fator psicológico e espiritual. Quem realmente quer atingir a vitória e um êxito real, deve possuir essa esperteza superior a todas as outras, que é a da honestidade e do desinteresse. E no entanto o mundo crê cegamente na onipresença do dinheiro. O jogo da vida não é tão simples, que se possam resolver todos os problemas só com esse meio. O que se pode comprar com o dinheiro? Existe alguma loja em que se ,possa comprar inteligência, vontade de trabalhar, desinteresse, honestidade, sinceridade, bondade, espírito de sacrifício? Pode o dinheiro dar-nos esses elementos para construir bem? Ou, ao contrário, ele atrai sobre nós exatamente o oposto? E como construir sobre as areias movediças do orgulho, da avidez, do egoísmo? Então, faz parte da sabedoria do engenheiro construtor de qualquer obra — ao fazer o projeto — colocar cada coisa em seu lugar, prevendo o que se possa aproveitar. Esse engenheiro precisa conhecer e calcular o poder de resistência do dinheiro, o peso que pode suportar; e deve apoiar o outro peso em bases psicológicas e espirituais, que possam suportar sua parte. Cada coisa em seu lugar. Também o sal, na comida, é muito útil, mas se passa da medida exata, a estraga. O fogo é indispensável para cozinhar, mas se for demasiado, queima tudo. Assim o dinheiro é uma força que precisa ser contida e dirigida pelos valores substanciais, que estabelecerão seus limites e seu uso.

É este o segredo para alcançar-se a vitória, sabendo ser inteligentemente utilitários. É tolice desprezar o imponderável, porque de fato ele pesa muito. É ingenuidade ignorar o poder das forças do espírito. Não estamos moralizando em nome de ideais. Estamos falando de nossa própria vantagem. E aos que acreditam nos atalhos não-honestos, esperando chegar primeiro, dizemos que as leis da vida estão construídas de tal forma que, mesmo que estes consigam momentaneamente surripiar essa vantagem à justiça de Deus que tudo rege, mais tarde pagarão caro, e portanto isto não lhes convém, e o negócio deles é péssimo. Vimo-lo no caso narrado no volume anterior.

Fala-se muito de Deus e de Cristo, utilizados como capa para encobrir os próprios interesses e para fazerem-se, a sombra Deles, melhores negócios. O atalho para chegar parece o mais breve, o jogo parece fácil, e o mundo é a isso levado facilmente, sem imaginar quanto seja perigoso, sem pensar com que poderosas forças está jogando. Cristo não é uma palavra vazia, que se possa usar levianamente, ou dela servir-se para outros fins, ou explorá-la, sem grave dano próprio. Fala-se muito da presença de Deus. Mas o fato é que Deus está verdadeiramente presente, o que significa que Sua Lei está continuamente funcionando, com as sanções próprias a quem delas zomba. Ela defende os que trabalham em seu âmbito, mas golpeia os que a querem violar. O mais forte, a quem compete a vitória, é então quem sinceramente obedece à lei, e não quem se julga valente porque a ela desobedece com astúcia. Com os meios e métodos do mundo poderão fazer-se edifícios materialmente grandes, mas nada se constrói nas almas. No meio das mais colossais construções, vemos  como hoje ocorre - que os homens se tornam cada vez piores, até que as próprias obras gigantescas, filhas da matéria e não do espírito, não sustentadas pelo poder deste, acabam por cair em pó. Torna-se inútil escorá-las, quando falta a união espiritual com Deus e quando a obra é fruto apenas das forças do mundo.

Se quisermos ser os mais fortes para vencer, coloquemo-nos do lado das forças espirituais, que são as mais poderosas, e não exclusivamente do lado das forças materiais que nos podem trair. Se nos basearmos orgulhosamente apenas em nossos recursos pessoais, teremos somente estes para nossa defesa. Mas se humildemente nos coordenarmos no âmbito da Lei de Deus, poderemos contar com o poder dela, e a teremos como defesa nossa. Tornamos, assim, a confirmar ainda as conclusões dos capítulos precedentes: a vitória do espírito sobre a matéria, do Evangelho sobre o mundo. Cristo vence!





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