Deus e Universo

Observemos, sob outros pontos de vista e sob outro, aspectos, a estrutura do sistema do universo, para melhor compreender-lhe a perfeição. Esta representa o estado primeiro da criação: o Verbo, isto é, o estado α, um sistema espiritual pronto a transformar-se em ação, β, energia, e depois na forma concreta, γ, a matéria. Este é o estado em que nos encontramos hoje depois da queda, isto é, em um universo material. E nos identificamos tão profundamente com ele, que supomos ser esta sua outra parte corrompida todo o verdadeiro universo. Há, portanto, dois universos: o verdadeiro, de natureza espiritual, perfeito, e uma contrafação sua, imperfeita, o material, em evolução para a perfeição. O primeiro é o absoluto, imóvel; o segundo é o relativo, a caminho. Este tanto ascenderá que, no final dos tempos, se sobreporá ao primeiro e com ele coincidirá. Os dois universos existem para se fundirem porque são um só que se despedaçou com o desmoronamento e que agora volta à união. O Uno, fragmentado no multíplice, se reconstitui pelo princípio das unidades coletivas, refazendo-se com todos os fragmentos do multíplice no Uno. Este processo é possível porque os fragmentos permanecem intimamente ligados por um fio que é a imanência de Deus. O segundo universo, o material corrompido, não ficou só, não foi abandonado por Deus transcendente, Que continua a considerá-lo o Seu universo, e a trabalhar, no seu íntimo para restabelecê-lo. O quadro é completo, o sistema é perfeito.

Somente com este quadro completo, colocado diante de nossa mente, é que podemos compreender tantos fatos, de outra forma inexplicáveis. Essa é indiscutivelmente a estrutura atual do universo em que vivemos, são essas as razões que logicamente nos confirmam a gênese desse estado de fato. O dualismo universal é a primeira consequência tangível que assim verificamos generalizada e cuja origem não se pode explicar, a não ser com os conceitos acima expostos. Desde a cisão máxima - Deus e Satanás, ordem e caos, Amor e ódio, bem e mal, alegria e dor - até às mínimas coisas, cada unidade resulta composta de duas metades inversas e complementares. Já o havíamos afirmado, mas só agora podemos explicar a sua razão e sua origem. É um fato que não se pode ter unidade senão reunindo os dois contrários que a constituem, isto justamente porque, pelo princípio dos esquemas de tipo único, o motivo fundamental da cisão se repete do caso máximo ao menor caso, de modo que o motivo da queda retorna em tudo o que existe. Desta forma, o princípio fundamental do universo pode se observar em qualquer parte, onde quer que olhemos. E o fato de cada unidade só poder constituir-se em todos os casos pela união de dois apostos, indica-nos exatamente que a unidade do universo, atualmente cindido em matéria e espírito, isto é, o Uno não nos poderá ser dado a não ser pela união desses dois polos apostos seus.

Também o fato da ação humana assumir sempre a forma de luta, que está presente em toda parte, tanto que parece se este a único modo de afirmação, depende do conflito entre os dois princípios contrários do universo. Assim, a percepção não é possível sem o contraste entre dois contrários. Tudo que é pacífico, é estático, como coisa morta. E a gênese é luta e esta é criativa, por que é exatamente no contraste que os dois universos devem chegar a fundir-se, retornando ao Uno, centro genético.

Sem dúvida, é de grande ajuda para a compreensão do sistema do universo essa sua estrutura de repetição de esquemas, de modo que podemos reconstruir o máximo a partir dos menores, feitos à sua imagem e semelhança e que temos sob nossos olhos. Podemos, assim, avizinhar-nos da compreensão do Todo que, de outra forma, constitui para nós um sistema inacessível. Essa possibilidade, que aqui utilizamos largamente, seja para a indagação, seja para a confirmação, nos mostra um outro aspecto do universo  a sua organicidade.  Há no Todo uma grande harmonia e correspondência de partes o que o mantém unitário e compacto, não obstante a infinita multiplicidade das suas formas.  Essa compactação deriva do fato de que a sua diferenciação, a que a vida tende, é uma ramificação a que se inicia sempre na mesma raiz, onde está o tipo modelo da gênese que, embora se diversifique em particulares, permanece sempre aderente aos princípios fundamentais que tudo regem. Assim, o pensamento de Deus, que deu o primeiro impulso, ecoa no universo, chega e se repete em todos os seus recantos, por mais remotos que sejam. Quanto mais periférico for o ser, quanto mais se distanciar do centro, tanto mais o eco será amortecido e fragmentado em esquemas menores, mais relativos e mais particulares. Mas esse pensamento chegará sempre uno, na infinita multiplicidade, tudo atraindo a si e, assim, tudo, por mais pulverizado que esteja, se mantém ligado à unidade.

Quando um fenômeno, por evolução, chegou a produzir-se uma vez, esta nova posição se fixa na manifestação e o fenômeno, quase que por lei de inércia (misoneísmo), tem tendência a continuar reproduzindo-se  (a ontogênese recapitula a filogênese) com um ritmo constante, enquanto a elaboração evolutiva, devido ao impulso divino interior, que compele à ascensão, não o modificar ainda através de pressão e martelamento constantes, vencendo, assim, a misoneísmo, que quereria persistir na linha de idêntica repetição. Assistimos, desta forma, a um ecoar fenomênico, rítmico, musical, que mesmo nos contrastes mantém uma harmonia maravilhosa, que alcança características estéticas de suprema beleza. O dinamismo do universo assume, assim, formas que tendem a girar sabre si mesmas, em repetição. E isto se dá por outra razão também: o retorno é a único meio pelo qual o absoluto pode continuar a existir no sistema fragmentado do relativo, como um eterno retorno do espaço sobre si mesmo, como espaço curvo, e a única forma pela qual o infinito pode vir a existir no finito.    

Assim, conjugando os pequenos esquemas do nosso contingente aos maiores esquemas do ser, podemos explicar a razão profunda de tantas coisas que todos fazemos, sem saber e sem discutir, tomando-as por axiomáticas. Mesmo nós, em nosso dinamismo moderno, agimos por repetição, rodando apenas mais velozmente do que o passado, em torno dos mesmos pontos. Toda a nossa vida percorre e volta a percorrer sempre os mesmos círculos, repetindo vertiginosamente as mesmas coisas. Não nos colocamos em substância, senão lentamente, mas apenas turbilhonamos mais rapidamente. Se atentarmos para a imprensa, para o rádio, para o ciclo de nossa vida individual cotidiana e para o das grandes cidades, assim como para o da agricultura nos campos e para os ciclos históricos, verificamos que tudo é repetição, que nos movimentamos em  derredor de certos pontos, para ficar ali. Parece que, ao lado da curvatura do espaço, existe também uma curvatura do tempo, pela qual o que uma  vez foi feito tende a ser refeito (tradição), cientificamente voltado para si mesmo.

Mas o aumento de velocidade de rotação não é estéril, porque produz, um mais rápido deslocamento dos pontos de referência, a que significa produzir a elaboração evolutiva, que antes era mais lenta. Se tudo tende hoje a repetir-se sobre o decalque de velhos esquemas, fá-lo, no entanto, a maior velocidade com o resultado de elaborá-los e determinar mais rápida maturação de sua transformação. Isto, porque, encontrando-nos no relativo, não é possível mudar um instinto, uma ideia de nosso  “eu”, ou seja, mudar o seu esquema, senão com este processo rotário em seu derredor, através da longa repetição que nos transforma por meio da aquisição de automatismos novos em lugar dos velhos. Hoje corremos, pois, não por correr, o que para nada serve, mas para aprendermos a matutar-nos mais rapidamente, através de um acelerado ritmo de sensações e reações.

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 Voltemos, agora, a observar a estrutura do sistema sob o aspecto mais importante, que é o da sua grande perfeição. Faremos isto em dois momentos, nos quais esta é posta à prova e, por conseguinte, ressalta com mais evidência: primeiro no desfazimento da queda e, depois na mecânica da sua auto-reconstrução.

No primeiro caso, a perfeição a parece-nos na invulnerabilidade do plano que se realiza da mesma forma, não obstante o erro, persistindo intacto. O dano foi reservado somente à parte dos seres que o desejaram, prejuízo que, depois, em face da bondade inerente ao sistema, reduziu-se a escola instrutiva aos fins da reconstrução, em favor de quem praticou o mal. A perfeição do sistema revela-se exatamente nesta retomada e autocorreção, nesta sua arte de saber transformar um mal em bem. Isto demonstra que todo o sistema é feito de bem, tanto que nele sempre termina; ainda mesmo quando o mal possa ter-se originado em seu interior, ele sabe reabsorvê-lo por completo e reconduzi-lo ao bem. É justamente nesta luta entre o princípio negativo do mal, em que o sistema se corrompeu, e o princípio positivo do bem, que se vê que este último é dominante, mais poderoso, tanto que acaba vencendo. Este é o índice do valor do sistema que, apesar de tanto mal, o bem vence. Poderá parecer o contrário a quem vive imerso no momento de um caso particular. Mas assim não é nas grandes linhas.

O escopo, efetivamente, era levar o ser a Deus e em ambos os casos foi atingido. No primeiro caso, isso acontece por via direta. A criatura reconhece o Pai, ama-O, segue-O e se harmoniza com o sistema. Temos o seu triunfo espontaneamente, em plena liberdade. No segundo caso o fim é o mesmo, mas por via indireta. A criatura rebela-se, separa-se, cai no caos, fora do sistema. Por esse motivo ela sofre, aprende, expia, volve a subir e, se não deseja morrer, deve relutar no sistema, isto é, coordenar-se na sua ordem. Dessa forma, ela alcança igualmente a meta, tendo, todavia. de percorrer um caminho mais longo. O sistema triunfa, afinal. No primeiro caso temos o ser, que permanece inocentemente perfeito. No segundo, teremos um ser igualmente perfeito, mas que, chegando à perfeição através de uma via longa e dolorosa, conheceu o bem e o mal e se refez pelo sofrimento. No segundo caso a evolução produzirá um anjo que, através de todos os erros e dores, chegará a ser conscientemente perfeito, com uma sabedoria mais profunda do que a que possuía, se os anjos não se tivessem rebelado e se Adão não houvesse comido o fruto proibido da árvore do bem e do mal. Sem tão dura experiência a criatura também seria perfeita, mercê de um conhecimento diverso, mas, com ela, o anjo decaído e redimido se torna detentor da prova do lado oposto do ser, do negativo. O sistema é, pois, tão perfeito que, suceda a que suceder, o erro se transforma em conquista, a destruição em elemento criador, e o mal se transmuda em bem. Ele cria sempre a bem, mesmo no mal, na dor, mesmo através de Satanás. Tudo o que nele pode aparecer de negativo, devora-se a si mesmo, destrói-se por si e gera a bem. Assim, o sistema termina sempre na perfeição desejada. A primeira dada por um conhecimento intuitivo, sem a prova da dor; a segunda por um conhecimento experimental através do longo e estafante caminho da evolução. A primeira permanecendo intacta, imune à corrupção; a segunda, degenerando-se para depois curar-se. Não importa se o caminho é mais ou menos longo. Esta outra estrada conduz igualmente à meta.

A própria queda dos anjos pode ser atribuída mais à perfeição do que à imperfeição do sistema. Nas páginas precedentes assinalamos as seguintes palavras de Deus à criatura: "Ofereço-te a existência como um grande pacto de amizade".  (Cap. IV, "A queda das anjos"). O dom da liberdade, concedido por Deus à criatura, para que ela se Lhe assemelhasse, era completo. Ela poderia aceitá-lo, grata, como poderia ter dito: "Não! não aceito". A revolta foi o primeiro passo no sentido desta recusa, visto que a tentativa de existência autônoma era, mantendo-se negativa, uma primeira tentativa de não-ser. A insistência definitiva na revolta significava o desejo de anular-se, ou seja, a recusa em aceitar o pacto da existência. É lógico que quem não aceitasse a pacto ficasse fora do sistema, pelo qual, quem não aceita a existência se anula, retornando ao estado anterior à gênese, ao do não-existir. O existir significa a afirmação na alegria e o não-existir significa apenas uma negação crescente da alegria na dor; por que a ser, mesmo livre, prefere a segunda via?

Tudo, pois, no sistema, concorre para o seu bom êxito, para a triunfo do bem, mesmo o mal e o erro. Um sistema, expressão de um Deus perfeito, não podia deixar de ser perfeito. A lógica impõe, de modo absoluto, a presença dessa perfeição. De outra forma tudo se desmorona e nada mais se explica e justifica. E, no fundo do universo atual, mesma quando em parte continue ele caótico, vemos uma sabedoria profunda que rege a ordem e nela enquadra mesmo esse caos, regulando-o. E a verificação dessa perfeição que nos impõe confiança, porque nos diz que, tudo quanto a criatura faça é por Deus utilizado e guiado para o bem.

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Verificada a perfeição do sistema no desmoronamento da queda, observemos agora a sua perfeição, na mecânica da sua auto-reconstrução.

 O sistema de Deus é o sistema do ser, do "eu sou", do qual Ele é o centro. Dado este esquema do grande organismo, positivo, vemos que a rebelião tentou instaurar em  seu seio, para submetê-lo, um sistema de esquema oposto, do não-ser, o negativo que, sendo contrário, não podia representar senão a sua reviravolta, segundo a esquema da "eu não sou". Então, deu-se a fratura. De um lado, o sistema do esquema "eu sou", em Deus, do outra, um contra-sistema do esquema, o do "eu não sou", em Satanás. "Eu sou o espírito que sempre nega", diz Satanás, no "Fausto" de Goethe. E a sua verdadeira natureza, isto é, a estrutura segundo o esquema do "eu não sou , o princípio inverso, segundo o qual Satanás é construído, que lhe inquina o organismo até às raízes e a que o mina, sem cessar, impelindo-o à anulação. Observemos a mecânica desse processo.

Este sistema rebelde é formado de muitos “eu sou”  menores, que, ao invés de coordenarem-se hierarquicamente no sistema de Deus, quiseram isolar-se, formando uma hierarquia oposta de centros autônomos. Podemos imaginar o sistema positivo coma um processo giratório dextrogiro. Ora, esses elementos rebeldes, constitutivos do contra-sistema, podem ser imaginados como tantos outras centras menores que, em vez de continuar rodando nesse mesmo sentido dextrogiro, como impunha o sistema, harmonizando-se com o seu movimento e alimentando-o com o próprio impulso concordante, puseram-se a girar em sentido oposto, sinistrogiro, contra a corrente, opondo-se ao seu movimento, na tentativa de gerar, assim, um movimento contrário, através do qual pudessem dominar o primeiro, para impor o próprio. Puseram-se, dessa forma, a agir como freio e não como impulso, intentando inverter a rota das trajetórias, iniciou-se a desordem, a revolução tendente a transformar a ordem em caos, fenômeno que daí por diante passou a repetir-se de acordo com a mesmo esquema, ainda que em escala menor, estando sob nossos olhos e reproduzindo o mesmo princípio, quer na campo espiritual, quer no campo material, pois que ele continua o mesmo, agora como então. Os dois campos são conexos. E como a criação física procede do pensamento, também o caos espiritual pôde logo transformar-se em caos físico, do qual nasce e continuamos a ver nascer o nosso universo astronômico.

A pretensão era inverter o sistema. Mas esses elementos não eram o centro. Eram planetas e não a sol. E por mais que se coalizassem em um contra-Sistema, não passavam do que eram, isto é, centros menores, elementos periféricos. Por mais que pretendessem ser sois, eram apenas planetas. Era, pois, impossível que o contra-Sistema pudesse vencer o sistema. Não lhes restava, então, outra possibilidade, senão a de funcionar como resistência, quais massas negras em um sistema de massas brancas.

   Continuemos. Resultou daí um atrito que representa permanentemente a luta entre o bem e o mal. São estas as duas forças sempre em ação. O único sistema originário, positivo, transformou-se, então, reequilibrando-se, em um duplo sistema, isto é, no conhecido dualismo universal, que vai do plano espiritual ao físico, sistema que podemos conceber como  uma quantidade de massas negras navegando em um organismo dinâmico de massas brancas. Mas estas são mais fortes, porque o centro é branco. É, porém, negro o anticentro, em torno do qual gravita a Anti-Sistema.  Mas esse pela própria natureza só pode ser um centro negativo, isto é, periférico, uma paródia de princípio, um absurdo geométrico, que exprime exatamente, também no plano físico, a ideia negativa do "eu não sou". Este é Satanás!

Agora que, com esta representação, uniformizando-nos com uma lei de analogia, pudemos transportar para um terreno mais concreto a conceito abstrato da revolta dos anjos, vejamos o que sucedeu.

Estão em luta as duas forças, bem e mal, mas não perfeitamente iguais. Há uma superioridade pelo fato de que o bem é o centro, posição da qual a revolta não o pode despojar. O atrito desgasta os dois elementos, arrebatando do "eu-centro" fragmentos da sua parte periférica, detritos de substância, quer espiritual, quer dinâmica, quer física, segundo o plano em que se observa o fenômeno.  Isto porque o modelo de cada elemento é feito de centro e periferia, repetindo-se, assim, no caso menor, o esquema do elemento máximo centro-Deus. Desta forma, quanto mais fortes a choque e o atrito, tanto mais acentuado o desgaste, a que redunda em pôr sempre mais a descoberto a natureza do centro do sistema de cada elemento, ou "eu", que, assim, quando se trata de uma massa branca, se faz sempre mais branco, e, quando se trata de uma negra, torna-Se cada vez mais negra. O resultado da luta e atrito é, pois, intensificar e fazer aflorar as características, a verdadeira natureza de cada um. Assim, na luta o anjo se torna sempre mais anjo e o demônio sempre mais demônio, o santo se aperfeiçoa e ascende, o mau piora e desce.

Esse atrito é dor para ambas as partes. Mas a natureza íntima, tão diversa para os dois tipos, faz com que as seus efeitos sejam apostas como esses tipos são apostos. Podemos ver o processo repetir-se na Terra, entre os seres que, tendo já percorrido um certo trecho do caminho da ascensão, se acham mais próximos dos elementos brancos. Sua dor, que decresce com a subida, é bendita e confortada por Deus, repleta de esperança e sempre mais viva. Ela integra um sistema positivo, em que a dor está desaparecendo, enquanto o problema da felicidade se encontra em vias de solução, porque a vida está caminhando para Deus. Mais acima, os anjos não decaídos se apresentam imunes à dor, que adeja em torno de seus espíritos incapaz de excitar neles as ressonâncias dolorosas a que a nossa natureza corrompida não pode fechar as portas. Contrariamente, a dor dos espíritos inferiores, que permanecem na revolta, é maldita, sem conforto, de esperança cada vez menor, dor que aumenta em cada queda do ser. Ela faz parte de um sistema negativo, em que a dor se potência e a felicidade se afasta, porque a vida está caminhando para Satanás. Duas dores apostas, em sentido oposto. A do santo é sacrifício útil, construtivo, de que se colhem frutos. A do mau é amarga consequência da destruição, que a carrega mais de ruínas. A dor do santo bendiz e cria; a do mau é feroz e destrói.

Podemos agora imaginar essas correntes sinistrogiras do mal, navegando às avessas no sistema, em contrário ás dextrogiras do bem. Qual delas vencerá? Indubitavelmente a branca, porque é mais forte. A revolta padeceu  de um erro fundamental de estratégia: o de haver confundido semelhança com identidade  Deus na Sua bondade para com a criatura e por amá-la, fizera-a semelhante a Ele, mas não idêntica, isto é, da mesma natureza, mas não da mesma potência. A própria estrutura do sistema  implicava que Deus permanecesse centro, posição que nem mesmo Ele poderia ter cedido, ainda quando a Seu Amar a tivesse desejado  porque então o sistema inteiro ter-se-ia alterado. O erro dos rebeldes estava justamente inserido em sua natureza egocêntrica de "eu sou", como uma consequência sua, direta, pais que consistiu em sua dilatação exagerada, a ponto de iludir-se, acreditando que semelhança pudesse vir a ser identidade.  Efetivamente a ela nada faltava como qualidade faltava um pouco somente como quantidade. Foi essa quantidade que o orgulho admitiu que pudesse criar, por meio da potência do próprio "eu sou", retirando-a desse “eu” já tão divinamente poderoso. Enganou-se, porém. Era absurdo o que pretendia.  Mas a identidade estava ali, a meio passo, tão vizinha da semelhança que o "eu sou" da criatura deixou-se arrastar pelo instinto inato de dilatar-se. Quis nivelar-se a Deus e, ao invés de engrandecer, estourou. Eis o grande erro, causa da ruína. Tudo é lógico e compreensível, especialmente a nós, criaturas hoje numa situação que é oriunda desse erro e pelo qual, com tanta frequência, somos ainda levados a repeti-lo, iludidos pela mesma ilusão psicológica e colhendo os mesmos frutos dela.

Isto esclarecido, podemos indagar: através de qual técnica a sistema é tão bem capaz de reconstruir-se? A resposta, para ser dada, exige que, prosseguindo o exame iniciado, perguntemos ainda aonde vão findar, a que ponto do sistema se dirige aquela parte de substância que, no atrito e na luta, se destaca da periferia dos "eu" componentes? Ela assumirá naturalmente o sentido dextrogiro, que é a mais forte no sistema, em virtude de ser a única alimentada pela irradiação dinâmica do centro - Deus, positiva e que está pronta a atrair e arrastar em sua órbita tudo quanto ainda não se mantenha unido à corrente aposta, visto que o contra-Sistema também possui o seu anticentro, antagônico, de ação inversa, cuja irradiação é negativa, obscura, destruidora, atração invertida, que repele.  Tal é Satanás.  A substância, assim repelida pela atração negativa do anticentro, inverte a sua direção tornando-se positiva, a favor do sistema positivo. (O primeiro germe destes conceitos encontra-se no capítulo X -  "O Problema do Mal" - do volume A Nova Civilização do Terceiro Milênio). Sucede, então, que essa poeira de substância, que se destaca, é atraída para Deus e inserida no circuito positivo do sistema, com este resultado final: o contraste entre os elementos dos dois sistemas apostos só pode operar no sentido de um desgaste e empobrecimento crescente de substância do sistema negativo, em favor do sistema positivo, que cada vez mais ganha em substância. Isto conduz o processo fatalmente a propender para o aniquilamento do sistema negativo e domínio absoluto do sistema positivo. Como se vê, esta realidade é inerente à natureza do sistema positivo, o primeiro a existir e o último a triunfar. O princípio e o fim vêm, assim, a coincidir no imóvel absoluto do Deus transcendente. Que está fora da forma e do tempo, independente da Sua manifestação no universo criado. Em conclusão, podemos afirmar que não há dois sistemas iguais e contrários, mas, no fundo, um único sistema: Deus.

Eis a maravilhosa técnica do processo de auto-reconstrução do universo. Tudo desmoronou no caos, mas a caos sabe reconstruir-se na ordem. Que melhor prova existe para a imanência de Deus? O princípio positivo não abandonou o Anti-Sistema negativo. De que outra forma poderia este, feito de substância negativa somente capaz de destruição, reconstruir-se, isto é, agir inteira e contrariamente à sua natureza? Assim, se o processo evolutivo realmente funciona e determina o bem, o mal deve estar em decréscimo. Ele, vivendo, desgasta-se e tende a morrer. O bem, ao contrário, com a vida, revigora-se e tende à gênese. O mal pode parecer em crescimento, num determinado ponto do universo, como a Terra, em consequência da ascensão e chegada de elementos inferiores. Mas, no todo, o mal, com a existência, devora a si mesmo, em razão da própria natureza e estrutura, e só mediante esta condição pode existir. O mal, como o bem, no universo, assim como na Terra, não está uniformemente distribuído e o aparecimento local do fenômeno pode iludir-nos quanto ao seu destino real, que está fatalmente traçado.

E, então, surge naturalmente em nós uma última pergunta: qual a sorte final dos espíritos maus? O seu sistema os conduz automaticamente ao aniquilamento, que representa o seu triunfo, a morte da alma, verdadeiro inferno eterno, porque, para o ser, a pena máxima está no não-ser. E a criatura que renega a Deus, não pode ter outra sorte. Mas, será possível que um ser livre queira, em seu prejuízo, fazer da liberdade um desastroso uso? Será possível que ele queira agir tão loucamente, que possa resistir à tortura crescente da dor máxima, que é a agonia espiritual, sem mudar de rumo?

O universo é um organismo em que, como no corpo humana, uma solidariedade de todos os elementos componentes compele as células sãs e mais evoluídas a tentarem todos os meios de conseguir a cura ou salvação das células patológicas do sistema, que fazem dele um ser enfermado de rebelião.  Será possível, então, que a ser possa resistir a todas as infinitas ocasiões que se lhe oferecerem, possa resistir a todas as amorosas solicitações e amparos, através dos quais os espíritos bons e eleitos se prestam a sacrificar-se por amor à redenção daqueles seres que se transviarem? Será possível chegar a tamanho absurdo?

Se isto se der, então o ser, que assim o quis, ficará no inferno eterno da negação da existência, em que o “eu” desaparecerá consumido em pó, e será refundido no sistema do bem. E, então, como havíamos concluído que não existem, na realidade, dois sistemas contrários, mas um só - Deus -, assim, também, podemos concluir que o inferno eterno existe como possibilidade, mas que, como disse um santo, não podemos estar certos de que nele possa haver alguém. Ele existe, pois como uma possibilidade teórica do sistema, sem que estejamos em grau de saber se esta pode transformar-se em realidade. (Este assunto será melhor desenvolvido no Cap. X: "A teoria do desmoronamento e as suas provas"). Sabemos, com certeza, apenas que Deus é a absoluta potência do bem. Devemos daí deduzir ser impossível que, ao cabo, o bem não sobrepuje todo o mal, tornando-se senhor absoluto. Se do mal restasse um átomo que fosse, o plano de Deus não teria vencido. Sabemos com segurança que Deus é bondade e que a criação é um ato do Seu Amor e que, pois, se um só átomo lhe escapasse, Seu plano teria falido. Sabemos, assim, que é impossível que, ao fim, a Seu Amor não vença a tudo e a todos, envolvendo no Seu amplexo todo o criado.

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A esta altura pode surgir uma objeção. É verdade que a universo está destinado à reconstrução e se reconstruirá. Todavia, se o sistema é perfeito, que garantia nos oferece ele que a queda não se repetirá? Observemos; a parte caída está, por enquanto, ligada ao processo evolutivo. Quem quisesse involuir, ao invés de evoluir, se exporia ao aniquilamento como individualidade própria. Estaria, pois, eliminado. Mas temos visto (e ainda melhor o veremos no cap. X), como o egocentrismo de cada "eu" deva terminar com a compreensão de que este caminho é contraproducente e desvantajoso, já que o ser está destinado à salvação.

Depois, há a parte dos espíritos não decaídos que se permaneceram puros por obediência, aplicando, em seu benefício, a sabedoria de Deus, que os guiava, estão agora assistindo ao calvário do ser decaído. Eles estão vendo as consequências do desmoronamento e têm, diante de tal exemplo, uma experiência própria adquirida indiretamente. Após essas duras verificações, é impossível possam pensar em repetir, com seu prejuízo, uma tão terrível prova, sob a qual estão caídos os espíritos seus semelhantes.

Ao termo do processo reconstrutivo da evolução, a parte dos espíritos caídos, agora redimidos, volta ao estado anterior através da experiência do bem e do mal, que serviu como exemplo para todos, inclusive aos espíritos não caídos

Todos, pois, acabam adquirindo  a mesma experiência. Ora, a parte redimida não  se cuidará de novas desobediências, porque provou as suas consequências. Ela conserva um conhecimento direto. A outra parte - os não caídos - tem um conhecimento indireto, reflexo. Não é possível haja novas quedas, embora todos permaneçam inteiramente livres. Chega-se, assim, a um determinismo superior: o do ser convicto, a quem o conhecimento ensina que só há um caminho, também livre, que se possa seguir e que é a adesão à Lei.

Podemos compreender tudo isto, reduzindo o fenômeno, que se situa para nós em planos inconcebíveis, às dimensões exíguas da razão humana. Aparece-nos, então, um novo aspecto da maravilhosa perfeição do sistema: o de que o mal causado pela revolta se transforma em bem, o que constitui uma experiência vital também para os não caídos, destruindo-se definitivamente "para todos" qualquer possibilidade de novas quedas.

Pouco a pouco a nossa descrição progride, a visão se faz mais completa, também no intelecto do leitor, ao qual estamos aqui fazendo uma exposição racional. Não quisemos conferir a esta uma forma sistemática, como sói acontecer quando se apresenta um processo psicológico de quem escreve, cristalizado nos seus resultados finais, sem demonstrar o seu desenvolvimento genético. Preferimos aqui começar a descrever a visão à medida que a observamos, de modo que o leitor pudesse seguir o desenvolvimento, segundo o qual ela, embora instantânea em sua natureza, apareceu progressivamente em nossa mente. Assim procedemos, não só para facilitar a compreensão, mas também para facilitar ao leitor acompanhar igualmente o fenômeno psicológico do registro da visão, como na realidade ocorreu. Tudo isto, porque, não significa que, por não ser sistemática, a exposição não possua um encadeamento lógico, porque toda a  visão  é substancialmente um processo lógico.

Certamente, a psicologia racional, que é a forma da mentalidade hodierna e, por conseguinte, da maioria dos leitores, está muito distanciada da forma mental intuitiva, por meio da qual as visões são percebidas. Por isso mesmo, procuramos sempre reduzir tudo aos termos da psicologia racional, a fim de colocar-nos no plano no mental do leitor. Em verdade, o crítico extremado poderia objetar que os dois princípios fundamentais - amor e liberdade - sobre os quais se eleva o edifício conceptual atrás exposto, são absolutamente incontroláveis. Eles aqui são aceitos como axiomas não demonstrados, consequência do método intuitivo.  Não é  preciso demonstrar a quem vê que a luz existe. Mas nós queremos aqui colocar-nos de acordo com a psicologia corrente. Limitamo-nos, pois, a aceitar a intuição apenas como hipótese de trabalho. Apresentar o pensamento sob esta forma significa torná-lo mais compreensível e aceitável, em nosso tempo. Podemos, assim, encarar toda a visão como uma hipótese de trabalho. Não importando se se trata apenas de forma. O importante é conseguir a exposição de um quadro completo e pormenorizado, que resolva todos os problemas do ser.

Continuando a proceder com esta psicologia, poderemos dizer que, só quando os fatos confirmarem a hipótese, é que a aceitaremos como verdadeira. Teremos, assim, assumido a atitude que coincide com a psicologia hodierna, e o leitor poderá, então, ler estes capítulos com esta mentalidade, sem que nada se altere. Permaneceremos, desta maneira, obedientes aos requisitos científicos da pesquisa. O leitor que ama e escolhe esta forma mental, deverá, porém, admitir que, se tal via fosse seguida pelo escritor nada teria quem sabe depois de quanto tempo! Se ele chegou logo à visão completa do quadro resolutivo e das conclusões, é necessário aceitar que isto só se deu em virtude do método da intuição e as concepções sintético-intuitivas, e não analítico-racionais.  A resultados tão amplos quanto estes não se chega nunca com a observação e a experimentação, através da hipótese e da razão.  É necessário admitir que conquanto  a solução dos últimos problemas deva aqui sei apresentada em forma racional, ela só poderia ser obtida por via intuitiva.

Pode-se objetar contudo que a intuição também está sujeita a enganos, necessitando ser  controlada.  Por esse motivo ela não pode ser erigida em método de uso corrente, mas é também verdade que o uso corrente bem pouco descobre de novo, limitando-se, frequentemente, a demonstrar e a aperfeiçoar o que foi apanhado pela intuição. Assim, só nos resta aceitar a intuição, quando o indivíduo sabe alcançá-la, submetendo-a depois ao controle, para verificar se os seus resultados coincidem com a realidade. Os exemplos que aqui aduzimos, retirados do mundo dos fatos, estão sempre em favor da visão. O leitor poderá buscar outros, contanto que cuide antes de compreendê-los bem e enquadrá-los no sistema, para verificar se há correspondência. Trata-se de colocar, como no quadro de um grande mosaico, cada peça no seu justo lugar para obter a imagem perfeita.

Por estas observações o leitor poderá compreender como a forma racional aqui usada é uma tradução da visão em uma outra linguagem, o da forma mental racional. Poderá, do mesmo passo, compreender que a psicologia de absolutismos axiomáticos, com que algumas afirmações são aqui feitas, não é uma inconsistente pretensão de verdade, mas que deriva da sensação do absoluto verdadeiro que se passa com todo aquele que contemple qualquer fato por percepção direta. Ora, quem aqui escreve não pode fazer sentir ao leitor esta sua sensação. Não lhe resta, assim, outro recurso que não seja o do raciocínio e da demonstração indireta, como àquele que tivesse de explicar a um cego um panorama que tenha diante dos olhos. O leitor poderá, assim, compreender quão estranho deve parecer a quem se encontra imerso em uma visão, ter de apresentá-la como hipótese de trabalho. Entretanto, ele deve saber exprimir-se também nessa forma, se quiser ser compreendido.

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Chegados a este ponto, podemos dizer que temos sob os olhos um quadro suficientemente completo da criação, para poder contemplá-lo no seu conjunto. Também A Grande Síntese nos apresenta esse quadro, mas dentro de limites mais restritos. Ela não vai além dos confins de nosso universo, não lhe aprofunda as origens. Comprovando a existência de uma Lei, cujo funcionamento e desenvolvimento estuda, não explica as razões pelas quais ele tenha tomado a sua forma atual. E de A Grande Síntese, o volume Ascese Mística só aprofundou e desenvolveu o estudo particular de uma fase da evolução: o superconsciente intuitivo, especialmente no misticismo. No presente volume a visão se dilata para além da criação atual, da qual se veem os precedentes, as causas e o significado, em um sistema mais vasto, qual é o sistema do absoluto, o sistema do Todo, o sistema de Deus.

Voltemos a contemplar a visão no seu conjunto, nos lampejos da síntese. O homem racional, positivo, poderá tomá-la como hipótese de trabalho, para fazer o seu controle nos pontos acessíveis ao homem, já que se trata de uma projeção analógica do esquema universal em nosso plano de existência.

Antes que qualquer coisa tivesse princípio, fora do tempo, nascido depois, existia Deus que foi, é e será sempre o Todo, ao qual nada se pode tirar, nem acrescentar, mesmo em sua criação, que não pode estar acima ou além, mas sempre, como Sua emanação. Sua característica fundamental era o amor, qualidade pela qual se exprime a natureza de Deus, princípio de que derivam todos os outros, primeiramente a liberdade do ser e, depois, as outras como o bem, a bondade, a harmonia, o poder, o conhecimento, a beleza. a felicidade etc., em suma, tudo o que de mais belo e melhor o ser possa imaginar. São princípios que o homem encontra instintivamente em si mesmo, aceita como axiomas e segue sem discutir, com ardente anelo. Ninguém necessita de demonstração para obedecer a tais impulsos, que são inerentes à natureza humana. Afinal, tudo isto faz parte do absoluto, que está além da razão, e da qual com esta só nos é dado controlar as consequências, em nosso relativo que no-lo confirma. Admitir o princípio de Amor, tudo o mais procede logicamente. À razão não pede mais do que admitir esse princípio, o que, aliás, é instintivo. E o quanto basta para o desenvolvimento lógico ulterior.

Deus, causa primeira sem causa, não tem princípio nem fim e tudo gera sem ter sido gerado. Deus simplesmente “é”, e tudo Ele “é”, não encerrado no limite de nenhuma dimensão. As várias dimensões nascerão depois, entre as quais o tempo e o espaço, apenas como limites do ser, enquanto Deus é o ser sem limites. Eis, então, que Deus transcendente, que “é” acima e independente de qualquer criação Sua, acima da atual, como de qualquer outra possível, eis que Deus realiza, com respeito à atual, a Sua primeira criação, feita de espíritos  perfeitos.  Ele destacou do Seu seio, por Amor, seres feitos à Sua imagem e semelhança, para amá-los, incluindo-os  na  Sua própria felicidade.  Isto ocorreu  segundo um sistema, cujos princípios fundamentais eram aqueles mesmos que observamos na natureza do Pai, que os gerara. Nesse sistema tudo era feito à Sua imagem e semelhança: Ele era Único e tudo encerrava, nada havendo fora e além Dele e dos Seus princípios e perfeição.

Ora, dada a liberdade do ser, inata no sistema, por ser da natureza de Deus, de que ele proviera, essa primeira criação perfeita degenerou, cm consequência da revolta examinada nos capítulos precedentes. Parte dos seres permaneceu íntegra, incorrupta e assim se conservou sempre, mantendo-se no sistema perfeito originário, por haver aderido livremente ao Deus transcendente, outra parte rebelou-se e, por isso, corrompeu-se. dando origem a um segundo sistema, derivado e  imperfeito, invertido, de  oposição a Deus, tendo o centro em ponto antípoda, em polo oposto, no anti-Deus, em Satanás. O sistema único cindiu-se então em dois - sistema e anti-Sistema - nascendo o dualismo de dois sistemas opostos, um perfeito e o outro imperfeito, não mais segundo um esquema de unidade íntegra, como antes, mas segundo um esquema de unidade cindida, que não pode existir, senão constituída de duas partes inversas e complementares, opostas e fundidas conjuntamente. De então por diante, a unidade não poderá mais ser obtida a não ser através da luta entre as duas partes contrárias, princípio universal, que encontramos por todos os lados. Essa é gênese do principio da unidade e dualidade,  sumariamente exposto em A Grande Síntese. Por esta razão, o nosso universo é construído de acordo com  esse esquema, desde o caso máximo até o caso mínimo.

Agora podemos compreender por que Deus transcendente e não somente pessoal, visto ser um  “eu sou”, da mesma forma que todas as criaturas feitas á esta imagem e semelhança, mas também  porque Ele pode ser considerado acima e independente de qualquer criação Sua, além do bem e do mal, isto é fora do esquema dualístico em que está baseado o universo atual. O dualismo nasceu com o referido desmoronamento do sistema em seu anti-Sistema e está destinado a ser sanado, representando, pois, apenas um momento na Divindade. Deus “é” sempre, antes do desmoronamento e depois da reconstrução, além deste período dualístico. No absoluto Deus “é” simplesmente uno, acima desta cisão, que concluirá na junção das duas partes e que, por isso, constitui apenas um episódio no divino e eterno existir.

Mas, então, foi justamente com o desmoronamento do sistema no anti-Sistema que se formou a contraposição - transcendência e imanência. Esta cisão do único aspecto, o absoluto de Deus, no de Deus transcendente e Deus imanente, representa justamente a cisão do Uno, que, como Uno absoluto, reúne em si os dois aspectos. Ele é ambos ao mesmo tempo, estando acima da cisão, sem poder ser um só deles, ou seja, não é exclusivamente transcendente, exclusivamente imanente. Desta forma, compreenderemos que a visão dualística, a do Uno bipartido, é relativa à posição do ser no universo atual e no período da cisão, não possuindo valor absoluto. Em outros termos, se encarado do seio de nosso universo, Deus pode parecer à criatura como imanente ou  como transcendente, isto é, poder ser concebido sob dois aspectos diversos, desde que saiamos do relativo para o absoluto, deveremos admitir a existência de Deus em um Seu só e único aspecto, que está além de qualquer dualismo e criação, ao qual denominaremos Deus absoluto.

O ser vive, presentemente, imerso na cisão. Se concebe a transcendência, é porque se coloca no aspecto imanência e, se concebe a imanência, é porque se põe no ponto de vista da transcendência. Uma presume a outra e ambas são complementares, como duas metades do Uno indiviso. O ser é incapaz de conceber fora de relações. Desaparecida a contraposição dos contrários, a sua percepção e concepção se anulam. Para compreender, pois, o Todo Divino, o Deus absoluto, é imprescindível compreender ambas as metades da unidade e depois reuni-las. Compreender de Deus um só aspecto, qualquer seja ele, significa atingir uma concepção falha e unilateral. Admitindo Deus apenas como transcendência, o ser se defrontaria com uma abstração, de tal forma destituída de expressão, que ela se confundiria no nada. O universo lhe pareceria, então, um autômato vazio de alma, um sistema estático, incapaz de reconstruir-se e reerguer-se até Deus. Admitindo Deus apenas como imanência, chegaremos a um universo através de um caminho sem fim, não tendo ponto de partida nem de chegada, teremos uma unidade despedaçada, sem possibilidade de reconstruir-se.

É necessário compreender essa descida do Deus transcendente na imanência em seguida ao desmoronamento do sistema. Quando este, por culpa da criatura, se cindiu em dois, Deus não quis abandonar o sistema invertido, conservando-se presente nele (imanência), para poder realizar assim a sua salvação, em um trabalho constante de reconstrução (criação contínua), pelo processo que denominamos de evolução. Deus, em perfeita coerência com o princípio fundamental do Amor, acompanhou o edifício desmoronado que permaneceu Ele mesmo, embora em posição invertida, um Deus em negativo, como se Ele mesmo se tivesse invertido. Desta maneira, Deus se faz, por Amor, imanente, e neste Seu segundo aspecto desce às formas, à criação, que assim se tornam em Sua manifestação ou expressão. Eis de que modo o universo é regido pelo pensamento de Deus (a Lei). No fundo do anti-Sistema está sempre o sistema, no fundo dos espíritos decaídos, está sempre a originária centelha divina. Não pode existir no universo nada que não seja Deus. Será um Deus invertido, mas será sempre Deus.

Aproximamo-nos agora de nosso mundo fenomênico, mais controlável pela observação. O desmoronamento do sistema é representado pelo processo involutivo que procede de α→β→γ ,isto e, do espírito á energia e desta à matéria. Assim nasce a matéria. Eis a criação de nosso universo dinâmico e físico. Compreende-se, pois, como esta não foi a criação originária, perfeita, operada por Deus mas apenas uma inversão e uma corrupção dela, operada pela criatura, e não por Deus, em razão da sua liberdade. Deus, porém, não abandonou o ser aberrante. Abre-lhe de novo os braços, apontando-lhe uma via de recuperação e redenção. Desta forma, Deus o aguarda no ápice do caminho oposto, o da evolução, que se processa de γ→β→α, o caminho de nosso universo, no plano físico e dinâmico, e dos seres mais evoluídos, como o homem, no plano espiritual (α). Eis por que o nosso é um universo em evolução e o motivo por que a lei de ascensão é a lei fundamental de nossa existência. Não basta, contudo, ter verificado o fato, como nos volumes anteriores. Precisamos compreender por que este fato existe nessa forma. Por isso a dor é herança da criatura, sendo a redenção, através das provas da vida, o seu necessário trabalho fundamental. Essa a razão por que Cristo desceu à Terra e por que Ele é a figura central na história da humanidade.

Podemos agora compreender o nosso universo. Ele é uma criação negativa, não a originária, mas uma segunda, derivada e corrompida, consequência da primeira. Aqui, o primeiro sistema se inverteu e o vemos revirado. Aqui, o espírito eterno e perfeito se precipitou na matéria caduca e imperfeita. O amor tornou-se físico, de corpos prontos a entrar em decomposição. Aqui, a existência eterna se despedaçou no ciclo em que gravitam como duas metades os dois opostos vida-morte, encerrados no tempo. A felicidade naufragou na dor, o espírito infinito se enclausurou no limite do finito. A medida originária, incorrupta do ser não é o tempo, mas a eternidade; não é o finito, mas o infinito; não é o relativo, mas o absoluto; e assim para cada qualidade humana, da qual só restaram ruínas. Explica-se, desta forma, por que o instinto mais forte e a maior alegria do ser sejam a superação do limite. É que eles significam a reaproximação do centro e o reencontro com o originário infinito.

O universo que a ciência estuda é exatamente este invertido, em que o Uno está pulverizado na infinita multiplicidade fenomênica do relativo.

Pretender reconstruir, com essa poeira conceptual, o princípio unitário e o esquema universal, a síntese máxima, tomando contato com o mundo fenomênico através da observação e experimentação, é simplesmente uma louca pretensão. É isto o que deseja fazer a ciência. Já em outra ocasião o dissemos, mas só agora podemos saber as razões de semelhante absurdo.

Uma das vantagens, e mesmo novidade, da presente concepção está em ser uma síntese, que pode fundir com um só sistema unitário o mundo físico e dinâmico ao espiritual, até agora inteiramente distintos, ignorantes, senão inimigos (ciência e fé) entre si, sendo o espiritual negado definitivamente pela ciência. Mas somente com estas concepções é possível compreender de que maneira o desmoronamento moral possa ter-se tornado físico; de que forma, de uma cinética de conceitos (revolta dos espíritos) tenha podido nascer uma cinética involuída, a da energia, que, por sua vez, se congelou na matéria. O desmoronamento é moral, enquanto permanecermos na dimensão a consciência. Ele torna-se dinâmico, quando o sistema involve na dimensão inferior (mais afastado de Deus) da energia. Transforma-se, finalmente, em físico, quando o sistema involve na dimensão matéria.

Eis como surgem e se resolvem múltiplos problemas, tanto espirituais como físico-matemáticos, tendo todos a mesma raiz comum, o mesmo tronco unitário que os coliga à mesma síntese e a um idêntico princípio.

Observemos agora as particularidades desse desmoronamento, que vai do espírito à matéria por uma linha contínua. Desta forma obteremos igualmente as características da fase atual, evolutiva, inversa da precedente involutiva, apenas com a reviravolta de posição. Para compreender o desmoronamento e o caminho por ele percorrido em descida, na demolição do sistema, é necessário que nos reportemos aos capítulos que tratam da evolução das dimensões expostas em A Grande Síntese (Cap. XXXVI: "Gênese do espaço e do tempo", e Cap. XXXVII: "Consciência e Superconsciência. Sucessão dos sistemas tridimensionais"). Em nosso universo, o nosso poder de concepção não abrange mais do que dois sistemas dimensionais trifásicos que, escalonados em direção ascensional (para Deus) ou evolutiva, são:

figura deus universo 0

Além destes dois sistemas está o inimaginável para a mente humana. Embora, como dissemos no início do Cap. VI ("Desmoronamento e reconstrução do universo"), o desmoronamento proviesse de dimensões superiores ao superconsciente, não podemos lhe traçar a análise, porque, ainda que se possa em parte atingir a abstração físico-matemática, o fenômeno nos escapa, porquanto dele nos foge qualquer possibilidade de representação.

Vejamos, pois, o processo de desagregação do sistema - a involução, que, mais tarde, retificar-se-á no processo oposto - o evolutivo. Movemo-nos, agora, apenas dentro dos limites de nosso universo, isto é, no interior dos dois sistemas dimensionais trifásicos, acima mencionados.

Eis que os espíritos puros, rebeldes, isto é, colocados em posição sinistrogira, no sistema dextrogiro, provocam uma contração ou curvatura cinética na substância, que estamos observando sob o seu aspecto de movimento. Inicia-se, então, o desmoronamento do ser ao longo da escala das dimensões. A intuição sintética (visão direta da Lei - pensamento de Deus), contrai-se na simples racionalidade analítica e sucessiva, à guisa de volume que se distenda em uma superfície. Então esta dimensão (consciência) contrai-se ainda na dimensão tempo, como uma superfície que se desfizesse em uma linha. Tais são as primeiras três etapas da descida: a superconsciência (espírito) transmuda-se em consciência (vida), e esta em tempo (energia). Mais para cima existirão outras fases e sistemas  dimensionais,  dos quais  e  através  deles o espírito pode ter sido precipitado, mas que não nos é dado conhecer. Assim, o sistema mais elevado, o IIº sistema dimensional é demolido, e a consciência, reduzida à linha no tempo, precipita-se ainda para os confins do sistema dimensional inferior - o Iº - e mergulha então no volume, que para ela significa uma não-dimensão, isto é, anulação como consciência. O espírito deixa, então, de existir como espírito, isto é, perde a consciência, anula-se como tal. Isto não significa a sua destruição, mas apenas a sua anulação como vida e consciência, sua atual forma de existência, em um estado de latência em que permanece sepultado.  Assim chegamos  à matéria.

Começa, agora, um segundo período de demolição. O volume se contrai na superfície, está na linha e esta se anula no ponto. Assim o sistema dimensional inferior é também destruído. Com isto anula-se o ser, não somente como consciência e vida, como foi atrás descrito, mas também como forma inferior de  existência, único meio que lhe restava no fim do desmoronamento do sistema superior, para continuar a existir ainda que em condições inferiores á da forma de vida. A matéria era o túmulo em que o espírito se sepultava como morto, em  letargia  Agora também, o túmulo se anulou, porque o sistema espacial foi anulado no ponto.

Procuremos compreender esse processo, repleto de ensinamentos, em qualquer campo.  Os capítulos acima mencionados (XXXVI e XXXVII) de A Grande Síntese nos explicam como se constroem evolutivamente as dimensões mais elevadas, erguendo-se das inferiores. Este é o caminho inverso ao que foi acima examinado; é o caminho de retorno. Abordemo-lo para assim percorrer o processo em todas as direções. O ponto é a dimensão espacial nula. O universo espacial, nesta fase, encontra-se no vazio. A 1ª dimensão, a linha, obtém-se elevando-se uma perpendicular sobre o ponto. Que queremos significar com tal afirmativa, além de qualquer representação geométrica? Queremos dizer que quando o centro do sistema, no seu aspecto cinético em que é aqui considerado, isto é, como movimento, irradia um pouco de si mesmo até o ser, transfunde neste parte da sua natureza e atributo. Então o ponto se move e desse movimento nasce a linha. É princípio geral que se passa da dimensão inferior à superior, em qualquer nível, através sempre deste mesmo processo, que, geometricamente, representamos como uma elevação da perpendicular sobre a dimensão inferior, pelo que esta é abandonada. Isto significa tão-somente um deslocamento, por imissão cinética, da dimensão inferior em uma nova direção fora dela, que a levam além dos limites que a constituem. Basta mesmo um pequeno deslocamento, contanto que se processe neste sentido, para que sejam superados os limites da dimensão inferior e alcançada a dimensão superior. Este é o significado que emprestamos aqui à expressão geométrica empregada - elevação da perpendicular - expressão que adotamos porque é concisa e de mais fácil representação.

Eis que a  1ª  dimensão linear atinge a 2ª - superfície, através do mesmo processo - perpendicular elevada sobre a linha, ou também, deslocamento da linha em uma nova direção, fora da precedente e, por conseguinte, do seu limite linear, e isto sempre por imissão cinética, por irradiação do centro do sistema, DEUS, motor universal. E facilmente imaginável, quer no sentido físico, quer moral, uma semelhante emanação, dinamizante e que, quando esta alcança o ser, qualquer seja o plano em que se situe possa imprimir-lhe um novo movimento, que o eleva à dimensão superior. E, da mesma forma, fácil imaginar que, quando, ao contrário, o ser é posto à margem de semelhante irradiação (veremos depois como), desenrola-se o processo inverso, que denominaremos abaixamento de perpendicular, isto é, contração de dimensão, pela qual ele cada vez mais se confina nos limites do próprio plano, dos quais antes se estava libertando. Nasce, assim, a superfície.

Atinge-se a 3ª dimensão espacial: volume, pelo mesmo processo. Eis o volume, estando completo o primeiro sistema.

Da mesma forma, pelo princípio de analogia e dos esquemas de tipo único, prossegue o processo da construção do sistema trifásico superior. No volume ou matéria, dimensão espacial completa, a superior 1ª dimensão conceptual é nula. Mas, elevando-se uma perpendicular sobre o volume, pela imissão do centro radiante de novo potencial cinético, o volume se move. Nasce a energia na sua dimensão tempo, a 1ª do novo sistema trifásico correspondente à reta. Os esquemas se repetem analogicamente nas fases correspondentes do sistema inferior ao superior, segundo os mesmos princípios. Chegamos, assim, à consciência linear, que não pode expandir-se ainda além da linha do seu transformismo e só conhece o seu isolado progredir no tempo.  Com o mesmo processo, que chamamos elevação de perpendicular, isto é, por imissão cinética, se atinge a consciência (vida) correspondente à 2ª dimensão do sistema espacial: a superfície. Fase subumana e humana, em que a consciência linear se deslocou em novas direções laterais e pôde percorrer, além da própria, também o transformismo de outros fenômenos; sabe distinguir-se deles, aprende a dizer "eu", projeta-se no exterior, observa e julga.  Estamos na fase racional analítica. Movendo-nos ainda em novas direções, por meio do que chamamos elevação de perpendicular, isto é, imissão cinética e novo movimento, entramos na 3ª dimensão do sistema conceptual, que corresponde ao volume. Atingimos o campo do espírito, da intuição sintética, da visão direta da Lei, do pensamento de Deus. Por tudo isso se compreende como seja a ação dessa irradiação do centro do sistema, isto é, a imanência de Deus nele, que opera a evolução, a reconstrução do universo, a sua redenção. Vemos, assim, que a originária lei do amor atinge toda a sua plenitude e como o ponto de partida, Deus, tudo reconduz ao ponto de chegada - Deus.

O exame desse processo nos exprime claramente o desenvolvimento do fenômeno. Podemos, agora, invertendo o caminho, melhor compreender o processo oposto, do desmoronamento, do qual pretendemos melhor ocupar-nos, observando-o mais de perto. O sistema é um edifício regido pela radiação dinamizante que emana do centro. Quando, na ordem universal dextrogira, se isolaram, pela revolta, os  elementos  que esta se tornaram  sinistrogiros, eles arvoraram-se em centro, com a pretensão de irradiar, mas só conseguiram fazê-lo no exíguo círculo dos seus satélites ou elementos sequazes. A grande emissão cinética dinamizante, emanada do verdadeiro e máximo centro, Deus, não pode agir para eles como impulso dinamizante. Pelo contrário, havendo-se eles tornado de sinal oposto, só pôde ela atuar como atrito, resistência, impulso frenador, isto é, como força, não construtora, mas demolidora do sistema.. Começou, então, ele a demolir-se automaticamente, plano por plano. Ao invés de expandir-se, contrai-se; em lugar de vaporizar-se, congela-se; e as mencionadas perpendiculares abaixam-se, em vez de elevarem-se. Tudo se inverte no negativo. Enquanto antes se passava para uma nova dimensão superior, por imissão, por irradiação provinda do centro, de novas qualidades cinéticas, e, pois, com um movimento em novas direções, agora, na fase involutiva do desmoronamento do sistema ocorre o contrário. Passa-se para uma nova dimensão inferior, não por suspensão da irradiação central, pois que Deus é sempre benéfico, para onde quer que irradie, mas por desgaste do anti-Sistema, em virtude justamente do atrito que essa irradiação benéfica nele sofre, de modo que o bem para ele, agora, em posição retrovertida, se transmuda em mal, a potência construtora em destruidora.

Sob esse impulso dinamizante, assim invertido para os anti-Sistemas em assalto destruidor (cuja culpa só lhes cabe, por se terem posto contra a corrente), eles, para continuar a existir, resistem, conseguindo-o através da contração crescente em torno do seu centro, "eu" do Sistema. A universal substância animadora do Todo, que agora observamos na sua natureza cinética, fica assim isolada nestes anti-Sistemas, fechados em si mesmos e arredados da universal fonte do ser: o centro - Deus. Não podendo ela mais alimentar-se do exterior, porque o anti-Sistema está fechado e isolado, a substância cinética busca alimento e vida restringindo cada vez mais em derredor do único centro do qual possa recebê-lo e que representa tudo o que lhe restou da divina potência de que se destacou. Mas ele não é Deus, e sim um centro menor, que se exaure. Abaixam-se, por isso, progressivamente, todas as perpendiculares, cuja elevação, sob a irradiação divina, permitirá ao ser subir para Deus. O movimento se retrai, involvendo; a substância tende a perder a sua originária e divina natureza cinética, para congelar-se em uma imobilidade crescente. Os anti-Sistemas ficam assim sujeitos a um processo de contração progressiva. E que significa contração? Significa sempre maior curvatura cinética, isto é, curvatura das trajetórias constitutivas do sistema cinético de que se compõem todos os seres, desde o plano físico ao espiritual. Eis a razão pela qual o espaço é e deve ser curvo, posto que ele não representa senão uma fase do ser, sujeito a esses processos. Eis por que a ciência pode falar de espaço em expansão ou contração. Eis por que também o tempo deve ser curvo e retornar inteiramente ao ponto de partida. Os retornos cíclicos e periódicos que se verificam por toda parte confirmam esse fato.

Agora podemos melhor compreender a técnica observada no fim do capítulo precedente, pela qual se dá a destruição dos espíritos maus, nos quais se personifica o mal. Eles são anti- Sistemas que se isolam e se imobilizam cada vez mais, por progressiva curvatura, até se anularem. Há uma descida de dimensão em dimensão, da fase superconsciência à nossa consciência racional, à fase de consciência linear (tempo). Deste modo, o espírito, reduzido de uma estrutura volumétrica à de superfície e, enfim, à linear, está definitivamente sepultado como consciência, anulado na matéria, sua última forma de vida, sem consciência. Ele pode continuar a existir assim, negativamente, ou então, desde que o deseje, inverter a rota para subir e evolver. A fase humana do mal não é a dos níveis mais baixos. Em qualquer deles, porém, o ser está sempre diante de uma alternativa: retroagir, voltando a subir para o bem e para o centro-Deus, ou então continuar a descer até ao aniquilamento.Neste último caso, por meio do habitual processo, abaixar-se-á a perpendicular, cuja elevação erguera da superfície ao volume, conduzindo de novo este, como por achatamento, à superfície. Depois se abaixará a perpendicular que elevou a linha à superfície, e esta, como que se achatasse, reduzir-se-á à linha.Finalmente se abaixará a perpendicular que elevou o ponto à linha, e esta, como que achatando-se, reduzir-se-á ao ponto. Estamos no final do processo. A contração se completou, o Sistema se anulou, todo o edifício se reduziu a um ponto, a uma não-dimensão. O núcleo, último reduto do Anti-Sistema, continuará ainda como rebelde sinistrogiro, girando sobre si mesmo. Mas, por fim, mesmo essa reserva cinética será destruída pelo atrito contra as radiações dextrogiras dominantes, e esta última substância componente também será retomada na corrente positiva do ―eu sou. É desta maneira que os anti-Sistemas que quiserem persistir como tais são submetidos a um processo progressivo de achatamento até à sua destruição, enquanto a substância que os compõe, sendo indestrutível, vem a ser utilizada em favor do sistema Uno-Deus, pois que a destruição é da individualidade (eu), e não da substância.

Essa é a técnica que garante a destruição do mal e a vitória final e absoluta do bem.

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Para tornar compreensível um fenômeno substancialmente abstrato, que abrange todas as formas do ser, do puro espírito à matéria, recorremos a representações geométricas, que nos facultaram a possibilidade de formar uma imagem de tudo. Mas já é tempo de nos darmos conta de que elas não constituem a realidade, não passando de uma representação nossa. Cabe, então, indagar qual é a verdadeira fisionomia do fenômeno da destruição do edifício do ser, assim como a do fenômeno inverso, de sua reconstrução. Será essa abstração facultada ao homem, de modo a fazê-lo apreciar o fenômeno em sua substância? Que haverá de verdadeiramente real por trás da representação que dele demos?

Para sermos mais compreensíveis, tivemos de encarar o Todo no seu aspecto cinético. Deste ponto de vista, o impulso (α) representa um dinamismo livre em todas direções possíveis; a energia (β) representa um dinamismo encarcerado na transmissão linear por ondas; a matéria (γ) representa um dinamismo completamente fechado em trajetórias que retornam sobre si mesmas. Na realidade, então, também notamos um processo de curvatura do Sistema. Nas grandes dimensões, a energia segue linhas curvas até ao fim, e estas retornam ao ponto de partida. Assim, o espaço é curvo, como o é também a estrutura atômica e planetária. Portanto tudo é curvo, porém não com uma curvatura estática e constante, mas sim em expansão e contração, por trajetória espiralóide. Eis a trajetória típica dos movimentos fenomênicos (vide A Grande Síntese, fig. 4, Cap. XXV). Tudo, pois, tende a expandir-se ou a contrair-se: esta é a respiração do universo, em dois tempos opostos.E tudo isto confirma e explica a nossa precedente representação geométrica. Mas o fenômeno, na sua substância, deve poder assumir infinitas formas e ser susceptível de infinitas representações. Uma delas, porém, que tenhamos escolhido é suficiente para nos fazer compreender o seu andamento e a sua fisionomia. Qualquer seja o ponto de vista, trata-se sempre de uma inversão para o negativo, que pode manifestar-se como congelamento ou solidificação cinética, como contração ou curvatura do Sistema, como um aprofundar-se do espírito na matéria, uma destruição da consciência, e assim por diante.

Certo é, no entanto, que pudemos aqui fundir em unidade todos os fenômenos, desde o moral da queda dos anjos até à progressiva demolição do espaço a um ponto; desde o da involução, ou criação, até ao da evolução. Ora, o denominador comum entre fenômenos para nós tão distantes um do outro, não pode deixar de ser um conceito que, para ter valor universal, deve ser de natureza extremamente abstrata, além do concebível humano. Eis realmente o que existe por trás da representação que demos ao fenômeno: uma abstração que, para o homem atual, se perde no superconcebível. A ciência se encontra em condições idênticas ao definir a substancial e última estrutura do átomo, só nos podendo dar uma equação matemática.

Deste modo, limitando-nos apenas à demolição do espaço (volume) até ao ponto, o conceito de progressivo achatamento de dimensões é puramente representativo. Certamente é mais fácil de imaginar, com a nossa psicologia concreta e sensória, um fenômeno expresso em termos geométricos espaciais. Mas, na realidade, a substância do fenômeno é abstrata; é um pensamento reduzível a cinética, que pode involver no dinamismo linear da energia e aprisionar-se no dinamismo fechado da matéria.Então, o que se contrai nas demolições do espaço não é o volume ou a matéria, mas sim a construção criada por esta ideia abstrata e nela projetada. O que se contrai não é apenas o movimento constitutivo da forma, mas o seu princípio abstrato diretivo, o pensamento que a isso preside. Como se vê, caímos em uma terminologia que soa demasiado estranho à nossa mente habituada a outras medidas e a outros conceitos. Estamos frente ao inimaginável e inexprimível, isto é, à progressiva demolição do espaço por demolição do conceito diretivo do fenômeno espaço, como se a fórmula matemática que o rege fosse gradativamente perdendo os seus elementos constitutivos, simplificando-se cada vez mais, desprovida de seus componentes, até transformar-se em “0”. O zero seria o nada conceptual e matemático, o momento final e conclusivo na anulação do desmoronamento do sistema sinistrogiro. Uma representação mais concreta do fenômeno é impossível. Esta é, talvez, uma prova em favor da tese aqui sustentada, pois nos diz que estamos absolutamente fora do antropomorfismo, a que tudo tendemos reduzir para nossa comodidade de concepção. Na realidade, é lógico que as visões do universo serão tanto mais verídicas quanto menos sejam antro-pomorficamente imagináveis. Assim deve ser para a demolição do espaço, visto que ela não ocorre na fase em que vive o nosso universo e, como realidade inimaginável, está fora do alcance da experimentação e observação. Das coisas não podemos conceber a realidade absoluta, mas só em relação a nós mesmos.

Concluamos. Embora por intermédio de representações de valor relativo, podemos formar uma ideia da real estrutura íntima, funcionamento e transformismo de nosso universo e de nossa posição nele. Nós, seres humanos, estamos a meio caminho, suspensos entre o abismo do aniquilamento e o cume da perfeição. Sendo livres, vamos para onde quisermos. Naturalmente, vemos o universo consoante a posição que nele ocupamos. Damos importância ao universo físico porque nele se apoiam nossos pés, mas pouco discernimos o universo espiritual, que, se quisermos evolver, representa a nossa vida de amanhã. Mas, agora, em virtude do que dissemos, estamos aptos a ter desta visão o panorama completo do Todo. Vejamo-lo.

Transpondo os limites da estreita visão focada somente no universo físico e dinâmico, veremos o Todo como um sistema bipolar que – repetindo, como tudo o que existe, o esquema máximo – pode deslocar-se para um ou outro dos seus polos e só existe realmente enquanto oscila entre os seus dois extremos opostos. O sistema do Todo possui, portanto, dois polos para os quais tende: um, para atingir a plena existência; outro, para atingir o aniquilamento. Esses polos podem chamar-se positivo e negativo: do ser, em Deus; do não-ser, em Satanás. Ao primeiro se sobe evolutivamente, por γ→β→α ao segundo se desce involutivamente, segundo α → β→ γ. O sistema negativo não é senão a contraparte do positivo, com o qual forma uma unidade. Ele é, por sua natureza, destinado à anulação em favor do segundo, que, por sua natureza, está fadado à afirmação e ao triunfo final. O ser poderá oscilar, mas, no fim, deve tomar uma direção e sofrer as consequências da sua livre escolha. Os dois polos são dois extremos a que tudo deve chegar. Quem sobe segue uma curva que se abre, em expansão, dilatando-se a tal ponto, que atinge o infinito em Deus. Quem desce, segue uma curva que se fecha em contração e que, restringindo-se sempre, acaba no vazio, em Satanás. Quer no positivo, quer no negativo, o Sistema obedece ao mesmo princípio da curvatura cinética. Embora a representação geométrica não nos dê a substância do fenômeno, ela, contudo, no-lo torna tão claramente imaginável, que podemos dele fazer um esquema gráfico. Ao princípio analógico e ao dos esquemas em tipo único a possibilidade de reproduzir em nosso plano, ou seja, em nosso imaginável, uma estrutura universal que, de outra forma, estando fora desta idealização, seria para nós incessível porque na zona do inconcebível.

De um lado temos, pois, uma cinética em abertura; e, de um outro, em convergência sobre si mesma, fechando-se. De um lado, o ser se dinamiza, potencia-se e se liberta. Eis o progresso, superação de dimensões (a técnica que progressivamente supera o limite espaço e tempo). Isto está no instinto e constitui a alegria e o triunfo da vida. De outro lado, esta se contrai, congela-se e imobiliza-se. Eis por que os anti-Sistemas sinistrogiros se enfraquecem, por não poder, como negativos que são, usufruir da divina irradiação positiva. Eles ficam, então, isolado no Sistema e imobilizados pela sua curvatura cinética progressiva, acabando afinal desgastados pelo atrito contra a corrente, anulados e reduzidos ao ponto, não-dimensão. Assim consolida-se a fratura e se dá a reabsorção do dualismo do Uno – triunfo final do Sistema sobre o Anti-Sistema. Eis a visão completa do universo uno, regido por um princípio único, que se inverteu em consequência da revolta da criatura, mas apenas para de novo endireitar-se: que se despedaçou, mas somente para reunificar-se ou, para anular-se, se o ser não quisesse a existência.

Desta forma, foi enquadrada e ampliada a concepção de A Grande Síntese, ficando completa a visão do Todo.

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Vamos agora retomar em síntese os conceitos até aqui expostos, exprimindo-nos não com símbolos, mas com fórmulas matemáticas. Podemos, assim, contemplar de uma só vez toda a visão da existência, do princípio ao fim.

Todo o processo involutivo-evolutivo poderia ser representado por um círculo, cuja metade direita exprime o período ou fase de ida em descida ou desmoronamento do Sistema, e cuja metade esquerda exprime o período ou fase de retorno em ascensão ou reconstrução do Sistema. Neste, que é o ciclo do transformismo, o ponto de partida e o de chegada coincidem. Esse é o polo positivo do Sistema, do qual se parte e ao qual se retorna, atravessando os seus antípodas no polo negativo.

Nas gravuras 1, 2, 3 etc. de A Grande Síntese, só foi analisada particularmente a segunda metade do ciclo, a evolutiva, que vai de –∞ para +∞, aquela que agora estamos vivendo, tendo sido deixado de parte o estudo da sua primeira metade, a involutiva, que vai de +∞ para –∞. Mas o semiciclo evolutivo é composto de várias criações ou universos ω 1ω 2ω 3 etc., exprimindo-se por ∆ o seu conjunto ordenado ou organismo de universos (cfr. Cap. XXIII de A Grande Síntese e suas figuras).

Tendo presentes as referidas figuras e conceitos, procuremos desenvolvê-los com formulação matemática. Indicando por S a substância e com o índice numérico colocado abaixo o estado em que ela se encontra, substituamos os símbolos usados em A Grande Síntese pelos seguintes:

–y=S -2 ; –x=S -1 ; γ=S 0 ; β=S 1 ; α=S 2 ; +x=S 3 ; +y=S 4 ; etc.

Então o processo involutivo no tempo (tempo que já definirmos como ritmo do vir-a-ser ou do transformismo fenomênico), para um elemento isolado, poderá ser representado assim (deve-se ler a expressão da direita para a esquerda, apresentada desta forma para melhor compará-la com as semelhantes das linhas seguintes):

S –∞ ← ... ← S –2 ← S –1 ← S 0←S –1 ← S 0 ← S 1 ←S 0←S 1 ← S 2

← S 1←S 2 ← S 3 ← S 2 ←S 3 ← S 4←... S +∞

Esta expressão significa que o elemento substância se transforma do estado de máxima evolução (S +∞ ) no de máxima involução (S -∞).

De outro lado, o processo evolutivo poderá ser representado assim:

S –∞ → ... → S –2 → S –1 → S 0 → S –1 → S 0→S 1 → S 0 → S 1 → S 2

→ S 1 → S 2 → S 3→S 2 → S 3 → S 4→... S +∞

Como já foi dito em A Grande Síntese e pouco acima, em nosso universo (ω) e em nossa fase, que é a evolutiva (vai de –∞ a +∞), os três estados sucessivos da substância S são: matéria=β, energia=γ, espírito=α; que, com o simbolismo aqui adotado, serão respectivamente:

0 , S 1 , S 2 .

O conjunto dos universos ῳ 1 , ῳ 2 , ῳ 3 etc. forma ∆, que em símbolo será: ∆Σ=ῳ. Naturalmente, tudo isto não diz respeito à parte do Sistema que permaneceu íntegra, a que não desmoronou pela revolta e queda dos anjos. Essa parte continuou na sua perfeição, sem tomar o caminho do vir-a-ser (transformismo involutivo – evolutivo).

Ora, pelo princípio de liberdade já admitido, que aqui é de liberdade de movimento no transformismo em um instante genérico, encontraremos em ∆ todos os estados possíveis desde S –∞ até S +∞ . Mas entre eles haverá a seguinte diferença: na 1ª fase, descida involutiva, os estados da substância se transformam segundo a lei supradita de S +∞ para S –∞ ; na 2ª fase, de ascensão evolutiva, os estados da substância se transformam de S –∞ para S +∞ .

Vimos que, em termos de dinâmica, a revolta consistiu em introduzir no sistema de forças originário dextrogiro (positivo) um vórtice de forças sinistrogiras (negativas), funcionando como Anti-Sistema, menor no Sistema. Então, na 1ª metade do ciclo (fase involutiva, de desmoronamento) atua e domina o elemento negativo, tendente ao estado –∞ (caos, plena realização do Anti-Sistema), o que quer dizer que é este Anti- Sistema, constituído de vórtices sinistrogiros, que desgasta em seu favor o sistema dextrogiro de forças, enriquecendo-se com esse desgaste. Atingido no ciclo, porém, o ponto crítico de saturação no negativo, o processo inverte-se. Na segunda metade, é ativo e domina o elemento positivo, oposto, tendente ao estado +∞ (ordem, realização plena do Sistema), o que significa que é o sistema dextrogiro que desgasta em seu proveito o anti-sistema sinistrogiro, enriquecendo com o desgaste deste. E assim, após haver atingido no ciclo o ponto crítico de saturação no negativo, agora se alcança o correspondente no positivo, ponto que, como vimos, coincide com o de partida, mercê do que, o sistema desmoronado acaba, finalmente, por encontrar-se em um estado em que tudo está perfeitamente refeito e reconstruído. É natural que as duas fases de desgaste e progressão devam ser inversas e complementares, como as duas metades que se equilibram e compensam em um sistema único, dividido em dois períodos equivalentes, um de ida e outro de retorno. Isto corresponde também a uma necessidade lógica e, além de tudo resolver, satisfaz a razão.

Todo o processo se reduz a uma elaboração íntima de ∆ que do estado de + transforma-se, pelo desmoronamento, até chegar ao estado de –∞ e supera este, auto-reconstruindo-se, até retornar ao estado originário +∞. E sabemos que +∞ significa o estado orgânico de perfeição, de ordem, da criação originária, em que Deus, o bem a felicidade e o amor triunfam; como também sabemos que –∞ expressa o estado de desorganização, de imperfeição máxima, de caos do universo desmoronado, em que Satanás, o mal, a dor e o ódio triunfam. Assim como a criação de origem foi uma construção orgânica feita por Deus em Seu seio (o Todo no Todo), também essa elaboração do desmoronamento e reconstrução, indo da ordem ao caos e do caos à ordem, ocorre sempre no seio de Deus (o Todo no Todo), ou seja, está compreendida no âmbito da circunferência que fecha o ciclo de ida e volta. Em outros termos, é sempre a mesma substância do Todo-Deus que assume, nos vários estados de ω, nosso universo, as formas de γ, β, α, aparecendo-nos em cada um deles essa substância segundo o seu estado de transformismo.

É assim, pois, que todo o processo se executa, aumentando sempre no semiciclo involutivo a transformação de S +∞ para S –∞ e, no semiciclo evolutivo, a transformação de S –∞ para S +∞ . Deste modo, ao término do semiciclo involutivo, a substância de ∆ terá assumido totalmente o estado S –∞ ; e, ao término do semiciclo evolutivo, a substância de ∆ terá assumido totalmente o estado de S +∞ (ordem).

Analisando então ∆ nos instantes extremos (máximo e mínimo) do ciclo e em um instante genérico situado tanto no se-miciclo da sua involução como também no semiciclo da sua evolução, que são representados com os símbolos:

∆ (tp) = instante inicial (princípio) do ciclo de delta;

∆ (tgi) = instante genérico do semiciclo involutivo de delta;

∆ (t max i) = instante máximo final do semiciclo involutivo e inicial do semiciclo evolutivo de delta;

∆ (tge) = instante genérico do semiciclo evolutivo de delta;

∆ (t max e) = instante máximo final do semiciclo evolutivo e final também de todo o ciclo delta, instante em que tudo retorna ao estado inicial de perfeição; teremos os estados da substância de D nos vários instantes dados por:

∆ (tp) = S +∞ ; isto é, toda a substância se encontra no estado S +∞;

∆ (tgi) = S +∞...→ S 4 → S 3 → S 2 → S 3 → S 2 → S 1 →S 2

S 1 → S 0 →S 1 → S 0 → S –1→S –2 →...S –∞ ; isto é, em um instante genérico de involução da substância, encontramos contemporaneamente todos os seus estados, que se transformam em S -∞ ;

∆(t max i) = S –∞ ; isto é, toda a substância do sistema desmoronado encontra-se no estado S –∞ ;

∆(tge) = S –∞ →...→ S –2 →S –1 → S 0 → S –1 → S 0 → S 1 → S 0

→S 1 → S 2 → S 1→S 2 → S 3 → S → S 3 →S 4 →...S +∞ ; ou seja, em um instante genérico de evolução da substância, encontramos contemporaneamente todos os seus estados, que se transformam em S +∞ ;

∆ (t max e) = S +∞ ; isto é, toda a substância do sistema desmoronado exauriu o seu ciclo, atingindo o estado final S +∞ , para refundir-se, porque se tornou idêntica à parte do Sistema que, não se tendo revoltado, não desmoronou. Em outros termos, a conclusão de todo o processo, o resultado final, é que toda a substância que se corrompera se restabeleceu, do estado S -∞ para o estado S +∞ . Isto significa o triunfo final do bem sobre o mal, de Deus sobre Satanás, com a anulação do aspecto negativo e a afirmação absoluta do aspecto positivo da substância.

Em termos matemáticos, todo o processo pode ser representado pelas duas expressões limites:

figura deus e universo 1

A primeira nos representa o universo no polo Satanás, podendo ser chamada a fórmula do desmoronamento, que o processo apenas atravessa. A segunda nos representa o universo no polo Deus, podendo ser chamada a fórmula resolutiva do universo, momento em que o processo, que teve um início, terá um fim, reintegrando-se tudo no estado perfeito de origem. Assim, o princípio e o fim se reúnem em um ciclo que se fecha sobre si mesmo, e o Todo, o infinito, Deus, permanece o que sempre foi e será, e simplesmente ― “E”.

Procuremos neste capítulo responder por nós mesmos, a algumas possíveis objeções ao sistema acima exposto.  Este é um controle racional a que submetemos os produtos da intuição ou da visão. Por um momento proponhamo-nos a rejeitar esta teoria, a que podemos denominar simplesmente teoria do desmoronamento, como explicação de nosso universo.

Devendo axiomaticamente admitir que Deus não pode ser imperfeito e mau, mas sempre perfeito e bom e que, por conseguinte, criou por Amor e não por ódio, como se pode explicar a presença do mal e da dor em nosso universo? E se, em absoluto se podem atribuir a Deus-Criador estas realidades, impõe-se procurar-lhes uma outra causa que não pode ser Deus. E aqui o dilema é fatal: ou essas tristes verdades são devidas à criatura e forçoso é admitir a teoria da queda, ou, se Deus - Criador -  foi causa de tudo, Ele é imperfeito e mau.

Uma bem triste cadeia de males pesa sobre o mundo. Este fato é indiscutível. Queremos buscar-lhe a causa, o responsável. Podemos chegar à monstruosidade de tornar-nos acusadores de Deus, como causa de todos os nossos males? Podemos sentir-nos autorizados a amaldiçoá-Lo, como inconsciente e mau? Isto só poderá fazer quem segue Satanás, imerso no polo negativo, na ignorância e no mal. Jamais o fará uma mente iluminada, que sentiu a sabedoria, a perfeição e a bondade que reinam no funcionamento orgânico do universo.

Mas, ainda que a teoria do desmoronamento fosse errada, que significação possui a lenda, tão difundida no mundo, da queda dos anjos? Poderá ter ela nascido do nada? E com a Sua paixão, que poderia redimir Cristo, se a culpa era mais de Deus do que do homem? Por essa paixão a humanidade se redimiu, então, mais da falha de Deus do que das suas próprias. Isto sim, nos parece verdadeiramente um esboroamento do bom senso, ao ter que admitir que a humanidade deva sofrer tanto, que em virtude da insciência ou maldade de um Criador irresponsável ou perverso. Este seria o mais escandaloso triunfo da injustiça. Mas, desta forma, pomos um conceito negativo no centro do sistema positivo do ser; dessa maneira tudo se subverte, a vinda de Cristo à Terra carece de qualquer sentido, e, onde tudo é ordem, estabelecemos o caos de um universo em delírio. Então, o primeiro pecado original teria sido o de Deus e não o do homem, e a rebelião contra um Deus imperfeito, injusto e malvado seria mérito e não culpa. E a redenção, que é a retificação de uma posição invertida, que teria retificado? Talvez a justa revolta de Adão contra um Deus criador do mal e da dor? Como se vê, cai-se em um redemoinho de absurdos, em que tudo se subverte em uma horrenda concepção satânica.

Devemos  axiomaticamente admitir em Deus também a unidade. Ora, o universo é inegavelmente dualístico. Como se pode explicar essa estrutura dualística em um universo cuja base deve ser unitária, se não com a teoria do desmoronamento? Quem despedaçou o uno, como e por quê? É absurdo um universo dualístico desde a sua primeira essência, em seu centro. Se assim fosse, pelo menos os dois termos do dualismo - bem e mal - deveriam ser iguais. Como se explica, ao contrário, que o bem é mais forte, acaba vencendo, e que o Senhor é um só — Deus? Também aqui, se excluirmos a queda, tudo se confunde no caos.  Então Deus se transforma em  artífice de uma obra diabólica, e se confunde Satanás com Deus.

Abolindo a teoria do desmoronamento, não se sabe mais justificar a origem e a presença de Satanás. Quem é ele, então? Que significa no sistema do todo? De que nasceu, para o que tende e como acabará? Em um sistema lógico, como pode manter-se esse anti-Deus? Em uma construção  equilibrada que significa hostilidade desse contínuo atrito demolidor? E que imperfeito universo seria este, sempre sujeito aos assaltos de um princípio destruidor, que se aninha em seu seio! Certamente o sistema deve parecer bem pobre e mal feito, concebido desta forma! E, no entanto, ele é pleno de obras que revelam uma sabedoria tão grande, que nem podemos compreendê-la no seu todo.

Repugna, de maneira absoluta, a um instinto fundamentalmente peculiar a todo ser de mente sã, admitir em Deus a criação do mal. Este só pode ter surgido depois, por outras razões. Não se podendo conceber duas criações, tendo que aceitar um única. Como explicar que não encontremos tudo em perfeição e bem, ou então, uma imperfeição e mal, mas perfeição e bem de mistura com imperfeição e mal? É evidente essa duplicidade de princípios precisamente opostos. Isto não se pode explicar a não ser como a inversão de uma parte do sistema. E como no fundo da imperfeição encontramos a perfeição, isto é, uma sabedoria que possui a força de salvar a imperfeição da autodestruição, e de purificá-la reconduzindo-a ao estado de perfeição?

Evidentemente, deve ter ocorrido que Deus criou espíritos puros, tirando-os de Si. (A técnica da criação será progressivamente exposta neste volume e depois definitivamente precisada no início do  Cap. XX: "Visão-Síntese").  Este era o sistema perfeito. Mas uma parte, como vimos, rebelou-se, formando o anti-Sistema do dualismo. Ora, a parte incorrupta ficou a mais forte, porque com ela permaneceu Deus a Quem ela ficou aderente. A outra parte não tem Deus consigo, no sentido de que a sua imanência não pode funcionar, já que o ser o renegou. Por isto o mal não pode vencer. A vitória final, é lógico, não pode deixar de caber ao único senhor do sistema - Deus. Não importa que no Todo se agitem forças opostas! O sistema tornou-se inquinado de culpa, sofre para restabelecer-se, mas continua sistema - Ele não desmoronou no seu conjunto. Apenas uma parte dele, em seu seio, decaiu.

Mas, então, poder-se-á objetar - por que Deus, se é sempre o mais forte, o Senhor do sistema, não sana de vez o mal, anulando-o? Não basta que uma coisa se nos torne lógica e justa, por ser cômoda. Há necessidade de que, quem criou, compreenda. Nenhuma força pode ser destruída, mas apenas corrigida. Subsiste a lei de equilíbrio e justiça, em que se baseia o sistema, que exige a sua reconstrução. Não é com a psicologia da própria vantagem imediata, relativa e utilitária, que se podem resolver tais problemas. Recordemos que nós não somos punidos pelas nossas culpas por um Deus vingativo, mas sim, automaticamente, por essas mesmas culpas, isto é, pelas forças por nós movidas e pelas posições que quisermos assumir no sistema. O mal não se pode extinguir por um ato arbitrário, pois que a Onipotência divina não é jamais arbitrária, mas segundo a Sua própria Lei. O mal só se pode extinguir por reabsorção, isto é, por retificação, pela reconstrução daquilo que ruiu.  Só assim se explica como a dor pode redimir. Trata-se de um processo de cura. Eis por que a luta contra o mal é virtude, ou seja, é qualidade reconstrutora de bem. Se o nosso universo fosse, no estado atual, consequência pura do primeiro ato criador de Deus, ele deveria ser perfeito. Não o é porque a criatura nele introduziu outras forças. É da lógica, justiça e equilíbrio do sistema que a correção seja operada nas próprias criaturas que representam tais forças. É justo que o labor da reconstrução lhes caiba, como delas foi a revolta à ordem. Somente assim elas poderão verdadeiramente aprender a conhecer a Lei cuja compreensão já revelaram não ter desejado. Como se vê tudo se desenvolve com cabal lógica. Muitos desejariam Deus como seu servo, e se lamentam porque Ele não lhes poupa o incômodo de trabalhar, lutar, sofrer e por isso O acusam. Mas é fácil compreender quanto é absurdo colocar as nossas pobres comodidades como centro do sistema. Não é com tais medidas que se pode medir, nem com semelhante psicologia que se pode compreender.

                                                             *****

Prossigamos no controle racional, que nós mesmos estamos fazendo, dos produtos da intuição ou visão.

Alguma vez perguntamos a nós mesmos porque o estado primordial do universo é o caos? Se tivesse sido obra de Deus, deveria ser obra perfeita e não caos. E, pela evolução, esse caos e o ponto de partida de um longo caminho que avança para a ordem. Somente com a teoria do desmoronamento tudo isto se torna compreensível.  Satanás está nos antípodas de Deus, assim como o caos nos antípodas da ordem.  O universo atual vai do primeiro ao segundo, os dois polos do ser.  Só com a precedência de um desmoronamento, isto é. com a existência da outra metade do ciclo, inverso e complementar, tudo se pode compreender. O que implica que, se uma parte ruiu, não o fez o sistema e que, no fundo do caos, Deus continua a estar presente, Deus que é a única força capaz de retirar uma nova ordem da desordem. Á reconstrução, se de fato é operada pela dor purificadora da criatura, é dirigida por Deus, o que é provado pela descida de Cristo à Terra. Unicamente assim se explica o porquê da evolução e sua direção, bem como a grande equação da substância (A Grande Síntese, Cap. IX).

Agora podemos compreender melhor a fig. 4 de A Grande Síntese, que indica o desenvolvimento da trajetória típica dos movimentos fenomênicos. Esse diagrama sintetiza também o atual caminho da evolução, para reconquistar, entre dores e provas, o paraíso perdido. Este é o diagrama da ascensão. O desmoronamento ocorreu de +∞−∞. A reconstrução aqui sintetizada é de −∞+∞ ,ainda que para o nosso concebível ela agora é limitada ao trajeto γ→β→α. Na fig. 4 o desmoronamento das dimensões reduziu o Todo ao nada, ao ponto, sem dimensão. E este -(infinito negativo), o ponto de partida da evolução, segunda metade do ciclo, a que vivemos atualmente. O ponto de chegada é +∞ (infinito positivo), sendo todo o processo dado pela dilatação do ponto, não dimensão, na dimensão máxima, o infinito. Eis o mais profundo significado da abertura da espiral.

Mas a maneira como se processa o seu desenvolvimento nos diz algo mais. Na sua tendência periódica para volver sobre si mesma em direção ao centro (v. a mencionada fg. 4 - A Grande Síntese), expressa também na fig. 2, pela descida da linha quebrada, vemos como que um rítmico, ainda que parcial, retorno ao desmoronamento, como que uma recordação sua ou tendência a repetir-se, que no-lo revela em ação, imiscuído no funcionamento do universo, desde a primeira revolta e desmoronamento. Essa característica impressa, indelevelmente, nos fala como uma testemunha. Todavia, o movimento retoma sua direção e, no conjunto, consegue subir, sempre contrastado e em luta com a descida. A subida prossegue, isto é, a evolução vence, ganhando terreno em cada ciclo, ainda que em todos os ciclos o primeiro desmoronamento volte a se fazer sentir como um assalto do mal, mas depois vencido e superado. Assim é, porque o sistema no seu conjunto não é o sistema de Satanás, mas o sistema de Deus. Deus, como vimos, permaneceu centro de tudo, enquanto o sistema de Satanás tem por centro −∞, o nada, o ponto não dimensão, razão por que, para ele, a existência  só pode significar anulação. O sistema positivo de Deus, embora contendo o sistema negativo de Satanás. é mais forte de que ele. O outro sistema está contido e é mais fraco, irremediavelmente minado pelo seu negativismo  Por isso se pode dizer une o bem deve vencer e: "Portae inferi non prevalebunt".

                                                                  *****

O motivo do desmoronamento imprimiu-se, assim, tão profundamente no sistema,  que o vemos ressurgir  em todo lugar, a cada momento.  Um estigma dualístico inquina e fragmenta toda a nossa vida. A vida una íntegra, esboroou-se em um ritmo alterno vida-morte: ao dia se contrapõe a noite; à luz, as trevas; a cada afirmação, a sua negação.  A vida não se pode prolongar no tempo, senão continuamente invertendo-se no negativo, que a mata, vida que continuamente se despedaça, por efeito da queda. Bastaria isto, apenas, para provar a reencarnação.  Mas no fundo da morte (Satanás), está sempre Deus. Que é a vida o princípio pelo qual ela jamais se extingue. Assim como o imutável absoluto desmoronou no imutável contingente -  que justamente por isso faz presumir a existência do primeiro - assim também a existência eterna corrompeu-se na existência no tempo, que a mede e a pulveriza em um ritmo interrompido por pausas opostas.

Eis, porém, que Deus, a força restauradora presente na evolução, tende para a correção do desmoronamento. A vida. evolvendo, transfere-se cada vez mais do plano físico para o espiritual. Desta forma, cada vez mais também há tendência ao desaparecimento do lado negativo - morte - como igualmente do mal e da dor, com o retorno a Deus na reconstituída unidade íntegra da vida, que não tem mais morte.

Mas tudo rui por terra. Cada alegria ameaça inverter-se em dor, parecendo ter nascido envenenada pela recordação do primeiro desmoronamento. Para continuar, a vida deve refazer-se desde o começo, na semente, no filho.  Tudo nos dá ideia de alguém que, subindo uma encosta em terreno resvaladiço a cada três passos para diante, dá dois passos para trás.  Recua, mas um passo ganha sempre, e assim a evolução avança, avizinhando-se cada vez mais, ainda que lenta e fadigosamente, da libertação. É longa e dolorosa a elaboração  evolutiva. Mas é verdade também que o elemento negativo está submetido a um atrito contínuo, em face da resistência que opõe à força, mais poderosa, de Deus, motora da ascensão.  O elemento negativo assim se desgasta, autodestruindo-se e cedendo, como já vimos, da sua substância à parte positiva. A sensação desse atrito de forças opostas chama-se dor.  Mas, por isto ela redime, mata o mal, ilumina as trevas, reconduz à alegria, à unidade findando o dualismo, retificando o negativo em positivo. É este atrito que se chama dor que reconstrói o lado desmoronado do sistema e, por isso, constitui a base da evolução, ascensão para a felicidade.

                                                                 *****

Tudo isto evidencia a necessidade de aceitar a teoria do desmoronamento. Só ela pode explicar o dualismo dá árvore do bem e do mal, o pecado original — continuação da revolta dos anjos e queda consequente, pecado cometido por Caim contra Abel, primeira personificação da cisão e da luta.  Só assim podemos compreender Cristo e a Sua obra de redenção, destinada a sanar este dualismo, compreender a inversão operada pelo Evangelho, que é uma retificação dos valores. Assim podemos explicar por que a Terra é o reino em que o mal triunfa e os bons sofrem, porque a seleção é nela operada pelo critério selvagem do mais forte. Sem a teoria do desmoronamento nada se explica, tudo é caos e mistério.

Todavia, ainda se lhe pode levantar uma objeção. Pretendemos complementar aqui os conceitos expostos no fim do Cap. VII: "A perfeição do Sistema".

Admitida a liberdade individual e a revolta, deve-se admitir também que um espírito possa conservar-se eternamente rebelde. Ele teria, então, o poder de macular definitivamente o sistema, frustrando-lhe o restabelecimento e toda a obra de salvação de Deus e dos redentores por Ele enviados. A obra de Deus não seria, então, sanável e, em última análise, estaria falida. Tudo isso é lógico. Bastaria que se verificasse o caso para uma só criatura, e o mal, em definitivo aninhado no sistema de Deus, não seria vencido, tornando-se parcialmente vencedor. Conclusão absurda. A solução do dualismo deve, pois, ser completa e, por conseguinte, para que todo o sistema seja reconstruído e tudo retorne ao Uno, impõe-se a destruição final do mal. A anulação é a única expulsão possível de um sistema que é o Todo e fora do qual nada pode existir.

Agora surge a objeção da impossibilidade de admitir-se a destruição ou anulação do espírito rebelde.  A isto respondemos que, como já vimos (Cap. VII), a mecânica dessa destruição se realiza por um processo de choques e atritos de forças, nos quais o que perece não é a substância divina, indestrutível, que forma o espírito, mas apenas a sua forma de individualização como "eu" distinto, e isto em favor do sistema do bem, que se enriquece dessa substância. O que se anula é a individualização, a personalidade rebelde, o tipo de forma revestida pela substância e não propriamente a substância que a constitui. Trata-se, pois, apenas de uma destruição relativa ao indivíduo e não em sentido absoluto. Destruição como sua individualização e não como substância. Isto torna possível a anulação no caso extremo de uma revolta indefinidamente prolongada.

A esta altura, podemos perguntar qual poderá ser a sorte de Satanás e seus demônios. Após haver tratado do problema do fim do mal no Cap. X do volume A Nova Civilização do terceiro Milênio, ali lançando a semente dos primeiros conceitos, desenvolvidos melhor no presente volume; após haver precisado a técnica da destruição do mal em geral no Cap. VII: "A perfeição do sistema", deste volume, podemos propor-nos agora o problema específico da sorte de Satanás, a propósito da anulação dos espíritos rebeldes.

No Cap. II do presente tomo - "O eu sou, esquema do ser", acenamos para Satanás, como personificação das forças do mal. Mas será ele apenas uma individualização fenomênica qualquer em tudo que é personalizado, ou Satanás é uma verdadeira personalidade? Como personalidade queremos significar o que ela expressa para o ser humano. O leitor que compreendeu os elementos constitutivos de nosso sistema, dos quais a lógica não permite que saiamos, pode responder por si. Nós simplesmente lhe propomos o problema. A verdadeira criação foi única, a dos espíritos puros, isto é, a que Deus realizou em Seu seio, distinguindo-se interiormente em muitos "eu sou", feitos à Sua imagem e semelhança. O nosso universo físico não foi uma criação, foi um desmoronamento da criação. Os espíritos puros eram outros tantos "eu sou", semelhantes ao tipo originário - Deus - isto é, individualizações pessoais, como é o próprio homem. Todos os espíritos eram assim, nem havia razão para que fossem diferentes os que depois decaíram com a revolta. O próprio homem atual estava entre eles e, tendo uma personalidade própria, distinta, mostra-nos o que significa personalidade. O tipo fundamental do ser, como “eu sou", não podia mudar apenas pela queda, como de fato não mudou para o homem, que é justamente um espírito decaído e que chegou às vezes até o grau de demônio. O desmoronamento do sistema podia alterar a disposição e posição dos elementos do edifício, mas o material permaneceu o mesmo, sem o que o edifício não se poderia reconstruir. Podia ofuscar, mas não alterar a essência pessoal do ser, porque isto teria significado destruir o tipo modelo, fato fundamental da criação. Não é concebível que a queda possa ter produzido uma despersonalizarão, pois que ela significaria uma anulação de personalidade, isto é, da individualização  eu sou , o que só pode ser o último resultado de uma liquidação final de um rebelde indefinidamente em estado de revolta. Não se pode antecipar a sua destruição, sem comprometer todo o processo da reconstrução e redenção. É absurdo, fora do caso de tal liquidação final, a dissolução desse núcleo "eu sou” , desse centro em torno do qual se desenvolve todo o processo do desmoronamento e da reconstrução. Somente um  “eu”  pessoal, definido nos seus atributos, pode involver e depois evolver; pode reconstruir-se, se quiser, ou então ser reabsorvido no sistema, pelo seu progressivo desgaste no atrito do anti-Sistema com o sistema, consoante expusemos no citado Cap. VII deste volume. Unicamente um  “eu” pessoal pode ser objeto de salvação ou instrumento da necessária anulação do mal, sem o que Deus seria vencido: sem um centro pessoal, um "eu", não pode haver mérito ou demérito, culpa, responsabilidade, experiência, evolução e retorno a Deus, ou, em caso contrário, anulação. Sem um "eu", tudo se dissolve no vago e nebuloso.

Considerando tudo isto, o leitor poderá agora responder por si à questão acima proposta. Mas é evidente que a solução cabal de qualquer problema não pode ser obtida, encarando-o isoladamente, mas somente quando ele tenha sido enquadrado em todo um sistema de que venha a fazer parte e em que todos os outros problemas do ser sejam harmonicamente resolvidos.

Procuremos, todavia, precisar os elementos do problema.

Assim como em um espelho partido cada fragmento reproduz a natureza do espelho inteiro, trazendo também em si os indícios do estilhaçamento, assim igualmente no sistema desmoronado, cada unidade individual carrega consigo os sinais do divino princípio do bem, da mesma forma que os satânicos princípios do mal. Bastaria este fato, que é possível verificar a todo instante em nós mesmos, tão profundamente ele se encontra impresso em nossa natureza, para demonstrar que, nas raízes deste nosso estado e como explicação desta nossa estrutura, não pode deixar de existir uma queda original, da qual se gerou este modelo de tipo dualístico, que se repete em todas as individualizações menores.  É assim que o princípio da queda se conservou presente em todo ser decaído. E é lógico e justo que cada ser, já que é um momento do sistema desmoronado, carregue consigo os estigmas do desmoronamento e a estrutura do sistema desmoronado. E por isso justamente que toda personalidade está dividida em duas partes opostas, ativadas por um dinamismo inverso, um divino e outro satânico, em contraste no campo do "eu". Foi assim que a indivisível personalidade do "eu sou" originário se cindiu no seu íntimo dualismo, e é neste exatamente que Satanás se aninha.

Analisemos tudo moto para melhor poder compreender o que deveremos realmente entender por personalidade de Satanás. Ele é personificado no sentido de que existe em todo ser como princípio negativo, se equilibra para contrastar o princípio positivo, com o qual está sempre em luta para dele se desvincular e se libertar. Esta luta é a base da evolução. A personalidade de Satanás está presente em todos os seres como princípio de trevas, enquanto Deus está presente neles como princípio de luz. Treva significa: inconsciência, matéria, prisão na forma, estado involuído. Luz significa: consciência, espírito, libertação, estado evoluído. Em outros termos, em nosso universo, não se encontra apenas a presença de Deus imanente, nele descido de Sua transcendência para salvá-lo, mas existe também o princípio oposto, filho da queda, isto é, a presença do mal ou Satanás imanente, sempre operante para tudo destruir e perder.

Em todo ser defrontam-se, em permanente contraste, o divino princípio do bem, fazendo evolver e subir, e o satânico princípio do mal, insistindo no desmoronamento e na descida. O último serve, assim, de resistência à evolução. É esta resistência que procura demolir todas as nossas conquistas. o que nós temos de vencer com o nosso esforço, intentando livre refazer em ascensão o mesmo caminho que livremente percorremos em queda. Somente com a queda pode-se explicar como o princípio do mal se aninhou no âmago do ser e lá permaneça vigilante para impedir a ascensão. Este princípio  onipresente em nosso universo e personificado como o lado de trevas em qualquer personalidade é o que entendemos por personificação de Satanás, princípio que pode  revestir-se  de uma forma qualquer, assumindo consistência real. Não se trata de uma vaga abstração, mas de qualquer coisa de concreto que se encontra como força individualizada no ser que, na Terra pelo menos, sempre apresenta uma certa dose dela, maior ou menor. A percentualidade é que varia, sendo santo aquele em que ela for mínima ou nula, e demônio aquele em que ela se aproximar da inteireza. No caso máximo deste último tipo, quem sabe em alguma forma cósmica do vida, teremos a personificação concreta e real de Satanás.

Efetivamente, pode-se idealizar dele um tipo biológico mesmo na Terra. E isto realmente foi feito pelo homem representando o demônio com as características dos animais danosos, mais inimigos e involuídos, agressivos, com chavelhos garras ou bicos, traiçoeiros como as serpentes venenosas, escuros e peludos como o urso, com dentes de lobo, olhos ferozes e cauda, lançando chamas e enxofre, na representação de um mais antigo e elementar adversário, qual o fogo vulcânico da terra. Tudo isto é lógico e se justifica, porque Satanás simboliza a involução, isto é. a animalidade, que é o nosso passado, ou seja a matéria e o caos num reino subterrâneo, onde ele sempre se aprofunda, como nas representações que fazemos dele. Inimigo da evolução, que é progresso em direção a Deus e à felicidade, também é um inimigo da vida, representando tudo o que é agressivo e mau.

Onde está este inimigo? Está em toda parte como Deus, junto de Deus como Sua negação, assim como a sombra está junto da luz e sem a qual não sabemos o que é luz. Satanás é a treva que se aninha em cada ângulo, no qual se ocultam o mal e a dor para nos golpearem traiçoeiramente.  Satanás é o veneno depositado no fundo de toda taça, a dor sempre pronta para macular as nossas alegrias. É a moléstia que assalta a saúde, é a morte que espreita a passagem da vida. É a traição que está no fundo da amizade. É o ódio em que está prestes a transformar-se o amor. É o princípio de destruição que secretamente mina todas as construções humanas. É o princípio do mal que sempre busca manchar a obra do bem. É um princípio que toma forma concreta em atos e pessoas.

Durante as trevas da Idade Média, houve o domínio, inclusive no terreno religioso (inquisição, guerras santas, bruxarias) desse princípio de negação, em que Satanás prevaleceu. Por dois milênios ele tem reinado com o terror do inferno, construção sua. Tudo isto está escrito na hora histórica, para todos, e teve a tolerância da Igreja. E até hoje, mesmo no que respeita a Cristo, se tem atentado principalmente para o lado negativo e destrutivo da criatura humana, na crucificação que foi um triste espetáculo de carnificina, sem se olhar para o lado positivo e construtivo da ressurreição, eterna vida do espírito. Isto demonstra como Satanás está vivo entre nós, personificado em correntes, ações e pessoas. Satanás, embora como força invertida e negativa, está presente entre nós, como o está Deus, e eles se defrontam e se batem em nós, seu campo de batalha. Ainda que Deus, pela própria natureza do sistema, venha a ser o vencedor, esta batalha existe e a vivemos, em nós, sem sabermos que ela é a maior batalha do universo, que repercute em nós.

Em cada ato nosso, através da escolha que soubermos fazer, amadurece o nosso ser e avança a grande marcha da evolução. Em virtude dos atos e da livre escolha de todos os homens, opera-se o resgate, bem como a salvação. Graças a essa intensa elaboração em que se empenham todos os seres, ocorre a regressão ou a estagnação, ou a redenção do universo. Satanás exige que lhe paguemos em moeda sonante de dor o tributo de nosso resgate porque quisemos cair e, com a queda, o abrigamos em nosso interior.

Satanás está em toda parte do sistema desmoronado, é a doença do sistema, que o acomete e faz todos sofrerem. Também a parte incorrupta não se pode furtar a esta dor e, como fez Cristo, ajuda igualmente com o seu sacrifício. Mas é a parte divina, é a originária centelha de Deus, não extinta de todo e que permanece em nós, que deve lutar para restaurar a parte enferma ou satânica, da mesma forma que no organismo a parte sã luta, com os recursos vitais provenientes de Deus, para recuperar a saúde e reconstituir o equilíbrio. Quando em nós se defrontam, em ação, duas motivações opostas de bem e de mal, em que se pesam a vantagem, em forma de alegria, e o dano, em forma de sacrifício, estamos diante do maior drama do universo, que configurou o nosso tipo de existência e que retorna, repetindo, no caso menor, a apocalíptica luta do universo entre o bem e o mal.

Por uma lei de inércia, que é verdadeira também no campo moral, pela qual uma massa, como uma ideia, continua a avançar na direção em  que foi lançada, enquanto não encontrar uma força que a desvie ou um atrito que a freie, por essa lei em nós, Deus continua a gritar "eu", assim  como Satanás grita "eu”. E assim que cada um de nós, mais ou menos, pode personificar um ou outro, segundo o grau de evolução.  E quando o homem desce até ao delito, nele encontramos uma sempre maior personificação de Satanás. E fácil assim imaginar uma hierarquia na gradação dos valores invertidos em negativo, no mal, da mesma forma que há uma hierarquia dos valores positivos, no bem.  Poderemos, desta maneira, idealizar, no ápice da pirâmide  invertida, um Lúcifer, qual sublimação do mal elevado à máxima potência, assim como no ápice da pirâmide positiva está Deus, sublimação infinita das potências do bem. E como se pode explicar racionalmente a ideia tão difundida do anti-Cristo.

Parecendo-nos, por ora, bastante clara esta argumentação sobre a personalidade de Satanás e seus  demônios, concluímo-la com a verificação de estarmos assim diante de uma nova maravilha do sistema. Nele, de fato, o princípio do mal e da dor, que se faz sentir em tudo, é utilizado como uma dificuldade a superar, como uma escola para aprender e ascender. A realidade é que, embora Satanás e seu poder pareçam espantosos, o nosso universo está inteiramente impregnado da presença de Deus imanente, de modo que a vitória está garantida e as portas infernais não prevalecerão. Todo o grande assalto de Satanás se reduz a um exame das forças do bem, a um sangrento banho de purificação, do qual o espírito sairá triunfante. Desta forma, encontramos não somente uma justificação para o mal e a dor, mas também o segredo para demoli-los, transformando uma infelicidade em um meio para conquistar a felicidade. Assim, o tremendo princípio do anti-bem e do anti-Deus se pulveriza em nossas mãos, e, se formos sábios, dele nada resta em meio a tanta ruína, senão um instrumento de salvação.

A esta altura, nós nos perguntamos se será possível uma revolta eterna e definitiva? Agora podemos compreender o que significa essa indagação, isto é, a possibilidade da personalidade macular-se até que o percentual dos elementos componentes positivos seja reduzido a zero e o percentual dos elementos componentes negativos seja elevado a cem. Quando o ― “eu” fica assim reduzido, em sentido negativo, ele se anula (=0), isto é, se autodestrói. Quando, ao contrário, o ― “eu” se refez todo em sentido positivo, ele atingiu a salvação. No primeiro caso, ocorreu a morte total pela completa negação de Deus; no segundo caso, foi alcançada a vida total em Deus.

De tudo isso encontramos um paralelo na vida de nosso organismo, o que é lógico num universo dirigido por um princípio unitário. Antes de tudo, a difusa presença do espírito satânico do mal não nos deve espantar mais do que a presença dos micróbios patogênicos em nosso organismo. Quando ele está são, os micróbios não perturbam, mas quando as portas estão abertas, eles penetram o organismo no seu ponto vulnerável, porque débil. Também Satanás só pode entrar quando encontra uma porta aberta no espírito, isto é, um ponto vulnerável, porque débil. Se formos sãos e fortes no campo orgânico e no moral, podemos mover-nos sem perigo entre os micróbios patogênicos e as forças do mal. Em qualquer setor, a vida nos quer sãos e fortes, para que a evolução prossiga, seguindo a Lei, que quer o ser caminhando para a perfeição e a felicidade. Quem deve, paga, sendo o ser colocado pela dor no caminho reto, o de sua salvação. Tanto no terreno orgânico como no espiritual, a Lei acorre para salvar, impelindo com as suas reações dolorosas o indivíduo a salvar-se. A Lei se vale, indiretamente, de todas as constrições compatíveis com o respeito à liberdade individual. Mas quando, apesar de tudo, o doente, seja do corpo ou do espírito, não quer de forma alguma salvar-se – desejando assim fixar em sua personalidade uma permanente violação da Lei, que é inviolável – então ele é por ela eliminado. Em outros termos, a vida mata os que se voltam contra ela.

Se assim acontece, então nos perguntamos: que probabilidade existe no Sistema para que possa verificar-se, não para o Sistema, que é invulnerável, mas para o indivíduo, um desastre, qual seja a sua anulação pela revolta definitiva? Prontamente respondemos que, embora a destruição de um espírito seja possível, a probabilidade de semelhante destruição, na prática, é apenas teórica. É verdade que o sistema é construído de maneira que possa chegar até aí, mas não está na lógica das coisas que um espírito se deixe arrastar até esse extremo. E há razões para isso. Ser destruído é contra o interesse e a felicidade do ser, é agir contra o princípio do ―eu sou‖, que o mantém em vida. É verdade que o rebelde, tendo-se colocado no negativo, automaticamente propende para essa anulação. Mas a arma da revolta ele crava na própria carne e, quanto mais ele a utiliza, tanto mais intensifica a própria dor. Ele tem de suportar um esforço cada vez maior, uma luta sempre mais feroz, para insistir nessa via dolorosa, para contradizer o seu próprio instinto de felicidade, para afastar-se do que constitui o centro para todos e também para ele – Deus. Poderão impeli-lo por essa via de perdição o seu originário orgulho, o espírito de revolta, a força da inércia lançada como massa em ricochete, o mal e o ódio do que ele está feito. Mas o fenômeno deverá também atingir um ponto de saturação em que o interesse egoístico deverá prevalecer, porque a dor, intensificando-se sempre, superará o limite individual de tolerância, e uma existência de ódio e de mal cada vez mais distante de Deus, o centro de felicidade, acabará por tornar-se impossível. Este será o momento crítico da inversão de rumo, da direção involutiva para a evolutiva. Então o ser se porá no caminho da reconstrução, no qual, à medida que é percorrido neste sentido, a dor irá diminuindo, e não aumentando como na direção oposta.

Além disso, temos ainda que levar em conta a presença de Deus, que está, como dissemos, no seio da parte desmoronada do Sistema. Esta presença é uma força em ação, que envia apelos, auxílios e esclarecimentos. Em imensos períodos de tempo, pela convergência de tantos impulsos, é impossível o ser não compreender o absurdo de laborar apenas em seu próprio dano, que ninguém, por pior que seja, pode desejar.

Existe, afinal, um outro fato. A unidade entre os involuídos, na zona corrompida do Sistema, quanto mais se desce, tanto mais pelo negativo é obtida, isto é, não mais como amor que unifica, mas como ódio que desagrega, como luta recíproca e cisão, ao invés de como paz e fusão. Enquanto o sistema de Deus é centrípeto, o anti-Sistema de Satanás é centrífugo. Este, pois, em vez de centralizador, é autodispersivo. Tudo isto constitui uma fraqueza que mina cada vez mais o indivíduo, isolando-o, e acelera a chegada fatal àquele limite, em que se impõe a inversão de rota.

De todo o exposto, podemos concluir que, na realidade, todos deverão, mais cedo ou mais tarde, salvar-se. Os mais rebeldes sofrerão mais e também alcançarão os braços salvadores de Deus, porque, se um só não chegasse, a obra de Deus teria sido imperfeita e seus fins de amor seriam frustrados.

                                                   *****

Retomemos mais uma vez em exame a teoria do desmoronamento, para discuti-la ainda sob o fogo de todas as possíveis objeções, com o objetivo de esclarecer os seus mais recônditos significados. Observemo-la dos mais variados pontos de vista e focalizemos todas as suas particularidades. Só assim podemos chegar à mais clara visão dessa teoria e à sincera convicção da sua veracidade.

Se, para alguns, a teoria da revolta e da queda repugna, experimentemos eliminá-la. Que resta, então? O semiciclo involutivo necessariamente tem de permanecer, pois sem ele faltará o indispensável e lógico complemento do inverso semiciclo evolutivo, que nós vivemos atualmente. O mal e a dor são realidades indiscutíveis e características do ser decaído em planos inferiores de vida. É uma necessidade lógica que não possa estar em Deus a sua causa que, por conseguinte, só pode estar na cri- atura. Sem a teoria do desmoronamento, teria sido Deus quem determinou o semiciclo involutivo, isto é, a inversão do espírito na matéria, da liberdade na escravidão, da luz nas trevas, da felicidade na dor etc. Como poderia o próprio Deus chegar a esta absurda contradição de querer subverter o sistema que Ele mesmo criou? O universo é também um conjunto lógico, no qual não há lugar para absurdos.

Do ponto de vista da criatura, não teria sido injusto e maldoso (duas qualidades que Deus não pode ter) condená-la ao sacrifício da ascensão sem que ao menos fosse justificado o seu erro inicial? As mentalidades que se rebelam à ideia de uma reação da Lei pela queda na dor, em virtude do erro de origem, perguntamos se não se revoltariam mais ainda contra o conceito de um Deus que haja querido uma criação imperfeita e progressiva, impondo ao ser inocente o tremendo esforço de construir a sua felicidade através da dor, por um preço tão duro, quando sabemos que o princípio de Deus, ao criar, é o amor, isto é, doação por ato de bondade. Nós podemos variar de hipóteses, repelir escandalizados uma e outra, mas há fatos positivos que não se podem discutir ou abolir, tais como o mal ao lado do bem, a dor ao lado da alegria, a imperfeição junto à perfeição, ou seja, a existência de um lado desgastado e enfermo, de algo de corrupto, que repugna atribuir-se a Deus, pois, de forma alguma, podemos conceber seja Ele incapaz ou mau. É absurdo colocar no bem a causa primeira do mal; na felicidade, a da dor; na perfeição de Deus, da imperfeição. A causa deve estar na própria natureza do efeito. Dos dois termos com que nos defrontamos, a um dos quais deve caber a responsabilidade, somente a criatura pode errar, jamais o Criador. Poderá desgostar-nos a ideia de sermos culpados, mas outra hipótese não existe para explicarmos as causas.

Na equação, cuja incógnita procuramos, muitos termos são tomados como pontos fixos, inamovíveis, tais como a bondade e a sabedoria de Deus, porquanto Ele não poderia deixar de querer e das Suas mãos não poderia ter saído senão uma obra perfeita. Por outro lado, temos a existência da dor e do mal, o contrastante dualismo de princípios opostos e, enfim, a atual fase de evolução, que, em um sistema de equilíbrio, implica a lógica necessidade de uma complementar, inversa e precedente fase involutiva. A única solução que concilia e resolve tudo é a teoria da queda. Se a eliminarmos, acaba-se em um mar de contradições e nada se resolve. É evidente que à incógnita da equação não se pode emprestar outro valor a não ser o de que a causa está na revolta e que o nosso é um universo desmorona- do. O leitor que deseja eliminar a teoria da queda procure outra que igualmente resolva tudo sem dúvidas. Parece-nos lógico que tenhamos preferência por uma teoria que tudo resolve, deixando de lado as que não resolvem: teoria que aceitamos por força dos fatos, e não por influência de uma escola ou religião.

A primeira vez que começamos a encarar essas questões em nossos escritos foi nos capítulos XV e XVI do volume Problemas do Futuro. Ali, começamos a tatear o terreno, ou- vindo as teorias contrárias, porém nos limitando mais a fazer interrogações do que cuidar de dar respostas. Os problemas foram, então, apenas esboçados e orientados sob um aspecto geral, como germens de conceitos que seriam posteriormente desenvolvidos no presente livro, para o qual estes dois capítulos referidos podem servir de introdução. Neles, começamos a assentar e agitar o problema na forma psicológica, como muitos o propõem, e dizíamos que o mal parece uma força negativa, que atenta contra Deus, uma imperfeição devida a um erro Seu e que Ele, em dado momento, encontra no Sistema, apressando-se a remediá-lo. Se há um outro Deus que limita o primeiro, então cai o conceito de um Deus absoluto e perfeito, restando para o homem a dor, punição de um Deus vingativo. Essa dor deriva da culpa do primeiro rebelde, que certamente não podia ter consciência completa do bem e do mal, pois, se a tivesse, não teria se prejudicado com a revolta e mergulhado na dor. E como pode um inconsciente ser responsável e punível, se, ao procurar o próprio bem, erra, sem o saber? E em nome de que justiça, Deus, que tudo sabe, que de tudo tinha presciência, mesmo desse erro, pode condenar um ser que errou por ignorância a pagar com a dor? Quando uma criança inexperiente cai, a culpa é dos pais, que, sabendo de antemão, deveriam prever a queda; é dos pais, que têm o dever de educar antes de punir e, ainda assim, apenas proporcionalmente à experiência adquirida pelo filho. Quando este não tem conhecimento, os pais não podem punir. E, então, que deveremos pensar de um Deus que, contrariamente aos seus princípios de amor, bondade, lógica e justiça, comporta-se dessa maneira para com a criatura?

Assim falávamos naqueles dois capítulos. Esta é uma primeira e elementar forma de plantar a questão. Mas já ali se viam como eram absurdas as conclusões, visto que se voltavam contra Deus. Isto é um assalto à lógica, que o evoluído não pode aceitar. Mas a maioria dos homens é presa de ilusões de ótica psíquica e de perspectiva mental, porque neles, mais do que a lógica e o raciocínio, impera o instinto de auto defesa na luta pela vida. Ora, na procura do responsável pelo mal, pela causa da dor, repugna a este tipo biológico admitir e confessar a própria culpa, porque sua vida gira integralmente em torno da seleção animal do mais forte, que é aquele que sabe vencer, não importando os meios. Então confessar-se culpável é perder; defender- se é necessidade, ainda que, em plano mais elevado, semelhante modo de proceder se reduza a absurdo. Assim, para não acusar a si próprio, chega-se até mesmo a acusar a Deus. É somente a falta de capacidade de raciocínio que permite imaginar um absurdo tão incrível, como o erro e a culpabilidade de Deus.

É aqui o caso de se perguntar se esta atitude mental não constitui uma prova da queda, se ela não deriva da natureza do rebelde e da persistência do originário espírito de revolta. Tudo isto revela e confirma a perpetuação de uma corrente, de uma força que continua a manifestar-se na sua direção inicial. Imaginar a possibilidade de culpa divina é prosseguir rebelando-se em favor do próprio ―”eu” e contra Deus, o que é culpa de origem, o ponto de partida que torna e retorna na normal psicologia humana de abuso.

Diz-se também: ― “Sim, o homem errou, mas a culpa é de Deus, que o criou assim. Ele deveria criar um ser que não pode- ria errar”. Como se vê, persistimos sempre na atitude de quem pretende fazer uma escola para Deus, a fim de ensinar-Lhe a operar, sobretudo segundo as nossas próprias conveniências, que se cifram em gozar sem sofrer. Esta é uma concepção antropomórfica, para uso e consumo exclusivo do homem. Encontramo-nos aqui nas últimas raízes da dor, nas suas causas mais profundas. Azorragado pela dor, o homem não quer compreendê-la e, para livrar-se dela, sem nada haver compreendido, procura arredá-la de si e atirá-la nos outros, até mesmo em Deus, culpando-O. Como é raro encontrar o homem que reconhece em si as causas do próprio infortúnio, não as procurando nos demais! A razão pela qual a tantos repugna a teoria da queda é que ela humilha e nos induz a reconhecer os nossos erros.

À medida que deixamos as causas acessórias e subimos para as mais remotas, o problema se concentra, por inteiro, no momento psicológico da revolta. Da forma como o homem propõe comumente a questão, parece que não podemos fugir ao seguinte dilema: ou os espíritos eram sábios e, portanto, não podiam cair, porque sabiam as consequências, ou eram ignorantes e, então, não podiam ser culpados da queda nem responsabilizados por ela; em outras palavras: ou Deus criou um espírito que sabia e que, por isso, não podia cair, ou o criou insciente e, então, não o podia punir. Diz-se, igualmente, que o mal existe de fato, como força inimiga de Deus. Se ela não foi criada por Deus, então Ele, se não é capaz de extingui-la, não é onipotente. Se Ele a criou, foi criada uma obra muito imperfeita, logo Deus não pode ser perfeito na realidade o mal não foi criado por Deus, Que o vencerá.

No fundo, tudo se reduz a compreender a psicologia desse erro. Será a nossa psicologia humana capaz de compreender uma psicologia tão distante de nós? Podemos admiti-lo, não só porque os homens se incluem entre os espíritos que fizeram a revolta (não sendo deles inocentes descendentes) mas também pelo fato do universo ser regido por princípios únicos, repetidos em todos os níveis. Ora, então é possível que as posições dos primeiros espíritos pudessem não ter sido apenas as expressas no dilema. Pode-se dizer que algo é branco ou preto, porém pode também ser verde, isto é, nem branco nem preto. Assim as causas também podem ter sido bem diversas das acima expostas. Podemos bem entender o conhecimento dos primeiros espíritos como limitado, em face do ilimitado de Deus. De fato, os espíritos, nascidos de Deus, como uma divisão orgânica em Seu seio, não podiam possuir o conhecimento do Todo, que só Deus possuía, porque só Ele era o Todo, enquanto eles eram apenas momentos da Todo. Eles eram, certamente, perfeitos, mas dentro do limite dado pelo fato de serem uma parte, e não o Todo. Somente a totalidade que eles formavam, isto é, o conjunto orgânico do Todo, de que eles eram parte no Sistema, podia coincidir, também no conhecimento, com o Todo – Deus. É assim que cada um deles não podia ser onisciente, porque a parte pode ter um conhecimento perfeito, nos limites do próprio ser, mas não pode alcançar o conhecimento do Todo. É óbvio, pois, que, para seres assim perfeitos, mas limitados em face de Deus, Que, como é lógico, devia ser mais do que eles, pudesse existir uma zona que o seu conhecimento não podia atingir. Essa zona do ignoto foi o campo da queda.

Essa zona desconhecida não somente faz parte da lógica e da estrutura do Sistema, mas também desempenhou um papel específico em relação à liberdade do ser. A sua função foi servir como meio de prova da amorosa obediência a Deus e da espontânea e livre adesão à ordem da Lei, como era dever da criatura demonstrar para com o seu Criador. É lógico que a célula – fazendo parte de um grande organismo, nele e dele vivendo, como sucedia aos espíritos puros no seio de Deus – deva aceitar e exercer as leis do organismo, mesmo quando, sendo limitada, não as pode conhecer e compreender. E, de fato, as células de nosso organismo humano, mesmo possuindo uma vida autônoma, obedecem à lei do conjunto orgânico – lei superior à delas, de simples células isoladas – e nelas se coordenam em obediência. Obediência necessária, porque sem ela teremos uma anarquia, o que faria ruir todo o Sistema. A coordenação na ordem é sempre indispensável em qualquer todo orgânico.

Este confronto que fazemos aqui não é por acaso, porque a estrutura de nosso corpo físico repete realmente o tipo de modelo originário, dado pela primeira criação, cuja estrutura nos revela, ao mesmo tempo que nos explica, por que todos os organismos, justamente por serem derivados do primeiro modelo, são construídos segundo o mesmo esquema e correspondem ao mesmo princípio. É ele o princípio universal das unidades coletivas, que já examinamos em A Grande Síntese. Este motivo originário ou tipo construtivo fundamental da criação vai sendo repetido, como um eco, em todos os níveis evolutivos, até nas menores criações, que são consequência da primeira, à guisa de desintegração atômica em cadeia. É assim que as unidades maiores são formadas de agrupamentos de unidades menores, o que explica o instinto de viver em sociedade, o espírito gregário tanto entre os homens como entre os animais, para vencer na luta pela vida. É assim que, nas unidades maiores, as menores possuem funções menores, em que elas se especializam.

Foi assim, pois, que existiu para os espíritos puros uma zona situada além do seu conhecimento, zona reservada a Deus, na qual eles não deviam nem podiam entrar, sem formar um estado de anarquia, que teria atentado contra o próprio Sistema. Era essa uma zona em que se devia somente acreditar, obedecendo. Ela possuía, desta forma, a função de propiciar um tipo de exame; um consentimento pedido e feito por amor, livremente; uma arguição em que o Criador interrogava a criatura, para que ela declarasse a sua aceitação, sem coação, permutando amor com amor. Eis a zona em que podia nascer e nasceu o erro.

Alguns espíritos responderam com obediência, aceitando por amor e por fé, permanecendo fiéis a Deus, em Sua ordem. Outros, todavia, sempre livres, desejaram ultrapassar o limite prefixado e, usurpando poderes, entraram no domínio proibido, reservado somente a Deus. Eles quiseram usar a liberdade, o poderio e a sabedoria recebidos de Deus para ainda ampliar o princípio do ― “eu sou”, que Deus havia colocado como base dos seres, à Sua imagem e semelhança; quiseram ainda crescer, ao invés de coordenar-se em obediência na ordem do Sistema; pretenderam crescer além do limites da natureza de seu ser, que Deus lhes as- sinalara. E o que sucederia se uma célula do corpo humano quisesse equiparar-se ao nosso ―”eu” e usurpar os poderes centrais, assumindo a direção de todo o funcionamento orgânico? Certamente, onde existisse desordem o Sistema desmoronaria.

Não restou como um instinto fundamental da vida o impulso de crescer além dos limites, invadindo, usurpando e impondo-se? Assim ele se explica. E não sucede sempre a mesma coisa, isto é, que a Lei – o instrumento que exprime o pensamento e a vontade de Deus – mantém todos os seres dentro dos devidos limites? Todos desejariam crescer ao infinito, como se pretendessem escalar Deus, mas a Lei lhes serve de freio e os repõe em seus limites, disciplina-lhes o desenvolvimento, guia-lhes a ação através dos instintos e os mantém no posto que lhes fora designado na estrutura orgânica do Sistema. E a realidade quotidiana da vida não repete aos nossos olhos as mesmas coisas? Nós também dizemos às crianças, ávidas de romper o freio do limite, para não fazer isto ou aquilo, a fim de evitar-lhes da- no e, frequentemente, eles não obedecem e depois pagam com a dor, que é, quando erramos, a salutar lição para nos reconduzir à ordem. Assim também, automaticamente, devem recair nos espaços vitais que lhes cabem todos quantos tentam evadir-se, violando a Lei. Quem espera vencer sem esforço, isto é, fora da Lei, perde e paga. O prazer fora da ordem, no vício, acarreta sofrimento e obriga a pagamento.

Ora, os espíritos sabiam os seus limites e não deviam ultrapassá-los; sabiam ser parte de um sistema a ser respeitado, com cuja lei deviam harmonizar-se; sabiam que era dever não ir além dos limites assinalados nem invadir a zona reservada a Deus. Tudo isso sabiam bem. Não foi por ignorância que erraram. O seu ato foi uma revolta consciente, feita, portanto, com plena responsabilidade. Os espíritos podiam ver escrita no pensamento de Deus a norma que lhes era pedido – como seres sempre livres, mas responsáveis – aceitar espontaneamente. Eles não a aceitaram. Ouviram a palavra de Deus e não quiseram acreditar. E nesse ponto deviam acreditar, pois não conheciam todo o Sistema, já que o conhecimento total só cabia a Deus. Eles conheciam o Seu comando, a norma a seguir, mas uma coisa ignoravam, pelo menos por experiência própria direta: a desobediência faria os rebeldes decaírem, gerando a dor, que eles ainda desconheciam.

Pode-se objetar: ― ”Mas Deus deveria ter dado esse conhecimento”. Há, todavia, uma imprescindível necessidade lógica, que impede tenha o absurdo lugar no Sistema. Deus não podia tirar do Seu seio tantos deuses iguais a Si mesmo, pois, como tais, seriam senhores de todo o conhecimento. Ele não podia de Si mesmo, que era o Todo, tirar senão momentos menores que o Todo, dotados, pois, de conhecimento menor e parcial, em face do Seu, o único que podia ser total. Tudo isto está implícito na lógica do Sistema e constitui, assim, uma necessidade, mesmo para Deus, visto que assim Ele não cai no absurdo e na contradição, respeita a Sua lógica e, por conseguinte, a Si próprio.

Não sendo, então, possível, sem violar a ordem do Todo, conceder um conhecimento direto e total, abrangendo também a zona do desconhecido, Deus comunicara aos espíritos um conhecimento indireto, isto é, advertira a respeito do que poderia suceder. Por que os rebeldes não obedeceram? Por que não acreditaram na palavra de Deus? Eis a culpa. Ademais, um conhecimento completo teria anulado a possibilidade de escolha, a prova, a aprovação, a aceitação por ato de obediência, enquanto a lógica do Sistema exigia uma aceitação livre, espontânea, por obediência e por amor, porque era justamente sobre esses alicerces que se erguia todo o Sistema e essas eram as condições necessárias para que se mantivesse. O ser era livre e sabia, pois fora advertido. Ele, deliberadamente, não quis crer e obedecer. A escolha não estava vinculada a nenhuma força, porque Deus quis, acima de tudo, a liberdade do ser, para que ele não fosse um autômato ou escravo. Nem era possível que do Seu seio saísse uma criatura que Lhe fosse semelhante, se não fosse livre. Com a revolta, faltaram ao edifício as bases da obediência, do amor e da ordem, e, onde eles faltaram, o edifício desmoronou. Então a zona de conhecimento que, sendo diretamente inacessível, fora indiretamente comunicada sob a forma de advertência, para ser aceita por fé – zona que os espíritos obedientes conquistaram por crer e obedecer – os espíritos rebeldes foram condenados a conquistar pela dor, através da dura fadiga da reascensão pela evolução. Assim, o erro é reabsorvido na dor, o mal é sanado, o edifício desmoronado é reconstruído.

Por que é difícil a compreensão desse ato de revolta, se continuamente violamos a Lei, embora sabendo que devemos pagar? Sabemos e, entretanto, nos iludimos, porque somos vencidos pelo instinto dominador e expansionista do ― “eu”. Como da primeira vez, o mesmo ato repercute e retorna em nossa experiência cotidiana. E, por ventura, não comprovamos em nossas vidas que do erro nasce a necessidade de remediá-lo, nasce uma dor pela qual expiamos e, expiando, aprendemos a não mais cometê-lo? Não vivemos nós comprimidos nas malhas de uma lei onde qualquer violação é erro, o qual pagamos com dolorosa experiência? Mas, apesar de tudo, continuamos a violar, sendo a dor um tributo nosso. A Lei é perfeita, e quem a cumpre não pode deixar de ser feliz. Se a dor é um fato real, inserido em nossa vida como elemento inseparável e fundamental, isto só pode ser explicado como um erro proporcional à fundamental violação inicial da ordem divina.

A dor é um fato inegável e tremendo, que, cedo ou tarde, atinge a todos, porque é inevitável. Sem a queda, a dor seria uma condenação imerecida, o belo presente dado por um Deus que cria por amor! Seria, porém, um presente de ódio, ainda que nos servisse para pagarmos uma futura felicidade. A evolução é o necessário sacrifício da subida, se não quisermos agravar a nossa situação, descendo. Somente nesse sacrifício de ascensão está a salvação. Sem a queda, porque esse sacrifício? Talvez para pagar a Deus o dom da vida? E onde está a liberdade e o amor, quando se é constrangido pela força a pagar tão caro essa vida, que o espírito não pediu a Deus? Mas que Deus seria esse, que não saberia gerar senão na dor, sendo obrigado a intervir com a redenção, e a criatura só tivesse para oferecer o sofrimento?

Como se vê, se recusamos a teoria da queda, entramos numa insolúvel trama de contradições e absurdos, de que nasce uma triste ideia da divindade. O homem pode bem justificar- se, fazendo do erro da criatura um erro de Deus, mas não há quem não veja nisso um absurdo. Na vida, temos que nos reportar ao erro para explicar a dor, porque ele é essencialmente um estado de desarmonia na ordem da lei de Deus. Ora, podemos nós admitir um erro em Deus? Não, é absurdo. Então, onde poderá ele ter existido, senão na criatura? É inútil procurar mais, pois não há escapatória.

Que resta, então, do dilema já proposto: ―”Ou os espíritos eram sábios e, por conseguinte, não podiam cair, ou eram ignorantes e, nessas condições, não podiam ser culpáveis”?. Que resta do outro dilema, pelo qual Deus não podia ser nem onipotente nem perfeito? Deus que nos salve dos dilemas, que parecem uma tenaz de aço, mas que nada comprimem, porque, no fim, descobre-se que um dos seus braços era fictício. Incumbe-nos mostrar a lógica dos fatos. Os espíritos sabiam que a zona do ignoto era destinada à obediência. Eles sabiam, não eram ignorantes, sendo, por conseguinte, responsáveis e culpados. Sabiam o quanto bastava para obedecer e não quiseram, porque não acreditaram. Tudo foi merecido, segundo a divina justiça. Só assim poderia permanecer intacta a liberdade. E o amor de Deus persistiu, porque, no Seu aspecto imanente, Ele desceu com a criatura, para ajudá-la a subir. Só assim se compreende e justifica o sacrifício da evolução. Somente assim a dor nos revela a sua lógica gênese. Unicamente desta maneira se confere um valor lógico a todos os termos da equação, tornando possível coordená-los em um princípio unitário dentro de um sistema orgânico. Caem assim apenas os rebeldes. Explica-se então a gênese do universo físico, a evolução das dimensões, o espaço curvo em expansão, o processo evolutivo. Desta forma explica-se tudo; de outro modo, nada. O grande desmoronamento é um desastre, mas o Sistema é tão perfeito, que pode restabelecer-se. Tudo se reduz a uma lição instrutiva, para que se aprenda a não mais errar. Compreende-se então o significado da dor, amarga medicina que cura o enfermo e elimina o mal, que restaura o ser no ponto em que se feriu ao errar e o robustece nos lugares em que se revelou fraco e ignaro. Não é este o processo corretivo de todo erro nosso em cada reencarnação? Nada de vingança punição ou condenação, mas escola para a reconstrução da felicidade!

Quisemos acrescentar tudo isto, mesmo repisando alguns conceitos, a fim de que tudo seja exaustivamente controlado pela lógica e claramente demonstrado para todos.

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Tudo que dissemos tem sua lógica. Logo, que as coisas sejam assim, não padece dúvida. O nosso problema, aqui, reside em fazer a psicologia moderna compreender que é realmente assim, em termos que ela possa aceitar, dada a sua formação. Não há razão que nos leve a crer que o universo seja uma obra ilógica e que o pensamento de Deus, que tudo guia e sem o qual nada se explica, não deva ser um processo lógico. A mais avançada ciência materialista, ela própria, já admite isto, que também ressalta na presente obra. ―Mas que lógica?, poderemos indagar. A lógica de Deus não poderia ser um outro sistema de lógica? O fato é que, em nosso universo, comprovamos um só tipo de lógica, que é também a humana, e é este fato que nos torna o universo compreensível. Se este correspondesse a um outro tipo de lógica, não lhe seriam aplicáveis os nossos sistemas matemáticos, aos quais, pelo contrário, ele corresponde perfeitamente. Não existe, pois, razão alguma para crer que a lógica do pensamento de Deus deva obedecer a leis diferentes daquelas a que obedece a lógica humana. Entre o pensamento do homem, como função primeira do espírito (que vimos não poder ter sido originado senão de Deus – espírito), e o pensamento de Deus deve existir um denominador comum, por mais remoto e profundo que seja dado pela mesma substância que os constituem. Há ideias axiomáticas, não demonstradas, com as quais instintivamente toda a humanidade concorda. São conceitos metafísicos, que não constituem resultado da experimentação biológica. O fato é que, no fundo do pensamento do homem, quanto mais reto, evoluído e inteligente for ele, tanto mais fala o pensamento de Deus com a sua lógica. Na verdade, o homem tem de Deus uma representação à sua imagem e semelhança, criando-O dessa forma. Mas aqui se trata de uma das aproximações sucessivas, que só são possíveis quando sob elas existe justamente uma realidade para torná-las possíveis. E esta realidade está em que o homem é realmente feito à imagem e semelhança de Deus, porque é Seu filho, de origem divina e, ainda que filho degenerado, é sempre filho, semelhante ao Pai.

Ora, tudo o que houve na revolta e queda é igualmente provado pelo fato de que, como também é lógico, tudo isso continua a ocorrer todo dia em nossa própria vida, em uma série de maneiras de agir, verificada por motivos de um dado tipo, que, de outra forma, ficariam sem ter explicação. Por que teria a conduta humana assumido esta direção? Por que corresponde ela a tal ordem de princípios conhecidos, como o bem e o mal, a dor, o progresso, a ideia de Deus etc.? De onde surgiu este sistema, que também é lógico para a humanidade inteira? Como explicar a gênese e o profundo significado de tudo isto? O hábito nos faz esquecer estas questões, por isso os simples não as propõem, achando tudo natural apenas porque sempre viram tudo assim. Mas isto não basta para satisfazer a quem pensa. Somente este conjunto de remotíssimos precedentes pode ter marcado a via e a direção para um movimento ou desenvolvimento particular de fenômenos que, atualmente, por inércia, continuam a se desenvolver justamente segundo o tipo com que nasceram. Somente assim podemos explicar porque continuamos a errar e sofrer cegamente, quando a felicidade está pronta na adesão à Lei. Continuamos, porque somos filhos do erro.

Erro e dor são conexos em uma lógica de ferro. A dor é um fato real. Há, pois, uma necessidade absoluta de admitir o seu termo paralelo e complementar: o erro, sem o qual a dor não se explica e, num universo lógico, cairíamos num flagrante e inconcebível absurdo, um absurdo de tal ordem, que faria ruir a lógica de todo o sistema, provocando o seu desmoronamento e chegando mesmo a macular de maldade e incoerência o semblante de Deus. É tão grande a contradição, que nenhum ser racional poderá introduzi-la nas próprias conclusões. Entretanto se chega a ela, o que quer dizer que os termos em que foi colocado e desenvolvido o problema estão errados. A lógica tem suas exigências matemáticas, das quais o nosso pensamento não pode fugir, porque ele se move num universo regido pelas necessidades matemáticas de tal lógica.

Compreende-se, todavia, que alguns se rebelem contra essa teoria da queda e do desmoronamento. Para impressioná-los menos, poder-se-iam criar termos novos, mas seria trabalhosa para o leitor uma terminologia nova. Contudo o conceito não se alterará. Rebelam-se com razão, porque essa teoria foi até hoje apresentada apenas como enunciado de revelação, e não explicada e demonstrada através de uma análise racional e lógica. Ela permaneceu, assim, como um ato de fé, como uma lenda envolta no mistério.

O problema, para sua explicação, foi enfrentado com as já expostas objeções e dúvidas, que deixam tudo sem solução, qual indagação feita pela metade na fase de interrogação, sem complementar-se jamais na fase de resposta. É natural que, dessa forma, a teoria da queda permaneça como um esboço incompleto, do qual se arredam entediadas as mentalidades racionais. É cabível, então, que a elas repugne aceitar uma teoria que se apresenta vaga, incontrolável e contraditória. Responde-se: é mistério. Mas o fato é que a mentalidade racional moderna abandona no vazio do incerto tudo o que ainda permanece insolúvel, aceitando e tomando para exame apenas o que é positivamente compreensível, porque é racional. E aqui temos de fala esta linguagem se quisermos despertar a mente moderna. É o nebuloso, o desgaste pelo ilógico, que faz nascer nela fastígio e rebelião, quando ouve falar em queda dos anjos. É reportando-se aos velhos conceitos tradicionais que muitos ficam chocados.

Mas aqui se trata de outra coisa. Nós não repetimos ideias de nenhuma religião ou escola. Com o método da intuição, encaramos os fatos – transcendentais, mas sempre fatos. Sem tê-los procurado, concordamos com os enunciados sumários da revelação, o que é uma prova em favor, e não contra. Já que não é possível dar ao leitor a sensação desta visão, procuramos descrevê-la com os únicos meios que temos à disposição: a lógica e os argumentos, como só se pode fazer para explicar a luz a um cego. Acreditamos tê-lo conseguido. Mas se assim não foi, repetimos ainda: fatos são fatos.

Dizíamos que a Lei reage. Mas aquilo a que chamamos dor, que crucia, é atribuído a Deus, a causa de tudo, culpando-O também dela. Revoltam-se porque acreditam ver em tudo isto uma punição, uma vingança divina. No entanto a queda não foi vingança, nem punição. Deus é sempre amor. Deus jamais pune. A punição é infligida pelo ser a si mesmo. Dada a estrutura do Sistema, ele, através da rebelião, lacerou as carnes com as próprias mãos. Quem compreendeu a estrutura do Sistema não pode falar de vingança. Esta é uma concepção antropomórfica, é como querer explicar o trovão como ira dos deuses. Se perdemos o equilíbrio e quebramos a cabeça, não é porque as leis do equilíbrio e a gravidade nos tenham querido punir e vingar-se. No campo moral é a mesma coisa. O universo é regido por uma ordem, por uma lei. Quem a viola não violenta ou altera a intangível ordem divina, mas gera apenas uma desordem em si próprio; não subverte a Lei, mas inverte-se a si mesmo no seio da Lei. É necessário compreender que a criatura é livre, mas dentro de limites; livre para alterar-se a si mesma, mas não a ordem universal. A criatura deverá, pois, sofrer as consequências dessa alteração, que diz respeito só a ela, e sofrerá pela sua desarmonia, que ela desejou, até reintegrar-se através do sacrifício na zona por ela violada, na ordem por ela alterada.

Dizíamos que a Lei reage. Mas aquilo a que chamamos reação é uma sua resistência à deformação, uma resistência elástica que se pode comparar à da borracha, que cede, mas resiste, e que, quanto mais cede, tanto mais se retesa, para reconduzir tudo ao estado normal anterior. Assim a Lei, como norma, é inviolável, determinística vontade absoluta de Deus. Mas essa Lei é dotada de uma certa elasticidade, no quanto basta para conter um dado âmbito no arbítrio e amplitude de movimento, que representam a liberdade humana, isto é, a possibilidade de escolha e, por conseguinte, de erro, necessários para experimentar e, no caso de erro, para aprender. Compreende-se que a perfeição não pode deixar de ser determinística, no sentido de que só o melhor absoluto pode ocorrer. Tal é o sistema incorrupto dos espíritos que não erraram e não caíram. Pode, pois, deste ponto de vista, parecer mesmo que o arbítrio humano, além de ser um resíduo da liberdade originária, seja um produto da queda, visto que a escolha significa uma incerteza e uma procura do melhor absoluto, que se perdeu e ainda não foi reconquistado. Os termos do nosso estado de decaídos escalonam-se nesta ordem de sucessão: incerteza, escolha, experiência, erro, dor, prova, escola, conhecimento. Estes são os termos do desmoronamento e reconstrução de consciência, termos que não podem existir no estado de perfeição e que a própria evolução, isto é, nosso retorno a Deus, vai realmente reabsorvendo e eliminando com a progressiva conquista de consciência. No estado de perfeição dos espíritos que aderiram à Lei, só há uma liberdade possível: a absoluta adesão à Lei, que é a vontade divina; adesão livre e espontânea, querida e consciente. Por este motivo os espíritos rebeldes deveriam ter obedecido e, como desobedeceram, caíram. Nessas alturas não podem subsistir os nossos conceitos antropomórficos de liberdade, arbítrio ou capricho.

Mas esclareçamos ainda melhor. Quando Deus criou o ser puro espírito, deixou apenas um ponto incompleto na Sua obra, a fim de que ela fosse completada pela livre adesão do ser. Este deveria, com a aceitação, harmonizar-se com o Sistema e, nele fixando-se em seu posto, dar prova de que sabia fazer bom uso da liberdade e inteligência que Deus lhe dera, compreendendo qual era o seu lugar na ordem da criação. Elevar o ser ao grau de colaborador da obra de Deus foi ato de amor, ato paralelo ao dom da liberdade, pois que a criatura não podia ser um autômato, ainda que perfeito. A prova era um exame lógico e necessário.

Pode-se objetar: Deus, que sabia com antecipação que na prova muitos falhariam, devia impedi-la. Mas não se poderia evitá-la, senão violentando a liberdade do ser, tornando-o um autômato, incapaz de compreender e dirigir-se consciente- mente. Significaria alterar todo o Sistema, abalando-o pela base. O raciocínio do homem preocupa-se, sobretudo, em como se poderia ter evitado a dor, que tanto o vergasta, mas não leva em consideração muitos outros elementos necessários. Como podia Deus, logicamente, impedir pela coação semelhante experiência? A prova consistia exatamente em uma livre adesão por fé e obediência, na reciprocidade por amor. Se não entrava na lógica do Sistema a possibilidade de tal constrição, Deus, que sabia da queda de muitos espíritos, não os deveria ter criado então? Mas o Sistema é um organismo compacto, de férrea lógica, e nela não podia caber essa possibilidade, que teria sido um ato de flagrante injustiça. Por que tolher aos candidatos à queda o dom máximo da existência e a possibilidade de redimir-se, alcançando a felicidade eterna, ainda que através da dor? Que punição e que injustiça não teriam sido essas, pois que seria condenação antecipada de inocentes, antes de haverem cometido qualquer erro! É lógico que Deus deixasse a esses espíritos a liberdade e a vida, que constituem sempre ato de bondade e de amor, porque a escolha continuava entre a via curta da felicidade pela obediência à ordem da Lei e a via longa da redenção pela dor, após o erro da revolta.

Deus permitiu o erro justamente porque sabia. E sabia também que esse não era um mal irreparável, mas apenas uma via mais longa para alcançar a felicidade eterna. Vimos que o mal ou se converte em bem, ou está destinado, pela férrea lógica do Sistema, à autodestruição. Deus sabia que a Sua criatura, qualquer que fosse a via que tivesse escolhido para percorrer, alcançaria a felicidade. Eis que o amor, a bondade, a justiça, a lógica de Deus ressaltam sempre mais evidentes em cada caso. Fala-se de vingança por cegueira, e não se vê que o amor de Deus foi tanto, que, como Filho, desceu ao nosso mundo para sofrer conosco e redimir-nos, ensinando-nos a subir! Foi tamanho esse amor, que Ele quis descer dos céus, da transcendência à imanência, para permanecer em nosso contingente. Assim, o médico vela e ajuda o enfermo de perto, até que ele se tenha restabelecido. Que mais se poderia pedir a este Deus, que muitos pretendem acusar de injustas punições? Ao contrário, quanta sabedoria, quanto amor, quanta bondade! Só mesmo uma grande ignorância pode concluir de maneira diversa.

É o antropomorfismo que leva o homem a aplicar a Deus os princípios do seu plano biológico. Repitamos: Deus jamais pune. O que nos parece punição não é resultado de uma atividade positiva de Deus contra a criatura – conceito absurdo – mas sim a automática consequência da ausência de Deus, quando Ele é repelido pela criatura. A causa determinante é a recusa voluntária da criatura. Deus não inflige punições, mas, quando a criatura O nega e repele, Ele respeita a liberdade que lhe deu e, assim, pela própria vontade, a criatura se afasta de Deus, como se Ele se tivesse retraído. Ora, uma vez que Deus é vida, a maior punição é esse afastamento, porque significa privação de vida. E, com a revolta, a criatura se privou da própria vida, que é dada pelo espírito, tornando-se matéria, mas com possibilidade de ressuscitar da sua sepultura.

Tudo isto demonstra como se fosse lógica e fatal a queda após a revolta, porque esta significava um afastamento de Deus, ou seja, da vida; significava, portanto, um suicídio, a morte, ainda que a bondade de Deus lhe deixasse a possibilidade de ressurgir para a vida, corrigindo o erro com a dor. Tudo isto poderá agora nos permitir melhor compreender também aquilo a que já nos referimos precedentemente, no presente capítulo, com respeito à anulação dos espíritos rebeldes, que insistem em permanecer na rebeldia. O espírito que recalcitra na revolta é anulado (ainda que o seja somente como individualização, e não como substância, porque esta, sendo de Deus, é indestrutível), em virtude de que todo o afastamento de Deus significa morte, porque Deus é vida. Negar Deus é o mesmo que negar a existência, porque só Deus é, e fora de Deus nada mais pode ser. Deus é o Todo, e sair do Todo é cair no nada. Fora de Deus, que é o Todo, não pode existir senão o nada. É a natureza de Deus e a própria estrutura do Sistema que, automaticamente, sem nenhum ato ou intervenção de Deus, implicam a morte de quem se afasta Dele. Somente em Deus é possível existir, no seu seio e na sua lei, e a Ele retornando, se a criatura se afastou. Quem não estiver com Deus, afastando-se Dele e não mais retornando a Ele, perde a existência.

A essência da queda não é, portanto, um ato de punição, mas o afastamento de Deus, desejado pela criatura, que tem fatal necessidade de subir novamente a Ele, se quiser reencontrar a vida. Como o edifício criado por Deus se poderá manter sem Deus, seu princípio animador? Não será lógico o desmoronamento para os seres que se afastaram desse princípio? A revolta contra Deus significava revolta contra a própria vida do ser, contra a sua própria existência. O que poderia resultar desse comportamento, senão a morte, um não-ser, como é para a consciência (qualidade do espírito) a inconsciência (qualidade da matéria)? Assim a queda foi um desmoronamento de dimensões em planos de vida inferiores, involuídos, em que todos os dons de Deus se contraíram em um estado potencial, de latência, do qual só o sacrifício de ascensão do ser poderá retirá-los, despertando-os para a atualidade. Ora, o ser, para curar-se da desobediência, deve compensar a ordem com equivalente obediência à Lei, para que o equilíbrio seja restabelecido. Não se pode em tal sistema restabelecer a harmonia de outra forma. O homem deve, assim, provar o aspecto duro da Lei, mas esta permanece sempre lógica, boa e justa. No fundo da descida está o inferno; no ápice da subida, o paraíso. De fato, quanto mais se desce, mais aumenta o egoísmo separatista, a desarmonia, a luta e a agressividade entre os seres, sempre dispostos a entredevorarem-se. Quanto mais se sobe, tanto mais a vida se harmoniza em paz e amor.

Eis, pois, tudo esclarecido até às origens. Assim se explicam as razões e as causas deste processo evolutivo, do qual, em A Grande Síntese, só se fez um exame objetivo, uma comprovação do fato. A muitos poderá desagradar este destino de tão laboriosa ascensão pela conquista da felicidade. Mas não está tudo agora lógico? A nossa miséria atual não é um defeito de criação, uma culpa de Deus. É uma mácula, uma chaga nossa, que Deus está curando. A dor permanece, mas com uma interpretação tão otimista, que adquire um grande significado positivo e um poder construtivo em nossa vida. E a criação, que verificamos ser contínua, é assim, na sua essência, uma obra de restabelecimento contínuo, com a qual Deus auxilia o homem a reconstruir o edifício desmoronado. Assim, tudo se explica em perfeita lógica de bondade. Se, nessa lógica do Sistema, colocarmos os conceitos fora do respectivo lugar, é natural que resultem quadros horríveis, monstruosos, como em um mosaico em que as diferentes pedrinhas fossem assentadas ao acaso. Mas respeitemos a lógica (o Sistema está saturado dela), e entre nós aparecerá a maravilhosa beleza e perfeição do plano divino. Que maior maravilha do que o surgimento do aspecto imanência da Divindade, que assim permanece presente no universo desmoronado, nele descendo para animá-lo, curá-lo e salvá-lo? Que perfeição no Sistema, fazendo com que um erro – a revolta – ao invés de constituir um desastre irreparável, transmude-se em um processo de restabelecimento semelhante ao que o poder curativo da natureza (imanência de Deus) exerce num organismo enfermo! Não. Não houve nenhum defeito de origem. Ao contrário, o Sistema é tão perfeito na sua estrutura orgânica, que a revolta não lhe afetou a perfeição, permitindo que todos se salvem. Finalmente, desaparecerá qualquer traço de erro com suas consequências, sendo o mal e a dor elimina- dos do Sistema. A cruz que Cristo tomou sobre os ombros inocentes era o efeito do desmoronamento. Ele a carregou para que todos, com Ele, reabsorvessem na dor a consequência do erro. Que maior amor poderia revelar pela sua criatura um Deus Que, após lhe haver dado a vida, desce a sofrer com ela para devolver-lha, quando ela já a havia perdido?

É bom, é lógico, é satisfatório reconhecer no amor o centro do Sistema. É este princípio de amor o princípio de coesão que mantém una a Divindade, ainda que, para criar, ela se cindisse no seu íntimo (dizemos íntimo, porque nada se pode acrescentar ao Todo, e Deus é o Todo). É este princípio de amor que também mantém unido o edifício desmoronado e o reconduz à salvação, mesmo que seja através da dor. Quanto mais se desce nos planos da queda, tanto mais áspera é a dor e tanto mais amarga de ódio. Quanto mais se sobe na evolução, tanto mais dulcificada pelo amor ela será. Assim, a dor de Cristo na redenção está baseada no amor, enquanto a dor de Satanás não tem esperança de ascensão e é baseada no ódio. Amor invencível, que resiste à revolta da criatura. Amor que conserva, mesmo no universo decaído, o divino princípio positivo da reconstrução! Amor que luta contra o satânico princípio negativo da destruição, e o vence. Amor que permanece, ainda que a revolta tenha sido a resposta da criatura com a sua negação! Amor que continua a cimentar as partes do edifício desmoronado, fazendo dele, mesmo assim, um sistema orgânico como é o nosso universo!

A criatura rebelde pretendeu atentar contra o Sistema para lhe alterar os planos hierárquicos, e ele, baseado em uma férrea lógica de amor, resistiu e a está salvando. E a pena para a revolta é uma lição de amor, porque, se é dor, também é impulso e pressão para a reconquista da felicidade. O ser deverá sofrer até aprender a grande lição de amor, até saber como deveria ter, no início, espontaneamente retribuído a Deus o amor que de Deus recebeu. Sem o amor, o Sistema não se mantém, como efetivamente se verificou no desmoronamento, onde ele faltou. Sem o amor, a criação teria sido uma cisão de Deus em partes, e o Todo não poderia conservar-se, em Deus, um organismo uno. Daqui a necessidade absoluta da existência no Sistema da livre correspondência de amor, que era o conteúdo da prova em que os espíritos rebeldes falharam. Tudo isto, repetimos, porque, sem amor, o Sistema não se mantém. Eis o que está em seu centro e lhe constitui a essência.

Temos observado o problema sob todos os pontos de vista e sob o fogo de todas as objeções. Agora, o desígnio da obra divina está claro. Dele, como a nossa mente exige, foi eliminado tudo que é negativo e absurdo, como erro, imperfeição, desordem, injustiça, maldade, que não podem ser atributos de Deus. Não restou senão o que é positivo e lógico, como perfeição, ordem, justiça, bondade, amor. Um sentido instintivo nos diz que é assim e não pode deixar de ser. Somente dessa forma o nosso espírito se sente satisfeito, saciado e receptivo. Ele exige que a ideia de Deus se salve e se conserve. O resto não é explicação; é blasfêmia! O princípio do amor está no vértice da criação, foi o seu motor, é a força que rege. Deste vértice, o amor tudo anima e sustém. Se em Deus existe o aspecto justiça, sabedoria, bondade, lógica, ordem, poder etc., a última síntese do pensa- mento e vontade de Deus é dada pelo amor.

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Poderíamos, após o exposto, considerar exaurida a argumentação e nada mais acrescentar. Queremos, todavia, ainda esclarecer melhor qualquer dúvida, especialmente no que se refere à teoria, em que muitos creem, pela qual se admite, ao invés da queda dos anjos, uma criação progressiva, evolucionista, no sentido de um universo criado imperfeito e a caminho de um aperfeiçoamento contínuo.

Após ter submetido semelhante teoria a uma séria análise, despidos de preconceitos, fomos obrigados a recusá-la, porque ela nos levaria a cair numa série de absurdos, que nos permitimos aqui sujeitar a exame.

Deus, sendo perfeito, não pode deixar de criar senão perfeitamente, mas teria feito uma criação imperfeita. Deus, Que é Espírito e ordem, teria tirado diretamente da Sua essência a matéria e o caos, que são o ponto de partida da evolução. Deus, que é tudo e representa toda a existência, pois fora Dele nada pode existir, faria derivar tudo do nada (a Sua negação, porque Deus é o ser), e a Sua grande obra criadora não passaria de uma inversão, restabelecimento ou reconstrução do Seu contrário. Isto presume um antagonismo, uma cisão e luta de dois princípios opostos na própria essência de Deus, independentemente e também anteriormente à criação. O ponto de partida desta estaria não em Deus, mas nos antípodas de Deus; não no absoluto, no imóvel, no espírito, na perfeição – qualidades de Deus – mas no relativo, no transformismo, na matéria, na imperfeição, que são o oposto de Deus. É evidente que tudo isto não pode ser obra de Deus, pois Ele não pode errar, e sim obra de uma criatura que podia e livremente quis errar. Tudo isto não podia nas-diretamente de Deus, mas somente em um segundo tempo, posterior à primeira criação, por obra de um outro ―eu‖ e em consequência de uma outra causa. E, como tenha ocorrido isto, procuramos logicamente demonstrar neste volume, de acordo com uma outra teoria, a da queda dos anjos, a única para nos salvar de tal cadeia de absurdos.

Prossigamos no exame. Segundo a teoria da queda, Deus desce ao nosso universo por amor, para salvá-lo. De acordo com a teoria da criação progressiva, Deus, Que é perfeito, põe-se – Ele, que é tudo – através de Suas criaturas, em um estado de desmoronamento do ser, isto é, um estado em que a consciência, primeira qualidade de Deus, se anula na matéria. O ponto de partida da criação progressiva seria um estado em que Deus se autodestruiu nas Suas qualidades primaciais, estabelecendo a própria negação na inconsciência, na dor e no mal, para iniciar um penoso sacrifício de ascensão, cotidianamente imposto à criatura, certamente inocente de tudo isto. Os elementos fundamentais do Sistema, isto é, amor, bondade divina, liberdade da criatura, falhariam completamente desta maneira. E não se poderia imaginar mais absurda violação da justiça no seio de Deus, que não pode deixar de ser essencialmente justo.

O mal e a dor teriam sido, pois, obra direta de Deus e, por conseguinte, de Sua natureza malvada. Deste modo, a obra da criação tornar-se-ia uma maldição para a criatura, uma condenação de que o ser inocente deve redimir-se à custa de um ilimitado tormento. Dever-se-ia dizer então não como escreveu São João: ―No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus‖, mas sim: ―No princípio era o mal e a dor, e eles estavam com Deus‖. A grande obra divina teria sido a criação de um inferno, e à criatura só restaria o penoso encargo de redimir-se dele com a própria dor. E tudo sem liberdade de escolha, sem culpa alguma, como uma fatalidade sem apelo. Para condenar a criatura, Deus não lhe teria pedido permissão, nem lhe teria dado a faculdade de escolher. Desta maneira, ela já se encontra no inferno ao nascer, sem saber por que, automaticamente. Se quiser e souber subir através de seu sacrifício, para lhe fugir, consegui-lo-á; de outra forma, nele permanecerá para sempre.

Mas eis que, um dia, desperto de tão horrível obra, exclusivamente Sua, Deus se arrepende e, para remediar o mal, verificando que o homem por si não consegue subir, envia Cristo, o filho dileto, também Ele inocente, para ser sacrificado por um Deus injusto e pagar um débito que ninguém contraiu, nem Cristo nem a criatura, ambos inocentes. Como se pode então negar razão ao homem que blasfema contra semelhante Deus, quando Ele lhe é apresentado revestido de tais absurdos? Se o mal e a dor foram criações diretas de Deus, como atirar a culpa sobre a criatura? O que se pode pretender de bom e o que pode exigir o Evangelho de um ser criado em condições tão más, quando a vida é uma condenação e a criação, um delito?

Não! Se verificamos que efetivamente a criatura sofre e paga algo através de sua dor, devemos, por um senso de lógica e de justiça, admitir que ela deve pagar algo que lhe compete, um erro ou uma culpa que seria absurdo atribuir à perfeição de Deus. Olhamos o efeito, e a sua natureza nos indica a causa que o produziu. Se tivesse sido o Criador a causa, Ele e ninguém mais deveria expiar na dor. E como pode o Onisciente ter necessidade da escola da dor para aprender?

Como se vê, quanto mais se medita na teoria da criação progressiva, mais se torna esmagador o acúmulo dos absurdos. Se a alguém, por preconceito de grupo, pode desagradar a teoria da queda dos anjos, apenas porque ela é admitida pela teologia católica, incumbe-nos afirmar que nos preocupamos somente em conhecer a verdade e que a aceitamos onde quer que ela se encontre, desde que convença e satisfaça, independentemente de qualquer preconceito de religião, escola filosófica ou grupo humano.

É oportuno indagar agora como pode ter surgido essa teoria da criação progressiva, evolucionista, de um universo criado imperfeito e em via de contínuo aperfeiçoamento.

Essa teoria nasceu em virtude de corresponder à realidade do que se observa, fornecendo-nos uma primeira explicação, embora superficial, do fato indiscutível da evolução, que realmente leva o universo de um estado de imperfeição, caos, matéria, ao de perfeição, ordem, espírito. O fato existe. O erro está em sua interpretação. Ninguém ousará discutir o fato, porque é uma realidade. Se não quisermos, porém, cair nos absurdos mencionados, impõe-se explicá-la não como consequência da obra de Deus, mas como consequência do desmoronamento do Sistema, decorrente da queda por obra da criatura. O fenômeno da evolução não pode ser um absurdo e incompreensível caminho em uma só direção, um semiciclo desprovido do seu semiciclo inverso e complementar, sem o que não se forma o ciclo completo e o fenômeno não se verifica nem se explica no equilíbrio divino. O fenômeno da evolução existe e é aceito, mas só se pode compreendê-lo e admiti-lo como contraparte de um inverso processo involutivo, causado pela criatura. Esta devia necessariamente ser livre, mas como não podia ser igual a Deus, era passível de erro e, por isso, embora advertida do perigo, quis por desobediência errar. É certo também que a criação é progressiva, mas não no sentido de uma nova criação, porque tudo já estava e está em Deus sempre, e a Deus nada se pode acrescentar, assim como Nele nada se pode criar ou destruir. A criação é verdadeiramente progressiva, mas no sentido de reconstrução de um edifício desmoronado, do qual estão sendo juntadas as partes desagregadas e reedificados os planos afundados.

Em nosso universo, é absurdo um fenômeno unilateral, desequilibrado pela falta do seu complemento compensador; um fenômeno que avance em uma só direção, isto é, apenas um semiciclo, um semicircuito, significando um semifenômeno. Todo fenômeno tem de volver sobre si mesmo para completar- se, permanecendo sempre a mesma substância, ainda que mude a forma, porque ele é apenas um estado de vibração interior com finalidade de elaboração evolutiva, e não um deslocamento real. A mobilidade é, assim, só aparente, situada no relativo de um vaivém cíclico, enquanto, no absoluto, tudo permanece imóvel. Sabemos que o transformismo é filho da queda, pois em Deus não há mutação nem evolução, mas tudo simplesmente é. Tudo, pois, no universo, deve completar-se no seu semiciclo e com ele volver ao ponto de partida, porém com um pequeno deslocamento, que constitui a evolução. Todos os fenômenos caminham em duas fases inversas e complementares, sem o que, no transformismo, não pode haver fenômeno. Efetivamente, este pode ser definido como um momento particular do transformismo evolutivo. Por esta razão o fenômeno não pode existir no absoluto.

A própria teoria da reencarnação, realizando contínuas in- versões entre vida e morte, entre erros e expiações, prova-nos o princípio fundamenta do ciclo completo, composto de dois semiciclos: queda e ressurreição. Há absoluta incompatibilidade entre a teoria da criação progressiva e a teoria da reencarnação. Uma exclui a outra. Se admitimos a reencarnação, temos que abandonar o conceito de criação unicamente progressiva e aceitar a teoria da queda. Se aceitamos a criação apenas progressiva, é necessário abandonar o conceito de reencarnação. Isto porque, segundo o princípio de criação progressiva, que se desenvolve apenas no sentido evolucionista, sem o precedente semiciclo involucionista, o criado deve mover-se em uma única direção, devendo ser desconhecido no sistema, jamais aparecendo, o princípio do ciclo. Se este princípio surge em um caso particular, num universo que sabemos construído num tipo único de sistema, depois repetido em todos os níveis e dimensões, isto significa que o referido princípio do ciclo está também no caso geral do tipo-base do sistema. Se o fragmento que recolhemos reflete, verificamos claramente que a unidade de que esse fragmento deriva era um espelho.

Concluindo, procuramos neste capítulo prever todas as objeções possíveis. Mas, na realidade, elas podem ser tantas quantas são as formas mentais humanas, o que é um número praticamente infinito. Para as que não puderam aqui ser imaginadas, asseguramos ao leitor que as coisas ocorrem como realmente estão expostas neste livro e que, sobre estas bases, qualquer dificuldade pode ser logicamente resolvida. O leitor inteligente, que se apossou da chave do sistema, poderá fazê-lo racionalmente, desde que pense sem preconceitos e sem pontos fixos inamovíveis. No entanto, já que uma das primeiras condições para a aceitação de uma teoria é a sua clareza de exposição e facilidade de compreensão, procuramos aqui traduzir, na forma mais transparente e evidente possível, o pensamento recebido por intuição, que, provindo de outros planos, dificilmente se traduz em palavras humana.

"Portae inferi non preavalebunt". Justo. Mas por que? Só agora podemos compreender as razões. A concepção dualística acima exposta, nos revela que, ao lado das forças boas do sistema, existem as satânicas do anti-Sistema, que procuram inverter todo o sistema, para arrastá-lo igualmente na própria fatal destruição. Mas em vão! A estrutura do Todo nos diz que o mal está irremediavelmente condenado em virtude da própria posição por ele assumida no sistema e pela natureza mesma deste. O seu reino é periférico, está na forma. Ele pode encarniçar-se contra os efeitos, mas as causas primeiras estão além do seu assalto. Não ele, mas somente Deus detém o timão da grande nave do universo.

Na estratosfera do pensamento está, pois, a grande paz das coisas eternas. Ali Satanás não chega, e tanto mais lhe fugiremos, quanto mais subirmos. Mesmo no reino da matéria, a sua vitória está encerrada no tempo. A eternidade supera e vence atempo. Mas, por ora, a Terra é um dos seus reinos. O nosso mundo faz parte do universo desmoronado, e, por este motivo, a vida se desenvolve aqui em uma atmosfera de revolta, de mal e dor. Aqui, as forças satânicas podem manifestar-se, isto é, agir cm sentido sinistrogiro e, por isso, as vemos exprimir-se na pulverização de tudo, no relativo.  Dividir a unidade, fracioná-la cada vez  mais até a sua destruição, este é o impulso de Satanás, com objetivo de demolir o sistema dextrogiro, unificador, retificador, tendente à plenitude da vida. Eis porque na Terra se eleva a barreira do limite a cada passo, sufocando a alma anelante de infinito, do qual nasceu e de que é feita. Eis o espaço dividido, que nos torna rivais. E o espaço em si mesmo não tem limites! Eis o tempo seccionador, reduzido a medida de esforço e de ganho ("tempo é dinheiro!") e o temor de que nos falte. E o nosso espírito é feito para a eternidade! Eis a luta pela riqueza e o anseio infinito da alma ligada às efêmeras alegrias de um corpo caduco, quando riqueza e alegria são infinitas em Deus! Eis a um passo, ao alcance da mão uma abundância sem par, e ser-se dela separado pela incapacidade de conquistá-la! Deus aí está, Que nos aguarda e, no entanto, não sabemos alcançá-Lo por preguiça,  ignorância e incapacidade de compreender! Que barreira tremenda é a nossa involução!

Estamos no reino da subversão dos valores. Tudo, de calmo, eterno, estável, faz-se agitado, fracionado,  incerto.  Tudo se torna calculado, pensado, pesado, medido, disputado.  Assim nascem a miséria e a dor. Aí está o império do contingente, o afã de subdividir a atenção em particularidades, na análise sem fim do relativo. Eis o vórtice da civilização moderna que, com espírito satânico, porfia por triturar o espírito entre as engrenagens de suas máquinas; que, com a miragem de umas tantas vantagens materiais, destrói a maior riqueza da alma, que é a bondade. Vive-se. Assim, sob o terror de que falte tudo, quando tudo é infinito.

Se fôssemos capazes de compreender que somos criaturas de Deus, isto é, filhos do Pai Supremo, que o universo é construído para a nossa vida, primeira necessidade, e que esta é por consequência sumamente protegida por nosso Criador, que nos ama, não  haveria razão para tantas e inúteis aflições.

É o Uno íntegro que aterroriza Satanás. Não conseguindo ele destruí-lo, procura demoli-lo até onde pode, o mais que pode subdividindo-o. Percebe-se nisto uma íntima vontade de pulverização, para chegar à destruição. Fragmentar, triturar, dividir e atirar um contra o outro, a dissensão, a contradição, a ânsia, o tormento, a guerra, tal é o ideal subvertido de Satanás.

Se descermos das grandes visões sintéticas para a realidade quotidiana de nosso mundo, neste também veremos que são elas verídicas e que as teorias acima expostas encontrarão continuas confirmações. A nossa realidade não se pode mesmo explicar e compreender a não ser em função delas. Por que, por exemplo o homem é tanto mais destruidor, quanto mais involuído? De onde deriva o instinto vandálico dos primitivos? E que quanto mais involuído o indivíduo, tanto mais próximo está do polo negativo do ser, e tanto mais afastado do positivo. Quanto mais for involuído. tanto mais na periferia do sistema se encontra o ser, tanto mais distante do centro genético de Deus, tanto mais invertido no sistema oposto a destruição. Assim se pode compreender como fosse fatal que Cristo encontrasse o martírio na Terra. Que mais pode encontrar aí quem, provindo do centro, se lança para a periferia, reino do anti-Sistema? Aqui a manifestação do ser é a agressão e a destruição. Elas tiveram de defrontar-se com o Amor de Cristo, e com o Amor deveria vencê-las.

Que o princípio da destruição seja próprio da periferia do sistema e o princípio genético seja próprio do centro, prova-o também o fato de que as formas da vida para sobreviver têm que., continuamente, travar luta, resistir a assaltos, suportar um ambiente hostil, em que se faz sentir uma ação destruidora em seu exterior, enquanto, de seu interior, onde reside o princípio genético que todo ser possui no íntimo, elas recebem continuamente recurso de reconstrução (defesas orgânicas, reparação de tecidos etc.). A vida se manifesta, efetivamente, do interior para o exterior: esta é a direção do fenômeno. Este se nos apresenta como uma floração contínua, por obra de um influxo emanado de um imponderável no íntimo do ser, que faz pressão para manifestar-se no plano físico. Uma vez neste, fica sujeito a contínuos atritos e assaltos (sistema sinistrogiro), num desgaste lento até à morte, mas sustentado por um íntimo impulso vital (sistema dextrogiro), luta pela sobrevivência e, prepara, ao mesmo tempo, com a reprodução, a imortalidade.

Por tudo isso, a fadiga e a luta de viver são necessárias, porque da experiência nasce a evolução, que leva o ser a nível superior. Encontramo-nos no ponto de atrito (dor) entre os dois sistemas, devendo ser nosso trabalho de reconstrução com o desgaste do sistema sinistrogiro (o mal) em favor do sistema dextrogiro (o bem). Devemos restaurá-lo, porque nós o destruímos. E a justiça de nosso domínio sobre os seres inferiores se explica pelo fato de que, com o nosso esforço, mais temos avançado no caminho da reconstrução.

Este árduo trabalho não pode ser executado pelo espírito senão nas zonas periféricas da destruição, onde a matéria oferece mais resistência e o ambiente é mais hostil. Ele aí tem que se submeter ao sacrifício e à dor, para promover a evolução, isto é, aquela elaboração para a qual as zonas mais calmas do centro não poderiam oferecer nem oportunidade, nem o material. Mas, outra razão ainda existe para isso. A queda foi no estado de matéria, e o ser deve ressurgir dela, através dela, carregando-a consigo como seu corpo. A carga só poderá aliviar-se pela sua purificação e reespiritualização, operada pela dor. Decaído na matéria, ele deve reerguer esta parte decaída de si mesmo, reconduzindo-a, com o próprio esforço, ao primitivo estado de pureza e perfeição espiritual. Por este motivo, a evolução do ser se processa na matéria. Por mais que seja, essa projeção à periferia tende e serve para elevar o ser até o centro. O sistema, contra todas as resistências do anti-Sistema, é sempre construtivo.

Essa evolução procede do caos para a ordem, em todos os planos. A primeira criação de espíritos foi um estado orgânico perfeito, em que reinava uma ordem hierárquica.  O desmoronamento convulsionou essa ordem em uma  hierarquia subvertida, uma anti-hierarquia do anti-Sistema, contraposta à hierarquia do sistema. Na anti-hierarquia o deus é Satanás e o bem é dado pelo mal e a perfeição está no caos A grande luta em nossa fase se trava entre os dois princípios e hierarquias, pela reconstrução do estado originário orgânico, partindo do estado inorgânico caótico, em que caímos e do qual evolvemos.

Por este motivo, as nossas hierarquias humanas são falsas e fictícias, não correspondem aos valores intrínsecos, porque as vezes elas expressam mais a anti-hierarquia do anti-Sistema do que a hierarquia do Sistema.

Mas em outros campos também a evolução procede do caos à  ordem  No plano social, o legislador humano repete o gesto de Deus, que enquadra a Sua criação na Lei. Legislador a principio armado de sanções ferozes e do terror das penas, para depois apoiar-se, cada vez mais, na convicção, na consciência da utilidade de seguir a lei.  Assim se avança para a livre e espontânea observância, que substitui a coação. Quanto mais compreensivo se faz o indivíduo, tanto menos severa se torna a disciplina, transformando-se sempre o legislador mais em amigo que ajuda do que em um opressor. Assim também a ideia de Deus legislador abranda-se nesse sentido, com o progresso da consciência dos povos. Desta forma se compreende como o terror de um inferno feroz e eterno, ainda que, em Deus, essa ideia ofenda o princípio fundamental do Amor, tenha sido e seja uma necessidade psicológica para disciplinar o involuído.

A visão do sistema, acima exposta, explica-nos, também um outro fato, ao qual já acenamos no Cap. III "Egocentrismo". Por que o método do mal é o de oferecer primeiro a alegria e depois afogá-la na traição da dor, enquanto o do bem, ao contrário, é exigir primeiro o esforço, para em seguida dar a justa e proporcional recompensa? Tudo agora se torna lógico, pois que se trata de posições opostas, nos dois polos contrários do sistema. Os métodos, efetivamente, são de oposição entre si. O primeiro consiste em sacar o gozo a crédito, sem a intenção de pagar, método desequilibrado, desonesto, irresponsável, adaptado à consciência do involuído que, em sua ignorância, é levado a fraudar, porque o crê possível e útil. O segundo antepõe o esforço à alegria, a fim de que tudo seja merecido, método equilibrado, honesto, de quem se sente responsável; método consentâneo com a consciência do evoluído, levado, por haver compreendido, a proceder com justiça, certo de que sé ele é útil e de que o contrário é nocivo. No primeiro caso gera-se a confusão tanto para o indivíduo como para o sistema; no segundo, a sinceridade está em toda parte. Cada qual coloca-se em um dado ponto do sistema, segundo a própria natureza. Se for involuído, permanece na periferia com um tratamento relativo ao seu nível; se for evoluído, ascende ao centro com resultados opostos. O sistema subverte-se tanto mais, quanto mais periférico for o ser.

Avizinhando-nos do polo negativo do ser. A livre lei moral do evoluído involve de tal maneira que se precipita no determinismo da matéria. Já no fim cio Cap. V dissemos que Dante colocou Satanás no fundo do inferno, no centro da Terra. Aqui a condensação física é máxima, como o é a pressão gravífica, ao passo que o purgatório se eleva do lado oposto, utilizando, como na técnica reconstrutiva do sistema, o material produzido pela ação do mal, para caminhar rumo ao céu, ao bem, espiritualizando-se, à medida que se distancia da matéria. Assim, também na concepção de Dante, o abismamento de Lúcifer é um meio para a formação do purgatório, instrumento do bem, meio de expiação. Desta forma, o mal, em última análise, torna-se um meio utilizado para a libertação do próprio mal. Os produtos da ação do mal, que escavou o abismo na Terra, servem para a edificação de um monte fora dela, no qual se prepara para a realização dos fins do bem.

Se soubéssemos ver em profundidade, poderíamos bem dar-nos conta deste fato, que se repete em tantos eventos de nossa vida, pelo qual o mal acaba por gerar o bem.

Os nossos juízos sobre a ação divina se detém na superfície e se limitam ao momento, e, pretendemos com eles concluir a respeito dos problemas que desconhecemos, frequentemente, algumas construções não se podem conseguir a não ser por reação, pois a do mal é o impulso a que o involuído mais obedece. Então, a força mobilizada não pode ser o bem, mas o mal. Por isso, as guerras, que parecem tão inúteis e homicidas, são muitas vezes úteis para determinar entre inimigos, que de outra forma se odiariam, a necessidade de coalizão com o objetivo de defesa comum, levando-os à unificação, uma das grandes vias evolutivas, que nos conduzem a Deus.

A sabedoria da Lei, com frequência, se revela em excitar as nossas possibilidades latentes para que o bem, que está dentro de nós, possa aflorar pelo nosso esforço. Por isso, os assaltos exteriores do mal e da dor agem sobre todos indiscriminadamente. O efeito é que difere, dependente sobretudo da reação que a natureza de cada qual estabelece. Se o indivíduo for um involuído, tudo para ele pode tornar-se instrumento de perdição; ao contrário, se for evoluído, tudo se lhe transforma em meio de elevação. O primeiro, vendo-se acuado pelo mal, reage com o mal, descendo mais ainda. O segundo reage com o bem, elevando-se. A mesma força pode, assim, produzir dois efeitos opostos, conforme o ser com que colide, mas, em qualquer caso, pondo a descoberto a natureza do indivíduo. Isto significa tendência a aumentar-lhe as qualidades, sejam quais forem elas, tendência a assim resolver o dualismo da existência, quer para o bem, volvendo a Deus, quer para o mal, onde o ser se anula longe de Deus. Isto patenteia-nos que a fratura dualista do sistema tende verdadeiramente a consolidar-se, fundindo-se no Uno originário, que se reconstitui integralmente na sua primeira unidade. É verdade que o sistema fracionou-se, mas no seu seio permanece a imanência da Causa Primeira que o gerou, a qual representa um impulso permanentemente ativo na sua reconstituição integral.

É assim que tudo, inclusive as forças negativas, são  compelidas pelo sistema a cooperar na reconstrução positiva.  Qual maior prova do que esta da apenas aparente corrupção do sistema e da sua substancial integridade permanente? Se em seu aspecto exterior o nosso universo parece degradado, entretanto, na sua estrutura íntima ele é são e poderoso, equilibrado e sábio, incorrupto e perfeito, mesmo que os seus elementos negativos, pareçam funcionar com resistência; que em última análise, agem como elementos positivos colaborando à sua maneira, com sua natureza invertida, efetivamente para o restabelecimento e  triunfo do sistema. Eis a que função criadora está votado um erro que poderia se nos afigurar irreparável! A íntima e divina potência criadora não se extingue e tudo sabe criar de novo! Neste sentido, dizemos que em nosso universo a criação é contínua, isto é, Deus, no Seu aspecto imanente, está permanentemente em atividade na obra da Sua reconstrução.

Que maior maravilha do que um Sistema invertido no exterior, na forma, mas que possui, em seu âmago, uma alma, representada por Deus e por Suas criaturas obedientes, capaz de endireitá-lo e restabelecê-lo, fazendo de uma ordem decaída no caos, um caos que se reconstitui na ordem de um sistema orgânico? Que há de mais extraordinário que, num universo em que tudo está fragmentado e degradado, fazer dos escombros um excelente material de construção e das ruínas erguer um esplêndido edifício? O bem é tão central e forte no sistema que será sempre o senhor. E o pobre mal rebelde, acreditando-se vitorioso, é reduzido à banca de prova na oficina do bem. Outra alternativa não lhe resta senão a de anular-se espontaneamente, reconhecendo-se errado, para aderir ao bem, ou de consumir-se até o anulamento, cedendo toda a substância de que se constitui ao seu inimigo, o bem. A rivalidade só colima um objetivo - o da pacificação. É assim que o erro da criatura é honestamente guiado para a sua automática superação. A criação desmoronou nas trevas mas em sua profundeza permaneceu muita luz. O espírito caiu no mal, mas em sua intimidade ficou o bem. Satanás desviou de Deus muitas almas, mas no interior delas Deus continua vivo, agitando-as para reconduzi-las a Ele.

                                                   *****

Que sucede, podemos agora indagar, quando um homem pratica o mal? A técnica do sistema, como acima foi observado, diz-nos que ele, crendo na sua ignorância praticá-lo em seu favor na realidade opera em seu detrimento. Praticar o mal significa dispor-se a marchar contra a corrente do sistema, introduzir-se na corrente inversa, isto é, significa enveredar pela via ela autodestruição. A vantagem imediata poderá dar-nos a ilusão de vitória mas e necessário ver o que se paga por ela, o que ela nos vem custar em nossa ruína espiritual, isto é, em demolição de nosso "eu". E isto significa inversão de todos os valores da vida, significa expulsão e isolamento do sistema. Então, neste, do qual não se pode sair porque ele é o Todo, do qual nem mesmo Satanás conseguiu sair, assume-se uma posição inversa, em que a riqueza se transmuda em miséria; o conhecimento em ignorância; a liberdade em escravidão; a alegria em dor etc.  E, efetivamente, os triunfos do mal são efêmeros ainda que as aparências momentâneas nos iludam. Não nos estagnamos no presente. A vida eterna é longa e em sua extensão tudo se paga. Quem entra na corrente sinistrogira, por mais que seja o seu poder como centro autônomo, está sempre cm uma corrente que tem contra si todo o universo. E também Satanás, o máximo rebelde, poderá vencer Deus?

Vitórias encerradas no tempo, maculadas de traição e prestes a ruir, porque fazem parte do sistema da revolta e do desmoronamento. "Portae inferi non preavalebunt". Quem pratica o mal, isola-se no Todo, e é envolvido pelo sistema para corrigir-se ou é combatido pela anulação, qual tumor patológico. Qualquer que seja a vantagem aparentemente obtida, a posição que dela resulta é um grande malefício para o ser, e os de quem a escolhe. Eis de como o mundo moderno, por não haver compreendido nada da estrutura do universo, está laborando em próprio dano. E terá de pagar por si mesmo, como é lógico no sistema. Ainda não aprendemos a compreender que toda infração da Lei é uma subversão parcial do sistema, que toda culpa que se repete estabelece a inversão das correntes das forças do bem nas do mal, em nosso prejuízo. Não conseguimos ainda entender que assim nos ligamos cada vez mais á dor, colocando-nos em uma posição revirada, de que não é possível sair, senão endireitando-a, com o próprio esforço. Assim se explicam tantos destinos carregados de impulsos negativos, que não podem cessar de atormentar-nos, enquanto não forem completamente exauridos.

O    conhecimento da estrutura do sistema e de nossa posição nele, explica-nos o porquê da forma que assume em nosso mundo humano esse fator fundamental que é o Amor. É natural que em um sistema corrompido, tudo ofereça o seu contraste em mal e dor. Do eterno e divino Amor, ao qual se deve a gênese de todas as coisas, no grande naufrágio do ser, só ficou uma pobre caricatura dele, aqui na periferia em que nos encontramos. O seu produto tornou-se caduco; a vida que ele gera não é a vida eterna criada por Deus, mas uma vida fragmentada sempre ameaçada de precipitar-se na morte - a vida do corpo, a vida na carne. Do amor humano, que é uma corrupção, uma derivação involuída do Amor-divino, só pode emanar uma gênese imperfeita, continuamente contrastada pelo mal e pela dor. Mas não nos esqueçamos de que no interior da forma remanesceu a originária centelha do ser da gênese divina, o espírito "que não nasceu do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus", (João: 1-13). O amor se avizinha da incorruptibilidade originária, quanto mais evolve da matéria, sabe subir da forma corruptível ao espírito. Somente os produtos do amor feitos mais com alma do que de corpo podem resistir à destruição que o ser encontra na periferia, por serem o resultado de um processo genético menos periférico, qual a carne, e mais central, qual é o espírito, mais próximo de Deus. Só o amor feito de alma pode sobreviver à morte do corpo.

A própria forma que o amor assumiu na criatura nos fala de um universo desmoronado. Com a queda tudo se desmoronou, inclusive o amor. O indivíduo é, assim, incompleto, uma metade. O ser completo forma-se de dois sexos, as duas metades que, reunindo-se, reconstituem a unidade cindida. Sozinho, o eu deve sentir-se mutilado e perenemente à procura do termo oposto, somente com o qual pode completar-se, voltando a ser uno. Só assim se pode chegar à recomposição da unidade partida, atingindo-se, através do amor, a gênese criadora. Quanto mais periférico o ser, tanto mais separatista, isto é, egoísta no amor, que assim é sempre menos amor. Quanto mais central for o ser, tanto mais é unificador, isto é, altruísta no amor, que assim é sempre mais amor. O Amor é o centro do universo!

O    amor evolve do egoísmo para o altruísmo, em vastidão, profundidade, potência e prazer. Ele deve tornar-se cada vez mais semelhante ao Amor de Deus e, quanto mais se lhe aproxima, tanto maior o seu poder criador. O amor egoísta, pelo gozo próprio, que o caracteriza, é um amor separatista, é a contradição de si mesmo, é um amor degradado, encerrado em si próprio, em um mar de ódios, um amor que, distanciado de Deus, cresce em poder destruidor e involve para a autodestruição. Quanto mais a criatura inverter o modelo que deve imitar, tanto mais ela se põe fora da Lei. Esta, então, se houve abuso do prazer, contrai-se e nega o amor. Fica, então, fragmentado, tornando-se o outro termo inacessível. Nascem, assim, em ambos os sexos os invertidos cuja personalidade tem os sinais opostos aos do seu corpo. Deste modo a Lei se revolta contra eles, como eles se revoltaram contra a Lei.

Qualquer violação, seja do gênero que for, nos coloca em posição inversa, condenados à carência correspondente ao abuso O ser se deforma, não a Lei. Ele permanece estropiado no patológico, vulnerável, portanto. O mal fere aquele que o faz, não aqueles para os quais foi feito. Pretender gozar farta e ilicitamente significa privação futura, a consequente e proporcionado sofrimento de recuperação. Impõe-se depois a reconstrução na Lei, em que se deu a demolição, reconstrução  com a própria dor, que outra coisa não é senão a originária alegria de existir, invertida pelo ser rebelde. Á via da desobediência a Lei é a da autodestruição, pois que a Lei é a atmosfera de Deus, sem a qual falta ao ser a respiração da vida.  E o homem, porque mais evoluído e, portanto, mais livre que o animal, pode pecar muito mais e por isso mais sofrer, porque mais conhece, e mais ainda deve aprender a conhecer, tornando-se cada vez mais ativo e responsável na Lei por ser cada vez mais investido na função de piloto da própria nave.

A morte e a dor são o tributo de todas as formas periféricas de vida e. por conseguinte, também da vida terrena. Outro meio não existe de fugir a essas trajetórias extremas do sistema, se não restringindo-lhe as órbitas com o avizinhamento do centro, isto é, com a retomada da posição direita. Em nossa zona de vida, a corrupção do sistema acarreta a impossibilidade da afirmação do “eu sou”, que constitui a existência, a não ser pela negação intermitente desta, que é a morte. Não se pode chegar ao ser, senão percorrendo o não-ser em etapas inexoravelmente ligadas à própria inversão, qual se desejou. Mas persiste o ser, que não pode morrer, porque é eterna centelha divina. Não pode morrer definitivamente como tal. Mas, entretanto, se deve viver, só pode fazê-lo de maneira fragmentária periodicamente submetido ao retorno agoniante da morte e do nascimento. Eis a vida, originariamente una e agora assim despedaçada. Essa precariedade, contudo, é a qualidade que lhe faculta a evolução, como único meio para que de cada vez ganhe em perfeição. O dano é, assim, ao mesmo tempo, remédio. Eis o doloroso ciclo incessante da vida e da morte, das sucessivas reencarnações, de que só a evolução espiritual nos poderá libertar. Na Terra, o princípio do “eu sou”  (vida) mesclou-se ao do “eu não sou” (morte). A Lei impõe que a unidade fragmentada se deva refazer laboriosamente, através da dolorosa operosidade  da existência: nascer e morrer, para renascer e tornar a morrer. Esta é a lei atual.

O amor, igualmente, nessa zona do ser assumiu a cor dominante. Como se vê, há uma razão profunda pela qual o parto deva ser doloroso, mas não de ordem apenas fisiológica. E que a gênese criadora não somente tem de dar uma vida fragmentaria. mas também de cumprir-se em posição negativa de dor, isto é, às avessas do originário em Deus, em que a gênese é alegria. E o pouco de prazer que ficou no amor sexual não passa de uma ruína, de um fragmento uma antecipação da originária felicidade de criar em Deus. A alegria vem antes, e a dor depois, por isso mesmo que aqui continua a repetir-se o motivo originário da inversão, pelo qual a divina alegria de criar foi substituída pela dor da queda. A dor é ulterior, como uma traição, tal qual se deu com a revolta e segundo já vimos ser a regra na periferia, reino da ilusão, onde o mal nos embala primeiro com a miragem do prazer, para depois nos abandonar em um corpo que, apesar de mantido unicamente por este último raio da divina emanação, corrompe-se e não resiste.  O nosso mundo, tão ávido de prazeres, mas ignorante na arte de saber buscá-los, não imagina absolutamente que o místico, em seus amores espirituais para com Deus e Suas criaturas, é o mais sábio e o menos iludido entre os gozadores.

Eis a grande condenação do ser decaído: só poder participar da divina alegria de criar, através da dor. "Crescei e multiplicai-vos", mas não para gozar, como crê o mundo, mas para atravessar a dor e assim percorrer o duro caminho da ascensão. Cresça e se desenvolva a vida! Esta foi a lei que ficou, mas ralada na dor! Sede falanges, atados a roda da vida e da morte e que o ser aceite o prazer sexual, que o convida a suportar as agruras restantes! Deus bendiz a união dos sexos, mas. . . existe o grande "mas", pelo qual o homem inconsciente não suponha que, ao casar-se, vai ao encontro de alegrias da vida, mas sim do sacrifício de evolver e fazer evolver. O verdadeiro conteúdo do matrimônio é levar o amor a evoluir da sua forma egoísta, que pede prazer, à altruísta que, em dor e tormento, dá por amor não a si, mas aos outros. E desta forma que o amor se avizinha de Deus, elevando-se do plano animal à função evolutiva de reconstrução espiritual do ser. Quem cria apenas para o próprio prazer, mergulhará cada vez mais na dor, cada vez mais repelido para a periferia do sistema.  Quem usar a inteligência, centelha divina, para fraudar a natureza, acreditando que espertamente lhe possa furtar prazer, inverter-se-á ainda mais dentro do sistema, e agora sabemos o que isso significa. Eis como, do grande movimento da criação, acima examinado, chegamos aos casos da vida que mais de perto nos tocam. Vemos, assim, de que longínquas origens cósmicas provém a lei moral, que regula a nossa conduta de cada dia.

  

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Repetimos nestes livros indefinidamente a utilidade da dor, único elemento de redenção. Ela é o nosso tributo, também no amor, que, entretanto, é a nossa maior alegria. O instinto fundamental do ser é criar, eco longínquo do primeiro impulso que Deus imprimiu a todos os seres e por eles repetido, revoluteando continuamente no mesmo ciclo e esquema fundamental do universo. Instinto irrefreável e que, contudo, termina na dor, mais não se poderia dizer sobre o instinto que leva à alegria e a fatalidade que conduz ao sofrimento, pois que este é o fundo da taça de todos os prazeres humanos. Um impulso irresistível impele-nos para a vida compele-nos a gerar, mas lhe obedecemos apenas para alimentar a morte. Não é este o último termo de toda a gênese humana? Esta é uma gênese que se exaure, se cansa, porque está ruída a originária potência divina que lhe concedia indestrutibilidade.  Tudo na Terra se desgasta e exige contínua restauração.  Iludimo-nos pensando em reviver nos filhos e nos netos, mas o tempo se encarrega de tudo destruir, tanto nós indivíduos, como nossa progênie, e tudo se desfaz no pó de todas as coisas, até à última recordação.  

O ser, aterrorizado em face do sacrifício de viver em uma existência despedaçada, em que o instinto originário é permanentemente traído, poderia furtar-se à vida. Mas também deste lado não é possível evasão. Estaria na condição de um faminto que, não podendo saciar-se na copiosa refeição que anseia, recusasse uma côdea de pão e preferisse morrer de fome. Uma recusa à própria vida ou a gênese de outras, significa distanciar-se ainda mais do centro, é uma aproximação maior do anticentro do negativo; significa pôr-se a caminho do aniquilamento. É culposa, por conseguinte, uma castidade egoísta, cujo escopo é conjurar encargos e enfados, mas é santa uma castidade física que sacrifica os prazeres do sexo, para dar-se à gênese espiritual, em que a criação passará dos corpos para a alma, elevando-a para o centro - Deus. Somente nesta condição é lícito retirar-se da vida, porque realmente a ela se retorna em escala ainda maior. Assim um ser pode ter milhares de filhos, pois que a renúncia alcançará então uma proliferação, cuja intensidade a natureza desconhece.  Entramos, de tal forma, em uma trajetória mais vizinha do centro, na qual as posições invertidas começam a endireitar-se, em que o sacrifício vem antes e a alegria depois e onde a gênese espiritual, em que a criação passará dos corpos para a alma, elevando-a para o centro – Deus. Somente nesta condição é lícito retirar-se da vida, porque realmente a ela se retorna em escala ainda maior. Assim um ser pode ter milhares de filhos, pois que a renúncia alcançará então uma proliferação cuja intensidade a natureza desconhece. Desta forma, entramos em uma trajetória mais vizinha do centro, onde as posições inverti- das começam a endireitar-se. Nela, o sacrifício vem antes da alegria e a gênese produz frutos que não temem a morte, porque eles mesmos continuam a gerar indefinidamente no tempo. O homem que lança uma ideia para o bem do mundo é um pai espiritual de uma capacidade genética desconhecida no plano material.

Estas são as leis da vida. Violá-las só pode acarretar dano ao violador. A vida é irrefreável impulso divino. O suicida é o maior negador de Deus, pois quem atenta contra a Lei é assassino também da própria alma. A vida quer expandir-se para voltar a ser o que era – infinita. A vida quer retornar à unidade. A união dos sexos tem o seu rito próprio e celebra, ainda que em forma profundamente reduzida, a conjunção final na unidade dos dois semicírculos do grande ciclo do ser: o involutivo e o evolutivo, o momento supremo da reconstrução, o triunfo final da gênese divina. É assim que os seres, por instinto de unidade, se atraem. A solidão é terrível. Por isto a vida procura a vida, as multidões atraem multidões. A segregação do convívio humano, como no cárcere, é punição e dor. Quanto mais involuído for o ser, portanto mais fracionado, tanto mais se sente só e mais procura uma companhia. Quanto mais espiritualizado for ele, por conseguinte mais evoluído, tanto mais sente a vida universal por toda a parte e menos se sente só em qualquer solidão aparente.

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Ao concluir este capítulo, procuremos compreender o grande alcance das consequências práticas a que nos conduz a concepção deste volume. Tudo nos demonstra a verdade do quanto acima dissemos, isto é, que, apesar do Sistema ter desmoronado, permaneceu no fundo dele a imanência da causa primeira que o gerou e que está em nós sempre presente e ativa, para reconstruí-lo.

No piano físico, efetivamente, o que é, em última análise, a ―vis sanatrix naturae, senão a expressão de Deus imanente? Ele está em nosso interior sempre atento à restauração da forma, que é protegida, porque é manifestação de vida no plano em que devemos elaborar-nos, para reerguer-nos. No fim do Cap. XV ― “À procura de Deus”, concluiremos descobrindo o divino na profundeza do nosso ― “eu”. Sabemos que não é possível existir em nosso universo a não ser como um vir-a-ser. A criação não é um fenômeno estático, mas de incessante formação, que não se pode reger nem se explicar sem esta permanente e operosa presença de Deus no Seu aspecto imanente. Quem mais poderia assim tudo reconstruir? É verdade que a morte ameaça continuamente a vida, mas é verdade também que a vida acaba vencendo, reduzindo a morte a um meio de renovação, sendo justamente isto o que determina a evolução, que avança para a superação da morte.

Esta presença de Deus patenteia-se não só no campo físico, mas também no moral. Fala-se de impulsos reativos da Lei ao nosso erro, que se chama culpa. A ideia do pecado nos leva à concepção de que ele implica uma punição, quase uma vingança de um Deus que, com isto, egoisticamente defende a Sua ordem violada e a justiça por Ele representada, defendendo mais a Si próprio do que a criatura. E assim, para nós, explica-se a dor. Isto, porém, não basta. Agora podemos compreender melhor que se trata de um remédio que nos cura e de uma escola que nos instrui. A reação da Lei significa a salutar intervenção de Deus imanente a infligir-nos uma dor proporcionada e adequada ao fim, para que, através dela, o Sistema possa reconstruir-se precisamente no ponto violado e, assim, o ser possa reentrar no caminho da sua salvação. Todos os nossos males não passam, pois, de expedientes corretivos para retificar posições erradas, assumidas por nós, e para nos ensinar a viver na ordem divina, onde só pode haver felicidade. Assim, em qualquer campo, este impulso divino interior e restaurador nos acompanha para nos curar. A própria moléstia é uma sua reação para curar o nosso corpo. E, quando o dano ultrapassou os limites permitidos e, as- sim, a ordem (saúde) não pode mais ser rapidamente restabelecida, essa mesma força, que denominamos natureza, resolve igualmente o mal, de maneira mais radical, por meio da morte, que permite recomeçar a vida sadia de novo.

Desta forma, no campo moral, todo excesso é compensado por uma proporcionada e específica carência. Mas não basta dizer que isto é justiça e reconstrução da ordem. É necessário dizer também o que mais nos interessa, ou seja, a razão pela qual a dor nos flagela, e essa reside na operação do restabelecimento de nós mesmos, para nos fazer voltar à ordem, somente onde podemos ser felizes. Com o erro não violamos apenas uma lei que pertence a Deus, mas demolimos a ordem em nós, a ordem que é a nossa felicidade. E Deus não pensa egoisticamente na reconstrução da Sua ordem violada, mas sim em nosso bem estar, obrigando-nos, pela dor, a reconstruir a ordem e a felicidade.

Uma consequência prática importante de tudo isto é a seguinte: é verídico que devemos nascer e viver, como já dissemos, quase sempre para sofrer, porque esta é a escola da necessária reconstrução que nos incumbe. É certo, também, que esta dor não é uma vingança, mas sim uma lição, desejada por um Deus bom, visando não o Seu interesse, mas sim o nosso bem. De tudo isto se depreende que ela deve ser dosada, isto é, diminuir quando superiores às nossas forças, pois a vida, que é sagrada, jamais deve ser ameaçada. Isto porque a dor não é reação cega, punição que esfacela, mas constrição ao esforço que educa e endireita. Em nossas dores, devemos ter sempre presente que não estamos tratando com forças inimigas e inconscientes, mas com forças boas, justas e sábias. A dor, pelo contrário, se bem compreendida, deve fazer-nos sentir mais próxima a presença ativa e salvadora de Deus imanente, à qual mais nos devemos unir. Que maravilha para o intelecto e que conforto para o coração chegar a compreender que a dor é um ato de amor com que Deus nos agracia, para nos induzir a retomar o caminho certo de nossa felicidade, que havíamos abandonado!

Então, o intelecto compreenderá, efetivamente, por que as provas jamais podem superar as nossas forças e como elas se desvanecem tão logo se tenha realmente aprendido a lição. Compreenderá por que a Providência costuma tardar tanto, salvando-nos somente no último momento, ao cairmos sob o peso da cruz, pois é necessário esgotar antes todos os recursos na aprendizagem da lição. Uma Providência que no poupasse tal esforço trairia o nosso restabelecimento e prejudicaria a nossa evolução. Enfim, o coração encontrará em meio à dor o imenso conforto do amor, sentindo Deus a seu lado; Deus, que, no Seu aspecto de Filho, em Cristo, ampara a nossa cruz e a arrasta conosco, compartilhando de nossa dor. Pois que Deus imanente desceu a sofrer na forma, no íntimo do ―"eu" da criatura decaída, para reerguer-se nela ao Seu aspecto originário e perfeito de Deus transcendente.

Nos capítulos precedentes fizemos algumas observações sobre o nosso mundo, para comprovar a sua posição periférica, consoante o plano do universo. Os poucos fatos escolhidos não passam de uma exemplificação particular. Muitos outros poderiam ter sido aduzidos para confirmar a concepção de que partimos e que apresentamos aos racionalistas, apenas como hipótese de trabalho. Procuremos, agora, uma vez observado o sistema na sua posição periférica, percorrê-lo em direção ascensional. Isto é importante, porque esta representa a única via de correção do anti-Sistema e de evasão das suas dolorosas consequências. Avizinhamo-nos, desta forma, do problema central da presente Terceira trilogia - o da sublimação (v. Introdução no volume: Problemas do Futuro).

Para poder enfrentá-lo e resolvê-lo, é necessário antes enquadrá-lo em nosso atual e mais amplo esquema do universo, como, aliás, seria necessário fazer para qualquer problema, sem o que ele se torna de difícil compreensão e solução. E o fenômeno da sublimação espiritual é agora aqui de um enquadramento lógico em um sistema completo, harmonicamente proporcionado em todas as partes componentes e aceitável para qualquer pessoa de bom senso. O fenômeno pode agora estar situado logicamente no conjunto de um edifício conceitual, do qual faz parte, que o sustém e demonstra. Isto não impede que ele seja pouco consentâneo com a psicologia hoje dominante, porque esta constitui uma forma mental sediada em uma fase particular destruidora de fim de um ciclo, ao passo que aqui antecipamos a fase reconstrutiva; que fatalmente se seguirá. O homem atual é analítico, vê as coisas da Terra e do plano físico, que ele confunde com a realidade e acredita ser todo o universo. Por ser periférico, vê o sistema de uma posição periférica. De tal ponto de vista, tudo deve evidentemente parecer invertido. Hoje, de fato, a superação é frequentemente tida por patológica. Tudo depende do ponto de referência que, neste caso, é representado pelo tipo biológico corrente, ou seja, pelo involuído. E natural, então, que a catarse biológica, que é superação e sublimação, vista assim de baixo, de uma posição invertida, possa parecer deformação e regressão, quando é formação e progresso de vida. Este problema já foi por nós examinado no cap. XXVI "Sexualidade e misticismo", do volume precedente: Ascensões Humanas.

Para aprofundar o fenômeno da sublimação espiritual, começamos aqui a orientá-lo, enquadrando-o no esquema do universo atrás exposto, que aqui resumimos em relação ao fenômeno, submetendo-o ao habitual método da intuição.

Por criação, entendemos aqui o processo α→β→γ, isto é, a transmutação da substância única Deus, eterna, incriada e indestrutível, do seu estado de puro pensamento, no de energia e, a seguir, no de matéria. Já examinamos esse fenômeno, pelo qual Deus vem a manifestar-se na forma; o pensamento, na matéria; o imutável no vir-a-ser; o uno, no multíplice, e ao qual se deve a existência de nosso universo. Assistimos a um movimento centrífugo que, do centro, se projeta para a periferia, na matéria, invertendo todas qualidades do espírito. São muitos os aspectos do processo, mas todos redutíveis ao conceito de inversão do positivo em negativo, ou da subversão de valores, conceito que se pode resumir em uma só palavra: involução. Esta pode apresentar-se nos como um desmoronamento do universo perfeito, originado da primeira, a verdadeira criação perfeita, e isto como resultado da revolta e queda, de que já falamos. Deste modo, o universo perde e inverte a sua qualidade de origem, na atual. Podemos, assim, compreendê-lo melhor agora.

Tudo isso sucedeu em uma primeira fase, a de ida. O universo atual, em que existimos, encontra-se na fase oposta, na de retorno, isto é, não involutiva, mas evolutiva, de forma que a verdadeira criação que Deus, nela imanente, está processando agora, lentamente, através da evolução, tendo todos os seres como operários, a verdadeira criação é a atual e não a precedente, que foi, antes, um desfazimento. Todavia, esta última observada de nossa posição periférica, em que a existência é material, pode parecer criação. Tudo depende do ponto de vista. O mesmo processo α→β→γ se visto de a, pode parecer destruição; mas visto de γ, pode ser tomado como criação. E realmente, o nosso universo, construído assim na forma física, pode definir-se como uma criação, mas no sentido físico. É certo, porém, que, se tomado do ponto de vista central do sistema, é uma demolição, como espírito, cuja inversão representa. É bom esclarecer tudo isto, a fim de evitar mal-entendidos. O nosso habitual conceito humano de criação é, como todos os nossos conceitos, relativo a nós. A primeira, única e verdadeira criação foi, não uma criação do nada, mas uma emanação do seio de Deus, de puros espíritos, em que Deus, o "Eu Sou" Uno, Criador, quis refletir a Si mesmo, nela amando uma Sua diversa individualização em miríades de “eu sou”. Suas criaturas.

O    que depois nós passamos a chamar criação foi o desmoronamento na forma-matéria de uma parte, que se rebelou, destes "eu sou" criaturas. E o que, chamamos de evolução seria a verdadeira criação, no sentido de reconstrução da originária integridade espiritual, que foi, por sua vez, emanação, mais do que criação do nada. Tudo isto está além das nossas habituais concepções, todas em função de nosso relativo. Assim é que aqui chamamos frequentemente o nosso universo de manifestação de Deus, o que pode ser verdadeiro para os nossos sentidos, relativamente à nossa posição periférica na forma-matéria, que, "para nós", é o que significa existir. Mas para quem se encontra no polo oposto do sistema, na posição central de puro espírito, o nosso universo não é um manifestar-se e sim um ocultar-se, porque é o espírito que se aprofunda e sepulta no que chamamos de manifestação. Se ele se exterioriza, parecendo, pois, tornar-se verdade, apenas o faz para os nossos sentidos, enquanto por si mesmo o espírito entra na grande maya ou ilusão da vida corpórea. Aquilo que é verdade para quem é exterior, é mentira para quem é interior. Tudo é relativo. O que para nós é vida, para o espírito é prisão ou limite. Para ele, o nosso tempo é o fracionamento do eterno; o espaço, o do infinito; o relativo, o do absoluto; o multíplice, o do uno. A instabilidade do transformismo, que deve sempre aperfeiçoar-se, envolvendo, é o desmoronamento da originária e perfeita existência imutável.

Aclarados, assim, estes conceitos, retomemos o nosso caminho. Se, na primeira metade do ciclo, temos o desmoronamento na matéria, na segunda metade, em que ele se fecha pelo retorno a Deus, ponto de partida, temos o processo inverso, isto é, γ→β→α, ou seja, não de materialização, mas espiritualização. Estamos na fase de reabsorção da forma em Deus, da matéria no pensamento, do mutável no eterno, do multíplice no uno. Assistimos ao movimento centrípeto que, da periferia, se projeta para o centro, no espírito, invertendo todas as qualidades da matéria. Aqui, os valores subvertidos devem retificar-se, segundo a Lei, de que o Evangelho é o código. Os aspectos do processo são muitos, mas todos redutíveis à inversão do negativo em positivo, conceito que se pode resumir em uma única palavra: evolução. O transformismo tende à reconstrução, de conformidade com o princípio das unidades coletivas (A Grande Síntese, cap. XXVII). Retornam à unidade todos os fragmentos em que o Uno se havia pulverizado. O estado de matéria transmuda-se no de energia, e este no de pensamento, para retornar ao ponto de partida.

É no plano desse segundo percurso, que o ser agora vive, que logicamente ocorre o fenômeno da sublimação espiritual, ou catarse biológica. O espírito não está morto. Tão somente é prisioneiro. Deseja reconquistar consciência para retornar ao estado de origem. Por um instinto fundamental da vida, ele odeia a prisão e quer a liberdade. Com esse impulso e para esse fim ele foi gerado: a liberdade foi a sua primeira qualidade. Tudo quer crescer, expandir-se, e toda a nossa vida somente triunfa com esse impulso. Este instinto fundamental do ser se debate contra todos os obstáculos que lhe opõe a sua posição negativa em um sistema invertido. Mas eis que o Amor, proveniente do centro positivo, vem em auxílio do ser no seu esforço de redenção. Deus, do centro, estende-lhe os braços, dizendo-lhe: "Sus, coragem, sobe, sobe! Eu te espero!" E os espíritos não rebeldes e incorruptos descem com sacrifício, como Seus mensageiros, irmanando-se aos seres inferiores, sepultados na dor, abraçando-a juntamente com eles por Amor. É assim que a reconstrução do edifício desmoronado constitui um processo criador de reabsorção do mal e do caos, nascidos do desmoronamento através do sacrifício. O Amor permanece, invertido, porém, no sacrifício, que é Amor na dor. Eis por que a redenção não pôde ser operada por Cristo, senão através da paixão, e por que nenhuma redenção poderá ser operada de outra forma. Há, portanto, uma grande porta para a evasão de todos os sofrimentos do anti-Sistema. Porta grande, mas pela qual ninguém quer passar, porque é feita de dor e esta afugenta. E afugenta justamente porque ela é o inverso da felicidade, para a qual o ser nasceu e para a qual se sente irresistivelmente atraído. Mas o nosso não é um sistema pervertido? É natural, pois, que nele a felicidade se tenha transformado em dor. Então, o homem se atira ao encontro das derradeiras cintilações de alegria e de Amor, que o sistema desmoronado ainda contém, mas somente lhe é oferecido um pão traidor que não pode satisfazê-lo. E o pobre ser fragmentado tenta, em vão, no amor físico dos dois sexos a conjunção de ambos os semiciclos, em que a unidade se cindiu. Ao contrário, o místico, que não teve medo de atravessar a porta da dor, pelo menos através da renúncia, pode celebrar bem mais no alto as suas núpcias de amor com Deus, isto e, a fusão bem mais perfeita das duas semicircunferências do círculo. Com isto, chegando ele, através da dor, a aproximar-se mais do centro, também alcança uma alegria bem maior.  Os pobres seres periféricos, apegados à forma, porque não sabem sentir uma vida mais profunda, apegados, assim, a uma existência de penas, alimento sobremodo escasso para uma alma faminta de felicidade (alimento que entre si disputam encarniçadamente) - esses pobres seres fogem da sublimação e a condenam, porque da sua posição periférica, situados na matéria, a sublimação lhes parece anulação da vida, e não retorno a esta. É natural que para o ser subvertido, tudo pareça invertido, uma miragem traidora. Para enxergar a verdade; é necessário subir, atravessando a porta da dor!

Eis, pois, a posição agora do ser no universo atual: ele jaz entre as ruínas de si próprio, mas, em seu âmago a originária centelha de Deus - a alma não está extinta e se conserva no estado de um anseio instintivo e irrefreável, com todas as características originárias. Entre esse anseio, porém, e a sua realização, existe a barreira da dor, interposta pela distância do centro à periferia, onde veio a cair o ser. A irresistível ânsia se bate continuamente contra essa barreira para evadir; entretanto, é exatamente através da barreira, isto é, através da dor, que se pode evadir. Eis o grande drama do ser, vivendo-o todos em cada dia.

Então Deus, Que não nos abandona, vem ao nosso encontro para ajudar-nos,  enviando-nos em forma concreta, para que possamos tocá-lo com as mãos, o exemplo vivo do método a usar para a evasão.  É inútil debater-se. Não há outra via que a do Calvário para atingir-se a redenção  e cada qual tem que percorrê-la por si. Quem vencerá?  As seduções do mal, o horror ao sofrimento ou o grande anseio da alma, o seu instinto de ascensão e de vida, e o poderoso auxílio de Deus, Que quer a salvação final? O caminho é longo, a criatura está retida entre as engrenagens de duas imensas rodas e triturada pelo atrito dos seus dois movimentos contrários. Ambas as forças, todavia, não são iguais, seus pesos não são idênticos. A roda de Deus é a mais forte e tanto girará na eternidade, que desgastará inteiramente a de Satanás, que terminará em pó.

 A sublimação espiritual é o fenômeno pelo qual a evolução da fase biológica humana, através da catarse de todo o ser, conduz a vida à fase super-humana. Já vimos que este é um momento do grande processo de toda a ascensão, que vai de γ→β→α. Isto é o que significa voltar a subir. São estas as grandes etapas, os degraus da escada que leva ao trono; Voltar a subir significa, pois, transformar-se da matéria em energia e desta em espírito, ou seja, um processo de espiritualização. Eis ao que se reduz substancialmente todo o progresso. Esta é a fase que a humanidade está vivendo. É verdade, sem dúvida, que esta ainda está imersa em noite profunda, mas nos encontramos em uma grande volta da história, que anuncia iminente uma nova aurora. O homem, hoje, pela primeira vez, sabe transformar a matéria em energia. Com isto ele intervém nos processos criadores de uma forma que se poderia chamar espiritualização da matéria, que se volatiliza em energia. Processo que implica o inverso da criação da matéria com a energia. Paralelamente, a superação dos limites do espaço e tempo significa uma ascensão de vida em dimensões mais evoluídas. Ademais, o tipo biológico se dinamiza, e a sua luta, de física, se torna nervosa e psíquica; as leis do ser passam a ser compreendidas; os mistérios se aclaram; aumenta o domínio sobre as forças naturais e sobre a matéria; o indivíduo funde-se no conjunto de grandes unidades coletivas. O homem, pois, embora recalcitrante, está engolfado no tormento de novas criações e empenhado, no momento crítico, em uma catarse biológica.

A luta pela vida sempre foi, mesmo na feroz fase animalesca da seleção do mais forte, uma luta por subir. Ainda agora é assim. É a grande batalha da libertação da involução para o retorno a Deus. Se nos mais baixos níveis biológicos essa batalha pela ascensão é imposta pela necessidade de viver em um mundo em que vigora o lema: "comer ou ser comido", nos mais elevados níveis da Lei, onde o ser se faz mais consciente, ela pode suavizar-se e, assim, realizar-se pelas vias da compreensão. É a evolução que nos liberta de tão duras necessidades e sanções. Nós vivemos explorando todas as vias da libertação, que na sublimação mística se escancaram para o céu. A luta é um meio de despertar a consciência. O ser, submetido a uma vida de permanente ameaça, aguça a inteligência; as provas e os insucessos o adestram e o preparam para maiores conquistas, aquelas que nascem da experiência e se fixam no espírito. Quer embaixo, quer no alto, a existência é sempre uma elaboração evolutiva, seja revestindo formas mais ou menos ferozes, seja assumindo aspectos mais ou menos espiritualizados. Elaboração evolutiva é o trabalho da matéria, desfeita no caos e integrada nos fenômenos cósmicos, como também, no extremo oposto, é a atividade espiritual do gênio e do místico que, desvinculando-se dos instintos da carne, transforma-lhes a potencialidade em manifestações espirituais. Todo o universo está empenhado neste esforço penoso da própria maturação evolutiva, que o deve reconduzir a Deus.

Hoje a vida tenta, na Terra, novas formas de expressão com um tipo mais evoluído   o homem. A luta humana não está atualmente confinada no tradicional plano animal-humano, como até ontem, mas sé agita para sair dele.

Ela não se resume mais na vitória de um grupo humano sobre um outro, permanecendo sempre no mesmo nível e sistema de vida, mas colima a vitória de um princípio sobre o outro, para fugir ao atual plano e sistema de vida. Em outros termos; encontramo-nos, não em período de estagnação, mas de transformação. Todo o esforço da vida concentra-se hodiernamente, não na sistematização e consolidação de suas posições, mas na tentativa de novas. E por isso que o seu dinamismo é febril e tudo parece esboroar-se Mas é justamente porque a vida está possuída de uma ânsia de construir, que ela se apressa em libertar-se, por toda parte, das acanhadas fórmulas do passado, das quais, assim ampliada, extravasa de todo lado. Tudo tende no presente à superação; por todos os cantos se anda à procura de novas fórmulas que possam dar expressão a uma vida que já não encontra espaço nas velhas. Jamais ela fervilhou tanto em criações. Quem quer que possua olhos de ver e ouvidos de ouvir, sente que o mundo está vertiginosamente lançado em direção a um transformismo evolutivo de uma intensidade e rapidez sem precedentes. E, num crescendo, a vida absorve as etapas para concluir, porque tem pressa de resolver o problema que a agita e atormenta.

Vemos, pois, nesta hora histórica a realização, não só do transformismo γ→β, com a desintegração atômica e a gênese da energia da matéria, mas também um transformismo paralelo β→α, em que a vida, embora ainda primariamente, tende a tornar-se cada vez mais nervosa e psíquica, isto é, tende a espiritualizar-se. Assistimos a um universal processo de espiritualização no sentido lato. A plena realização está ainda distante, mas o germe já está lançado. Muitos são incapazes de ver uma árvore na semente e não conseguem aperceber-se da sua existência, a não ser quando plenamente desenvolvida. Não importa! Eles chegarão a compreender mais tarde, mas chegarão. Toda semente é um explosivo da vida, no qual ela se concentrou aguardando o momento para explodir, e explodirá por força de lei. E, no fundo, o ser humano está à espera de despertar aquele divino eu sou, que vem de Deus. Os novos e menores continentes do espírito aguardam os pioneiros que os conquistem, explorem e colonizem para a própria e nova grandeza. O esperado Reino dos Céus não é vã promessa que deva permanecer no campo da utopia. Ele jaz no fundo das consciências e se realizará quando estas despertarem, quando nós pudermos compreender de que maravilhoso universo somos cidadãos.

Trata-se de movimentos de grandes massas. Hoje na Terra não existe mais uma classe social, uma aristocracia que se movimenta para a conquista do domínio sobre camadas sociais inertes e passivas. Hoje a fermentação evolutiva investe toda a massa humana. Poder-se-ia dizer que ecoa no sentido β→α, isto é, da vida para o espírito ou para a espiritualização da vida, desde o plano γ→β, com a desintegração atômica. Parece que ambos os fenômenos moveram-se paralelamente, obedecendo ao mesmo impulso de Deus imanente, Que, fazendo pressão de dentro para fora, impõe à velha forma que cada passagem a uma nova, capaz de exprimir íntimos estados novos, que contínua pressão interior matura em milênios de silenciosa atividade. Tudo deriva do princípio da vida inerente aos seres. Hoje, este princípio se lança em novas rotas.

Baste-nos aqui, por ora, antes de prosseguir além, haver enquadrado o fenômeno da sublimação neste processo de espiritualização universal γ→β→α, que é o processo evolutivo. A sublimação mística não passa da fase mais elevada da espiritualização em nosso planeta Este é um fenômeno, como vimos, universal na vida. É por ele que o mineral se eleva a vegetal, este ao animal, o animal ao homem, e este ao super-homem. Trata-se de um processo de sensibilização, que nos graus superiores se chama consciência e que vai desde a existência destituída de sentidos e encerrada em si mesma, como é a da matéria, a uma existência que se expande cada vez mais, em uma vida, a princípio vegetativa, depois sensitiva, a seguir racional, e finalmente intuitiva. Trata-se de uma gradual floração do espírito, que volta a encontrar a si próprio, expandindo-se sob a irradiação do centro-Deus. Agora pode-se compreender que, tendo a involução consistido na formação de invólucros, cada vez mais densos, em torno à centelha do espírito, em que ele permaneceu sepultado - a evolução, contrariamente, consiste na progressiva destruição desses invólucros que se tornam cada vez mais tênues, até a completa libertação. O "eu" eterno, com o desmoronamento do sistema, não foi destruído, mas apenas envolvido no princípio oposto em que se invertem todas as divinas qualidades de origem. A evolução é um processo de maceração que consome os casulos, é uma chama lenta em que se evola a sua materialidade, facultando a evasão da sua prisão. Eis o que entendemos por espiritualização.

Mas o fenômeno pode ser observado também de outros pontos de vista. Se concebemos o Centro no seu fundamental aspecto cinético, poderemos dizer que involução é progressiva imobilização no limite, e que evolução é desvinculação do limite. O aspecto de estado cinético pode significar, sobretudo, estado vibratório e a este é possível reduzir aquele estado do espírito que se chama consciência. O estado oposto, de imobilidade, de congelamento da vibração, significa então o estado de espírito que se denomina inconsciência. Que mais significa precipitar-se nas trevas, senão decair da sensibilidade, até à cegueira? Assim, o desmoronamento do ser consiste na inversão do estado cinético, ou vibratório, ou consciência e conhecimento, máximo no centro - Deus, em um estado oposto, de inércia ou inconsciência ou cegueira. Na periferia embotam-se as qualidades dinamizantes e vivificantes, máximas no Centro. Não foi a matéria definida como energia congelada? A energia é também pensamento congelado. Lúcifer, como dissemos, é por Dante colocado no centro da Terra, imerso nas trevas, encerrado na imensa prisão da matéria, imobilizado no gelo, negação da mobilidade e do calor, elementos de vida. Para voltar a subir, o espírito tem de tornar à ordem a fim de fundir esse gelo, a fim de queimar no fogo da própria dor as escórias da forma que o encarcera. Tem que, como elemento primeiro de vida, reacender por si a chama que se extinguira.

Nós temos até agora observado o grande desmoronamento da universo, para encontrar a gênese e a explicação do universo atual. Mas isto não basta.  Dado que este é um estado bem doloroso, o que mais interessa ao ser humano é, sobretudo, saber como dele sair. Eis por que é importante, no seio do universal processo da espiritualização, conhecer o processo humano da sublimação, porque ele representa para o homem a única solução do problema da dor.

Desperta, ó homem, no espírito, porque neste, em teu âmago, está o infinito. Sepulto em todas, as coisas está o pensamento divino que as rege. Mas em nada, como em ti, ó homem, esse pensamento se potencializou tanto na ascensão, desejando hoje dar mais um passo avante. Em γ→β→α, o processo evolutivo é uma reconquista e reconstrução do estado cinético, vibratório ou de consciência e conhecimento, que se perdera. Jamais como atualmente a batalha entre matéria e espírito foi tão encarniçada. Mas o espírito é o princípio do movimento e da força. Ele, no ser está apenas adormentado. Abençoemos as grandes dores dos nossos tempos, que o despertam.




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