Comentários

Para que a documentação de tudo o que ocorreu até hoje seja completa, e para que o leitor reverente a Igreja católica saiba que erros, do ponto de vista teológico, ele pode achar no texto de A Grande Síntese, aqui trazemos a resposta sobre os mesmos. Ela nos chegou às mãos em 14 de agosto de 1940, alguns meses depois da publicação dos artigos precedentes (confronte as datas). Esta resposta compõe-se de duas partes:

I — Uma carta da autoridade religiosa, da qual extraímos os trechos mais importantes;

II — O anexo pró-memória, da mesma autoridade (o Bispo de Gúbio) e que reproduzimos na íntegra, traduzido do latim, as partes referentes aos dogmas católicos.

Quanto aos erros contidos no volume Ascese Mística, também condenado, nada podemos dizer, pois até agora nada nos chegou sobre o mesmo.

                                 Trechos da Carta do Bispo de Gúbio

"Diante das afirmações contidas em A Grande Síntese, estão assinaladas as contrárias, ensinadas pela Igreja Católica.

A doutrina católica foi extraída dos Símbolos, das Definições, Declarações e outros documentos autênticos do Magistério Eclesiástico, colecionados sistematicamente para facilitar sua procura, num Manual (Henchiridion), de Denzinger (.....).

No "pró-memória", não foram transcritas todas as proposições contrárias ao dogma católico. Há muitas outras, mas creio inútil catalogá-las, porque em vosso livro, é a substância que se opõe à doutrina católica, e aí existe a mais estreita coerência entre princípios e consequências: derrubados aqueles, desmorona todo o resto.

Dois são os princípios, dos quais se originam vossas teorias: o primeiro é o do Panteísmo evolucionista, por vós abertamente professado, e não menos abertamente condenado pela Igreja, como podereis ver no "pró-memória"; o segundo é o da Imanência filosófica e teológica, condenada na Encíclica "Pascendi", contra o modernismo, definido como a "Síntese de todas as heresias".

Se de fato, quereis ter o trabalho de ler aquela Encíclica, aí achareis condenado todo o vosso livro, porque ele repete, quase que literalmente a filosofia e a teologia modernística. Por que arriscar-vos assim, sem uma adequada preparação, no problema religioso?

Não é o caso de insistir, sobre a pretendida revelação divina, a vós pessoalmente feita, de certas verdades. Tratar-se-ia de uma revelação interna, em oposição à revelação externa, de que a Igreja é a depositária. E então recaís no erro dos modernistas, condenado na Encíclica "Pascendi"; e naquele pseudo-misticismo já condenado no século XVII em Miguel Molinos, o qual sustentava justamente haver nele uma luz superior a todo conhecimento humano e teológico, que lhe fazia conhecer a verdade com certeza interna; luz que chegava a ele, certamente, do alto, porque ele a recebia com a certeza de que tal luz provinha de Deus, e não lhe deixava nenhuma dúvida em contrário (......) (cfr. Denzinger, 1273). Como vedes, certas atitudes mentais não são nada novas, e a Igreja, fiel à sua divina missão; sempre interveio imediatamente, para chamar os que erram ao sulco luminoso e seguro da Revelação e Tradição cristã. Pensai que caos haveria nos espíritos, se a qualquer indivíduo fosse lícito impingir-se como termo de uma revelação ou inspiração divina!."

                                          Pró-Memória do Bispo de Gúbio

"Das principais afirmações contrárias ao dogma católico — e, portanto, à revelação — contidas na obra A GRANDE SINTESE de Pietro Ubaldi

Premissas — A linguagem nova torna a obra de interpretação não muito fácil. Muitas afirmações, oportunamente esclarecidas, poderiam também conciliar-se com os princípios da Fé católica. Destas não nos ocupamos, mesmo reconhecendo que, tomadas no contexto da obra, é bem difícil interpretá-las no sentido da Igreja. Limitar-nos-emos, por isso, a notar apenas o que abertamente é contrário à doutrina católica.

DEUS

O autor professa abertamente um panteísmo evolucionista.

(.. . .) "conceito de um Deus que “é” a criação (. . . . ). Este é o conceito mais completo de Deus (.....), a grande Alma do Universo, centro de irradiação e de atração; Aquele que é tudo, o princípio e as suas manifestações".

Deus imanente na natureza: (....) "a mão de Deus (....), é um conceito que é a alma das coisas; (.....) adoro-Te, recôndito Eu do Universo, alma do todo" (......).

Todas as coisas emanam de Deus: (.....) "Quem serás tu, então, se já me arrasa a incomensurável complexidade destas Tuas emanações? (.....)

Eu Te adoro, supremo princípio do todo, em Tua veste de matéria, em Tua manifestação de energia, no inexaurível renovar-se de formas sempre novas e sempre belas, eu Te adoro, Conceito, sempre novo e belo, Lei animadora do Universo" (.....). (Trechos de A Grande Síntese). Em muitas outras páginas o autor desenvolve os mesmos conceitos.

DOUTRINA CATÓLICA

Ela é diametralmente oposta. As afirmações acima são heréticas porque contrárias a dogmas de fé católica definida: (Concílio Vaticano, Sessão III, Cânone 3):

"Se alguém disser que é uma e a mesma substância ou essência de Deus e de todas as coisas, seja condenado (Denzinger, 1803).

Cânone 4: "Se alguém disser que as coisas finitas, quer corporais, quer espirituais, ou mesmo apenas as espirituais, emanaram da substância divina, ou a essência divina, pela manifestação e emanação de si, torna-se todas as coisas, ou finalmente, que Deus é o Ser universal ou indefinido, o qual; determinando-se, constitua a universalidade das coisas, distinta nos gêneros, nas espécies e nos indivíduos, seja condenado" (Denzinger, 1804).

Além disso, na Constituição Dogmática, do mesmo Concílio do Vaticano, foi dito:

"A santa Igreja católica, apostólica, romana, crê e confessa haver um só Deus vivo e verdadeiro (.....) que, como é uma substância espiritual única, singular, simples absolutamente e incomutável, deve ser confessado distinto na coisa e na essência, do mundo, em si e por si felicíssimo, e inefavelmente elevado acima de todas as coisas que podem conceber-se e que existem além dele". (Denzinger, 1782).

A CRIAÇÃO

A criação, como obra de Deus "ad extra"; é absurda:

"A vossa concepção de um Deus que cria fora de si e além de si (......) é absurda concepção antropomórfica; Deus não pode ser algo de mais e de externo, de distinto da criação" (......). Deus é também o universo físico, pois que este é apenas um átimo de seu eterno tornar-se, em que Ele se manifesta (. . . .). Deus é o princípio e a sua manifestação (. . . .). Deus é conceito e matéria, princípio e forma, causa e efeito, cerrados, incindíveis".

É negada a possibilidade da criação a partir do nada: (....) "é absurda, como sempre, uma criação a partir do novo". (Trechos de A Grande Síntese).

DOUTRINA CATÓLICA

É de fé que "Deus praedicandus est re et essentia a mundo Distinctus", ("Deus é distinto do mundo por seus atributos e por sua essência"), de acordo com a Constituição dogmática do Concílio Vaticano, supra citada. E o Concílio de Latrão, 4º (1215): "O qual (Deus), por Sua onipotente virtude, concomitantemente, desde o princípio do tempo, criou do nada a criatura, espiritual e corporal". (Denzinger, 428).

A Bula "Cantate Domino", de Eugênio IV: (......) "Firmissimamente crê (......) que Deus (. ...), Criador de todas as coisas: o qual criou todas as criaturas, porque do nada foram feitas". (Denzinger, 706).

CONHECIMENTO DE DEUS

Deus não pode ser conhecido com a razão, mas apenas com a intuição: (......) "este é o único meio que leva ao conhecimento do "Absoluto" (....), deixareis de lado (......) aquela vossa psique exterior e de superfície, que é a razão, porque só com esta psique interior, que está no âmago de vós mesmos, podereis compreender a realidade mais verdadeira, que está no âmago das coisas (......). Falei-vos da vossa razão (....), afirmando (......) sua insuficiência, como meio para a conquista de conhecimento do Absoluto. (Trechos de A Grande Síntese).

DOUTRINA CATÓLICA

Ela é de fé contrária, Concílio Vaticano, Sessão III, capítulo II, cânone 1º: "Se alguém disser que Deus único e verdadeiro, nosso Criador e Senhor, não puder ser conhecido pelas coisas que foram feitas, com certeza, pela luz da natural razão humana, seja condenado". (Denzinger, 1806).

CONHECIMENTO DOS MISTÉRIOS

É negada a existência dos mistérios propriamente ditos: (. . . .) "o que antes, por outras formas intelectivas, devia ser forçosamente dogma e mistério de fé, será questão de puro raciocínio, será demonstrável (Trecho de A Grande Síntese).

DOUTRINA CATÓLICA

Ela é de fé contrária, Concilio Vaticano, Sessão III, Capítulo IV, cânone 1º:

"Se alguém disser que na revelação divina nenhum verdadeiro e próprio mistério é contido, mas que todos os dogmas da fé podem ser compreendidos e demonstrados, pelos princípios naturais, por uma razão devidamente culta, seja condenado". (Denzinger, 1816).

E na Constituição Dogmática do mesmo Concílio: "Isto também é o perpétuo consentimento da Igreja Católica que manteve e mantém: é duplo o plano do conhecimento, não só distinto pelo princípio, mas também pelo objeto; pelo princípio, porque conhecemos de um lado pela razão natural, de outro pela fé divina; pelo objeto, porém, porque, além daquelas coisas a que pode chegar a razão natural, devem ser propostos a nós para crer nos mistérios escondidos em Deus os quais, se não forem divinamente revelados, não podem ser conhecidos". (Denzinger, 1795).

O SOBRENATURAL - OS MILAGRES

Da premissa de que "Deus é a Criação", deduz-se logicamente  a negação do sobrenatural e do milagre, tomado, este, no sentido católico de fato maravilhoso que ocorre fora da ordem estabelecida e comumente observada nas coisas. Com efeito: (....) "a natureza é expressão divina, e não pode haver um "quid" acima dela (......). Sobrenatural e milagre são conceitos absurdos diante do absoluto, aceitáveis apenas dentro do vosso relativo, aptos a exprimir vossa maravilha diante do novo, para nós, e nada mais (......). Esta (a Divindade) é superior a todo prodígio e o exclui como exceção, como retorno ao já feito, retoque ou arrependimento e sobretudo como vontade de desordem no equilíbrio da Lei (......). (Trechos de A Grande Síntese).

DOUTRINA CATÓLICA

O conceito do sobrenatural é fundamental para a teologia católica e é base de fé:

Pio V condenou, em 1567, a proposição de Miguel Bay, que assim dizia: "A sublimação e exaltação da natureza humana em consórcio com a natureza divina, deve ser chamada natural e não sobrenatural". (Denzinger, 1021).

Pio IX, na carta "Gravissimus inter", de 11 de dezembro de 1862: (......) "como os fins são certíssimos e conhecidos por todos, além dos quais a razão, por sua capacidade, nunca passou nem pode passar. E a dogmas desta espécie, se referem todas aquelas coisas, máxima e claramente, que dizem respeito à elevação sobrenatural do homem, e à relação sobrenatural com ele, e as coisas reveladas são conhecidas para esse objetivo. E, sem dúvida, estando dogmas acima da natureza, naturalmente não podem ser atingidos pela razão nem pelos princípios naturais. Nunca, com efeito, pode tornar-se idônea a razão, com seus princípios naturais, a tratar desses dogmas com sabedoria. E se eles ousarem asseverar temerariamente estas coisas, saibam que eles não estão se afastando da opinião de alguns doutores, mas da doutrina comum e jamais mudada da Igreja". (Denzinger, 1671)

O Concílio Vaticano, Sessão III, cânone 4: "Se alguém disser nenhum milagre poder ser feito, e portanto que todas as narrativas acerca dos mesmos, ainda que contidas nas Sagradas Escrituras, devem ser relegadas entre as fábulas e os mitos; ou que nunca se poderão conhecer com certeza os milagres nem provar por eles a origem divina da religião cristã, seja condenado". (Denzinger 1813),

A SS. TRINDADE

Eis como se pretende explicá-la: "Ômega = Deus. Alfa (espírito), Beta (energia), Gama (matéria): três modos de ser de Ômega ".

Assim a equação da substância sintetiza o conceito da Trindade, isto é, da Divindade una e trina, que já vos foi revelada sob o véu do mistério e que achais nas religiões. A Lei de que falamos e o pensamento da Divindade, seu modo de ser como Espírito. O pensamento que é concomitantemente vontade de ação, energia que obra, tornar-se que cria, é seu segundo modo de ser (....). Uma forma de matéria em ação é seu terceiro modo de ser; é o criado que existe, o universo físico que vedes. Três modos de ser distintos e no entanto identicamente os mesmos".

Volta-se ao mesmo conceito (Trindade da substância) e é reafirmado o mesmo pensamento, onde se acrescenta:  (.....) "eu exponho à vossa maturidade intelectual, com evidente demonstração e com exatidão científica, o que às mentes primitivas não podia ser dito senão sob forma de imagens e sob o véu do mistério (......). Com a ciência demonstro e confirmo o mistério". (Trechos de A Grande Síntese).

DOUTRINA CATÓLICA

Eis o dogma católico: Um só Deus em três pessoas iguais e distintas (pessoas, porém, não modos de ser), espirituais (não matéria e energia), coeternas (não evoluindo uma da outra). Inumeráveis são os documentos da Igreja que ilustram a sua doutrina a esse respeito. Basta citar, em lugar de todos, o célebre Symbolum Athanasianum (Denzinger, 39) e se verá como a explicação da Trindade, dada acima, é simplesmente herética, porque contrária a uma verdade revelada, e como tal proposta pela Igreja à crença.

   Além disso já dissemos que é de fé que há mistérios que não podem conhecer-se, e muito menos demonstrar apenas com a razão natural. É absurda, pois, a pretensão de querer expor, com evidente demonstração o primeiro e maior mistério da religião católica, que é justamente o mistério da Santíssima Trindade.

TODAS AS RELIGIÕES SÃO BOAS?

Assim‘ parece: Religião sintética do futuro, feita com a força do espírito e com a bondade. (.....) "meu sistema aceita fraternalmente qualquer fé, desde que seja fé, e não condena nenhuma, desde que seja sincera" (......). Todas as religiões se aproximaram da verdade; a de Cristo mais do que todas; mas a verdade não poderia ter sido plenamente atingida nem pela de Cristo... As religiões — imperdoável erro — (......) "todas em luta entre si, exclusivistas na posse da Verdade (.....). Eu não venho para combater nenhuma religião, mas para coordená-las todas, como tantas aproximações diferentes da verdade, que é Una (......). Coloco, porém, no mais alto posto, na Terra, a revelação e a religião de Cristo, como entre todas a mais completa e mais perfeita" (......). Mais perfeita parece a religião proposta, e que se poderia chamar a religião do Monismo. (.....) "como do politeísmo passastes ao monoteísmo, isto é, à fé num só Deus (mas sempre antropomórfico, enquanto faz sua criação fora de si), agora passais ao monismo, isto é, ao conceito de um Deus que e a criação". (Trechos de A Grande Síntese).

DOUTRINA CATÓLICA

A doutrina católica ensina que é uma só a verdadeira religião, a cristã-católica, revelada como tal por Cristo-Deus, que contém toda e somente a verdade, guardada e ensinada pela Igreja, a quem Cristo a confiou, como a mestra infalível.

Portanto, o erro condenado no Sílabo: " É livre a todo homem abraçar e professar aquela religião, que pela luz da razão alguém for levado a crer verdadeira". (Denzinger, 1715).

Se nem a religião de Cristo ensinou toda e somente a verdade, mas é apenas uma aproximação mais perfeita desta, então, por conseqüência lógica, dever-se-á negar a divindade de Cristo, o magistério infalível da Igreja etc., ou seja, os dogmas fundamentais do catolicismo ....), portanto, outros tantos erros contra a verdade de fé definida. (Denzinger, 40, 86, 1793 etc.).

Se por Monismo se entende "o conceito de um Deus que e a criação" caímos no panteísmo, como se disse acima, porque se Deus "e a criação, então todas as coisas são Deus (....), são emanações de Deus (....) etc. (Veja condenação do Concílio Vaticano, Sessão III, cânones 5 e 4, em Denzinger, 1804).

ALMA HUMANA

A alma é o resultado da evolução: "Vimos como na evolução, o ser, ascendendo da matéria ao espírito (......). A evolução ascende da matéria á energia, à vida, ao espírito"( .....). O conceito é ratificado, pode dizer-se, a cada página: e é conseqüência lógica do sistema.

A alma não é criada: "é absurda, como sempre, uma criação a partir do novo, mesmo na gênese da personalidade humana".

A alma eterna: (.....) "a existência de um princípio psíquico é evidente, ele deve ser imortal; e imortalidade só pode ser eternidade (......), se tudo o que existe é eterno, vós, se existirdes, sois eternos (....). Vossa consciência latente é vossa verdadeira alma eterna, aquela que pré-existe ao nascimento e sobrevive à morte corpórea".

Pré-existência e reencarnação: (......) "alma eterna, que pré-existe ao nascimento (.....). Sobrevivência do espírito é sinônimo de reencarnação". Conceitos semelhantes, conseqüências do sistema, acham-se ainda a cada passo da obra, A Grande Síntese.

DOUTRINA CATÓLICA

É de fé que a alma humana não é produto da evolução. Condenada a proposição 20, de Rosmini: "Não repugna que a alma humana se multiplique pela geração, de tal forma que se compreenda que ela procede do imperfeito, isto é, do grau sensível, ao grau intelectivo" — (Denzinger 1910). Com tanto mais razão, a condenação vale para a tese que pretende a evolução da matéria ao espírito.

A alma é criada por Deus a partir do nada: "Cremos que a alma do homem não é divina substância, nem parte de Deus, mas dizemos que a criatura é criada pela vontade divina. (Denzinger, 20). "Creio que a alma não é parte de Deus, mas criada do nada". (Denzinger, 348).

A alma não é eterna, justamente porque é criada.

A alma não pré-existe: "Se alguém diz ou pensa que as almas dos homens pré-existem, como tendo sido antes mentes e santas virtudes, e terem gozado da sociedade da divina contemplação, e terem-se tornado piores e por isso se terem resfriado do amor de Deus e daí se chamarem em grego psyche, ou seja almas, a terem sido lançadas nos corpos por causa do sofrimento, seja condenado". (Denzinger, 203). "Se alguém diz que as almas humanas primeiro pecaram na habitação celeste e por isso foram lançadas nos corpos humanos na Terra, como disse Prisciliano, seja condenado". (Denzinger, 236).

A reencarnação é insustentável e inconciliável com a doutrina católica: “Está decretado que o homem morre uma só vez, e depois disso vem o julgamento". Concilio de Florença: "Mas, por causa de diversos erros, introduzidos pela ignorância de alguns e pela malícia de outros, diz e confessa: (....) que as almas daqueles que, depois de terem recebido o Santo Batismo não incorreram em nenhuma mancha de pecado e também aquelas que, depois de terem contraído a mancha do pecado, ou permanecendo em seus corpos, ou dos mesmos desvestidas, como acima ficou dito (sobre o Purgatório) e estão limpas, são recebidas imediatamente no céu. As almas daqueles porém que morrem em pecado, ou só com o original, descem imediatamente ao inferno, mas são punidas, porém, com penas diferentes". (Denzinger, 464).

PIETRO UBALDI

F  I  M

Da revista Alba Spirituale – nº 3, março de 1948.

A Congregação do Santo Ofício, com o decreto de 8 de novembro de 1939, condenou e colocou no "Index" as duas maiores obras de Pietro Ubaldi: A Grande Síntese e Ascese Mística. Seguiram-se à condenação apaixonados debates de numerosa imprensa, na Itália e no estrangeiro. A católica, mais ou menos qualificada, fazia coro com as decisões do Santo Ofício, assumindo, às vezes, uma linguagem particularmente áspera e ofensiva; a espiritualista independente tomava ao invés a defesa do condenado, contra-atacando também asperamente.

A linguagem de ambas as partes, de qualquer forma, era excessiva, e pouco condizente com a delicadeza da questão controvertida.

A condenação colheu de surpresa o autor e lhe provocou admiração e profundo sofrimento. No Natal de 1939 ele enviava a Roma uma primeira declaração de obediência, na qual humilhava-se diante da Igreja. Declarava que sua fé era sincera, que seu objetivo era o bem das almas, que respeitava a autoridade da Igreja, que se sentia profundamente cristão. Mas isto não bastou. Foi-lhe pedida declaração explícita de reprovação e retratação dos erros contidos nos dois livros. Exigia-se dele, além disso, que retirasse do mercado todas as edições, mesmo as estrangeiras, de que ele havia perdido o controle. Impunha-se ao autor um problema de consciência. Ele pediu que lhe fossem indicados os erros para que os pudesse retratar. Ou seja, pediu que se discutisse. A Igreja não aceitou a discussão. Assim, Ubaldi não se retratou, e os dois contendores encerraram a pendência com o silêncio.

Feita esta premissa, passemos agora a examinar o comportamento das duas partes, e procuremos penetrar suas razões. A Igreja foi coerente com seus princípios. Ela devia condenar, sem faculdade de defesa nem de apelação para o condenado. Os princípios teológicos da Igreja são conhecidos, estão codificados em dogmas bem definidos que se aceitam ou se rejeitam; de qualquer modo, nenhum católico os pode aceitar sob condições ou com reservas, mas só integralmente e sem discutir. A Igreja se declara infalível e qualquer dúvida no mérito pode ser considerada heresia.

Pietro Ubaldi terá sido coerente na mesma medida? Aparentemente, parece que não. Mas, examinando mais profundamente o caso, teremos de concluir que, também de sua parte, houve coerência. Ubaldi humilhou-se diante da Igreja, declarou obediência a ela, mas não se retratou. Como se concilia isso com a coerência? A resposta só pode vir depois que tiverem sido compreendidos o pensamento e os sentimentos do autor.

Comecemos afirmando que Ubaldi é cristão. É um místico cristão, que vive uma atividade religiosa muito intensa, e que constitui a nota dominante de sua vida. Quem conhece suas obras e conhece de perto sua pessoa, não pode pô-lo em dúvida. A Igreja católica, como todas as Igrejas de quaisquer confissões religiosas, cristãs ou não, vive uma atividade religiosa de tríplice natureza: a mais importante é a mística, que tem sua origem nas forças da alma e do coração; segue-se uma segunda atividade, a teológica, que constitui o invólucro intelectual da primeira, que tem sua origem na razão; vem depois a terceira atividade, externa às duas primeiras, e é a litúrgica, que tem sua origem numa necessidade dos sentidos. A atividade mística é o conteúdo essencial de toda atividade religiosa, é a alma vital de qualquer confissão religiosa digna desse nome. Alonga as próprias raízes bem no âmago da alma onde Deus fala, enxerta-se nas fontes arcanas da vida. Este é, portanto, o conteúdo essencial da vida religiosa da Igreja. Ela perderia toda a sua vitalidade se não haurisse nessa fonte sublime. Deus fala aos homens através dos grandes místicos; são estes os intérpretes e tradutores do pensamento de Deus, o maravilhoso elo que une o céu à Terra. Os místicos falam uma linguagem extraordinariamente eficaz: levam-nos a um plano em que o contingente cessa e o universal domina. Neste plano está a vitória do verdadeiro, do bom e do belo, que se acham fundidos em admirável harmonia, que ilumina a mente e dá paz ao coração. Todos os místicos da Terra, de todos os tempos, de todas as religiões, vivem as mesmas experiências místicas, falam a mesma linguagem, enunciam os mesmos princípios morais. No plano místico, calam todas as controvérsias religiosas e estabelece-se aquele ponto de contato que liga e irmana todas as confissões religiosas do mundo. No plano místico não há lugar para a discórdia, para a divisão, para a intolerância; não há lugar também para a condenação, para a luta. Aí reina o amor, a paz, a concórdia.

Ubaldi é um místico e como tal não podia ter sido condenado. Mas a Igreja o condenou da mesma forma, pois o julgou um falso místico. Baseada em que considerações, pôde a Igreja exprimir um julgamento tão grave? A resposta a este quesito foi dada pela imprensa católica. O misticismo de Ubaldi se afasta dos princípios teológicos do catolicismo. Por isso foi condenado. Mas o que é a teologia, e donde tira seus princípios? A teologia representa o pensamento filosófico da Igreja, ou melhor, dos Padres da Igreja, de seus Doutores. A teologia é um produto do pensamento humano e só tem relações indiretas com a mística; portanto, não está isenta de todos os defeitos do pensamento humano, sendo o primeiro deles a falibilidade. Analisando-se bem o caso de Ubaldi, podemos verificar com facilidade que a Igreja quis condenar o pensamento não-ortodoxo dele. Mas, para condenar o pensamento devia também condenar a alma mística. A Igreja não pode admitir que um homem seja bom cristão, sem que também participe de seu pensamento teológico. Por quê? Porque no pensamento teológico se ergue o edifício social da Igreja mesma — derrubem o edifício teológico e desmoronará todo o edifício social da Igreja. Ubaldi tocou a teologia e, portanto, tocou ao vivo esse edifício social. A Igreja defendeu-se condenando. Através de uma experiência de milênios, a Igreja formou a sua atual estrutura, que ela julga a mais condizente à sua conservação e ao cumprimento de sua missão entre os homens. Tem uma sólida organização hierárquica, experimentada durante séculos, grandes meios financeiros, escolas, partidos políticos que a protegem externamente, uma magistratura interna própria, e quando o pode, serve-se também do braço secular. Ela luta arduamente para manter o próprio domínio sobre as massas. Mas o meio mais poderoso de domínio é o de dominar as mentes dos homens, fazendo-os pensar segundo suas ideias. Quem diverge de suas ideias traz confusão à mente dos homens e ameaça sua existência. Portanto, ela condena inexoravelmente. É preciso reconhecer que o pensamento filosófico de Ubaldi, expresso nos dois volumes condenados, contrasta em muitos pontos com o pensamento oficial da Igreja. Dessa forma, esta não podia deixar de condená-lo. Bastaria sua concepção monística e imanentista do universo, para criar um contraste insanável com a Igreja.

Apesar de tudo isso, Ubaldi fez ato de submissão à Igreja. Por quê? Ubaldi sente-se profundamente cristão, individua no corpo místico da Igreja o anelo de sua alma de místico, está perfeitamente consciente da função vital dessa instituição milenar e, portanto, sente o dever e a necessidade de respeitar a Igreja. Ela tem, verdadeiramente, uma alta missão, é um organismo que, no interesse da vida, merece ser conservado e ajudado a viver. Massas ingentes de fiéis haurem na Igreja guia, conforto e inspiração. Não se pode deixar de levar em conta tudo isso, pois constitui um benefício imenso para os fiéis e para toda a sociedade, enquanto uma educação inspirada pelos princípios cristãos reforça os sentimentos de bondade, de altruísmo, de honestidade, e de convivência pacífica entre os homens. Por isso Ubaldi fez ato de submissão à Igreja. É uma homenagem justa à autoridade daquela Igreja que ele respeita, da qual se sente filho espiritual, daquela Igreja que se compenetra da alma mística de Cristo, que é também vida e conforto de sua alma. Não podia rebelar-se, sem, ao mesmo tempo, rebelar-se contra tudo o que nele há de mais sagrado, e sem perturbar as consciências de todos quantos creem na Igreja e da Igreja recebem consolo. Mas então, por que não se retratou?

Não podia retratar-se por três motivos importantes. Primeiro, ele teria realizado um ato contrário à sua consciência, porque está persuadido de estar com a verdade. Sem esta profunda convicção, ele não teria escrito, nem escreveria. Além disso, retratando-se, ele teria transgredido também um princípio da própria Igreja, que foi sancionado pelo 4º Concílio de Latrão. Diz ele: "quid quid fit contra conscientiam, sedificat ad gehennam" ("Tudo o que se faz contra a consciência, prepara a condenação"). Segundo, a condenação foi, em grande parte, efeito de um mal-entendido. Olhou-se a letra e não o espírito dos livros. Ele esclareceu seu pensamento em obras posteriores, que quem condenou não conhece. Para ele, a imanência não exclui a transcendência. Ele diz com Santo Agostinho: "Deus est superior summo, interior íntimo meo" ("Deus é o ser supremo, e é o mais íntimo do meu ser"). Terceiro, ele está plenamente convencido de que tudo quanto há de místico e de conceitual em suas obras, não pertence às suas faculdades pessoais, mas tem origem inspirativa, que parte de um plano conceitual que o transcende, de onde comunica uma sublime Entidade que ele chama "Sua Voz". Julga que falou por virtude inspirativa, e tudo quanto disse, não lhe pertence. Não tem, portanto, a faculdade de se retratar: se o fizesse, trairia a Divindade. Achou-se ele então em tremenda alternativa: ou trair tudo quanto para sua alma havia de mais sagrado, ou rebelar-se contra a Igreja. Ele não pode ser traidor nem rebelde. Se traísse, cometeria uma monstruosidade que mataria sua consciência; se se rebelasse contra a Igreja cometeria um matricídio espiritual. Ele é cristão, e não quer perturbar as consciências dos fiéis à Igreja. Não está aqui para trazer a guerra e dividir, mas para trazer a paz e unir, sobretudo para unir, que é este o imperativo dos novos tempos. (. ...).

*****

Por que a Igreja quer impor uma coisa que contrasta com a liberdade de consciência, sancionada por ela mesma no 4º Concílio de Latrão? Por que a Igreja, atualmente, vive esse contraste? O absolutismo, a intolerância teológica, chocam-se às vezes contra a consciência do homem. A Igreja é prisioneira da teologia e de sua filosofia particular em que se formou a teologia católica. Então, o caso Ubaldi adquire um valor que o transcende e se torna um dos tantos casos que condenam a atitude da Igreja, em confronto com todo o pensamento moderno.

A filosofia da Igreja, como toda a escolástica, está permeada do pensamento aristotélico. Mas São Bernardo não concluía que a filosofia de Aristóteles era a oficina do diabo? Não declarava São Paulo que não se apoiava em argumentos humanos, mas na força do espírito? Não diz a Imitação de Cristo: "que nos importam os gêneros e as espécies"? Os grandes místicos disseram que ‘‘Deus é mais íntimo a nós, do que nós mesmos”, que ‘‘Deus é a superessência de nossa alma". Indubitavelmente, o "ipse dixit" da escolástica perdeu seu valor, porque depois de Aristóteles o pensamento humano caminhou muito e continua a caminhar. Como pode chamar-se errado a um pensamento, só pelo fato de que conclui partindo de premissas e com método diverso do de Aristóteles e da escolástica? Não vemos nisto nada de herético, mas apenas um pensamento humano que, impelido pelo amor à verdade e ao bem, caminha pela estrada da evolução. Razão e consciência levam a concluir que podemos ser bons cristãos, mesmo não aceitando determinado pensamento filosófico, embora seja este abraçado oficialmente pela Igreja. Trata-se, com efeito, de um pensamento que, por sua natureza e origem, pode errar ou ser insuficiente. Não escapa, porém, a verificação de que — como acima dissemos — a teologia católica nasceu sobre aquele pensamento, e dela saíram os dogmas e as instituições da Igreja. Portanto, uma vez derrubado esse pensamento, a Igreja se acharia numa posição insustentável, e deveria então ou renovar-se ou morrer.

Mas se os tempos estivessem realmente maduros para uma renovação? Se de fato fosse necessário o emparelhamento da Igreja com o progresso dos tempos que correm? Não seria danoso, para a própria Igreja, insistir em posições indefensáveis? A resposta será dada pelo tempo. Fazemos votos de que a Igreja tenha uma justificação que a nós escapa. Mas se tal não acontecer, poderá ser uma desgraça para o cristianismo e para a humanidade.

(a)    PAOLO SOSTER

NOTA DA REDAÇAO - O artigo do Dr. Soster é interessante, porque nos faz conhecer a personalidade do Professor Ubaldi em seu aspecto místico, em contraste com a Igreja católica. A ela, porém, não deve ser atribuída a responsabilidade dos julgamentos que os homens que a representam pronunciaram em certos períodos da história os julgamentos desses homens foram às vezes enganosos e injustos, até cruéis além de injustos, porque o sentimento da justiça estava neles obscurecido pela consciência dogmática A esse respeito, é necessário lembrar que a maioria dos místicos que a Igreja santificou, saíram, em suas manifestações intelectuais ditadas pela inspiração, além daquelas duas linhas, com Krishnamurti representou as religiões dogmáticas, que assinalam a existência das almas comuns no caminho da vida...

Também Santa Teresa de Ávila, que definiu o paraíso e o inferno modos de ser das almas, e não lugares, podia ter sido, da mesma forma, condenada pela Igreja, e não o foi...

Quem leu os dois livros de Ubaldi, condenados pela Igreja, compreendeu facilmente a razão da condenação: o conceito da imanência divina, e que inspira os dois livros, é o que a Igreja rejeita, porque contraria a concepção dogmática da Divindade.

Diante dessa condenação, pronunciada num momento de trágica luta da espiritualidade contra o materialismo ateu, a condenação dos dois livros de Ubaldi, que são a apoteose do espírito, poderá parecer, mais do que inoportuna e injusta, paradoxal!

Mas não é igualmente paradoxal a atitude dos homens representativos da Igreja, diante da ciência metapsíquica, que poderia ser utilizada para demonstrar cientificamente a transcendência da vida e a imortalidade do espírito humano, para conforto e em apoio do ensino religioso?

É supérfluo recordar aqui os contrários julgamentos dos homens que encarnam a Igreja, na distância dos tempos, como por exemplo, a respeito do conceito heliocêntrico do universo, aceito por Copérnico e condenado por Galileu Galilei.

O Professor Ubaldi fez bem em ser coerente com sua consciência, não retratando o que escreveu sob inspiração mística; e a Congregação do Santo ofício talvez tivesse feito melhor se não cometesse o excesso de zelo dogmático, pondo no "Index" os dois livros que tanto conforto deram às consciências cristãs e despertaram a fé em outros que a haviam perdido!

(Esclarecimentos sobre a condenação de A GRANDE SÍNTESE e ASCESE MISTICA ao Index)

Da revista La Verità — Roma, fevereiro de 1940, nº 2.

"Que conteúdo mais alto pode dar-se à vida, senão o de lutar e sofrer por um ideal?"

Esta máxima resume meu estado de alma atual. O público que esperava de mim uma explicação, após a condenação ao "índex" de meus dois volumes A Grande Síntese e Ascese Mística, compreende que eu não podia falar senão no fim, com a pendência resolvida ou a situação definida, para concluir. Mas nem hoje posso fazê-lo, enquanto lentas e complexas se desenvolvem as negociações para esclarecimento, entre Roma e Gúbio, minha cidade. Este, portanto, é um artigo apenas de orientação, à espera das conclusões, um artigo em que, nesta minha hora veemente procuro uma focalização mais exata de minha obra, tão diversamente discutida e julgada, especialmente hoje. E coloco sinceramente, sobre a mesa, todos os elementos de que posso dispor.

Por outra razão calei, e nalguns pontos quero calar: porque o público não sabe tudo nem deve compreender tudo. Trata-se, de uma matéria grave e palpitante, que não pode ser oferecida totalmente ao seu olhar apressado e distraído. O público não tem direito de assistir — às vezes por pura curiosidade — a uma polêmica à custa da Igreja que eu respeito, julgando, por princípio, ser dever de todo homem de bem, o respeito à autoridade. Minha finalidade é o bem e limito-me ao bem. Meu método é o do Evangelho: o amor fraterno. Tenho o dever de informar aos honestos em todos os campos, e não de dar satisfações aos vãos, curiosos e agressivos. Tudo em meu derredor deve manter-se em plano de espiritualidade, de que estão excluídos os baixos sentimentos de todo gênero.

Este tempo de espera — que me impus severamente à minha consciência, quando é humano saltar em defesa própria, especialmente quando se sente que se está com a razão — foi para mim uma hora trágica e palpitante, em que voltei ao meu âmago em que Deus fala, para sopesar tudo de novo diante Dele, particularmente as minhas responsabilidades, porque costumo começar pelos meus deveres e não pelos dos outros. Tremendo esforço de espírito, hoje pouco em moda, mas necessário, para preparar aquela psicologia heroica de martírio, sem a qual nada de sério pode fazer-se na vida.

Espalhei pela imprensa diária vários artigos explicativos: mas certa imprensa não convergente, dispersa o pensamento. Fiz minhas afirmações fundamentais no capítulo "Minha Posição", do volume Ascese Mística. Não fui compreendido. Inútil repetir essas coisas. Meu caso é complexo e foi mal-entendido por muitos, porque é um fenômeno em rápida evolução, e está fora das formas comuns do pensamento de nosso tempo. Fui definido como médium, espiritualista, estudioso, homem de ciência, filósofo, inspirado e, enfim, místico. A psicologia moderna compreende e quer o especialista que se tranca numa gaveta do cognoscível já conhecido e não o que se acha diante desses fenômenos dinâmicos em rápida ascensão. A mentalidade dominante analítica e racional exclui essa universalidade sintética e intuitiva. Assim, cada um me viu com seu olho particular e me catalogou — pensa que definitivamente — no seu campo, enquanto eu o atravessava, e pescou-me com a rede de sua classificação, da qual, pouco tempo depois, eu já havia saído. Isto, quanto à medicina, à economia, à sociologia, à filosofia, à arte, à ciência, à mediunidade, ao espiritualismo, à religião. Daí os mais variados julgamentos. Mas eu sou apenas eu, um fenômeno em movimento. Neste trajeto, tive a sensação viva de quantos podem ser no relativo, os aspectos em que refrange a unida verdade absoluta, que não pode ser sentida pela razão nem pelo estudo, neste plano, mas só por intuição num plano superior, como eu o experimentei. Fui medido, assim, pelos metros mais diferentes, e cada um disse a sua medida. Cada um aprovou ou condenou, conforme os comprimentos coincidissem ou não com a medida usada.

"Last but no least" ("Por fim, nem por isso com menor importância"), chegou a Escolástica. E todo o meu trabalho é medido também com o metro teológico. Em minha orientação simples, prática, aderente à vida, isto não estava previsto. Não via empregada corretamente, nas medições sociais, aquela unidade de medida, que me parecia antes, colocada em grande honra, entre as coisas históricas, exumadas nas escolas pelos estudiosos. Instintivamente segurava-me à vida, a natureza operante em que tão vivamente sinto Deus presente, à natureza que faz e conclui tão bem, sem necessidade de laboriosas construções racionais. Instintivamente achei-me mais preso à forma mental hodierna, que é científica, mesmo porque devia falar a ela. Jamais, pois, tive intenção de fazer um tratado teológico ou escolástico, nem pretendi absolutamente entrar naquele campo em que, sinceramente, por mais que houvesse perscrutado, nada havia achado que me tivesse impressionado e saciado. Será talvez um erro crer que possam compreender-se os fenômenos naturais, como a vida e a morte, a dor e a culpa e também a moral e a ascese, o bem e o mal, simplesmente observando-os e perguntando a eles somente o "porquê" deles? Deus não é onipresente, e todos eles não são, então, a expressão do pensamento de Deus? Olhei tudo isso com o amor apaixonado de São Francisco pelas criaturas. E vêm dizer-me que isso é panteísmo. Mas eu sinto e amo Deus nas criaturas. Por que pretender demolir com acusações filosóficas esta minha alegria? Então São Francisco era panteísta?

Aparecem, desse modo, as razões da não-coincidência com esse metro. Meu caminho é intuitivo, de místico, aquele é caminho de razão. Com todo o respeito por aquela sutil técnica conceitual, que é o pensamento aristotélico que só o gênio e a santidade de um Tomás podiam assimilar a uma Igreja filha do Evangelho — francamente, eu, por temperamento místico, e por método intuitivo, sinto-me mais próximo às formas de verdade primordiais do Cristianismo, do que às sucessivas e deduzidas. Aliás, se a filosofia do mundo oscila entre a forma mental de Platão e a de Aristóteles, isto é, entre a intuição e a razão, como a vida entre o coração e o cérebro, e a própria Igreja entre Santo Agostinho e São Tomás, é evidentemente lógico que, a algumas mentalidades místicas — e não só a elas — repugne tremendamente toda coação lógica de razão em matéria de fé, que elas sentem antes como uma doação de si, espontânea e total a Deus, por ato de amor, do que como uma conclusão racional. A estas mentes, aqueles silogismos que parecem acrobacias e bravuras, podem despertar uma santa repugnância, como algo de irreligioso, como uma negação de espírito de amor ao Evangelho, como uma contrafação do sentimento de Cristo, que queria convencer por meio de amoroso exemplo e não por força de argumentação. Não foi Ele o inimigo dos doutores e dos sábios? Compreende-se, todavia, que certas formas mentais e métodos tenham sido necessários e tenham tido a função histórica de salvar em outros tempos, a Igreja, quando na Idade Média a vida era confiada à espada e era necessária a força, até dos argumentos, para proteger a verdade. Mas se os tempos tivessem mudado, e hoje a coação lógica, ao invés de persuadir, afastasse? Diz-se que nenhum silogismo jamais persuadiu ninguém. Parece, ao contrário, que a convicção seja um estado psicológico, que não resulta de puros elementos racionais. Seres eminentes, como São Francisco e o próprio Cristo, persuadiram muito mais por meios simples, do que por força de argumentação. Aliás, é também conforme à Justiça divina, que a verdade não seja patrimônio apenas dos eruditos, mas de todos. Cristo empregou o sistema da descida do Espírito Santo. Parece-me que as coisas divinas devem ser simples e nuas, sinceras e ardentes, e não difíceis, artificiosas, enfeitadas de erudição. Sinto para mim que se a razão pode demonstrar, também pode errar; que o coração não demonstra, mas não se engana, apesar do que dizem os doutores. A verdade é ampla, e vejo que pode abarcar os dois extremos, não contrários, mas complementares. Esta é a posição dos místicos. Há lugar, portanto, para todos, para completar-se, não para excluir-se e demolir-se.

Fui definido um místico. É esta, com efeito, minha última fase. Hoje se abusa tanto da palavra místico, que não se sabe mais o que ela signifique. O materialismo — cor psicológica do século — espalha sua cor sobre tudo, tornando incompreensíveis certas atitudes de espírito, que muitos sobressaíram em outros grandes séculos. Nenhuma posição mais delicada e ousada do que a minha, mais apta a ser mal-entendida em nosso mundo que exalta outros valores. Aparecerei, pois, como fanático, alucinado, rebelde, sei-o bem. A incompreensão me vem de todo o meu tempo. Falamos duas linguagens diferentes: uma, eu; outra o mundo. E não nos entendemos. Mas, é um fato, que a psicologia de determinada fase não pode compreender a psicologia de uma fase mais elevada. E no entanto, o místico bem compreendido é o tipo a que tende a evolução. Experimentei-o, senti-o, vivi-o. Depois, achei a confirmação disso na leitura das experiências dos místicos. Mas, trata-se de sentidos, de capacidade intuitiva, de formas de vida psíquica diferentes das comuns. Houvera aqui espaço para citações, e enviaria o leitor, por meio do argumento precedente, aos direitos da consciência diante da autoridade, à carta que o Cardeal Newman escreveu, em 1874, ao Duque de Norfolk e a inúmeros trechos da Sagrada Escritura e de escritores eclesiásticos. E, neste assunto, gostaria de citar as palavras de J. G. Fichte, em suas lições na Universidade de Berlim, em 1813. Ele explica como não se podem fazer os cegos compreender as cores. Eles pretendem tocá-las e se iludirão de tê-las compreendido por caminhos indiretos, ao passo que apenas estropearam, falsearam e alteram vosso conceito.

Que é, pois, um místico? Devo, sem dúvida, definir minhas relações com o mundo. Existem aqui indivíduos espiritualmente isolados em seu egoísmo, feitos de desejos, de direitos, agrupados por interesses em choque, instintivos, ignaros do porquê da vida. Sabemos quem é o homem, e que vamos fazer com esse material? O místico sabe o funcionamento orgânico do universo, com o qual está em consciente relação de colaboração. Ele existe em função do todo, só tem vontade em função do todo, isto é, só tem como vontade própria a vontade de Deus. Possui uma vontade altruísta e universal, pacífica e orgânica. Não é mais separatista, mas se harmoniza com o todo. É o tipo que a evolução biológica prepara para o futuro, e que hoje antecipa irregularmente, mesmo do fundo da atual descida involutiva materialista. O mundo atual não se está arruinando todo por falta desse espírito unitário? Os seres de antecipação o preparam, como base para a porvindoura civilização. Qual a tendência das leis, senão levar o indivíduo de uma vontade individualista de desordem para uma vontade coletiva de ordem? O místico não olha, pois, apenas o fenômeno religioso e espiritual, mas também o fenômeno biológico e social. Como homem total, ele é lutador viril, dinâmico até os mais altos planos do espírito. A sociedade precisa de células como essas.

O místico bem sabe que o mundo existe para voltar a Deus e que a Deus só se volta através da dor. Portanto, diferentemente do mundo, que teme, foge e combate a dor, o místico a abraça e a ama, como um meio de libertação. Estamos nos antípodas. Enquanto o mundo se atordoa, engolfando-se cada vez mais na matéria, na ilusão, no relativo (ciência analítica e utilitária), o místico vai por estradas opostas, e liberta-se dela até a união com Deus. Vivi e descrevi isto em Ascese Mística, e não fui compreendido. Para o místico, o mundo é cego; para o mundo, o místico é louco. Eu bem o sei. Mas sempre houve luta entre os solitários antecipadores e a maioria, que visa esmagar os primeiros pela inércia da massa e pela quantidade numérica. No entanto, ensina-nos a história que o progresso — isto é, a ação divina que impele à evolução, que é o retorno fatal do universo a Deus — se opera sempre através desses canais de exceção. Estes, em sua posição de antena, sentem Deus e seu pensamento e vontade, melhor que os outros, e se sacrificam alegremente para expressá-lo, porque bem sabem qual a função biológica que executam. O tipo comum, que necessita de certezas para seu repouso e segurança, tem horror e terror desses lampejos sobre as certezas para ele seguras, lampejos que os lançam no abismo do infinito. A vertigem o descontrola e ele se rebela. Estes estados e correntes psicológicas inconscientemente influem sobre todas as manifestações do espírito. A massa inerte odeia o esforço e o risco do inexplorado, assusta-se com aquelas descontinuidades de certeza levada à dúvida, que implica no tormento de achar uma nova certeza, ainda que mais alta. Portanto, não põe obstáculos a estes impulsos criadores, em que Deus se revela. Eterna luta da luz contra as trevas. E quereria deter o progresso. Mas, parar é morrer e a vida o sabe, estremece e avança. O místico, como o herói, o gênio, o mártir e o santo, é um tipo de antecipação, e tem essa função. O homem normal, medindo as coisas com a unidade da quantidade numérica, quer nivelar o que está fora dela: fora da massa, fora da vida. Julga que sua vida seja toda a vida, de todos e para todos. A antena que perscruta o amanhã e o antecipa, não interessa à maioria; no entanto, a antena é o cérebro, e a maioria é o ventre do mundo.

   Pode ser irreligioso esse tipo de homem? É concebível um ato de autoridade e de condenação contra ele? É evidente que um ser desses não pode ser atingido pela vontade de um homem, a não ser até o ponto em que isto exprima a vontade de Deus, de quem ele vive. É inútil procurar negá-lo: quando se está num plano espiritual e se faz questão unicamente de consciência, o ser é livre, humanamente incoercível. E isto constitui uma justiça de Deus, porque é merecido prêmio de grandes esforços. O espírito não pode ser atingido por meios humanos, mas só por caminhos divinos. O homem poderá infligir dor, mas o místico ama a dor, conhece-a bem, emprega-a constantemente para seu progresso. Não a teme. Assim lhe é oferecido um precioso instrumento. A luta se baseia numa incompreensão expressa por uma linguagem diversa. O mundo assalta, o místico sofre, a sensação da presença de Deus faz-se cada vez mais forte e o torna cada vez mais feliz. Ele está a postos. O mundo se afoga e mais tarde se arrepende. Foi sempre assim. Como pode lutar-se contra tal indivíduo, como constrangê-lo, se ele ama a dor como meio de redenção e nela aceita com alegria a vontade de Deus? Como pode julgar-se este e suas obras? Para julgar é mister usar a mesma medida segundo a qual foi a obra construída, colocar-se no mesmo plano em que ela foi concebida. Doutra forma, como fazer um julgamento exato? E serão os métodos de razão competentes para medir os produtos da intuição e da inspiração? Para julgar um místico é necessário subir num plano mais elevado que a razão, no plano em que fala o espírito. Será a razão suficiente para compreender as coisas de Deus?

Dir-me-ão: tudo isso é orgulho. Velha acusação, para deter-me: conheço-a. E, no entanto, nestes dias, realizei a máxima humilhação da minha pessoa que me era possível (não podia pela minha verdade). Pergunto, agora: enquanto eu nego a paternidade de A Grande Síntese, declarando-a obra não-minha, escrita por inspiração (e, portanto, não retratável), como se insiste em negar esta inspiração, para atribuir-me essa paternidade, que para mim constituiria o orgulho mais monstruoso? Então, não sou mais orgulhoso, e tudo me é concedido, quando isto torne fácil a demolição de minha obra? Por que não existe, nos julgamentos que de mim fazem, aquela coerência que eles me pedem?

O leitor viu, assim, surgir diante do mundo e diante da Igreja, a questão da consciência, a questão da origem inspirativa de minhas obras, em relação à recente nota. No próximo número da revista espero poder dar, quanto ao mérito, pormenores mais preciosos, resumindo os acontecimentos, mesmo na sua repercussão na imprensa estrangeira. Espero, enfim, poder concluir, esclarecendo diante de Deus, da Igreja e do mundo, a minha posição atual.

PIETRO UBALDI

Do opúsculo Comentários da Imprensa às Obras de P. Ubaldi, por ocasião da condenação do Santo ofício, da Sociedade Tipográfica Oderiso — Gúbio, maio de 1940.

"Tudo o que se faz contra a consciência, prepara a condenação" — 4º Concílio de Latrão.

É hora de resumir e concluir, conforme prometi.

Na tarde de 15 de novembro do ano passado (1939), feriu-me repentinamente a leitura do Decreto de 8 de novembro de 1939, condenando ao "índex" meus dois volumes A Grande Síntese e Ascese Mística. Golpe duro, após tantos anos de fadiga. Tal entre filho e mãe, condenar uma obra é também um pouco matar o autor. Mas, quando há equilíbrio dentro da consciência tranquila, diante de Deus, as reviravoltas exteriores têm pouco poder. O que faz adoecer não é tanto o ataque do micróbio, que existe em toda parte, quanto a vulnerabilidade orgânica. Assim, no campo moral, o que abate não é tanto o ataque externo, quanto a fraqueza de uma consciência que trabalha sem Deus. Um novo e intenso exame rápido interior foi feito. Tudo em harmonia com Deus. Nada pois que temer. E de imediato voltou a paz, a alegria, a confiança.

É preciso perdoar ao reverendo padre M. Cordovani um artigo, que foi julgado, por todos os que o leram, áspero e excessivo. Perdoar, porque certamente o creio de boa fé, e, pelo modo como se exprime, transparece evidente que ele está absolutamente ignaro da realidade dos fatos. Por isso, se aquele artigo devesse ser compreendido como interpretação oficial do Decreto (já que apareceram ambos lado a lado), sem dúvida que ele tenderia mais a demoli-lo que a explicá-lo. Tomando como base de julgamento só a letra, e uma pequena parte da letra, e nada absolutamente do espírito, provoca-se assim um mal-entendido fundamental, que nos acompanhará até o fim. Agradeço ao reverendo padre Fr. M. Gaetani, S. J. por ter honrado A Grande Síntese com sua crítica, na aula inaugural do Instituto de Cultura Superior Religiosa, na "Gregoriana", de Roma. Agradeço a uma dezena de revistas e jornais católicos, por terem comentado a condenação e a cerca de 60 jornais italianos, que trouxeram a notícia. Propaganda não solicitada, gratuita, vantagem para o editor, não para mim, pois não ganho nestas coisas, pois se sabe que o público, que não é santo, gosta mais das coisas proibidas que das lícitas. Mas a culpa não é minha. Nem mesmo tenho culpa de me terem chegado centenas de cartas, que me traziam um clamor de solidariedade a meu favor, que não pedira. Mas, nos que haviam sido beneficiados por aquela leitura, a reação era espontânea, como a de um ataque à própria fé que os salvara e à qual se haviam apegado por terem sentido um grande bem.

Eu observava, meditava e calava. Eu não o quisera. Tê-lo-á, então, querido Deus para fins mais altos. Não surgia em mim o dilema: obedecer ou rebelar-me. Mas surgia o problema de conseguir fazer chegar à grande Autoridade a minha pobre voz, para fazer compreender o grande mal-entendido. E me impus este novo esforço, mas na imprensa impus-me silêncio. Agora não posso deixar de explicar-me, pelo mesmo motivo pelo qual escrevi Ascese Mística, ou seja, porque o que diz respeito ao meu caso não é mais coisa minha, mas do público. Uma primeira "Declaração de obediência" partia de Gúbio para Roma, no Natal de 1939. Foram motivos dela: 1º — A minha fé é sincera e meu objetivo é o bem das almas (não tenho, portanto, o direito de escandalizar o rebanho)  2º — Julgo dever de todo homem reto o respeito à autoridade em todos os casos (ninguém poderá negar que este seja um princípio de ordem, necessário à vida social). 3º — Sinto-me cristão, isto é, seguidor de Cristo a todo custo (como pode deixar-se de admirar Cristo e o Evangelho?). Por estes três motivos, eu dizia: "humilho minha pessoa aos pés da Igreja". O objetivo é, desde agora, e será até o fim, o de fazer o bem.

Com isto, abaixava o meu orgulho, o que era a necessidade mais urgente. Aliás, de minha pessoa sou dono, e ninguém poderá dizer-me que não posso dispor dela. Mas isto não bastou e pareceu necessária, embora oferecida como simples retoque da precedente, uma nova e explícita declaração de "reprovação e retratação" dos  erros  contidos nos dois livros citados. E ao mesmo tempo pediam-me retirar do mercado todas as edições, mesmo as estrangeiras, de que perdi todo o controle.

Esta, que me vinha apresentada como formalidade óbvia e simples questão de palavras, era para mim, ao invés, gravíssima questão de substância. Abria-se assim uma nova fase, em que se me impunha, não provocado por mim, o problema de consciência, que para mim era gigantesco. E eu tinha que enfrentá-lo em cheio, enquanto perdurava o mal-entendido. Se eu podia submeter minha pessoa, de que sou dono, não podia "reprovar e retratar uma verdade que não era minha, mas fora recebida por inspiração, uma verdade que eu sentira com sincera e profunda convicção, que não podia renegar sem mentir. Dediquei os volumes As Noúres e Ascese Mística a explicar isto e não o repito. Poder-se-á não ver e negar, mas para mim tudo continua sendo um fato objetivo, experimentado, controlado, solenemente declarado há tempo, convicção inabalável. Como é possível, nessas condições, desmentir tudo, sem sentir-se culpado diante de Deus, diante de Quem sempre trabalhei (obtendo a aprovação mesmo de venerandas personalidades eclesiásticas), e de Quem “vi” o auxílio prodigioso contínuo? Retratar seria, aqui apropriação indébita, seria trair. uma missão aceita. A quem obedecer, à Igreja ou a Deus? Não se pode negar, no meu primeiro ato — que espero venha a demolir a acusação de orgulho — toda a minha  espontânea boa vontade de obedecer. Não sou, pois, um rebelde. E por que deveria aparecer como se o fora? Em Ascese Mística, no capítulo "A Minha Posição", disse: Prefiro Morrer, a pensar que eu possa deixar de manter as minhas afirmações". Se eu mudasse uma palavra, seria, portanto, perjuro. Até que ponto deve pois chegar meu sacrifício? É possível que haja apenas condenação para quem busca os caminhos da dor para o bem alheio? Realiza-se, então, a cena final daquele livro "Paixão"? Levanta-se em mim uma tempestade de problemas e lenta se arrasta minha tortura moral. Sou apenas um instrumento. Obedeci antes e continuo a obedecer, mas a quem o farei agora? Como podem ser abaladas convicções tão profundas, que se formaram diante da sensação de Deus presente? Durante este trabalho interior, entretanto, amadurecia meu espírito: trabalho precioso. Meu lema era: sinceridade e fé.

Continua o drama interior. Acho-me entre Cila e Caribdes; Não retratar-me já é uma atitude de rebelião e é mentir, atribuindo-me intenções que não tenho. Retratar-me é trair uma verdade afirmada sem reservas. De qualquer modo que eu faça, uma mentira, uma dor, um mal, única compensação de tanto trabalho. Como se pode constranger a própria convicção, sincera e profunda? Nem a, própria vontade pode tanto. Ou rebelde ou traidor; ou traidor ou rebelde. Não podia achar a força de impor a mim que desmentisse uma verdade, pela qual daria a vida. E, no entanto, estou onerado e cansado, e o repouso está a um passo, e poderia chegar a ele saturado de bênçãos eclesiásticas. Mas diz-me a consciência que não se pode ceder a outrem, a ninguém, ao menos nos casos como o meu, a responsabilidade do próprio modo de agir.

Nessa conjuntura, informo a Roma sobre meu caso de consciência e, como se nada houvera dito e nada houvesse de verdadeiro em meu palpitante caso, respondem-me com o mesmo pedido de retratação, formulado de outra, maneira. No entanto, eu ignoro os erros que deveria rejeitar. Eu o pergunto, mas não tenho direito de sabê-lo. Há um grande número de almas simples que se escandalizam com. uma desobediência, e elas merecem respeito. Trata-se do bem das almas, de meu constante e maior motivo. A maioria, que nada sabe, exige um tão grande holocausto, porque os maiores devem viver e sacrificar-se pelos menores. Este é um argumento que me faz estremecer: o bem de certas almas. De qualquer forma é preciso realizá-lo. Mas há outro grupo de espíritos, que acreditaram nas verdades que eu disse, que nelas acreditam e delas tiram proveito. Se eu as retratasse, eu lhes furtaria uma conquista, eu autorizaria que almas, que do materialismo haviam tornado à fé, do desolado ceticismo à esperança, não mais acreditassem em nada e tornassem a jogar-se na lama. Não posso fazer esse mal. E quem está mais perto de Deus, quem merece mais atenção: quem O procura mesmo ansioso e dolorosamente, ou quem O recebe passivamente, sem esforço, pelo ensino da autoridade?

Mas precisemos. Minha atitude diante da Igreja, delineada em Ascese Mística e no prefácio à 2ª edição de A Grande Síntese, não é de hostilidade, embora possa tê-lo parecido; ao contrário! E daqui vem o mal-entendido.  Por que interpretar a advertência apaixonada de um amigo como censura agressiva de um inimigo? Não dei prova de submissão? Um inimigo não faz isso. Compreendam-me. A minha, não é luta contra a Igreja, mas apenas contra uma particular atitude filosófica escolástica, e isto porque ela se me apresenta como uma forma mental que eu sinto ser um perigo, diante dos gravíssimos tempos iminentes. Aliás São Paulo não declarava que não se apoiava em argumentos humanos, mas na força do espírito? Diz a Imitação de Cristo: "Que nos importam gêneros e espécies"? E São Bernardo conclui que a filosofia de Aristóteles é a oficina do diabo. Naquela forma mental, o ardor da fé — cotidianamente necessária para a ascese, que é a vida das almas — se adormece na ilusão da segurança, que provém da conseguida conquista racional. Esta atitude leva à inércia, aos acomodamentos terrenos, à cristalização do espírito, à imobilidade do sono, que não é paz, segurança, grandeza, mas pode ser morte. A vida caminha e o que não caminha morre. Abate-me esta idolatria da letra, que está nos antípodas das, grandes paixões do espírito. E em mim só se viu a letra. Já expliquei no artigo precedente a psicologia do místico. Com isto não nego a grande função da Igreja, de conservar. Mas há também elementos ativos e criativos, porque a vida religiosa é dada, não só pelo elemento social (hierarquia) e pelo elemento intelectual (teologia), mas também pelo elemento espiritual (profetas, místicos, santos), e só está completa com os três elementos. Descuidar e desconhecer a contribuição inspirativa do místico tem o mesmo peso que o erro teológico e a rebelião à hierarquia. As religiões, como ciclos de vida humana — pois também o são — se cansam e se esgotam, e ameaçam — após superar certa maturidade de pensamento e desenvolvimento — cair no Farisaísmo, contra o qual justamente Cristo tanto lutou. O perigo já apareceu no fim do século IV a São Jerônimo, que escrevia: "Vae nobis, in quos vitia Pharisaeorum transierunt" ("Ai de nós, em quem passaram os vícios dos fariseus"). É necessário de vez em quando, especialmente nos momentos mais críticos, um novo lampejo de espírito, e os místicos são feitos para isso. Será verdade isso que se diz, ou seja, que o sentimento seja um elemento perturbador, e a consciência pessoal uma perene emboscada? Pode ser assim para a massa inerte e rebelde, mas não em casos particulares, excepcionais. É preciso bem compreender a exceção. Além disso, mesmo em sentido geral, será o cristão apenas um soldado para ser enquadrado, ou é também uma alma viva que deve ser elevada? E o espírito dos Evangelhos está muito longe de coações racionais e exteriores, e para São Paulo e os grandes místicos, o "affectus" está sempre acima do "intellectus". "Nosso Deus não é um teorema de geometria", escreveu Pascal. Não nego a necessidade do enquadramento racional e hierárquico; mas ai de nós se esquecermos que o objetivo dele é o espírito. Move-se a Igreja entre dois extremos, que são duas necessidades, mas também dois perigos: de um lado a hierarquia, a escolástica, a racionalização da verdade, o transcendentalismo, que podem degenerar em cristalização, farisaísmo, materialismo religioso; e do outro o misticismo individualista, o imanentismo, que pode ser dispersão e chegar até à rebelião e à anarquia do livre exame. A unilateralidade é um perigo. É indispensável o equilíbrio entre os dois termos complementares. Um Organismo organicamente perfeito pode desmoronar por falta de forças espirituais.

Estas não são acusações, mas verificações benévolas, para o bem de todos, porque a Igreja é patrimônio universal que deve ser salva a todo custo. Gostaria de citar o que Giovanni Papini escreveu em sua História da Literatura Italiana, vol. 1, a respeito de Santa Catarina de Siena. Mas prefiro trazer as palavras do Abade Henrique de Tourville, num opúsculo: A Piedade Confidente, edição da "Opera della Regalità di N. S. Gesù Cristo". Diz o autor: "As coisas ocorrem igualmente em toda a parte: no mundo, no clero, na vida religiosa; há um conflito entre o que convinha às necessidades antigas e o que é indispensável imperiosamente às necessidades novas, inteiramente opostas. A grande massa, que é como os carneiros, ainda se alinha de acordo com o que fazia dantes; emerge uma minoria muito limitada (......). Mas é justamente dessa minoria que devemos fazer parte, quando Deus nos colocou aí, por vocação interna e por atitudes naturais (.....). Deus semeia no mundo, em todos os tempos, precursores que agem por conta própria ou ao menos sabem, dentro deles, as coisas que acontecerão (.....). Ninguém é pioneiro por achar-se repentinamente numa grande companhia (.....). Estamos numa época de transição, na qual tantas coisas separam o presente — particularmente o futuro — do passado (.....). O grande interesse deste tempo é que o mundo se renove (.....). Neste século tudo temos de refazer, mesmo aquilo que em si mesmo não muda. Talvez terá mudada a natureza? E no entanto vedes que em vossa química e em vossa física, mudou a maneira de estudá-la. Os métodos melhoram e as mesmas coisas se veem melhor: é justamente isso que se requer na fé".

E como não mudou a natureza, assim não se combatem, não se discutem os dogmas, mas se esclarecem e se tornam mais razoavelmente aceitáveis. Não pode ser heresia, creio, precisar pontos não resolvidos, ainda mesmo contra a opinião corrente, que não é um dogma. Há sem dúvida imenso material científico que pode ser utilizado, e que se formou depois da Escolástica. Uma Igreja que conseguiu assimilar Aristóteles, pode assimilar também coisas bem diferentes. Mas, por que a opinião da grande massa inerte dos fiéis deve pesar tanto, mesmo nos dirigentes iluminados, que os tornem medrosos de toda inovação, tanto que as forças da vida não possam confiar essa iniciativa senão a pessoas isoladas e a preço de martírio? Mas a Igreja vive e caminha. . . De fato, ele não se completou assim, assimilando de todos os lados?

Desse modo, meu drama de espírito move-se no cenário de intensa hora histórica, das grandes maturações espirituais do século, e talvez as sintetize e resuma. Sinto que, na minha ânsia, se repercute a ânsia do mundo, que está diante de novas e formidáveis interrogações. Por vezes tenho a visão terrível de uma multidão cega e inconsciente, lançada contra imenso abismo. Vejo aí os monges bizantinos que — enquanto os Turcos, que haviam entrado em Constantinopla, queimavam tudo a ferro e fogo — continuavam a disputar se a luz do Tabor era criada ou incriada. Vejo a corte da França, que, na vigília da revolução, fazia questão de etiqueta. E gritam que eles são loucos. E em redor, as forças do mundo, ansiosas por precipitar-se às conclusões do ciclo milenário de nossa civilização. Quem se apresenta à frente, para prepará-las? E devemos calar? Não pode ocorrer que a iminência dos tempos gravíssimos justifique o explodir dessas vozes isoladas e desusadas? Por que seriam elas imediatamente sufocadas? Por que impor a esses seres um doloroso caminho de condenações, para que possam cumprir seu dever?

Meu mal-entendido é, portanto, fundamental: é um mal-entendido de uma época. Este é o meu drama, de que, os dois livros no "índex", são apenas um episódio, talvez querido por Deus, para que eu enfrentasse em público este problema muito mais grave. Quem se inflama nas grandes paixões de espírito, treme diante da idolatria da letra. Tenho a sensação de que, quem está atento a distinguir e a catalogar conceitos, não pode levantar-se para agir. O mal-entendido aqui está no duelo entre a forma e a substância, entre a letra e o espírito. Mas quem se inflama, não liga às palavras, como nelas não pensavam os mártires cristãos. Quanta largueza de formas, neles, mas quanta  severidade na substância! Estes dois fatores parecem estar em razão inversa, como na arte estão a inspiração e a técnica. No fim de cada ciclo evolutivo, a letra tende a substituir-se ao espírito, e sobrevem a ameaça do Farisaísmo. Não podemos acreditar que ele constitua um perigo constante para todas as religiões, ou até mesmo uma fase ultramadura de sua evolução, fase de que não é possível emergir senão com novos contatos com o Divino, com injeções de espírito vivificante na letra morta? Estes ciclos estão nas leis da vida. Em todos os organismos, quer físicos ou espirituais, há um perigo final de massificação, de que a vida só pode ressurgir recomeçando desde o princípio, alcançando novamente Deus. Nesse período, a letra se substitui e quer julgar o espírito. Mas a razão está para a intuição como a superfície para o volume. E me pergunto: teologia e escolástica, sendo um produto da razão aplicado "a posteriori" à revelação, podem aplicar-se como unidade de medida aos produtos de inspiração?

É necessário equilibrar-se entre estes dois extremos, que são forma e substância, letra e espírito, razão e intuição, autoridade e consciência, Terra e céu. É indispensável que nenhum dos dois impulsos contrários e suplementares sobrepuje o outro e nos empurre para uma das calçadas, quando temos de caminhar no meio da estrada. É mister respeito recíproco entre autoridade e consciência, porque a ambas está confiada uma tarefa sagrada. A autoridade existe como função da consciência, que é o objetivo, e a consciência deve reconhecer na autoridade a função da conservação. Autoridade e consciência, disciplina e liberdade, obediência e independência, não podem separar-se sem cair a segunda, por libertar-se, no abismo do arbítrio e da fantasia; e a primeira, por dever de conservação, na letra que mata, na cristalização formal, no esmagamento e na dissecação das consciências, que culmina naquele indiferentismo, que é a chaga bem merecida de nosso tempo. Não é possível entender-se, entre quem usa a linguagem da forma e quem usa da substância e do espírito. O julgamento sobre os dois volumes condenados deve ser confiado não apenas a um exame crítico racional, por sua forma exterior, mas a um "sentido" espiritual, por sua substância. Poderia dizer com São Paulo, que "o homem físico não entende as coisas do espírito". A inspiração é responsável pela violenta chama interior que lança as ideias e o autor é responsável pela fidelidade de seu instrumento, que deve entregar-se à obra com todos os seus recursos. E isto eu fiz. Para mim, a roupa é a roupa, mas o corpo está ali, inteiro. "A letra mata, o espírito vivifica". Minha verdadeira palavra é de esforço, de dor, de dedicação e de amor. A roupa é humana, transitória, relativa; mas a substância — e quem tiver sentido espiritual a capta — não pode ser renegada.

A este ponto de minha discussão, chega-me a nova fórmula de retratação, de que falei. Ela me coloca apenas diante da revelação, e nada mais. Ora, nenhuma fonte necessita tanto da interpretação da substância, de preferência à literal, quanto a revelação. Com efeito, vindo de Deus a revelação, não pode haver nenhum antagonismo entre ela e a verdadeira inspiração. Então, a concordância é implícita. Portanto, nada que retratar. Dessa forma, o mal-entendido chega até o fim.

Examinada assim a questão em profundidade, saber agora se virá ou não o ato formal da retratação tem muito menos interesse. Porque o mal-entendido permanece, faça-se o ato ou não. Que valor substancial teria ele? Não tenho o dever de respeitar a autoridade? Pois bem, como já me submeti, agora me retrato. Não tenho o dever de não perturbar as almas simples? Como me submeti, retrato-me, agora. Aliás, não sou um rebelde e meu primeiro ato o demonstra; e por que deveria parecer o que não sou? Tenho o dever de testemunhar também esta parte da verdade, para não cair na falsidade. E assim se executaria o ato. Agora, coloco a questão moral e jurídica, se será válido um ato de vontade dirigido para um objeto desconhecido. Já disse que não pude, não obstante meus pedidos, saber quais são os erros a retratar. Não tenho motivos para crer que nos dois volumes haja erros contra o dogma, mas apenas contra opiniões correntes que não constituem obrigação de fé. Assim, a retratação teria apenas um sentido de genérico ato de respeito à autoridade, coisa já feita, repetição inútil. Afirmei sempre, na imprensa, a origem inspirativa de minhas obras, repeti agora a afirmação e expus à autoridade todo o meu caso de consciência. Responderam-me como se nada disso existisse. Eu respeito a autoridade, porque me submeti, mas a autoridade respeita a consciência? Isto é grave, máxime quando o acusado faz apelo, a cada passo, ao testemunho de Deus, o que é um contínuo juramento de verdade. A autoridade — é justo, pois que ela o é — decide e ordena: não discute nem entra em negociações. O jeito é obedecer. Mas os fatos permanecem e não são tidos em conta. Eu não posso dispor do que não é meu, do que está fora de meu poder de disponibilidade, do que está acima de qualquer ato meu de aceitação ou retratação, coisa sobre a qual minha vontade nada manda. Cada retratação é substancialmente nula, para mim, quando estou convencido de estar com a verdade. Uma convicção sincera, formada na presença de Deus, é inviolável, porque não pode obedecer nem sequer à vontade do próprio indivíduo, sendo humanamente impossível impor-se uma convicção diferente da que espontaneamente se tem. E eu não sei mentir.  A força dessas posições está toda em colocar-nos totalmente no plano do espírito, acima da razão e da matéria. Enquanto, em A Grande Síntese, naquele primeiro tempo, tivemos de recorrer à demonstração científica por necessidade de fazer-nos compreender pela mentalidade materialista de nossa época, só agora, que estou diante da Igreja, em posição e em momento diferente, posso formular este supremo apelo às forças do espírito e à substância das obras.

Eis minha atual posição diante de Deus, da Igreja e do mundo. Até agora a imprensa inglesa e sul-americana que às minhas mãos tem chegado, comentou deplorando a condenação. Não é culpa minha se as coisas assim se apresentam. Quando um pobre homem sincero se encontra diante de um emaranhado desta ordem, apresentado a ele pela sociedade humana ou ao menos por uma parte dela, com tão bem combinadas contradições, nada mais pode fazer senão confessar-se em público, como o fez, e simplesmente responder-lhe: eis o que fazer, o que sabe fazer e o seu valor. Agora, julga-o como quiser. Que resultado se obteve, na minha consciência e na consciência dos outros? Cada um responda por si. Uma "nota de redação", no fim de um dos muitos artigos a meu respeito, ventilava a hipótese de eu ser um ladino trapaceiro. E é naturalíssimo. Pois em pleno e civilizadíssimo século XX, esta é a primeira ideia que o próprio semelhante desperta nos outros. É tão normal, hoje em dia, tão universalmente presumida, que não ofende mais. Isto demonstra que estamos imersos na mentira até o pescoço. Mas peço apenas que se vá até o fundo, se meus juízes, em todos os campos, tiverem a vontade e a força de atingi-lo. Quanto a mim, estou fortissimamente sustentado pela minha consciência, por haver lutado e sofrido pelo bem. Talvez a obra já tenha terminado e seja indestrutível acima de toda a minha vontade. Tudo está lançado e não mais se pode deter. Quanto a mim, não fui definido como um místico? Não olho, pois, para as coisas da terra, senão como uma missão, nem tenho já agora outras relações sociais, senão de dever e de sacrifício. De outra forma, após estes golpes, seria fácil perder a fé. Todas as minhas alegrias estão e estarão sempre no céu. Este é o meu caminho. A psicologia humana, sabe-se, é bem diferente, e eu me afasto dela cada vez mais. E me entrego tranquilo nas mãos de Deus, para a Ele obedecer, sempre.

A publicação deste último artigo, já composto para a impressão na revista La Verità, de março de 1940, foi proibida, como foi proibido, em toda a imprensa, que eu, ou qualquer pessoa, escrevesse sobre este assunto.

Esta foi a resposta e o esclarecimento que consegui.

Diante de tais atitudes, não me resta hoje, em consciência, senão o silêncio.

Com isso, verificou-se, e começa a verificar-se, tudo quanto foi claramente pressentido, quando ainda não se falava em condenação, no volume Ascese Mística, especialmente no capítulo "Paixão" e "A Minha Posição", e no fim do prefácio à segunda edição de A Grande Síntese, em língua italiana.

PIETRO UBALDI

Da Revista La Verità  Roma, Dezembro de 1939, nº 12.

O Santo Ofício condenou as obras A Grande Síntese e Ascese Mística de Pietro Ubaldi, nosso apreciado colaborador.

A condenação surpreendeu profundamente, de modo particular a quem, como nós, conhecemos além das obras, o próprio autor.

Porque Pietro Ubaldi — é útil que também os leitores o saibam — é um cristão convicto e ardente seguidor de São Francisco de Assis.

O "fenômeno Ubaldi", merece toda a atenção dos homens de estudo e de pensamento. Um fato positivo, irrefutável, que nos deixa verdadeiramente pensativos, é que as obras de Ubaldi não são frutos de sua capacidade doutrinal. E então?

No século do rádio e da televisão, quando os problemas do espírito tornam a interessar um grupo cada vez maior de cultores, não basta uma condenação à revelia, para confutar e persuadir.

A REDAÇÃO

REFLEXÕES

Lançando um olhar mesmo sumário às grandes escolas filosóficas, afastando as de conteúdo expressamente anticatólico, que poderíamos relegar para as expressões de pensamento polêmico ou sectário, perguntamo-nos se a substância e a forma da filosofia escolástica fazem parte integral do dogma, ou se são possíveis orientações de pensamentos diferentes, sem afastar-se das verdades fundamentais da Igreja católica.

Ninguém nega a São Tomás a sólida base da concepção filosófica, nem a nega a todos os neo-escolásticos, que nas pegadas do grande Aquino formaram, na disciplina do pensamento, várias gerações da Idade Média, da era moderna e da filosofia escolástica contemporânea. Mas, que podemos dizer?

São Tomás terá sido mais do que um gênio, digamos mesmo — mais que um grande gênio, mas sempre com as limitações do gênio humano. Aqui não se trata de Revelação, que exorbita das capacidades individuais ou coletivas do poder humano. Trata-se de uma corrente de pensamento, a qual, ainda que coincidindo com a revelação, não é revelação. É corrente de pensamento, assim como o foram as de Aristóteles, de Sócrates, de Platão, de Santo Agostinho, de Scott, de Bacon, de Galileu, de Hobbes, de Locke, de Descartes, de Leibnitz, de Hume, de Rousseau, de Kant, de Hegel, de Spencer, de Lotze, de Benedetto Croce, de Gentile, para não falar senão dos maiores.

Ora, que a Igreja se defenda contra aquelas correntes de pensamento, que põem em sério perigo a organicidade de seu conteúdo doutrinal, isso é tanto mais natural e legítimo, quanto deve ser. Mas com isto não se quererá dogmatizar a filosofia escolástica e especialmente o sentido fixado de suas fórmulas. Assim teríamos de supor que a Revelação não terminou com São João Evangelista, mas se tenha prolongado até são Tomás de Aquino. E sabemos que a Igreja considera isto heresia. E então?

Se Kant, que não julgamos nem polemista nem sectário, mas puramente filósofo, se afastou da orientação escolástica e abriu caminho ao criticismo, fazendo florescer, no vasto campo do pensamento humano, tantas e tão diversas tentativas para atingir a verdade, não o reputamos, por isso, réu de abuso racional, mas simplesmente um ousado inovador, e não vamos por isso colocar-lhe a cruz às costas. E a propósito de cruz ("croce" em Italiano), se Benedetto Croce pôde tumultuar o mundo com sua concepção neo-hegeliana, em evidente contradição com o pensamento tomista, nem por isso pode ser colocado entre os Hereges desde que não teve intenção de pronunciar-se contra o patrimônio teológico-dogmático da Igreja, mas simplesmente a de responder a uma preocupação de sua razão em busca da verdade. Passando deste a Giovanni Gentile, que se diz ter destruído toda verdade objetiva, tão teimosamente mantida pela escolástica mediante o caminho dos sentidos, nem ele também deve ser colocado entre os hereges, porque jamais se pronunciou contra as fórmulas dogmáticas da Igreja Católica.

A filosofia não pode levar em conta — como tal - limitações e inibições da teologia, que tem sua base sólida na fé. Mas, tanto Kant, como Croce e Gentile, como qualquer outro cultor das disciplinas filosóficas, são expressões claras de sistemas tendencialmente transitórios, nem mais nem menos de quanto o era o filósofo Aquino.

Por que querer ligar o fenômeno Revelação ao fenômeno razão, a ponto de dogmatizar uma expressão de caráter puramente humana, que a experiência e a evolução científica podem sobrepujar? E então, os séculos que passaram depois de São Tomás, com seus grandes pensadores, nada puderam ter trazido de verdadeiro e de bom? Custamos a acreditar nisso. Proclamamos, ao invés, a contínua ascensão do pensamento humano, mesmo permanecendo fixado o termo da Revelação, pelo simples fato de que esta se limitou a determinado ciclo histórico, ao passo que o progresso do pensamento humano continua com a história e forma ele próprio, em grande parte, a história.

Após estas considerações de caráter geral, vamos ao caso particular de Ubaldi, deste forte e genial expositor do pensamento, que absolutamente não pensou em criar novo sistema filosófico, e muito menos valorizar outros sistemas precedentes, mas simplesmente fazer vibrar seu pensamento irradiado de planos superiores conceituais; estes, sem ligar aos estreitos limites de velhos e modernos sistemas, se derrama ousadamente num mundo quase novo, sintetizando harmonicamente os campos explorados do passado e adivinhando o futuro.

Ubaldi não pretendeu nem demolir princípios nem criar precisos e determinados campos racionais. Colocado diante da própria consciência, arcanamente reveladora, evitando o fracionamento de uma batida análise experimental, acumulando tudo quanto a ciência de um lado e a introspecção mental do outro lhe puderam fornecer, penetrou os mais graves e delicados problemas cosmológicos, históricos, psicológicos e éticos, buscando uma fórmula sintética de tudo o que pode interessar a função conceitual do intelecto humano.

A suprema tentativa de Ubaldi não pôde subtrair-se ao fenômeno religioso, especialmente ao evangélico, que ele viu e tratou com seu sistema "em síntese", enquadrando-o no vasto e complexo como das outras compreensões intuitivas.

Para Ubaldi, a integridade do homem não pode cindir-se numa oposição de individualidades separadas, em relação aos diversos fenômenos humanos; ao contrário, ele a coloca inteira e compacta diante de todo o mundo fenomênico, tirando daí atitudes novas e sinteticamente harmônicas com a verdade e com o bem que o homem deve conquistar através das ilusões e desilusões, quer da parte do intelecto, quer da vontade. Em A Grande Síntese, Ubaldi não poupou uma atitude laboriosa e cientificamente objetiva, para os últimos resultados cosmológicos e biológicos, obtendo o aplauso incondicional de peritos de valor, para tudo o que diz respeito às suas conclusões experimentais e suas intuições racionais.

Os primeiros 63 capítulos de A Grande Síntese dedicam-se ao complexo estudo da cosmologia, para passar ao da psicologia e desta à ética, nada descuidando de quanto a Religião e o Estado, com os próprios cânones naturais e positivos, imporão e sancionarão, cada um em seu próprio campo, na consciência individual e coletiva do homem.

Páginas cheias de pensamento e vazias de floreados retóricos, que cingem o leitor a um exame ponderado e nada fácil, a respeito das conclusões do autor. A frase assume colorido e calor de novidade, e por isso de especial dificuldade, exatamente interpretativa.

A materialidade da expressão verbal nem sempre, de fato, decide, clara e univocamente, para determinado sentido. Intelectualmente formado pelas conclusões analíticas de vários sistemas filosóficos, Ubaldi quis audaciosamente destacar-se deles, para conceber grandioso quadro sintético, que, elaborado em seu espírito, ele fixou nas páginas de A Grande Síntese, tropeçando aqui e ali na acidentalidade dos termos. Evidentemente, por causa dessa transplantação para o campo da materialidade da expressão sonora, ele teve de servir-se de termos que, dada a mentalidade de diversas orientações filosóficas, trouxeram tal confusão que Ubaldi, para permanecer fiel à verdade da Igreja católica, várias vezes projetou e desejou corrigir, adaptando-os ao sentido preciso e comum da teologia católica. No livro igualmente condenado, Ascese Mística, parece-nos que o autor esteja maduro, mais do que por ocasião do frio raciocínio de A Grande Síntese, a equilibrar-se no alto, muito alto, nas esferas do sentimento, do dever e do amor. Esta é sua fase de ascensão final, para a qual transporta toda a sua introspecção profundamente psicológica, no deleite da verdade atingida com a mais elevada dedicação ao bem, entrevisto nos ensinamentos e exemplos do Cristo. Em Ascese Mística, pode dizer-se que terminou o esforço da subida racional, realizada em A Grande Síntese, para repousar e enlevar-se na contemplação do panorama terrestre e celeste. E aí se acham, desse modo, páginas sublimes, reavivadas por uma fraseologia ardente e cortante, como justamente convém ao tema e que não é fácil achar em outras tentativas desse gênero, com tanta densidade de pensamento e elevação de forma.

Os corteses glosadores dos erros de Ubaldi, que lhe conseguiram a condenação do Supremo Tribunal da Cúria Romana não deixarão de dedicar sua mais vigilante e objetiva atenção a estas páginas de cristalino ardor, remodelando-se com o conhecimento íntimo e talvez pessoal do autor, que a um intelecto são e a um coração de ouro, une harmoniosamente uma alma profunda e sentidamente cristã.

(a)    LAPIS

UMA "CONDENAÇÃO"

Há vários anos vêm sendo publicadas obras de Pietro Ubaldi — o místico da Umbria — primeiro em série na revista Ali dei Pensiero, no Correio da Manhã do Rio de Janeiro, na revista Constancia de Buenos Aires, e depois em volumes, traduzidos, desde 1933 em muitas línguas.

As obras são: As Noúres, A Grande Síntese e Ascese Mística.

Mister dizer, de imediato, que Pietro Ubaldi não vendeu seus direitos autorais; cedeu-os gratuitamente, permitindo publicações sucessivas em volumes; pelo que, hoje, suas obras não são mais propriedade do autor, mas divulgadas em todas as nações civilizadas, tendo-se tornado de domínio público.

Dizemos "domínio público", quando nos referimos à propriedade intelectual, perdida agora pelo autor; mas diremos que o domínio público é restrito a limitadíssimo círculo de leitores, se nos referimos ao conteúdo dos próprios escritos.

É conhecido e reconhecido que a produção intelectual de Ubaldi não só se adapta — absolutamente — à possibilidade de ser entendida pela massa amorfa de leitores, mesmo que esta tivesse mais gosto pelas fábulas que pela verdade, mas não se acomoda nem sequer às mentalidades medíocres, às criaturinhas superficiais que até talvez a achassem atraente.

Só as mentes de pensamento elevado e profunda cultura filosófica podem ler as obras de Ubaldi com aquele plácido espírito de observação e crítica, como convém aos que se dedicam a conhecer e julgar uma nova obra, uma nova orientação espiritual, sobre a qual podem levantar-se vozes concordes ou surgir dissensões, mas sobre a qual sem dúvida, foi chamada a atenção e o interesse, e promovida a pesquisa das mais altas atividades do espírito.

Nesta comunidade intelectual e internacional, suscitou surpresa, e não pôde ser justificada, a condenação repentina e rudemente expressa pela Congregação do Santo Ofício, que em seu decreto de 8 de novembro de 1939, colocou no "índex" os dois livros A Grande Síntese e Ascese Mística.

Os vários apologistas e comentadores da condenação, mesmo exaltando por dever de ofício ou de missão o ato, não puderam calar, e negar a si mesmos e aos outros, que algo de bom e de verdadeiro há nas obras de Pietro Ubaldi, mesmo quando no ardor da polêmica unilateral, transcreveram, com censura e escárnio excessivos, trechos destacados e avulsos de um conjunto, atribuindo-lhes um significado e um objetivo, que não estão de acordo com as intenções de quem teve a inspiração. Entretanto, o próprio fato da distinção específica, implica o reconhecimento de que, ao menos, não é a obra toda que é repudiada e condenada.

Daí não poder causar surpresa o fato de que a condenação, ocorrida seis anos depois da publicação inicial da obra, obteve efeito totalmente contrário ao esperado, ou pelo menos desejado. De fato, se fez e fará um vazio em redor das obras de Ubaldi por parte daquelas mentes que estão impossibilitadas de entender e julgar, por incapacidade íntima, e que se entregam caladas e submissas ao julgamento alheio. Todavia, a condenação excitou, ao invés, o interesse e despertou a observação e a investigação de todos aqueles que, com o ânimo isento de preconceitos doutrinários e de excessos de supina e cega submissão, estão em condições espirituais de entender e apreciar a obra que provocou os rigores dos tutores da fé.

Mas, se é fácil e simples impor proibições ao rebanho incolor e uniforme, que tem apenas a força de resistência da massa, mas não a energia criadora, não é outro tanto simples nem fácil embargar o caminho às forças do espírito que, só elas e enquanto tais, não podem ser compreendidas nem comprimidas numa mordaça estática, em limites fixos e invariáveis, de acordo com concepções e objetivos egoísticos e utilitários, de uma negação oposta como princípio absoluto.

Dessa forma, sempre que aparece contraste entre a resistência estática e a evolução do espírito, o obstáculo é abatido, com grave, evidente e permanente dano do oponente. E a história de todas as conquistas espirituais e científicas deveria estar presente às mentes dos julgadores.

Já transcorreram três séculos da condenação de Galileu Galilei por parte da Congregação do Santo Ofício, e no entanto, entre os muitíssimos erros, essa sentença é sempre recordada como uma prova inegável da cega teimosia e do egoísmo doutrinário, cada vez que a ciência e a fé, uma ideia e um sistema, o espírito e a matéria formaram objeto de exame dessa Congregação.

Ao menos desde essa época adeja em torno dessa Congregação uma auréola de surpresa incrédula, de desinteresse generalizado, de disfarçada irreverência que ofendem, ainda mais, a majestade da Congregação; a fé e o sentimento religioso de todos nós que, como católicos convictos e praticantes, desejaríamos que todos os valores representativos de nossa santa Religião não sofressem intromissões, restrições nem observações de espécie alguma. De todos aqueles que, na pátria e fora dela, com a pena e com a voz, sempre repeliram e combateram a ofensa, o escárnio e os sarcasmos, que chegaram como consequência dos erros e das resistências cegas, como justificação das separações e dos desvios pelos quais a vida da Igreja do Redentor sempre foi atribulada e ferida em todos os tempos.

Não é, pois, necessário aumentar o número dos que duvidam, dos que desconfiam, dos dissidentes, sobretudo quando a separação tende a verificar-se, não somente na massa incolor e inerte, mas nas aristocracias do espírito e do saber.

Muitas vezes, no curso de sua história, a Igreja de Cristo foi salva pela paixão e pela fé dos humildes de coração, mas elevadíssimos no Espírito e na Doutrina; e estes jamais condenaram nem excomungaram, mas pregaram e persuadiram. Mas estes humildes não se confundiam com a massa, com o número, pois elevavam-se sobre todos, em alturas espirituais inacessíveis de ascetismo e inspiração divina, em que a praxe dogmática e a mesquinhez doutrinária tem apenas artificioso e restrito direita de permanência.

E agora, contemplando as obras que Ubaldi escreveu, sem dúvida não por própria sabedoria — pois ele confessa não possuir o conhecimento intelectual nem o científico a essa altura — temos de concluir que, se aquelas páginas contém só erros e sacrilégios, a condenação chegaria tarde e não teria efeito algum, porque a consciência dos crentes já as teria repelido e reprovado; se ao invés aquelas páginas contêm mais "verdades" que erros, então a condenação não só se revele inútil, arbitrária e vexatória, mas consegue efeitos perfeitamente contrários aos visados pelo ato condenatório, porque, naquelas páginas, o julgamento de todos os que têm força intelectual para compreender o valor delas, já foi expresso e confirmado.

Mais uma vez se mostra, aí, como a violência contra o espírito deve ser substituída, na defesa da fé, pelo amor e pela persuasão, pela guia em direção à luz — pela compreensão dos humildes de coração.

Doutra forma, aquela "violência", cobrem habet, substantiam veronullam" ("tem aparência, mas nenhuma substância").

(a)    B. G.




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