Deus e Universo

Antes de terminar definitivamente esta argumentação, façamos um seu resumo completo, a fim de que fique inteiramente claro o nosso pensamento em uma visão de conjunto, em um panorama sintético, partindo do começo.

Já vimos que três são os aspectos da Substância, ou três são os momentos da Trindade de Deus: 1) O Espírito, a concepção; 2) o Pai, o Verbo, a ação; 3) o Filho, a criatura. Todos são o mesmo Deus em Seus três momentos No primeiro momento a criação é concebida; no segundo, executada; no terceiro, acabada. Neste terceiro momento, o incêndio de todo o Ser como que se dividiu em infinitas centelhas: as criaturas. Temos de recorrer a essas representações antropomórficas para tornar inteligível o processo. O que nós, filhos do relativo no espaço-tempo, apresentamos como uma divisão, deu-se por Amor, que é o divino princípio da criação. Já vimos (Cap. IV) que foi só e exclusivamente neste único princípio de Amor que se baseou a criação, a ele podendo-se reduzir todos os outros, que nada mais são do que derivação dele. Por criação entendemos aqui a originária dos espíritos perfeitos, e não a nossa atual, que é uma deformação sua. Nessa primeira criação "perfeita", as criaturas, centelhas em que o incêndio divino se dividiu por Amor (criação), continua "Uno", porque estão fundidas em um só organismo unitário - Deus - Que se cindiu para dar por Amor o ser às criaturas espirituais, mas cindiu-se apenas no Seu interior, permanecendo como um Todo orgânico, uno e indivisível, do qual as criaturas, espíritos perfeitos, fazem parte.

Até aqui a unidade do Deus trino, nos seus três aspectos, está intacta. A criação puramente espiritual ocorreu no Seu seio, no Todo-Uno e nele permanece. Deus quis multiplicar-se em infinitos seres, permanecendo "uno". Com tudo isto, as concepções antropomórficas, relativas à nossa posição humana, que é completamente diversa, nada tem a fazer e obstaculam mais do que facilitam a compreensão. Em outras palavras, poderemos imaginar esse processo criador como uma elaboração íntima pela qual um Deus uniforme, indistinto, se transformou em um organismo que, permanecendo "uno", diferenciou-se no seu íntimo em elementos diversos, mas tão exatamente coordenados em hierarquias e funções, que mais contribui para reforçar do que para demolir a originária unidade de Deus. Poderemos conceber esse processo criador como uma passagem, no seio de Deus, de um estado homogêneo e simples do Todo para outro diferenciado e orgânico, fato do qual deriva a estrutura orgânica do sistema, que vemos conservar esse tipo de esquema em todas as individualizações menores. Essa primeira criação, puramente espiritual, consistiu, pois, justamente numa transformação do Todo em sistema orgânico e hierárquico, princípio estrutural esse que depois todo ser repete, princípio do qual ele nos põe a prova sob os olhos, demonstrando-nos também que todo ser é feito à imagem e semelhança de Deus. Mas. a estrutura orgânica e hierárquica da criação originária não é provada apenas pela estrutura semelhante que cada individualização do ser repete depois em ponto menor, mas também pelo fato de que, nos antípodas, o anti-sistema em que tudo se inverteu, oferece, justamente na maior profundidade de seu desmoronamento, precisamente as características do caos. Só assim este se explica como exato polo oposto do estado orgânico-hierárquico do originário sistema íntegro.

Esta trindade compreende, pois, a primeira criação perfeita de puros espíritos existentes no seio de Deus. Dela faz parte Cristo, Neste sentido é compreensível como Ele seja o Filho e a terceira Pessoa ou momento da Trindade. Somente assim é compreensível que Ele seja. Deus e uno com o Pai, que é o Verbo criador, a ação a que o Filho deve a Sua gênese.

Até aqui temos, pois: em um primeiro momento o Espírito pensou e concebeu; em um segundo momento o Pai ou Verbo, agiu, criando; em um terceiro momento o Filho, íntima multiplicação, por Amor, do Deus indistinto, teve existência. Mas tudo se deu sempre no seio de Deus, que assim se conservou “Uno”, o Todo, intacto. A referência contínua de Cristo ao Pai, com sentido de unidade, o, retorno ao seio Dele, após a descida à Terra, nos dizem que os Espíritos perfeitos estão sempre em Deus, no Seu terceiro aspecto de Filho. Até aqui tudo é Deus e perfeito. Logo Cristo é o espírito perfeito, é Deus, mesmo sendo Filho, o terceiro aspecto ou momento.

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A esta altura intervém um fato novo, acima descrito, em virtude do mau uso que a criatura fez da sua liberdade: ocorreu a queda dos anjos. Parte dos espíritos se rebelou contra o sistema. O nosso universo não é a criação, mas o desmoronamento da criação, que foi espiritual e se tornou material; que foi de caráter infinito, mas decaiu na involução de dimensões cada vez mais limitadas. Entendamos bem este conceito, pois que ele pode aparentemente parecer contradição com o que dissemos no final do cap. XIII: "In principio erat Verbum". A primeira criação, a verdadeira, perfeita obra de Deus, foi a espiritual. A nossa, material, é uma segunda criação, posterior e imperfeita contrafação da primeira. Na material, a originária Trindade, em que Deus permanece Uno nos três momentos, como já dissemos, se subverte em unidade fragmentada, cujos três momentos: 1) a concepção, 2) a ação, 3) e a criatura se separam em um transformismo sucessivo, primeiramente involutivo: espírito, energia, matéria, para depois se recompor no transformismo evolutivo: matéria, energia, espírito. (Para nós, seres decaídos, o espírito é também o ponto de chegada. Por isso o concebemos por último na Trindade).

Somente agora poderíamos chegar a compreender a origem e a significação das três formas: α , β , γ expostas em A Grande Síntese. Elas nada mais são, realmente, que uma posição invertida e decaída da primeira e originária Trindade perfeita. Falamos aqui da primeira criação, e também, da segunda, isto é, uma contrafação sua advinda com o desmoronamento do sistema após a queda, quando vimos (final do cap. XIII: "In principio erat Verbum"), na distinção de Deus-Uno em três momentos sucessivos, o Seu sacrifício cósmico por Amor da criatura, precipitando-se com ela e nela, no Seu novo aspecto de imanência, nos antípodas da Sua originária transcendência.

E assim que até ao nosso universo se projeta o originário sistema uno da Trindade, conservando o seu esquema originário, em forma de contrafação e inversão, como que contraído no sistema cindido, que em A Grande Síntese foi expresso, segundo a grande equação da Substância, pela fórmula: ω= α→β→γ→ β→α, que exprime a imensa respiração do transformismo do universo. Só aqui poderíamos expor tudo isso, havendo amadurecido estes conceitos. E somente agora se pode compreender o verdadeiro valor dado à palavra Trindade (isto é, α→β→γ), em A Grande Síntese, em que α , β , γ representam a projeção invertida no anti-Sistema, cindido, portanto, em três momentos diversos, da Trindade una do sistema íntegro.

Assim, desmoronaram também as centelhas de Deus, da criação de origem, que continuam ainda a animar a criação corrupta. Desmoronou, também em parte, o terceiro aspecto, o Filho, agora não mais incorrupto, uno com o Pai, mas junto de criaturas decaídas; um momento cindido que, com a ajuda de Cristo na Terra, Ele próprio Filho de Deus, se esforça e sofre para reascender à antiga perfeição, como nos aponta a cruz do Gólgota. Compreende-se, deste modo, como Cristo, um dos espíritos perfeitos - todos são o Filho - conservando-se unido com Deus, tenha querido fundir-se na dor humana, encarnando na criatura terrestre imperfeita, ou seja; no Filho, aqui não mais incorrupto, uno com o Pai, mas separado Dele, na humanidade de seres decaídos; exilados na matéria. Cabia, não ao Espírito Santo ou ao Pai, mas ao Filho perfeito, socorrer o Filho imperfeito, criatura decaída, mas sempre criatura irmã.

Por essa razão Cristo nos ensinou a orar: "Pai Nosso", enquanto ele chamava: "Pai Meu", com a mesma palavra que exprime a mesma relação de filiação perante o Pai comum, pelo Qual todos foram gerados. Assim, o Filho perfeito, sem culpa, quis permanecer irmão do filho decaído, para redimi-lo e fazê-lo retornar à antiga perfeição.

Isto implica a imanência de Deus também em todo o universo, que deve ser dirigido e redimido por uma encarnação mais vasta do que a de um só espírito perfeito em favor de uma só humanidade, ou seja encarnação de todo o Filho (terceira pessoa da Trindade-Una, constituída pelos espíritos perfeitos do sistema íntegro), para a salvação de todo o Filho (terceira pessoa da Trindade fragmentada, constituída pelos espíritos imperfeitos, pelas criaturas do sistema desmoronado), de modo que o universo possa assim reerguer-se como Filho, terceiro aspecto do estado de Filho decaído e imperfeito, ao originário estado de perfeição, ou seja, do estado de Filho separado ao de Filho-Uno em Deus.

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Desçamos agora ao nosso universo. Ele, em sentido absoluto, não é o Todo, porque além dele há Deus, nos seus três aspectos. Trata-se aqui de um organismo imperfeito no seio do maior e perfeito organismo do Todo-Uno-Deus, trata-se de uma unidade cindida, enferma, de uma criação destorcida, corrupta, desmoronada na forma-matéria; trata-se de uma criação contraída por involução e que por evolução deve novamente expandir-se até Deus, do Qual tentou destacar-se. Aqui, a originária centelha espiritual está envolta nas trevas da forma-matéria, da qual deve, evoluindo, ressurgir, libertando-se dela.

Somente assim é possível compreender o nosso universo como uma contração de α , β , γ em que o estado cinético ondulatório da energia se enclausurou, fechando-se em si mesmo, no estado cinético vorticoso, gerando a matéria, concentração do espaço-fluido-dinâmico. Houve, assim, o desmoronamento das dimensões, da qual nasceu primeiro o tempo e depois o espaço, que se pôde contrair até ao ponto. Os fenômenos de nosso mundo, os que a ciência objetiva toma pôr base e que reputa verdade, são posições contraídas, involuídas, contorcidas e falseadas da verdade, que só se encontra no espírito em estado de perfeição em Deus. O que a ciência estuda é o universo desmoronado em dimensões involuídas, é um estado particular contraído de um ser decaído.

Fundamentar-se no concreto como em uma base segura e objetiva, denuncia uma fase espiritual involuída que não sabe conceber, senão em função da ilusão dos sentidos, aprofundando-se assim nos mais baixos planos de vida, nos planos satânicos. E esta é uma razão pela qual a ciência permanece encerrada na análise e no relativo e, pela própria natureza, é incapaz de atingir as grandes sínteses universais, com o seu método de orientação. A ciência, fechada com o seu positivismo neste universo, jamais poderá, sem o lampejo intuitivo que lhe revele conceitos para ela inacessíveis, compreender e admitir que o mundo que ela aceita por verdadeiro não é senão um mundo às avessas e negativo. Sem as grandes orientações, acessíveis só por intuição, ela tateia sempre no escuro.

Só assim tudo é logicamente inteligível. O egoísmo representa a contração do sistema, que do infinito se fragmenta no finito, em partes cada vez mais isoladas, isto é; egoístas, quanto mais ele se afunda no desmoronamento, na direção de Satanás. Os espíritos não rebeldes, mantidos perfeitos, ficaram fundidos em união com Deus. Os espíritos rebeldes fragmentaram essa unidade em múltiplos "eu" separados, até Satanás que, no polo oposto de Deus (dualismo), representa a máxima contração do ser no egoísmo separatista. E o retorno a Deus é um afastamento de Satanás, expandindo-se no altruísmo.

A prisão em que desmoronou o espírito do homem é o seu corpo. Para reascender a Deus o espírito do homem deve consumir na dor este seu invólucro, feito de carne-matéria, que é a sua animalidade, a sua parte inferior que pertence aos planos mais involuídos da existência. Temos vergonha de nossa nudez, porque ela descobre a nossa animalidade, que nos torna semelhantes aos animais e a velamos para esconder e idealizar a nossa miséria. Há luta entre essa animalidade que, no caminho evolutivo, se encontra na cauda, e o espírito, que está na cabeça. A dor é o sacrifício da ascensão, que finda na libertação do espírito. À animalidade é concedido, contudo, um pouco de prazer, necessário para induzir a carne a viver. E a sua vida é necessária, a fim de que possamos suportar essa dor criadora. Sem este mínimo de prazer (gula na alimentação e sexo para a reprodução), a carne recusar-se-ia a viver, não podendo, consequentemente, preencher a necessidade de sofrer. Deixemos, pois, os ingênuos crerem que viver seja alegria e que dar a vida seja dar alegria. Não. A vida é dor. O seu primeiro objetivo é evoluir, que é sofrer, ainda que para conquistar a felicidade. É necessário viver, somente porque é necessário sofrer. Entre pais e filhos só há um traço de união: o da comum dor humana. Ao corpo são concedidos alguns prazeres para estimulá-lo a viver e a sofrer. E os ingênuos, que não entenderam a estrutura do sistema, acreditam poder basear neles a sua felicidade. Ilusão! Os prazeres, tão cobiçados na Terra e pelos quais tanto se luta, são por sua natureza limitados ao bastante para fazer viver e sofrer, o que parece uma traição. Mas como o escopo é evoluir, com a reconquista da felicidade perdida, deixa de haver traição. Por aqui se vê quanto otimismo há no fundo de nosso pessimismo.

Somando ás totais do cálculo utilitário das consequências de tudo isso em relação ao homem, podemos dizer que, se a posição da criatura em um universo desmoronado é bem dura, porque o seu destino é dor na obrigatória fadiga de evoluir para redimir-se, todavia, por mais decaída esteja ela, resta-lhe sempre o dom supremo da existência, que lhe ficou intacto, apesar de tudo, além da liberdade de aceitá-lo ou não. Na sua dor, ela é assistida sempre por aquele Amor, permanente e divino princípio do ser. Ela pode recusar, se quiser, a existência, mas certamente essa recusa lhe custaria o que se chama: o inferno, isto é, muita dor, com afastamento de Deus e imersão cada vez mais no mal, de modo que ela veria a conveniência de mudar de rota, recomeçando o esforço da ascensão. Todavia, lhe resta também a evasão da existência, ainda que não convenha, com precipitação no vazio. Mas, à criatura se reserva, mais que essa liberdade de escolha, o dom da existência, tão grande que, se ele hoje, por causa da revolta e do desmoronamento, signifique dor, de outro lado implica a possibilidade de recuperação, representando um absoluto direito à alegria. Alegria remota, mas direito inalienável.

Eis a posição do homem diante de Deus. Ela é o que é e ninguém pode mudá-la. O ser é livre e pode escolher. Há muita dor, mas existe a escada para subir, muito auxílio de Amor, muita felicidade no alto. Há igualmente a escada para descer, que nos dá uma ilusão de evasão e que, ao contrário, agrava a dor até à infinita dor da anulação.

(Só nesse sentido se pode falar de inferno eterno).

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Quisemos, deste modo, esclarecer melhor e resumir o nosso pensamento sobre o tema deste nosso livro Deus e Universo, em um quadro sintético, que vai de Deus ao homem, numa última síntese, que abrange e enquadra, no infinito A Grande Síntese, nosso primeiro volume.

FIM

O estudo do fenômeno inspirativo nos leva agora a considerar as relações entre a alma e Deus. Nas páginas precedentes, comparamos a expansão do pequeno consciente individual no infinito consciente cósmico, que constitui o fenômeno inspirativo, com o caso em que uma célula individualizada pudesse alcançar a consciência de todo o organismo humano. Cabe agora aqui indagar: serão estas as relações entre o "eu” individual e o "eu” cósmico, isto é, entre a alma e Deus, as mesmas que ocorrem entre uma célula e todo o organismo?

É  certo que desde o átomo até à molécula, ao cristal, à célula, e a todas as formas de vida individual e coletiva, se cada individualização do ser revela saber quanto lhe basta para existir, não tem, todavia, de modo algum, consciência do Todo. O próprio homem, que se situa no ápice da evolução biológica, não tem consciência senão de uma parte mínima da sua vida, da qual só possui muito limitadamente as diretrizes. Temos, então, que atribuir ao consciente universal esse conhecimento que as individualizações isoladas do ser não possuem propriamente. Assim se delineiam as relações entre o "eu" individual e o "eu‘, cósmico, isto é, entre a alma (tomada no sentido lato, inclusive como a alma das coisas) e Deus. Ora, imaginar que cada uma das várias individualizações do ser representa a sede de uma íntima imanência neles, no fundo e além do seu relativo consciente, do consciente do "eu" universal, que sabe e pensa em cada ser dentro dos limites de sua natureza, provendo-lhe a vida - imaginar tudo isto é mais plausível e convincente do que conceber um universo regido, não se sabe como e por que meios - por um consciente “eu”, universal que lhe é exterior e estranho. Vimos que Deus não é exterior; mas íntimo do ser, e concluímos pela Sua imanência neste. Isto tanto mais se tornará convincente, quanto atentarmos para que, se parece conduzir-nos à impessoalidade de Deus e ao imanentismo panteísta, não exclui nem lesa, efetivamente, o conceito do Deus pessoal e transcendente.

O    consciente universal é, pois, íntimo ao ser, representando o imenso fundo de sabedoria que guia toda a sua vida, sem que ele se aperceba de nada. Neste campo se incluem o funcionamento orgânico, tudo o que é guiado pelo instinto, o desenvolvimento das alternativas coletivas que constituem a história. Ainda se incluem a Lei que enquadra os nossos atos livres na férrea concatenação causal e depois se desenvolve no destino individual e coletivo, a oportuna intervenção da Providência - guia e ação situadas além do conhecimento e das forças humanas, e assim por diante. Se o universo foi gerado, como vimos, por uma Substância pensante, o que vale dizer, feito de divina imanência, justamente por esta razão todo ser é dela feito, ou seja, é pensante na sua profundidade. Se ele não tem disso consciência, não importa. De como ele vive e funciona devemos deduzir que este pensamento está nele, mesmo que ele não o note, como está, mas até nas mais involuídas formas da matéria bruta, e não apenas nos seres evoluídos.

E este pensamento uno, que reconduz as infinitas formas à unidade do Todo e constitui a universalidade da Lei - una. Então, que diferença existirá, por exemplo, entre a pedra, a árvore e o gênio? Ela reside no grau em que a individualização do ser, segundo seu plano evolutivo, consegue participar desse consciente universal, isto é, consegue despertar conscientemente, ou seja, em consonância, no seio do pensamento de Deus. Em outras palavras, poder-se-ia dizer que o universo é inteiramente feito dessa primordial Substância conceptual que é o pensamento de Deus, e qual um infinito oceano vibrante, em cujo seio, porém, cada individualização do ser não vibra da mesma forma, sendo mais ou menos desperta e participe, como estado de consciência dessa vibração. Em tudo o que existe, há a possibilidade de poder atingir toda a vibração do pensamento de Deus, mas tal vibração não existe em atividade, ela está latente, adormecida, à espera de gradual despertar. E a este despertar que se denomina evolução.

Podemos agora melhor compreender o significado dos conceitos de subconsciente, consciente e superconsciente, já expostos no volume: Ascese Mística. O consciente é a zona de trabalho (com a experiência da vida) e de despertar do ser para entrar em vibração no consciente universal. A evolução não é, assim, um avanço cego, mas um despertar vibratório, segundo esquemas pré-existentes, por conseguinte pré-estabelecidos, no consciente universal. O subconsciente é a consonância, a sintonização já adquirida com esse consciente e estabilizada nos automatismos (instintos, ideias inatas etc.). Ele abre o campo já explorado pelo ser na experiência realizada na vida; e tanto é sua propriedade, como expressa suas qualidades. Ele coincide com o pensamento de Deus, mas nos mais baixos planos de sua expressão, sendo, pois, guiado pelo consciente que já começa a vibrar nos planos mais elevados. O superconsciente é o pensamento de Deus, ainda latente e adormecido no ser, que ainda não se pôs a vibrar em zonas evolutivas mais elevadas. Ele está, pois, para o ser ainda em estado de não-consciência.

Poderemos dizer com o suave Virgílio: "Mens agitat molem", no sentido de que dentro de cada forma e atrás de toda aparência há um proporcionado despertar com relação ao divino, de um estado vibratório que a rege. Veremos, então, atrás da hierarquia das formas uma interior hierarquia de consciências, constituída pelos graus de consonância atingidos pelo ser em relação com o pensamento divino. Desta forma, no consciente do indivíduo vão surgindo problemas cada vez mais vastos e complexos, à medida que ele sobe. A uma planta bastará resolver o problema da assimilação e respiração. O gênio sentirá necessidade de resolver o problema do universo.

Assim, pois, vemos que as posições de subconsciente, consciente e superconsciente são relativas ao grau de evolução de cada ser. Para o homem racional o subconsciente representa apenas o pensamento sensitivo do animal e vegetativo da planta. Para o animal, é subconsciente este último, enquanto para a planta é subconsciente o pensamento molecular, isto é, o que preside à construção e funcionamento dos elementos químicos componentes; para estes o subconsciente é o pensamento atômico, isto é, o dos diferentes edifícios eletrônicos componentes.

E em direção oposta, poderemos dizer que, assim como para o homem racional o superconsciente é o pensamento intuitivo sintético do super-homem, também para o animal o superconsciente é o. pensamento racional humano, para a planta é o pensamento sensitivo do animal, par‘ a molécula da química inorgânica é o pensamento celular vegetativo da planta e para o átomo é o pensamento molecular da química. Assim se pode compreender o sentido que está no fundo das palavras de Sertillanges: “na natureza tudo tende a subir. A apoteose da matéria está no vegetar, a do vegetal, no sentir, a do animal, no pensar”.

Como se vê, o ser, da mesma forma que o homem, move-se em um ilimitado oceano de pensamento, em que o seu próprio avança mais ou menos e se expande, conforme o estado de consonância que ele, evolvendo, consegue atingir. O pequeno "eu" individual tem de se haver sempre com este consciente universal, que é o Deus imanente, no qual ele está imerso, como em uma atmosfera de pensamento que ele respira com o seu pensamento e com o qual se comunica por um contato que constitui a vida. Para o homem, o Deus imanente é uma zona ilimitada, situada além da sua consciência e qualquer processo evolutivo, até à fulguração do gênio, constitui uma aproximação Dele por progressiva consonância. Estamos circundados pelo mistério. Mas a evolução consiste justamente na expansão de nosso consciente individual no infinito consciente cósmico. Poderemos imaginar o primeiro como uma pequena circunferência que, partindo do mesmo centro, se dilata no seio da infinita circunferência do consciente universal. Podemos também representar a Substância pensante do Deus imanente, constitutivo do Todo, inflamar-se de estados vibratórios mais ou menos intensos e complexos em vários pontos, que formam, deste modo; os centros pensantes que constituem o consciente dos vários “eu” individualizados. O fenômeno inspirativo não passaria, então, de um índice que nos revela haver o ser executado, através de um despertar vibratório, mais um lanço evolutivo, uma dilatação de consciência, expressão de uma catarse biológica.

O que espera o homem a despertar no superconsciente é o Deus imanente, o consciente cósmico. Ali já está escrita a resposta a todos os porquês, feitas estão todas as descobertas, evidentes são todos os mistérios. Segue-se daí que o problema do conhecimento é sobretudo uma questão de maturação biológica. E principalmente esta, e não as elucubrações racionais, que inflama o lampejo ao gênio, porque, sendo evolução, leva o homem a vibrar harmonicamente mais próximo do pensamento  de  Deus.  Então, entrando num plano de vida mais alto, nasce uma nova sensibilização espiritual: o que antes era um superconcebível, torna-se espontaneamente, inteligível e se revela. Quando não é o indivíduo isolado que avança (o gênio), mas um grupo ou mesmo a massa humana, então o fenômeno inspirativo se generaliza, segundo a potência de cada um, surgindo a era das conquistas do pensamento, os grandes séculos construtivos, as descobertas em cadeia, como hoje. Tudo explode assim, em um surto evolutivo em todas as partes do mundo, quase contemporaneamente, acreditando cada célula da humanidade haver feito uma descoberta com seu engenho. Todavia, não se trata senão de uma geral maturação biológica. Esta é a razão pela qual somente hoje se fizeram descobertas antes julgadas impossíveis e inconcebíveis pelo homem. E logo chegarão novas orientações sobre aquilo que atualmente é tomado por superconcebível. No fundo trata-se tão somente de sensibilizações progressivas, de que nascem mais elevadas consonâncias ou sintonizações com o pensamento de Deus.

Toda a evolução se reduz, assim, a um problema de sensibilização nesse sentido. As janelas de nosso consciente sobre o mundo hoje são poucas. E é preciso ser bastante involuído, isto é, adormecido, para sentir-se bem satisfeito em uma casa tão pequena e escura. A conquista da verdadeira liberdade não está na liberdade de mostrar-se animalesco, mas no despertar de consciência que nos permite sair da tremenda prisão da ignorância e da inconsciência. Quantas mensagens constantemente o consciente universal não enviará ao nosso minúsculo consciente individual! Maravilhosos apelos, e nós continuamos surdos, sem compreender! Tudo vibra de pensamento e freme de vida em derredor de nós, e não sabemos por-nos em contato com este maravilhoso universo saturado de Deus, porque não estamos sensibilizados, não sabemos vibrar em uníssono, para ouvir e responder. E permanecemos mudos e inertes no vórtice de todos os esplendores do concebível. Estamos encarcerados na matéria. Em torno, tudo nos empareda nas barreiras de nossa insensibilidade. E o involuído não arde senão na ânsia de refocilar na lama das suas baixezas, porque aí estão os seus atrativos, porque essa é para ele a vida. Que pobre vida, quando somos feitos de infinito, para o infinito! Pobre involuído, manobrado como um fantoche pela Lei a que, enquanto crê comandar, nada mais faz na fundo que obedecer, porque é ela que o comanda e deve comandar como a um títere, pois que ele nada sabe, nem pode mesmo dirigir!

Mas observemos ainda as relações entre o "eu" individual e o "eu" cósmico. Já idealizamos o consciente individual, sediado no consciente universal, como as células no organismo humano. Já conhecemos a estrutura hierárquica piramidal dos seres, pela qual, consoante o princípio das unidades coletivas, se passa a um número crescentemente reduzido de individualizações sempre mais sintéticas, partindo de uma incomensurável quantidade de individualizações, tanto mais particularizadas e analíticas, quanto mais descemos na escala dos seres. Assim, da célula se desce à molécula, depois aos átomos, aos elétrons etc., ao passo que se sobe para o órgão, para o organismo completo, para o grupo familiar, nacional, para a humanidade etc. O mesmo se dá no plano da matéria inorgânica, na construção dos universos estelares. Esta, em cadeia, é a técnica construtiva dos edifícios do ser.

Ora, dissemos que, por de trás dessa estrutura física, existe uma outra mais real que a rege - a espiritual, animadora dessas unidades, uma outra estrutura hierárquica piramidal, feita de pensamento. O universo não será inteligível  se, atrás da hierarquia exterior das formas, não enxergarmos essa outra hierarquia de motivos conceptuais ou de modelos abstratos que são aqueles segundo os quais as formas se plasmam. Por trás dos planos biológicos existem planos conceptuais que se sobrepõem e se escalonam ascendentemente numa hierarquia de princípios espirituais que culminam em Deus - vértice da pirâmide ou centro da circunferência. Segue-se daí que, com o progresso da evolução, se a forma muda é porque, sobretudo, muda a natureza do pensamento que ela expressa e muda a consciência do ser em consequência da elaboração do viver. Eis, pois, o que existe de substancial no substrato da evolução e no que a rege: o progressivo despertar do "eu" em um estado vibratório cada vez mais elevado.

Estamos agora em condições de encarar a evolução de um modo mais substancial, isto é, mais correspondente à verdadeira realidade, que é a interior à forma. A evolução não é, pois, um aprimoramento de organismos, a não  ser como última consequência Ela corresponde, contrariamente, a um conceito metafísico: o despertar do espírito, a mobilização das qualidades adormecidas e latentes no inconsciente e, com isto, a reconstrução através da experiência na matéria, do sistema espiritual desmoronado, até que o Deus imanente, nele incorporado, retorne ao estado de origem, para coincidir com o Seu aspecto transcendente. Assim, a formação das unidades coletivas em dimensões cada vez mais vastas, não constitui apenas uma agregação de elementos, mas uma organização dos mesmos, de modo a que cada unidade superior represente uma perfeição maior, conseguida por efeito de mais profunda manifestação do espírito, e mais profundamente desperta.

Não se trata, pois, de ver no universo somente um infinito oceano de pensamento, uma infinita atmosfera pensante, de que tudo vive. Isto  é, verdade mas é insuficiente. Nela se formaram, como dissemos, núcleos de consciências individuais, como no espaço cósmico paralelamente se formaram núcleos de matéria. Ora, este e mais precisamente o aspecto do Deus imanente em nosso universo, isto é, não pode ser uma uniforme e informe atmosfera pensante, mas o de se ter individualizado em infinitos núcleos de consciência ou "eu" pensantes.

Nisto consiste a imanência de Deus em nosso universo: ter querido, por Amor, seguir o sistema no seu desmoronamento! Eis no que consiste a maior paixão de Deus por todo o Seu universo: a Sua encarnação e crucificação além do Gólgota! Eis como se explica o "Tu habitas in me", como a presença de Deus é íntima a nós e às coisas! Eis porque Cristo pôde dizer: "Vós sois Deuses". Poderá parecer audaciosa esta concepção, mas é a única que tudo aclara em profundidade.

Vemos, efetivamente, que cada unidade coletiva superior não representa somente a soma das suas unidades componentes, mas alguma coisa a mais. Nela há coordenação e organização da atividade dos elementos constitutivos, criação, por conseguinte, de qualidade que eles não possuem isoladamente, execução de encargos que eles, sozinhos, não poderiam realizar. Com a fusão das unidades menores em unidades coletivas, nasce algo de novo, que antes não existia em nenhuma delas e que elas conseguem somente com essa união. Isto tem um profundo significado. Antes de tudo, o nascimento dessa qualquer coisa dê novo não pode deixar de ser um desenvolvimento do latente, como vimos, porque de outra maneira ele seria inexplicável. E desenvolvimento do latente não pode significar senão maturação evolutiva no espírito, isto é, o despertar do ser no seio do Deus imanente, como vimos. Mas há mais: é que tudo isto só se verifica com a técnica das unidades coletivas. Logo, esse desenvolvimento do latente e o despertar do Deus imanente no espírito de cada ser não ocorre senão por reunificação dos fragmentos de um sistema desmoronado, senão por irmanação e fusão em organismos superiores mais vastos e orgânicos dos diversos "eu", em que o Ser-Uno se fragmentou originariamente. Podemos então dizer que a lei das unidades coletivas, por nós algures mencionada e demonstrada, nos prova que a reunificação é o sistema de reconstrução e que, quem se reunifica, se reconstrói. Eis, portanto, a técnica do retorno do anti-Sistema ao sistema.

Concluímos agora com esta grave afirmação, levando até às últimas consequências os motivos acima assinalados: as diferentes almas individualizadas são fragmentos do Espírito e constituem cada individualização decaída em toda forma existente. O que anima o ser e sem o que não pode haver existência é a doação por Amor do Deus Criador, Que não abandonou a criação, mas nela permaneceu no Seu aspecto de Deus imanente. Foi dessa doação por Amor que nasceram os diferentes espíritos, não apenas os incorruptos do sistema, mas igualmente os corruptos do anti-Sistema. E estes, no plano humano, somos nós, homens, como almas. Quando, pois, chamamos a estas: centelhas divinas, devemos subentender fragmentos de Deus. E, enquanto os espíritos incorruptos permaneceram unidos em Deus, nós, espíritos rebeldes, ficamos isolados. Cada espírito entre nós é um fragmento do Espírito-Deus Que, pulverizado em nós no anti-Sistema, se precipitou conosco na forma. Eis em que sentido nós somos Deuses. E o somos.

Explica-se, desta forma, por que essas centelhas têm tanta fome de unidade, atraindo-se e rejubilando-se, quando, superadas as resistências do anti-Sistema, conseguem irmanar-se, como recomenda o Evangelho. Justamente esta é a razão: por mais que a rebelião do anti-Sistema queira o contrário, elas se sentem dispersas, insuladas, e procuram na união recuperar a potência, a inteligência, a vida. Por isso, a unificação é criadora, pois ela é, e só agora podemos entender, a reconstrução do universo desmoronado, ou seja, do Deus-Uno, fragmentado em infinitos "eu" menores e que, do Seu aspecto imanente reconstrói, até atingir novamente o Uno, representado por Deus no Seu aspecto transcendente. Todo o grande drama do ser decaído pode, assim, resumir-se em duas palavras: fragmentação e reunificação.

Fragmentação, reunificação! A potência reconstrutora do Todo é dada pelo mesmo Amor que caracterizou a primeira gênese, mesmo quando, na reconstrução, ele devesse assumir o aspecto negativo de sacrifício. Este, de fato, representa para a criatura decaída a única forma de verdadeiro amor construtivo. O amor-gozo é apenas uma recordação da sua origem: gozo limitado, fugaz, ilusório, quase que somente tolerado com mera introdução ao amor-sacrifício, que não efêmero nem ilusório, mas o único verdadeiro e construtivo. Fragmentação, reunificação. Deus está sempre presente, é sempre o Todo. Reunificar-se é o grande propósito de todo o universo; porque no fundo de todas as formas há um pequeno fragmento de Deus, que tem fome de voltar a ser Uno. Se o universo é todo um desencadeamento de antagonismos, desde o plano físico ao espiritual (repulsão-ódio), ele é também um anseio de amplexo em todos os planos (atração-amor). Fragmentação significa a revolta e o desmoronamento, terminando no caos. Reunificação significa a obediência e a reconstrução, terminando na ordem do Uno.

Este é também o caminho de nosso mundo. Se descermos os graus e tempos mais involuídos da humanidade, encontraremos aí o politeísmo. Deus estava fragmentado também como concepção e vinha sendo, desde os tempos da Grécia e de Roma, adorado por fragmentos. Mas deu-se a superação na unificação, passando-se ao monoteísmo. Então a humanidade volveu a olhar mais para o alto, deixando a dispersão divina pelo Centro-Uno e, mais amadurecida, pôde compreender melhor a unificação. Mas não basta. O politeísmo está para o monoteísmo, como este para o monismo. Atentemos para este fundamental conceito do Uno e não apenas para o significado que se pode dar a esta palavra por ter sido usada por esta ou aquela escola filosófica. Monismo aqui significa ter compreendido não somente a unidade de Deus, mas também a unidade do Todo, pela qual tudo o que existe forma um sistema único, do qual Deus é o centro.

A vida do indivíduo se torna grande quando ele compreende que é, no sentido exposto, o filho de Deus. Grande coisa se torna a organização da sociedade humana, quando é concebida como um momento do processo de reorganização do universo, que se está reconstituindo para retornar a Deus. Eis o grande sentido teológico que se pode conferir à política e ao Estado moderno. O indivíduo é uma célula sua e esse Estado é uma célula da humanidade, que é célula da vida. E ai de quem falsear os valores substanciais e usurpar, perante a hierarquia que se inicia em Deus, uma posição que não corresponde aos valores intrínsecos.  Permanece para todos, crentes ou ateus, a imanência de Deus, e quem forja mistificações ou falseamentos experimenta nas próprias carnes o punhal da dor. Mas nem por isso a reconstrução estaca. Perde-se o indivíduo, mas o sistema se reconstrói da mesma forma, porque esta é a Lei. E ser tem de se reconstruir plano por plano. E quando dizemos ser, dizemos a nossa alma, ou seja, centelha de Deus em nós imanente. E sofremos juntamente com Deus, porque em sua profundeza o nosso espírito é Deus. A alma sofre em Deus e Deus sofre na alma.

Mas cada vez que uma alma se irmana a uma outra, é um fragmento de Deus que se uniu a outro fragmento, e um passo foi dado para a reunificação. O incêndio originário começa assim a reacender-se aqui e acolá pelas fagulhas semi-extintas. Cada duas chamas que se unem não ardem, por duas mas por quatro. Satanás, força do anti-sistema, desesperadamente lança água no fogo com a cisão, procurando frenar a reconstrução, porque esta significa o fim do seu reino, que é o caos. Mas assim ascendendo, com a elaboração de cada célula e a fusão com outras células, as consciências individuais se reorganizam para reconstruir o "eu" cósmico, a consciência do universo. Cada consciência inferior, dissemos, em face da superior, é sempre de caráter analítico; a superior, diante da inferior, é de caráter sintético. A superior adquire funções de coordenação para fins mais elevados, antes ignorados. Uma célula se torna diferente quando faz parte de um organismo, assim como um homem quando integra um exército ou qualquer organização social. Ele então age e produz de outro modo. Há uma sublimação e valorização do seu “eu”, assim enquadrado em funções mais altas, flanqueado por outras funções que o completam na colaboração. Colaborar é muito mais do que trabalhar, quer pelos fins, quer pelos meios, seja pela unidade coletiva, seja pelo indivíduo. Quanto mais orgânica se torna a vida, tanto mais altos, vastos e poderosos são os fins que se podem atingir.

 Como esta orientação cósmica podemos apreciar o valor de cada ato nosso, quer como indivíduos quer como sociedade. Tudo evolve e nós evolvemos como indivíduos e como sociedade, em demanda de sínteses mais vastas, profundas e compreensíveis. Nós, centelhas de Deus, somos os operários de Deus para a reintegração do Deus imanente. A nossa vida não pode ter significação a não ser quando nos pomos em função desta reconstrução. O Deus imanente dorme em nossas profundezas. Despertando nós ou ressurgindo Ele - o que é a mesma coisa - na profundidade do nosso espírito, reconstruir-se-á no estado de consciência aquela do universo (o Espírito), que agora jaz no estado de inconsciência que o homem agora se encontra. Isto não significa que o ser, o nosso minúsculo "eu" se torne Deus, mas que Deus volta a ser qual era antes do desmoronamento do sistema. Não somos nós insignificantes homens, que de novo nos devamos encher de orgulho, mas é Deus que em nós deve despertar cada vez mais, a fim de que o nosso "eu" desapareça reabsorvido Nele. Por isso, nos capítulos precedentes insistimos na atitude a assumir e que o místico assume, pela qual o desenvolvimento do "eu" humano consiste na sua anulação em Deus. Isto porque, compreendamo-lo bem, não é o nosso "eu" egoísta e separatista, filho do anti-sistema, cindido e rebelde a Deus, que devemos desenvolver, mas é justamente o nosso outro "eu” divino que devemos despertar e que dorme nas profundidades de nosso espírito. Se agirmos noutra direção, caminharemos, ao invés, para a destruição e não para a reconstrução. Em lugar de seguir a via: "fragmentação, reunificação", seguiremos a oposta: "fragmentação, fragmentando-nos mais ainda".

Concluindo, procuremos penetrar esta estupenda realidade: em profundidade todos os seres são uno, isto é, na íntima essência espiritual de todas as individualizações existe uma substância que as funde em unidade, pela qual todas elas retornam ao centro comum que tudo irradia e tudo atrai - o Centro - Uno - Deus. No fundo de todos os seres está esse seu centro, no qual cessa qualquer distinção, e a infinita pulverização dos "eu" separados na periferia do sistema reencontra a sua unidade em um só "Eu". Por isto, amando o seu próximo, o indivíduo caminha para Deus e esta via que o conduz a Deus é a da unificação. Tanto mais o ser se avizinha do centro - Deus, quanto mais sente que a sua alma é a dos outros seres são uma só coisa. Assim, pois, evolução, espiritualização e unificação caminham paralelamente; hoje, quem ama a Deus, O ama em todas as criaturas, e quem vive em todas as criaturas, vive em Deus, ao passo que quanto mais egoisticamente se vive, tanto mais se vive distanciado de Deus.

Não se deveriam dizer estas coisas abertamente ao mundo involuído de hoje, porque ele está sempre pronto a dar-lhes uma interpretação às avessas, satânica. Não se deveria dar ao público a solução dos mistérios aqui obtida por intuição, inacessível pela via racional, solução que deveria ser, pois, naturalmente proibida. Poder-se-ia repetir: “não atireis pérolas aos porcos, a fim de que não as pisem com os pés e se voltem contra vós para dilacerar-vos”. Por isto tais coisas são ditas em livros de complexa concepção, que os cérebros preguiçosos e ignorantes repelem e que a maioria dificilmente penetra, justamente para que poucos as conheçam, mas as possam encontrar prontas quando hajam amadurecido. É, ademais, necessário deixar o mundo de hoje entregue às suas ferozes exercitações evolutivas, já que menos ferozes ele não sabe praticar, e as atuais são as de que ele necessita, sendo elas proporcionadas ao seu grau de inconsciência. Porém, quem tem ouvidos de ouvir que ouça e quem tenha intelecto para compreender que compreenda, pois que o quadro da visão do ser está completo e é chegada a hora em que a verdade será dita abertamente sem véus, pelo menos aos mais evoluídos, que podem compreendê-la.

Quem chegar a compreender tudo isto, sabe que é uma eterna, indestrutível centelha de Deus. E sabe também que, no Seu aspecto imanente, Deus está presente em nosso universo, até em nossas menores coisas e que nós não só podemos senti-Lo espiritualmente, mas igualmente vê-Lo. Se não nos é dado conceber o Deus transcendente, podemos, no entanto, ver o semblante do Deus imanente, pois que toda forma de existência é uma expressão do pensamento e da vontade Dele, é uma manifestação do Seu ser. Certamente sendo Ele um infinito, nós não podemos limitá4o no relativo de uma forma particular. Ele permanece um infinito, tem, pois, infinitos rostos e o veremos expresso em tudo o que é beleza, bondade, floração de vida e de alegria. Esta e, efetivamente, a manifestação do sistema no lado positivo do ser. Esse sistema, apenas floresce, é minado pelo anti-Sistema, negador e destruidor de beleza, de bondade, de vida, de alegria. É assim que tudo se estiola, corrompe-se e morre. Mas o Deus imanente, sendo a alma das coisas, do íntimo delas continua a manifestar-se numa incessante floração e, assim, embora tudo feneça, corrompa-se e morra, tudo de novo refloresce e revive. Desta forma, o sistema, não obstante os contínuos assaltos do anti-Sistema, venceu, vence e vencerá sempre, sendo o mais forte.

Esta é a significação de tudo o que existe em derredor de nós, de tudo o que nós mesmos vivemos. E quando o homem peca, ele se coloca no campo do anti-Sistema, ao sabor das suas forças, das quais nada mais pode esperar, senão dor. Toda vez que praticamos o mal, renovamos a primeira revolta com as suas consequências. E temos de subir até nos havermos reequilibrado na Lei, reingressando na sua ordem, por ter seguido as suas normas de harmonia e de amor.

Somente o homem que sabe tudo isto, compreendendo a vida, orientou-se no Todo, não sendo mais um cego entregue a forças ignotas, mas se tornando senhor de si e do seu destino.

Numa grande reviravolta da minha vida e da vida do mundo, nasceu este livro, subitamente, como uma explosão. Foi escrito em vinte noites, pouco antes da Páscoa de 1951, aproveitando-me de uma bronquite que me forçava ao repouso, furtando-me ao trabalho diurno normal, necessário para a manutenção de minha família. Escrevi-o sob intensa febre, que facilitava a elevação do potencial nervoso, na solidão gelada de Gubbio. Como aqui está registrada, a visão me apareceu, em vinte etapas ou capítulos, nos imensos silêncios daquelas longas noites hibernais.

Qual explosão de pensamento e de paixão, este livro não poderia revelar-se a não ser à aproximação da Semana da Páscoa, após um longo e íntimo tormento preparatório. Sob a exposição fria e racional, que pretendeu, sobretudo, ser fiel às visões, oculta-se e arde essa paixão, a ânsia do inexplorado, o terror de debruçar-se sozinho sobre os abismos dos maiores mistérios, a imensa festa da alma pelo conhecimento  obtido. No esforço aqui dispendido para galgar os últimos  cimos, como coroamento da Obra, há como que uma vertiginosa desesperação da alma, que se sente perdida e desfeita diante do lampejo de uma concepção que não é sua, que dardeja sobre ela, ofuscando-a e arrebatando-a para os vértices do pensamento , onde tudo se faz uno, e para os vértices das sensações, onde alegria e dor se unificam num  imenso espasmo de êxtase.

Este livro, que não é meu, apareceu assim como um relâmpago, para trazer a solução dos problemas últimos, em meio a uma humanidade  descontrolada, delirante com os sofismas e os requintes da decadência, neste momento em que a História está procedendo à liquidação da velha civilização europeia. A hora é apocalíptica, porque é a hora da justiça quando  todas as almas e os valores da humanidade devem ser joeirados, de uma forma implacável, a fim de que tudo o que não seja vital  se incinere. Estamos asfixiados por montanhas de falsidades e a vida se rebela por que está faminta de verdade. E a verdade deve ser dita a qualquer custo, pois que o mundo em breve será sacudido pelos alicerces Ela deve ser dita antecipadamente, de uma forma clara, simples e una. Urge lançar a semente da ideia que deverá reger o novo mundo do terceiro milênio, aquele que ressurgirá da destruição do atual.

Este é o décimo volume desta Obra, que agora, depois de haver superado infinitos obstáculos, transborda pelo mundo e, de puro sistema de conceitos, está se transformando em vida. O milagre,  predito com exatidão, ainda que proibido, torna-se realidade: o milagre consiste em que um homem sozinho, pobre, cruciado de dores, votado à renúncia e esmagado sob o peso de um árduo trabalho, consiga sobrepujar tudo isso e  lançar uma ideia ao mundo. É que, em geral, onde existe o que, humanamente, por inexplicável, se chama milagre, está Deus e, onde Deus está é possível chegar-se até aos fundamentos. Há quarenta anos luto com esta certeza e os fatos de cada dia mais a confirmam. Em breve surgirão os volumes undécimo e duodécimo; aqui já estão lançadas as suas bases . Desta maneira, uma obra completar-se-á pela trabalho  penoso e íntimo de um homem, a fim de que o   mundo possa. afinal, enxergar claro todos os problemas  e, assim ser levado, unicamente pela via da razão e do utilitarismo, a uma vida mais honesta e justa e afim de que a fé seja demostrada, fazendo-se a paz entre ideias e homens.

Quis, por isso, interrogar, por meio de recente contato direto, os povos mais jovens das Américas; encontrei-os preparados para compreender melhor as nossas ideias do futuro do que a velha Europa. E, graças a isso, agora  tampouco  devemos preocupar-nos se a difusão destas ideias se faz aqui com mais lentidão e se as edições em italiano se vão tornando cada vez mais lentas, em face das dificuldades   sempre crescente do ambiente. Essas dificuldades locais não mais conseguirão conter a divulgação da Obra que se desenvolve no mundo.  O importante é que tudo seja logo escrito e publicado, não importa onde. Outras gerações, depois, após outras provas, virão e compreenderão.

Na sua última missiva, na primavera de 1951, Albert Einstein assim me escrevia de Princeton. N. J., a propósito do oitavo volume da Obra Problemas do Futuro – que mais dizia respeito a sua especialidade: I have studied part of your book and have admired the force of the language and the vast extension of your interest...” (“Estudei parte do seu livro e admirei a força de expressão e a vasta extensão de seus objetivos…”). Mas o presente volume está construído em outro terreno, a que podemos chamar teológico, além da ciência atual. Por isso é mais vasto do que o primeiro livro – A Grande Síntese – que ele encerra, como um seu momento, desenvolvendo-se em um campo que a visão de A Grande Síntese encarando apenas o nosso universo atual, não podia atingir. Com o presente volume pode dizer-se estar exaurido o ciclo dos grandes conceitos básicos, atingindo-se a solução dos máximos problemas. Possivelmente depois deste esforço de racionalismo cerrado, o undécimo volume, por compensação, deverá assumir característica oposta, ou seja de vitória da vida no espírito, do amor na ressureição, para atingir no último volume, cristo, o ápice do edifício.

"Através da vida tenha caminhado, caindo e levantando. Através dos meus escritas tenho caminhado por uma longa senda de fadiga e de fé. Quantas etapas superei! O meu pensamento desenvolveu-se através de inúmeras conceitos e a minha paixão amadureceu de tanto sofrer. Ao fim de tanta ansiedade de alma e de coração, não restará mais que uma palavra, a última  de tantas que foram ditas: Cristo. Sobre esta palavra, que é a síntese suprema da conhecimento e do amor, eu me reclinarei satisfeito e feliz, para morrer. Satisfeita como quem, superando todas as ilusões. humanas, reencontrou a verdade absoluta. Feliz como quem, vencendo todas as dores humanas, reencontrou a sua suprema alegria". (Do quarta volume: Ascese Mística - 1939).

Aventurar-se em um terreno teológico  poderá parecer excessiva audácia. Mas, eu hão pude escolher o tema das visões, que apenas registrei. Ademais, era necessário resolver tudo, também  os problemas últimos, a fim de que o sistema se completasse. Afinal, por que o teológico deve ser um terreno proibido? Por que a indagação deve furtar-se aos cimos máximos e impor-se eternamente o mistério? Por que relegar ao museu das coisas mortas certas problemas, apenas porque hoje se acredita na ciência que sabe fazer descobertas úteis e não é capaz de formular tais questões? Deveremos, então, cancelá-las de nossa mente? A pesquisa da verdade, feita com sinceridade, com fé e com respeito, não tem sentido de  culpa. Possuímos inteligência para usá-la e esforçamo-nos honestamente para compreender, até ande for possível, tem mais valor do que a dormência passiva da crença. Além do mais, se o mundo e as religiões progrediram, isto se deve à paixão de conhecimento que almas sedentas e isoladas cultivaram com o próprio risco e grande tormento.

A este propósito, permitimo-nos citar algumas páginas de Giovanni Papini: Cartas do Papa Celestino VI aos homens, páginas que ninguém taxou de heterodoxia.

"Por que é a divina teologia hoje tão pouco popular entre os homens? Por que a ciência suprema, a ciência de Deus é hoje ignorada, mesmo pelos não ignorantes? Por que a vemos relegada, sobretudo em nossa Igreja, às classes dos seminários e aos estudantes dos mosteiros?

Que aconteceu? Não aflige a vossa alma a dúvida que de tão funesto desinteresse a máxima culpa vos cabe?

"Interrogai a vossa consciência e respondei com franqueza cristã. A responsabilidade desse abandono não é inteiramente vossa, mas é, antes de mais nada, vossa. As grandes coisas jamais são vencidas pelas adversárias, mas pela fraqueza e infidelidade dos seus divulgadores. Que uso fizestes, de muitos séculos para cá do patrimônio sobrenatural que vos foi confiada? Por que permitistes que outros (. . . ) tenham tomado o seu lugar na atenção dos pensadores?

“A verdade, dolorosa  verdade,  é que a vida ardente e criadora do pensamento  se afastou de vós. Depois de S. Tomás (. . .) não fostes capazes de construir uma nova e poderosa síntese teológica ( ...).

De há muito tempo não aparece entre vós um gênio que saiba, como os granes escolásticos, conduzir à meta única por novos caminhos.  Não soubestes acrescentar uma nova prova da existência de Deus, depois das apresentadas por S. Anselmo e S. Tomás. Não  soubestes oferecer uma ideia mais profunda da redenção depois de Duns Scott e não soubestes verter o vinho eterno da verdade em odres ardentes, em cálices de cristal mais puro.

A Escolástica decaiu pelos excessos de sutilezas verbais e pelo pedantismo  sofístico dos occamistas1. Vós a depositastes decomposta no féretro  lúgubre da repetição. Há séculos vós, teólogos, não sois mais que compiladores de sinopses, manipuladores de manuais, registradores de lugares-comuns; não sois mais do que entediantes comentadores, glosadores, exumadores, postiladores, ruminadores de antigos textos venerados (. . .). Não vos haveis de que os alimentos requentados em demasia despertam aversão aos mais gulosos, e de que as comidas e remexidas nas velhas panelas de barro e com os mesmos condimentos,  acabam saturando os mais pacientes paladares? Cada século possui a sua linguagem, os seus apetites, os seus sonhos, os seus problemas. Vós parastes o relógio da História no século XlV e continuais a servir uma sempiterna sopa aos dóceis candidatos ao sacerdócio, sem dar atenção  aos cristãos que estão fora das portas claustrais e que já agora estão habituados a acepipes mais apetitosos e saborosos (. . .). Essa inapetência obstinada, que já dura alguns séculos, será devida somente ao gosto pervertido e gasto de dos leitores modernos ou, também, se não mais, à vossa fastidiosa mediocridade de capciosos repetidores? Se entre vós existisse uma estrela de primeira grandeza, bem elevada sobre a horizonte, todos a veriam e a procurariam.  Mas não passais de círios mortiços que a grande custo iluminam as trevas dos oratórios. Os antigos e majestosos "in fólios" dos teólogos dormem um poeirento sono entre almofadas de pergaminho e pele, nas estantes carcomidas das bibliotecas, onde de raro em raro os leigos vão despertá-los. As obras dos teólogos modernos são prontuários para uso interno dos clérigos, ou áridos tratados (. . .).

Mas pode a ciência de Deus, se quer reconquistar o afeto dos desatentos e dos desviados, permanecer sempre sobre as fundamentos e nas portinholas do século XIII? Não poderá também a teologia, como todas as ciências, apresentar avanços e progressos? O próprio S. Tomás de Aquino não pareceu revolucionário em seu tempo, a ponto de suscitar oposições e provocar condenações?(....).

"Existem, ainda, nas Escrituras, revelações  maravilhosas que se poderiam mais amorosamente desvelar (. . .). Não é verdade que tudo tenha sido dito e que tenhamos de ser porta-vozes dos mortas. Cada século avança no caminho do espírito e possivelmente se verá, no futuro, uma teologia de fulgor tão brilhante (. . .) que, a por nós herdada, não obstante a sua admirável arquitetura, parecerá, aos venturosos cristãos da futuro, pouco mais que um esboço, isto é, julgá-la-ão como os titãs da escolástica julgaram as primeiros sistemas doutrinários dos Pais da Igreja. O gênero humano e o povo cristão foram educadas por graduações e por isso quem ousará estabelecer confins de tempo aos designos divinos e aos esforços humanos? Espero com fé uma outra idade de ouro da nossa ciência: novas iluminações de santos, novas intuições de poetas, novas interpretações de doutores farão a teologia, como em tempos de antanho a dominadora dos espíritos superiores (. . . ).

Mas, é necessário que vos afasteis, teólogos, das batidas estradas da repetição, da mecanicidade silogística, da pedantismo verbalistíco e formalístico que tresanda demasiado a ranço, e mofo às narinas modernas (. .).

Saí algumas vezes ao ar livre (. . .), não desdenheis de aprender alguma coisa com os não-teólogos (. . .). Hoje que estais bocejando no mar morto da indiferença e da monotonia, exorto-vos a ousar (. . .). Nas palavras da revelação podem-se encontrar novos sentidos, possivelmente mais profundos do que os que já se encontraram; aos dogmas, a esses dogmas pode-se chegar por novas vias, anda mais firmes do que as das velhas estradas.

(. . .) dos homens de estudo e de engenho dependem sempre, em  última instância, as opiniões e os pendores das multidões. Se conseguirdes reconquistar as aristocracias do espírita, vereis, logo depois, que os povos as seguirão" (. . . .).

"Bastaria uma inspiração audaz e feliz para fazer convergir de todas os lados os sequiosos. Muitos têm  sede hoje (. . . .)”.

                                                       *****

Assim falou Papini. Transcrevemos-lhe as palavras apenas porque, ditas por ele, catolicíssimo, encontram, receptividade na Itália, enquanto ditas por nós, seriam condenadas como heresia. Embora este livro, por necessidades editoriais, deva vir a público primeiro em português, no Brasil, da que em italiano, na Itália foi ele todavia, escrito jia Itália, levando em consideração es diretrizes do pensamento europeu, que não são idênticas às brasileiras  Levou-se, assim, em linha de conta, sobretudo a pensamento católico  Foram-lhe, todavia, acrescentadas algumas páginas no Brasil, para que com  imparcialidade e universalidade, se colocasse também  diante da pensamento  espiritualista e espírita.

Com respeito a este último, podemos afirmar, aos que temam que este livro fuja ao seu ponto de vista estritamente ortodoxo, que ele pode constituir uma das maiores provas da reencarnação. Realmente o sistema aqui exposto admite e prova que houve uma criação única de Espíritos. Estes, justamente por motivo da queda (primeiro, através da fase de descida – involução – e depois, no decurso da fase de subida – evolução), devem, sempre os mesmos filhos da criação única, infindas vezes reencarnar-se na matéria, que é filha da queda, para espiritualizá-la novamente, através das provas e da dor, para que tudo retorne e reintegre em Deus.

Uma grande vida eterna, qual foi na origem, fragmentada na queda em inúmeras vidas e mortes sucessivas na matéria, é elemento necessário e fundamental do sistema, é a imprescindível condição do processo evolutivo.

O sistema é todo sustentado pela ideia reencarnacionista, que tão firme se abriga no coração dos espiritistas. Esta teoria encontra aqui, mesmo quando explicitamente nela não se fala, uma confirmação, uma prova, uma demonstração. Sem ela, cairia o sistema exposto neste volume, como cairia A Grande Síntese e também toda a obra

E se o leitor encontrar aqui conceitos que não são os habitualmente repetidos, recordará que sobre o problema teológico propriamente dito a Doutrina Espírita ainda não pronunciou em definitivo, pois é uma doutrina em desenvolvimento, aberta sempre a novos aperfeiçoamentos que a amadurecem e a fazem evoluir sempre mais.

                                                          ******

Na noite de 9 de maio de 1932 eu registrava. por via da inspiração, uma mensagem particular para Mussolini. que lhe foi entregue na tarde de 5 de outubro do mesmo ano. Ele a leu e agradeceu, através de autoridades governamentais. Tudo está documentado, mesmo na imprensa.  Eis algumas frases da mensagem:  "(. . .) trata-se de ajudar o nascimento do humanidade nova, que surgirá do convulsão do mundo (. . . ). Evita, com todas as tuas forças, qualquer guerra. Não há razão humana que passa justificar hoje uma guerra que, com os hodiernos meios de destruição, significaria uma tal catástrofe que poderia assinalar a fim da civilização europeia, através da invasão asiática e impeliria, enfim, a civilização a emigrar, depois de tremendas cataclismos, para as Américas (. . .)

Outras mensagens, depois transmitidas, diziam, entre outras coisas, o que se segue:

(. . . ) o momento histórico está maduro para grandes acontecimentos (. . .), o momento histórico chegou, porque hoje fala a dor. O momento histórica é grave, porque a dor falará ainda tremendamente, como jamais falou (. . .).  A civilização europeia, que é civilização cristã, ameaça ruir-se (. . .). A presente tranquilidade, operante, é a calma que precede as grandes tempestades (. . .). O mundo  hoje joga tudo e por tudo".

Estava-se assim em 1932,  bem distante  dos condições mundiais que somente hoje começamos a ver claramente  e que nessa ocasião foram previstas com exatidão. Para quem tem olhos para enxergar, o plano de Deus é evidente. É vontade Sua que no ano dois mil deva surgir  uma nova civilização do espírito, em que o    Seu Evangelho seja vivido seriamente, a fim de que Crista não se tenha sacrificado em vão  E esta hora chegou, já anunciada há vinte anos pelo que foi mencionada  e por outras mensagens já publicadas.

Pode-se atingir esta meta por duas vias: corrigir-se espontaneamente, pela mudança de psicologia, inteiramente integrada no amor evangélico, ou então continuar a trajetória iniciada, com uma guerra que poderá destruir o hemisfério norte e a sua civilização. Em qualquer caso, o plano de Deus se realiza. No primeiro, por compreensão  rápida de seres inteligentes; no segundo por compreensão  lenta dos seres involuídos, através da dor que sabe fazer compreender por todos.

A humanidade padece a doença do materialismo e agora caminha para a mesa cirúrgica. No ano dois mil, Deus terá completado a operação. A bomba atômica será instrumento de liquidação da civilização materialista que a produziu. A destruição bélica, se essa for a via que o mundo escolher, será a obra de Satanás, que terá a incumbência, assim como a traição de Judas preparou a redenção, de preparar a nova civilização do espírito. E a hora chegou, e a fim de que a humanidade, com o terceiro Milênio, entre no seu terceiro dia, aquele em que Cristo ressuscitou. Cristo que afirmou que reconstruiria o Templo em três dias. Assim a velha civilização materialista deve ceder lugar uma nova civilização do tipo oposto.

Desta forma, se a humanidade não for suficientemente inteligente para compreender, será a própria guerra que, destruindo um pouco de tudo, lhe ensinará que ela não constitui o meio adequado para resolver os problemas. Esta será a maior descoberta do século. O tipo biológico condutor de exércitos, o ideal nietzscheano do homem da força, cada vez mais desacreditado hoje, já surge como um tipo falido e uma nova guerra o sepultará definitivamente no reino passado do involuído feroz. O novo homem de comando, assim como a classe dirigente, deverá ser cada vez menos guerreiro e cada vez mais inteligente, até à plena espiritualidade.

Neste momento histórico, nasce o presente volume, terminado na Páscoa de 1951, logo após os dois volumes: Problemas do Futuro e Ascensões Humanas, completados na Páscoa de 1950. Estamos nos dois primeiros anos da segunda metade do nosso século, no qual se decidirá a sorte do mundo para o futuro milênio. É neste momento que a A Grande Síntese é ampliada e aperfeiçoada até o terreno teológico. E, após ter atingido, nos dois volumes acima mencionados, a solução de problemas parciais, mais próximos a nós, aqui é oferecida a solução dos problemas máximos, de modo que se lance luz sobre tudo, já que o mundo deverá prestes seguir nova orientação e necessita, assim, de um modo absoluto, de novas e completas concepções, por meio das quais possa avançar. Para isto é indispensável um sistema de conhecimentos que resolva e esgote todos os problemas até os fundamentos. Para que se possa ter uma orientação até à realidade da vida, é, pois, necessário também resolver os problemas últimos, reservados à Teologia, hoje negligenciados como inúteis pelos espíritos adormecidos no materialismo.

Na introdução do livro Problemas do Futuro, explicamos que a terceira trilogia, da qual este volume, o décimo, constitui o segundo termo, é a trilogia da sublimação, quanto a primeira trilogia foi a da explosão e a segunda, a da assimilação. Assim após o primeiro momento de simples espontaneidade inspirativa, superado o segundo, de introversão reflexa, assistimos aqui agora, ao desenvolvimento do terceiro momento em que, por meio de uma maturação cada vez maior, os motivos da primeira trilogia são retomados, desenvolvidos e potencializados em uma compreensão crescentemente profunda, elaboração pela qual eles se completam e consolidam definitivamente. É assim que o volume. Problemas do Futuro, retoma e aperfeiçoa a parte inicial, filosófica-cientifica de A Grande Síntese, enquanto o volume seguinte. Ascensões Humanas retoma e aperfeiçoa o problema social, biológico e místico, desenvolvendo teses apenas acenadas em A Grande Síntese. Mas, a fim de que o plano do conhecimento desenvolvido em toda a Obra pudesse ser executado, urgia completar a concepção de A Grande Síntese que encara o universo em função do homem, enquadrando-a em uma concepção ainda mais vasta, que encara o universo em função  de Deus. Se esse livro nas dizia coma é construído a universo, era necessário explicar por que ele é assim construído a não de outro modo. Era indispensável contemplá-la não mais apenas em relação ao homem, mas em relação aos fins supremos da Criação  Impunha-se ultrapassar os confins de nosso universo para imergir no pensamento de Deus transcendente. Que está além de toda a Sua Criação, por nós contemplada. Era imprescindível alcançar a solução dos problemas últimos, diante da qual a mente deve conter-se saciada e assim ascender até à fonte de tudo, às causas primeiras de que tudo deriva. Para tocar o extrema limite do conhecimento, era forçoso subir até o plano teológico, de modo que a visão de A Grande Síntese assim fosse compreendida e colocada no seu justo lugar, na mais vasta visão de Deus e Universo. O primeiro livro parte da Gênese para alcançar o homem, no segundo se contempla o pensamento  e a abra de Deus, mesmo antes da Gênese e se atinge o solução última do problema da ser até as confins do espaço e do tempo, onde a Criação terá atingido as suas metas.

Tudo isto confirma o caráter continuamente ascensional de toda a Obra, que agora supera as últimas etapas da sublimação. O próprio método de recepção se faz mais completo e profundo e a intuição  conceptual e inspirativa torna-se visão orgânico que resolve os últimas problemas da ser nos braços de Deus.  Mas, nestas primeiras etapas da terceira trilogia, da sublimação, quer, antes, no terreno científico, como depois, no teológico, a ascensão, assim retomada, mantém-se sempre no plano racional.  Que forma tomará ele no terceiro volume, última desta terceira trilogia? A visão se lançará ainda freneticamente para frente, perdendo qualquer contato com a forma mental humana? Tratar-se-á, então, não mais de sublimação racional, de intelecto, mas de sublimação mística, de um incêndio do sentimento? Será possível levar ainda mais adiante os assomos deste, surgidas nos volumes precedentes? Não sabemos anda se a maturação  poderá alcançar novas cimos.  Mas, sem ter atingido e transposto estes, como poderemos chegar ao último vértice: - Cristo? Não podamos saber porque ainda não vivemos essas maturações. Mas, é certo que as trajetórias já estão traçadas, tanto na vida do indivíduo, como no do mundo, tudo devendo prosseguir e amadurecer. O tempo assinala, com o seu inexorável ritmo, o desenvolvimento dos destinos.

Assim, esta grande tarefa encaminha-se para o seu término. Encontramo-nos nos últimos registros sempre mais altos, sempre mais distantes do inferno terrestre. Superando sozinho montanhas de obstáculos, consumiu-se uma vida, mas amadureceu uma alma. Martírio de um homem, mas que se enxerta no martírio da mundo, porque  una é a lei para todos: se quisermos redimir-nos não resta senão a Cruz de Cristo. E hoje, queira ou não, também a humanidade nela está pregada para a sua redenção. Cristo fez a sua parte. Agora toca-nos fazer o nossa  Acima de todas as tempestades, impassível. Deus observa e aguarda.  A grande força da Evangelho está no fato de que ele jamais é superado: pertence ao futuro e, por isso, não envelhece  Está na fato de que ele constitui um ponto de chegada e não de partida

Frequentemente, é necessária toda uma geração para compreender um livro. A Grande Síntese só começará a ser compreendida pelo mundo depois de vinte anos. Somente uma nova geração compreenderá toda esta Obra. Entrementes, resta a quem  a escreveu  o ultimo encargo conclusivo de acompanhar sua difusão no mundo. Depois, após a longa e exaustiva jornada, o repouso em Deus. Mas, somente assim, vivendo para o bem, vale a pena viver.

Agora que a ciclo volve ao seu fim, podemos ver que tudo se desenvolveu  com  a calma das coisas pré-ordenadas por uma vontade superior, segundo um plano em que cada momento está no seu lugar, na sua justa posição, ainda quando se defronta com obstáculos e quedas. Estas três trilogias se desenvolvam, assim, segundo o o ritmo  de um esquema muito mais  vasto: o dos três dias após os quais Cristo ressurgiu  e o desenvolvimento da Sua ideia nos milênios.

A primeira trilogia, explosiva, corresponde, pois, à  primeira fase do cristianismo que avança no ímpeto de fé dos  mártires. (As próprias "Mensagens Espirituais", com que se inicia a Obra, surgem! nos primeiros três anos que vão do Natal de 1931 à Páscoa de 1933, e continua com  a XIX Centenário da morte de Cristo.  Depois a igreja se consolida na Terra, após três séculos da perseguições, com o ato da Constantino e o decorrente reconhecimento oficial, da mesma forma que a A Grande Síntese, logo após as Mensagens, lança os bases cientificas do sistema, partindo da matéria. Tudo isso no princípio da primeira trilogia, como do primeiro milênio.

A segunda trilogia, a da reflexão e da assimilação,  representa o segundo milênio, em que a ideia de Cristo é racionalmente desenvolvida pelos pensadores, assimilada em parte pelos povos, incorporada aos hábitos e instituições. Mas, Cristo ainda dorme no sepulcro.

A terceira trilogia é da sublimação e ressurreição no espírito. Cristo ressurge. No terceiro dia o templo é reconstruído. Na terceiro milênio começa a atuação do Evangelho, até agora à espera, no vida coletiva.  Avizinha-se o  pré-anunciado Reino de Deus  Entramos lia fase da luz e do triunfo. Assim, no terceiro milênio, o mundo se unificará em um  só rebanho sob um só pastor: Cristo.

Não há dúvida da que é estranha esta impensada coincidência, seguramente não preparada, pela qual este ritmo de três elementos se repete e retorna do período trienal das Mensagens (fase preparatória), para estas três trilogias da Obra; do ritmo da ressurreição no terceiro dia e reconstrução do templo, ao dos três milênios  em que o Cristianismo se afirma: primeiro na matéria, segundo na razão, terceiro no espírito. Dante também se fundiu neste ritmo, na Divina Comédia. E a terceira trilogia nasce na Páscoa da Ressurreição de 1950, ano santo, centro do século, e se orienta para Cristo. Mas toda a Obra não passa de um  anúncio e de uma preparação, porque na alvorada do terceiro milênio Cristo romperá a pedra do sepulcro e ressurgirá triunfante. E a humanidade  ressurgirá com Ele.

Gubbio, Páscoa de 1951.

Desçamos das alturas do capítulo precedente para um terreno mais vizinho nosso, do qual poderemos melhor compreender-lhe a estrutura se a virmos à luz dos fatos mais elevados, acima descritos. Queremos agora focalizar a nossa atenção no fenômeno inspirativo que, assim visto, se tornará mais inteligível. Só agora, depois de tais preliminares, estamos em condições de aprofundar e resolver tão árduo problema. Em geral é inútil examinar uma questão isoladamente, porque ela permanece insolúvel se não for antes orientada no todo e precedida da solução dos problemas fundamentais do ser.

O fenômeno inspirativo diz respeito às relações entre o "eu" individual e o "eu" cósmico, entre a alma e Deus. No Cap. XV "A procura de Deus", vimos como a evolução é um processo de desmaterialização ou espiritualização que percebemos como um fenômeno de nossa sensibilização: liberação da forma física, conquista de mobilidade e de consciência, revelação do Divino que em nós jaz latente. É a via do retorno a Deus, a que chamamos sublimação. A todos estes conceitos, aqui já desenvolvidos, está conexo o fenômeno inspirativo e é em função deles que devemos observá-lo. Ele aí está enquadrado como inserido no fenômeno da sublimação, da mesma forma que este no início do Cap. XI: "A caminho da sublimação", foi enquadrado no esquema do universo. A inspiração surge-nos, então, como um caso de evolução, estreitamente conexo com a catarse biológica da sublimação; aparece-nos como um fenômeno ligado à ascese moral, ao movimento centrípeto do espírito para o Centro-Deus, ao misticismo. De modo que podemos dizer que o fenômeno inspirativo não passa de um momento ou aspecto de tudo isto e que só pode ser compreensível em função da sublimação mística. Ele faz parte do despertar da consciência e do retorno da alma a Deus.

Esta nossa colocação do fenômeno destaca-o definitivamente dos símiles com os quais ele foi por outros até agora confundido, pelo menos em nosso caso. Ele nada tem em comum com a mediunidade física e nem tampouco com a comum ultrafania, em que o ser é instrumento passivo. Em nosso caso, na sua fase atual, não se é mais inconsciente aparelho registrador de algum conceito, ainda que ele provenha dos mais elevados planos do pensamento, mas se trata de um processo inteiramente diverso. O sujeito registra por si, com os próprios meios intelectivos, visões que ele atinge justamente através do processo de espiritualização ou sublimação mística ou catarse biológica a que nos referimos acima. Então o despertar dos profundos estados de consciência, antes latentes e adormecidos no inconsciente, como se dá para a maioria, leva o eu a pôr-se desperto em dimensões conceptuais superiores, menos periféricas e mais centrais no sistema. Desta forma ele vem a encontrar-se como que mais iluminado do que normalmente pelo pensamento de Deus, do qual assim pode perceber e ilustrar aspectos novos e inéditos, ainda ignorados do homem. Por este modo o sujeito pode contemplar, em visões sucessivas, a estrutura e o funcionamento do grande organismo do universo, segundo esse pensamento; pode, em outras palavras, "sentir" a Lei. Estranho modo de explorar o ignoto! Método aqui regularmente usado, que está nos antípodas do método objetivo e experimental da ciência, método que até agora nos forneceu, para qualquer problema, aquela orientação geral que a ciência com os seus meios não poderá atingir. Mas é dos princípios gerais e da essência de nosso caso e do fenômeno da intuição que aqui queremos falar, e não do seu aspecto contingente, que já foi contemplado na introdução do volume: Problemas do Futuro.

O fenômeno inspirativo apresenta-se-nos, pois, composto de tais elementos morais e espirituais, que a ciência moderna é incompetente para julgá-lo, já que ela ignora esses elementos nas suas observações. A ciência da matéria não pode admitir nem compreender a do espírito. Ela só se ocupa de especiais fins imediatos, sem cogitar se a consecução destes é depois um bem ou um mal para o progresso da humanidade. Não trabalha, assim, pelo fim supremo para o qual trabalha a vida, que é a evolução Em face da convergência de todo o criado com o fim de ascender a Deus, a ciência permanece agnóstica, o que significa sem orientação, porque não compreendeu qual é a meta de todas as atividades do ser. No fenômeno inspirativo culmina, ao invés, o movimento da vida, na catarse biológica da sublimação mística, a operar uma das suas maiores criações. Para julgar tais fenômenos de alma, não bastam os meios técnicos ou matemáticos, mas é indispensável um instrumento de igual natureza do fenômeno. O espírito não se pode aquilatar senão pelo espírito. Para controlar um fenômeno de sublimação mística, como é o da inspiração, seria necessário um santo, único competente na matéria, porque só ele conseguiu atingir aquele grau de purificação e, por conseguinte, de sensibilização imprescindível para poder perceber e medir as qualidades espirituais.

Dissemos aqui acima que o fenômeno inspirativo diz respeito às relações entre o "eu" individual e o "eu" cósmico e no Cap. XV: "À procura de Deus", esclarecemos que o grau de proximidade entre uma alma e Deus é dado pelo grau de afinidade de vibrações, conseguido em relação a Ele, isto é, de consonância ou sintonização. Ora, a inspiração exprime a comunicação exatamente por consonância, que é uma sintonização pelo despertar em nós daquele estado cinético da vida que, embora originário, se congelou na inconsciência (não vibração), com a queda ou desmoronamento do sistema. Em outros termos, a inspiração é um despertar consciente na profundeza em que está Deus. Então se atinge a sintonização e esta é a base das visões que nos revelam os grandes esquemas do pensamento divino. A visão é, pois, um problema de aproximação qualitativa. Eis a extrema importância do aperfeiçoamento moral, da purificação. Falamos aqui do fenômeno inspirativo justamente em relação com o problema central da III trilogia: a sublimação.

Mas esse fenômeno pode ser observado também sob outros aspectos. O "eu" individual aproxima-se do conhecimento do pensamento do "eu" cósmico pelo fenômeno inspirativo, justamente porque a evolução pode conceber-se também como uma expansão do primeiro no segundo. Esse despertar de zonas interiores da consciência pode dar um sentido de expansão, de uma dilatação do "eu" individual no "eu" universal. Quando, assim, o espírito do indivíduo mais se harmoniza com a Lei, isto é, sintoniza-se e entra em consonância com a vontade de Deus, então tanto mais ele participa do pensamento da Lei, Quanto mais a alma se abre e tanto mais ela é inundada pela luz que o Centro irradia sobre todo o sistema. Conseguir sintonizar cada vez mais, pode significar também ascender em direção centrípeta, da periferia para o centro. Eis as múltiplas vias que levam à inspiração. Em outras palavras, pode-se dizer que o super consciente é mobilizado, ou seja, que é posto em estado cinético (consciente) ou vibratório o consciente universal, que é Deus imanente, adormecido no profundo de nosso espírito e cujo despertar constitui a evolução, que nos reconduz a Ele como meta. E, então, deste ponto de vista, o fenômeno inspirativo nos aparece como uma expansão ilimitada do pequeno consciente individual, no infinito consciente universal. E uma superação de limites, no que consiste todo fenômeno evolutivo; é um desembocar na forma-prisão, na infinita liberdade do espírito. O fenômeno inspirativo pode então definir-se como: "o fenômeno da catarse biológica ou espiritualização ou sublimação mística, visto no seu aspecto consciência".

Ora, nem todos os fenômenos inspirativos são iguais, justamente porque eles constituem um índice do grau evolutivo atingido individualmente, porque o limite do consciente individual ou forma-prisão se desfaz e a sua dilatação no consciente universal se dá apenas na proporção da potência que o "eu" reconquistou por evolução e esta é dada pelo grau de consonância conseguido em relação a Deus, centro de vida. Mas, se na verdade os vários fenômenos inspirativos são diferentes, contudo idênticos são o seu princípio e técnica, e todos são um momento do universal fenômeno da evolução. Por aqui se vê que profundas raízes na vida, mesmo nos seus planos superiores, tem o fenômeno inspirativo.

É natural, então, pela sua estrutura, que a inspiração pode representar um precioso método de indagação, ainda que a ciência não o aceite, precioso porque ele pode revelar-nos qualquer coisa que não está no consciente individual, algo que nos permite ultrapassar os limites deste, que é, todavia, axiomaticamente colocado como medida de todas as coisas. Poder atingir o consciente cósmico, que para o homem está habitualmente sepultado no inconsciente e representa, pois, um inatingível mistério; apanhar-lhe, até onde é possível, à conteúdo por inspiração e traduzi-lo em forma racional, acessível a todos, tudo isto pode assemelhar-se a explorações efetuadas nas profundezas abissais dos mares ou na estratosfera. E não é possível saber jamais o que isto poderá revelar-nos.

Aliás, as instituições do gênio, os produtos da arte, as descobertas do cientista, quando representam uma desenvoltura do pensamento no sentido da sua orientação original, constituem sempre algo atingido, não no consciente individual humano, mas no consciente cósmico que está naquele latente, em estado de inconsciência. Efetivamente, quem alcança tudo isto por inspiração tem sensação de defrontar-se com um pensamento de estrutura e dimensão diversas da normal, com um pensamento que não se apresenta por sucessão lógica, mas por instantaneidade, como se estivesse além da nossa dimensão tempo, limite que aqui é superado. O "eu", então, na inspiração não concebe mais sucessivamente, em encadeamento conclusivo, como ao longo de uma linha, ainda que livre de mover-se na superfície, mas no lampejo de um conjunto, como que encontrando-se no interior de uma massa de conceitos que à envolvem por todos os lados ao mesmo tempo. E assim, para traduzi-los em termos racionais, ele tem de passar da dimensão volumétrica à linha e exprimir-se consecutivamente. Para reconstruir o pensamento deste volume na sua primeira fase inspirativa, o leitor teria que imaginá-lo reduzido a um relâmpago instantâneo, que iluminassem um globo dentro do qual, contemporaneamente, está escrito e se lê todo o volume.

Nestas condições, querer indagar, refletir, concatenar, controlar, é impossível. Devemos limitar-nos a observar e registrar. Levados os produtos do superconsciente para o consciente? Teremos feito o mesmo trabalho que executa o cientista que carrega os frutos das suas explorações abismais ou estratosféricas para o seu laboratório. Só neste poderá começar a analisá-los. Por isso, não podemos oferecer senão sínteses. Incumbe, depois, ao pensador racional, controlar com os seus processos lógicos e experimentais esses produtos. Então, só então, podem intervir as faculdades humanas de vontade e atenção, que na inspiração, inversamente, possuem poderes negativos, inibidores.

A esta altura podemos compreender a diferença entre o intuitivo e o homem positivo de ciência. Este último, sobretudo quando é matemático, procede encerrado em uma férrea lógica e não concebe e admite senão o que pode ser aferido pelos meios exatos de mensuração e demonstração. Mas nem todo o universo é suscetível de reduzir-se aos termos dados por esta forma mental. Existem e valem também as ideias vagas inaferráveis como a névoa em formação, que se nos escapam para o superconcebível, que não se podem ainda reduzir e fixar em medidas exatas e fórmulas definitivas E é este estado intuitivo e fluido da concepção a primeira fase da construção conceptual, mesmo para o cientista ou matemático. Todavia, pela sua forma mental, tudo nos pode parecer mais visão de artista do que de cientista. Só assim posso explicar-me o juízo emitido por Einstein em sua última carta, a respeito do meu volume de caráter científico: Problemas do Futuro: "The danger in such philosophical entreprises is that the word becomes dissociated form te world of experience, so that the whole structure impresses me more as an independent work of art than as an intellectual interpretation of something else".(O perigo desse tipo de reflexão filosófica é que a palavra se torna dissociada do campo cientifico, de forma que todo o seu conteúdo me dá a impressão de um trabalho independente, mais de arte do que uma interpretação intelectual de alguma coisa mais).

A este propósito poder-se-ia observar que o trabalho inspirativo, além de ser o mais livre e independente da vontade, é também o menos exaustivo. Ele fatiga muito menos do que o trabalho consciente, obrigado ou espontâneo. No primeiro caso, somos como que rebocados pelo próprio trabalho, que nos arrasta para onde quer. No segundo, temos de querer, impor-nos, afadigar-nos. Poder-se-ia concluir daí que, para não nos cansarmos, bastaria que trabalhássemos com o subconsciente, isto é, no campo do consciente adquirindo (ideias inatas), por automatismos. E é verdade, mas o problema consiste em possuir um subconsciente que saiba trabalhar em um plano digno. Todos sabem trabalhar com o subconsciente, mas ele é uma sobrevivência limitada e atávica de animalidade e não um amplo despertar interior, pelo qual o "eu" pode atingir o pensamento cósmico. Geralmente se confunde no próprio inconsciente, fora da consciência normal, o subconsciente revivido do passado com o superconsciente, antecipação do futuro. Só este é um despertar consciente na profundeza em que está Deus. Todos sabem trabalhar sem fadiga com os meios da primeira espécie de inconsciente. Não é a ele que está confiado o nosso funcionamento orgânico? Quanta gente, ademais, utiliza,, sem esforço algum, tal patrimônio adquirido, nos atos instintivos da vida, que todos sabem fazer sem mestre! Assim, diariamente, todos praticam um sem-número de atos, que constituem também uma forma de atividade, gratuitamente. Mas para poder trabalhar sem fadiga com os recursos do inconsciente, é necessário possuí-los, tê-los conseguido antes com o esforço da aquisição. E ter adquirido tais recursos significa ter construído qualidades. Ora, esse difícil trabalho só pode executar, com esforço e tenacidade o consciente, introduzindo com a sua ordem no subconsciente e aí fixando pela repetição, hábitos novos, até que eles sejam assimilados como automatismos. Educar, transformar um subconsciente que resume, em si impressos, impulsos atávicos consolidados por experiência milenária e oriundos da animalidade, não é fácil. Para alguns seres mais evoluídos, como os santos, isto representou uma luta violenta e terrível. Por certo, no fundo de nós está Deus, mas quem sabe despertar nessa profundidade, onde tudo jaz imerso em um sono profundo? É inútil, pois, dizer que poderemos poupar-nos o esforço do trabalho, confiando-nos ao nosso inconsciente. A maioria tem de lavrar, contrariamente, no consciente, isto é, nas zonas de aquisição dos novos instintos - zona de vontade e de esforço - as qualidades e ideias inatas. Não se podem usufruir os frutos do despertar interior, senão fazendo preliminarmente o esforço de provocar semelhante despertar.

Agora que compreendemos, com a conclusão "Tu habitas in me", que Deus é interior e não exterior a nós, poderemos atinar com o que se deve entender por fonte inspirativa. No volume As Noúres, a imaginamos como um transmissor, do qual o indivíduo era um receptor. Mas após o caminho percorrido até aqui podemos ser bem mais precisos.

Temos falado nos capítulos precedentes da interioridade do Deus imanente, que se encontra também em nós. E, pois, para esta interioridade que a inspiração se dirige: a entidade transmissora é espírito e o espírito se alcança sempre andando para o interior da forma física, que constitui a periferia, o seu revestimento externo. Vimos também que as características da personalidade, do "Eu-Centro-Uno", são encontradas no aspecto transcendente de Deus, em que Ele é centro de tudo, e que as opostas características da impersonalidade são encontradas no polo oposto do ser, no aspecto imanente de Deus, em que o Uno se pulverizou em infinitos "eu" menores.

Eis o que então sucede ao nosso "eu" humano. Se na verdade ele é pessoal relativamente ao seu pequeno "eu próprio, no mundo em que está imerso, na periferia do sistema, ele contudo representa a pulverização do Uno, uma centelha de Deus. Quando, pois, o nosso "eu", pelo ato inspirativo, se dirige para o centro, ele se desloca para o aspecto transcendente e pessoal de Deus. Ora, esse centro, para ele que é periférico, representa a reunificação, isto é, a reabsorção no Uno, da sua personalidade distinta, de modo que na inspiração, o "eu" perde as suas qualidades, que como tais o distinguem e separam dos outros "eu", e cada vez mais tende a fundir-se em Deus-Uno. Assim se explica a anulação da própria personalidade na inspiração, tanto mais acentuada, quanto mais poderosa for esta, e também se compreende que todas as inspirações, embora diversas, se ligam a um único transmissor - o Centro-Deus.

Como se vê, o problema inspirativo tem as suas raízes na profundidade do Todo e não é solúvel a não ser em função do Todo. Agora podemos compreender por que nos seres elevados é difícil, e tanto mais quanto mais altos, encontrar os elementos distintivos da personalidade, como os entendemos em nosso mundo. Quanto mais se ascende para Deus, tanto mais aumentam as Suas características de personalidade (da imanência   impessoal, para a transcendência = pessoal), e tanto mais diminui a distinção, ou seja, a personalidade dos "eu" destacados. Então, pelo princípio das unidades coletivas, eles se reagrupam, formando esses "eu" cada vez mais vastos e poderosos. A essas alturas não encontramos mais "eu" isolados, que pensam separadamente, mas correntes de pensamento, Noúres, próprias de espíritos sintonizados, consonantes, o que para um espírito significa ser de igual natureza, porque o que define o espírito é o seu tipo de vibração E quem é de igual natureza coincide com os idênticos e neles se funde no mesmo "eu", como duas notas idênticas formam a mesma nota. Isto corresponde à progressiva unificação, pela qual o Uno, que se fracionara no anti-sistema, vem a reconstituir-se integralmente no sistema.

O fenômeno inspirativo, se é a expressão da sublimação no seu aspecto consciência, segue esse processo de unificação que é inerente à sublimação, culminante na união mística da alma com Deus. Então aquela expansão do pequeno consciente individual no infinito consciente cósmico - o que constitui o fenômeno inspirativo - pode ser comparada ao caso em que a consciência de uma célula isolada, consciência naturalmente limitada apenas ao seu funcionamento, pudesse ultrapassar este seu limite natural para alcançar a consciência de todo o organismo humano, do qual ela faz parte, consciência própria de um funcionamento mais amplo, e pudesse assim tornar-se mais ou menos completamente consciente também deste. Semelhantemente, no fenômeno inspirativo a consciência humana normal, naturalmente limitada às necessidades da sua vida e incapaz de compressões mais amplas do que as adstritas à satisfação das suas necessidades humanas, transpõe esse seu limite natural, para entrar no consciente cósmico, de que faz parte, apropriado a um funcionamento de tão maior envergadura, e pode assim, mais ou menos completamente, tomar conhecimento também dele. Eis o que representa o fenômeno inspirativo, nas relações entre o eu individual e o eu cósmico, entre a alma e Deus.

De tudo isto se depreende a importância que pode assumir para o progresso da humanidade e para a defesa de sua vida, uma expansão além do limite da compreensão normal e a contribuição que ela pode dar ao grande problema do conhecimento. Porque pouco conhecido e muito pouco adquirido e utilizado, a humanidade não se dá conta de que resultados esse fenômeno é capaz de oferecer na indagação do inexplorado, sobretudo no campo mais dificilmente explorável, porque mais distanciado de nosso contingente, como é o campo das grandes sínteses e das supremas abstrações dificilmente acessíveis aos meios da racionalidade comum. E a ciência é incapaz de, com seus métodos, atingir tais sínteses universais, que lhe são tão necessárias como orientação. Uma hipótese de trabalho assim orientada possui muito mais probabilidades de estar nas pegadas da verdade do que uma outra que é mera tentativa lançada ao acaso. Tudo isto é verdadeiro, pois não temos nenhum direito de acreditar que o método usado pela ciência deve ser o único e o mais apropriado para alcançar a compreensão da natureza dos fenômenos. O fato de a ciência nos ter fornecido grandes resultados utilitários, não é suficiente para dissipar a suspeita de que o domínio da experimentação somente pode mais facilmente afastar-nos do que aproximar-nos da visão da essência das coisas.

Enfim, tudo isto pode também interessar diretamente à vida. Possuir uma orientação pode ser a chave para resolver problemas, cuja solução, especialmente em dados momentos como o atual, é imposta pela evolução à humanidade como questão de vida ou de morte. A vida, no seu desenvolvimento, propõe ao ser sempre novos quesitos, e do saber responde adequadamente, pode depender a continuação ou o fim, bem como forma de continuação da existência. Algumas espécies tiveram de desaparecer por não terem sabido resolver certos problemas. O conhecimento é uma das armas mais poderosas para vencer, também no terreno biológico da luta nela vida.

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Antes de encerrar este capítulo analisemos a significação e valor do fenômeno inspirativo em face do problema do conhecimento. O homem utilizou três métodos para atingir o conhecimento: 1º) a revelação (recepção mais ou menos passiva, o fenômeno inspirativo e método da intuição); 2º) a lógica (construção abstrata por esforço mental, pura racionalidade e método analítico); 3º) a experiência (controle pela observação, realidade exterior e método sensorial).

O primeiro é o método aqui acima descrito. O segundo é o método dos processos matemáticos. O terceiro representa o único contato direto de que dispomos para alcançar a realidade. Pondo de parte, porém, o método da intuição, que é inteiramente excepcional, também com o pensamento puro pode enfrentar a realidade. O conhecimento pode derivar não somente da observação, mas também do esforço de construção lógica do puro pensamento. Mas é sempre necessário que os seus resultados sejam transportados e aprovados no plano da realidade objetiva que, embora ilusão sensória e limitada, exprime no seu plano uma verdade, ainda que relativa a ele. É necessário, em suma, controlar tudo, observando o que corresponde aos conceitos abstratos no terreno concreto. Ao contrário, as observações são depois interpretadas, correlacionadas, destiladas no essencial, pela elaboração lógica da racionalidade e, às vezes, superando a própria racionalidade. O todo, para atingir o plano abstrato da lei geral, deve ser reconcebido em lampejos pelo método da intuição. Os três métodos, sendo contíguos, podem fundir-se e auxiliar-se mutuamente.

O certo é que o experimentador jamais poderá elevar-se ao campo das puras abstrações e generalizações, onde labora o teórico, terreno quase filosófico das formulações matemáticas, no qual somente aparecem as grandes leis unitárias. Assim como numa casa de dois planos, também a teoria de Einstein da relatividade generalizada, que abrange a gravitação, se ergue desenvolvendo-a sobre a teoria da relatividade restrita. O valor de uma hipótese ou teoria está, pois, em poder abranger, com um mínimo de axiomas, um máximo de conteúdo experimental. Sobe-se, assim, do analítico e particular para o sempre mais sintético e universal, até que, da mesma forma que a experiência deva ceder lugar à racionalidade, esta deve cedê-lo à intuição, se ainda quiser subir mais para o sintético e universal. Quanto mais se sobe, porém, tanto mais se ganha em vastidão, e tanto mais se perde em segurança experimental na abstração; mais se desce na realidade concreta, tanto mais se restringe o campo das nossas conclusões.

Os dois caminhos são inversos: o primeiro vai da periferia ao centro do sistema universal, para o absoluto; o segundo vai do centro para a periferia, para o relativo. O primeiro, certamente caminha para a verdade; o segundo, para a ilusão. Mas a verdade, ao se subir, vai-se-nos escapando, torna-se vaga, abstrata, incontrolável, perdendo para nós, relativos que somos, a força da verdade. Ao se descer, ela se torna mais palpável, mais concreta, digamos, mais verdadeira, ao mesmo tempo que nos encerramos mais no limite do contingente e na ilusão do sensório. Somos desta forma, circundados por barreiras que nos obstaculam o conhecimento por todos os lados. Nada mais nos resta do que valer-nos dos três métodos, procurando acordar entre eles os resultados obtidos com cada um e fazendo com que cada qual forneça a contribuição de que é capaz, ou seja: 1º) as diretrizes máximas da ordem universal, pelo método intuitivo; 2º) a coordenação das observações e as diretrizes menores, como uma ponte entre o primeiro e o terceiro, pelo método racional analítico; 3º) o controle do resultado dos outros dois, pelo experimental.

É  certo que o governo do universo, a inteligência e o poder que assumem a direção do funcionamento deste grande organismo ou coletividade, não é exterior como o governo das nossas coletividades estatais, mas está no interior dos seres ou fenômenos, de onde os guia. É  indiscutível que o essencial, o que mais vale para o conhecimento é o abstrato, dado que a assim chamada realidade objetiva é superficial e secundária. A verdadeira realidade não é exterior, mas interior e tanto mais verdadeira e real se torna; quanto mais interior, quanto mais se distancia da solidez do concreto. A chave dos mistérios está na abstração das grandes sínteses, e não pode ser encontrada senão pela intuição. Assim, pois, os três métodos se escalonam em três níveis diversos, como três graus do conhecimento, com funções e resultados diferentes. Cada um necessita ficar no seu plano para fornecer, segundo a sua natureza e potencialidade, o rendimento que pode dar. Eis a significação e o valor do fenômeno inspirativo em face da ciência e do problema do conhecimento.

Antes de deixar este argumento, observemos, transportando-nos para o terreno moral, um caso particular do referido fenômeno, caso que podemos chamar de voz da consciência. Fenômenos de inspiração, pode-se dizer que se verificam todas as vezes que alguém consulta o próprio "eu" profundo, para conhecer a verdade em torno da própria conduta. Dissemos, acima, que as inspirações se ligam a um centro único - Deus, e que Deus é interior e não exterior a nós. Trata-se de uma ampliação da pequena consciência individual no consciente cósmico, pelo qual o "eu" superficial, feito de contingente, isto é, a nossa consciência normal, tenta avizinhar-se do "eu" cósmico, para coincidir, o mais possível, com o pensamento e a vontade de Deus.

Eis o que deveria ser a voz da consciência: a que nos aponta a perfeita adesão à Lei de Deus. Esta é a verdade que se encontra em nossa profundidade, porque Deus está em nós. Ora, o problema é este: quem é capaz de despertar, além da superfície, em tais profundezas, quem conseguirá tornar-se consciente da verdade universal? E, assim sendo, essa sincera voz interior a qual chamamos voz da consciência, sentimos o dever de obedecê-la como a qualquer coisa de sagrado que vem de Deus. Que aproximação representa e nos dará da verdade absoluta, que está em Deus? Certamente deveremos admitir que não se pode tratar senão de aproximações maiores ou menores e elas dependem da evolução conseguida para cada qual, isto é, dependem do seu grau de sensibilização, que lhe permite vibrar em sintonização com verdades sempre mais profundas, despertando consciente no seu interior divino.

Se então observarmos em derredor de nós e atentarmos para o nível espiritual da maioria humana, devemos afirmar que, não podendo esta, dado o seu grau de involução, alcançar senão escassas aproximações da verdade, a voz da consciência não revela desta mais do que fragmentos, aspectos, pequenas verdades particularizadas, relativas a cada qual, limitadas no contingente e transitórias no tempo. Se teoricamente a voz da consciência é sagrada, porque tende a dirigir-se para o Centro - Deus, na maior parte dos casos é bem difícil que o atinja. Esta voz pode, então, ser apenas a de uma vida individual, clamando somente em sua defesa e por seus interesses. Pode mesmo ser um longínquo eco da voz de Deus, porque todos têm o direito e o dever de viver. Mas quanto estamos distanciados da universalidade do pensamento central, que protege toda a vida, mesmo com o sacrifício da vida individual, pensamento que está imensamente afastado do egoísmo exclusivista!

É assim que estas "verdades" individualizadas, particularizadas, embora sendo sinceras vozes de consciência, podem entrar em conflito íntimo, levando a que, em nome da verdade, se desencadeiem choques fratricidas, cada qual agindo em plena consciência. Bem poucos são aqueles que, no exemplo máximo de Cristo, sabem fazer coincidir a voz interior da própria consciência com a voz do consciente cósmico - Deus. A Sua voz, mesmo a que tende a fazer-se ouvir da profundidade, quando tantos a interrogam, permanece às vezes sepultada e tão longe da normal consciência desperta, que dela não resta senão um débil sussurro. Dela não nos chega senão um balbucio tão incerto e às vezes contraditório, tão tímido e fragmentário pois que somos surdos e involuídos, que mal percebemos a voz de Deus e ainda assim humanizada através de nossa consciência, que não conseguimos nem ao menos reconhecê-la é a confundimos com os nossos desejos, que qualificamos, então, como voz da consciência. E são justamente os que assim a ouvem os que mais alto gritam para melhor serem ouvidos! Daqui certa legítima desconfiança das autoridades religiosas a respeito da voz interior que, se em princípio é e deve ser sagrada, na prática pode representar apenas um genuíno produto do "eu" individual.

É difícil julgar em tais casos. Mas é certo também que, existindo almas superiores, capazes de ouvir na própria consciência a voz de Deus, isto é, uma voz que se identifica, acima do próprio egoísmo, com a vida universal, essas almas devem saber superar todas as resistências e obstáculos - que é indispensável que sejam opostos a essas exceções para prová-las - criados por uma norma estabelecida pela maioria humana, que é de involuídos. De outro lado, as autoridades religiosas, que julgam a matéria, defrontam-se com não pequenas dificuldades. É verdade que a voz da consciência é sagrada, mas se exagerarmos na liberdade, caímos na anarquia do livre exame. É também verdade que frequentemente o que denominamos de voz de consciência pode ser um puro juízo pessoal. Urge, pois, uma norma a que a consciência seja submetida e assim a sua liberdade limitada. Mas igualmente se exorbitarmos na disciplina, caímos na tirania. É lógica, pois, a atitude inicial de suspeita mantida pelas autoridades religiosas em relação a quantos se digam inspirados. A estes incumbe demonstrar, depois, através de toda a sua vida, que a voz interior não os enganou. É um controle necessário para eles mesmos. E se a voz realmente vem de Deus, ela encontrará tanta força nos fatos e sabedoria nos conceitos, que se imporá a todos, tanto ao inspirado, quanto aos juízes. E não faltam os exemplos que nos demonstram quantas vezes estes tiveram, embora tardiamente e contradizendo as suas primeiras condenações, que reconhecer a verdade da inspiração.

Escutemos a história de um homem que ouvia vozes de todos os seres e com eles conversava.

Um dia, o vento enfurecia. E esse homem lhe falou: "Cala-te, não  vês que danificas a vida? Arrancas as árvores, matas os animais, ameaças as pessoas, modera a tua corrida! Ninguém te impede de andar e, com um pouco de calma, chegarás da mesma forma ao teu objetivo, sem causar danos. Na Terra, não existis somente tu e os demais elementos. Há, também, a vida das plantas, dos animais, dos homens. Há  lugar para todos, tanto para ti como para eles, porque todos devem viver”.

Ah! o vento não podia ouvir a voz nem compreender os conceitos, não sabia responder.  Entretanto, o vento não é coisa morta. É energia, movimento, tem um corpo físico, embora gasoso, é vida. Há, na profundeza de todas as coisas, um oculto pensamento que elas ignoram e que lhes guia a existência, até nas formas mais simples das combinações químicas e movimentos atômicos. À medida que o ser sobe na escala da evolução, vai tomando pouco a pouco consciência desse pensamento.

Àquele homem sabia ouvir interiormente a voz desse pensamento, que, através do vento, como se ele falasse, lhe respondeu:

- É fatal que eu assim aja, porque fui feito assim e porque fatal é a força que me impele e arrasta. Sou a expressão  que veste essa força e outra coisa não faço, senão exprimi-la porque ela é todo o meu eu. Quando ela quer e diminui o impulso, também eu paro, tornando-me carinhosa aragem para as plantas, os animais, os homens, para tudo o que chamas vida e que desconheço. Sou surdo e cego no plano cm que falas. Não sei o que seja sentir. Para mim somente o movimento é vida. Quando me falas das experiências desses seres, não sei o que estás dizendo. Não compreendo o mal que tu lamentas que eu faça, como seja arrancar e matar.

O    homem replicou:

-  "Mas, por que não compreender?"

E a voz da vida respondeu:

- "O fato de não compreender é alguma coisa de que tens conhecimento para que fales dela, mas de que eu não tenho, pelo menos para as coisas que dizes. Só conheço o que diz respeito à minha existência; somente a ela e não às outras. E como aparentas compreender mais que eu, não entendes que não posso conhecer mais que a mim mesmo? Também tu, conquanto mais adiantado do que eu, não podes conhecer mais do que a ti mesmo.

"Vê bem: só tenho uma alma elementar, mecânica, sem direito de escolha, sem responsabilidade e sem outras coisas a que dás nomes que ignoro. Sou apenas um cálculo de forças uma fórmula dinâmica, uma férrea concatenação de causa e efeito, como dirias. Cabe a ti, que tens o que não tenho - a inteligência -  como a denominas, estudar a minha realidade, que podes penetrar em sua estrutura e significado, coisas minhas que certamente existem e das quais eu nada sei, mas a que obedeço naturalmente. Ignoro quem o saiba por mim. Apenas obedeço. À ti cabe estudar e compreender-me, porque te sou inferior, não me cabendo penetrar-te, porque me és superior. E para evitar o que chamas de males, ignoro o que dizes que eu faço, para salvar deles os seres de que me falas, compete a ti e a eles, que me sois superiores, aprenderdes a defender-vos, não só porque sabeis mais que eu, senão também porque interessa à vossa existência e não à minha usar os meios necessários de cautela. Cada um deve aprendei a sua lição, vivendo. Eu, a minha; vós, a vossa. E já que tendes a disposição mais recursos do que eu, deveis aprender coisas mais complexas e difíceis. Pareço estar na ociosidade? Se me agito sempre, é porque também tenho o meu trabalho a fazer e as forças, que são  a minha alma, devem resolver problemas e aprender soluções, transformações e equilíbrios que ignorais e que têm a sua função na harmonia do Todo em que estais e de que tenho necessidade. Tenho a minha função, que cumpro, na ordem das coisas. Não me podeis pedir mais”.

Em seguida, o vento retomou a sua corrida, que era a sua expressão de vida, e, sibilando, se elevou aos espaços.

O homem voltou-se então para uma planta que, cheia de folhas e de espinhos, havia invadido todo o espaço livre ao sol, sufocando as plantas vizinhas, e lhe disse: "Por que és assim egoísta e malvada, prejudicando os teus semelhantes vizinhos, para que tu sozinha possas viver?"

"Malvada, egoísta?" - respondeu a planta e continuou: Que significam estas palavras? E natural que eu cuide apenas da minha vida, da mesma forma que os outros só cuidam da sua. Não tenho que viver? Possuo o mesmo direito que os outros. Por que deveria preocupar-me com eles, se não se preocupam comigo? Por que evitar sufocá-los, se eles estão sempre prontos a fazer isso contra mim, em seu proveito? Se possuo os meus acúleos, é porque por mim mesma aprendi a formá-los, a fim de que os animais não me comam e mãos como as tuas não me arranquem da terra. Como poderia agir de outra forma para defender-me e para fazer-vos compreender o meu direito de viver, senão através do vosso dano, único ao qual sois sensível? Se quiser viver, esta defesa é necessária. Por minha conta tive de aprender que não me resta outro modo de viver. Tudo isto foi o que a vida, com a sua dura escola, me constrange a aprender e tu sabes que todo ser deve aprender a sua lição.

O    homem acrescentou: "Mas, por que não procuras compreender, além da tua vida, também a vida dos teus semelhantes, para que haja lugar para todos e todos possam viver?"

E a voz da vida, respondeu: "Mas, compreenderão porventura, os outros a minha? Somos inimigos, rivais. O lugar ao sol existe para os vencedores. A vida certamente se defende, mas através do meu trabalho, pois devo aprender a vencer por mim mesma. Essa é a lição que a vida me impõe. Não existem em meu mundo o que chamas piedade e bondade. Há somente a férrea justiça do mais forte. Este é o melhor entre os de seu nível, sendo justo que ele vença. Se me transportares para um ambiente protegido, então eu me domesticarei e perderei os espinhos. Mas, assim civilizada, eu me enfraqueço e, se me abandonares, morrerei. Desta forma, vês que a minha rudeza é necessária e obrigatória, pelo menos enquanto eu estiver entregue a mim mesma.  Cabe a ti, que te encontras em nível superior e possuís meios para melhor compreensão, e não a mim, fazer com que existam no mundo piedade e bondade. Executo honestamente a minha parte de trabalho no organismo universal, produzindo a síntese química da vida do mundo inorgânico. O resto exorbita ao meu labor. Cumpro assim a minha função na ordem das coisas, evidentemente no meu nível. Não me podes pedir mais.

O    homem se voltou, então, para um animal que avidamente espreitava a presa, dizendo-lhe:

- “Por que este assalto contínuo? Vós, animais, sois superiores às plantas, tendes liberdade para correr e voar, possuís olhos e ouvidos, tato e olfato, muitos sentidos e possibilidades desconhecidas pelas plantas. Por que permaneceis sob a lei feroz desta, que vos é tão inferior?"

E a voz da vida replicou:

- "Se nós somos superiores à planta, e mais coisas podemos perceber, não temos, porém, liberdade para agir. A nossa vida acumula experiências sensórias, mas não temos, como tens, as que chamas de experiências morais e espirituais. Não somos livres para escolher, devendo seguir fatalmente a lei que nos impele sempre nesse caminho, fazendo-nos agir assim. Nós nos alimentamos, procriamos, vivemos quase mecanicamente, como quer uma lei que desconhecemos. Esta é toda a nossa vida e outra não conhecemos. Que pretendes acrescentar? Esta é a nossa experimentação, é a lição que devemos aprender. Dessa forma, tudo vai bem para nós. Estando em plano mais elevado, podes viver assim. Se nos levares para vivermos contigo, poderás modificar-nos, domesticando-nos. Todavia, permanecerás sempre distante, porque não podemos seguir-te".

Em seguida, o animal fugiu em perseguição da presa. seguindo cegamente o seu instinto.

Aquele homem voltou-se, então, para um seu semelhante e lhe disse:

- "Eis finalmente um igual a mim. Resumes todos os seres com que tenho falado até agora. Tens as férreas leis físicas do vento, a sabedoria vegetativa da planta, os sentidos e o instinto do animal, além de uma qualidade nova - a tua liberdade de escolha, o mundo moral com as suas consequências. Tu, que dispões de tudo, por que não és perfeito, por que caís em culpa?"

E este lhe respondeu:

- "Caio, porque não sou perfeito. Se peco, é exatamente porque possuo uma qualidade nova. Sou livre, tenho responsabilidade e o direito de escolher".

O Animal é mecanicamente sincero na sua ferocidade e não peca, pois que não dispõe de liberdade; não compreende e não pode escolher. A sua visão não se eleva acima de sua Lei, simples, quase mecânica. Eu a domino porque vejo de mais alto, mas ele está encerrado nela. Menos sujeito a errar, é um autômato movido por uma mais profunda sabedoria, que não é sua, mas que tudo sabe. Devo aprender a manejar uma potência diversa, diretora, o que implica lutas que o animal ignora. Devo viver a Lei de Deus, não como cego instrumento constrangido por impulsos íntimos, através dos quais a Lei se faz presente, mas devo vivê-la por livre escolha para assim chegar a compreender a lógica e a bondade dessa Lei e, dessa maneira, tornar-me consciente dela. Esta é a minha experimentação e, se cada um tem a sua lição, esta e a lição que devo aprender. A Lei é única para todos, mas é diverso, segundo os planos evolutivos, o conhecimento que o ser atinge dela. Os elementos, a planta, os animais, aplicam-na em graus diversos, sem nada saber a seu respeito. Só o homem consegue conhecê-la, para livremente segui-la, depois de ter tomado consciência dela, um instrumento, espontâneo executor, porque compreendeu que só nessa ordem está o seu bem e a felicidade.

"A minha vida é dura e difícil, repleta de fadigas e esforços, de abismos que a mecânica do instinto ignora. O animal obedece cegamente, até à brutalidade, às leis da fome e do amor e não pode superá-las. O homem, mesmo sentindo-as prepotentes, como as sente o animal, tem pela superior natureza humana, possibilidade que ele não possui, de sobrepor-se-lhes e subjugá-las: pode completar a catarse biológica ignorada pelo animal, do herói, do gênio, do santo, do místico, que o conduz a um plano de vida ainda mais elevado, no qual as conhecidas  características  da animalidade são subjugadas e,  vencidas.  Se no homem ainda sobrevive a besta, já existe em germe o anjo. O homem sofre e luta justamente para desenvolver em si esse germe e tornar-se anjo. Essa é a fase evolutiva que me compete viver. Se, por isso, eu posso criar muito mais do que o animal, porque sou livre também sofrendo posso aprender muito mais do que ele, através de lições que de modo nenhum ele pode conhecer. Enquanto a sabedoria do animal consiste em aguçar os sentidos e as possibilidades físicas, e nisto está toda a expressão de sua vida, eu aguço os sentidos, os meios morais e espirituais, cuidando cada vez mais destes últimos. Quando o animal tiver conseguido ver e ouvir de mais longe, a farejar com maior delicadeza, para assim vencer com meios cada vez mal perfeitos a lula pela vida, terá assim aprendido completamente a lição.  Eu terei aprendido a minha somente quando tiver conseguido ver e ouvir com maior bondade e justiça para todos, para vencer a luta pela vida, não destruindo o meu semelhante, mas com ele coordenando-me e colaborando na ordem divina".

Então o homem que ouvia a voz da vida dirigiu-se a um anjo e lhe disse; "Õ tu bem-aventurado que vives nos céus, distante do inferno terrestre e que progrediste muito mais do que nós, por que não nos ajudas? O animal se equilibra em sua ignorância, guiando apenas pelo instinto, parecendo estático. Mas  o homem quanto mais sobe, tanto mais adquire consciência da Lei, para melhor ver que longa estrada ainda tem a palmilhar e quanto está atrasado no caminho para a meta final!".

E o anjo explicou; "Eu estou mais avançado do que tu, mas ainda muito distante da perfeição infinita de Deus. E pareço bem-aventurado e o sou de fato, relativamente ao que representa a vida na Terra. Pareço-te bem-aventurado, despreocupado de fadigas e lutas, mas também nós as temos e grandes, embora elas só visem ao bem. Justamente porque compreendo mais do que tu, meus deveres são maiores do que os teus. A fatal transformação em que consiste a existência, para nós mais vizinhos de Deus, se torna uma ascensão rápida. Vivemos mais  diretamente atingidos pelos raios divinos do Amor, não podendo viver senão para os outros. Poderemos ser felizes, mas vimos colher na Terra as vossas dores que tornamos nossas para o vosso bem, só porque assim podemos melhor sentir Deus. A nossa não é uma beatitude ociosa. Esta é a nossa experiência e, se cada qual deve ter a sua lição, esta é a lição que devemos aprender. Quanto mais subimos, tanto mais nos tornamos fortes operários, porque nos transformamos em mais poderosos instrumentos de Deus na realização do Seu plano no universo. O paraíso seria um inferno se abrigasse alegrias egoístas como as vossas. Sem um trabalho permanente, perderemos as nossas qualidades e volveremos a formas inferiores de vida. Aqui fervilha o trabalho do bem, como embaixo se agita o do mal. Aqui se respira Amor, como embaixo se respira ódio. E nós somos os canais do Amor, que recebemos de Deus, para fazê-lo descer até vós. Ele dirige a grande harmonia da vida, a imensa sinfonia do universo, da qual nós somos as notas mais altas e vos as mais baixas".

Então, o homem voltou-se para Deus e Lhe falou: "Senhor, agradeço-te me haveres dado, pelo Teu Amor, o supremo dom de existir. Tu me fizeste um "eu sou", à Tua imagem e semelhança, no seio do Teu infinito "Eu Sou". Assim, eu existo em Ti, assim eu canto uma nota na grande orquestra do Teu Universo, sou um operário, embora ínfimo da Tua obra uma célula, ainda que diminuta, do Teu grande organismo".

Enquanto assim orava, o homem volvia o olhar para todas as formas do ser e via as criaturas irmãs, hierarquicamente dispostas de acordo com os graus de evolução, cada qual em seu lugar no grande edifício da criação, cada uma com a sua função na ordem universal, cada elemento útil no grande organismo do Todo.

E a cada uma, segundo a respectiva posição, a voz da vida lhe havia falado, conforme à lei dominante no plano em que cada ser se coloca, revelando limites e deveres proporcionais. Mas contra a fatalidade de permanecer encerrado, o esforço próprio, de trabalho e dor, abre as portas, podendo o ser subir cada vez mais para a suprema glória do divino. Esta é a grande experimentação de toda vida, esta é a lição que cada qual deve aprender. O divino freme nas profundezas de todo ser. O espírito adormecido deve despertar para chegar até Deus. Em todos os níveis, tanto baixos quanto elevados, se revela o animador e íntimo pensamento de Deus.

Então o homem sentiu que havia compreendido o universo e abriu os braços a todos os seres, cuja voz ouvia e disse: ” - Aperto-vos todos no Amor de Deus. Fundidos todos no mesmo amplexo, subi comigo, subamos unidos para Ele. Vós de cima, prodigalizando amor; nós, inclinando-nos para os inferiores e ensinando-os a subir. E os inferiores aceitando o dom de sacrifício e amor dos superiores, que procuram ajudá-los a conquistar com justiça a própria felicidade.

Só assim unidos em um amplexo, nós, criaturas dispersas no infinito pulverizado da forma, poderemos encontrar-nos e, refundidos em um só organismo, poderemos, através do amor, reconstituir-nos no Uno-DEUS.




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