O encontro entre evolvido e involuído apresenta significação profunda, que deve ser estudada cada vez melhor, e que pode iluminar e completar os postulados da biologia moderna, especialmente no seu aspecto evolucionista, em relação aos desenvolvimentos futuros da vida. Não se trata apenas do embate entre dois biótipos, mas, ainda, de dois planos biológicos e das duas leis que os regem. Esse estudo torna-se interessante não só para orientação individual e social, mas para a ciência também, porque nos conduz a concepção de uma biologia muito mais ampla, abarcando não apenas, a atual, a animalidade e a humanidade, mas a sua futura espiritualidade, uma biologia compreensiva também dos valores morais, que, por isso, pode assumir a tarefa excelsa de construir uma ótica biológica, racional e positiva, da qual o mundo ressente a falta e de que tem necessidade para resolver muitos problemas até agora insolúveis, largados, hoje, no instinto das massas. Com este estudo enfrentamos, além da biologia já conhecida, uma outra biologia, a do evolvido, com outras leis e finalidades. Chegamos, assim a conhecer uma biologia muito mais ampla, também no sentido de ser, não a de um só plano de vida, uma biologia estática e fechada no âmbito de um dado plano de evolução, mas dinâmica, em movimento, uma biologia em evolução da qual a nossa atual é apenas uma fase existente em função dos precedentes e das subseqüentes. A ciência ocupou-se muito até agora, do passado da vida em nosso planeta, mas muito pouco do seu futuro, o que, sem dúvida, é deveras importante para o homem. Quando falamos do evolvido, da sua psicologia e métodos de ação, tratamos precisamente deste futuro e isto porque, no amanha, o homem terá de ser um evolvido, ingressando neste mais elevado plano biológico, para agir com outra psicologia e com outros métodos. O homem prático poderá sorrir de tudo isto, mas quando falamos de ideais, tratamos do que deveremos vir a ser amanha, uma vez que o progresso é lei de vida e ninguém poderá fazer parar a evolução.
O ser situado em nosso plano biológico, que é o da animalidade, não sabe perguntar se, no lugar da lei da luta pela vida e pela seleção do mais forte, há possibilidade de usar outras leis menos duras; se, em vez agir com o método de egocentrismo separatista que nos torna maus, não é possível funcionar com o de um altruísmo unificador que nos torne todos amigos, em paz. Entretanto, não se pode afirmar que o sistema em vigor seja o ideal. Quanto mal, quantas injustiças, quanto veneno de ódio, quantos aleijados e desesperados produz este sistema da luta pela seleção do mais forte, quantas reações ferozes por parte da vida que não quer morrer! Quão diversas condições de vida poderia gozar o mundo se a cada qual estivesse garantido o que lhe é indispensável material e espiritualmente para viver, se a vida não estivesse obrigada a esta luta e, por força da vitória do mais forte, a tantas reações desesperadas! A vida exalta o mais forte, mas, nem por isto, aceita morrer no mais fraco, e adapta-se a sofrer em escuridão sob o tacão do vencedor, apenas temporariamente, à  espera da ocasião oportuna para rebelar-se. Então a vitória deste não é vitória, mas apenas um meio para incitar os mais fracos a fortificarem-se em agressividade e ferocidade para fazer a guerra e destruir o mais forte, substituindo-o. Naturalmente, desta luta, surgirão outros vencidos a continuarem o jogo da revolta para destruir o vencedor, substituindo-se ao mesmo, e assim andando, ao infinito. Mas será possível que o homem queira, com este sistema, fabricar para si um inferno verdadeiramente eterno?
O evolvido não aceita esta forma de vida á qual não mais se adapta, do mesmo modo como um civilizado não saberia mais viver como selvagem. Facílimo é, pois, imaginar que sofrimento pode representar para um evolvido o descer para viver na terra. Disto resultaria que nenhum evolvido deveria descer á terra. Como é, então, que se explica o fato de que seres superiores, de outra raça, venham, de quando em quando, viver em nosso mundo? Por que eles fazem isto, o que é que os impele, qual a lei deste fenômeno?
Tudo isto decorre do fato de que já explicamos, do evolvido viver num mundo orgânico,  unitário, onde não impera a lei da luta, mas a do amor. O seu método está nos antípodas do da agressividade e do esmagamento. Contrariamente, ele é levado, pela lei do seu plano, definidora de sua natureza, a dobrar-se sobre os irmãos menores, que considera tanto mais deserdados e necessitados de ajuda, quanto mais inferiores. Duas forças o impelem a isto: o amor e o sentido orgânico unitário, dois impulsos tanto mais poderosos quanto mais se é evolvido, isto é, quanto mais se sobe do Anti-Sistema, reino do involuído, ao Sistema, reino do evolvido.
A vida adianta-se compacta, do Anti-Sistema ao Sistema, procurando realizar, cada vez mais, a atuação daquelas duas forças, amor e unificação, características do Sistema. Para ir cada vez mais para a unificação em que se realiza o amor, a vida serve-se da utilização dos seus elementos mais progredidos em vantagem dos que o forem menos. Por isto ela confia ao evolvido a importantíssima função biológica de dobrar-se sobre os involuídos para levantá-los até si. Esta é, assim, a atitude natural que, no entrelaçamento das diversas posições na escada da evolução, compete ao evolvido e, assim é que os planos biológicos podem por-se em contato e sobrepor-se numa simbiose que os mantém compactos. Desse modo, a descida dos evolvidos não é um capricho, mas e fruto de uma fatalidade lógica, que segue os planos de reconstrução para reconduzir o Anti-Sistema decaído ao estado orgânico unitário do Sistema.
O que acontece do lado oposto, qual é a atitude natural do involuído como resposta ao ato de amor e de sacrifício com que o evolvido vai ao seu encontro? É evidente que este nunca desceria á terra para sua satisfação e que, se ele enfrenta tal sofrimento, é por ser sua missão. Esta é que explica e justifica a sua presença em nosso mundo. Ora, missão quer dizer oferecimento completo de toda a própria atividade e sacrifício, para o bem alheio. Cada qual age conforme sua natureza. Assim o evolvido comporta-se de acordo com a lei do seu plano, lei de amor e de unidade. Mas o que é que podemos, então esperar do involuído, se a lei do seu plano é egocentrismo e separação, é luta e revolta?
Eis, pois, que a resposta natural do involuído é a crucificação do evolvido. Do exame do fenômeno resulta que isto é uma lei biológica natural, fatalmente conseqüente de todos os elementos que o compõem. O próprio Cristo teve que se submeter a esta lei, como lhe ficam submetidos quantos descem à terra em missão. O que significará, então, o tão repetido conceito de Cristo ter vindo ao mundo e sofrido a sua paixão para redimi-lo, tomando sobre si os pecados deste? A evolução é um processo de fatigante ascensão com que o ser, decaído, por sua revolta, no Anti-Sistema, deve, por meio de sua própria experimentação dolorosa, retomar o caminho da evolução até reintegrar-se na ordem do Sistema. Decorre disto que o ser esta automaticamente condenado ao sofrimento, porque o retomar o caminho não é fácil nem gratuito. O sofrimento, assim, constitui a chave da evolução.
Eis, que, agora, poderemos compreender muitas coisas. Segundo a lógica do processo que observamos, Cristo não podia descer à terra senão em missão, e esta missão não se podia desenvolver senão culminando na forma de paixão. E a paixão, por sua vez constituía o que mais valorizava a missão, porque, como já dissemos, o sofrimento é a chave da evolução. Assim é que se realizava a missão, cuja finalidade não podia deixar de ser senão a de melhorar o mundo, ou, em outras palavras, fazê-lo evolver. Cristo, pois, quis ser um pioneiro neste duro caminho da dor, porque sendo este um meio de evolução, também é meio de redenção. O Cristianismo não o explica, mas torna-se evidente que a redenção não se pode realizar, no seio da mais ampla biologia que explicamos, senão por meio da evolução. E qual a significação de haver Cristo, para redimir o mundo, tomado sobre Si os seus pecados? Quer dizer que Ele, inocente, aceitou a dor necessária para evolver, dor que não pertencia a Ele, que não era um decaído, uma vez que Ele nada devia pagar porque nunca se havia rebelado contra a ordem. Ele que não havia descido na involução, não devia redimir a Si mesmo e por isso, não estava sujeito à pena da evolução. Todavia Ele sofreu. Entretanto o sofrimento é necessário para redimir-se e, se Ele nada tinha do que se redimir, eis que Seu sofrimento não podia ser senão para a redenção dos outros. Eis em que sentido Cristo tomou sobre Si os pecados do mundo, isto é, Cristo sofreu a fim de se realizar a evolução alheia, pondo-se à testa dos outros neste duro caminho, com o exemplo e o ensinamento, tomando sobre Si o nosso fardo de dor não Seu, levando-o Ele por primeiro, com o fim de ser seguido pelos outros. Depois, por aquela psicologia das acomodações de que já falamos, pela preguiça do mundo, achou-se mais cômodo acreditar que Cristo houvesse tomado sobre Si os nossos pecados para pagá-los em nosso lugar. Isto, entretanto, lesaria a justiça da lei de Deus e estaria em contradição com as leis da vida. Seguindo o exemplo e o sacrifício de Cristo, descido entre nós para nos ajudar, mas não para nos substituir, uma vez que o amor não pode chegar até a injustiça; seguindo-o teremos de enfrentar a nossa paixão, eis que sem sacrifício não há evolução e sem evolução não há redenção. Para ser nossa a evolução, há de haver uma paixão nossa.
Eis, pois, em conclusão, como se desenvolve a mecânica do fenômeno da descida do evolvido, ultimando com a crucificação. Esta é a conseqüência natural do encontro entre as leis de dois planos diversos. Conforme o sistema vigente no seu nível, o evolvido desce com espírito de unificação e de amor, para colaborar e, naturalmente, transportara na sua ação esta sua psicologia e métodos, agindo em plena conformidade com estes. O involuído, por sua vez, não poderá deixar de recebê-lo, senão comportando-se conforme ele é; isto é, com a sua psicologia e métodos respectivas. Estes são os da luta e da agressão, manifestados desde logo, uma vez que o involuído conforme o seu sistema, exige, em primeiro lugar de qualquer um que entre no seu plano, a prova do seu valor, de conformidade com a sua tábua de valores, isto é, no terreno da luta para o ataque e a defesa. O que pediram a Cristo os seus crucificadores, senão que Ele desse uma prova de força salvando a si mesmo? Quem não oferece esta prova, de nada vale, e merece ser destruído. Eis o choque. O recém-chegado é um instruso e, para ter direito de viver no plano a que desceu, deve provar saber viver conforme as leis deste. O involuído está em sua casa, numa casa feita para ele, em que se acha bem ambientado, e sente-se com força e direito de expulsar os estranhos se estes não obedecem aos usos vigentes naquela casa, talvez primitiva, mas da qual acha-se dono. O evolvido, lá dentro, não tem razão, e se não souber adaptar-se e obedecer, deve voltar para sua casa. Isto é, de fato, o que o involuído procura fazer desde logo, desembaraçando-se dele, liquidando-o. O que deve acontecer nessas condições, quando a natureza do evolvido é ao contrário, a da bondade e do amor, é fácil prever, por ser uma conseqüência fatal dos elementos do fenômeno. A conclusão, pois, é a liquidação do evolvido que com o seu sacrifício paga a sua imperdoável culpa de querer amar os inferiores.
Falamos de Cristo e de redenção. Eis como, também os maiores fenômenos religiosos, podem ser explicados e enquadrados no seio de uma mais ampla ciência da vida, numa biologia que abarque também o seu vir-a-ser evolutivo.

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Chegados a este ponto, tudo parece resolvido Mas o drama acabou somente nas aparências, continuando na substância. Não é possível, com a liquidação material, fazer parar o desenvolvimento de todas as forças postas em jogo como partes do fenômeno. O mártir morre. Mas, das duas leis, qual é a mais poderosa e a qual delas pertence a vitória final? O homem poderá liquidar materialmente o evolvido, destruindo o seu corpo físico, mas com isto, não é possível anular a lei de um plano de vida e o poder que o faz funcionar. Em sua ignorância o involuído pode acreditar que se trata de encontro de homens, uma vez que não sabe enxergar além da forma exterior. Mas, aqui, trata-se de embate de idéias, e as idéias não podem ser mortas. Aqui acha-se empenhada a lei que rege o universo na sua evolução e a nenhum ser é dado sequer abalá-la.
As duas leis estão face a face. Sobrevivem elas, indestrutíveis, aos episódios em que se manifestaram. De um lado a lei da força, de outro, a lei do amor. Qual das duas é mais poderosa: a da força ou a do amor? Trata-se de uma luta, não entre os indivíduos do mesmo plano para sobrepujarem-se usando a mesma estratégia e permanecendo no mesmo sistema, mas entre indivíduos de planos diversos para combinarem-se, usando estratégias diferentes, filhas de sistemas diversos. É uma luta, de um lado, de seres que odeiam para destruir, com seres que, do outro lado, amam para criar. O abraço, em que não podem deixar de se estreitarem todos os lutadores, é de rivalidade exclusiva de um lado, de amor fraterno do outro. De um lado a violência destruidora do egoísmo, de outro o poder construtivo do amor.
Atrás da luta dos seres que o representam, há uma luta de princípios que os sustentam. Qual é mais poderoso, a quem pertence a vitória? À força do egoísmo que dá vida apenas a um eu separado, semeando a morte para todos os outros, ou à força do amor que dá a vida a todos juntos, semeando, em colaboração, vida para todos? O primeiro impulso acredita ser mais poderoso por estar contraído em si mesmo, concentrado num eu só, mas representa um impulso de morte para os demais, como é lógico, por estar mais vizinho do separatismo destruidor do anti-sistema. Outro impulso parece mais débil por estar expandindo além de si mesmo, descentrado em todos os outros seres, mas representa um impulso de vida para os demais, como é lógico por estar mais perto do colaboracionismo reconstrutor do sistema. O involuído parece o mais forte por estar armado até os dentes, mas é, tão só, mais violento e feroz. Com todo esse armamento de guerra, ele procura em vão suprir a sua fraqueza fundamental representada pela sua posição de indivíduo isolado e desorganizado. O evolvido parece mais fraco, por estar individualmente desarmado, mas a sua força é muito maior que a de um ser que está sozinho e consiste no fato de não estar ele nem isolado, nem desorganizado. Isto quer dizer que, enquanto o involuído não pode contar sendo com suas próprias armas e forças, permanecendo isolado de todo o restante, o evolvido está jungido, por relações estreitas de colaboração, com as forcas positivas do universo. Estas são as que provêm de Deus, as que querem a vida, o triunfo de todos, integrados na ordem do sistema. O evolvido está deste lado e isto constitui a sua força maior, porque com isto está ao lado da vida e de Deus. O involuído, ao contrário, está ao lado do Anti-Sistema, e isto constitui a sua maior fraqueza, porque isto significa estar do lado da negação da vida e de Deus, isto é da morte e das forças negativas da destruição.
O embate entre involuído e evolvido não é somente encontro de dois tipos biológicos e de dois planos de vida, mas tem uma profunda significação cósmica. Atrás deste encontro, que não e senão um episódio, está a maior batalha do universo, constituída pelo enfrentar-se do Sistema com o Anti-Sistema; encontro apocalíptico, em que todo o Sistema, em que está Deus e a parte incorrupta da criação, empenha-se a fundo para a redenção do Anti-Sistema em que se precipitou toda a parte rebelde e caída em ruína. Temos, pois, de um lado, o exército dos poderes positivos aliados na reconstrução; de outro, o dos poderes negativos, tendentes à destruição.
Entretanto é lógico que os primeiros sejam os mais poderosos, já que com eles está Deus, que não pode deixar de ser o mais poderoso porque, se não o fosse, ruiria toda a lógica e toda a lei que rege o Universo. Mas as forças positivas do Sistema, que querem a vida, devem ser mais poderosas também, porque a elas está, precisamente, confiado todo o trabalho de reconstrução, no Sistema, do universo decaído no Anti-Sistema. Sem esta sua maior potencialidade, que desde o início estabelece que elas devem ser vencedoras, não seria possível a salvação por evolução, que elas dirigem, e que nunca poderia ser levado a efeito pelas forças negativas da destruição. A conclusão está em que, se o involuído fosse mais poderoso que o evolvido, Deus ficaria vencido pela revolta das suas criaturas rebeldes, e o Seu universo, na queda, ficaria insanável, a testemunhar a inaptidão de Deus, provada pela falência da Sua obra. Mas sendo da Lei de Deus que tudo se reconstitua com a evolução, poderemos concluir que o princípio ao qual é destinada a vitória, por ser o mais poderoso, não é o da força com que se arma o involuído, mas o do amor com que o evolvido tende a reconstruir. Faz parte de todo o plano da criação que deva triunfar a vida e não a morte, e a vida está do lado do Sistema, isto é, do evolvido e não do lado do Anti-Sistema, isto é, do involuído. Isolar a vida, contraindo-a no egoísmo do próprio eu, é ir contra a vida, contra o sistema, contra Deus. Por isto o evolvido deve vencer. Contra todas as aparências, é, pois, o involuído o mais débil e o evolvido o mais forte.
Confirmação disto encontramos no caso de Cristo. A vitória dos seus crucificadores foi uma vitória fechada no tempo, momentânea, da qual permaneceu apenas uma sua história de vergonha que, sem Cristo, ficaria desapercebida como tantas outras. Contrariamente a vitória de Cristo, que eles venceram, é vitória de milênios. Levantado na cruz, Cristo venceu o mundo que o havia crucificado em nome do egoísmo e do ódio, venceu-o com o poder do sacrifício e do amor.
Com este estudo queremos, também, demonstrar e dar-nos, com isto, a alegria de compreender, que o amor é mais forte do que o egoísmo e que, na luta entre a força e a bondade vence a bondade por ser esta mais forte do que a força. Deus, que é vida, por meio desta, rechaça todas as forças negativas que quereriam destruí-la. Esta, de fato, tão logo alcançados os fins da luta pela seleção do mais forte, inicia imediatamente outra luta entre evolvido e involuído, a fim de que o primeiro vença o segundo num terreno bem diverso: o do amor. Quem se prende ao amor é o mais forte, por que se prende à força central e vital do todo, prende-se a Deus. O triunfo final não pertence aos prepotentes dominadores, mas àqueles que mais amam, porque quem ama dá vida e quem domina oprime.
O último ato de todo o drama daquela grande paixão do universo, que se denomina a evolução, é o ilimitado abraço de amor. É no amor que, através do sacrifício, o universo encontrará a sua redenção. Subir o Gólgota significa, também, uma ascensão para o céu. O levantamento da cruz é, também, um levantamento acima do plano inferior da vida do mundo. É com o amor que se se reabsorve o ódio, se organiza a ordem, se reconstrói a vida. É no triunfo do amor que se ultimará este nosso volume de estudo de tantas misérias humanas, a par da história que iremos expondo.
O triunfo do amor constitui a última fase da paixão do evolvido que desce à terra em missão de sacrifício para salvar os seus irmãos mais atrasados. Aqui, também, trata-se de uma lei geral, à qual está sujeito o ser, toda vez que se põe a percorrer estes caminhos. Chegados à última fase em que o fenômeno amadurece, dá-se a inversão da lei do plano inferior na do plano superior, esta vencendo a outra, substituindo o amor ao egoísmo. Assim o evolvido impõe a sua lei no lugar da do involuído, sendo este vencido. Este é o epílogo de todo o processo, isto é, a apoteose do evolvido vencedor e a catarse biológica dos involuídos que, assimilada a lição, conseguem transformar-se em evolvidos. Assim triunfa o bem, a alegria, a vida. Este é o grande milagre que o amor realiza na terra, quando desce do alto. Milagre de transubstanciação, em que do ódio nasce o amor. Milagre de contínua reconstrução, o qual deixou pensar que a criação seja contínua. Tal criação, aparentemente continua, é devida a este processo contínuo de reconstrução pelo qual as forças positivas do Sistema só terão descanso quando houverem reabsorvido e corrigido, com a redenção, todas as forças negativas do Anti-Sistema. Assim é que a contínua presença de Deus, também no Anti-Sistema, continuamente corrige-o, redime-o, salva-o, até sará-lo e, deste modo, reabraçá-lo depois de havê-lo reconduzido todo ao Seu seio.
Eis o grande liame de amor que une entre eles os diversos planos da evolução. Eis como, por este liame, para efetuar a salvação dos mais atrasados e elevá-los ao alto, o evolvido desce ao plano inferior ao involuído. Eis o destino dos mais adiantados, de sacrifício por amor, destino escrito na lei de Deus, que quer a salvação de todos. Eis como, por meio do amor, realiza-se o milagre da redenção do mundo.
Observamos todas as fases da batalha: a condição deplorável dos involuídos e a sua lei de egoísmo e de luta; depois a lei de amor que impera nos planos mais elevados, em cuja obediência o evolvido deve descer à terra, em missão para ajudar e, finalmente, a resposta tremenda dos involuídos: crucificação. Liquidação material do evolvido. Ele morreu, mas, nem por isto a sua lei extinguiu-se. É ela lei de amor e de vida, a própria lei de Deus que rege o Universo, e, como tal, não pode deixar de ser a mais forte e de vencer a grande batalha. Assim é que, no fim, o evolvido, com o amor, vence sem outras armas o armadíssimo involuído e o conduz, do plano da luta e da força, ao da união e do amor. Eis como se desenvolve todo o processo com que se reduz a grande fratura do universo decaído; eis a forma com que o Sistema se redobra sobre o Anti-Sistema para redimi-lo da queda e reconduzi-lo ao estado perfeito originário de Sistema; eis como realiza-se, através da dor e do amor, aquele tremendo esforço da subida, que se chama evolução.
Amor e dor. Amor é a lei de Deus, com que, na origem, estava feita a criação. Dor é impulso oposto, negativo, introduzido pela criatura rebelde com a sua revolta. Constituem eles as duas leis opostas, do Sistema e do Anti-Sistema. São seus símbolos as duas traves que formam a cruz: a horizontal, estática, negativa em face da ascensão, feita para apoiar-se, representando a dor, lei do Anti-Sistema; a vertical, dinâmica, positiva como ascensão, feita para subir em direção ao céu, representando o amor, lei do Sistema. Os dois encravam-se unidos na mesma cruz, firmando o que é a inexorável lei da evolução: sacrifício. Por isto, sobre o mundo rebelde, eleva-se a cruz como símbolo de salvação, porque só com a própria crucificação a humanidade poderá salvar-se.

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As leis que observamos são as que marcam o caminho da existência dos vários tipos biológicos conforme sua natureza. Isto é o que forma o destino próprio de cada um, mas acima de tudo do evolvido.
Destino! Pode este constituir o drama de uma vida, drama tanto maior, quanto mais for titânico aquele destino. Há destinos simples, cinzentos, insípidos, que se arrastam terra a terra, presos a pequenas coisas. Mas há, também, destinos tremendos, apocalípticos, feitos de dores, alegrias e conquistas poderosas de dimensões gigantescas, destinos em que se embatem o céu e a terra, numa luta que arrasta e esmaga o indivíduo numa tempestade cósmica. Há destinos constituídos de poucas idéias, de realizações elementares, que não vão além das dores e das conquistas suportáveis por um menino. Mas há, outrossim, destinos em que se agitam os maiores problemas do universo, em quem através de grandes paixões devem realizar-se as maiores conquistas, e no meio das maiores dores é preciso saber dar escalada ao céu. Destinos feitos de tormenta criativa para os titãs do coração e do pensamento. Destinos de tormento proporcionado àquela potência, em que a dor bate duramente sobre a bigorna daquelas almas, para fazer emergir aquela potencialidade em centelhas que iluminem o mundo. Assim conquista-se o porvir por obra dos pioneiros do progresso, os mártires da evolução. Executam eles o grande esforço, acima de tudo, para os outros, sua maior paixão é fazer subir o homem para seu próprio bem. O mundo responde, muitas vezes, com a inveja e perseguição em vida, com a crucificação em morte, e com a exploração depois da morte.
Destino, enigma de toda alma! Inexoravelmente acorrentada, a alma o vai desenvolvendo em sua vida, cada alma o tem como carne de sua carne e o não conhece; indaga, buscando a revelação do seu mistério. Tudo entretanto, está escrito no livro do destino, mas a alma não sabe ler. E cada um permanece com o seu. Mil destinos encontram-se na vida, tocam-se, influem reciprocamente, mas não é possível nem permutá-los, nem destruí-los. São como tantos trilhos traçados, sobre os quais tudo tende a correr pela vida toda.
Por que? Quem construiu este trilho? Por que são tão diversos de homem para homem? Conhecemos a lei que nos diz ser conseqüência de nosso passado, continuar o trilho que havemos construído nas vidas precedentes, vivendo conforme quisemos viver. Mas, como de fato isto aconteceu, as formas, as particularidades, a realidade como foi por nós vivida, tudo nos escapa e aprofunda-se nas trevas insondáveis do mistério. Problema não de um só, mas de todos, porque, não obstante os particulares sejam multíplices e diversos para cada um, todos vivemos e não podemos deixar de mover-nos senão dentro do âmbito da mesma lei comum a todos.
O destino é este trilho que quer nos levar numa determinada direção. Ser-nos-á possível corrigi-la, mas sempre na base daquele impulso precedente, que foi nosso, livre, e que, continua nosso, fatalmente. Assim, por este seu passado, grande parte de nossa vida já está traçada. O impulso fundamental, o colorido geral, o tipo de trabalho a realizar e de experimentações a desenvolver, já estão prefixados, dados pelo modo conforme o qual quisemos construir nossos instintos e qualidades, constituindo exatamente o trilho sobre o qual não podemos deixar de continuar a ir por diante. No passado semeamos os germes, que agora hão de se desenvolver, dos reclamos nossos para as forças boas ou más, os germes das nossas atrações e reações, de que dependerão nossos encontros e nossa conduta.
Até agora, apenas iniciamos a história de nosso protagonista e dela nos distanciamos para analisar mais amplos problemas surgidos de suas particularidades. Volvamos à narrativa para segui-la mais de perto. Também aquele protagonista estava jungido ao seu destino particular. Definido para ele desde a sua meninice, continuou a arrastá-lo na mesma direção para fazer passar a sua vida através de determinados pontos fundamentais. É um destes pontos que constitui o episódio que queremos expor, por representar um exemplo confirmador da tese sobre o Evangelho sustentada neste volume.
A sua vida havia sido um desenvolvimento lógico de que os fatos vividos constituíam as sucessivas proposições. Dores e alegrias, condições de ambiente e dificuldades a superar, tendências e realizações alcançadas, tudo convergia para o fato central, que constituía a maior realização daquela vida. Tal realização, conteúdo fundamental daquele destino, consistia no cumprimento de uma missão de progresso espiritual.
Para este fim os acontecimentos daquela existência haviam-se desenvolvido todos mirando a um mesmo objetivo. Ambiente, educação, qualidades, dificuldades, eventos, dores, tudo tinha tido uma função principal, a de preparar aquele homem para o cumprimento da sua missão. Em seu devido tempo haviam-se-lhe tirado todas as satisfações materiais que podiam induzi-lo a permanecer ligado à vida terrena, e a fim de incitá-lo a aprofundar-se introspectivamente, dentro de si, mais do que distrair-se projetando-se para fora na vida comum de superfície. Havia-se, assim, podido realizar em silêncio a concentração, o amadurecimento daquela alma para torná-la apta ao cumprimento do seu destino
Aconteceu então, no seu desenvolvimento, que depois de tanta preparação íntima, soou a hora em que ele devia dar o seu fruto exterior e em que aquele homem devia sair da solidão e do silêncio, fase apenas preparatória, para entrar na fase das realizações, trabalhando no mundo, sem o que a missão não se poderia cumprir. Assim foi quando ele estava bem amadurecido e chegara a hora; o destino o tomou pelos cabelos e o lançou na pre-escolhida terra longínqua, mais adaptada para nela poder-se cumprir a missão.
Aqui começa a história que interessa à nossa tese evangélica. Por isto procuramos, agora, focalizar aquele período significativo daquela vida. Nós o contaremos, observando-o em profundidade como foi vivido. Não aparecem pessoas, mas as causas de seus movimentos, representados pelas forças que as fizeram agir, muitas vezes sem sabê-lo, como cegos instrumentos. As pessoas não interessam, sim, e apenas, o funcionamento da lei, que se oculta atrás delas e explica os seus atos. Além da forma, interessa a substância; mostraremos por isso, a realidade que move as aparências, permanecendo aderentes mais às causas do que aos efeitos. Poderemos, desse modo, estudar a técnica conforme a qual desenvolve-se uma missão, ver como se dá o fenômeno da descida das forças do Alto, oferecer, enfim, uma prova experimental das verdades do Evangelho, que parecem as mais irrealizáveis. Procuraremos no caso particular, o que tem valor universal, o que pode interessar a qualquer um que venha a encontrar-se em iguais ou semelhantes condições de vida. Nossa finalidade e, tornar compreensível o valor moral da narrativa, fazendo ressaltar os ensinamentos benéficos que dela possam ser deduzidos.
Eis que em certo dia aquele destino estava maduro, para que, depois de uma longa e dolorosa preparação interior, saísse para o mundo e alcançasse a sua realização. O sujeito havia sido experimentado como fidelidade ao ideal, preparado como sensibilização, purificado o mais possível dos piores instintos da animalidade, como o orgulho, o egoísmo, o instinto de domínio. A adaptação é uma das fundamentais leis biológicas, necessárias para garantir a sobrevivência. E a vida do sujeito, no plano físico, havia-se adaptado, ganhando assim qualidades para os trabalhos espirituais, mas por nada aptas a vencer no plano humano no qual, entretanto, sua missão deveria exercer-se. Eis, pois, surgir, no desenvolvimento da lógica daquele destino, a necessidade de que, um indivíduo especializado em direção espiritual, inepto, por isso, a lutar como se usa na vida prática, recebesse, para realizar a sua missão, as ajudas de que precisava.
O desenvolvimento de uma missão representa um trabalho complexo, em que devem concorrer muitos elementos, combinando-se no momento e na medida justa. Para produzi-los, são precisas tantas qualidades diversas, inclusive opostas, que um homem sozinho não pode possuir. S. Francisco lançou espiritualmente a sua obra, mas, depois, teve de ceder a outros, dotados de qualidades bem diversas, a direção e disciplina da sua Ordem. Como então, reunir o tão diverso material humano e espiritual necessário para poder completar a obra até o final? Deve, para isto, intervir ostensivamente a inteligência superior que dirige todo o procedimento, sem o que este não poderia realizar-se. As causas são, sem dúvida, espirituais, mas devem, neste caso, descer para agir, fixando-se na terra com efeitos concretos. Momento interessantíssimo, porque é nele que aquele mundo espiritual, quase sempre escondido no mistério, vem a manifestar-se em nosso plano de vida, de modo que podemos vê-lo aparecer e funcionar, permitindo-nos, assim, dirigir a nossa observação também para esse mundo de mistério. Mundo este das causas, escondido na profundeza impenetrável ao nosso olhar, mas que, neste momento, é obrigado a tomar forma exterior, tornando-se perceptível.
Eis, então, que nossa narrativa começa a tomar corpo na hora da madureza do destino que estamos observando, porque as forças que o dirigem encontram-se na necessidade de sair do mistério e pôr-se a agir de modo manifesto, descendo a colaborar com as forças que agem em nosso plano, a fim de que aquele destino se cumpra como elas exigem. O chamado de um destino para cumprir uma missão não é a costumeira invocação verbal de nossas preces Os fins a alcançar são de caráter universal e interessam à vida no seu maior trabalho que é o da evolução Ademais as forças do alto, havendo preparado e conduzido tudo até este ponto, assumiram uma velocidade própria e um empenho de continuação do desenvolvimento lógico daquele destino, na direção já iniciada. Tudo isto constitui uma necessidade de intervenção uma inevitabilidade na descida das ajudas do Alto. Esses destinos planejados pelas forças espirituais não podem prescindir de sua direção e assistência contínuas, a qual os deve acompanhar na sua transformação, providenciando as diversas necessidades de todo momento, uma vez que o cumprimento de uma missão representa a construção de um edifício complexo em que entram materiais de forma e natureza diversas. E cada coisa deve estar em seu lugar, executar seu trabalho no momento preciso, utilizando as capacidades específicas de tipos diversos, chamados cada um a seu turno para efetuar, conforme suas qualidades, funções diversas. Trata-se muitas vezes de vontades humanas ignaras de tudo isto e rebeldes, encerradas no seu egoísmo. É preciso, pois, induzi-las à ação necessária, fazendo-as mover por meio de fios aos quais elas sabem obedecer, isto é, seus instintos e miragens, sem o que o seu concurso não poderia ser obtido. Não há outro modo para induzir a trabalhar para o ideal, quando o seu concurso é necessário, seres habituados a mover-se apenas para o próprio interesse. Começamos, assim, a perceber como é complexa a arquitetura do trabalho necessário a levar a bom termo o cumprimento de uma missão. Disto faz parte a direta intervenção das forças do Alto, e em determinado momento, a necessidade absoluta.
No desenvolvimento de nossa narrativa chegamos agora a um estado de amadurecimento, pelo qual aquela intervenção do Alto torna-se indispensável eis que, de outro modo, ficaria comprometido o fruto de toda a preparação anterior. Antes de escrever estas páginas procuramos estudar, com o método da observação, a estratégia e a técnica desta intervenção do Alto ou descida das forças espirituais, e isto é quanto agora veremos. O fenômeno da realização de uma missão nunca pára, anda sempre impelido pelo seu dinamismo. Antes deve amadurecer aquele que a deve cumprir. As forças do Alto ocupam-se antes de mais nada dele e não lhe deixam descanso. Por vezes golpeiam com o chicote da dor para excitar suas reações; por outras isolam-no no silêncio a fim de que se concentre e, introspectivamente, olhando para o profundo, compreenda; por vezes impõem provas de absoluta fidelidade e de obediência cega e por outras o circundam de luz para aprender a ver e, depois, ensinar aos outros a ver. Depois quando aquela alma estiver bem moldada para os fins desejados, aquelas forças do Alto lançam-na no mundo ambiente totalmente diverso onde imperam outras lutas e psicologias.
Este é o momento crítico do fenômeno, em que se cumpre o aferimento em contato com a realidade de nosso mundo Neste ponto convergem todos os impulsos do passado, como tantos raios luminosos focalizados no mesmo ponto para acender o estopim que deve gerar o incêndio. Superou ele todas as fases da preparação. O Alto está interessado neste amadurecimento preparado por ele, cujos efeitos fazem parte do desenvolvimento de seus planos. O momento é crítico e resolutivo. Então aquelas forças do Alto tomam posse daquele homem que com elas havia livremente aceito de conjugar-se, o fundem com a missão e lançam-no agora para o seu fatal cumprimento.
Chegados a este ponto, esta mecânica de forças dá ao desenvolvimento da missão uma característica de fatalidade. Agora, o homem que a aceitou está lançado e não se pode mais retrair. Não é que não seja livre, mas é a própria velocidade que quis tomar e de que ora vive, que não lhe permite mais parar e, muito menos, retroceder. As forças que o guiaram até aqui o sabiam, tanto que podem agora confiar nele Eis, então, um homem arrastado por sua própria velocidade, amarrado por fim a um impulso que já é mais forte do que ele, impulso fatal também por estar empenhado com um determinismo implícito no desenvolvimento de todo o fenômeno em que se comprometeram as forças do Alto que, há tempo, tudo estavam preparando para o êxito certo. O resultado positivo da ação de todas estas forças está em que tudo finalmente deve cumprir-se até o fim, não havendo poder humano que possa fazer parar o seu desenvolvimento.
Tal estado de fato resulta bem claro para nós porque, olhando até o fundo, podemos ver a natureza e o movimento das forças que estão em campo, como, também, o seu lógico desenvolvimento até este momento decisivo. Podemos, pois, dar-nos conta racionalmente desta característica de irresistibilidade no cumprimento da missão. Natural é, porém, que o mundo, vivendo com outra psicologia e, por isso, não tomando em conta essas coisas, haja cometido um grande erro em face de tal missão: erro de não haver compreendido a existência de uma missão, e, ainda quando a admitia, de haver acreditado possível dobrá-la adaptando-a a fins particulares, enquanto tudo já estava situado além de todo poder humano. Desta fundamental incompreensão nasceu e desenvolveu-se, na realidade vivida, aquele embate que observamos entre evolvido e involuído, isto é, entre as forças do Alto focalizadas na missão e nos indivíduos que deviam executá-la, de um lado, e o mundo que, sem nada compreender, resistia-lhes para rejeitá-las.
Aqui se reproduz, em proporções humanas, em forma mais próxima de nós, mais particular, mais viva, a batalha que, nas suas grandes linhas vimos no encontro entre diversos planos de vida É para melhor compreender esta história que aqui contamos, que antecipamos aquele estudo acerca do encontro de biótipos e de níveis evolutivos. Já ingressamos no culminar da batalha; as premissas expostas farão com que melhor a possamos compreender. Estudaremos sua estratégia e técnica, mas dado o mecanismo de todo o fenômeno e os elementos de que ele resulta composto, é fácil prever, ainda antes do início da batalha, qual deverá ser a sua conclusão; dada a necessidade do cumprimento da missão, e a resistência naturalmente imposta por incompreensão, todos os obstáculos, também as maiores potencialidades que se levantaram contra, despedaçaram-se como era lógico, e, em vez de vencer, como acreditaram firmemente, por não haver compreendido nada, foram vencidas.

*  *  *

Continuemos a estudar a técnica do desenvolvimento de uma missão e especialmente como se verifica o fenômeno da descida das forças do Alto. Na amplitude do movimento o protagonista desaparece como um dos elementos entre tantos, investidos pelos impulsos que move a missão. Deixemos de lado, por um momento, o indivíduo, para ocuparmo-nos do movimento geral em que funcionam os outros elementos menores. Colocando-nos diante do fenômeno da intervenção do Alto, estudemos qual é a técnica usada por estas forças para descer na terra e arrastar assim os seus instrumentos para fazê-los agir de conformidade com os fins prefixados.
Nunca vemos Deus intervir diretamente, manifestando-se nos eventos humanos, mas sempre através do concurso interposto por pessoas. Para poder descer do Alto, as forças espirituais necessitam de processos de transformação, de redução, que lhes permitam manifestarem-se em nosso plano de vida. Deus que é a causa imaterial de tudo, não pode manifestar-se diretamente no nível sensório de nosso mundo. Ele é causa e, como tal, não pode descer no terreno dos efeitos, mas somente manobrá-los da profundeza onde Ele está situado. Estes seus agentes exteriores que descem no campo da matéria, denominam-se instrumentos. Mas, como Deus os movimenta? O que agora nos interessa conhecer é a técnica desta ação de Deus na terra, por meio desses instrumentos.
Para o cumprimento de uma missão são precisos instrumentos de todo gênero e cada um é utilizado conforme suas qualidades. Aqueles que devem executar a parte mais elevada, espiritual, são adestrados, amadurecidos com treino preciso, como o são os primeiros atores de uma ópera. Os outros são comparsas, aos quais são confiadas as partes secundárias, não de conceito diretivo, mas de execução material, assim mesmo necessárias para o cumprimento da missão. Para os primeiros atores é necessária a compreensão do trabalho respectivo que lhes é oferecido e que eles aceitam por livre adesão. Mas, para os outras, ainda não amadurecidos e incapazes de compreensão, isto não é possível.
Como, então, fazê-los agir? Para movimentá-los é preciso falar-lhes não com a linguagem espiritual que não compreendem, mas na fala terrena comum. É preciso ver como são feitos e, então, para fazê-los agir, tocar as teclas às quais se sabe que eles obedecem, pôr a alavanca sobre os instintos que os fazem mover. Somente assim poder-se-á obter a sua colaboração, e conseguir deles, em resposta, as reações desejadas.
Que molas movimentam o homem comum, submergindo no plano biológico da animalidade, quisemos esclarecer antes, nos capítulos precedentes, para ter pronta agora a chave que nos explica o funcionamento desta técnica. No presente caso, para que a missão se pudesse realizar, o Alto devia servir-se precisamente de seres comuns, do biótipo involuído, dotado de instintos e qualidades comuns, dada a necessidade de servir-se do material corrente.
Para fazer agir este material ao fim de um trabalho superior que ele não compreende, é lógico que não há outro meio senão a via indireta. Vimos como esse biótipo se comporta em face dos ideais. Se, para movimentar esses seres, colocarmos diante de seus olhos o verdadeiro fim para o qual devem agir, isto é um fim espiritual superior, nada se conseguiria. Vimos suas características e quais os impulsos a que eles respondem. É necessário inserir-se no seu egocentrismo, oferecer-lhes a idéia de uma vantagem pessoal, a satisfação daqueles instintos, somente aos quais eles respondem. É inútil, pois, revelar-lhes a verdadeira função de instrumentos em relação ao cumprimento de uma missão. Eles não desejam obedecer e fariam mau uso de qualquer conhecimento, utilizando-o para evadir-se de sua tarefa que, entretanto, deve ser absolutamente executada. Dado que eles também são instrumentos necessários, dado que eles são bem munidos com todas as armas humanas das quais são mestres, não há outro modo para fazê-los funcionar em serviço de uma missão senão deixá-los em sua ignorância.
Se eles compreendessem, poder-se-ia dizer-lhes a verdade. Mas eles não podem compreender a lei de seu plano que é diversa, pensam de acordo com ela e a ela querem reduzir tudo. Nem é possível transformar o seu biótipo e destino, tanto mais que se trata, para eles, de dar somente uma contribuição momentânea, acessória, ainda que necessária para realizar a missão. Como, então, fazê-los agir, respeitando, como é necessário, sua liberdade? Há um meio: a miragem. Desse modo as forças do Alto os farão mover, fazendo nascer diante deles aquela imagem que pode interessá-los, atrás da qual irão correr. A imagem é fictícia e, como todas as miragens e ilusões da vida, cairá em breve. Mas fez movimentar aqueles instrumentos, para executar aquela parte de trabalho mecânico exterior necessário para a realização dos fins do Alto.
Tudo isto permanece dentro da justiça. Ninguém pode obter mais do que merece. O que fazem eles para o ideal? Se soubessem estar sendo utilizados como instrumentos para fins não próprios, o que fariam? Estamos no plano do egocentrismo, em que se não aceita esforço senão para a própria utilidade. Então, dado que é difícil, aliás seria daninho para a missão, dar-lhes compreensão porque se compreendessem nada mais fariam, então torna-se justo sejam mandados quais cegos, guiados por quem sabe ver. Assim eles executam o trabalho útil para a missão, mas, conforme a justiça não colhem nenhum merecimento, porque aquele trabalho não o fazem para a missão, mas somente tendo em vista a sua miragem. Como agir diversamente se sua obra é necessária e sem a miragem eles nada fariam? E o que se pode pretender sejam as miragens senão ilusões? E o que mais se pode achar nesse plano de vida inferior? Assim o resultado final é que estes instrumentos são utilizados para finalidades de que é impossível dar-lhes compreensão, utilizados por ser o seu concurso necessário, tudo isto sem a sua vontade, sem sua adesão e sem merecimento. Disto segue que, de seu lado; eles recebem uma utilidade material proporcional ao trabalho executado, como é justo, mas com isto recebem a sua paga na moeda de seu mundo. Depois disto é justo, também, que sejam distanciados de uma obra da qual nada compreenderam e que sejam liquidados. Não podem ter o direito de ingressar no giro dos méritos eternos, e de manter a própria posição de instrumentos estáveis, juntos a uma missão a que permaneceram estranhos.
Eis, então, como, no cumprimento da missão que aqui estamos observando, comparecem para trabalhos acessórios materiais necessários a ela. Depois eles desaparecem, quando o trabalho está terminado, como figuras secundárias, chamadas, dentro do plano maravilhoso do desenvolvimento da obra, a executar a sua parte em posição subordinada. Podemos, desse modo, explicarmos o caso que estamos contando Assim, tão logo este ingressou na fase prática de realização terrena, aparece uma espécie de conflito: de um lado uma missão verdadeira, querida por Deus, longamente preparada, tornada fatal, e irresistivelmente lançada, para o seu cumprimento; de outro lado miragens terrenas, queridas pelo homem para fins particulares, que dizem respeito somente ao interesse particular dos indivíduos que as vislumbraram. O resultado final não podia ser senão aquele cujas razões explicamos aqui, isto é, liquidação, tão logo aqueles instrumentos houvessem completado a sua função.
Esta é a conclusão lógica do encontro entre as forças em ação, conforme sua natureza. Liquidação dos instrumentos, porque era necessário distanciá-los de uma obra que não haviam compreendido mas que, todavia, procuraram pôr a serviço de seus fins particulares, por haver ingressado nela momentaneamente; distanciá-los porque, esgotada a sua função, eles podiam tornar-se nocivos à missão, já que, antes de ajudá-la eram levados a submetê-la às próprias diretivas diversas, assenhoreando-se da obra, desse modo fazendo-a deslocar-se das finalidades estabelecidas na missão.
Neste momento eles feriam um dos pontos nevrálgicos mais sensíveis da lei de evolução, procurando, por finalidades particulares, paralisar o seu funcionamento. Natural é, pois, que uma lei de tão alta potencialidade, haja reagido inexoravelmente, esmagando todos os obstáculos que os instrumentos procuraram opor à realização da missão. Eis como se explica que seres poderosos e armados de todos os meios, hajam sido definitivamente afastados, não por um homem que nada pode, mas milagrosamente, pela irresistível intervenção das forças do Alto.
Passaram eles, deste modo, perto de uma obra e de uma missão, sem vê-la; deram sua contribuição, sem compreendê-la e, no fim, recaíram no giro das coisas do seu plano de vida normal. Desapareceram, assim, da cena onde nada mais lhes restava fazer. Eliminação por eles mesmos provocada, porque, de meios, se haviam transformado em força negativa contra a missão. Ela, entretanto, não devia dobrar-se, nem podia adaptar-se, razão pela qual eles desejariam destruí-la. É perigoso desafiar o Alto, porque este é o mais poderoso. O erro deles consistiu no parar à superfície e não ver na profundeza, no acreditar estar tratando com um homem e não com o instrumento de uma missão. O que vale e pode um só homem? Isto era tanto mais verdadeiro neste caso em que se tratava do mais inerme, desprovido de meios e de qualquer poder, inimigo de lutas, desejoso somente de amar e abraçar. E foi mesmo esta sua fraqueza humana que os induziu em erro. Entretanto, um homem a quem está confiada uma missão não é de ser considerado sozinho, porque atrás dele movem-se invisíveis mas poderosas forças espirituais que querem alcançar seus fins e contra as quais é loucura lutar, não havendo forças humanas que as possam vencer. Assim, em sua cegueira, não compreenderam por nada o que eles estavam enfrentando, isto é forças e planos que a ninguém na terra é dado dobrar. Ataque perigoso, porque, depois, ricocheteia sobre o agressor, tanto mais violentamente quanto mais forte o ataque. Se não houvesse este sábio jogo de forças, não haveria na terra nenhuma defesa para quem se ocupa das coisas do espírito. E, então, como se realizariam as missões? A ação do Alto, então, ficaria paralisada na terra, à mercê da vontade humana. No conflito, Deus seria vencido, e às forças do mal seria concedido fechar-lhe o caminho.
Tudo isto faz parte da técnica usada pelas forças espirituais para descer à terra. Nelas está inserido o poder de paralisar todos os ataques e de derrubar todos os empecilhos. As forças do bem são as mais fortes e as do mal não podem prevalecer contra elas. Não é possível modificar isto, por estar escrito na lógica da Lei de Deus.
Assim, no momento decisivo em que o êxito da missão era ameaçado de ficar comprometido, as forças do Alto tiveram de se manifestar claramente também em nosso plano humano e, podemos dizer, em forma milagrosa, isto é excepcional, absolutamente fora do comum, do sistema habitual conforme o qual costumam acontecer as coisas. Na terra, de fato, não é normal que os débeis e os inermes vençam. Assistimos ao encontro entre duas estratégias: a da força e a da idéia. Venceu a segunda. Os lutadores da primeira foram vencidos pelo seu próprio erro, o de acreditar que a estratégia da força e do astúcia, que na terra se demonstra a mais poderosa, sempre o fosse de modo absoluto, ainda contra as forças do céu. Mas estas, ainda quando descem à terra, são sempre regidas por outras leis. É  raro que a mão de Deus se manifeste abertamente na terra. Mas certo é que ela é muito pesada e que os meios humanos nada podem opor-lhe.
Prosseguiu, desse modo, o desenvolvimento da missão, que continuou fatalmente o seu caminho. Mais uma vez ninguém conseguiu paralisá-la, e o trabalho de construção retomou o seu ritmo regular conforme os planos preestabelecidos. Como em todos os momentos decisivos para a construção da obra, aparecera a figura salvadora de Cristo, desta vez para acalmar a tempestade e conduzir a nave ao porto. E a missão salvou-se.




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