Continuemos a observar as qualidades e as atitudes que caracterizam os dois biótipos opostos, o do evolvido e do involuído. O que distingue o primeiro é a sua afirmação unitária, como eu coletivo. O que individualiza a segundo é a sua afirmação separatista; como eu isolado. O evolvido não se interessa pelo próprio eu individual, concebido como isolado do próximo, com este sentindo-se parte no organismo coletivo da humanidade. Não nutre qualquer ciúme da supremacia alheia, constituindo esta, para ele, a supremacia própria. Contrariamente, um dos efeitos que mais caracteriza o involuído é, exatamente, esta ciumeira de qualquer outro a emergir em seu lugar. Isto porque ele faz do próprio eu o centro do universo, que ele pretende exista em função daquele seu eu.
O instinto do involuído é o de reproduzir o egocentrismo, que é fundamental no sistema, mas em posição emborcada, isto é, não no centro mas na periferia onde ele está situado. O egoísmo manifesta-se, de fato, no involuído a cada passo, em todo seu ato. O Sistema do universo é unitário, enfeixado em torno de um único centro, e o involuído pretende erigir-se em centro autônomo no Anti-Sistema. De fato, o seu valor máximo, é o triunfo pessoal do seu eu, separado de todos os outros, admitidos a coexistir somente em posição de submetidos. Contrariamente o valor máximo do evolvido é o triunfo coletivo da maior humanidade da qual ele faz parte, e na qual está fundido com todos os outros; coexistentes com ele em posição de colaboradores.
As posições dos dois biótipos constituem a inversão uma da outra. Para o involuído, o que constitui o ideal é o seu triunfo individual, elevado sobre não importa quais ruínas do próximo, a consecução do ápice dos valores sociais, a base da estima, ou, com outras palavras, o sucesso. Em face do vencedor, todos inclinam-se, e a vitória justifica tudo. Condena-se o ladrão porque representa um perigo, mas quando este, pelos seus furtos, cometidos com bastante astúcia de modo a escapar da lei, tornou-se rico e poderoso, então todos o respeitam. Condena-se o assassino, por representar uma ameaça, mas, quando, um condutor de exércitos guia-nos para a vitória matando milhões de pessoas pela grandeza de nossa pátria, então ele é um herói.
Todos detestam á guerra, mas todos admiram o vencedor Agir como o evolvido, em sentido coletivo colaboracionista, procurando não  só o triunfo próprio ou do grupo, mas o de todos, significa para o involuído abdicação e autodemolição em favor dos rivais que somente procuram sobrepujá-lo.


O evolvido oferece tudo para o bem alheio, por ser este também o seu próprio bem. O involuído procura agarrar o mais que pode para o bem próprio, uma vez que o bem dos outros serve somente para reforçar os seus inimigos e o perigo que estes representam para ele.


O que acontece, então, quando os dois tipos encontram-se? Enquanto o evolvido procura dar, o involuído procura tomar. Tudo, então, tende para o empobrecimento e, com isto para a liquidação. do evolvido. Será então este o problema que iremos estudando: Como sobreviverá o evolvido, com que novas armas a vida defenderá este seu produto precioso, cuja criação custou tanto trabalho como salvará o evangélico desarmado? Ele está feito para viver num ambiente de reciprocidade, em que tudo é compensado. Onde falta esta reciprocidade, quem for generoso trabalha em plena perda. Terá, então, de ser liquidado? Mas isto significaria a falência da vida num dos seus pontos de maior valor e significaria também que o Evangelho é mentiroso por aconselhar coisas impraticáveis, que conduzem a destruição. A Lei da Justiça de Deus não defenderá nesse caso o inerme? Mas antes de enfrentar este problema conclusivo, continuemos ainda na observação.


O que acontece quando os dois sistemas opostos encontram-se? Quando os ideais do evolvido caem na mão do involuído, este os usa para os seus fins. Trata-se de um contínuo trabalho de adaptação a si mesmo da tudo o que se encontra na vida. Tudo é utilizado conforme a própria psicologia, necessidade e temperamento. Tal como os pássaros servem-se das árvores para seus ninhos, outros animais, para neles subir, esconder-se e defender-se, assim o homem: é levado a procurar nas regras da ética geral aquela norma que aprove, justifique e valorize o seu eu e, então, enaltece esta parte, pondo-a em foco e silenciando sobre todas as outras que, em lugar de sustentá-lo, o poriam em falta. Desse modo o temperamento dinâmico dirá: Trabalhai. O preguiçoso procurara esconder a sua preguiça atrás da sua honestidade, se frígido, tornar-se-á propugnador da pureza, mas, se for um sentimental sustentará as virtudes do amor, seja mesmo espiritualmente sublimado, enquanto se do tipo oposto, sustentará a virtude da disciplina e do dever. Isto não ocorre de outra forma para o involuído, se a sua natureza o leva, antes de mais nada, a exaltação do próprio eu. Paralelamente procurar-se-á silenciar tudo o que pode marcar a própria condenação. Assim, por exemplo, quem possuir, guardar-se-á bem de lembrar as páginas do Evangelho acerca da pobreza, e quem for ávido de riquezas nunca falará do Evangelho da renúncia. A posição do involuído é sempre a mesma: a de situar o próprio eu como centro do universo e de tudo conceber, até Deus, em função de si mesmo. Assim, cada qual procura interpretar e dobrar todo ato e pensamento alheio a própria maneira e utilidade. Enquanto a lei de Deus quer transformar o involuído a seu modo, este procura transformá-la de modo próprio. E, muitas vezes, alguma norma encontra sucesso, exatamente porque este conseguiu transformá-la desse modo.


Na Terra tudo pode ser alterado e invertido, para fazer-se uso completamente diverso do preestabelecido. Que coisa mais digna de admiração do que estar carregado de virtudes. Como, pois, impedir que quem for sedento de admiração, para satisfazer o seu orgulho, procure mostrar possuí-las todas, fazendo-se acreditar santo? Pode então acontecer que, seres desejosos de emergir, escolham este caminho por achá-lo fácil (no entanto bem perigoso) e arrisquem-se desse modo a tomar posições insustentáveis, de renúncia e martírio das quais não avaliaram o peso demasiado grave para o tipo que não nasceu evolvido; Embrenham-se, assim, por sendas desconhecidas, cuja significação substancial não está na superfície dos fatos que em geral os biógrafos dos santos anotam, fatos cuja imitação formal não constitui, por nada, a santidade. Gera-se assim uma imitação grotesca, feita somente de práticas exteriores, constituindo apenas uma aparência, enquanto a substância, que é de natureza completamente espiritual, está além destas representações externas. Há quem possa crer que a santidade de S. Francisco constituiu-se no dormir no chão e vestir-se de saco e há quem creia que seja possível alcançar a santidade imitando-o nisto. Mas a sua santidade consistia, não nessas nassas últimas conseqüências, mas em sua causa primeira, ou seja no incêndio espiritual que ardia naquela grande alma e que se não alcança com imitações formalísticas.


Dá-se, então, que quando os normais, desprovidos dessas qualidades de exceção, pretendem, por outras razões, encaminhar-se por aquelas sendas, não possuindo a força para dominar as reações da vida (tanto mais fortes contra tão radicais negações da animalidade), acontece então que se vêm a encontrar na necessidade de retroceder frente as dificuldades cujo alcance, com leviandade, não haviam medido Então, para os imitadores incautos, surge a necessidade de retroceder, e com isto, a queda das virtudes e o respectivo escândalo. Nesse manifesta-se o instinto de agressão do próximo que, ciumento da veneração que aqueles imitadores haviam conquistado, sente-se feliz de demoli-la encontrando-os em falta e isto, naturalmente, por santo zelo, em nome da virtude. E é feliz com essa demolição tanto mais quanto fica desiludido no seu desejo de ver naqueles santos imitadores, sufocados pelas virtudes, já expulsos da luta em benefício do próprio espaço vital.


Muitos atos humanos não são tão simples como podem parecer a primeira vista e, muitas vezes, resultam de um entrelaçamento de operações psicológicas com as quais se consegue o fenômeno da inversão. Indicamos estas manobras, não para acusar, mas para prevenir aqueles que caem nelas acreditando-se astutos, mostrando-lhes que o jogo não é tão fácil como pode parecer. Se continuamos a navegar nessa charco das mentiras é para ensinar a sair delas. Se desnudamos o mal não é para nos deleitarmos na critica, mas para mostrar no fim os caminhos do bem, é para educar, demonstrando ser de maior vantagem seguir estes do que aqueles.


Uma forma de inversão dos ideais a podemos encontrar num tipo de caridade em moda na sociedade moderna: a beneficência. Em vez de dar de si mesmo, diretamente, em obras e sentimento, irmanando-se para ajudar, organizadores, repletos de santo altruísmo, com a ajuda da propaganda, dão-se a nobre indústria do recolhimento de fundos. Alcançam-se assim diversas utilidades, que constituem a causa da divulgação destes sistemas:
1)    Descarrega-se o nobre esforço da virtude de caridade sobre os ombros alheios, antes que sobre os próprios.
2)    Formando muito barulho para o bem do próximo, mostra-se a própria virtude, satisfazendo o orgulho.
3)    Com a santa pregação dos ideais e o sacrifício obtido dos outros, declarando doar, consegue-se, em vez, receber, o que, no terreno prático deste mundo, é sempre considerada a coisa mais importante.
Não se afirma que isto se verifique sempre. Mas, dado o tipo do involuído que aprendemos a conhecer na sua verdadeira natureza, não serão estas as últimas conseqüências lógicas de todo o seu procedimento psicológico? E dada a predominância deste tipo em nosso mundo, tipo eminentemente egocêntrico, qual a significação se pode dar à tamanha difusão da tão desinteressada porfia para beneficiar o próximo, senão a de tirar alguma utilidade para quem a praticar? E que outra coisa se haveria de pretender desse tipo de condenado a viver num ambiente de luta feroz de todos contra todos? Se esta é a forma que a vida toma no seu plano como pretender que ele, renuncie a esta que para ele é toda a vida? Impedir às feras de serem ferozes importa em tirar-lhes o único meio de sobrevivência. O único meio possível é civilizá-las, para conduzi-las a um plano biológico mais elevado.


Este jogo de inversão dos ideais toma inúmeros aspectos. Na luta entre evolvido e involuído, cada um quereria anular o mundo do outro, para substituir-lhe o próprio. De um lado o separatismo egoísta, de outro o sentido unitário altruísta. Esforço e luta de ambos os lados, porque nenhum dos dois quer aceitar a verdade do outro plano que, para cada qual, torna-se um sofrimento, por não corresponder aos próprios instintos. Esforço do evolvido para libertar o mundo da animalidade e fazê-lo evolver até a espiritualidade. Esforço do involuído para conseguir satisfazer seus interesses sob as aparências do ideal, isto é, para neutralizá-lo e torná-lo inócuo na prática, anulando a ação que procura paralisar as necessidades da vida no plano animal. Esforço de astúcias para aparecer o que deveria ser, mas que não é esforço necessário para alcançar os fins que a lei do evolvido condena, mas que o involuído acha fundamentais para a sua existência. Para ele o ideal é uma história inventada que ele sente não corresponder às medidas de sua vida. Ele não pode deixar que seu valor consista no deixar-se enganar, como lhe parece, pelos ideais, mas no de saber rebelar-se para defender-se do que lhe parece uma limitação. Usará, por isto, todos os seus recursos mentais neste sentido, alcançando, assim, a conquista daquela forma de inteligência inferior que é tudo aquilo que o seu plano de vida pode produzir.


Luta, pois, em todo lugar e sempre luta. Luta entre involuídos para sobrepujar-se, luta entre luz e trevas, entre futuro e passado, entre evolvido e involuído, entre planos de evolução e os biótipos que os representam. Tudo na terra existe em função da luta: a paz em função da guerra, o amor em função do ódio. A fraternidade nasce, e é mantida compacta acima de tudo, quando a união e imposta por um inimigo comum contra o qual há o interesse de lutar. Os conceitos de universalidade e imparcialidade representam uma descentralização do egocentrismo que, na sua luta, pode resultar antivital Transplantando-os do seu plano, que é o do evolvido, para aquele do involuído, estes conceitos são rejeitados. ou contorcidos e invertidos para adaptá-los a um ambiente onde tudo é diferente. Dá-se, então, que o universalismo e a imparcialidade vêm a ser compreendidos e admitidos somente como um novo partido,  pronto como os outros a lutar contra todos: o partido dos universalistas imparciais!


Assim é que o amor para com o próximo, na Terra, prefere nascer em função da luta, isto é limitado ao grupo onde se encontra o interesse próprio contra todos os outros. Trata-se de um amor restrito, que deve ser, antes de mais nada, útil a cada um dos componentes do grupo, o que significa contra os de fora, os da parte contrária. Isto tudo não representa acusações, mas a lógica conseqüência dos princípios de egocentrismo separatista e, pois, de luta, vigentes no plano do involuído. Amor, somente para o próprio semelhante, isto é, aquele que se encontra nas nossas próprias condições e, portanto, tem interesse em ser nosso aliado na luta contra todos os outros que se encontram em outras condições de vida. Amor que esconde o ódio, paz que oculta a guerra. O amor da própria família implica a necessidade de defendê-la contra todas as outras famílias, o amor da pátria presume o dever de fazer a guerra contra as outras nações.


Os simples acreditam na existência de uma única moral, a proclamada oficialmente, e que a sua não observância importa em culpa. Mas por que, então, o homem deveria preferir a culpa? Ninguém é mau sem razão, tão só pelo gosto de sê-lo. Se o homem escolhe este caminho, dado o fato de que é guiado por um principio utilitário, quer dizer que nisto encontra uma vantagem. Torna-se esta vantagem ilusória por ser apenas imediata. Dela, depois, derivará um dano. Mas para ele, que não sabe enxergar mais longe, não há melhor maneira de criar a própria utilidade. Pôr-se a proferir condenações significa permanecer na psicologia da luta; isto é dar prova de pertencer ao plano do involuído, cujos métodos continuaria a usar. Deste modo seria satisfeito um instinto mas não se resolveria o problema. Não há cura para os doentes com os cárceres ou o inferno. Isto possibilita cumprir funções defensivas de uma casta ou de determinados princípios, mas deixa-nos permanecer no campo da luta. E não obstante todas as ameaças do inferno, suas portas permanecem escancaradas, com entrada contínua.


A complicação do problema está em que, na terra, não há uma lei única e uma moral só, mas leis e morais de planos de vida diferentes, cada qual invocando os seus direitos e exigências imprescindíveis. Há guerra também neste sentido: a guerra de Cristo contra o mundo. E não se pode satisfazer uma lei sem violar a outra. O homem está entre dois fogos, impelido pelos ideais a sacrificar-se para subir, mas, ao mesmo tempo, retido pelas necessidades férreas da sua vida material, em que é preciso tudo calcular, uma vez que não há margem para o que não produz uma utilidade imediata. Assim é que têm explicação as tão lamentadas adaptações que, porquanto exerçam o papel de freios da evolução e embora escandalizem como contorções dos ideais, se existem, isto quer dizer que há uma sua razão, uma vez que na sabedoria da vida nada há existente sem finalidade.


Quem procura antes de mais nada compreender, não pode condenar. Ser-lhe-á possível, em vez disto, chorar sobre tanta miséria humana, devida ao atraso no grau de evolução em que a mundo ainda se encontra. Mas a compreensão do ambiente em que nos encontramos, torna-se necessária para poder sair do charco. Calar representaria um convite para permanecermos na ilusão. Enxergar o caminho é o primeiro ato necessário para percorrê-lo. É preciso armar o involuído com o conhecimento necessário para subir a um plano de vida superior. O Evangelho não diz apenas "sede simples como as pombas", mas acrescenta: "astutos como as serpentes". Isto quer dizer, puros e honestos como os evolvidos, mas ainda conhecedores de todas as velhacarias humanas para não ser suas vítimas. A fé de olhos escancarados é muito mais sólida do que a de olhos fechados. Deus não nos quer quais néscios credulões, mas crentes iluminados. Para praticar o bem é preciso conhecer também o jogo do mal. Trata-se de guerra e em toda guerra é necessário saber como funcionam as armas do inimigo e ensinar aos próprios soldados a usar as próprias. Assim é que demonstraremos neste volume que as armas do evolvido evangélico são mais poderosas, tomam-no assim o mais forte, apto, como Cristo disse de si, a vencer o mundo. Isto é quanto, pelos meios da razão, procuramos fazer compreender ao tipo corrente do plano humano, a fim de que este, depois de haver compreendido a grande vantagem que representa o subir a um plano de vida superior, decida-se, no próprio interesse, a efetuar, para evolver, um esforço do qual será, depois, largamente compensado.

*  *  *

Continua a luta que abarca também as relações entre o legislador e os seus súditos. O primeiro parte do princípio de que o homem é um involuído cujos instintos inferiores é preciso domar. Os pontos de referência terrenos da ética humana são a animalidade e os instintos egocêntricos de revolta. O pressuposto natural do moralista é que o homem é um pecador a ser corrigido. Cristo não veio a terra para redimir a humanidade? Esta era, então, uma pecadora, carregada de culpas Mas por quê? Não é possível dar a isto outra explicação razoável, senão a de involução. A finalidade do legislador de normas éticas deve ser, pois, o de fazer emergir do estado de involução, isto é, o de guiar o homem ao longo do caminha da evolução, com uma ética progressiva, adaptada ao grau de desenvolvimento que paulatinamente vai alcançando. O Novo Testamento, que reforma o velho sem destruí-lo, mas levando-o para a frente, confirma este conceito.
Exatamente para fazer evolver é que o legislador se dirige; em primeiro lugar, a combater a animalidade. Os próprios mandamentos de Moisés são tão aderentes à natureza humana que permanecem, ainda, em vigor. Combatem, antes de mais nada, os instintos do involuído, de revolta e de egoísmo em dano do próximo. Os pais ensinam a seus filhos a não se. rebelarem contra Deus, não matar, não cometer adultério, não furtar, não mentir, não desejar as coisas ou a mulher alheia. Antes de mais nada, não fazer aquilo a que o instinto espontaneamente conduz. E este instinto a que leva? A rebelar-se contra todos, a matar, a trair, a furtar, a mentir, a tomar as coisas e a mulher alheia. Como é claro, os pontos de referência estão no plano do involuído, são suas próprias qualidades definidas pelo próprio Moisés: as da animalidade O discurso é dirigido ao involuído, com a linguagem dele, a que pode compreender porque é a sua, e não se dirige ao evolvido possuidor de outras qualidades. Os mandamentos não dizem: faça o que faz o evolvido e seja como ele. O involuído não o poderia compreender, eis que lhe faltam os pontos de referência no plano do evolvido. Assim é que Moisés não podia dizer "seja evolvido", porque ninguém o teria compreendido. Mas teve de dizer: "não seja involuído" uma vez que o seu povo não conhecia outro tipo, se não este que constituía a ele próprio. E se os mandamentos permanecem ainda os mesmos, quer dizer que os povos permaneceram mais ou menos os mesmos e que o quadro que Moisés nos oferece do involuído, permanece ainda plenamente fiel. Todo mandamento quer corrigir e, por isto, nos diz o que está escrito na natureza do involuído. Descrição melhor não poderia ser feita num documento de maior valor.
Assim é que legisladores e moralistas tiveram que erguer-se antes de mais nada contra o instinto humano de revolta e ordenar: "não faça". E o "faça" corresponde ao comando dirigido. a um rebelde para que faça o que ele não quer fazer. Esta cor policial de uma ética armada de sanções, indica claramente tratar-se de um mundo de involuídos. Naturalmente isto será percebido somente por quem observa com o olhar do evolvido, porque o involuído está tão certo que a sua natureza e as respectivas sanções estão assim estabelecidas, que não pode sequer pensar seja possível diversamente.
Assim, em nosso mundo tudo é lógico e proporcionado. De um lado o involuído rebelde, com os seus instintos, pronto a não se deixar dobrar por ninguém. De outro a lei moral bem munida com suas sanções, por saber que se dirige a um rebelde, cuja resistência é calculada e prevista e em cujas reações foram exatamente formuladas as normas. Luta também entre legislador e povo. Tudo qual lógica conseqüência dos princípios que regem o plano de vida do involuído. Os dois impulsos contrários presumem-se reciprocamente e equilibram-se. A dosagem de impulso evolutivo emitido naquele grau de desenvolvimento, está proporcionada às capacidades receptivas e de assimilação do tipo biológico ao qual aquele impulso é dirigido. A veste da lei com a qual o legislador cobre o seu povo deve ser feita sob medida, e, quando a lei tem que disciplinar instintos primitivos e ferozes, deve adaptar-se ao material humano de que deve tratar. Explicamo-nos desse modo como a própria Bíblia, abertamente declara com ingenuidade plena, como coisa justa diante de Deus,  sem qualquer sentido de vergonha ou de terror, qual sentida hoje diante de fato semelhante, que Moisés, em nome de Deus, descendo do Monte Sinai, fez trucidar três mil homens. Aquela era a psicologia dos tempos dos quais todos eram parte, legislador e povo. Agir daquele modo, que hoje produz escândalo, representava o único raciocínio verdadeiramente convincente por basear-se na força, único valor que incutia respeito, e no dano pessoal, que era aquilo a que mais se era sensível. Método que, numa sociedade civil, produz efeito contrário, mas que, naqueles tempos e condições, era necessário e, em proporção ao grau de evolução alcançado, era também justo. Tudo é relativo ao próprio plano de vida.
Deixaremos de nos escandalizar quando pensarmos que, naquele plano, onde tudo é luta, se o legislador se torna débil, os involuídos que ele deve guiar e que obedecem somente à força, estão prontos a rebelar-se e liquidá-lo. Assim funciona a vida naquele plano. O legislador é um ser superior que aparece excepcionalmente e que, depois, desaparece. Ao seu impulso heróico sucede então o trabalho da ordinária administração, confiado aos tipos comuns que, com maior ou menor diligência, procurarão executar as normas regulamentares. Desaparecido o iniciador, permanecem os discípulos, seguidores e ministros que dirigem em seu nome, os executores que manejam a lei, submergidos no próprio plano até a garganta. A competição geral tende a nivelar todos à altura evolutiva da lei de seu plano biológico, que não é o do iniciador. Assim o seu trabalho é submetido a um processo de degradação, que porém, é condição da assimilação alheia, processo que exige, em certo momento, que desça outro iniciador para reconstruir um edifício novo no lugar do outro, envelhecido e ameaçando ruína, e assim seguindo, quando também este se tiver tornado velho e ameaçar ruir.
Neste processo, os administradores, não obstante tudo, cumprem a função de avizinhar o ideal ao homem, humanizando um alimento que de outra forma não seria digerido, trazendo a lei de um plano mais elevado para um plano mais baixo. Cumprem eles, também, a função de defender e conservar. Mas toda medalha tem o seu reverso. Isto quer dizer, também cristalizar, significa adaptar e transformar os princípios conforme os próprios instintos e as necessidades do próprio plano biológico. Os ministros são homens da mesma natureza dos outros, algumas. vezes impelidos pelo mesmo desejo de evasão. Isto tende á fazer prevalecer no fim do desejo dominante de toda a massa dos dirigentes e dirigidos, desejo instintivo e inconsciente, de se porem de acordo nas acomodações que, aliviando o peso dos ideais, constituem o supracitado processo de degradação, que, depois, torna necessária a intervenção direta de outro iniciador para injetar nas veias da humanidade nova dose de ideais, fornecendo, assim, ao mundo, um novo impulso de superação ao longo do caminho da evolução.
Há duas maneiras de responder ao apelo do ideal: o de aceitá-lo, submetendo-se aos respectivos sacrifícios que ele impõe, ou o de aguçar as defesas da animalidade para evadir-se das suas limitações e sobreviver. No primeiro caso o ser usa suas energias num investimento a longo prazo e, no seu cálculo utilitário, de ampla previsão, põe-se a cumprir o esforço fatigante evolver, sacrificando, para esse fim, a sua animalidade. No segundo caso, o ser usa suas energias para reduzir a virulência do assalto dos ideais contra a sua vida feita de animalidade, para defender-se das limitações que a disciplina impõe.
Este segundo fim pode ser alcançado por duas vias: ou com a força ou com a astúcia. Poucos são os que dispõem da força, por tratar-se de possuir a inteligência suficiente para construir-se uma moral própria que tenha o valor e o poder de pôr-se contra a corrente geral, desafiando-a e vencendo-a. É preciso, pois, ter também a coragem de cumprir esse desafio e a força para alcançar esta vitória contra todos. É por isso, mais fácil recorrer aos meios oblíquos da mentira, meios de menos fatigante atuação por estarem lubrificados na superfície e que, por isto, não produzem aquela reação imediata e inevitável como quando se transmite um choque.
Eis-nos no terreno das acomodações. Este é o método mais difundido de evasão, por ser aquele que está situado na linha do mínimo esforço, que e mesmo uma das leis da vida, a qual escolhe a via da menor resistência.
Olhemos corajosamente de frente os problemas. É melhor sermos duros e sinceros do que doces e não verdadeiros. Em teoria, na mente de quem os concebe, os ideais estão repletos de nobres e santas intenções, tudo para o bem dos homens. Mas é preciso ver o que acontece depois, quando estes ideais descem na terra, onde domina bem outra psicologia. Na terra, a luta, que impera sobre todos, impõe desde logo um dissídio entre o legislador e a natureza humana que não aceita a rédea. No dissídio o mais forte vence. Mas, dado que o legislador é um forte de exceção, e a maioria é fraca, esta não o enfrenta constituindo-se uma outra moral, de que não possui a coragem, porque seria a da animalidade, mas procura enganar o legislador dando-se ao trabalho da evasão por vias oblíquas. Esta é uma das ocupações das massas que não possuem a força nem a coragem de rebelar-se para conseguir libertar-se da disciplina.
Esta é a maneira de interpretar os ideais que descem na terra, quando estes são vistos com o olhar bem diverso da animalidade. Isto pode chegar ao ponto de excitar uma espécie de ciúme contra os mais astutos, que melhor conseguiram evadir e que disto gozam as vantagens, ciúme que os menos astutos, que permaneceram atrás, renunciadores forçados, procuram expandir contra quem pratique qualquer mínima contravenção à lei, pondo em evidência qualquer seu defeito, para amarrar todos àquela disciplina que pesa tanto que, por isto, trará satisfação quando todos a suportem. Quantas vezes a justiça humana de caráter público não é posta em movimento somente por finalidades particulares, sem o que não se movimentaria? Santifica-se assim, o instinto da agressividade, tão natural no plano do involuído, onde reina o regime de luta. Esta é o instinto que não explica as guerras santas,  a santa inquisição, e outros casos em que se procura santificar o que nada mais é senão a comum luta pela vida. Fazer a própria luta, que todos deveriam fazer a descoberto, fazê-la protegida pelos ideais, pela justiça, em nome de Deus, representa uma defesa e um apoio. E por que a vida, no plano animal, onde não existe senão um rudimento de moral, haveria de renunciar a uma própria vantagem?
A vida é utilitária, e utiliza-se de tudo para alcançar o seu primeiro objetivo, que é viver. Por isto, quando a incomodam, rebela-se contra os ideais, desafoga-se contra os evasores que escapam aos seus pesos, irrita-se contra os zelosos que quereriam impor-lhe, com o seu exemplo, o esforço da imitação, permanece indiferente para com os virtuosos que tomam sobre si o peso sem incomodá-la na sua animalidade e, quando se encontra com um ser superior, o toma por bandeira do seu próprio grupo, o exalta nos altares e monumentos, porque, também com isto, a vida pode tirar a sua utilidade.
Uma ética biológica completa deveria ter em conta todos esses jogos de ilusões psicológicas. A difícil escada dos ideais pode ser galgada solidamente, tão só se tivermos conta da estrutura e dos justos direitos da vida. Somente assim poder-se-á abolir, neste terreno mais eleito, a triste necessidade da luta e da mentira. O mundo tem necessidade de uma moral mais ampla e iluminada, mais lógica e sincera, que, por ser demonstrada racionalmente, possui o direito de ser tomada totalmente a sério. É necessário respeitar os direitos da vida em todo seu plano, porque o imperativo de evolver, nunca poderá violá-los, sem, com isto, dificultar o próprio conseguimento daquilo que é o seu fim principal: subir. É  preciso compreender a significação de todas as forças que agem na vida, para chegar a uma moral sem ilusões, aderente à realidade, honestamente utilitária e por isso não redutível à mentira. É  necessário alcançar uma moral biológica, racional, científica, que não possa ser invertida, que tenha base não em sanções penais, mas na compreensão e convicção, que não asfixie, mas que, em vez de obrigá-la a rebelar-se, encoraje a vida a subir. É necessária uma moral que seja de todos e não somente para os vencedores e a sua vantagem, uma moral que não renegue a vida para os vencidos, deixando-a somente aos que tiverem a força de rebelar-se. Uma moral boa, que ajude, oriente, explique e guie com inteligência e não por meio de condenações, uma moral amiga que não constitua uma forma de luta, mas faça-as superar todas e para sempre. Esta será a moral do porvir.




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