Procuremos compreender ainda melhor, neste capítulo, a afirmação do precedente, confirmando-o com  novas considerações, que nos permitam completar a observação de outros pontos de vista. Vamos antepor esclarecimentos de caráter geral.

 

Já vê o leitor que, nesta obra, não expomos cegamente os resultados de uma intuição profética, mas que tendemos sobretudo a fazer uma construção racional, de índole histórica, com base nos princípios gerais, que deduzimos de um sistema em que eles já tenham sido demonstrados e colocados com lógica. A pesquisa histórica que aqui realizamos, sobretudo projetada no futuro, é dirigida, pois, com método positivo, racionalmente controlado, ao longo do fio do desenvolvimento de um processo lógico. Só isso nos podia dar garantia de seriedade e de maior aproximação possível do verdadeiro terreno dos acontecimentos históricos. Não desejamos, portanto, realizar aqui trabalho de adivinhação, nem dar prova de faculdades proféticas. Isso exorbitaria de nosso propósito, que é conseguir a orientação e a previsão mais provável dos acontecimentos futuros, com os meios mais positivos. Se nos guia a intuição profética, aqui é o que menos deixamos transparecer. Por isso, não usamos linguagem simbólica, mas a simples e clara da vida cotidiana. Temos a segurança dos princípios gerais, que aplicamos e tomamos como guia em  nossa pesquisa histórica. Mas, quando descemos ao particular, preferimos falar de probabilidade, ao invés de esconder o pensamento, numa linguagem sibilina ou figurado-simbólica, que parece feita para dizer sem dizer e é escrita em função de uma chave explicativa, à mercê dos intérpretes. Essa necessidade, para algumas previsões, de ter que recorrer a uma intervenção póstuma de especialistas na arte de resolver enigmas, não pode fazer parte de um trabalho positivo. A indagação do futuro, nos devidos limites e até certo ponto, pode ser feita também por via racional, a que é indispensável recorrer sempre, para controlar os resultados da própria faculdade de intuição, os quais, se tomados levianamente e sem discussão, podem muitas vezes confundir-se com a pura fantasia. Contra esse perigo, em que é fácil cair, estamos sempre em guarda.

 

Nossa força nesta pesquisa, consiste em ter atrás de nós um caminho já percorrido em muitos volumes, em que foi estudado o funcionamento das leis que guiam o ser em todos os campos. Nossa força consiste em poder hoje localizar esta nossa indagação histórica no seio de um sistema de que ela faz parte; consiste em poder, portanto, dar uma explicação lógica de cada conclusão nossa, obtida em função da solução já conseguida de tantos outros problemas. Só assim podemos fazer descer a inspiração no terreno racional de todos, tornando-a compreensível. Nossa força consiste em permanecer sempre unitários e unidos aos princípios universais, mesmo quando descemos, nos particulares, aos acontecimentos históricos no tempo. Parecemos, por exemplo, estar muito longe, neste volume, dos princípios de teologia do volume Deus e Universo. E no entanto movemo-nos na mesma ordem de ideias, e nossas conclusões atuais são apenas consequências daquelas longínquas premissas cósmicas. O todo permanece uma verdade una, quer tratemos da queda dos anjos ou da redenção de Cristo, quer tratemos da atual hora histórica ou do futuro do mundo, que se aproxima como nos mostra este volume. A unidade de pensamento e de visão é uma força, porque nos achamos diante de uma construção conceptual, em que cada parte se escora e se confirma em outra, e todas juntas reforçam a mesma verdade. Atrás de cada afirmação, ecoam muitas afirmações paralelas, coordenadas num só bloco, organicamente colocadas numa lógica única. Não se pode tirar uma pedra sem que desmorone todo o edifício. Mas, como fazê-lo desmoronar, quando a razão nos diz que cada pedra está em seu lugar certo, e cada conclusão resolve harmônica e organicamente um problema, que doutra forma permaneceria insolúvel? A mente que uma vez compreendeu estas explicações não sabe mais renunciar à sua satisfação e jamais poderia decidir-se a recair na ignorância e no caos.

 

Dessa forma, se este livro é um livro de inspiração profética, é também um trabalho de aplicação dos princípios científicos, espirituais, sociais, teológicos, dos nossos volumes precedentes, princípios transportados num terreno muito diverso, o terreno histórico. Tudo isso dá ao processo inspirativo, agora dirigido aqui no sentido profético, a força de método. Disciplinar racionalmente um fenômeno tão desusado e incontrolável em seu funcionamento, pode ser uma conquista útil, para facilitar sua compreensão e seu aperfeiçoamento, e torná-lo acessível a maior número de pessoas, tornando-o mais positivo, mais solidificado pelos controles, que, em geral, faltam. Fazer profecia positiva, manobrar a intuição colocando-a sob controle, admitindo a possibilidade de erro nas próprias capacidades perceptivas supranormais, mas circundando-o racionalmente para eliminá-lo o mais possível, enquadrar tudo num método que procede a fio de lógica, não é trabalho inútil. E isto queremos fazer aqui. Em verdade, a razão e a lógica não são suficientes, sozinhas, para prever o futuro, que só a inspiração pode atingir. Mas podem elas ser de enorme auxílio para escolher, controlar, eliminar, comparar e até prever, dado que não podemos excluir uma lógica, na sucessão dos acontecimentos históricos. Enfim, fazer da inspiração também um método de indagação do futuro, pode dar ao presente estudo não só um valor contingente, em função do atual momento histórico, como também um valor independente disso. Em outros termos, este volume pode servir não só para prever o futuro que nos aguarda, em função de nosso presente, e do passado, mas ainda para prever qualquer futuro, mesmo partindo de pontos de vista diversos, situados em outros momentos históricos. O sistema que aqui aplicamos ao momento histórico atual poderá, mudadas as condições de fato, ser aplicado a outros momentos históricos; porque, se as posições mudam, permanecem imutáveis os princípios gerais com que elas são analisadas, em função de seu futuro. De tal modo que, mesmo se as previsões deste escrito não se verificassem, ou apenas se verificassem em parte ou de forma diferente, ficará positivo o trabalho do estudo de um método de pesquisa histórica, baseado na intuição e controlado pela razão. Isto poderá ser útil a ulteriores pesquisas, sobretudo pela possibilidade de aperfeiçoamento do método, que poderia levar-nos a resultados mais perfeitos.

 

Outra razão induz-nos a apegar-nos a lógica, mesmo navegando em pleno processo inspirativo. O que constatamos foi isso, que o funcionamento orgânico do universo corresponde a um processo lógico, que é a Lei, a qual exprime o pensamento de Deus. E a história humana é apenas um capítulo do desenvolvimento do livro do ser, em que atua o divino pensamento. A História, pois, não só obedece a uma inteligência dirigente, como exprime o desenrolar-se de um processo lógico. Não achamos um fenômeno que não obedeça a uma lei. Não podemos admitir que o fenômeno histórico esteja isento dela, e que este, que é o caminho principal da evolução humana, caminhe agitando-se no caos. Devem existir metas precisas. E quando conhecemos a lei de desenvolvimento e a marcha de um processo lógico, mesmo que parcial e inicial, poderemos, por força da lógica, deduzir sua continuação e sua completação, pelo menos muito provavelmente, até atingir aquelas metas. Há uma trajetória de desenvolvimento em todos os fenômenos, inclusive nos históricos. Há um andamento que exprime a lei que o individua, estabelece sua natureza, traça seu caminho. Nossa tarefa aqui consiste em captar por inspiração o fio da lógica do pensamento diretivo da História, sobretudo o de hoje que mais nos interessa, para depois desenvolvê-lo analiticamente nos pormenores. Ora, cada lógica tem que ser um processo de desenvolvimento obrigatório ao longo de seu próprio caminho, tal como foi iniciado, o qual, segundo suas características no trecho conhecido, deve indicar-nos sua continuação e conclusão, mesmo no trecho a nós desconhecido. É assim que nossa pequena lógica humana, aderindo à grande lógica de Deus, que não pode deixar de ser lógico, poderá chegar à compreensão de Seu pensamento e vontade, e assim, só para fazer-nos Seus instrumentos de bem, prever os acontecimentos futuros.

 

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Retomemos agora a observação de nosso momento histórico. Parece-nos fora de dúvida, e consequência lógica de quanto dissemos acima, a existência real de uma onda histórica. Ela exprime as oscilações do pensamento diretivo da História. Deve-se a ela a valorização e o aproveitamento dos chefes dirigentes. Desse modo, ela eleva ou rebaixa os homens, como se fora o pedestal dos chefes. Esse pedestal pode ser tão alto, que ajude um pigmeu a parecer gigante; e pode ser tão baixo que faça um gigante parecer um pigmeu. Em grande parte, são as forças do destino de um homem ou de um povo, que lançam e valorizam homens e acontecimentos, forças mais poderosas que a vontade e que o valor de cada um. Mas, precisemos.

 

Se quisermos julgar com equanimidade e equilíbrio, teremos que dizer melhor: a onda histórica é o pedestal que pode destacar e aproveitar um valor sem o qual permaneceria invisível na sombra. Mas teremos que dizer, ainda: para ser grande homem na História, não basta um pedestal que erga um tolo, mas é necessário, outrossim, um homem de valor, que saiba dignamente trabalhar sobre esse pedestal. Com efeito, a História, da mesma forma que deixou à sombra homens de valor, ergueu às culminâncias nulidades, com um único resultado: aparecer bem alto, iluminado, e na luz a sua miséria. A vida produz na massa tal riqueza de tipos, que tem sempre à mão para escolher, o que necessita para cada função histórica. É possível mesmo que sua sabedoria chegue ao ponto de produzir, com antecipação, os homens que mais tarde lhe servirão, na hora própria.

 

Poderá parecer estranha, a alguns, esta nossa fé numa direção mais inteligente, através de um pensamento superior, presente nos acontecimentos históricos. Mas é evidente: não podemos, absolutamente, acreditar que o caminho da História seja abandonado às diretrizes contrastantes de cada um, que sozinhos apenas gerariam o caos. E não há caos nos fatos, porque, apesar de tudo, a História caminha e o mundo evolve. Tudo isso, dado que corresponde a um plano inteligente e orgânico, não pode ser trabalho do homem, que se propõe objetivos totalmente diferentes, pessoais, e não coletivos. Quem seria então o autor disso? É essa vontade superior, que escolhe os homens adequados, utiliza-os, enquadra-os num trabalho que eles não veem e que, no entanto, executam, os dispõe num desenho que só aparece depois, visto de longe. É assim que eles acabam fazendo o que não tinham intenção de fazer, começando de um lado e terminando no lado oposto. Dessa forma, eles pensam que vencem, eles, por si mesmos que dominam, mas ao contrário lutam com o destino que, no terreno social, é reapresentado pela vontade da História que os comanda. O homem luta por si mesmo, mas é a onda histórica, ao invés, que o arrasta para onde ela quer e só ela sabe. Quem compreendeu isso, tem a sensação tremenda da presença viva de Deus na História: um Deus que respeita a liberdade individual, mas jamais lhe permite ultrapassar o limite que lhe foi designado, alterando assim Seus planos. Que se tornam, então, os grandes homens comparados com isso? Podem eles seguir, livres e responsáveis, a própria vontade. Mas, são escolhidos e lançados de tal modo, que seu rendimento social e sua função histórica atuem de acordo com a vontade dirigente de Deus. Sua atividade pessoal está subordinada aos objetivos da vida, em relação ao grande organismo coletivo, de que eles são células. Tudo dessa forma, em última análise, reduz-se a um instrumento mais ou menos perfeito e obediente, sempre guiado por Deus. Em nossa imperfeição humana, domina uma liberdade, que só pode ser filha do relativo, embora descida do mundo divino, do absoluto, onde tudo é perfeito e, portanto, determinístico.

 

A História adquire, então, significado bem diverso, se não a vemos na ação de cada homem, mas só no conjunto de suas atividades, ligadas, sem que eles o percebam, a um plano universal, o da vida que evolve. Então, a História, aos nossos olhos, resultará não mais feita pela ação de cada chefe, nem pelos acontecimentos da massa - elementos exteriormente desconexos - mas, apenas, pelo fio condutor de todas essas atividades e acontecimentos, fio que, só ele pode dar um significado lógico à História, que lhe assinala o desenvolvimento. Só assim poderemos compreender o pensamento diretivo da História e o porquê da sucessão dos fatos, sua conexão e a meta a que tendem. Só assim é possível, num terreno de pesquisa racional, prever os acontecimentos futuros.

 

A História, a quem nós, já agora, em base ao que dissemos acima, atribuímos uma personalidade, pode querer as revoluções, quando elas forem necessárias para o progresso. As classes dominantes, a fim de, definitivamente, garantir-se das vantagens conquistadas, recorrem à legalidade, disciplinando-as juridicamente como direito, no próprio sistema de ordem, crendo, com isso, que aquelas vantagens podem permanecer definitivamente incorporadas a elas. Dessa forma desejariam parar a História, apenas para favorecer sua egoística vantagem. Acontece, então, que a onda histórica se avoluma nas massas e, erguendo-se, despedaça essa resistência, ou seja, para liquidar as posições que não se desprendem dos homens, mata os homens. É constrangida a isso porque os homens quiseram amarrar a si mesmos, de forma indissolúvel, suas posições. Para destruí-las, eles devem forçosamente ser mortos, porque estão a elas ligados de tal forma que não podem ser arrancados. Não há outro meio. Se eles tivessem assumido posições destacáveis de suas pessoas, isso não seria necessário. Mas julgaram que dessa forma conquistariam posições mais estáveis e definitivas, e assim provocaram sua própria destruição, ao invés que uma simples separação, pois a onda histórica não pode deter-se. Se a aristocracia francesa não estivesse amarrada, como seu rei, a seus direitos, e pudesse ter sido separada, não teria sido necessário seu extermínio. Mas, ao contrário, estava tudo tão solidamente enlaçado à cadeia hereditária, que queria ser eterno. Só um extermínio podia quebrar tal cadeia. E o absolutismo dos dominadores punha os revolucionários na posição de rebeldes contra a ordem constituída, de delinquentes contra a lei. Daí proveio que, logo que estes tomaram a dos outros, foi questão de vida e de morte o vencer, destruindo o inimigo. Houve medo e perigo real. Não havia escapatória. Ou matar ou morrer. E, para não morrer, matar. Um dos dois tinha que morrer: ou a revolução com seus homens, ou o regime monárquico e sua aristocracia. Isso é uma verdade para qualquer revolução ou mudança de governo, e portanto interessa à hora atual, também. E é por isso que, a cada mudança de governo, ocorre a depuração, isto é, a liquidação dos supertíteres do regime precedente, depois que foram liquidados o chefe e a classe dirigente. É medo e perigo real. É questão de vida ou de morte, o destruir o inimigo até o último de seus sobreviventes.

 

Tudo isso poderia ser evitado se os indivíduos compreendessem a História e estivessem prontos a desprender-se de suas posições, quando ela o exige. E seria ainda melhor se eles não se colocassem nas condições de forçar a História a exigi-lo, pelo fato de eles não terem desempenhado sua função histórica para o bem e progresso coletivo. É essa sua incompreensão que constrange a História a forçar as posições, que eles, em seu egoísmo cego, quereriam deter em seu próprio e exclusivo beneficio, esquecendo que a vida deve progredir e que esta é a irrefreável vontade da História. É por isso que reis, chefes e classes dirigentes são assassinados e violentamente liquidados, com uma ferocidade que não seria necessária, se todos, tanto os homens do novo como os do antigo regime, compreendessem o trabalho que lhes pede a História e o soubessem executar, obedecendo a ela, de pleno acordo entre si. Mas, em sua ignorância, não sabem agir assim, mas apenas matar-se, num círculo vicioso de perseguições e delitos que depois devem pagar, aqueles que acreditam que, com isso, venceram. Quando surgem as revoluções e abatem a ordem precedente, é isso sempre o saldo devedor de uma velha conta, feita de abusos e injustiças, mesmo se tudo estava protegido legalmente e enquadrado numa ordem jurídica. A justiça formal e apenas aparente não pode ser suficiente para sustentar com estabilidade as posições sociais. Há outra justiça substancial, na vontade diretiva de Deus. E quando, pelo próprio egoísmo, não é ela levada em conta e se cai no abuso, o edifício da ordem vigente rui e não haverá força humana que consiga sustê-lo.

 

Hoje a burguesia capitalista, que suplantou, na revolução francesa, a aristocracia de então, para substituir à injustiça dos privilégios, a justiça da igualdade e liberdade, cometeu as mesmas injustiças (que agora paga) daquela aristocracia, permitindo assim o nascimento do Comunismo, que se subleva de novo em prol da justiça, ao menos teoricamente, cometendo na prática os mesmos erros, que igualmente terá de pagar. Assim se explica a divulgação dessas doutrinas, sejam elas aplicadas como o forem, e isso porque elas respondem a um novo impulso da vontade da História em direção da justiça. Se a burguesia tivesse usado justiça na distribuição da riqueza, se não houvesse repetido com a centralização capitalista os erros da aristocracia francesa, hoje as ideias comunistas não teriam achado nada a destruir, nenhuma justiça para impor, nenhum terreno sobre o qual prosperar. Essa é a lógica da História: os erros se pagam. Leis iguais para todos: para os homens da ordem, que se servem dela só para si e a desvantagem dos excluídos; como para os homens da revolução, que assaltam essa ordem com a violência; para substituir àquela, uma nova ordem, mas apenas em vantagem própria. Tudo isso porque, acima do louco egoísmo, em que os homens de todos os regimes se identificam, há uma vontade melhor, mais inteligente e poderosa, que dirige os acontecimentos e faz caminhar a História em sentido evolutivo. Tudo assim está enquadrado no mesmo processo lógico, os homens da ordem e os homens da revolução, e todos juntos sofrem, cada um por seu turno, ora passivos, ora ativos, o mesmo processo de purificação. Haveria um único sistema para evitar isso: todos se tornarem puros. Se o homem fosse tão inteligente que compreendesse qual é, a seu respeito - seja como indivíduo, seja como coletividade - a vontade de Deus, e se fosse tão bom que a aceitasse e seguisse, tudo seria perfeito e tranquilamente deslizaria, sem necessidade dessas intervenções cirúrgicas e de tão dolorosos corretivos. Mas o homem é um ser decaído. As razões teológicas do volume Deus e Universo dão-nos a explicação da ignorância humana e da necessidade de reconquistar a sabedoria, tornando a subir, na dor e no erro, a estrada da perfeição. Deriva justamente dessa posição do homem a necessidade de uma direção superior e inteligente do caminho da História, que, doutra forma, se desgarraria como um navio sem piloto.

 

O homem constrói edifícios sociais em ordens sucessivas, que ruem um após outro e ressurgem em outro mais evoluído e perfeito. Se a ordem precedente fosse perfeita e justa, não haveria necessidade de revoluções para destruí-la e sobrepujá-la com outra nova. São elas assim necessárias, e têm um valor negativo enquanto destroem, varrem o terreno, e ao mesmo tempo um valor positivo, enquanto semeiam o novo, que nascerá depois. Quando, na vida dos povos, se apresenta a necessidade dessa renovação, a sociedade entra num estado febril, e o pensamento e a vontade diretivas da História realizam a operação cirúrgica. Entram em ação numerosas forças, muitas vezes em conflito. Os instrumentos são os mesmos homens que, inimigos entre si, se castigam mutuamente. Se a lógica da História exige uma revolução, ela lhe abre as portas e a convida a entrar no corpo do velho regime. Da mesma forma que os micróbios patogênicos do corpo humano, assim a revolução experimenta a resistência e o valor dele, de tal modo que, se ele está ainda forte, resiste e vive; e se está fraco, perece e é destruído. A vida não quer os fracos, e submete ao assalto tanto os indivíduos como os povos, para que só os mais fortes sobrevivam. Nos alicerces da política, estão as leis fundamentais da vida. É assim que esta, da mesma forma que oferece a fraqueza orgânica de um indivíduo como um convite aos assaltos dos micróbios patogênicos, assim também oferece a fraqueza de um organismo social-político, como convite aos assaltos das revoluções.

 

É um fato, que, nas revoluções achamos muitas vezes na defesa do antigo regime um rei-fantoche. Existe quase que uma proporção entre o poder caudaloso da onda nova que deve, nos planos da História, derrubar, e a fraqueza do organismo que deve ser destruído. Há uma sábia dosagem de forças nos dois impulsos opostos, para que a nova, que deve vencer, tenha sua tarefa facilitada, quando esta faz parte dos planos da história. Se a revolução francesa tivesse tido diante de si um Luís XIV, não o teria derrubado. Se a revolução comunista tivesse achado pela frente um Pedro (o Grande) ou uma Catarina da Rússia, não teria vencido. Mas, ao contrário, acharam-se automaticamente em posição de superioridade, fácil diante do inepto Luís XVI e do manso Czar Nicolau. A vida ajuda todos os homens e movimentos que têm uma função biológica e deixa sem defesa os que não a têm. E pode ser também função biológica a de liquidar uma classe social dominante, um regime, quando não mais correspondem à utilidade da vida e sua eliminação seja necessária aos objetivos da evolução. Nos equilíbrios biológicos, até o assalto patogênico tem uma função. Qualquer pessoa pode verificar, mesmo em sua vida individual privada, que algumas coisas querem acontecer, e outras não, como se houvera nelas uma vontade, que resiste à nossa e é independente dela; ou seja, obedece a outras diretrizes, que não são as nossas, que nós desejaríamos impor.

 

Nascem as revoluções de um punhado de aventureiros, situados fora da lei, que assaltam o colosso da ordem já constituída. Quem ajuda e determina uma tão inexplicável vitória numa luta tão desigual? Poder-se-ia objetar que é a fraqueza do chefe ou do regime que determina uma revolução. Mas houve muitos reis e governos fracos, sem que por isso tenham surgido revoluções. Para havê-las, é necessário não somente essa fraqueza da velha ordem, como também a força nascente da nova. Para que haja renovação é indispensável esse encontro de posições opostas. Podem existir governos fraquíssimos, que por ninguém são assaltados, porque a História, nessa ocasião, nada tem que renovar. Podem aparecer ideias novas, que, no entanto, se chocam contra um governo forte que as sufoca. E nestes dois casos, a revolução não nasce. Mas, quando a hora renovadora de uma revolução soou e a História quer e está pronta para fazer um passo adiante, para subir mais um degrau da evolução, surge a revolução. Quem proporciona a fraqueza decrépita do velho regime, a inaptidão do chefe, de um lado; e do outro, o juvenil poder das ideias, as forças renovadoras e a capacidade revolucionária dos assaltantes? Quem nessas horas trágicas em que se renova a vida dos povos, dá um impulso, de um lado; e do outro, paralisa as resistências que poderiam detê-lo? E, no entanto, o velho regime tem em mãos todas as rédeas do comando. Como, naquelas mãos, elas não funcionam mais? Que nova força sutil é essa que em verdade, a imprensa paga não pode criar, que mina tudo interiormente, pela qual a velha máquina não funciona mais, o exército não obedece, o dinheiro não serve, tudo se rebela e a opinião pública se orienta por si mesma?

 

Quem governa os povos deveria conhecer esses imponderáveis, que sem dúvida são leis inteligentes, forças vivas. Falam por meio do subconsciente das massas e as constrangem a agir. Os chefes deveriam compreender, quando elas se põem em ação e, ao invés de impor sua personalidade, deveriam antes procurar compreender o momento histórico, para obedecer à vontade da História, em lugar de querer impor-se a ela. Isso porque ela é a mais forte e quem não se conforma com ela, seguindo sua correnteza, soçobra. Deveriam os chefes procurar compreender, antes de tudo, se a vontade da História está com eles; deveriam evitar engajar-se numa luta contra a vontade da História, pois jamais poderão vencer essa batalha, dado que o inimigo é infinitamente mais poderoso e inteligente que qualquer homem. E quando uma revolução é necessária, e portanto decretada pela vontade da História, os chefes da velha ordem deveriam compreendê-lo e retirar-se espontaneamente, sem opor inúteis resistências, que só podem levá-los a epílogos de sangue. Quantas dores e quantos danos poderiam evitar-se para todos, nas vidas dos indivíduos como nas das sociedades, se a conduta humana fosse guiada com mais inteligência! E aqui também temos que concluir como acima: o homem é um decaído. E as razões teológicas do volume Deus e Universo dão-nos a explicação da ignorância humana e da necessidade de reconquistar a sabedoria, tornando a subir, no erro e na dor, o caminho da perfeição.

 

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Baseando-nos nos princípios acima expostos, procuremos agora compreender a natureza e a posição da onda histórica que domina hoje o mundo, aquela que poderia ser chamada a onda que carreia homens e acontecimentos. Quais são as características de nosso tempo, e sobretudo das classes e povos dirigentes? Seus métodos e concepções dominantes revelam sua natureza. São práticos, utilitários, filhos de uma concepção materialista da vida. A arte, a música, a literatura e a pintura contemporâneas, tudo o que pode exprimir o que é a alma e sua elevação, se apresenta negativo, isto é, caminha não em subida, mas em descida, não é construção, mas destruição de valores. Espiritualmente, o mundo considerado civilizado está em fase de dissolução. Não nascem mais os gigantes do pensamento e, quando nascem, ou se adaptam ou morrem. A simplicidade, que é a forma das grandes horas e dos homens e povos que têm algo de importante a dizer, já desapareceu. A madureza da civilização europeia já avançou até o bizantinismo vazio, até a sutilização complicada, sem conteúdo real. A civilização adiantada demais, traz um excessivo aperfeiçoamento da forma, em dano do conteúdo. Assim os gregos não podiam compreender a simplicidade retilínea de um São Paulo, que falava no areópago. A maturação excessiva se torna, em dado momento, putrefação e o fruto maduro demais não nutre, mas envenena. A simplicidade, que é a primeira qualidade da verdadeira grandeza, não existe mais na época atual, está perdida atrás de cerebralismos artificiais, atrás de uma riqueza e complexidade de formas, com que se procura esconder o vazio interior e a tristeza de uma produção espiritual que nada diz à alma. O simplicismo na arte é artifício, o seu primitivismo é fingimento. As próprias palavras não têm mais seu simples significado ordinário, e só se tornam acessíveis, em seus valores recônditos e enigmáticos, sob os quais nada existe, a uma classe de iniciados.

 

De nada adianta verberar tudo isso. Podemos apenas constatar que é essa a psicologia dominante, que é essa a corrente em que caminha a maioria. É assim o homem de hoje e essa é sua estrada. Quem pode detê-lo? Esta é a onda do mundo civilizado de hoje, que domina a Terra. Ela é o resultado de processos milenários. Como lutar agora contra essa onda histórica? Não lembra ela, a que dominava o Império Romano, nos tempos de Cristo, quando ninguém mais acreditava nos deuses? Ou a da vazia e madura civilização da aristocracia francesa, à véspera da revolução? O materialismo religioso, tal como o capitalismo egoísta de hoje, não é essencialmente o mesmo de então, e não cometeu e comete os mesmos erros? E contra este último, não se está levantando, em dimensões proporcionais aos novos tempos, uma revolução semelhante, da parte de todos os deserdados do mundo, que se preparam para o assalto com os mesmos métodos destrutivos e violentos que na revolução francesa?

Ao invés de fazer um sermão, já agora inútil, ou de profetizar a desgraça aos cegos e chorar sobre o futuro do mundo, preferimos analisar o fenômeno, para demonstrar nossas conclusões pela lógica. E isto especialmente porque a racionalidade é uma das qualidades do espírito em que o mundo de hoje ainda acredita. Admiram-se hoje mais os grandes matemáticos do que os santos, os cientistas que fazem descobertas do que os homens bons e puros que amam o próximo. As potências da civilização só destilam hoje os valores da intelectualidade. Até a arte, o coração, o sentimento se tornam cerebrais.

 

Não se tem mais fé nos valores do espírito, mas nos do progresso técnico. Acredita-se cada vez mais na máquina. No entanto, o progresso material se paga com carências espirituais, as hipertrofias nos equilíbrios da vida implicam correspondentes atrofias. O progresso técnico é, não resta dúvida, uma grande conquista. Mas, quando para obter essa conquista se atrofiam os recursos espirituais do homem, isso significa que ela nos custa a perda da luz das grandes diretivas, o que nos deixa perdidos, sem guia no caminho da vida. Quando a análise, mãe da técnica, supera a síntese, o homem desorientado não poderá caminhar senão por tentativas, ao acaso. E de fato, ele caminha por tentativas, sem uma perspectiva clara de seu futuro. A vida não se extravia por isso, pois já vimos que a História é sábia por si mesma e não necessita, em absoluto, da ajuda da inteligência do homem para progredir. É inútil, pois, pregar e advertir. Esta é a corrente do mundo de hoje: destrucionismo. É essa a onda histórica presente. Mas esta é apenas sua fase atual. Destruição que ela necessita para desimpedir o terreno para as construções novas. Estas virão amanhã, quando o homem, após lutas e guerras, já não será o mesmo que hoje é, e caminhará em outra corrente, levado por diferente onda histórica. Cada coisa está em seu lugar e só pode chegar quando for seu tempo. Destruir hoje para construir amanhã. Já vimos que a destruição do mundo atual é uma função confiada aos povos menos evoluídos, porque só eles poderiam realizá-la. E a reconstrução será feita amanhã por gente diferente, com psicologia e princípios pelos quais não se interessa o mundo atual.

 

Cada coisa está em seu lugar. Não desprezemos o progresso técnico. É uma conquista, não só porque nos liberta das necessidades materiais, como também porque desenvolve algumas qualidades do espírito, como a inteligência. Vêem alguns na máquina o instrumento de uma nova escravidão. Mas o homem teve sempre que lutar pela vida e esta é uma forma de luta muito menos pesada que as primitivas. Viver numa oficina, amarrado a uma máquina, ou num escritório, preso a um trabalho monótono, é muito menos duro que lutar contra as feras e os agentes naturais, nossos inimigos. Entretanto, pode parecer que isso atrofie as qualidades de iniciativa e livre criação individual. Mas isto transforma o indivíduo de um ser isolado contra todos, numa célula social, que aprende a viver num organismo coletivo. Além disso, lutar com uma máquina, requer muito mais qualidades de raciocínio e inteligência e muito menos prepotência e ferocidade, do que lutar contra o homem para assaltá-lo ou contra um animal para domesticá-lo. A máquina é honesta, dá-nos o que lhe dermos e não tem uma vontade egoística, rebelde à nossa. Ela obedece, não ao mais prepotente, mas ao mais inteligente. A máquina fará desaparecer o dominador pela força, e levará o homem a uma forma diferente de seleção, não a do mais forte ou do mais astuto, mas do mais inteligente. O progresso técnico imporá a necessidade de desenvolver essa qualidade superior, dado que na luta pela vida já se poderá vencer por esse novo caminho. Em outros termos, poder-se-á resolver o problema de vencer e viver, não pelos caminhos da força ou da astúcia, mas pelos caminhos da inteligência, que dará ao homem o domínio sobre as forças da natureza que, sujeitas a ele, poderão garantir-lhe a vida.

 

Mas estas serão realizações remotas; hoje, no entanto, o atual progresso técnico nos prepara para elas e abre-nos o caminho. O mundo necessita de cada vez menos ferocidade e mais inteligência, que é, sem dúvida, um meio para chegar à bondade. E a máquina não está contra essa transformação. A própria guerra se está tornando cada vez mais um problema de produção industrial e técnica e cada vez menos um problema de ódio pessoal contra um inimigo, que muitas vezes é hoje desconhecido e contra o qual não se nutre nenhum sentimento. Essa eliminação do ódio feroz e sanguinário é já algo, como progresso, considerando-se o que é o homem, que assim, ao menos, fica constrangido, na guerra, não tanto à ferocidade, hoje cada vez mais inútil, quanto ao trabalho cerebral de dirigir sua máquina de guerra. Não se poderia pretender hoje maior progresso. Além disso, o homem que mata, com a guerra mecânica, gente que ele não conhece, pode mais facilmente convencer-se da estupidez da guerra, em relação àquele que mata um inimigo para defender a própria esposa e os filhos. Mas, além disso, cada vez mais nos aproxima do fim das guerras o fato de que a técnica nos leva a tal poder destrutivo, que não se poderá fazê-la sem que todos fiquem aniquilados. Como se vê, a onda histórica que agora carreia homens e acontecimentos, se de um lado está destruindo, está hoje, por outro lado, semeando para o futuro. Com efeito, desenvolve a inteligência para chegar àquela sua forma superior que é a bondade; com a máquina liberta-nos da escravidão material e eleva o nível da vida; enfim, com a técnica bélica superdestrutiva, prepara-se a tornar impossíveis, no futuro, as guerras. Assim, sem sabê-lo, guiado pelo pensamento e pela vontade da História, o mundo está lançando as bases das novas construções do porvir.

 

Se a fase atual da onda histórica é o destrucionismo, não devemos ficar pessimistas por isso. Ao contrário, é justamente essa fase de destruição que preludia a sucessiva de reconstrução. É quase também de compensação e de equilíbrio. Podemos até ver francamente, na atual fase de destrucionismo, uma prova do próximo advento de uma nova civilização e uma fase preparatória. Parece-nos assim, seguindo a lógica do pensamento da História. Ela caminha por compensação de contrários, que se completam e equilibram em sua complementaridade, integrando-se reciprocamente, de modo que, da oscilação, resulta um único caminho de subida. Hoje não se trata apenas do ato de lançar algumas sementes novas, como vimos há pouco, no terreno da maturação dos povos, mas trata-se de um total e complexo movimento de forças, que estão prontas a ajudar essas maturações, assim como as estações, o terreno, as chuvas, o calor e tantos outros agentes concorrem todos ao desenvolvimento de nossas sementeiras agrícolas. É toda a onda que carreia homens, povos e acontecimentos, e que, depois de um período de descida e desmoronamento de valores, como o atual, deve reagir num período de ascensão e reconstrução de valores. Sem essa compensação, a História não seria mais construtiva. E, se o foi sempre, como poderia hoje não sê-lo mais, especialmente numa hora tão apocalíptica, tão grávida de sementes, impulsos e motivos novos, ao mesmo tempo que tão revolucionária e destruidora?

 

Para compreender tudo isso, procuremos penetrar mais no fundo do pensamento da História. A história humana é apenas um capítulo do desenvolvimento da vida, a qual é apenas um momento do processo cósmico, que se acha agora, para nós, em fase evolutiva. A Lei do ser em nosso universo atual é essa: evolver. Tudo ocorre em função dessa necessidade: o amor, a reprodução, a seleção, a morte, a caducidade de todas as coisas, a natureza relativa de nosso contingente em evolução, a instabilidade de todas as posições humanas, nossa contínua insatisfação etc. É assim que se explica um fato, que pode parecer estranho, isto é, que a vida se nutre de morte, se alimenta de destruição. Isto porque destruição é meio de renovação, e renovação é condição necessária para a evolução, suprema tendência do ser.

 

Compreendida essa lei geral, situada na lógica do pensamento diretivo de Deus, é fácil compreender a lei particular, segundo a qual ocorre que a História produza, nas revoluções. Com efeito, é por meio das revoluções que a História costuma gerar o que é novo, como se o tirasse da destruição do velho. Na realidade, isto é devido ao fato de que a vida é tão exuberante de germens que, logo que se forma um pouco de espaço vazio, ela está sempre pronta a invadi-lo para enchê-lo. Nesse sentido, a destruição é criativa para a vida, pois lhe permite a expansão. Quem compreendeu a inexaurível fecundidade da vida, que deriva do impulso do Deus imanente, presente em todas as partes, em cada fenômeno ou acontecimento, não pode admirar-se de tudo isso. A História caminha carregada de germes a desenvolver, de uma potência fantástica, e os lança a mancheias, ora aqui, ora ali, com a prodigalidade de que a vida é tão rica, à espera de que a maturação e a compreensão dos homens - único limite de sua fecundidade - permitam a ela, tornando-se instrumentos de realização, o desenvolvimento no terreno deles.

 

Que são, pois, as revoluções? É um fato, que, por mais que os homens se cansem em fixar, no direito e em ordens particulares suas posições, estas são sucessivamente desmanteladas pelas revoluções ou guerras, que são o único meio para renovar o velho e assim chegar a construções novas. As revoluções e as guerras - dois elementos afins e conexos - são, pois, o verdadeiro motor da História, seu aspecto dinâmico, os períodos de marcha; ao passo que a paz, as ordens constituídas, a legalidade, representam os períodos de estase da História, seu aspecto estático, as fases de assimilação e repouso. Perguntam-se os preguiçosos: por que essa necessidade de guerras? Por que essa instabilidade, esse esforço de renovação contínua? A resposta foi dada no nosso volume Deus e Universo, onde se explica que o homem é um decaído e, portanto, qual a razão de estar ele preso à necessidade de evolver. E como se pode evolver, isto é, passar de formas inferiores a mais complexas e perfeitas, senão através da dor da destruição e da fadiga da reconstrução? Num Universo, cuja lei fundamental é a evolução, não se pode parar: é necessário caminhar sempre. Existir quer dizer caminhar. Quem pára é sobrepujado pela corrente da vida e se esteriliza. A vida é corrida, renovação, criação contínua. Não teme destruições. Ao contrário, precisa delas. Em sua imensa fecundidade, a destruição lhe é necessária, para desimpedir o terreno e aí de novo semear, para progredir.

 

Não nos alarmemos. É assim o mundo. Guerras e revoluções representam seu impulso vital, que na destruição não perde nada. Nada pode perder, porque suas raízes prendem-se em Deus, inexaurível e indestrutível. Na destruição, parece a vida tornar-se mais viva, porque, logo que se verifica uma falha, ela corre a tapá-la. Isto no terreno social, tal como acontece com as células no terreno orgânico. As carnificinas das guerras, com efeito, reativam a fecundidade genética dos povos. Há conexão entre vida e morte, dois fenômenos de compensação. Assim, existe uma afinidade entre amor e revolução. Ambos são uma luta para vencer, um meio para criar, uma manifestação de juventude e virilidade e, no estado natural, ocorrem numa atmosfera de violência e destruição. São duas manifestações de potência renovadora e todos lhe saem ao encontro, porque isso interessa sumamente à vida, que nelas se reaviva e dinamiza. Os povos que despertam, fazem revoluções e guerras. Os povos fracos e cansados as sofrem de seus vizinhos. Para os indivíduos, como para os povos, a lei é a mesma. O povo, ou a classe social mais fraca, tal como a mulher, ficam vencidos e fecundados, recebem e assimilam. É pois lei de vida, que ocorram revoluções e guerras, as desordens para construir uma nova ordem das ruínas da antiga. É lei de vida, um periódico despertar para executar o esforço de fazer um novo passo à frente na evolução. É lei de vida o contraste entre tempestade e bonança, e a expansão vital dos povos fortes.

 

Na verdade, isso tudo poderia e deveria realizar-se sem violência, e assim ocorrerá numa humanidade mais civilizada. Se a atual ainda não o é, está ela justamente lutando e sofrendo para tornar-se tal. A História que guia tudo, confia, vez por vez, aos povos mais aptos essas funções renovadoras. Primeiro deixa os povos num sono aparente, em que ocorre a subterrânea maturação. Um dia eles explodem, para depois voltar ao repouso. A natureza, em sua sábia economia, poupa suas forças e não repete um impulso inútil. Coube a primeira ao povo francês, agora é a vez do povo russo. Realizado o esforço readormecerá este também, como aquele o fez. O fenômeno atual da Rússia Comunista representa o despertar de um povo primitivo, rico de energias elementares e poderosas, aptas sobretudo à função da destruição, para comprovar a resistência da civilização europeia. Pode comparar-se isto a um assalto de micróbios patogênicos contra o velho organismo desta civilização. Funções mais complexas não podem ser confiadas a povos primitivos, mais próximos ainda ao estado caótico primordial, rico de imensas energias, mas ainda não disciplinado pelo poder da inteligência, que é fruto de longa e laboriosa evolução. Por isso, na lógica do pensamento de Deus - que a nova Rússia ignora - não lhe podem ser confiadas senão funções destrutivas, próprias das explosões do caos, poderosa de um poder involuído e satânico. Tanto mais que essa dolorosa intervenção cirúrgica foi atraída pelas culpas da Europa e também da América do Norte, que, com suas próprias mãos, quiseram construir uma Rússia forte e inimiga, como uma vergasta para seu próprio castigo. Há nisto uma trágica e cega obediência a um destino de justiça, que todos têm que aceitar, porque está no pensamento de Deus e na vontade da História, não importando se os homens queiram ou não queiram admiti-lo e sabê-lo. A tão astuta política sempre esqueceu o peso enorme que tem o fator moral, mesmo no campo social, e ainda não sabe que, quem não liga importância a isso, pode cometer erros gravíssimos, que depois indivíduos e povos devem pagar duramente.

 

Assim, a História confia a vários povos, no momento mais adequado para eles e para a vida de todos, uma dada tarefa na evolução da humanidade: funções aparentemente negativas, mas, em substância, positivas, de experimentação e reconstrução de civilizações exaustas, de reequilíbrios de acordo com a justiça, de eliminações de classes dirigentes ineptas e parasitárias, de reações curativas de abusos, de fecundas reconstituições demográficas, preenchendo vazios em cada campo e reforçando fraquezas. Parece que a História manifesta, na direção da vida dos povos, a mesma sabedoria que a natureza manifesta na direção da vida de nossos organismos físicos: uma contínua ação materna, benéfica, protetora, compensadora e curadora, sempre atenta em fazer triunfar a vida. A ação da História não é a mesma ação da mãe-natureza, não é a mesma lei de Deus que vigia tudo e, com sua imanência, ajuda o todo criado no duro caminho da subida até Ele? Não é o mesmo princípio e a mesma potência da vida, por meio do qual tudo germina sempre e floresce?

 

A destruição poderá assustar o indivíduo, mas a vida não pode preocupar-se com isso, porque, no conjunto, a destruição não é estéril. Nenhum ato da vida, jamais, é estéril, nem mesmo a destruição. No âmago da morte está a vida. Por isso, a destruição é um ato de administração normal, é só uma forma, um meio de renovação. A vida é eterna, é princípio divino, portanto nada tem que temer. Bastaria haver compreendido esta grande verdade, para ser obrigado a admitir a indestrutibilidade de nosso ser e a impossibilidade, para a morte, de matar qualquer ser vivente. Cristo mesmo nos disse que quem procurar conservar sua vida a perderá, e quem a der, a ganhará. Não é conservando-nos apegados à forma que podemos viver, mas só mergulhando-nos na grande corrente ascensional do ser, em que está Deus, a inexaurível fonte de tudo. Cristo mesmo, que realizou a maior das revoluções, seguiu essa lei, pela qual a destruição é uma premissa necessária para a reconstrução. Assim, Ele teve que oferece-se em holocausto sobre a cruz. Eis porque o sacrifício tem um poder criador, a renúncia pode construir num plano mais alto, a dor nos amadurece e a morte é lei de vida. Bastaria ter compreendido este princípio universal para compreender a necessidade absoluta da paixão e da morte de Cristo, para a evolução do mundo.

 

Neste capítulo quisemos observar como funciona o pensamento e a vontade da História, primeiramente em sentido geral, e depois observando, no pormenor, a natureza da onda histórica, que guia os homens e os acontecimentos na hora atual. Tudo isso para chegar a esta conclusão: que a tendência atual à destruição, que existe em todos os campos, e o estado de revolução e de guerra em que se acha o mundo, representam justamente o índice mais evidente da reação complementar necessária para a reconstrução de amanhã; ou seja, representam a fase preparatória, após a descida para a subida da onda histórica, aquela que quer que chegue e se realize a nova civilização do terceiro milênio.




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