A Salvação do Mundo

Digníssimas Autoridades,

Senhoras e Senhores.

Meus amigos:

"Os tempos são chegados", é o tema que vamos desenvolver nesta palestra.

 

"Os tempos são chegados"; Este, meus amigos, é o tema que me foi apontado por inspiração do Alto, desde a primeira das Grandes Mensagens de Sua Voz, no Natal de 1931.

 

Embora eu tivesse chegado ao Brasil, na minha primeira visita, em 1951, no meu sexagésimo quinto ano, esta grande terra estava já marcada desde minha mocidade, no meu destino, tanto que a minha tese de formatura em Direito, foi um livro sobre o Brasil. Eu sentia como que uma atração instintiva e irresistível por este país, até que em dezembro de 1952, por fatos imprevisíveis por mim e mais poderosos que minha vontade, milagrosamente vencendo todas as dificuldades, cheguei definitivamente com a família, para trabalhar aqui e dar o melhor fruto da minha vida, até a morte.

 

Para melhor compreender, releiamos juntos alguns trechos da Mensagem do Natal de 1931, que nos oferece o tema fundamental e aqui iremos desenvolver. Cada um fica livre de aceitar ou não a origem sobrenatural desta Mensagem, mas o fato positivo, fazendo refletir que aí há um poder que não é meu, é que ela, embora eu fosse desconhecido, se espalhou por si mesma pelo mundo - Europa, Américas do Norte e do Sul, nos países árabes e na Ásia até a Indochina, atingindo um milhão de exemplares.

 

Era a Noite de Natal de 1931, e eu estava desanimado pelos demasiados sofrimentos, quando, como um relâmpago que me colheu desprevenido, eu, tremendo, escrevi estas palavras:

 

"No silêncio da noite santa, escuta-me. Põe de lado todo o saber e tuas recordações; põe-te de parte e esquece tudo. Abandona-te à minha voz, inerte, vazio, no nada, no mais completo silêncio do espaço e do tempo. Neste vazio, ouve minha voz que te diz: ergue-te e fala: "Sou eu".

 

(...) Falo hoje a todos os justos da Terra e os chamo de todas as partes do mundo, a fim de unificarem suas aspirações e preces numa oblata que se eleve ao céu. Que nenhuma barreira de religião, de nacionalidade ou de raça os divida, porque não está longe o dia em que somente uma será a divisão entre os homens: justos e injustos.

 

A divisão está no íntimo da consciência e não no vosso aspecto exterior, visível (...). Minha palavra é universal (...). Uma grande transformação se aproxima para a vida do mundo.

 

(...) Assim como a última molécula de gelo faz desmoronar o "iceberg" gigantesco, assim também de uma centelha qualquer surgirá o incêndio (...).

 

(...) A destruição, porém, é necessária. Haverá destruição somente do que é forma, incrustação, cristalização, de tudo o que deve desaparecer, para que permaneça apenas a ideia, que sintetiza o valor das coisas (...). Grande mal, condição dum bem maior.

 

Depois disto, a humanidade, purificada, mais leve, mais selecionada por haver perdido seus piores elementos, reunir-se-á em torno dos desconhecidos que hoje sofrem e semeiam em silêncio, e retomará, renovada, o caminho da ascensão. Uma nova era começará" (...).

 

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Assim falou a primeira Mensagem de Sua Voz, do Natal de 1931. Já expliquei num artigo, "Princípios", em 1952, que as religiões tem três fases: a "primeira", a mais antiga, é a "terrorista", feita por um Deus vingativo, que se faz obedecer inexoravelmente, punindo com a lei de talião.

 

"A segunda", mais recente, é a "ético-jurídica", feita de uma codificação de normas da vida. É o evolver da natureza humana inferior, que pode permitir uma manifestação de Deus, fazendo transparecer cada vez mais Sua Bondade.

 

Somente hoje a maturação pode permitir que, sem o perigo de abusos, antes temíveis, se possa passar "à terceira fase", a da "compreensão", na qual as religiões são livres e convictas, cada vez mais transformadas, da forma, em que lutam os interesses, na substância - o Amor.

 

Hoje se passa da segunda à terceira fase. Penetra-se na fase do amor. Não mais luta entre rivais, mas colaboração de irmãos.

 

Brevemente o mundo se organizará sobre um princípio que não será dado por um imperialismo religioso, isto é, pela vitória de uma religião que, por absolutismo, se imponha a todas as outras. Não é por este caminho que se chegará à unidade, ou seja, a um só rebanho e a um só pastor.

 

O único pastor será o "Cristo", e o único rebanho será formado por uma humanidade em que as várias religiões não se combatam e não se condenem reciprocamente; ao contrário, se compreendam e coordenem, fazendo dos homens todos, filhos diante de um único Deus, um só Deus, Pai de todos.

 

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O mundo materialista de hoje, na realidade vivida, desinteressou-se do Cristo. Repudiar o Evangelho significa não aceitar a lei de um plano biológico mais evoluído, significa recusar-se a progredir e a civilizar-se. Ir contra as leis da vida, querer pará-las no seu caminho de ascensão, significa ser atingido por suas terríveis reações. E esta foi a terrível encruzilhada em que a humanidade quis cair!

 

Cristo não é somente um fato histórico ou fenômeno religioso; é o mais alto acontecimento biológico do planeta, acontecimento perante o qual deverá prestar contas a humanidade, que nunca poderá fugir às leis da vida. Cristo deixou-se sacrificar para nos dar a verdade. Acreditou-se tê-Lo destruído, matando-O; tê-Lo afastado, negando-O. Mas o espírito, a verdade e as leis da vida não se podem destruir. Cristo faz parte do fenômeno vida e não pode morrer. Ele está vivo, e sempre vivo estará entre nós, presente e operante como força viva. Ninguém pode parar a Sua ação.

 

Cristo ainda está esperando ser tomado a sério depois de dois mil anos. Os santos hoje são poucos, e as multidões seguem outro caminho. E o homem, na sua ignorância, acredita erroneamente que a paciência misericordiosa de Deus seja a sua própria vitória. Neste ponto a humanidade se encontra no caminho da descida. A multidão é ignorante e obstinada, e se faz forte pelo número. Tendo ela tomado demasiada velocidade na descida, sempre mais difícil se torna retomar o caminho da subida. Agora somos chegados a um ponto que nem mesmo com uma explicação racional apoiada na lógica e na ciência, se poderá obter a verdadeira compreensão. A destruição, então, se faz necessária, visto que aquele que quer parar o progresso da vida, por esta mesma vida será destruído, pois a lei quer que ele avance, e por isso, ela afasta todos os obstáculos.

 

O fenômeno deve de qualquer maneira ser resolvido. As forças progridem e devem de qualquer modo realizar-se. Não há outro caminho que não seja o do aceleramento. Que os maus, como fala o Apocalipse, tornem-se cada vez piores, e os bons cada vez melhores, de modo que eles sempre mais possam se separar uns dos outros, e a justiça se cumpra. Neste ponto, a solução não mais se pode encontrar voltando para trás, mas somente no choque violento entre as forças do mal e as do bem, pelo fato de que já estamos na guerra, e não podemos chegar ao fim senão como vencedores ou como vencidos. Chegou a hora do grande julgamento, no qual se terá de fazer a prestação de contas. Aqueles que mais dificilmente poderão ser salvos são os astutos, os poderosos, que são os maiores responsáveis, por terem eles nas mãos os meios de direção da riqueza e do poder.

 

Os dirigentes, desorientados, pela falta duma concepção suficiente para resolver os problemas da vida, percebem esta corrida em direção do abismo, e desejariam descobrir meios práticos de salvação. Infelizmente, porém, no repertório econômico, político e social deles, não existem tais meios para evitar estes golpes. Todo o sistema vigente está errado. Ele se baseia na força. E ninguém pode impedir que quem use da espada, por ela pereça. O nosso mundo somente confia na força, e portanto não pode merecer a intervenção de poderes superiores para a sua defesa. Ao contrário, ele os renega com seus atos. E quem não tem senão a força, não pode prescindir dela.

 

Ela guia a destruição porque o choque é inevitável. Ele é uma consequência necessária e fatal do sistema hoje vigente no mundo, que fica assim inexoravelmente preso na sua própria armadilha, sem possibilidade de saída. Tudo isso é consequência do grau de involução no qual o homem atual se acha, porque ainda se encontra no plano semi-animal.

 

Quantas vozes espirituais se levantaram, quantos mártires se sacrificaram, para que o mundo evolvesse! Mas o homem continua pertencendo ao plano biológico do animal. Por isso ele deve aceitar as duras leis deste plano. Mas, desde que, neste ponto, ele já demonstrou não querer evolver, a maioria que pertence a este tipo biológico, poderá ser afastada do planeta, de modo que este possa progredir por intermédio dos poucos evoluídos que pertençam a um plano biológico mais alto.

 

Tudo isso acontece automaticamente. Isto porque a concórdia e a organização são condições dos evoluídos, enquanto que o separatismo, a luta e a desorganização são qualidades dos involuídos. De modo que estes são guiados pela sua própria natureza e sistema, para serem eliminados, exterminando-se uns aos outros. Não é um fato de que o mundo continua se armando, porque não mais acredita nas armas? O que pode acontecer neste mundo assim feito, senão destruição, quando com o sistema vigente de força, os problemas não podem mais ser resolvidos senão pela força; quando nenhum outro modo tenha, para sobreviver, senão se constituindo como os mais fortes, porque ao primeiro sinal de fraqueza de uma das partes, a outra estará pronta ao assalto para destruir? Não é esta a lei de muitos de nossos atos? Hoje o mundo é uma gigantesca corrida de lutadores egoístas, cada um procurando aproveitar o máximo possível do seu próximo. A melhor habilidade nos negócios e na política é, muitas vezes, julgada ser aquela de saber enganar e expoliar o próximo. Os métodos modernos são muitas vezes uma sobrevivência dos antigos modos de pilhagem, de rapinas, da destruição dos fracos.

 

Pois bem, há entretanto, uma lei de progresso, que nos impulsiona para a civilização, o que quer dizer que é preciso acabar com tudo isso, até serem afastados todos aqueles que demonstraram não serem acessíveis a esta forma de vida. E estes seres não estão isolados somente numa nação particular, mas em todas as nações do mundo. Há muitos inocentes e muitos culpados. A culpa está distribuída por toda a parte, de modo que mais ou menos, muitos deverão pagá-la, e o próprio sistema deles os levará a um recíproco choque fatal, para serem destruídos uns pelos outros, sejam vencedores, sejam vencidos.

 

O mundo, na prática, não acredita em Deus. Os fatos é que valem. Faz-se muita questão de ortodoxia de princípios, mas pouca daquilo que mais importa, isto é, a retidão das obras. O mundo não leva em conta que tem uma lei, e embora conhecendo-a, às vezes esquece que o passado, o presente e o futuro estão fatalmente ligados por todos nós, que assim recolhemos a cada momento as consequências de nossos atos. Assim, o mundo não toma conhecimento de que, com todo nosso pensamento e todo ato, nós semeamos o nosso futuro de alegria ou de dor, não toma conhecimento da absoluta fatalidade das consequências, seja de prêmio ou de pagamento. Do mesmo modo, a sociedade humana está toda ligada por uma série de liames, que não são aqueles que os homens julgam ser, somente os das relações jurídicas ou de parentesco físico. Há também uma rede de relações cármicas, de débitos e créditos que nos vinculam uns aos outros, e que são os mais importantes. As proteções jurídicas e as da astúcia e da força ficam na superfície, e não são suficientes para nos defender da fatal reação da Lei. O que vale é o efeito das causas que pomos em movimento. Quem indebitamente ganha, também devedor fica, e por conseguinte terá que pagar, e poder legal ou humano algum, poderá impedi-lo. Quem foi injustamente explorado, torna-se credor e fará jus da sua compensação. Quando se constituem relações desta natureza no destino de vários indivíduos, os liames permanecem até que as contas sejam solvidas, entregando a cada um aquilo que for de seu direito. Assim, o vencedor que acreditou ter triunfado, deverá cair aos pés do vencido. Se o homem pudesse compreender uma lei assim tão simples, toda a estrutura social tornar-se-ia diferente.

 

O homem atual muitas vezes acredita ser inteligente quando consegue defraudar a lei de Deus. Mas, como pode acreditar seja possível defraudar as leis da vida? Isso é loucura! Mas, o homem é míope e ignorante. Ele fica satisfeito com o sucesso imediato. E depois? Para a grande maioria isto é uma neblina de mistério. O sucesso imediato deixa-o acreditar ter conseguido enganar o próximo e a Lei; entretanto ele somente conseguiu enganar a si mesmo. E olhando para os outros somente por fora, ele acredita não haver justiça no mundo, por ver os maus triunfarem e os justos serem esmagados. Mas, ignora que a vida continua e que não se pode julgar somente pelo breve espaço de uma vida terrena.

 

Depois vemos nascer tantos desventurados e não sabemos porque! Assim, aquele que acreditou vencer, pelo contrário, perdeu e acreditando enganar o próximo, não enganou senão a si mesmo. Podemos falar assim, não porque nos baseamos sobre a doutrina desta ou daquela escola, mas porque estas conclusões foram obtidas através da observação dos fatos e conduzidas na forma científica positiva, como temos alhures demonstrado.

 

Assim, o homem louco vai criando para si um destino de dor. Ele é o arquiteto do seu próprio futuro. Com a sua avidez, ele cria a sua miséria, com o seu orgulho, a sua humilhação, com a sua prepotência, a sua derrota. Trata-se de uma lei de causa e efeito, de continuidade e de equilíbrio, que é confirmada por todas as outras leis que a sustentam, e que são por nós conhecidas no mundo físico e dinâmico. Esta teoria é a que mais concorda com tais leis. Ela poderia renovar o mundo. Hoje o homem está enlouquecido pelo sucesso e faz consistir seu valor na aquisição e no acúmulo da riqueza, sem dar importância aos meios usados. Vencer é o grande sonho, seja de que maneira for, pois o vencedor é sempre admirado.

 

Mas no Alto há uma lei de justiça inexorável: os débitos devem ser pagos; quem faz o mal, o mal receberá, quem faz o bem, a ele fará jus. Podemos semear livremente! Mas depois o fruto será fatalmente nosso. Então, para que serve o triunfo efêmero do mais forte contra o mais fraco? Que ficou de definitivo de todos os triunfos registrados pela História?

 

Tudo serve somente para fazer da Terra um inferno, um teatro de guerras, sem paz e segurança para ninguém, bem como para chegar à dor, que é  a grande mestra que nos ensina a não errar mais. Quem esmaga será esmagado. Quem furta para enriquecer, empobrece. Quem faz sofrer o próximo, a este deverá depois pagar a sua dívida com a sua própria dor.

 

É loucura procurar enriquecer e vencer sem critério de justiça. Assim, construímos o nosso próprio destino, de pobreza ou de vencidos, com o qual tudo pagaremos. Deste modo, o mundo segue um método irracional, contraproducente, antiutilitário. Quem sabe com que desprezo nos julgarão nossos futuros descendentes civilizados! Enriquecer sem dar o valor correspondente do próprio trabalho, significa empobrecer. Num mundo mais inteligente se procuraria o próprio bem-estar ganhando legitimamente, sem endividar-se com o ganho ilegítimo. Ao contrario, dever-se-iam procurar créditos, pagando do seu próprio patrimônio, ao próximo, tornando-se úteis à sociedade. Em cada caso, nunca adquirir sem dar um valor equivalente. Direito de todos à vida, mas a todos o dever do trabalho! Deste, pedir somente a justa recompensa, que é obrigação da parte de quem tem nas mãos o capital e a direção. Este é verdadeiro fundamento das leis econômicas, e não a luta. E os vencedores, porque são mais fortes e inteligentes, têm o dever de educar e ajudar os mais fracos, e não o direito de esmagá-los e explorá-los.

 

A humanidade deveria compreender que os problemas não podem ser resolvidos com a força ou com a astúcia, mas somente com a justiça; compreender que o vencedor se endivida perante o vencido, a este devendo pagar o preço do próprio esmagamento que causar. O escravo tornar-se-á, um dia, dono de seu patrão, que por sua vez será seu escravo. Só assim, ambos poderão compreender a lição. No seu ataque contra o Cristianismo, Nietzsche, o criador do tipo biológico do super-homem do egoísmo e da prepotência, evoluído ao contrário, isto é, herói da involução, vê no Sermão da Montanha uma expressão de revolta dos renegados, dos fracos, vencidos, contra o poder vencedor. Assim Nietzsche demonstra nada ter compreendido dos profundos equilíbrios que aquele Sermão expressa. O erro está no acreditar que tudo isto seja verdadeiro, só porque assim falou o Cristo, e assim o repete uma religião; é de acreditar, por conseguinte que, lutando contra esta mesma religião, ela e o Cristo possam ser destruídos Ao contrário. Tudo isto está escrito na lei da vida, e faz parte de uma ordem universal inviolável, que nós podemos compreender e que devemos admitir não somente pelos caminhos da fé, mas também pelos rumos positivos da razão e da ciência.

 

Os materialistas deveriam compreender, com os meios da sua própria psicologia positiva, esta moral biológica, que faz parte de leis universais de compensação e de equilíbrio. O futuro da evolução biológica, conforme já comentamos alhures, não se pode verificar senão através da espiritualização. Por que, apesar de sua desenvolvida inteligência, eles não compreendem esta moral biológica positiva? É porque o materialismo ateu representa, perante o futuro que pertence ao espírito, o passado involuído, que resiste ao progresso e no qual sobrevive a animalidade, com os seus instintos, que ensinam a vencer com a força e com a astúcia. Mas quem assim vive, a verdade lhe escapa, e vive nas trevas. Assim, recusando-se a compreender, ele arranca de si mesmo os olhos para não ver, torna-se escravo da ignorância, expondo-se, pois, a duras lições. Deste modo, a humanidade quis fazer por si mesma um destino de punição, que representa a reação reconstrutiva dos equilíbrios da lei, para corrigir os erros do passado. É por isso que as forças do mal agora estão livres e ativas, porque ele vem a funcionar quando tem que cumprir uma destruição para expurgar. Neste ponto não é mais possível que o conselho e a palavra possam ajudar, porque o homem caiu sob o poder de tais forças inferiores, que devem cumprir sua tarefa de eliminação, para que sejam depois finalmente afastadas.

 

Na atual equação das forças do mundo, a resultante é somente uma: destruição. É possível introduzir nesta equação novos valores, quantidades, ou forças que modifiquem os resultados? Esta nova força poderia ser a inteligência diretriz duma grande nação, que tivesse a capacidade de compreender e o poder para atuar.

 

Poderia este novo fato eliminar, ou pelo menos retardar a destruição? Mas, para que a avalanche que está desmoronando possa voltar atrás, retomando novamente o caminho da subida, precisaria uma ideia forte e um mundo singelo, que soubesse acreditar nisso. Ao contrário, a este mundo falta confiança e todos, mais ou menos, percebem a aproximação do perigo, como um destino fatal. Vive-se como aventureiros, pressentindo-se um desastre inevitável. O mundo se agarra desesperadamente aos meios materiais e ao poder das armas. Mas, será verdadeiramente este que trará a destruição! O mundo acumula armas para se defender, mas estas servirão para sua própria destruição. E nós não temos confiança senão na força, porque todas as crenças enfraqueceram-se. O momento é terrível, porque o homem tem nas mãos um poder de destruição imenso, sem possuir a disciplina moral necessária para fazer disso bom uso. Que poderemos nós esperar do futuro, quando estes poderes são dirigidos por esta psicologia?

 

Poderia Deus fazer um milagre? Mas, os milagres não podem acontecer contra a lógica e a justiça da Lei, que é o próprio pensamento de Deus. Quando temos culpas para pagar, precisamos pagá-las. É preciso ter merecido esta ajuda particular que se chama milagre. Mas é certo também que esta ajuda não desce para defender interesses egoísticos. As forças espirituais funcionam, mas somente nas mãos dos santos. Elas não descem para se realizar nos planos mais involuídos, que as afastam e que ficam abandonados ao poder das próprias forças involuídas. As duas maiores potências do planeta procuram eliminar-se, uma a outra, para atingir o domínio absoluto. Porém, elas se destruirão reciprocamente, e assim far-se-á o expurgo, com uma limpeza de dor, preço da redenção, sem o qual não se pode subir a um plano biológico mais alto; será o choque necessário, sem o qual também a renovação integral não se poderá atingir.

 

No plano onde reina a lei da seleção do mais forte, é impossível evitar o choque entre esses dois mais poderosos do mundo, porque este choque é que resolverá quem é o mais forte, isto é, aquele a quem, conforme a lei vigente da animalidade, pertence a vitória. Não se pode escapar a esta lei, do tipo biológico atual. Mas se este choque, com as armas atômicas modernas, significa destruição, esta também é inevitável para ambos, os mais poderosos. Mas, isso tanto mais terá que se realizar, por ser este o único meio do expurgo, que é necessário, para que o progresso, que é fatal, possa verificar-se, e uma nova civilização possa surgir, agora que os tempos estão amadurecidos. Não se pode quebrar o encadeamento lógico destes termos sucessivos! Dada a natureza do homem atual, e as suas forças dum poder sem precedentes, que neste momento histórico estão nas mãos desse tipo biológico, não podem ser atingidos outros resultados. Não se pode alterar o desenvolvimento de um encadeamento lógico, do mesmo modo que não se pode torcer o de um processo matemático.

 

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O momento histórico atual é muito grave. Ele está se tornando cada dia mais grave. Somos chegados à plenitude dos tempos. Pregações foram feitas bastante, avisos foram dados, mas o mundo continuou pelo seu caminho sem prestar ouvidos. Nesta hora, não é mais tempo de palavras e avisos, mas de ação. Precisa-se enfrentar os acontecimentos.

 

Os homens continuam a fazer seus negócios e embora nas palavras digam o contrário, na prática eles dão provas de serem ateus, não importa a qual religião ou fé pertençam. Em todos os grupos a maioria acredita só na força material, nas armas, no poder do dinheiro.

 

Mas logo chegará o tempo no qual as armas servirão só para exterminar uns aos outros, ricos e pobres, senhores e servos, vencedores e vencidos.

 

Tempo chegará no qual ter dinheiro de nada adiantará, porque no desfazimento do conjunto social, acabará toda confiança em qualquer pessoa e não será possível ficar forte como poder político, porque ninguém obedecerá mais a ninguém.

 

É justo que um mundo bem polido de ideias, mas em substância feito num egoísmo sem limites e dum ateísmo desorganizador, isto é, de individualismo separatista contra a ordem da Lei de Deus, acabe por cair no abismo do caos.

 

Neste ponto isto é fatal. Isto é o efeito de causas que a humanidade livremente estabeleceu nos séculos passados. A liberdade humana não chega ao ponto de modificar a Lei e de evadir-se do princípio de causa e efeito, que nos liga às consequências das nossas ações do passado. Assim o homem quis e assim seja.

 

A Mensagem de Natal de 1931 assim falou:

 

"Um grande batismo de dor é necessário, a fim de que a humanidade recupere o equilíbrio, livremente violado: grande mal, condição de um bem maior".

 

A Lei deixa ao homem o livre-arbítrio só o quanto necessita para estabelecer as causas, mas não para fugir aos efeitos. A Lei faculta-lhe liberdade só neste limite, só para que seja possível o homem experimentar entre a verdade e o erro, para apreender e assim realizar por ele mesmo a sua subida. Mas, esta oscilação do livre-arbítrio está contida nos limites do contingente humano, limites que nunca é permitido transpor. Isto quer dizer que o homem é livre de semear desordem e destruição na sua própria vida, mas não tem o poder de fazê-lo na ordem da Lei, que é inviolável. De outro modo a ignorância e a prepotência humana teriam trazido, há muito tempo, anarquia ao mundo todo.

 

Verifica-se, assim, o fato que, nas grandes linhas da História e da evolução, a Lei manda, fatalmente, de modo que o homem tem somente poder limitado e relativo e não pode parar o progresso. Neste caso não é o homem, mas é a Lei quem manda, quer, e, por último, acaba por se impor com seu impulso íntimo e tenaz, para que a evolução se cumpra. A Lei não pode ser enganada nem parada. Ela permitira infrações momentâneas, atrasos, adiantamentos, mas não falta de cumprimento. O homem que quiser aproveitar-se da própria liberdade para se rebelar contra a Lei indefinidamente, será eliminado.

 

Os místicos percebem por intuição, os racionais sabem por intermédio duma lógica fatal da qual analisam o desenvolvimento, que agora a humanidade está correndo grandes perigos, embora que, por último, a destruição possa ser utilizada para depois melhor se reconstruir mais alto. Ninguém poderá impedir que se cumpra a vontade da Lei. Os homens práticos podem gritar que isto é utopia. Mas, aqui operam elementos imponderáveis que eles ignoram.

 

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Os homens práticos não compreenderam o atual momento histórico e o que está agora acontecendo. Acreditam que por intermédio do progresso científico e mecânico, eles possam apoderar-se das forças da natureza para escravizá-las aos seus fins. E eles não compreendem que a natureza é muito mais inteligente que o homem, que deve a sua vida a esta sabedoria, que ele possui. E então acontece que, quando o homem faz mau uso dos poderes entregues em suas mãos para que, livremente experimentando, possa evolver, e o faz para atingir somente o seu próprio gozo egoístico, então, aquela inteligência da natureza revolta-se, porque a sua sabedoria quer que a lei não seja violada.

 

E de fato, é exatamente isso o que está acontecendo, e somente assim é que podemos explicá-lo. A ciência acabou, assim, por construir com a bomba atômica o meio para destruir a humanidade. Isto vem nos provar que a orientação materialista de nosso tempo nos deu uma ciência errada desde o começo e que, por conseguinte, não podia chegar a outras conclusões. Aquela orientação é o micróbio do egoísmo, que é o câncer do destrucionismo. A vida, vendo que estava sendo traída sua finalidade mais importante, que é a de evolver, revolta-se e destrói tudo o que a impede neste caminho.

 

O homem deve compreender que ele se acha perante uma inteligência e uma lógica que têm suas leis invioláveis. A natureza não quer o tipo biológico do homem que está engordando no bem-estar, servido pela máquina . A natureza logo que atinge um bem-estar de sobra, o utiliza para acrescer a população de modo que ele produza fruto, não como gozo, mas para dar vida a um número maior de seres. Ou por outro modo, desencadeia guerras e revoluções, para que aquele bem-estar sirva para destruir o velho e construir o novo, evolvendo. A natureza quer que o homem cumpra o trabalho do seu próprio progresso. Por isso quando ele fizer uso errado dos segredos que arrancou à natureza, esta destrói os frutos de tais descobertas, exterminando a humanidade que as produziu, e infligindo lhe uma lição tão poderosa, que volte ao caminho certo e não mais deseje iniciar novamente semelhantes aventuras. Assim se explica como a ciência moderna, pela razão de que ela foi posta a serviço do egoísmo, que tudo quer explorar para seu gozo e sem mais altos fins espirituais e morais, chegou a produzir, como resultado, somente o fruto da destruição.

 

Isto nos deixa claro que, para a vida, são da maior importância os valores morais. Descuidar deles significa errar nos seus pontos mais fundamentais e ter, por isso, depois, que pagar até o último ceitil. Acontece, assim, que a vida se revolta e procura, com a sua sabedoria, destruir o que se desenvolve negativamente, no sentido retrógrado aos valores do espírito, como é o estabelecer-se um bem-estar material a cargo da evolução, que na nossa fase, primeiro deve ser espiritual. Então, a sabedoria da vida, para nosso bem, nos impede o passo e nos para no caminho errado. Aqui, a natureza opera como nas doenças físicas: procura isolar, circunscrevendo a zona infectada e, se não consegue, destrói o doente para que ele recomece a vida num outro organismo.

 

Entretanto, ainda antes de chegar a estas últimas consequências, o homem já se arrisca a ser dominado pela máquina. Ele corre o perigo de que este novo ser, criado por suas próprias mãos, tome predomínio sobre ele, não como simples simbiose de conviventes, mas a máquina como dona e o homem como seu criado. Isto porque o homem quer fazer dela somente um meio a serviço da própria preguiça, abdicando ao mando diretor do seu "eu" espiritual superior. A diferença parece sutil, mas é profunda. O homem quer ser dono da máquina. Mas o dono não deve ser o "eu" inferior, material, egoísta, e involuído do homem, mas sim o seu espírito, para atingir fins espirituais superiores. Diferença cheia de consequências, porque, se não fizermos assim, o instrumento máquina, em lugar de criado, revoltar-se-á, contra seu dono que o criou, e que não sabe dominá-lo para os fins a que se destinou e que a vida exige. A máquina acabará assim, por escravizar a ela mesma o dono que abdicou seus poderes de direção. E que acontece quando numa casa o chefe não dirige mais e então aparece o criado para substituí-lo nas funções diretivas? Dá-se uma degradação, um retrocesso até o inferior plano evolutivo do criado, que assim nivela tudo na própria inferioridade. Esta é uma lei da vida, isto é, que quando quem está mais no alto se enfraquece, os inferiores surgem para mandar. Então, como o criado torna-se patrão e este criado daquele, assim o instrumento torna-se diretor e este o seu instrumento. Se o homem não souber reagir, dominando espiritualmente os seus novos poderes, ele ficará preso às suas novas exigências mecânicas e, tanto mais ele se deixe prender, tanto menos será para ele possível desprender-se e voltar a ser o senhor.

 

A máquina é uma criatura que parece viva, mas que é cega e, com a mesma indiferença, tanto nos protege a vida como pode nos dar a morte. Repete ela e multiplica o impulso recebido pela vontade e inteligência do homem, mas nada inicia por si própria. Nada possui da consciência espiritual do homem, é amoral e pode fazer indiferentemente o bem ou o mal, conforme o impulso que o homem lhe der. A máquina sozinha não sabe manter-se viva, não tem assimilação ou recâmbio, mas somente a autonomia que lhe foi dada pelo impulso recebido e, esgotado este, ela pára. Quando pelo funcionamento ela restitui todo o alento animador que recebeu do homem, volta a ser o que ela era antes: matéria morta, inerte. A máquina não evolve. Se bem dirigida, ela pode representar uma ajuda à evolução humana: se mal dirigida pode ser um empecilho. A máquina não é vida e não ascende sozinha. Ela é só um espelho da inteligência do homem que lhe deu a vida. Ele pode fazê-la funcionar em harmonia com a ordem universal e, então, a vida a sustentará. Mas o homem, que é livre, poderá fazê-la funcionar também contra esta ordem e então a vida destruirá a máquina. No primeiro caso temos muitos instrumentos úteis: o carro, o avião, o rádio, etc. No segundo, temos as máquinas de guerra e em primeiro plano, a bomba de hidrogênio.

 

A conclusão destas afirmações é que, pela sua própria natureza, a nossa civilização mecânica sempre mais propende para a supressão dos valores morais que, ao contrário, deveriam ser os dirigentes, e tende a regredir por conseguinte, à autodestruição, porque a vida elimina tudo o que opera contra ela. Eis como se explica que numa hora assim apocalíptica, presenciemos a uma fatal derrocada espiritual e moral, neste terreno das funções diretivas. Eis porque, hoje, a humanidade mostra uma tão grande inconsciência.

 

Perante tão terríveis perspectivas, o homem prefere continuar com seus ridículos e velhos jogos: aturdir-se nos gozos para esquecer, amontoar dinheiro, tornar-se politicamente poderoso, fabricar armas. Velhos expedientes que não salvaram a humanidade, que não impediram o desencadeamento da tempestade nas horas trágicas das grandes voltas da História. Tudo será inútil. Ficará somente uma defesa: ser conforme à Lei, isto é, ser justo.

 

Isto porque, como fala a citada Mensagem: "não está longe o dia em que somente uma será a divisão entre os homens: justos e injustos".

 

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Agora, no plano universal, exposto neste quadro, deve  aplicar-se a nossa ação positiva neste nosso tempo. Entramos no terreno prático.

 

A maioria humana, ateia na substância, está misturada com uma minoria de crentes. Aparentemente, entretanto, os homens estão agrupados de outro modo, isto é, por religiões, seitas, crenças, fés etc. Em nosso mundo, repara-se muito nestas distinções exteriores, porque elas encerram interesses humanos e pouco se dá atenção à sobredita distinção de substância, isto é, em serem justos ou não. A muitos interessa declarar-se membros dum dado grupo, porque aí acham defesa e vantagens. A poucos interessa conhecer a verdade e vivê-la honestamente.

 

Acontece, entretanto, que cada grupo está ocupado em lutar contra o grupo vizinho, sob a bandeira duma sua verdade particular, sem interessar-se por ela em si mesma, mas somente como meio de luta para obter vantagem da própria supremacia terrena; assim, poucos preocupam-se com a outra distinção, de substância e não de forma, isto é, não de grupo, mas de justiça e retidão.

 

O erro está em cuidar do menos importante, sem olhar para o que é o mais urgente e necessário. As leis da vida que toleram este erro desde séculos, na atual volta histórica, exigem que ele seja corrigido, impondo o triunfo dos valores substanciais. É assim que a hora histórica chegou e os tempos estão amadurecidos, porque o limite da suportação, permitido pela elasticidade da Lei, foi superado. Eis então que no momento em que o cataclismo apocalíptico está pronto para desencadear-se sobre o mundo, poucos pensam substancialmente em defender-se; ou, pelo menos, fazem isso duma maneira leviana e em vão. Amontoar riquezas, poderes, armas, será inútil, nada adiantará. E poucos pensam, em nosso mundo que está para ruir, que a única maneira para salvar-se é ser honesto. E a punição é a sua justiça, porque isto foi merecido, está exatamente na incapacidade de compreender que este é o único caminho para a salvação. Esta incapacidade de chegar, justamente, porque aqueles que não o merecem não devem ser salvos.

 

Que se pode fazer então? Dirigir-se a esta ou aquela religião ou grupo, é inútil. Aqui não se trata de defender os interesses duma particular organização humana, para uma supremacia de grupo, o que não adianta neste grave momento histórico, perante tão universais ameaças. Dirigir-se a este ou aquele grupo, quereria dizer fechar-se juntos com honestos e desonestos naquele grupo, numa verdade particular a ele esquecendo as universais leis da vida e a positiva e férrea realidade biológica. A hora é trágica e não há tempo a perder. Aqui urge fazer um trabalho completamente diferente; não um trabalho para atingir supremacias de grupos ou vitória sobre o próximo, mas de salvação. Certo que cada um procurará salvar-se como melhor puder compreender e fazer.

 

Mas, somente quem conhece a Lei, a hora histórica e os imponderáveis, agora em ação, conhecerá como salvar-se, porque só ele saberá como operar inteligentemente e oportunamente. É justo que, em virtude da incapacidade de compreender, fiquem os rebeldes sujeitos à ordem divina e que assim eles, como merecem, não sejam salvos. Por outro lado, Deus iluminará os justos que lutaram e sofreram por Ele, para que nele sejam salvos.

 

Prepara-se hoje, dessarte, fatalmente, a seleção, anunciada em 1931 na primeira mensagem de Sua Voz. Assim, os justos de qualquer religião ou raça estarão de um lado, e os injustos, do outro. Isto porque a hora chegou em que os involuídos serão expulsos para ambientes extraterrestres para eles proporcionados e adaptados, onde eles possam viver de acordo com seu baixo nível de vida, e assim libertar o planeta de sua imunda presença, porque este deve, de agora em diante, progredir para tornar-se a pátria duma humanidade mais evoluída.

 

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Depois de termos esclarecido estes princípios gerais, o problema agora é o da sua atuação prática. Que deveríamos, então, fazer? Constituirmo-nos representantes do Alto, quer dizer, tomar sobre nós mesmos, poder e autoridade que podem ser entendidos como conquista de domínio pessoal, no regime humano da luta pela vida, a provocar no instinto dos excluídos a rebeldia. Abre-se, então, o caminho das rivalidades e inimizades, sobretudo para quem já possui este domínio, conquistado e mantido através de muitas lutas, e que não quer perdê-lo. Assim aconteceu quando o Cristo afrontou os sacerdotes do seu tempo. Nunca se pode esquecer que vivemos na Terra, num nível biológico perto da animalidade, onde predomina a Lei da luta pela seleção do mais forte, e que esta Lei fala poderosamente nos instintos fundamentais da nossa vida e por conseguinte invade tudo, reaparecendo, mais ou menos oculta, não só no fundo de todas as nossas comuns manifestações humanas, como também, nas religiosas e espirituais. Por isso, para não provocar esta luta de autodefesa, é preciso respeitar todas as autoridades terrenas e nunca procurar conquistar poder humano algum, que neste caso não interessa.

 

A salvação não se baseia sobre nenhuma força terrena, nem sobre algum dos meios de agressão e defesa atualmente usados e mais compreensíveis pelo homem. As armas devem ser interiores, as da bondade e da justiça. No caminho desta salvação será o primeiro, e, neste exército, será o melhor armado, aquele que tem mais bondade e menos da astúcia humana; aquele que for o mais justo, o menos egoísta; o que possuir as bem-aventuranças do Discurso da Montanha, que afinal deverá tornar-se realidade vivida.

 

O primeiro trabalho a fazer é o de ajudarem-se uns aos outros, ajudar os justos a reconhecerem-se, encontrar-se, a reunir-se, sem discriminar raças ou religiões. Isto para constituir um primeiro núcleo de justos, prontos não somente a pregar, mas também a praticar o Evangelho; para formar um primeiro grupo daqueles que poderão ser salvos por haver merecido com uma vida exemplar; para estabelecer um primeiro centro de atração para a constituição da nova civilização do III milênio. Tratar-se-ia, em outras palavras, de preparar, ante o quadro apocalíptico duma próxima destruição mundial, uma arca de salvação, para os tipos biológicos que, pelo índice certo de inteligência, bondade e retidão, demonstrem ser mais evoluídos, e por isso adaptados para representar a elite de hoje e a semente dum futuro melhor.

 

Eles já existem hoje, mas estão escondidos, porque em geral, humildes, estão afastados e espalhados, estão subjugados pelos menos escrupulosos e mais prepotentes. Assim, a parte melhor da sociedade humana fica inutilizada e constitui o que está menos valorizado no mundo. Mas, apesar disso, o futuro deverá ser melhor e por isso deverá ser confiado aos melhores. Os homens práticos sorrirão, céticos de tudo isso que, para eles, que conhecem o mundo, é absoluta utopia. Mas, é verdade também que o mundo construído por eles ameaça a cada momento desmoronar-se sobre eles mesmos e que ninguém tem o poder de parar o progresso fatal da vida. A história dos últimos tempos nos mostra quanto é fraca a sagacidade humana e como forças imponderáveis possam ter um incrível poder de destruição em todos os planos e aspectos humanos. E, se cada dia mais se revela que esta sagacidade não resolve, poderá também achar-se lógico que a vida, que não quer e não pode morrer, procure novos caminhos de salvação onde os velhos métodos fracassam, e aplique novas tentativas numa direção diferente, usando outros princípios.

 

Já tomamos conhecimento da hora histórica atual e do plano de Deus a respeito. Investigando por caminhos intuitivos, racionalmente controlados, foi mister concluir que acontecerá o que temos anunciado. Uma apocalíptica destruição está aproximando-se dentro desta segunda metade do nosso século. Fazer uma tentativa para salvar o que é possível não pode ser condenável e representa um dever daqueles que compreenderam o momento histórico. É lógico também uma tentativa com princípios diferentes daqueles do mundo, que nada até agora conseguiram resolver. E fazer tudo isso baseando-se em regras mais amplas e poderosas, que estão contidas na Lei que tudo regula, oferece maiores probabilidades de sucesso.

 

Nos conceitos gerais não há dúvida. Mas, cada ideia, logo que chegar em contato com a realidade da vida, isto é, com as forças inferiores, encontra-se com dificuldades. Neste caso podem falir os homens que primeiro lançaram esta ideia. Os chamados podem não compreender ou não responder. Então a ideia renascerá em outra parte, com outros homens que serão chamados e assim por diante, até que ela se realize. Hoje esta oferta é feita pelo Alto ao Brasil. Se ele compreender, a salvação será primeiramente sua. Quem deseja ter uma missão, deve mostrar-se digno dela. Cada conquista não pode ser atingida senão pelo nosso esforço. Se ainda não é possível conhecer antecipadamente o valor exato desta incógnita da equação, é possível, porém, conhecer os outros elementos, isto é, o que nos espera no amanhã, e nos resta o dever de tentar uma salvação, pois a ajuda de Deus não faltará para aqueles que procurarem realizá-la.

 

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Restringimos agora ainda mais nossas vistas para melhor concretizar as ideias no terreno prático.

 

O estandarte é Cristo. O programa é o Evangelho. Os princípios são: imparcialidade e universalidade. Por isso, procurar a verdade, antes de tudo feita de honestidade e bondade, reconhecendo-a onde quer que ela esteja e nunca condenando-a "a priori", só porque ela pertence a outros grupos. O fim é a unificação, não para constituir um poder central que se imponha, mas para formar um acordo entre pessoas diferentes também na fé e religião, mas que ficam unidas na simples filosofia da retidão, pelo liame que une todos os sinceros e honestos. Num mundo de guerras de todos os gêneros, de todos contra todos, a qualidade mais urgente a aprender é a aceitação de todos os pontos de vista também contrários, o absoluto respeito a toda ideia não prejudicial, respeito que se deve pelo fato de que um nosso semelhante a sustenta; aprender assim a parte da convivência, que constitui o alicerce da paz e da vida civilizada.

 

A consequência positiva está no ajudar-se fraternalmente, sobretudo na hora do perigo. A negativa está no afastamento dos agressivos, intolerantes, polemistas, que possuem o instinto da luta pelo próprio domínio. Tudo isso representa o velho tipo biológico, que no novo milênio será eliminado. Deve-se ao contrário ajudar a nascer e, quando já existam, reunir e proteger os exemplares evoluídos, que serão os cidadãos do novo mundo. Estes, congregando-se e defendendo-se reciprocamente, poderão melhor atravessar o cataclismo e sobreviver. Assim, o mundo de amanhã depois da destruição, achará não somente uma doutrina teórica nos livros, mas também um modelo de vida já por alguns vivido; uma semente pelo desenvolvimento de um novo tipo de civilização.

 

Hoje este tipo biológico parece, no nosso mundo social, estar condenado a ser eliminado. Talvez, as novas gerações olharão com vergonha o homem atual, este antepassado deles que subjugava os bons, julgando-os fracos, e que somente respeitava a força, desprezando o homem de bem e justo. A vida quer subir a formas mais civilizadas e, para progredir, favorece, quem luta para subir, contra o obstáculo oferecido pelos involuídos que querem permanecer atrasados. E na vida está escrita a lei da evolução, que está na vontade e no pensamento de Deus. É preciso superar a fase atual de estupidez, pela qual raciocina-se, entre os povos, matando-se, e o homem quer fazer do seu planeta um inferno. Ao velho mundo da animalidade deve-se contrapor um mundo mais refinado de espiritualidade; à força bruta deve-se contrapor a mais poderosa força da inteligência e da bondade, sustentada pelos recursos do mundo espiritual que, para quem os conhece e sabe aplicá-los, não são utopia.

 

Chegou a hora de cumprir esta grande obra. Ela é demasiado gigantesca para que um homem sozinho possa cumpri-la. Mas poderão realizá-la, unidos, os bons, com a ajuda de Deus. Terá direito à salvação quem quiser trabalhar neste sentido, colaborando com a vida, no seu esforço para construir um homem mais evoluído; ajudando-o a superar a sua atávica ferocidade e a estupidez da lei animal da luta e seleção do mais prepotente, para chegar a uma lei mais alta na qual o melhor, que se deve selecionar, é o mais justo, o homem da unidade orgânica da humanidade, e não o individualista egoísta, desagregador de toda a sociedade.

 

Estes homens evoluídos, que não brigam para dominar, e que não condenam também em nome de Deus, mas que vencem o mal com a não resistência, que é a estratégia do imponderável, proclamada pelo Evangelho, mas hoje desconhecida no mundo, estes homens de todas as partes surgirão e reconhecer-se-ão uns aos outros. Que eles, uns aos outros, abram os braços fraternalmente. O passaporte para entrar nesta nova terra do futuro está escrito com singelas palavras de honestidade na alma de cada um, que podem ser lidas na testa e nos olhos, que não podem mentir. Quem neste terreno procura enganar, engana-se a si mesmo.

 

Este é o plano de trabalho para os homens de boa vontade, quaisquer que eles sejam.

 

Repetimos que este plano é demasiado grande para ser confiado às forças humanas. E de fato é assim. Mas isto não nos autoriza a ficar preguiçosos. Aqui, quem guia, serão sobretudo as leis da vida, às quais, subordinados estarão aqueles homens, que saberão interpretá-las, não pretendendo eles dirigir e mandar, mas tornando-se humildes e obedientes instrumentos da vontade de Deus. Por isso eles não dirigem ou mandam, mas obedecem; não planejam, mas fazem parte dum plano. É lógico que um trabalho desta magnitude, não possa ser dirigido e sustentado senão pelo pensamento e vontade de Deus.

 

Concluímos com as palavras da já referida Mensagem do Natal de 1931, de "Sua Voz":

 

"Depois disso, a humanidade, purificada, mais leve, mais selecionada por haver perdido seus piores elementos, reunir-se-á em torno dos desconhecidos que hoje sofrem e semeiam em silêncio; e retomará, renovada, o caminho da ascensão. Uma nova era começará: o espírito terá o domínio e não mais a matéria, que será reduzida ao cativeiro. Então, aprendereis a ver-nos e escutar-nos; desceremos em multidão e conhecereis a Verdade".




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