No capítulo IX começamos a responder a algumas objeções feitas por outros e por nós mesmos. Logo depois, ao resolver as primeiras dificuldades examinadas, a crítica à teoria se ampliou levando-nos, para melhor esclarecer e responder, a reexaminá-la, colocando-a diante da filosofia e de seus sistemas, diante das modernas orientações da biologia e das últimas conclusões da ciência astronômica e nuclear. Isto nos permitiu focalizar e esclarecer outros pontos, trabalho próprio desta segunda parte de análise e de crítica.

Agora, poderemos continuar a responder, de forma mais pormenorizada e específica, às várias perguntas e dificuldades que nos foram apresentadas pelos próprios ouvintes dos dois cursos realizados sobre o tema deste volume, nas capitais brasileiras de São Paulo e Rio de Janeiro, nos meses de inverno deste ano de 1956. Este estudo, tirado diretamente do contato com os ouvintes dos cursos, representado pela discussão dos vários temas tratados, será aqui reproduzido na forma em que ocorreu, de perguntas e respostas, para concluir o presente volume.

Podemos, assim, observar o choque entre duas psicologias: a humana comum, com os seus pontos de referência em nosso mundo, e a inspirada que vê do alto os mesmos problemas. Temos de levar em conta também a primeira, tanto mais que poderá levar-nos a fazer uma observação sob novo ângulo, vendo as coisas e equacionando os problemas diversamente. Isto poderá conduzir-nos a novos esclarecimentos, novas perspectivas ainda não vistas ou não focalizadas perfeitamente. Sem dúvida, nos expõe ao risco de incorrer em algumas repetições, pois são trazidos a exame sempre os mesmos motivos. Outrossim, não será possível, nestes capítulos, manter uma ordem lógica e orgânica, pois devemos seguir o pensamento nascido na exposição dos vários temas, neles se inserindo com as discussões. Todavia, esforçamo-nos em reagrupar o material recolhido segundo os assuntos, em torno de cada tema. Este estudo tem a vantagem de mostrar-nos a psicologia e as reações do ouvinte comum, quais são e como podem ser resolvidas as dúvidas, geralmente surgidas do modo comum de conceber as coisas e que costumam manifestar-se em todas as mentes. As reações assemelham-se, demonstrando existir um fundo psicológico comum, originado pelos mesmos pontos de referência terrenos e humanos. Por isso são proveitosos estes capítulos, por permitir-nos apresentar ao leitor respostas diretas às perguntas que ele mesmo estará formulando ao ler os capítulos precedentes. Sem dúvida seriam as mesmas que faria se tivesse assistido aos cursos, feitas pelos outros ouvintes no lugar dele. Dessa maneira, mesmo se tivermos que voltar a tratar temas já desenvolvidos, podemos melhor alcançar o objetivo principal de toda a nossa obra, fazendo tudo ser bem compreendido; tanto mais é difícil repetir um conceito de modo idêntico duas vezes, pois quanto se pensa repeti-lo, de fato se está acrescentando sempre algum pormenor ou aspecto diferente. Diante destas vantagens, não importa se agora os problemas não são enquadrados numa visão geral, nem se são tratados sem ordem, pois, o leitor aí se encontrará um pouco, vendo resolvidas as próprias dúvidas, da maneira como costumam surgir na mente humana. Não devemos recusar nada do que possa levar a esclarecimento e compreensão cada vez maiores.

Dito isto, passemos ao exame das objeções e às respectivas respostas.

OBJEÇÃO

Deus criou os espíritos tirando-os de Sua própria substância. Então tinham de ser de Sua natureza mesma e possuir Suas mesmas qualidades. Ora, dado que entre os atributos de Deus devemos admitir, em primeiro lugar, a liberdade, temos de admitir necessariamente que os espíritos eram livres, de uma liberdade completa, como era a de Deus. Segue-se daí a possibilidade de erro, pois uma liberdade à qual não seja permitido tudo, até errar, uma liberdade à qual seja proibida qualquer mínima coisa, não é mais liberdade completa. Existia, pois, no Sistema a possibilidade de queda, como conseqüência do erro. Até aqui, de acordo. Mas aqui começam as dificuldades.

Entre as qualidades da Divindade devemos admitir não somente a liberdade, mas também a perfeição, e pelas razões acima expostas, os espíritos deviam possuir também esta outra qualidade, a perfeição. E se eram perfeitos, deviam ser também impecáveis, não sujeitos a erros e, portanto, não devia haver possibilidade de queda.

Todavia, deviam possuir também outra qualidade da Divindade: como Deus, deviam ser oniscientes, e conhecer os prejuízos decorrentes de uma desobediência; logicamente, deveriam ter escolhido o melhor caminho, ou seja, o da ordem e disciplina. É inadmissível que um ser inteligente, como os espíritos deveriam ser, venha a executar um ato cujas terríveis conseqüências já conhecia.

No entanto, há mais. A revolta não era um ato particular, de interesse somente dos espíritos rebeldes: interessava a todo o Sistema, pois atentava sobre a sua integridade; interessava, sobretudo a Deus que era o cabeça e o centro de tudo. Ora, Deus era consciente e sabia as conseqüências da revolta, sabendo-as não devia permiti-la. Um Pai amoroso impede até com risco de vida que seu filho caia no abismo.

Além disso, Deus também era onipotente. Se assim era, como pode ter construído um Sistema capaz de ruir, uma lei suscetível de ser violada, uma obra capaz de falir? Tudo isso contradiz o próprio conceito de Deus. A obra de Deus devia ser perfeita como Ele, e um Sistema perfeito não pode desmoronar. Se um edifício desmorona é porque está mal construído, e neste caso a imperfeição está no engenheiro, ou seja, em Deus. Se o Sistema ruiu mais tarde, isto significa ser a obra imperfeita e portanto imperfeito seu autor. Sendo isto absurdo, é também absurda a teoria da queda.

RESPOSTA

Diante de uma afirmação pode-se tomar duas atitudes: a de não discuti-la, demonstrando apenas os absurdos provenientes de sua aceitação; ou então discuti-la, demonstrando seu absurdo diante dos fatos e da lógica. Seguiremos estes dois caminhos. Comecemos pelo primeiro.

a) Poderemos excluir a teoria da queda, mas não poderemos eliminar os fatos existentes. Compete, então, a quem nega a teoria, dar uma explicação desses fatos, os quais permanecem, problema insolúvel. Partamos de um dado positivo indiscutível, conhecido por todos: a existência do mal e da dor. De que causa são eles efeito e como se derivaram? É indispensável um ponto de partida e a causa primeira só pode estar em Deus. Os fatos existem e não podem ser destruídos. Temos, ao menos, de explicá-los.

Se Deus é perfeito, como podem ter saído de Suas mãos coisas tão monstruosamente imperfeitas? Admitir uma filiação direta significa negar Seu principal atributo, isto é, a perfeição. Como pode dela ter nascido tudo de horrível existente em nosso mundo? Como pode haver numa obra, que deveria ser perfeita, tal mancha indelével? Temos, de um lado, um Deus perfeito gerador de tudo. Temos do outro, criaturas que não podem ter nascido senão Dele, sendo muito imperfeitas. Como é possível tão estreita relação de filiação entre dois elementos tão diversos? Então, se não quisermos cair no absurdo de dizer que as criaturas não foram geradas pelo Criador, devemos admitir, entre os dois, a ocorrência de algum acontecimento, ao qual se deve a transformação. Se Deus não pode ter criado, sendo Ele o Todo, senão tirando tudo de Sua substância e se esta só podia ser perfeita, então nada de imperfeito podia ter saído de Suas mãos e muito menos criaturas imperfeitas. É, pois, absurda uma criação imperfeita para depois se aperfeiçoar, ou uma criação de espíritos imperfeitos aos quais depois fosse imposta, contra a possibilidade de qualquer livre escolha, a angustiante fadiga de conquistar a perfeição com a evolução. Há, além disso, inconciliabilidade entre espírito e imperfeição, e é uma contradição falar de espíritos imperfeitos. As criaturas saídas da mão de Deus só podiam ser espíritos e perfeitos, porque saíram das mãos de Deus e porque eram espíritos. O estado de perfeição só pode existir no estado espiritual.

Mas, em nosso universo não existe apenas o mal e a dor. Existe também a matéria. Se Deus não é senão puro espírito, donde e como se derivou a matéria? Se só podemos conceber Deus como um estado espiritual perfeito, como pode ter nascido Dele, em direta relação de filiação, este tão diferente estado material imperfeito? Há um fato positivo, indiscutível: o nosso universo é dualista. Há nele o lado material e o espiritual. Cada elemento se constrói na contradição entre dois princípios opostos. Ora, o conceito de Deus só pode corresponder a um princípio único, estritamente monista. O dualismo, então, só pode ser aceito como uma corrupção ocorrida depois. Não é admissível, em Deus, contraste, nem contradição, nem essa dissensão interna entre dois princípios contrários. Não se pode aceitar o conceito de um Deus dividido contra si mesmo, conceito de um centro que não seja unidade absoluta.

Diante de todos esses fatos positivos, ou seja, o mal, a dor, a imperfeição de nosso mundo, a matéria, o dualismo etc., devemos concluir que: ou Deus não criou tudo isso e então há outro criador e Deus não é a cabeça e não abarca tudo; ou, se não existe um anti-Deus criador de todas essas coisas, e foi Deus que as criou, então Ele errou e agora procura salvar Sua obra, remediando o mal feito. Mas, se achamos esta conclusão absurda, por fazer parte do próprio conceito de Deus que não pode errar, então perguntamos: quem errou? Se devemos excluir como absurda também a outra hipótese de um segundo Deus criador diferente, não nos resta outra causa possível senão Deus ou as Suas criaturas, pois fora disso não existe outra coisa. Então se esses efeitos como vimos, não podem ser atribuídos ao Criador, só nos resta atribuí-los à criatura. Neste caso, somente com a teoria da revolta e da queda podemos encontrar uma explicação lógica de tudo, porque dessa forma Deus não é o motor imediato e a causa direta do atual estado de coisas, mas entre Seu trabalho perfeito e as conseqüências imperfeitas, se haveria interposto o fato novo da revolta, a qual teria sido a causa dessa imperfeição, que não pode de maneira nenhuma ser atribuída a Deus.

Não. O mal não pode ter sido criado por Deus, porque se assim tivesse acontecido deveria ser como a Sua substância, isto é, eterno e indestrutível. O mal estaria definitivamente instalado na obra de Deus, como mancha indelével e então seria dada a essa força inimiga o poder de arruinar para sempre a obra Divina. Não. Se não quisermos contradizer o único conceito que devemos fazer Dele, não podemos conceber o mal, a dor etc., senão como exceção temporária; não como parte do Sistema, mas apenas como um incidente, uma doença curável, um desvio na obra de Deus. Ele é positivo, afirmativo, construtivo em tudo, e todo o negativo não pode de forma alguma fazer parte Dele, nem de Sua criação direta. O branco não pode gerar o negro, nem o bem produzir o mal, nem o amor engendrar o ódio, nem a felicidade criar a dor. Aqui vemos uma inversão de valores: trata-se precisamente de um emborcamento e só uma revolta pode explicar-nos isso. Não se trata de um a criação diferente, estranha, mas de um emborcamento da criação perfeita de Deus. O efeito que temos sob os olhos apresenta-se-nos exatamente na posição que, invertendo-se, teria alcançado a causa que conhecemos em Deus. Então, dado não ser possível encontrar outras causas, a única possível, nós a vemos aparecer invertida neste efeito, só há uma saída para resolver o problema: é ligar aquela causa a este efeito por meio do fenômeno que chamamos revolta e queda. Assim tudo fica perfeitamente explicado: ao contrário se negarmos esta teoria, tudo permanece mistério e contradição. Diante dos fatos reais, não basta negar, é indispensável resolver, demonstrando. Podemos, pois, repudiar esta teoria só quando nos for oferecida outra explicação melhor dos fatos existentes, os quais não podem ser destruídos pela simples negação.

Enquanto verificamos existir exatamente uma relação de inversão entre a causa em Deus e os efeitos que vemos em nosso mundo, a teoria da revolta nos revela precisamente um impulso dessa natureza. Temos, assim, sob os olhos as peças de u‘a máquina desmontada ou os fragmentos destacados de um único desenho. Experimentamos juntá-los e achamos que, em determinada posição, eles coincidem perfeitamente, dando-nos a reconstrução da máquina ou desenho. Temos esses resultados sob os olhos e não são fruto da fantasia. Eles resolvem de fato o problema. Por que não aceitá-los, se assim tudo se explica, enquanto de outra maneira nada fica explicado?

Concluamos a primeira parte desta resposta. Se não quisermos contradizer o conceito que devemos fazer de Deus, devemos dizer que, se Ele não é tudo, não é Deus. Então, não pode haver nenhuma causa além Dele. Mas, se Nele não podemos achar as causas direta do mal, da dor, da imperfeição, da matéria etc., porque estas contradizem Sua natureza, Nele devemos encontrar as causas indiretas. Isto significa ter a causa primeira, que deve permanecer sempre em Deus, sofrido um processo de inversão, antes de atingir o seu efeito. Permanece íntegra a relação causa-efeito e a sua derivação, explicando-se, dessa forma, a mudança. A chave da solução do problema está justamente na teoria da revolta. Só assim se explica porque vemos reaparecer em nosso mundo, sob a forma de qualidades opostas, as qualidades que devem ser de Deus. Esses efeitos só podiam derivar de uma causa que, embora provindo de Deus, pôde em seguida erigir-se em vontade diversa porque era, por sua natureza, livre, e desse modo era capaz de desviar-se do caminho traçado, capaz, por um impulso próprio, de imprimir uma direção diferente ao impulso da causa original. Dessa forma, vemos chegar a seus lugares todas as peças do desenho, ficando totalmente refeito.

Esta opinião nos é confirmada, quando observamos a evolução representar um processo de reconstrução, muito mais do que um processo de criação. Mais do que uma formação do nada, a evolução representa um trabalho de reconstituição, de reintegração do destruído. Não é criação mas um despertar. Só assim se explica o telefinalismo da evolução e a razão pela qual o ponto de chegada já possa ter sido dado, antes de ter sido realizado o caminho para alcançá-lo. A felicidade estava na ordem e é alcançada com a reordenação. O erro foi de desobediência e é corrigido pela obediência à Lei de Deus. Nosso universo é uma clínica onde se curam os enfermos da doença de rebelião. O trajeto é lógico e completo: na ordem, um impulso errado gera a desordem; impõe-se então a evolução com processo de reordenação de elementos caídos na desordem. A revolta não tem o poder nem de criar nem de destruir. No Anti-Sistema permaneceu tudo, apenas estando tudo fora do lugar. Trata-se apenas de tornar a arrumar como estava antes. Em nosso mundo há matéria prima para qualquer construção; em nosso espírito jazem latentes as idéias para fazer qualquer descoberta e para civilizar as relações sociais até a felicidade, segundo a Lei de Deus. No Anti-Sistema, desvio do Sistema, existem todos os elementos para a reconstrução do Sistema. Basta levá-los à sua devida disciplina. Uma vez constituída a ordem antes destruída, desaparecerá o mal, a dor, a imperfeição, a matéria, o dualismo e todas as qualidades deste mundo decaído, filho da revolta. Basta retornar à Lei e reaparecerão todas as qualidades destruídas do Sistema. A criatura foi criada feliz, com a condição de obedecer à Lei. Saindo da Lei, ela saiu da felicidade para entrar na infelicidade. Reentrando na Lei, a criatura sairá da infelicidade para reentrar na felicidade. Assim, a vida, que começa reorganizando os elementos em formas simétricas (cristais), depois em vegetais e animais (organismos), em unidades coletivas segundo planos construtivos cada vez mais complexos, realiza, ao evoluir, o grande trabalho de reorganização da ordem, desfeita no caos pela revolta.

Com isto terminamos a primeira parte da resposta à objeção, não a discutindo para demonstrar-lhe o absurdo, mas demonstrando em quais absurdos cairíamos se a aceitássemos.

*****

b) Prossigamos, agora, na segunda parte da resposta, discutindo as afirmativas da objeção, opostas à teoria da queda, para ver se correspondem à verdade.

Sustenta a objeção que, sendo os espíritos perfeitos e oniscientes, não podiam pecar nem errar. Entretanto, quando tivermos compreendido o valor a ser dado ao conceito de perfeição e onisciência, isto é, que essas duas qualidades não devem ser compreendidas no sentido simplista e absoluto, como apareceu na objeção, então poderemos perceber que essa afirmativa não corresponde à verdade.

Já dissemos, no capítulo VI, sobre Deus criador, que a primeira criação dos espíritos puros produziu não uma simples multiplicidade, mas um verdadeiro organismo, um Sistema, com hierarquia de posições e distribuição de funções, como é indispensável em qualquer organismo ou sistema. A estrutura orgânica não foi apenas uma necessidade para contrabalançar o processo divisionista, de onde derivara a criação e que podia ameaçar a coesão da unidade do todo. O Sistema assumiu a estrutura orgânica sobretudo porque a criação de tantos seres diferentes se baseava no princípio do Amor, o qual foi a força que continuou a cimentá-los, o impulso que devia mantê-los unidos em sistema, o único possível num regime de absoluta liberdade. Por isso não podia ser eliminada, a priori, no Sistema, uma possibilidade de revolta, justamente porque a vida do organismo não podia basear-se senão sobre uma livre aceitação. Não podia ser impedida a revolta violando a liberdade dos espíritos com o reduzi-los à escravidão, mas apenas pela força do princípio do Amor, que devia funcionar neles em direção a Deus com a mesma plenitude com o qual aquele princípio havia funcionado, de Deus para eles. Ao princípio de Amor, era confiada, de modo livre, a tarefa de frear e disciplinar o impulso oposto separatista do egocentrismo individual, a cujo predomínio foi devida a revolta. Por ter sido uma rebelião contra o princípio fundamental da criação, grande foi essa culpa e conduziu a conseqüências tão duras.

Da revolta já falamos no capítulo VII. Quisemos aqui apenas lembrar como o Amor representa o princípio de coesão e fusão, ao qual estava confiada a manutenção da organicidade do sistema, princípio cuja função foi a de organizar os egocentrismos individuais numa ordem hierárquica. Dessa maneira, contrabalançando o Amor que une com o egocentrismo que divide, chegou-se à estrutura hierárquica do Sistema. É necessário compreender bem esse conceito, que, em geral, não se dá importância e, no entanto, produz mal-entendidos e incompreensões; deste conceito derivam importantes conseqüências.

O princípio hierárquico vigente no Sistema, satisfaz também a outra exigência e cumpre outra função. Se a criação dos espíritos tivesse produzido uma simples multiplicidade de seres, todos iguais, não só seria impossível a distribuição e organização de atividades, como ainda, dentro da igualdade universal, Deus não seria mais centro nem seria possível distingui-lo da criatura. A organicidade do Sistema é também uma conseqüência da necessidade de manter em Deus a centralidade dirigente do todo.

Eis que o princípio hierárquico nos leva à idéia de distribuição, de distinção, de diferença entre os vários elementos. Ocupar na organização do Sistema, posições diferentes, significa possuir qualidades diferentes, para executar tarefas diferentes. Chegamos, agora ao âmago da questão, em condições de poder avaliar mais exatamente o valor do conceito de perfeição e onisciência nos espíritos. Podemos dizer que estas não podem se entendidas no sentido absoluto, mas no relativo; não como um fato em si, como se supõe na objeção, mas como uma posição proporcional, em relação à função que devia ser realizada na hierarquia do organismo. Fica salvo, assim, o conceito de centralidade de Deus no Sistema,  princípio do qual deriva o de ordem, de lei e de obediência. Na homogeneidade geral, também o princípio da individualidade tenderia a naufragar, pois é difícil distinguir uma série de elementos iguais.

Trata-se, portanto, de um organismo com posições subordinadas à uma outra, tendo Deus no vértice da pirâmide, com distribuição das partes, das funções e qualidades diferentes. Isto significa perfeições e conhecimentos relativos. Deus não havia, pois, criado espíritos perfeitos em sentido absoluto, pois nesse sentido só Ele era perfeito. Havia-os criado perfeito em relação às suas funções. Isto não quer dizer que a obra de Deus não fosse perfeita. O organismo do Sistema, resultante da criação em seu conjunto, era perfeito, na perfeição orgânica de todo o organismo. Isto, porém, não implica, nem se pode admitir que, como ocorre em todo o organismo, a extensão e a potência da perfeição e do conhecimento de cada elemento individual componente possam ser iguais à do todo. Uma máquina pode ser perfeita em seu conjunto, formada de partes perfeitas; mas estas, só perfeitas como partes, e não como todo, isto é, não além dos limites de suas próprias funções. Assim, um empregado de uma organização comercial pode ser perfeito conhecedor de seu ramo, ignorando os outros e também todo o conjunto da organização. No entanto, dentro dos limites das próprias funções, as partes de u‘a máquina, como de uma organização, podem ser consideradas perfeitas e oniscientes. A imperfeição, para elas, começa logo se sai dos limites da própria competência.

Então, um elemento fazendo parte de um Sistema perfeito, pode ser perfeito como elemento componente, ou seja, no âmbito a ele designado no plano geral. Mas eis também que, quando esse elemento quer sair desse âmbito, usurpando posições e invadindo funções além do limite preestabelecido, funções que lhe não competem e portanto não sabe de maneira alguma executar, esse elemento sai do terreno da perfeição e da competência, para entrar no da imperfeição e da ignorância. Por exemplo, o coração no organismo humano é um órgão relativamente perfeito enquanto permanece no âmbito das funções para as quais foi construído. Mas se ele quisesse tornar-se cérebro e suas células quisessem transformar-se em células nervosas, imediatamente se tornaria imperfeito e inadequado. Ora, essa imperfeição não seria obra do construtor desse órgão, mas dele mesmo, pelo fato de ter querido sair da tarefa a ele designada.

Não basta ouvir o instinto expansionista do egocentrismo para poder ocupar outras posições. É necessário, também, levar em conta os correspondentes deveres e capacidades diferentes das possuídas. Neste caso, a imperfeição seria criada pelo coração, pelo fato dele querer funcionar como cérebro. Da mesma forma ocorreu com as criaturas relativamente perfeitas do sistema. Algumas quiseram sair dos limites de sua competência e conhecimento. Eis o significado da revolta: rebelião à ordem, desobediência à Lei.

Nesse momento aparece a imperfeição na criatura, mas a imperfeição não foi criada por Deus: é apenas obra da criatura ao querer ultrapassar os limites preestabelecidos. Assim, no seio do Sistema se formaram posições desviadas, fora das funções, erradas. Ao lado da perfeição, formaram-se então, zonas de imperfeição, as quais foram expulsas e formaram o Anti-Sistema. Explica-se, desse modo, como, através desse desvio do plano original, tenha-se podido chegar, daquela perfeição, a um estado de imperfeição, onde atualmente se encontra o nosso universo.

Está assim resolvido o primeiro ponto da objeção, que sustentava serem os espíritos impecáveis, por serem perfeitos, não susceptíveis de erro e, portanto, inaceitável a teoria da queda. O segundo ponto de objeção, referente à onisciência, fica igualmente resolvido com os mesmos conceitos. Como já explicamos no capítulo VII, sobre a Revolta, o conhecimento da criatura não ultrapassa os limites de suas funções e não dominava a zona maior, inexplorada, conhecida na sua totalidade só por Deus. Quando a criatura quis tentar o desconhecido, ultrapassando os limites de seu conhecimento, que era onisciente, relativo à sua posição e função, transformou-se em ignorante. Essa ignorância e o querer entrar na zona proibida, cujo conhecimento só Deus possuía, reservada à obediência, ocasionou a revolta, o erro, a queda.

c) Na parte precedente, respondemos a primeira metade da objeção, referente ao espíritos ou criaturas. Vejamos agora a segunda metade, referente à Divindade, ao Criador. A acusação feita é a seguinte: como onisciente, Deus sabia as conseqüências da revolta e podia impedi-la; como onipotente, Ele havia falhado, e a obra de sua perfeição desmoronara. Sua onisciência, onipotência e perfeição não podem conciliar-se com a teoria da queda. Não podendo negar esses atributos a Deus, é preciso negar a queda.

O homem é como uma criança que tinha um belo vaso e o quebrou. E ali fica, cheio de raiva e triste, com os cacos na mão, olhando-os e diz: não fui eu. Mas os vasos estão lá e falam claro. Não tem outro remédio senão confessar e, no entanto, procura não aceitar o fato consumado. Procura assim fugir da própria culpa, pensando poder libertar-se das conseqüências, se provar que o culpado foi outro. No caso em estudo, o fato consumado aí está, e não é explicado nem eliminado se jogarmos a culpa em Deus. Não seria bastante este fato para provar que o homem ainda está se movendo em plena psicologia da revolta, tão vivo está ainda nele o princípio deteminante da queda?

As três acusações são conexas e uma implica a outra. Respondemos à primeira no capítulo IX, dizendo que o erro fora previsto pela onisciência de Deus, sendo provado pelo fato de o Sistema já ter sido provido com antecedência, dos meios automáticos necessários para sua recuperação e cura. Contrariamente ao que afirma a objeção, a onipotência de Deus e a perfeição do Sistema ficam provadas pelo fato de, no final, tudo ficar sanado e voltar ao estado original de perfeição.

Poder-se-ia responder também com uma pergunta: Que necessidade tinha a perfeição de Deus de criar um mundo de seres imperfeitos? Dois fatos indiscutíveis se enfrentam: de um lado a perfeição de Deus, do outra a imperfeição das criaturas. Não se pode permitir que, de tanta perfeição tenha podido nascer tanta imperfeição. Então esta só poderá ter nascido da queda. Portanto, o motivo da perfeição de Deus não nega a queda, ao contrário, é mais uma prova.

Respondemos à acusação contra a perfeição de Deus e de Sua obra com outra pergunta: qual das duas obras, é a mais perfeita? A que não pode errar porque os elementos componentes, que são prisioneiros de uma disciplina corretiva que, eliminando toda a liberdade, torna impossível todo o erro, ou a obra onde os elementos componentes são mantidos juntos apenas por livre e convicta aceitação da Lei, por espontâneo coordenar-se na ordem, cuja liberdade é tal etanta que admite até a possibilidade de uma transgressão à ordem? Qual das duas obras é mais perfeita, a primeira ou a segunda que, podendo desmoronar, foi construída de tal maneira que se poderia reconstruir por si mesma, pois Deus sendo sábio, colocou nela até os meios para sua auto-cura, no caso, como Ele previra, se a obra viesse a desmoronar? E como poderia Deus ter feito diferentemente, sem violar o princípio fundamental da liberdade, que Ele não poderia renegar em sua obra sem renegar a Si mesmo?

E podemos continuar a perguntar-nos: qual é o mais perfeito, o organismo que só conhece as leis da saúde, não podendo sair desse estado fixo, ou o organismo que também conhece as leis da doença, sendo livre de ceder a ela, mas tão sabiamente construído que, através da experiência do mal e da dor, enriquecendo com novas experiências, consegue reconstruir-se em perfeita saúde? Qual sistema é mais perfeito: o que só conhece a perfeição, ou o que abraça também a imperfeição e sabe reconduzi-la, até a perfeição? Quem é mais forte: quem permanece soberano porque não encontra batalhas, ou o que se embrenha nelas e as sabe vencer? Qual dos dois construtores é mais sábio: o que fez um edifício tão perfeito, que não necessita ser estudado a possibilidade de um desmoronamento; ou aquele que fez um edifício onde essa possibilidade é tão bem prevista e estudada que, se ocorresse o desmoronamento, tudo se reconstruiria automaticamente até ao estado perfeito do edifício não desmoronado? Então, como se pode condenar Deus por não ter impedido o desmoronamento, mas respeitado a liberdade do ser e a necessidade de, por si, convencer-se, do erro; por isso, previu e providenciou tudo tão bem, que anulou todo o prejuízo? Quanto mais o homem tenda a fazer de Deus uma idéia antropomórfica, degrandando-O ao nível de um ser egoísta, que cria para fazer-se adorar, a fim de mostrar seu poderio e punir os rebeldes, como poderemos culpar Deus dos males do Anti-Sistema, se estes são um meio para reconstruir o Sistema, com o qual ficarão anulados?

Quanto mais de perto observamos o fenômeno, procurando a imperfeição, tanto mais acharemos a perfeição. O maravilhoso é que o Sistema permaneceu com as suas divinas perfeições no mais profundo do Anti-Sistema, em última análise, representando apenas uma corrupção exterior do Sistema de Deus. A queda reduz-se a uma doença em convalescença, a um estado transitório e excepcional de uma parte do Sistema. A desordem não é geral, não mata a ordem, mas permanece circunscrita e enquadrada. O Anti-Sistema continua a ser dirigido pelo Sistema, isto é, por Deus. A ordem permanece sempre a mais forte e domina a desordem, a dor, o mal, deixando-os subsistir só enquanto e até quando estiverem realizando o trabalho da cura. Assim, a punição reduz-se ao esforço de reconquistar a felicidade e a imperfeição serve para achar a perfeição.

Dessa forma, quanto mais se sobe, quanto mais se esforça e merece, tanto mais o ser se aproxima daquela felicidade. Em sua posição invertida, em última análise, o Anti-Sistema apenas nos indica a posição correta do Sistema. Dessa maneira, a perfeição de Deus transparece no fundo, através de tantas imperfeições de nosso mundo. Da profundidade onde se encontra o Sistema, tudo volta à superfície e tanto mais quanto mais se evolui. Deus permaneceu no centro de tudo e a sua obra foi feita de tal modo, que o Anti-Sistema só pode trabalhar pela sua própria destruição.

Por isso nós, seres decaídos, continuamos apesar de tudo a viver no sistema. Com a revolta procuramos afastar-nos de Deus e só conseguimos arrancar-nos os olhos para não O ver e, sem sabê-lo, permanecemos Nele. Quanto mais subimos, mais nos apercebemos disso. Em Sua sabedoria e bondade, Deus previu tudo e de modo que a revolta não pudesse produzir uma ruina definitiva do Sistema. A certo ponto, a queda pára e inverte-se na direção oposta, na subida. Que maior previdência e providência que esta intrínseca capacidade de salvação, inserida no próprio fenômeno? E a ferida é não só curável, como há uma vontade precisa de cura, que impõe à evolução o seu telefinalismo, pelo qual, o ser tem de evoluir na direção desejada por Deus; acossado pela dor, atraído pela ânsia de felicidade, é constrangido a subir para voltar a Deus.

Concluindo este assunto, a nossa resposta à objeção confirma cada vez mais a teoria da queda. Vista mais de perto, reduz-se apenas a um parêntese de imperfeição na perfeição, de dor na felicidade; parêntese que no fim desaparece sem deixar resíduos de prejuízo. Assim foi deixada aos espíritos a liberdade de possuir a perfeição e felicidade, de dois modos: 1) obedecendo a Deus, funcionando harmonicamente segundo a Lei em seu organismo; 2) desobedecendo a Deus, errando, mas para depois corrigir-se; caindo, mas para levantar-se; destruindo a perfeição, mas para depois ter de reconstruí-la fatalmente em sua integridade.

O maravilhoso é que, em ambos os casos, qualquer opção na escolha, pela criatura, o resultado é sempre o mesmo: a perfeição própria do sistema é inatacável e permanece íntegra. Pode imaginar-se obra mais perfeita? Que resta da acusação de imperfeição, feita à obra de Deus?

Qual o resultado final de todo o processo? A queda terá conseguido vários resultados importantes:

1) A parte caída terá tido tão dura experiência que não mais repetirá. Voltou à felicidade e aí permanece. O mal foi curado sem resíduos, sem traço de prejuízo. Não significa não ter deixado recordação, pois é necessária para guardar o fruto da lição, tão rudemente aprendida. É a lembrança da dor, a qual desapareceu totalmente. Mas a lembrança de haver sofrido não é para nós dolorosa, ao contrário, tanto mais se sente a alegria da libertação quanto maior foi a dor e quanto maior é a felicidade atual. A recordação ensina e aumenta a felicidade novamente encontrada.

2) A parte não derrocada terá assistido à queda, vendo-lhe as conseqüências. Aprendeu, pois, o seu significado; conhece agora o perigo e, com todas as forças, evitará cair. Assim, cada elemento sabe o que acontece quando se sai dos limites da própria posição e conhecimento, para invadir zonas desconhecidas, além da própria competência.

3) Nos dois casos a posição final é igualmente a da perfeição e felicidade, tanto para quem ficou, como para quem saiu e voltou. Não somente tudo volta a seu lugar, mas a queda é como um sangue que, ao coagular-se, impede por si mesmo a saída de novo sangue da ferida. Então, como último resultado, a queda encerra para sempre a possibilidade de novas quedas.

 




  • pesquise na obra
  • avancemos
  • palestras e estudos
  • livro a lei de Deus
  • congressos
  • livraria