Para todos, do chefe até ao último dos cidadãos do Estado, o que constitui seu direito particular próprio, é apenas a capacidade de cumprir o seu dever próprio particular. Assim qualquer poder só é admissível como função social, única que dá direitos e poderes, isso de acordo com o seu grau e natureza.

O chefe, condutor de povos, deveria ser um tipo biológico mais evoluído que a média, emergindo, portanto, da massa do povo, mais apto ao mando sobre ele, a fim de dirigi-lo para metas superiores. Ele deveria ser como uma ponte entre a Terra e o Céu, pois que deveria estar em contato com o pensamento e a vontade da história, obrando como intérprete seu e instrumento de execução; e ao mesmo tempo deveria saber descer ao contato com a massa do povo para conhecer as suas necessidades e cuidar de sua vida e progresso.

Estes os conceitos do capítulo precedente. Então, se estas tinham que ser as características do tipo biológico do condutor de povos, vamos agora confrontá-las com as do tipo biológico que nos apresenta Maquiavel, em seu Príncipe, figura de condutor traçada com um realismo impiedoso. Confrontemos, para ver quanto de verdade pode haver em suas afirmações tão diversas, procurando entrar nós mesmos naquela psicologia e assumindo aquela forma mental. Só assim, partindo do biótipo do super-homem no negativo, tal como no-lo apresentam Maquiavel e Nietzsche, poderemos construir, com inteiro conhecimento, o biótipo do super-homem no positivo, substituindo ao gênio maléfico da destruição, o gênio benéfico da reconstrução.

Apresenta-nos Maquiavel, em seu Príncipe, uma figura que está nos antípodas da que acima traçamos, um tipo diabólico, de astuto e prepotente, de falso e traidor, aproveitador de tudo e desprovido de qualquer moral. Aproximemos as duas concepções situadas nos antí-podas. Certamente não pode negar-se que, se Maquiavel escandalizou o mundo, foi só porque mostrou desnudado o verdadeiro rosto de muitos chefes e a baixeza e verdadeira natureza dos meios que eles usam para guiar a vida social. Maquiavel não quis dar-nos um tipo ideal para ser imitado, porque nobre e belo, mas apenas quis verificar e mostrar-nos a dura realidade. Como homem positivo, limitou-se ao que esta lhe oferecia nos fatos. Os governantes da Terra, desde que existem governos, sabiam bem as doutrinas de Maquiavel e bem o demonstra o fato de que muitas vezes as aplicaram. Mas eles tinham uma moral, que consistia em ocultar os seus verdadeiros princípios, para dominar melhor os súditos, escondendo o seu rosto verdadeiro de lobos sob a máscara de cordeiros. E eles só se insurgiram contra Maquiavel porque este lhes violara essa moral, expondo sinceramente a triste realidade qual ela é. Em última análise, em seu livro O Príncipe, realiza Maquiavel um ato de grande, mas de incômoda franqueza, descobrindo os segredos que movem o homem que permaneceu lobo, que ainda funciona em cheio com as leis do plano animal, mesmo quando sobe aos mais elevados planos de comando e às honras da glória de vencedor e de chefe. Esse livro foi um ato de grande bom senso e um corajoso reconhecimento da dura realidade dos fatos. E foi também uma grande bofetada no gênero humano, descoberto em sua vergonha e ferocidade, tanto considerado na hipocrisia dos governantes, quanto na imbecilidade das massas.

Sem falar de leis biológicas, sem dar-se conta das profundas razões pelas quais ainda hoje se comporta assim o homem, sem estudar o modo de sair do pântano, Maquiavel expõe claramente, sem o querer, a natureza bestial do homem, porque essa era a verdade que lhe caia sob os olhos. Quatrocentos anos depois, Nietzsche estabelecia, no plano filosófico, os mesmos conceitos que Maquiavel estabelecera no terreno político. Tiveram ambos o merecimento de pôr a nu o que se esconde atrás da hipocrisia e a coragem de fazer aparecer o homem como fera que é. O mundo gritou, porque se viu descoberto; protestaram os poderosos porque se lhes arrancava o nobre manto que lhes cobria as vergonhas, assim se tentou também justificar a velhacaria humana, mas dessa forma fez-se luz sobre a verdadeira natureza do ser humano e sobre a importância preponderante da luta pela vida em todas as suas manifestações. Apareceu assim, no condutor, a sua verdadeira face do dominador, qualidade sem a qual nem sequer se podem fazer as grandes coisas. E o mundo é dirigido por condutores e avança por meio deles, sejam eles escolhidos pelas revoluções, que desembocam nos absolutismos totalitários, sejam, ao invés, escolhidos pelo sistema eletivo nas livres democracias. Qualquer que seja a estrada pela qual cheguem ao poder, os povos, para poderem progredir, deveriam ser sempre guiados por um tipo biológico mais adiantado do que a média. Mas, infelizmente, os fatos, até hoje, dão razão a Maquiavel e a Nietzsche, porque o tipo biológico do condutor tem sido, com frequência, o que eles descreveram. O mundo tem o instinto de ansiar como chefe um ser superior, que pertença a planos biológicos mais elevados do que o seu, ainda animal, mas tudo permanece sonho vão, diante da dura realidade dos fatos, pelo que, para vencer e dominar, é indispensável a força, e para criar, mesmo no bem, é mister que esse bem seja imposto.

Não queremos com isso justificar nem Nietzsche nem Maquiavel. Apenas queremos explicá-los. O seu erro consiste em ter aceito sem rebelião, e até confirmando essa dura realidade. A sua culpa é não ter procurado opor- se e libertar-se desse mal, superando-o, em vez de havê-lo justificado como uma lei natural da vida. E isto é um consentimento tácito, uma aceitação. Pois o homem não deve, não pode permanecer sempre no plano animal. Esse reconhecimento deles é quase uma confirmação ou autorização à baixeza. Nietzsche chega até a idealizar o inferior tipo biológico apenas da força, vai até a fazê-lo tipo ideal, propondo-o como modelo. Tudo isto é exaltação do involuído, é reviravolta de valores, é monumento erguido ao animal. Eis em que reside o erro e a culpa desses escritores. Pararam na realidade de superfície, sem compreender que há outra realidade, mais profunda, a do espírito, da vontade da Lei dos impulsos da evolução, da imanência de Deus. O pensamento humano representa uma força superior à matéria, deve dominá-la, plasmá-la, fazê-la evoluir e não aceitá-la tal qual é, e suportá-la como seu escravo. Sente-se que a esses escritores e a seus afins falta algo que eles não viram, falta o sentido para perceber o poder do imponderável, que todavia pesa muito mesmo na realidade histórica e social observada por eles. O seu erro é o mesmo do materialismo, que parou à superfície e que, agora que a ciência começa a penetrar mais profundamente, tem que repudiar muitas das suas dogmáticas afirmações. Há um mundo superior, que os mais evoluídos sentem por intuição, e que escapa completamente a esses homens práticos de ação, ainda quando chegam a ser homens de estado ou filósofos famosos. Diante dessas superiores realidades do espírito, que eles negam porque não vêm, tornam-se eles crianças, ineptos, incompetentes. Crêem, em seu ceticismo, que são mais astutos e que estão mais próximos da verdade em seu sentido prático, e dirigindo-se a ação acreditam atingir a realidade. No entanto, são incompletos, e em certas zonas da vida, totalmente cegos. Por isso lhes escapam de todo, como ao materialismo, os sutis valores do espírito e não podem compreender nenhuma religião senão a da violência. Seu metro não pode medir as distâncias astronômicas do sublime, que é então repudiado e liquidado como inexistente. Sem dúvida que a luz, para os cegos, não existe, mas assim não ocorre ao que vê. Para eles a tábua de valores é diferente, assim como a virtude e os meios, porque diferentes são as finalidades da vida. Savonarola, entendido friamente por Maquiavel, bem diversamente reagiu às mesmas condições de seu tempo.

Hoje é preciso então refazer totalmente O Príncipe de Maquiavel, embora reconhecendo a verdade desse tipo biológico, completá-lo nas partes superiores em que está falho. Aquele Príncipe é um ser meio fera. Mister se torna dar-lhe a forma humana, digna dos novos tempos. Movimentaram-se hoje outras forças, a humanidade prepara-se para enfrentar outras experiências. Estamos, é verdade, em período de destruição. Mas é justamente nessa fase que se prepara a reconstrução. Destruição e reconstrução ao mesmo tempo, o que significa que os velhos conceitos materialistas são demolidos e novo edifício se vai erguendo sobre suas ruínas. Não mais serve hoje o riso escarninho, o ateísmo cínico de um Voltaire, à mesa de Frederico, o Grande, em Sans-Souci. Hoje é mister sustentar-se uma crença férrea, tornada necessária pelos acontecimentos apocalípticos dos tempos, tornada obrigatória por sua demonstração racional, levada até à solução dos problemas últimos.

Poderia parecer que, ao procurar introduzir seriamente o elemento moral na vida política, quiséramos acrescentar uma mentira inédita, de novo estilo, às antigas muito conhecidas. Não. É aqui introduzido o elemento moral de forma racional, positiva, logicamente demonstrada, não na forma de fé, mas de evidente realidade que corresponde a uma nova ordem de fenômenos objetivos, a que o mundo, em sua cegueira e posição involuída, deu muito pouco valor até hoje. Queremos aqui introduzir o elemento moral na política, porque esta faz parte da vida, que se baseia também nas leis morais, que se não relacionam apenas com a fé e o ideal, mas fazem parte integrante das leis biológicas. Queremos fazer compreender que, diante de tais leis dominantes no campo ético, não se pode permanecer agnósticos, como não se pode fazê-lo diante das outras leis da vida. Queremos fazer compreender que as normas da retidão moral não são o derivado de uma opinião pessoal, de que se possa prescindir, mas são uma realidade objetiva, força viva que penetra o nosso contingente e pode ferir-nos, se não observamos os seus princípios, com tremendas reações. Está hoje difundido o erro de crer que esses problemas podem agnosticamente ser postos de lado e resolvidos prescindindo deles, como se fossem apenas produtos humanos desta ou daquela religião ou escola. Temos que compreender, ao invés, que a humanidade está há milênios pagando com dores e sangue esta sua crassa ignorância de verdades elementares, isto porque vai usando mal, para seu dano, em vez de sua vantagem, as tremendas forças que hoje ameaçam triturá-la. Por causa desse repetir e acumular de erros, chegamos hoje a uma era apocalíptica, em que mais ameaçadora se torna a reação da Lei, que se apressa para chegar a uma solução, mesmo se esta tenha que ser a catástrofe do mundo atual.

No entanto, não é difícil introduzir o elemento moral, pertencente a uma ordem de ideias dum plano superior, em nosso mundo, situado ainda de preferência num plano animal. O novo elemento será introduzido com ponderação e medida, ou seja, na dose suportável pela realidade biológica atual, porque, em dose excessiva, poderia fazer-nos perder contato com ela, e transformar-se num impulso para uma utopia irrealizável. Se o puro ideal pode ser no alto uma esplêndida verdade, em baixo pode representar grave erro biológico. Temos que dar-nos conta, na ação, do plano em que trabalhamos, para não cometer, em relação a ele, erros que teríamos de pagar. No terreno prático, o sublime pode ser um erro, contra o qual a vida reage depois em nossa perda. Não é verdade que se possam inverter, em nome do ideal, as leis de cada plano da vida, e ai de quem, acreditando-se homem de grande fé, subverte a ordem com leviandade. Quando estamos imersos em certo tipo de princípios e forças, porque esse é nosso grau de evolução, é orgulho e loucura pretender evoluir fácil e rapidamente. A nossa fé tem de ser ponderada, consciente das forças da vida, das dificuldades apresentadas pela evolução; deve evitar que se transforme em loucura que nos lance em cheio em aventuras perigosas, que vemos tantos inconscientes tentarem, às vezes, com resultados desastrosos. Nesses arrebatamentos para o alto, temos primeiro de analisar a dose daquela revolução biológica, que para o homem atual é a verdadeira espiritualidade, podem suportar as nossas condições atuais; temos de estudar antes qual é o grau de rarefação atmosférica que podem suportar nossos pulmões ainda não habituados, sem que fiquemos sufocados, sem respiração. Sem dúvida, uma grande fé e um desejo ardente são os impulsos mais adequados a arrancar-nos do baixo para lançar-nos para o alto. Mas os casos de seres que verdadeiramente os possuam, são raros, ao passo que as leis biológicas são férreas para todos. Agredi-las, contra elas empenhar a maior batalha biológica, que é a dos santos, pode desencadear contra nós tremendas reações, pelas quais poderemos ser esmagados, se tivermos sido incautos e se nos empenharmos com leviandade na luta sobrestimando as nossas forças. Por isso faliram tão miseramente tantas tentativas de superação, iniciadas sem levar em conta tudo isso.

Falamos de política como de um momento do fenômeno social, que é um momento do fenômeno biológico, que por sua vez é um momento de fenômeno cósmico. A política, portanto, é toda colocada logicamente num quadro de filosofia do universo. Vemos pois como, no atual plano humano da vida, é verdadeiro O Príncipe de Maquiavel, e que dificuldade existe em introduzir nesse plano o elemento moral e espiritual. Na vida social, o Cristianismo luta em vão há dois milênios neste sentido. Mas justamente, quem analisa racionalmente o fenômeno, dando-se conta de todas as dificuldades, é que está mais apto a orientá-lo no sentido positivo, com maior probabilidade de êxito. Em outros termos, queremos ver aqui, no atual grau de evolução humana, quanto possa a política conter de elemento moral e espiritual, sem cair na utopia. Só assim poderemos ficar no terreno prático, falando positivamente aos homens de ação, de coisas que eles julgam fora de seu âmbito, para demonstrar-lhes quanto, ao contrário, estas lhes dizem respeito e como é perigoso ignorá-las e pode custar caro descuidá-las. Só desse modo pode falar-se de forma positiva, no terreno político, de elementos morais e espirituais.

Biologicamente, os governantes são os pastores dum rebanho que deles espera e exige guia e proteção. Despojados de todas as formas exteriores, as relações entre governantes e governados, e vice-versa, são muito simples. São estabelecidas pelas exigências da luta pela vida. Reduzida a política a esta mais simples expressão, os sistemas de escolha (seja mediante revolução ou eleição) e os sistemas de governo (sejam totalitários ou representativos) embora diversos na forma, se equivalem na substância. De qualquer modo, o condutor deve ter sempre as mesmas qualidades, isto é, a do mais hábil, do mais forte, do que melhor dê garantias de defesa, de prosperidade, de progresso. Isto é o que exigem os povos de seus governantes, ou seja, o cumprimento da função biológica de que se incumbem. Mas, no fundo, é a vida que, através do instinto dos povos, exige que cada um cumpra a tarefa que lhe cabe. Hoje o mundo discute muito os métodos pelos quais se pode chegar ao poder, quer por eleição ou revolução, pela chamada escolha livre nas democracias, ou pela imposição e por eliminação dos rivais. Mas são apenas dois métodos diversos, em substância, fundamentados igualmente na força e na astúcia. No caso da democracia será a força do dinheiro, mais requintada que a força bruta, que elimina os pretendentes inimigos, e a astúcia será menos policial e feroz. De fato, porém, esses dois métodos, embora diferentemente evoluídos, reduzem-se no fundo à mesma luta pela vida, ainda que se manifestem em duas formas diversas.

A luta é a condição primordial da evolução, que é uma longa escada que temos de subir com esforço nosso. Daí o contínuo esforço para emergir das condições inferiores da vida, vencendo a despeito do ambiente e a despeito de todos. Em nosso plano, significa essa luta o esmagamento de qualquer rival de nossa vida. Se ao seu evoluir amanhã, tomará a seleção uma forma mais apurada, tendente à produção de um tipo mais consciente e espiritual, hoje serve a luta para a seleção do mais forte quase que somente em sentido animal, porque é este agora o tipo biológico dominante na Terra. Em vista disso, a primeira coisa que os povos exigem de seus verdadeiros chefes é a força. Para realizar o grande esforço da evolução, o mundo procura sempre a força. Por isso, a mulher adora o homem, os pobres invejam os ricos, os inferiores na escala social obedecem a seus superiores. O chefe de um povo é, em última análise, o homem, pai de uma grande família. Mais que bondade e amor, qualidades femininas, pedem-se lhe as qualidades viris do poder e da capacidade do domínio, únicas que o autorizam ao mando. A vida exige, no chefe que guia, o tipo melhor da raça, mas melhor em relação e em proporção a ela. É assim que cada povo, segundo seu grau de evolução, precisa como chefe, de um tipo biológico evoluído em proporção a ele, portanto, nem muito involuído, para que não seja desprezado por estar muito baixo, nem demais evoluído, que seja incompreendido porque muito alto. Por isso se diz que os povos têm o governo que merecem. Mas pode dizer-se também que os chefes têm o povo que merecem. Entre governantes e povos, se deve haver certa distância evolutiva para estabelecer a superioridade do condutor, também deve haver certa afinidade que permita a comunicação, embora isso implique defeito, mas é necessário para estabelecer a sintonização.

O chefe, como homem, pai de sua grande família que é seu povo, como a locomotiva de um trem, abre o caminho à frente, diante do comboio. É como o indivíduo escolhido, que guia as migrações das aves. Reis, imperadores, presidentes de república etc. todos existiram e existem porque a vida precisa deles para o cumprimento de uma função biológica necessária, a de guia. Ao chefe, todas as honras, a riqueza, a obediência. Mas a vida não dá coisa alguma para o nada, e o instinto dos povos o sabe. Essa homenagem não é gratuita para o chefe, mas apenas uma parte de um contrato bilateral, e por isso, o povo exige do lado oposto capacidade, justiça, defesa. O povo obedece, paga as taxas, dá seus filhos para que a pátria os sacrifique em defesa própria, mas quer ser pago de tudo o que dá para o bem de todos, com a ordem interna (defesa contra as minorias agressivas), com a garantia da propriedade e da família, com sua liberdade nos limites do que é lícito, com a defesa contra os inimigos externos. A propaganda pode criar uma psicologia artificial a seu modo, mas apenas dentro desses limites. Por mais que se alardeie que um povo navega na abundância, ele compreenderá sempre que ao invés o devora a miséria; por mais que se lhe queira convencer que ele vence, ele sempre perceberá quando perde.

Quando, por exemplo, saindo do simples e normal terreno administrativo ou político, um chefe entra num jogo maior, o da vida ou da morte da nação, empenhando-se em uma guerra, o povo então desperta e apura o olhar. Os jornais, quase sempre cheios de crônicas escandalosas ou criminais, de personalismos e soníferos, de interesses maus ou nulos, portanto, talvez melhor seria nem lê-los, tornam-se nessa ocasião ardentes e vitais, porque é forte a entrada para o jogo da vida, e eles registram os grandes acontecimentos que constituem a História. Instintivamente desperta a mente dos povos, porque sentem que ocorre algo de grave. Diante dos interesses da vida, as normais vicissitudes políticas e parlamentares têm valor de crônica e boato de aldeia. E é este ao contrário o momento em que o chefe é mais controlado pela opinião pública, exigindo dele que desempenhe sua função. O povo obedece e faz sacrifícios. O chefe continua mandar e a pedir. Se o chefe vence, com ele vence a nação, com ele triunfa e tripudia, aproveitando todos juntos dos despojos à custa do inimigo. E triunfam todos na vitória da vida.

Se, ao invés, o chefe perde, é a vida que, nos instintos do povo, se sente derrotada. Ela então, através desse instinto, revolta-se contra o chefe que teve a pretensão de saber desempenhar uma função e não a desempenhou. Não se brinca com a vida. Esta é sua linguagem concreta. A vida reprova nos exames, matando seus alunos. Rebelam-se então os povos, e matam ou depõem seu chefe, chamando-o de traidor. Traidor de quem? Da vida, que realmente se sente traída por quem assumiu um empenho vital sem sabê-lo depois manter. Esse sistema de liquidação poderá desaparecer com a evolução, mas é normal e considerado legítimo em nosso plano involuído, ainda no nível animal. Esteja atento, pois, quem se entrega ao poder da força, porque lhe não será deixado outro poder. Quem ingressa nesse terreno, se acaso perder, não poderá esperar piedade, bondade, justiça, pois ele mesmo, ao penetrar no terreno bélico, por mais que queira e possa justificar-se, se colocou fora do campo dessas forças, que não mais o sustentarão. Mas, se vencer, demonstrando com isso ser verdadeiramente o mais forte, então tudo está para ele: glória, poder e até a bênção de Deus. Ele escreverá a história a seu modo, estabelecerá a sua verdade, e a fixará numa nova ordem, em que todos os vencidos estarão a ele sujeitos. Poderá até revestir-se de justiceiro, e assim camuflado, criar tribunais, encenar processos e emanar sentenças em nome da justiça contra seus inimigos, chamando-os criminosos de guerra ou coisa semelhante. E ele não pensa que, se ao contrário tivesse perdido, ele teria sido julgado e condenado com o mesmo sistema de justiça. Não é novo que nas alternativas vicissitudes da vida, sejam vencidos os vencedores e depurados os depuradores.

Esta é a realidade mais verdadeira, que se acha escrita no fundo das leis biológicas. Diante desses, muitos problemas políticos são questões de forma, modalidades de superfície, luta para que vença um homem ao invés de outro. Por trás de tudo está a realidade biológica, que o sustenta, explica e justifica, sempre pronta a vir à tona d’água, saindo de sua profundidade. Diante dela, o sistema representativo que a alguns parece hoje a panaceia para todos os males políticos, é questão de forma. Ao contrário, biologicamente, substituir ao único chefe de família, pai de seus filhos, uma assembleia eletiva de pais-de-família, escolhidos pelos filhos, que deveriam ao invés obedecer ao pai, mais velho e mais sábio, parece um erro. A vida se apega de preferência ao princípio absolutista e totalitário, que é o princípio teocrático da autoridade, do poder absoluto concedido ao melhor, que o é pelo próprio plano de vida ao qual ele pertence. Mas a vida faz tudo isso apenas subordinadamente a uma função, de que, depois exige o desempenho. As leis biológicas concedem poderes absolutos, mas experimentam e examinam o indivíduo a cada momento, e os retiram logo que este não os utilize para os devidos fins e trai assim a função para a qual aqueles poderes lhe foram concedidos. O sistema representativo, despersonalizando o poder, procura evitar essas sanções ferozes. Os sistemas totalitários e de poder absoluto presumem um chefe relativamente perfeito. Sendo isto muito raro, eles se transformam muitas vezes em tirania ou, por inaptidão, em ruína. Diante dessas perspectivas, resultantes de experiências bem duras da história, é que nasceu a justa reação contra os governos absolutos e totalitários. Mas, um partido político, em pleno sistema parlamentar, se obtiver a maioria (que, com os sistemas de propaganda eleitoral e a inconsciência das massas, nunca se sabe se realmente corresponde a uma vontade da nação) pode exercer a mesma tirania ou por inaptidão levar à mesma ruína.

Quem é, então, que verdadeiramente dirige uma nação? É o mesmo pensamento que dirige a História. Numa colmeia de abelhas, num ninho de térmitas, não há nenhum chefe visível. A rainha põe os ovos, é defendida, mas é quem menos manda. Ninguém manda, e todos, na coletividade, estão subordinados à função. Logo que não estejam mais em condições de desempenhá-la, são liquidados. O que constitui o direito é apenas a capacidade de desempenhar seu dever próprio particular. Quem manda de fato é então o invisível pensamento da vida, que atribui os poderes em proporção à função e como meio de desempenhá-la. É um mando anônimo, impessoal, onipresente, preso na economia utilitária da vida, à função, a única que dá direitos e poderes. Assim ocorre na vida social das nações. Aqui, chefes e sistemas são relativos, mutáveis, fictícios. São pura forma ou instrumentos. Se além deles quisermos achar a substância, isto é, quem verdadeiramente manda e dirige, temos que recorrer, como nas sociedades animais, ao pensamento e à vontade da vida, que manobra todos partindo do íntimo deles, movendo-os sem que eles se deem conta. As massas, com efeito, sentem e manifestam o pensamento coletivo por instinto, e acham o caminho que têm de seguir, por intuição. Elas não saberiam dizer por que o seguem. Quem é então que pensa por elas e lhes instila as ideias adequadas ao momento? É verdade que as multidões são instigadas e lançadas mas só até certo ponto, porque, uma vez lançadas, em geral não obedecem mais, tanto que as revoluções costumam matar seus primeiros promotores. Quem poderia confiar na política, se não soubesse que atrás dela e por trás dos erros, das loucuras e dos delitos dos homens que a fazem, existe o juízo e a sabedoria de um pensamento superior? Está por acaso a política fora da vida e do cosmo? E se este está no singular, portanto como tem que ficar no singular é dirigido pela imanência de Deus, como pode a política escapar a esse poder e lei universal? De fato, acima de governantes e governados, há outro Chefe supremo que, dirigindo toda a vida, os dirige também para fins mais altos, além deles, que estão imersos na luta pelo triunfo pessoal, não podem ver. Então, em última análise, quem salva as nações, apesar de todos os erros e egoísmos humanos, é o próprio pensamento e vontade que dirige a História, e tudo utiliza como meio para que se cumpra a evolução.  

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Observemos agora mais de perto o pensamento de Maquiavel no Príncipe, para compreender melhor por que motivo e até que ponto corresponde à verdade uma linguagem tão crua, se podem, e até que limite, ser aceitos tais conceitos, e de que modo podem ser completados no campo espiritual, que Maquiavel ignora. Procuraremos traçar desse modo uma figura mais completa do Príncipe, em lugar daquela, mutilada na parte superior espiritual, – tão necessária à vida, no entanto – daquela que resulta da visão materialista desse escritor. Chame-se príncipe, rei, imperador, presidente, condutor, chefe etc., ainda que se mude a forma de eleição e de governo, o homem que está ao leme de um estado tem sempre a mesma função, deve fazer o mesmo trabalho e, diante das leis da vida, sobe ao poder e o exerce pelas mesmas razões. Diante de um problema tão importante, qual o de estabelecer os atributos e o comportamento do supremo chefe de Estado, do que tem em mãos as rédeas da nação e é dono da alavanca de comando, diante dum problema tão substancial para a vida dos povos, Maquiavel demonstra apenas uma psicologia prática, utilitária, com fins limitados e imediatos, como o de vencer materialmente, subjugar os povos e permanecer no poder. Numa visão tão realística, mas tão restrita, escapam-lhe completamente as mais altas funções próprias ao condutor de povos que, se quiser ser completo, não pode prescindir dos imponderáveis valores do espírito. Ora, um chefe assim saberá submeter e dominar, saberá manter sua posição, saberá vencer os rivais, mas continuará totalmente ignorante da única razão que lhe justifica o exercício do mando, isto é, que o poder não é fim em si mesmo, mas apenas um meio para atingir os superiores fins da vida. Falta a Maquiavel uma vasta visão biológica, para relacionar todas as formas de vida coletiva, mesmo no mundo animal, e assim compreender que as leis que governam todos os seres só concedem poderes para desempenhar uma função, e em proporção a ela. Assim Maquiavel não percebeu que cometeu um erro biológico. Faltou-lhe uma visão cósmica, em que é indispensável enquadrar qualquer verdade, mesmo a menor no contingente. Seu realismo deixa-o fechado numa realidade pequena, de resultados imediatos; sua análise, mesmo verdadeira, é tão exclusivamente presa apenas aos fatos concretos, de que não indaga as razões profundas, que dá a impressão da vista curta de um míope. Ele não olha o que está atrás desses fatos, e o motivo por que acontecem. É simplista, ingênuo, superficial.

Assim, mostra-nos Maquiavel uma realidade verdadeira, mas triste e medíocre, fechada em si mesma, sem esperança de evolução. Corresponde essa visão ao conceito que também até hoje, na prática, se tem do poder; ou seja, uma exploração da posição de mando para exclusiva vantagem egoística pessoal. Tudo isso, ainda que verdadeiramente objetivo, não só põe a nu toda a vergonhosa baixeza do homem e seu estado de involuído, como ainda demonstra crassa ignorância das leis da vida, na louca presunção de querer impor-se a elas. De fato, que resultados obtiveram os numerosos sequazes de Maquiavel, senão a instabilidade de tudo e de todos, lutas e ruínas contínuas? Isto porque não compreenderam a Lei, pela qual a vida tira o poder, quando este não é usado para o desempenho de uma função; porque não compreenderam que a exploração para fins egoísticos é um jogo de forças instáveis que se não sustenta, e por sua natureza tende a ruir. Assim, ainda que seja a sua, uma corajosa declaração de verdade, Maquiavel sanciona, no fundo, e aprova um triste estado de fato, o que representa não só uma autorização imoral para insistir nele, desde que vem aceito e justificado como legítimo, mas representa, ao lado de um erro biológico, também uma instigação a cair e recair nele, para os incautos que nele acreditam. E essa aquiescência e reconhecimento, mais do que a sua ignorância, o que nos repugna em Maquiavel é sua total ausência de revolta, que tem de ser feita em nome de um fim mais alto, para o qual tende a vida. O que é horrível, em Maquiavel, não é a verdade que ele diz, mas o fato que ele a aceita, ficando fechado dentro dela, convencido, sem sentir a necessidade de tentar qualquer caminho de saída. Assim, seu ceticismo congênito se reduz a uma asfixiante estreiteza de visão.

O único terreno prático em que Maquiavel podia encontrar-se com os fatores espirituais era o cristianismo. Mas a religião foi por ele relegada fora de seu tema, excluída dos negócios de estado. Em seu terreno, os valores espirituais tinham bem pouco peso, e dela ele só viu os homens que materialmente a representavam na Terra, ligados por interesses numa coligação política. Além disso, ele era levado a exaltar, como Nietzsche, a força, a coragem e a vitória dos homens de ação, e não podia certamente compreender o que pode haver de verdadeiro nas virtudes da humildade e espiritualidade, tão mal representadas em seu mundo. Maquiavel nunca suspeitou que, além dessas formas, houvesse uma realidade positiva, tanto quanto a descrita por ele, e houvesse valores espirituais com um peso ainda maior que os que ele observou, que houvesse outras leis e outros princípios, cuja ignorância e inobservância podia produzir desastres mesmo em seu mundo prático, que tem suas origens nessas leis e nesses princípios. Só podemos compreender Maquiavel vendo-o colocado no lado negativo, inferior, involuído do sistema. Mas já vimos nos volumes precedentes, que esta só é verdade nos planos inferiores e que, se subirmos, ela desaparece. Pois aí entramos nos planos mais altos, em que ficam cegos os pensadores desse tipo, e aparecem verdades superiores, que explicam e valorizam todas as coisas diversamente.

No terreno de Maquiavel as virtudes morais têm valor negativo, isto é, não são conquista atingida por superação, mas renúncia e perda. É natural que as coisas, vistas de baixo, mostrem um aspecto oposto ao que se vê olhando-as do alto. Por isso, normalmente, a bondade evangélica é confundida com fraqueza e ingenuidade. Cada julgamento está feito em proporção com o modelo proposto. É assim que a concepção de Maquiavel pode parecer, a quem veja as coisas do alto, um emborcamento de valores e uma subversão de ideais, tanto quanto estes podem parecer loucas utopias se olhados de baixo. Assim, evitando ele todo princípio superior, delineianos uma figura de príncipe bem proporcionada à sua função de domador, tal como o estado involuído dos povos exige dele; ao mesmo tempo Maquiavel compreendendo bem, em sua objetividade, que a união que estreita entre si governantes e governados, pelo fato de basear-se no interesse comum, se transforma em luta quando este falha e que, portanto, um santo cheio de bondade, não pode governar na Terra.

Por isso, Maquiavel nem sequer conta com a bondade de sentimento do povo, e aconselha ao chefe basear-se mais no temor que possa inspirar  do que no amor. É mais seguro ser temido do que amado. “O amor” diz ele: “é um vínculo que é bem depressa quebrado, por utilidade própria, pelos homens, que são malvados; mas o temor é mantido pelo medo do castigo, que jamais desaparece”. Na mesma ordem de ideias, desenvolvida por Nietzche, moveu-se Hitler, seu discípulo, em seu livro: Mein Kampf und Leben, onde diz: “O terror não é vencido pelo espírito, mas por outro terror igual”. Pois bem, hoje, a completa derrota da Alemanha ensina a todos os que creem no terror, que este não basta para vencer. Mas haverá alguém que jamais tenha aprendido as lições da história? Falou-se tanto de imponderável, na última guerra, sem compreender que ele é tão ponderável que pode destruir as nações, quando estas violam os princípios da Lei. Por esses princípios, logo que nasce um terror, surge, por equilíbrio um contra terror, e ambos tendem a matar-se reciprocamente, para serem auto-eliminados. A Lei penetra também no mundo político, e a Lei consiste no seguinte: quem faz o mal, o faz a si mesmo, e quem faz o bem, o faz a si mesmo. A religião do ódio é um suicídio. A história é uma cadeia interminável de vinganças e contra vinganças, que por isso jamais se resolvem e geram apenas um contínuo sofrimento. Torna-se indispensável, porém, uma humanidade mais inteligente e evoluída para compreender tudo isso. Pode haver, em sociedades mais civilizadas, outras relações, que não sejam as atuais de esmagamento mútuo, que predominam nos planos inferiores da vida. Nos planos mais elevados, entram em ação outras forças e outros elementos. Com a evolução, as relações se tornam mais suaves, e se aperfeiçoam, a vida se apura e pode triunfar de outros modos. Só os primitivos acreditam que se pode vencer apenas com a ferocidade.

No governo dos povos é hoje necessário um duplo trabalho: o teórico, que vê ao longe, que descobre e indica a meta; depois o prático, analítico, que a realiza na ação. São necessárias duas vistas, uma para os horizontes longínquos, outra para o contingente próximo. A primeira revela os princípios universais, dando as grandes linhas de orientação; a segunda entra nos particulares, ocupando-se da atuação. A primeira é a bússola; a segunda o leme. Esta deve conhecer a verdade de Maquiavel, que está na realidade da vida, a outra deve conhecer os conceitos-base, que explicam tudo isso e da qual tudo deriva. Um é trabalho exterior de atuação, o outro um trabalho interior de compreensão. Para agir, é indispensável a mente que dirige e o braço que executa.

É certo que na prática, o êxito de um homem político será, tanto mais fácil e rápido, quanto mais se ocupar ele de resolver os problemas pequenos e tangíveis que as massas melhor compreendem. Essas, satisfeitas, aclamam-no então. É por esse êxito contingente que são atraídos os chefes de menor alcance visual, porque vão pelo visível e imediato. Mas se esse triunfo pode nascer da satisfação dos desejos do povo, ignaro dos grandes fins da História, é ele de efeito transitório, proporcional ao valor do trabalho realizado. Mas há outro êxito, o de quem se dirige para as grandes metas longínquas da nação, mesmo se não puder satisfazer, de momento, às massas. Este outro êxito é bem mais duradouro e muito mais importante, porque, abarcando horizontes mais vastos e longínquos, e operando realizações maiores e mais profundas, é proporcional ao valor do trabalho executado. Mas o primeiro condutor será apreciado imediatamente, e o segundo muito ao fim da vida ou depois de morto, só quando essas coisas futuras tiverem podido realizar-se.

O homem político equilibrado deverá procurar manter-se entre esses dois extremos, porque, se é um dever, para ele, pensar no futuro da nação, é também uma necessidade permanecer no poder satisfazendo os cérebros medíocres da maioria, dos quais justamente depende o poder, com o sistema eletivo. O chefe deve ser um teórico e um prático ao mesmo tempo; ou pelo menos, se não tiver em si essas duas qualidades opostas, deve cercar-se de conselheiros que, com seus cérebros, lhe forneçam os resultados. O teórico olha os resultados remotos, o prático observa os próximos. Só após muito tempo, é que muitos passos pequenos do segundo poderão cobrir um passo, muito maior, do primeiro, e coincidir com ele. Este trabalha para os vindouros, aquele para os presentes. As duas direções são complementares. O político necessita de uma bússola que o oriente e o guie, não só nos casos particulares imediatos, como também nas grandes linhas, sem o que caminhará às cegas, sem metas, e jamais poderá empreender grandes coisas. O teórico, por sua vez, precisa de um executor prático, sem o que sua visão permaneceria sem atuação. O certo é que, quanto maior for o político e mais longo alcance tiver, menos será compreendido no momento. Quanto mais for pioneiro, tanto mais tarde será exaltado. Torna-se então heroica sua vida, porque ele sacrifica-se a si mesmo e as suas satisfações e triunfos imediatos, e suas próprias defesas, pelo bem do futuro da nação, se um povo sem compreensão lhe tirar o poder, é justo que venha a cair sob o domínio de chefes de menor valor e que assim se retarde o seu progresso.

Para Maquiavel, o exercício do poder parece confiado apenas a uma cadeia de traições. Mas chegará hoje o mundo a ser tão inteligente, que compreenda que isto é uma fábrica de males para todos, com a qual se envenena o ar de todos? Para Maquiavel o chefe deve ser simulador e dissimulador, porque a bondade é rara, mas não a estupidez, e o que engana achará sempre quem se deixe enganar. Sem dúvida, esta é a arte de fazer da Terra um inferno, e essa arte só poderá ser executada por demônios. O chefe, pois, não deve ter certas virtudes, mas deve fazer crer que as tem. Isto acrescenta Maquiavel, porque, tendo-as e pondo-as em prática, elas são prejudiciais: “Algo existe, que parece virtude, mas, seguindo-a, leva à ruína; e outra coisa há que parecerá vício, mas se o seguirmos trará segurança e bem”. Mas, acrescentamos nós, quais são os verdadeiros fins da vida, tanto para o chefe quanto para os povos? E podem ser sacrificados esses fins, tornando apenas o governar o fim supremo, o qual é somente um meio? Mas que utilitarismo míope é esse se os governantes violando a Lei e expondo-se às suas duras reações, não poderão nem sequer alcançar seu único fim, que é permanecer no poder? Isto, entretanto, não é apenas ferocidade e mentira, é sobretudo ignorância, é não saber compreender o utilitarismo mais vasto, o qual, seguindo as leis morais, não se expõe às suas reações destrutivas. E ignorância, ferocidade e agressividade são as características do homem involuído. Quanto mais evolve o homem, mais lhe aparece tudo isso como uma maldade demasiadamente primitiva e prejudicial a todos, para que possa continuar por muito tempo a ser aceita.

Continua Maquiavel: “Todos veem o que pareces, poucos sentem o que és. E esses não ousam opor-se à opinião dos muitos”. Esquece-se, no entanto, que esse sistema, se é um hino à imbecilidade humana, realiza, a força de ferir os mais ingênuos durante séculos, uma seleção que faz sobreviver apenas os mais astutos e se reduz a uma escola de velhacaria. Assim a imbecilidade diminui e vai desaparecendo e o sistema, automaticamente, se torna cada vez mais difícil de pôr em prática e menos rendoso. É a lei do progresso. Acrescenta Maquiavel: “Nas ações de todos os homens e máxime dos príncipes, olhe-se o fim: vencer e manter o Estado. Os meios serão sempre julgados honrados”. Eis que vem à tona, nua e crua, a realidade biológica. O mundo ético é ainda uma sobreposição instável ao mundo do animal. Existem os princípios afirmados com gritos, mas não existe sua aplicação. Não estão ainda eles incorporados, assimilados à realidade biológica, que está no fundo e espera, e de cujo fundo sobe a lama. Transições na evolução.

Os súditos sonham com um chefe bom, mas para explorá-lo, agredi-lo, tirar-lhe o poder; e só param quando acham o homem duro que Maquiavel nos descreve. Fala-se: o poder deve servir para o povo. Mas que faz o povo para que o chefe seja bom? Agride-o ao primeiro sinal de fraqueza. Diz-se que o poder é entendido como exploração egoística do chefe, e não como função social. Mas como pode pretender-se o contrário, quando sua primeira necessidade é a auto-defesa? “Ir de encontro ao povo” deve ser, pois, apenas uma bela frase. Na realidade, a primeira ocupação do que detém o poder é o de defender-se dos rivais, que tendem a agredi-lo, para tirar-lhe. Mas o povo gosta do lindo sonho de crer que os governantes só têm uma coisa para fazer: protegê-lo, pois está no poder por graça de Deus. Tão imensas ingenuidades coletivas, que também sabem fazer-se tão exigentes e ferozes, que chefes podem atrair para si? Como pretender que numa corrente tão universal, sejam eles diferentes do tipo dominante? É inútil inventar sistemas, quando o nível médio da raça humana é o que é.

Se os chefes são assim, em grande parte a culpa é também dos povos. Em uns e outros, há uma corrente psicológica involuída que arrasta todos. Bem quereriam as massas, em seu chefe, aquelas perfeições morais de bondade, que lhes seria cômodo achar nele, para melhor aproveitá-lo, perfeições que é absurdo que ele tenha porque, se as tivesse, ele como chefe, seria logo liquidado. Todos desejam os bons, mas para aproveitar-se deles. Assim se explicam as verdades enunciadas por Maquiavel. O chefe deve parecer bom, mas ai dele se o for de verdade. Só um chefe forte, que não se deixa esmagar pelo assalto de outrem ao poder, é respeitado. Dado o atual grau da evolução humana, é inútil apelar para a compreensão, bondade e inteligência, mas, como diz Maquiavel, só se pode contar com o temor. Neste mundo, só o mais forte é respeitado.

Se o chefe deve ser assim feito, como pretender dele aquele comportamento ideal, que é a negação da realidade da vida, tal como ela é hoje no mundo humano? Deste modo, o homem chega ao poder emergindo das camadas sociais inferiores, com seu esforço e risco, contra todos. Com isto, quer ele satisfazer a seu instinto de subir, seu anseio de poder, de riqueza, de grandeza. Quando chega assim, vencendo após dura luta, como poderá transformar-se em outro homem e seguir outro sistema? Como poderá deixar de pensar, em primeiro lugar, em gozar o merecido prêmio de seus esforços e de sua habilidade? Mas, dado o que ele é, faz-se natural que utilize o poder antes de tudo em sua vantagem e satisfação, procure defender-se dos seus inimigos e submeter os seus semelhantes, porque são estas as necessidades que a vida impõe, e não há outro meio de reforçar aquilo que é pedestal do seu poder. Como pode a luta pela vida desaparecer logo no vértice da pirâmide social? E como, num mundo egoísta, poderia ser o poder algo diferente de uma afirmação do eu, que se impõe no ambiente social para dominar todos? Tudo isto é um derivado lógico da estrutura do sistema psicológico que dirige a humanidade. Sem dúvida, que deveria ser diferente, e caro se pagará o ser assim. Mas enquanto o homem pensar desse modo, as coisas não poderão ser diferentes. E a psicologia da força não pode ter como resultado senão traição, ilusões e dor.

A maioria dos homens tem um irrefreável instinto de domínio. O que vence sobre todos se torna chefe supremo. Os outros se coordenam hierarquicamente, segundo suas próprias forças. Forma-se assim uma classe dominante, que se organiza para sua defesa contra as classes que ficaram em baixo, e que não conseguiram subir e vencer na luta. Ocorre, então, no grupo, dentro da classe dominante, uma repartição dos lucros da vitória.

Quem está de fora, fica a olhar, de estômago vazio. Quem pertence a planos biológicos mais evoluídos se surpreende de ver que, diante de um poder exercido como exploração e esmagamento e não como missão, não se rebelam os povos. Mas se é isto injustiça feroz nos planos superiores da vida, é coisa normal nos inferiores. Nestes, é justo que os povos escravos, que não têm força, não se rebelem contra os dominadores. As massas dominadas sabem que os fracos não têm direitos contra os mais fortes, e que por isso têm de se calar. Sabem que não merecem a vitória, porque não conseguem impor com a sua própria prepotência, e que por isso têm de suportar. Sabem que, segundo a lei de seu plano, os fracos serão justamente esmagados até aprenderem a ser mais fortes. Com efeito, só agora, quando as massas, por sua organização, aprenderam a fazer-se valer, é que os dirigentes as tomam em consideração. Assim os deserdados sofrem, não porque aceitem, mas porque esperam uma ocasião para fazer pior, pois a lei dos vencedores e dos vencidos é a mesma: a do mais forte. O problema é um só para todos: vencer esmagando.

Assim os vencidos ficam a olhar as velharias dos vencedores. Não sabem organizar-se, compreender melhor, para fazer melhor. São todos da mesma raça. Declaram com melancolia que é inútil mudar o chefe, porque os outros são piores. Para qualquer um que suba ao poder, não mudaria a situação. Deploram-no não porque pensem em uma ordem superior, mas porque não podem fazer o mesmo. Deploram-no por inveja, convencidos de que é assim mesmo que se faz, e prontos a fazer o mesmo. Alimentam a esperança de poderem chegar também eles um dia a tomar parte no banquete, ou ao menos a aproveitar as sobras. Vivem assim com a miragem de conseguir um dia apoderar-se de qualquer coisa, como só pode fazer quem tem em mãos o poder.

Entre os que ficam de fora, a olhar de estômago vazio, são escolhidos os subordinados, os satélites, a clientela dos dependentes que se oferecem contanto que ganhem algo do banquete. Assim podem entrar outros nas fileiras dos felizes. Nascem daí os representantes das autoridades, mediante cessões parciais, nascem a burocracia, os administradores, a classe dos escravos do Estado, que podem enfeitar-se com a sua libré. É a máquina social a serviço dos patrões. Estes mudam, por vicissitudes políticas, mas a máquina permanece, porque serve para todos.

Mas, nos escravos, fica também o instinto de subir, o humano e universal instinto de dominar. E não há homem que, ao vestir-se com a libré do patrão, não se sinta por si mesmo investido com a autoridade dele, e também um pouco patrão, e não procure, como o fazem os chefes, utilizá-la para si. O homem é sempre o mesmo. Por isso, o funcionário acredita que ele mesmo é, um pouco, o Estado, como o sacerdote crê que é, um pouco, a igreja e, investindo-se da autoridade de Deus, de que ele se faz ministro, é levado a dogmatizar como tal, e isto tendo por base apenas suas ideias pessoais. Como ministro de Deus, ele se sente um pouco investido de Sua onipotência e infalibilidade. Assim o médico é levado a substituir-se às forças curadoras da natureza, tentando monopolizar em suas mãos os poderes dela, como os ministros das religiões são levados a monopolizar Deus e utilizá-lo como poder próprio. Por isso, o médico é levado a assenhorear-se do doente, na luta contra os micróbios, como o ministro de uma religião é levado a dominar as consciências, impondo-se aos mais fracos. Assim, o exército, consciente de sua força, pode tentar tomar conta do poder.

A Lei é sempre a mesma. Luta pelo domínio. Todos os grupos humanos, todas as formas de governo, em qualquer tempo, todas as classes sociais, todos os homens em qualquer nível, se assemelham. Não se pode culpar ninguém em particular. O homem é que é feito assim, vista ele qualquer libré ou manto real ou presidencial. Todos conhecem esses defeitos, mas só se veem e denunciam no grupo oposto, contra o qual se luta, porque o próprio grupo é sempre o dos homens perfeitos, e o outro é sempre defeituoso e corrompido. A verdadeira realidade que está em tantos discursos, exaltações e condenações, é a luta: luta em que todos se igualam, bons e maus situam-se em todos os terrenos e se misturam em todos os grupos, sem que se possa dizer a priori que nenhum grupo seja melhor ou pior.

Essa visão objetiva da realidade biológica pode dar-nos um conceito do Estado, de forma mais positiva, do que o possam fazer quaisquer construções artificiais, filosóficas e ético-jurídicas. Como fundamento disso, está sempre o espírito gregário, com fim utilitário, para ataque e defesa na luta pela vida. Estas são as bases biológicas e as verdadeiras origens do Estado. Se quisermos compreender os fenômenos sociais, temos sempre que referir-nos aos princípios fundamentais da vida. É assim que instintivamente se formam os grupos, e o que vence os demais forma a classe dominante que constitui o Estado, que então se organiza para sua defesa e sobretudo para resistir em sua posição. Em redor desse grupo dominante rodam como satélites as forças menores da nação, em posição mais ou menos privilegiada e com domínio correspondente a seu valor e poderio. Neste trabalho e distribuição, todos obedecem ao mesmo imperativo e necessidade imprescindível, que é viver; e necessidade também de descobrir e usar todos os meios, desde a força até a paciência, do domínio à adaptação na obediência, para sobreviver. Ao vencedor a glória e a própria submissão, só porque ele representa a capacidade de guiar, que os subordinados aceitam apenas como vantagem própria e defesa.

Como se vê, permanecemos em tudo isto no princípio do egoísmo, e o edifício todo é construído sobre um jogo de egoísmos. O homem de hoje é tal, que é inútil pretender que o Estado, ou qualquer agrupamento humano, possa ser algo diferente de uma organização de egoísmos, em bases estritamente utilitárias. Nesse nível evolutivo, o altruísmo é um absurdo biológico. Hoje só se pode começar dilatando lentamente esse egoísmo, fazendo com que a inteligência compreenda a utilidade egoística dessa dilatação. Só podemos realizar hoje o progresso, procurando aumentar essa organização, de modo a tornar partícipes de suas vantagens um número cada vez maior de cidadãos. Trata-se de conglutinar a maior parte possível do povo na classe dominante, e esta é, de fato, a conquista que as massas querem hoje impor aos dirigentes. Esta é a tendência do progresso, que faz pressão da parte de baixo, contra o grupo social vitorioso, que acima de tudo pensa em defender-se e estabilizar sua posição. Esta é a vontade da vida que quer evoluir; mas os governantes, em vista do estado de coisas, têm que pensar primeiro em sua defesa, mesmo porque, se eles valem, esta é a necessidade mais urgente, para que possam ficar no poder e desempenhar assim sua função de chefes.

Ao povo agrada o belo sonho utilitário de ser servido gratuitamente pelos dirigentes. Mas, em sua ingenuidade, não sabe que a vida nada oferece de graça. Ignora que seu mundo é o da força e que o povo não será servido enquanto não tiver aprendido a ser uma força e representar um valor. Quem nada vale, nada obtém na vida. Os governantes levarão em conta o povo, quando este souber fazer-se valer pela inteligência, consciência de si mesmo e vontade, quando representar algo no destino coletivo, quando souber até ser temível e impor-se aos chefes, se necessário. Mas, nos férreos equilíbrios que balanceiam os valores da vida, que pode pretender hoje uma massa amorfa, instintiva, inconsciente, se não for guiada e explorada por quem é mais forte biologicamente, mais astuto, mais dinâmico? Que pode pretender um rebanho de ovelhas, como a erva dos campos, deve ser tosquiado? E que sabe fazer esse rebanho, quando se revolta, senão passar das mãos de um patrão para as de outro? Como pode acreditar-se que as posições da vida consigam sustentar-se, se atrás delas não existem valores reais?

É inútil procurar responsáveis por tais estados de coisas e condená-los. A culpa não é de indivíduos, mas do grau de involução dominante. É por isso um nível geral, uma corrente seguida por todos. Inútil condenar, porque todos sofrem mais ou menos as consequências de seu estado atual e assim por si mesmos se castigam. A tudo isso correspondem os resultados obtidos até hoje. O dano está em proporção com a ignorância da qual é consequência. Todos conhecem os belos resultados dessa psicologia dominante. Não parecem o resultado de um estado de barbárie, representando um destino de condenação? Por isso, é preciso dar razão a Maquiavel. Continuando por esse caminho, aonde iremos parar? Pois, se procuramos sair para salvar-nos, gritam que é utopia. Mas, se é verdade que apenas nela está a salvação, deverá a utopia amanhã, após duríssimas provas, mas necessárias para aprender, tornar-se realidade, se o mundo não quiser suicidar-se. Eis porque temos que crer no surgimento de uma nova civilização.

Dir-se-á: Mas o mundo foi sempre assim. Não. O progresso é um fato real. O homem pré-histórico, podemos bem imaginá-lo, foi na época o modelo da raça humana. Se estabelecermos uma proporção, poderemos imaginar o homem futuro. Então diremos: o homem pré- histórico está para o homem de hoje, como o homem de hoje está para X. Será fácil, dada a relação, achar o valor da incógnita. Não é afirmação gratuita dizer que a forma da seleção animal terá que mudar no porvir. Sem dúvida, até hoje esteve no sentido de produzir o tipo mais prepotente, porque isto era indispensável para conquistar o domínio do planeta, mormente sobre as outras espécies. Mas, conquistado esse domínio, surge na Terra outro tipo de vida, a vida social do homem coletivo, pela qual, as qualidades de força, ferocidade e agressividade, outrora preciosas, se tornam cada dia mais contraproducentes, pois desagregam a primeira qualidade de uma comunidade, que deverá ser a organicidade. É natural então que a vida, que é tão sábia, renove os seus métodos de construção do tipo biológico melhor, através da seleção, e lance então uma nova técnica. O melhor que a vida quererá então produzir será outro tipo biológico, em que predominará a inteligência, pois num mundo mais evoluído vencer-se-á mais com a inteligência do que com a força. Hoje já se guerreia mais com a ciência que com a ferocidade. Já começa a desenvolve-se mais essa inteligência, e quanto mais se desenvolver, mais se compreenderá a vantagem utilitária de todos e de cada um, de ser honestos fraternalmente, como o quer o Evangelho, pois numa humanidade orgânica, esta será a linha de maior rendimento. Por isso, Maquiavel ficará com suas doutrinas, atrasado no tempo, como o é hoje o homem das cavernas. Mas as gerações futuras compreenderão melhor estas coisas, pois para elas, principalmente, foram escritos estes livros.

Aos que gritam que é utopia, respondemos que muitas vezes os jovens têm feito o que os velhos julgavam impossível, inoportuno, desaconselhável; respondemos que o mundo, a despeito de todas as resistências, caminhou sempre, e que frequentemente a utopia de hoje é a realidade de amanhã. A intuição dá-nos a sensação viva imediata da presença de uma inteligência e vontade na história, como momento da imanência de Deus no mundo. Aos historiadores presos apenas ao fato exterior, aos filósofos hiper-críticos e céticos, capazes de destruir até seu pensamento à força de discussões, controles e análises, opomos a nossa percepção da realidade do mundo interior do espírito, presente em toda parte, em todo fenômeno, mesmo no histórico e social. Procuramos fazer com que o leitor sentisse essa realidade na única forma possível, ou seja, através da lógica e da demonstração racional.

Se tivéssemos que dar um subtítulo ao volume o Príncipe de Maquiavel, poderíamos dizer: “Estudo da natureza animal do homem”. Seja este, chefe ou súdito, revela-se sempre o mesmo nos conselhos desse autor. Sendo ainda dominante esse tipo biológico, é bom conhecê-lo e estudá-lo, tanto quanto é instrutivo observar as feras nos jardins zoológicos, para conhecer-lhes instintos e hábitos. Continua Maquiavel: “Devendo dominar os soldados, não importa ser chamado cruel, pois sem esse nome jamais se manteve unido um exército. Foi por sua extrema bondade que se rebelaram os exércitos de Cipião na Espanha. Nasceu isso de sua demasiada bondade. Por isso Fábio Máximo pôde chamá-lo, no Senado, corruptor da milícia romana”.

Inútil, pois, iludir-se. O homem emerge da animalidade. Os primeiros graus do poder são dados pela força, pela imposição, pela ferocidade. Os chefes de governo do tipo descrito por Maquiavel descendem dos domadores de feras. A posição que tem hoje o homem, a de rei do planeta, foi desesperadamente conquistada pela luta por todos os meios e vencida contra todas as feras rivais. Foi através desse esforço bestial, horrendo para o homem civilizado, e no entanto feito de coragem desesperada, sob pena da extinção da raça em caso de derrota, esforço diabólico, e no entanto cheio de certa potência viril, do deserdado que sozinho desafia os elementos e as feras inimigas e as submete; foi através dessa tremenda fadiga que o decaído enfrentou o caos, para levantá-lo ao primeiro passo em direção ao primitivo estado de ordem. Os primeiros degraus da escala estão imersos em lama e sangue. Mas, ainda que esmagando, triturando e reduzindo os rebeldes à escravidão, conseguiu assim o homem, com mão de ferro, construir certa ordem, primeiro passo na reorganização do caos para uma gradual organização do universo, fruto do esforço imenso de todos os seres, por intermédio do qual, reconstruído o edifício que eles mesmos fizeram ruir, encontrarão Deus.

No plano de vida que Maquiavel descreve, o que ele indica é a lei, a regra, a justiça. Em seu orgulho, o homem se autodeclara ser superior, última finalidade da criação, a mais bela flor da vida no planeta. Mas devia tudo isso ao ter sabido triunfar a despeito de tudo e de todos, exterminando os inimigos sem bondade nem piedade. Os idílicos pensadores do ideal afirmaram que Deus criara todas as coisas apenas para o prazer do homem. Na realidade, o homem só conseguiu possuir aquilo que pôde arrancar à vontade inimiga; usando todos os meios. A vida só se inclina e oferece regalias diante do homem forte, violento, vencedor. Nada é gratuito diante dela. Nenhum escrúpulo ou piedade a impediu de condenar à extinção das raças mais fracas. E tê-lo-ia também feito como o homem, fora ele menos forte e violento.

A bondade e o amor vêm depois. O próprio Deus de Moisés teve que prescindir deles dada a imadureza dos tempos e a involução do povo que então O adorava. Tudo isso, todavia, mostra-nos as verdadeiras origens da ordem e do direito e explica-nos como, no plano por ele observado, Maquiavel tenha tido razão. Pode representar-se a evolução como um grande edifício que se vá elevando da terra para o céu. Seus primeiros pavimentos são grandes massas grosseiras de pedra, plantadas na rocha dura, por homens fortíssimos, mas ignorantes, açoitados até a dor da própria carne pelo terror de morrer e o anseio de viver. Em seguida, porém, através desse esforço, a inteligência se abre, e o edifício toma forma mais regulares, torna-se o trabalho mais racional, alcançando-se maiores resultados com esforço cada vez menor. Assim, o servir-se da inteligência e da ordem, torna-se cada vez mais vantajoso. Então, começando o homem a constatar seu rendimento, é levado sempre mais a aproveitá-lo, devido aos mesmos princípios que regem a vida, a qual é sempre utilitária. Assim o operário construtor torna-se cada vez menos animal e mais homem. Desenvolve-se nele a mente, que lhe permite compreender a utilidade da disciplina, de dilatar seu egoísmo, até abarcar toda a humanidade, e entender a utilidade de aprender a viver colaborando, em vez de lutar; enquadrando-se tudo isso num grande organismo coletivo, em que o “ama ao próximo como a ti mesmo” não significa mais sacrifício de mártir entre as feras, como acontece aos pioneiros do Evangelho num mundo de involuídos, mas torna-se uma posição natural de maior vantagem para todos.

Assim o edifício cresce, de pavimento em pavimento, tornando-se sempre mais belo. Sua construção é feita, de andar em andar, cada vez com menos esforço e maior alegria, pois satisfaz ao instinto de criar e ao anseio de subida, e isto com um trabalho cada vez menos pesado. Isto porque ele é confiado cada vez mais à inteligência, que se está tornando paulatinamente senhora das forças da vida. E elas obedecem ao ser consciente. E assim, transformando-se o mundo, por obra do homem, do caos à ordem, ele se lhe revela sempre menos inimigo e rebelde e sempre mais amigo e obediente. Noutros termos, pouco a pouco transforma-se a terra de inferno em paraíso, e Satã desaparece lentamente do mundo, isto é, a revolta, o ódio, o tormento, e cada vez mais aparece Deus, ou seja, a harmonia; o amor, a felicidade. Assim, eleva-se o edifício, e os gritos dos condenados, que tiveram de construí-lo nos primeiros andares, transformam-se no canto amargurado das almas que se purificam nos planos superiores, até se tornarem um hino de alegria e triunfo nos planos altíssimos que no céu infinito se aproximam de Deus.

Só assim é compreensível Maquiavel, quando enquadrado, com os seus homens e os seus tempos, no devido plano da escala biológica. É lógico, pois, que naqueles planos, a bondade fosse considerada defeito, sobretudo para os detentores do poder. É lógico que, para manter unidos homens ferozes, num exército ou numa nação, indispensável, fosse a ferocidade; é lógico que tinha de ser esta a virtude do condutor, e que o homem bom, que não a possuísse, acabasse por ser um corruptor de milícias ou um destruidor de nações. Jamais um cordeiro poderá chefiar lobos. A política e o governo de povos e exércitos será, pois, o último dos setores sociais em que poderá penetrar a doutrina de Cristo, que hoje representa uma revolução biológica, porquanto significa a passagem a um plano de vida mais alto.

Deste exame, podemos compreender que dificuldade devem encontrar o tipo biológico do santo e os princípios de bondade do Evangelho, para que possam passar da fase de casos esporádicos e pregação teórica; à fase de realização prática, enxertando-se na vida humana como forma vivida. Tudo isso deveria aplicar-se ao tipo biológico normal. Mas quanto ainda está distante, mostra-nos Maquiavel, descrevendo-o, quando acrescenta: “Abstenha-se o chefe dos bens alheios, pois os homens esquecem mais depressa a morte do pai que a perda de um patrimônio”. Até agora, em suas leis, sobretudo no campo econômico, o Estado parte do pressuposto da ma fé do cidadão, e para ser obedecido, só conta com sanções penais. Que triste espetáculo, este pobre ser humano, esteja ele na privilegiada posição de mando ou na de deserdado dependente, igualmente involuído e envolvido na mesma luta! Pobre ser, vindo ao mundo sem o saber, só para devorar ou ser devorado, para depois reduzir-se a pó e assim acabar, acreditando ficar aniquilado!

Continua Maquiavel: “O chefe deve manter fidelidade enquanto lhe for útil, e deixar de observá-la quando terminadas as razões que o fizeram prometer. Não seria necessário isso se os homens fossem bons. Mas, sendo maus, da mesma forma que eles não manteriam fidelidade, assim não deve o chefe mantê-la com eles”. Assim Maquiavel aconselha a astúcia, “pela qual saiba o chefe, com razões legítimas, colorir a não observância dos pactos”. Eis como se comporta o involuído. Sua miopia psíquica ou imbecilidade fá-lo acreditar que a traição, como a ferocidade sejam forças. Em outros termos, em sua ignorância das leis da vida, é levado a procurar o poder preferindo descer aos planos biológicos inferiores (isto é, ao inferno), em vez de subir aos planos superiores (ou seja, o paraíso). Quanto seja tola essa crença, deduzimos do fato de que, mesmo aplicando esses critérios a seu próprio comportamento, continuaram chover sempre derrotas e desastres sobre o gênero humano. Isso prova que esse sistema não resolve absolutamente nada. O poder está no alto e não em baixo, e aí apenas ilusão e dor. Por isso, encontra-se hoje a humanidade numa encruzilhada: ou ela compreende que o problema da convivência, na forma menos dolorosa possível, só pode ser resolvido aplicando o método do Evangelho, por mais que pareça utopia; ou então continua indefinidamente o atual estado infernal. Mas, não há dúvida, a solução é uma só: tanto durará e martelará esse tormento, que há de o homem um dia compreender e decidir-se a civilizar-se. Não há outra hipótese. A presença destes sofrimentos é justamente justificada por isso, e tem por fim levar o homem a achar o caminho para sair deles, evoluindo para um plano de vida mais elevado.

Em vista desse estado de coisas podemos compreender qual seja a origem do poder e da riqueza. Em si mesmo, o poder pode representar uma função grande, instrumento de imenso benefício, e a riqueza se for bem usada, maravilhoso processo de criação. Mas, o que são ambas, verificamo-lo ao ver que os santos e os melhores homens fogem delas como de uma peste. É o estado do involuído que, usando tudo mal, vai até infectar tudo e tudo tornando pestífero. Dados esses métodos, como pode um homem honesto acreditar na riqueza ou no poder? E, no entanto, que instrumentos de bem e da grandeza poderão tornar-se esses meios nas mãos de um homem consciente e evoluído! Continua Maquiavel: “Muitasvezes para manter o Estado, é mister agir contra a fé, a caridade, a humanidade, a religião. Um príncipe deve parecer a quem o vê e ouve, todo piedade, todo fidelidade, todo integridade, todo religião”. Ora acrescentamos: isto, que aos primitivos pode parecer suprema argúcia, mostra-se suprema ingenuidade ao homem mais evoluído. Isto porque, esse método praticado há séculos, é uma escola, e talvez a única coisa em que a maioria dos governantes esteve de acordo, aplicando-a com aceitação de todos. Aconteceu assim que os povos aprenderam e bem sabem tudo isso, tanto que hoje é coisa óbvia e pressuposta, a má fé dos governantes como a dos governados, tendo-se todos tornado profundos conhecedores e hábeis entendidos nos defeitos e culpas uns dos outros. Então, que defesa representa o método de Maquiavel, se ele é o ponto de partida de todo o julgamento sobre o próximo? Não obstante o constante renascer dessa planta, que é o simplório, no entanto, pela seleção destrutiva que está operando intensamente desde séculos mediante uma desapiedada caça a tão saboreado petisco, o simplório se está tornando cada vez mais raro. E tudo isso é um progresso providencial, pois não se achando mais o mercado dos ingênuos, bons para serem logrados, - e justamente porque foram instruídos por essa escola, eles não se deixam mais enganar – os ludibriadores mesmo veem cair as armas de suas mãos, e por fim esgotado o programa de todas as astúcias possíveis, devem abandonar tal método. No fim, por eliminação, se quiser obter crédito, dado o crescimento progressivo do controle recíproco só restará aos enganadores, se não quiserem ficar isolados, desprezados como maus, usar o sistema da retidão sem enganos. Então o progresso poderá caminhar, sem ter jamais de recorrer a qualidade de bondade e boa vontade, que é utopia esperar do homem de hoje.

Nada se perde em olhar com coragem a realidade biológica tal qual ela é verdadeiramente. Maquiavel tem razão, mas não podemos deter-nos aí, só com esse trecho limitado do terreno explorado por ele. Aquele mundo, observado assim isoladamente, e aceito como verdade única, e não como fase de evolução, não é suficiente para, sozinho fazer-nos compreender a sabedoria da vida, que é sábia mesmo nas suas fases involuídas, e tende para o que é melhor, utilizando, naturalmente, os meios do plano em que opera no momento. Maquiavel escandaliza-nos, porque aceita e sustenta o involuído, e nada nos explica. Mas a vida não nos escandaliza nada, porque conhecemos seus métodos e fins e sabemos onde tudo irá acabar. Temos de admitir que, num plano primitivo e feroz, a luta pela vida não pode assumir outra forma, em vista de ser o homem o que é, forma que mais tarde, ao evolver, parece tola e contraproducente. A vida quer viver, e nos planos inferiores só pode viver assim. E nesse nível, isso é justo e equilibrado. Mas logo que se suba, como começa a fazê-lo o homem de hoje, percebe-se a injustiça daquilo e sente-se o escândalo, porque os pontos de referência foram colocados mais no alto. Para o animal, que ainda é amoral, sua lei de bicho é lei justa. É preciso olhar tudo isso de frente, corajosamente, como faz Maquiavel, mas do ponto mais alto, abarcando horizontes mais vastos, pois só assim se pode compreender tudo e permanecer-se orientado. E então evitaremos protestos inúteis de pessoas, ofendidas pela nudez da crua verdade e, ao contrário, admiraremos a sabedoria da vida, isto é, do pensamento de Deus, que de tal estrumeira sabe tirar a flor de amanhã, do mal o bem, e da ferocidade, a ascensão.

Isto porque o animal também ascende. E isto ocorre por meio das forças disponíveis em ação em seu plano de vida, sem necessidade do concurso de utópicos sentimentos de bondade e altruísmo, que é inútil pedir e ingênuo esperar naquele nível. Mais de que elemento de transformações, invocado em vão, são eles, pelo contrário, o ponto de chegada de novo trecho percorrido no caminho evolutivo, são o resultado do embate das forças pertencentes ao plano inferior.

Tudo é lógico, claro, em seu lugar justo. A luta é um exercício com finalidade seletiva; o esforço para evolver é o pagamento devido pelo homem, dívida que ele contraiu com a queda (veja o volume “Deus e Universo”), que é o preço de seu resgate. A dor é uma escola salutar para aprender a eliminar o erro. E quanto mais se sofre, mais se aprende; e quanto mais erros se eliminam, mais a dor diminui. Ao invés de colher escândalo e pessimismo da leitura de Maquiavel nasce aqui um hino a evolução e à sabedoria da vida. O homem não está ainda maduro para conceber e exercitar o poder como função social, para o bem coletivo. Governantes e governados têm todos conceitos diferentes. Exercita o poder quem venceu na luta e o exerce para sua vantagem, dominando o povo. Só essa vantagem egoística e imediata explica a luta de tantos para atingir os postos de mando. De fato, o poder não gera colaboradores, como deveria, e como aconteceria num plano superior, mas inimigos e rivais; requer força, e é o prêmio egoísta para o mais forte e não um serviço reconhecido pelos governados que o aceitam com gratidão.

Eis então que Maquiavel se ocupa, em primeiro lugar, em ensinar aos governantes como defender-se para permanecerem no poder. Explica-nos ele que se evitam as conjurações quando as maiorias não o odeiam. Então, diz-nos ele, os rebeldes não ousam e temem, porque não têm o consentimento da maioria. O conjurado tem medo do castigo. O chefe tem a majestade do reino, a lei, o poder em ação e, se também tiver o favor popular, nada tem a temer. Assim, Maquiavel só coloca objetivamente na balança do poder os elementos que ele julga positivos, acreditando que os fatores morais e espirituais não o sejam, porque são imponderáveis. E no entanto, os governantes – quando aqueles fatores lhes podiam servir como reforço, em virtude do domínio que exercem esses elementos na psicologia da massa – apressam-se a declarar-se investidos em seu poder por direito divino, e fazer-se aprovar, sancionar e abençoar pela autoridades religiosas, declarando-se representantes de Deus. Inúteis mantos, que as revoluções, quando merecidas em virtude dos abusos cometidos mesmo à sombra de Deus, e os tempos estavam maduros, rasgaram e destruíram.

Pode a vida parecer desapiedada e feroz, mas como pode deixar-se de admirar essa sua absoluta, apesar de cruel, sinceridade, que põe a nu os valores reais, essa sua honestidade franca, que desmantela todas as hipocrisias e tira do ninho todos os parasitas, dos recantos mortos em que não é lícito ninguém esconder-se para gozar a vida, querendo escapar ao indispensável esforço de todos, o de evoluir? Quem é verdadeiramente honesto não pode temer essas intervenções purificadoras, pois que, que é puro, não pode sofrer depurações. As tempestades destruidoras, que a sabedoria da vida de vez em quando desencadeia no mundo, são obra que destrói o corrompido e cura. A dor é dura, mas lava e purifica, e a vida sai das provas rejuvenescida, reforçada, muito mais apta assim a dar um novo salto para a frente, como não lhe não era possível no estado anterior, carregado de incrustações e abusos.

 Procuramos, neste capítulo, colocar sob os olhos do leitor esse dinamismo em ação, em que se debatem as forças da vida, sempre mais construtivamente emergindo do caos. Procuramos mostrar-lhe, em contraposição, a figura do velho tipo do homem de poder, com o novo, da nova civilização, situado num plano biologicamente mais elevado. O primeiro, odiado, invejado, pobre ser, não colaborador, mas escravo da opinião pública, também ela imersa na mesma psicologia de luta. Triste domínio o do chefe num tal mundo, em que é necessária a força e a astúcia maquiavélicas para reinar, e isso por culpa de todos. É bem triste ser escravo de massas animadas por essa psicologia de exploração egoística, ter de considerá-las como um inimigo de quem se é obrigado a defender-se, porque estão prontas a saltar em cima ao primeiro sinal de fraqueza. A evolução abre a todos, governantes e governados, novos horizontes, prepara formas de vida mais altas, que serão compreendidas, quando o homem for mais inteligente, e então serão aceitas, porque mais vantajosas para todos. O problema é de chegar a compreender essa vantagem, porque, uma vez ela compreendida, ninguém mais pode recusar-se a seguir um caminho melhor, por um princípio utilitário que todos compreendem. O mundo futuro olhará com horror e compaixão os atuais métodos de governar o mundo. Mas, para melhorar, é mister maturidade, ao menos nas maiorias humanas, não só nos chefes, mas também nos povos, porque hoje chefes e povos se impõem o mesmo comportamento. E este é dado pelo atual plano da vida humana. Do novo tipo de homem de governo, já tratamos no capítulo “O Chefe”, da Grande Síntese. Mas, se o presente pode parecer triste, as forças irrefreáveis do progresso trabalham incessantemente, obrigando o homem a superá-lo. Tudo isso está no pensamento e na vontade da história, a qual, já que evolver é lei da vida, imporá que tudo isto se realize, com a nova civilização do terceiro milênio.




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