Ascensões Humanas

Quando bem tivermos compreendido e assimilado os pontos acima expostos, suscetíveis de aplicação em qualquer religião, visto que possuem um significado universal, racional, e poder-se-ia dizer também, biológico e científico, poderemos entrar em uma fase mais profunda, fase mística e intuitiva, em que não se procede a luz da razão, mas da fé, fase de atuação dos referidos pontos no seio do Cristianismo, que é a mais elevada religião que o homem conhece. Deus, na Sua verdadeira essência, está tão acima de nossa capacidade intelectiva e afetiva, que permanece inacessível a nossa natureza humana, nem somos capazes de amar e proclamar uma suprema abstração em fase da qual o coração e a mente se perdem. Devemos, por conseguinte, contentar-nos em aproximar-nos de Cristo, mais acessível a nós porque é também forma e forma humana.

Cristo, materialmente desaparecido da terra e aos nossos sentidos com a Sua morte física, fica entre nós sempre presente em espírito e, de um modo particular, na Eucaristia. Ele quis, com esta Sua instituição, deixar um canal aberto para que nós pudéssemos nos comunicar com Ele. Este é o maior dom da Sua paixão. Nós nos propomos aqui utilizar justamente este canal para conseguir a união com Cristo em uma forma que de resto não é nova e que, se já admitida, não foi muito praticada e sentida e que, se pode parecer materialmente mais livre,. em compensação exige espiritualmente uma disciplina mais rígida, pelo menos se quisermos obter os resultados que lhe pedimos. As almas pias poderão recorrer a ele para integrar a forma material, renovando-a nesta forma espiritual, também quando a outra não seja possível praticar, quer pela hora, pelo lugar ou por estas infinitas circunstâncias. A comunhão espiritual pode efetivamente ser praticada em qualquer hora e lugar, sem necessidade de jejum, todas as vezes que a alma sinta necessidade, e, por conseguinte, não só nos momentos e circunstâncias mais próprios, nos instantes de maior urgência e fervor, mas também com uma freqüência que de outra forma seria impossível, até que se consiga assim, mesmo em meio às  nossas ocupações, uma contínua e completa união em Cristo.

Esta forma de comunhão, sendo espiritual, por esta sua própria natureza, não pode deixar de assumir uma forma mais individual e espontânea, relativa a natureza de cada alma. É difícil assim traçar-se normas gerais, porque cada um a adaptará a si mesmo, e nem como guia se podem configurar preces com palavras e formas Cada alma dirá, com plena sinceridade e efusão, o que ela mesma é, exporá de acordo com as suas necessidades, mas, sobretudo, ouvirá consoante a própria capacidade de ouvir. Nenhum constrangimento lhe é imposto, nenhuma linha lhe é traçada, senão os princípios gerais acima expostos, porque ela deve dizer as coisas que verdadeiramente sente, que brotam de si mesma, jamais abandonando-se a repetições mecânicas, trabalho de lábios e não de espírito. É justamente esta realidade interior que pode faltar na mais precisa execução das formas materiais de comunhão. E é esta realidade interior que deve, de maneira absoluta, ser posta em primeiro plano e tudo reger e, quando tudo o mais tenha caído, ela deve subsistir em toda plenitude. Não é, pois, possível conseguir a comunhão espiritual com o espírito ausente, com a alma errante, sem a mais completa e vibrante adesão de nós mesmos.

E lógico que, tratando-se de um puro ato de amor, como preparação, presume-se, de modo absoluto, o ato de dor perfeito com respeito as próprias faltas, isto é, uma dor verdadeiramente sentida por haver violado a lei de Deus e desobedecido à Sua bondade. Seria verdadeiramente ofensivo em um ato de amor tão puro introduzir, justamente no momento de cumpri-lo diante de Deus, cálculos de interesse referentes ao próprio prejuízo pelo inferno merecido e pelo paraíso perdido. Ao menos neste supremo momento de união com Cristo, deve-se banir completamente todo o egoísmo humano. Para alguns isto será difícil e só quem for capaz poderá consegui-lo. Mas, se quisermos obter resultados verdadeiros nesta comunhão, não ha outro caminho a seguir. Quem não estiver amadurecido não pode compreender e deve ocupar-se com outra coisa Para estes a Eucaristia é verdadeiramente um "mysterium fidei"8 , algo de incompreensível que se pode avizinhar só com: "credo quia absurdum"9 . É questão de evolução e relativa sensibilização. Mas quem atingiu a maturidade biológica e, com ela, a necessária sensibilidade nervosa e espiritual, quem conseguiu, contrariamente ao comum ser mais vivo no espírito que no corpo, poderá então “sentir” na Eucaristia a real presença de Cristo; e “sentir” a tal ponto que poderá estabelecer o colóquio. Esta é a evidência máxima que supera qualquer demonstração ou esforço de fé.

É justamente na pratica da Comunhão Espiritual que a alma procura educar-se ainda melhor para esta sensibilização, estabelecer a comunicação, aprofundar a sensação, progredindo sempre para Deus. Esta prática pode ser, pois, para as almas eleitas, um grande meio de elevação espiritual. É certo que Deus, do centro, faz pressão para alcançar as Suas criaturas, mas freqüentemente as forças do bem não podem passar porque os canais estão obstruídos por mil detritos e atravancamentos espirituais. É certo também que as forças do mal, que personificamos em Satanás, tudo fazem para manter esses canais fechados e cada vez mais acumular obstáculos à passagem das correntes benéficas. Mas é igualmente verdade que, simplesmente pela vontade humana, um e outro canal abre-se ao fluxo livre das radiações divinas, podendo se formar assim um bom condutor para a corrente espiritual, através do qual ela pode passar. Então as forças do bem precipitam-se álacres e abundantes por essa via, que lhes permite a expansão, porque assim é a Lei. E a vida que fala no coração dos homens, constringe-os instintivamente a sentir e reconhecer nesses seres que servem de conduto à vontade divina, o mais alto e precioso valor biológico, ao qual está cometida a incumbência de alimentar-nos e de salvar-nos. Estas atividades espirituais aqui expostas são, pois, preciosas não só para o indivíduo em sua ascensão, mas também para o bem de todos.

Começamos, desta maneira, a aproximar-nos do ponto culminante da Comunhão Espiritual, que é a sensação do contato e da união com Cristo, reconstruindo em nós, isto é, revivendo espiritualmente como conceito e como sentimento, a cena sublime da Última Ceia. Quem não a tiver presente, já impressa na alma, pode recorrer à  leitura dos Evangelhos. Estes contem um imenso material para meditação. Pode-se chegar, assim, a atingir a formação em nós e em derredor de nós de uma atmosfera espiritual em que vibre como que um eco daqueles sentimentos, que de um lado foram sublimes em Cristo e, de outro, comovidos nos discípulos sentimentos de alta paixão espiritual, como os que se agitaram no Cenáculo naquela hora suprema de amor e de ódio. Deve-se procurar alcançar um estado de identificação espiritual, em outros termos, alcançar a presença em espírito de todo o drama vivido, gradativamente começando do representação da cena material e aos poucos ascendendo, através dela, à sua penetração cada vez mais intima e compreensão cada vez mais profunda, até efusão espiritual. Começa-se por concentrar a própria atenção na figura de Cristo, observando o pensamento, o amor, a paixão d‘Ele naquele momento, procurando penetrar o sentido do Seu supremo sacrifício. Aproximar-nos-emos, assim, paulatinamente, da visão da Eucaristia, da percepção do seu verdadeiro conteúdo e significado. Abriremos, desta forma, pouco a pouco, as vias à comunhão espiritual com Cristo, que então a nós se dá nesse momento.

Inicialmente, esta ascensão, a nossa gradual elevação de tensão será dificultosa e lenta. Tudo depende da nossa pureza. É  necessário, como primeiro condição, que a alma, antes de entregar-se a estes atos espirituais, que constituem uma verdadeira realidade e atividade no imponderável, se haja destacado de todas as coisas terrenas pela compreensão de tudo quanto foi acima exposto, encontrando-se já distanciada bem acima delas. E indispensável, para isso, estar-se habituado a concentração, saber-se isolar do ambiente na meditação. Nisto pode ajudar-nos a solidão, quer ao ar livre, quer em casa como também em uma igreja que seja silenciosa, recolhida, pouco freqüentada por perturbadores e, sobretudo, pobre. Tudo quanto é. luxo humano profana esses contatos de espírito. Não importa tanto o lugar, quanto a atmosfera espiritual de que ele se constitui, as radiações de que esta saturado, pois que a base de tais fenômenos e a sintonização de vibrações. Há ambientes que parecem esplêndidos e que, no entanto, são espiritualmente surdos, e há ambientes paupérrimos, como por exemplo S. Damião, em Assis, riquíssimos de sonoridade e ressonâncias espirituais. Cada um deve escolher, de acordo com a sua natureza, todos os meios que sente que possam no seu caso coadjuvar o processo de sintonização com o centro para o qual se dirige e em torno do qual. gravita. A alma pode seguir nisto as suas simpatias e atrações, mas deve lembrar-se de que aquilo que sobretudo forma a sintonia é a natureza dos seus pensamentos habituais, pensamentos de cada instante de sua vida, mesmo os que estejam fora do mundo; é o seu caráter e tipo; e a natureza das obras de que ele vive; é a sua afinidade conseguida com o Alto. Comunhão quer dizer de fato adesão, contato de espírito, ensimesmamento, fusão, identificação. Ela se baseia na afinidade. É necessário, pois, que procuremos avizinhar-nos o mais possível de Cristo desta maneira, tendo antes já nos avizinhado d‘Ele em todas as manifestações de nossa vida. Pode-se alcançar tudo isto, mas é necessário uma disciplina que nos transforme radicalmente. O objetivo é exatamente uma maturação e ascensão de todo o nosso ser. O exercício e o habito abreviarão e facilitarão essas fases iniciais.

Façamos, pois, o que saibamos e possamos para abrir, escancarar a nossa alma às radiações divinas deixando-nos inundar por elas, recebendo-as e tornando-as nossas, vibrando com elas em todo o nosso ser. Quando tivermos de nossa parte tudo feito para sintonizar-nos, quando tivermos sabido tornar-nos receptivos, mais por abandono do que por esforço, quando subindo em espírito tivermos conseguido abrir o canal e estabelecer assim uma corrente entre emissor e receptor, então é o suficiente, a nossa parte está feita e a nossa tarefa executada. Abertas as portas, a luz entra por si. Aqueles que não estejam habituados ao trato com coisas espirituais de tal profundidade, não se amedrontem. Deus, que no outro extremo deseja a união muito mais do que a próprio criatura, e pode muito mais do que esta, virá em seu auxílio, porque tudo isto está na linha da ascensão, que é o ponto mais vital e central da lei divina. A alma nada mais tem a fazer que secundá-la, permitindo-lhe a atuação. Sem dúvida, quanto mais se é evoluído tanto mais fácil é percorrer rapidamente e com mais sucesso esse caminho. As almas preguiçosas, gélidas, egoístas, fechadas em si mesmas e incapazes de um grande impulso de paixão, ainda que religiosas, ainda que carregadas de uma montanha de práticas formalísticas e mecânicas, são as mais distanciadas dessas realizações espirituais e as que mais necessitam de maturar-se. Mas tenhamos fé, porque Deus está presente em toda a parte e também a elas auxiliará.

Continuemos. Uma vez estabelecida a comunicação por meio do desejo e da prece, a comunhão é espontânea, calma, profundamente vibrante e sem choques. É como que um deslizamento pelo ar. As sacudidelas do desprendimento da terra cessaram e tudo se acalma parecendo imóvel. Nem sempre conseguimos estabilizar-nos na alta velocidade do vôo, e nele manter-nos em equilíbrio. Como quem sobe a vertente de um monte, em terreno irregular, escorregaremos às vezes para trás, nos deteremos as vezes, ora baixamos ora subimos, mas continuamos sempre, cada vez mais alto até atingirmos o cume desejado. Assim, também, quando tenhamos chegado a obter o estágio colimado, estabilizando a passagem do fluxo espiritual, por haver eliminado todo o material obstruidor, então sentiremos a radiação divina descer amplas ondas, enchendo-nos a mente de pensamento, o coração de sentimento, saciando-nos de potência, nutrindo-nos de energia, eliminando, confortando e alimentando todo o nosso ser. Nessa altura tudo se harmoniza e se potencializa dentro de nós. As mesmas energias, não mais se atritando entre si mesmas e divergentes, mas .também convergentes e colaboradoras, não se reduzirão em lutas e conflitos entre si, produzindo um rendimento máximo. Adquiriremos então a potência que é propicia dos sistemas de forças equilibradas. Uma nova harmonia, que tem sabor de paraíso, começará a invadir o nosso ser, penetrando-o gradativamente, primeiro no plano espiritual, a seguir nervoso, depois orgânico, até atingir a medula dos nossos ossos, imprimindo todo o indivíduo um ritmo de vida mais elevado e benéfico. Isto permanecerá em nós como um eco doce e poderoso e se estabilizará, emprestando-nos uma vitalidade nova, que cicatrizará as nossas feridas, a princípio morais, depois materiais, começando por nós e invadindo a seguir o nosso ambiente. Uma nova força nos fará superar as dificuldades das provas e as angústias da vida. No mundo orgânico não é tudo regido, ainda que através de inúmeras passagens graduais, pela energia que desce do sol para a terra? Assim também no mundo das forças espirituais tudo é regido pela potência que de Deus desce as almas. Quando estes mais elevados planos do espírito forem atingidos é que a oração se torna audição e a alma não mais fala, mas ouve e recebe. Então ela nada mais tem a dizer ou fazer senão ouvir à voz de Deus,  nutrir-se de Sua potência e deixar-se conduzir pela Sua vontade.
   
Quando a ciência define como alucinatórias semelhantes sensações relegando-as em massa, sem discriminação, para o domínio do patológico, não sabe o que diz nem o que faz. Como já dissemos, trata-se de realidades experimentais e objetivas, se bem que de uma realidade sobrenatural que escapa a quem não tem os sentidos para percebê-las, negando, por conseguinte. Mas o homem, com o tempo, evoluirá e então compreenderá. Hoje, faltando a sensibilidade necessária para a percepção, para a admissão de um fato que está além da razão, como seja o da presença de Cristo na Eucaristia, não há outra via que a da fé.

Dado que este escrito se dirige ao ser humano atual, é necessário insistir sobre o que para ele constitui a parte mais difícil a percorrer, isto é, a que prepara a sintonização. Para isto aconselhamos a reconstrução interior do ambiente espiritual da Última Ceia, no momento da instituição da Eucaristia, momento que seria de uma grandeza terrificante, se tudo nele não fosse feito de amor pelo qual Cristo se sacrificou e tudo dá, esquecido da própria grandeza, de tal maneira que desce até o nível da natureza humana. Ora, em nada encontraremos tão poderosamente reconstruída, atual e presente no seu sentir mais vivido e profundo a substância espiritual desse momento, como no sacrifício da missa. Basta apenas seguir-lhe o desenvolvimento em espírito, ainda quando materialmente não se pode estar presente. As próprias fórmulas do rito, pelo menos as mais importantes, repetidas com todo fervor, poderão ser um ótimo guia para o preparo da Comunhão Espiritual.

Sigamos, pois, o sacrifício da missa e concentremos a nossa atenção no momento culminante da elevação, repetindo as mesmas palavras do sacerdote, as mais vitais. aquelas que ele realmente pronuncia a baixa voz, como que para subtrai-las à profanação do público distraído. Repitamo-las, meditando, procurando senti-las em profundidade, em um crescendo de paixão e aproximação:

"Accepit panen in sanctas manus suas et elevatis oculis in coelum, gratias agens benedixit, fregit, deditque discipulis suis dicens10:

"Accipite et manducate ex hoc omnes: hoc est enim corpus meum11.
"Accipit et bibite ex eo omnes: Hic est enim calix sanguinis mei, novi et aeterni testamenti, mysterium fidei: qui pro vobis et pro multis effundetur i remissionem peccatorum"12.
"Haec quotiescumque feceritis, in mei memoram facietis"13 .

Cada qual procure "sentir" estas palavras na máxima profundeza possível que a sua natureza permita. Depois disto, a alma sensível começa a admitir a real presença de Cristo, tornando-se-lhe cada vez mais vizinha e perceptível, em um lento crescendo de sensações, cada vez mais claras e evidentes. Cada palavra, naturalmente, não deve ser dita com a boca como habitualmente se faz, mas com a alma, sentida como a própria paixão, profundamente.

Extraordinariamente poderosa é a palavra a que corresponde um real estado de alma, a palavra que não é apenas som mas força viva da alma.

Eis que se avizinha o momento culminante em que Cristo, que pouco a pouco se aproximou como nossa sensação, pode comunicar-se com a alma que lhe soube abrir as portas. Saudemos esta aproximação com as palavras do sacerdote:

"Agnus dei qui tollis peccata mundi: miserere nobis".
"Agnus dei qui ‘tollis peccata mundi: miserere nobis".
"Agnus dei qui tollis peccata mundi: dona nobis pacem”14.

A esta palavra "paz", deixemos a nossa alma repousar tranqüila, longe de todas as tempestades e preocupações humanas, plácida como um lago límpido em cuja superfície o sol pode agora espelhar-se em toda a sua pureza, sem ofuscamento ou deformação.

Atingindo esse estado de calma e limpidez, abandonemo-nos agora a Cristo, deixando que Ele venha o nós e complete o restante. Mas antes que Ele chegue, ofereçamo-nos a Ele completamente, em perfeita fusão com a Sua Lei e vontade, ofereçamo-Lhe tudo o que sejamos dor e como miséria, já que nada mais possuímos. Repitamo-Lhe as grandes palavras.

"Domine, non sun dignus, ut intres sub tectum meum: sed tantum dic verbo et sanabitur anima mea”15.

Após este último impulso de humildade e consagração, a alma que, em graus sucessivos, conseguiu subir até aqui, está pronta. Ouvirá então uma voz, atrás de si anunciando-lhe:

"Corpus domini nostri Jesu Cristi custodiat animam tuam in vitam aeternam. Amen"16  

A alma deve seguir este pensamento três vezes, Na terceira, ela terá sensação de Cristo, não mais apenas vizinho, presente, mas dentro de si mesma Se ela estiver amadurecida e pronta, freqüentemente a presença em si, para tornar-se sentida, não esperará a terceira vez, mas será notada desde a primeira, porque o espírito arde no desejo de unir-se ao espírito. Dentro de si, não significa material penetração de corpos, mas, como sempre acontece no mundo espiritual, fusão de centros de forças vibratórias e isto pela via da sintonização, que é vibração em uníssono, pela qual duas notas distintas; semelhantemente ao que sucede no campo acústico, tornam-se uma nota só. Esta fusão é a mística união com Cristo, isto é, a perda da própria personalidade egocêntrica distinta, que assim se abstraiu e se introverteu na de Cristo, com a qual daí em diante saberá pensar e agir.

Se a alma souber atingir este ponto, qualquer guia será para sempre supérfluo, e será mesmo um obstáculo. Deus agirá e falará nela e ela, silenciando, admirada e arrebatada, por-se-á à escuta, realizando assim a oração perfeita. Ela não necessita mais do guia, porque .Cristo a guiará. Daqui por diante ela tudo possui e nada mais lhe pode ser dado pelo homem.

Neste ponto, o conselheiro que até aqui, nestas páginas, serviu de guia, deixa a alma que ele procurou conduzir a Deus, nas mãos de Deus, para que Ele apenas lhe fale, a ilumine, a conforte, a nutra e a fortifique. Ninguém pode interferir nesses colóquios e amplexos de espírito. A comunicação com Deus está estabelecida e toda a alma encontrará, segundo sua própria natureza, em plena liberdade, vias individuais de efusão. Neste ponto, o pobre conselheiro que a acompanhou até aqui, nestas páginas, cala, venera e em silêncio se retrai.

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8 “Mistério da fé” (N. do T.)

9 “Creio porque é absurdo” (N. do T.)

10 "Tomou um pão, em Suas santas mãos, e, levantando os olhos para o céu, deu graças, abençoou-o, partiu-o e o deu aos Seus discípulos, dizendo":

11 "Tomai-o e Comei dele todos: isto é o meu corpo".

12 "Tomai e bebei dele todos: este é o cálice do meu sangue, do novo e eterno testamento, mistério da fé, que por vós e por muitos e derramado em remissão dos pecados".

13 "Todas as vezes que fizerdes estas coisas, fazei-o em lembrança de mim". (N. do T.)

14 "Cordeiro de Deus, que tiras os pecados do mundo; tem compaixão de nós"

"Cordeiro de Deus, que tiras os pecados do mundo; tem compaixão de nós".

"Cordeiro de Deus, que tiras os pecados do mundo; dá-nos a paz'. (N. do T.)

15 "Senhor, não sou digno de que entres em minha casa, mas dize uma palavra e minha alma ficará curada".(N. do T.)

16 "O corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo guarde a tua alma na vida eterna Assim seja".(N. doT.)

 

Não basta ter estabelecido as nossas relações com Deus. E necessário entrar em comunicação com Ele, é necessário a oração. Eis aqui uma outra coisa elementar, comumente não compreendida e que também é necessário compreender, para não se alcançar o conhecimento da vontade de Deus, mas também a adesão a ela e, com isto, a união mística da alma com Ele. Em geral não se sabe orar e assim se explica o escasso resultado que obtemos com as nossas orações.

A lei de Deus, que tudo regula, inclusive a nossa vida, não é e não pode ser ilógico capricho, como freqüentemente cremos e como, tais somos nós, assim desejaríamos, para que a pudéssemos submeter à  nossa vontade. Nesta lei que guia e rege o universo tudo é ordem, lógica, método, disciplina. O contrario esta apenas em nós, que somos um grosseiro esboço de sua realização e, por conseguinte, nos encontramos muito longe da sua perfeição. À desordem não está na Lei, nem em Deus, mas somente em nós e a dor que lhe é conseqüente, não é uma absurda condenação de um Deus malvado, que nos criou para atormentar-nos, mas é uma prova da Sua bondade, sabedoria e cuidado que nos dedica, visto que por intermédio dela, Ele nos conduz ao único caminho que nos pode proporcionar felicidade, sabiamente corrigindo-nos e ensinando-nos na escola da vida. A dor que tanto nos azorraga não é uma violação da vida divina do universo, mas é justamente uma reintegração nela, ainda que seja as nossas expensas, o que é justo, porque fomos nós que livremente quisemos viola-la.

Ora, o que sucede freqüentemente, ao nos apoiarmos em Deus, através da comunicação com Ele pela prece, é que ao invés de aderirmos a disciplina que Ele criou e da qual nos dá o exemplo em Suas manifestações, procuramos alterá-la em nossa vantagem. Então, ao invés de unir-nos a Deus, fundindo a nossa na Sua vontade, procuramos as vias de separatismo egocêntrico no qual pretendemos nós, ser os senhores e dirigentes, vias estas pelas quais justamente mais nos distanciamos de Deus que é unidade, e, por conseguinte, fusão e não cisão. E quando nos fere a dor, em lugar de procurar compreender o seu significado profundo, e aceitá-la, reconhecendo que o que Deus nos envia não pode deixar de ser justo; em lugar de admitir que, se ela nos fere, e sinal de que a merecemos em lugar de procurar, sobretudo, superar essa prova salutar para aprender, evitando recair em novo erro, nós tentamos iludir essa ordem em nosso favor, com a pretensão de dirigir e violentar a vontade divina. E é por isso que ao contrário de repetir as grandes palavras de Cristo: “Fiat voluntas tua”6 , que nos mostram a consciência da divina ordem do universo, nós nos tornamos advogados de nós mesmos, com o único objetivo de evitar danos ou ganhar graças em nossa vantagem, e isto quase sempre no campo material que mais de perto nos toca e interessa. Em suma, na oração nós nos conduzimos diante de Deus com a psicologia de luta e utilitarismo, que é própria da terra e das coisas terrenas. Ora, se essa mentalidade pode estar adaptada ao nosso mundo inferior, ela está inteiramente deslocada, quando nos elevamos para o Alto. A atitude egocêntrica, para não dizer egoísta, e o exclusivismo constituem um grave erro, quando se fala com Deus. É, pois, ilusório que semelhante gênero de oração possa produzir frutos reais. Certamente Deus permite que falemos. A diferença esta que nós não obtemos aquilo que pedimos. E é lógico. Deus não nos dá senão o que merecemos, senão aquilo que é justo e que, segundo a Sua lei, nos seja dado. Que grandes tolices nós cometemos quotidianamente, agindo assim em um ato tão vital quanto e o de pormo-nos em comunicação com Deus Que resultados poderemos obter quando transportamos para planos de vida mais elevados a psicologia do nosso plano, quando levamos para eles aquela mentalidade de luta e usurpação, se na terra parece tão verdadeira e útil, porque corresponde às necessidades seletivas animais, e um pouco acima não tem o menor sentido?

A atitude fundamental da prece deve ser de obediência, de adesão à vontade de Deus, de harmonização entre nós e a Sua Lei, que é perfeita. E no entanto mesmo na prece, recaímos na primeira culpa do homem, que foi também a de Lúcifer: erigir o próprio eu em lei da vida e antepor essa lei, em que o eu é centro, àquela em que o centro é Deus. Desta maneira ora-se às avessas, com um impulso de afastamento, ao invés de aproximação a Deus.

Nós nos erigimos em juizes de nós mesmos, de nossos semelhantes, do mundo, da própria ação de Deus e pretendemos indicar-lhe o caminho a seguir para o nosso bem. Pretendemos salvar tudo e não sabemos nada. Justamente nos dirigimos a Deus, mostramo-Lhe todo o nosso orgulho e a nossa presunção. Exatamente na oração provamos desconhecer a Sua bondade e o Seu amor por nós. Tomamo-lo, universalmente, por um chefe caprichoso, que podemos propiciar com ofertas, por um Deus de vingança, capaz de ser aplacado com sacrifícios. Imaginamo-lo um senhor despótico e O respeitamos porque apenas é o mais forte. O insensato chega mesmo a manifestar na blasfêmia com que O desafia, uma prova da própria força. E muitos oram apenas porque não podem mandar. Desejariam poder mandar e não o podendo, entregam-se a uma total sujeição. Tornamo-nos, às vezes, petulantes no pedir e insistir em vantagens imediatas e materiais que, se coincidem com o nosso prazer, nem sempre representam o nosso bem. Por que esta atitude de mendigos enfadonhos, que pretendem impor-se mais com a insistência de que com a humildade com a longa repetição vocal, mais de que com a expectação confiante? Mas Deus tudo sabe a nosso respeito, sabe de que necessitamos, sabe melhor de que nós aquilo que é benéfico ou maléfico para nós. Devemos compreender que Ele é Pai que nos ama e que, por conseguinte, antecipa-se em oferecer-nos todo o bem que não seja para nós um dano, antes que nós mesmos saibamos ou pensemos. Como podemos presumir que possamos ensinar-Lhe o que é melhor para nós e corramos a oferecer-Lhe esse belo aspecto de soberba atitude, justamente na oração?

Não. A oração deve ser diferente. Nela não devemos ter a pretensão de ensinar nada a Deus. Não é a lei de Deus que deve alterar-se, adaptar-se a nós, mas somos nós que devemos mudar, curvando-nos a ela. Não devemos pretender, com a oração, tornar Deus um nosso servo a trabalhar para nós, e fazer de Cristo um redentor que tenha sofrido em nosso lugar. Não se deve inverter, porque é cômodo, a ordem divina. Cada um conquista a felicidade, com a própria dor. A verdadeira oração é avizinhamento e adesão, é dócil aceitação. Nem também por isto ela deve ser confundida com uma passiva e inerte resignação. Ao contrario, ela é consciência da ordem e vontade de Deus, e cooperação ativa na Sua ação de bem no mundo, é aceitação operante, dinâmica e fecunda. Aceitar significa colaborar com Deus segundo os Seus desígnios,  significa corresponder ao Seu amor, compreendendo que toda a alegria que Ele, segundo a Sua bondade e justiça pode nos dar pelo nosso verdadeiro bem, já nô-la deu antes que fosse por nós pedida, e que se não nos dá um bem, é porque este nos faria mal. Mesmo uma privação pode ser um dom em vista de uma maior felicidade futura.

Se quisermos, pois, que a oração seja uma verdadeira prece e dê os seus frutos, não peçamos o impossível, porque por mais que seja pedido e rogado, nos será negado. Ela não deve ser uma ordem, nem uma petulante mendicância, nem também um modo de aconselhar Deus quanto ao que deve fazer, mas deve ser um ato de humilde adesão à Sua sábia vontade: "Fiat mihi secundum verbus tuum"7 . E se quisermos reduzir a oração a um pedido de graças, recordemos que o melhor meio de obtê-las é tornarmo-nos merecedores delas. Nós somos livres de fazer o que mais nos aprouver e de aceitar ou não, no momento, a vontade de Deus. Mas, se não aceitamos hoje, teremos que aceitá-la amanhã, em condições mais onerosas, pois que a vontade divina é que nós consigamos, por todos os meios e a qualquer custo, mesmo com dar, o nosso bem. Essa ativa adesão a tudo que Deus nos prepara, essa nossa compreensão e boa vontade de desenvolver os motivos que Ele nos oferece, sejam eles sofrimento ou alegria, esse superamento do nosso interesse imediato em vista de maiores interesses nossos por vindouros, enfim, essa anulação da nossa vontade individual na vontade divina, que guia os grandes planos da vida universal, tudo isto é essencial para atingir e manter aquela contínua união com Deus, que aqui nos propomos atingir.

Semelhante comunicação com Deus através da prece pressupõe em nós um estado de animo habitual, inteiramente diverso do comum. Na terra se acredita que valer e poder estejam em função de possuir, enquanto que o que realmente conta é o que se é e não o que se possui. Quanta gente possuiu os nossos haveres antes de nós, acreditou ser deles o verdadeiro dono, e no entanto teve que os deixar! Assim nós também podemos acreditar que sejamos os seus donos e, apesar disso, os deixaremos, e assim também outros, depois de nós, acreditarão sucessivamente ser igualmente donos e terão que os deixar. E cada um não levará consigo senão o que realmente é e vale, isto é, as obras e os méritos, isto é, somente aquilo que possui em espírito. Deve-se, por isso, desligar o coração de qualquer coisa terrena, tratando-a com desapego de simples administrador, depositário que deve prestar contas a Deus dos bens que lhe foram confiados temporariamente para fins mais altos. Então, na verdade, não se possui mais nada para si mesmo. Tudo se torna propriedade de Deus e a Ele compete a defesa dos nossos haveres. Embora se canse e corra, é para mais segura recompensa e já sem a ânsia de perder, porque tudo é confiado ao verdadeiro dono, com a garantia de sua sabedoria e bondade. Então estamos seguros de que Ele nos enviará, com a Sua Providência, o necessário para que possamos cumprir a obra da nossa vida. Que paz se origina em trabalhar assim nos braços de Deus, na consciência do próprio dever cumprido! Quando se executou o próprio dever para com Deus, está-se seguro de que Deus cumprirá o Seu para conosco. E que grande fato, que expansão de toda a nossa vida é o tornarmo-nos assim Seus operários, e representar uma parte do grande organismo, uma função no funcionamento do universo!

A oração que se baseia em tal estado fundamental de alma deve ter por característica ser feita mais de aspiração que de palavras, sentida mais do que dita. Ela deve preferir as coisas espirituais, e só pedir as materiais, em função das espirituais. A oração só deve ser feita com escopo justo e altruísta, pois de outra maneira não pode produzir efeito, sendo contrario a lei de Deus, que quer o amor ao próximo e não o egoísmo, o bem e não o mal. A oração não deve ser egocêntrica, do eu que pede para si, mas uma adesão à vontade de Deus, um ato de harmonização com a ordem divina. Devemos estar dispostos a sofrer quando tivermos violado essa ordem, persuadidos de que o nosso bem e a nossa redenção residem nessa dor merecida, que nos reintegra na ordem que violamos. As formas inferiores de oração, próprias do involuído homem atual, poderão ser, por piedade a sua ignorância, permitidas por Deus, mas é certo que a verdadeira e que a elevada oração não exige, não julga, não aconselha, não pede, apenas escuta para depois aderir e obedecer. Cessa, desta forma, a exposição das necessidades e rogativas terrenas e domina uma atitude receptiva de audição, em que muito mais fala Deus do que nós, prevalece uma expectativa de conselho e de guia, de ampliação de energia e de potência para a nossa nutrição. A prece torna-se assim algo diferente: é um abrir de portas de alma para que Deus entre e para que o grande rio da vida, descendo das suas fontes nos inunde, e para que a divina irradiação do centro nos invada e vivifique Atitude de grande atividade espiritual, porque se trata de atingir as altas freqüências e os potenciais necessários para sintonizar-nos com. o centro transmissor, porque sem sintonia não há comunicação.

Trata-se de dar-nos em amor, porque só então Deus pode dar-se a nós em amor, dado que Ele jamais se impõe a quem não O quer. E enquanto nós não O quisermos, porque ainda não chegamos a compreender, Ele permanecerá em expectativa, indiretamente estimulando-nos por mil vias, a fim de que sintamos a necessidade d‘Ele, procuremo-Lo e O chamemos para que venha até nós. Quantos perdem os Seus imensos tesouros por andar à procura das pobres riquezas terrenas! E no entanto Deus não deseja senão tornar-nos ricos! Mas é necessário que O procuremos, fazendo-nos dignos, porque assim o quer a Sua justiça.

A verdadeira oração, a mais elevada e mais intensa, chega assim a não ter mais palavras e se reduz a um silêncio, de todo o nosso ser, em atitude de receptividade e de oferecimento, à  escuta da palavra divina. A maior oração é tácita e consiste antes de tudo em ter agido bem e, depois, na simples sensação da presença de Deus. Quando tivermos compreendido e cumprido tudo quanto acima esta dito, isto é, quando tivermos harmonizado em pensamento, palavra e ação na ordem divina, tornado a nossa vontade una com a vontade de Deus, então provaremos esta sensação. Quando tudo tivermos dado a Deus e ao próximo e deixarmos de existir para nós mesmos, então tudo vira a nós espontaneamente e tudo possuiremos.

Preparemo-nos, pois, para essa oração. Ela se faz em silêncio, a sós com Deus, distante do alarido das multidões, tacitamente quanto espera a mão de Deus, como ocorrem na intimidade os maiores fenômenos da vida. Abramos confiantes as nossas almas, como faz a flor à luz do sol. Assim como a lei de Deus quer que ele leve aos seres a vida orgânica, assim também quer que as radiações espirituais do sol divino nos inundem de sabedoria e felicidade.

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6 "Faça-se a tua vontade". (N. do T.)

7"Faça-se em mim segundo a tua palavra". (N do T.)

 

O leitor que seguiu a vasta orquestração ascensional com a qual procuramos dar um eco apenas da que realmente vive e soa no infinito, ver-se-á agora, gradativamente, conduzido ao mundo místico. Uma vez neste, teremos nos avizinhado do ponto culminante deste trabalho para depois, novamente, descendo de grau em grau, atingirmos o seu termino. Ao vértice o leitor será guiado por uma real experiência do autor. Essa, como aqui esta exposta, representa dele uma nova maturação, cujo trajeto preparatório esta nesta obra delineado nos quatro capítulos que se seguem, desde o VI ao IX, do qual se tem a base para o salto até o capítulo XI: "Ressurreição", que conclui a fase. O capítulo XI pode ser considerada o ponto culminante deste volume.

Estes quatro capítulos foram sentidos e registrados na Quaresma do ano de 1947, em um lance instintivo que representava uma preparação à eclosão da Páscoa do mesmo ano, na "Ressurreição", que se segue. Entraremos em mais detalhes à  medida que lermos nos aproximando deles, atingindo a "Paixão", que se apresenta como uma elevação precedente, assinalando o harmônico retorno ao ritmo de uma vida. Estes quatro capítulos foram escritos para em opúsculo individualizado, cujo capítulo seria "A Comunhão Espiritual" que deveria narrar completamente uma experiência mística, logicamente apresentada e enquadrada. Não tendo sido, porém, possível encontrar um editor religioso que quisesse publicar o opúsculo sem antes obter o "imprimatur", e como este grupo de capítulos representasse a fase espiritual vivida pelo autor a meio caminho da gênese do presente volume, ele foi aqui incluído no seu ponto mais natural e lógico, como verdadeira exposição de estudos místicos vividos neste ponto e neste momento.

Todavia resta o fato que esses quatro capítulos, tendo sido escritos para um opúsculo separado, tiveram, nessa ocasião, que ser refeitos, para adaptar-se a conceitos gerais, que deviam ser escritos, resumidamente, para melhor conhecimento de um leitor novo, mas que se tornam repetição supérflua para quem tenha acompanhado este volume. Não obstante, dado que se trate de poucas páginas, aqui nada alteramos na sua original espontaneidade, seja porque qualquer alteração seria difícil hoje em face do estado de alma superado e longínquo que os criou, seja porque somente de um texto assim deixado íntegro, poder-se-á, em seguida, construir para as almas pias um extrato autônomo, em si completo, em opúsculo. O leitor que já conhece os motivos gerais que nesses quatro capítulos aparecem como ponto de experiência para uso de um novo leitor, ao qual o opúsculo era destinado, poderá facilmente dispensar a sua leitura. Mas nem mesmo aqui, de resto, será completamente inútil projetar aqueles conceitos complexos sob um ponto de vista diferente, isto é, de uma forma prática para as almas simples, mais como aplicação vivida do que como teoria ou demonstração.

Pode saltar esses quatro capítulos o leitor que não aprecia a psicologia do tipo místico-religioso, para satisfazer-se com os de caráter filosófico ou social ou cientifico ou psicológico. Todavia devera admitir que, em nome da imparcialidade e universalidade que aqui  foram sempre profundas, não se pode excluir a priori nenhuma forma de pensamento, e, por isso, nem mesmo a místico-religiosa, dado que alguns estados de alma não se podem exprimir de outra maneira. Os aspectos da verdade apresentados neste volume são variados e cada um traz consigo a sua forma mental e a terminologia que lhe corresponde. Quanto menos formos universais, tanto mais nos encerraremos em um ponto de vista particular e tanto menos podemos obter a visão conjunta do verdadeiro. Para compreender este é preciso saber pensar nas mais díspares formas mentais, e exprimir-se segundo as mais diversas psicologias e terminologias. Quem se fecha no seu particular aspecto do verdadeiro e se escandaliza quando se lhe mostram outros aspectos do caso, não pode compreender estes escritos, animados pelo principio da mais imparcial universalidade.

Sob a orientação que aqui se segue foi escrito: "A religião universal de Cristo". Acompanha-o quem vive na disciplina do espírito, tremenda, mas livre, porque é consciente e convicta. Não há nisso nenhuma anarquia, mas uma ordem maior, porque além de exterior é também e, sobretudo, interior.

Só a universal religião do espírito nas pegadas de Cristo vivendo o Evangelho, reunindo todos os justos da terra, de qualquer religião, pode dar ao mundo uma unidade religiosa que não se pode obter por imperialismos e imposições morais, mas apenas por compreensão e confraternização

Isto dito, quem escreve pode afirmar que quanto segue, antes de ser exposto, foi por ele experimentalmente vivido, objetivamente estudado, cientificamente compreendido. Não se trata, pois, de vagas aspirações, mas de realidades controladas com o método da observação e da experimentação, ainda que tenhamos que nos avir com realidades imateriais que fogem à sensibilidade comum do homem atual. Se este as nega porque não as percebe e não as compreende, isto não obsta a que elas existam.

Quem aqui escreve deu-se conta das atuais e desastrosas condições espirituais da maioria. Mas ele sabe que nesta babel infernal que é o mundo de hoje, existem também almas eleitas, ainda que em minoria e que a estas esta confiada a salvação e o futuro de todos. A nossa terra é reino ainda involuído no qual ramificações provindas de baixo, da grande árvore do mal animada por Satanás, se entrelaçam, freqüentemente vitoriosas, com as ramificações descidas do alto, da grande arvore do bem animada por Deus. Em nosso plano material, onde reina a forma, Deus se manifesta através de Suas criaturas. É certo que toda criatura é um canal para as manifestações divinas, mas os bons constituem o mais elevado, o meio melhor, o mais permeável pelo qual Deus pode exprimir-se com maior evidência. Assim eles representam o ponto de apoio do bem na terra, constituem o canal através do qual a ação benéfica de Deus pode melhor operar entre nós, e são a única via aberta para que o mundo possa atingir a divina fonte da vida que esta no centro — Deus, e nutrir-se nela, estabelecendo uma comunicação com o princípio afirmativo e construtivo do bem. Do outro lado, os malvados representam o ponto de apoio do mal na terra; constituem o canal através do qual a ação das forças do mal podem agir entre nós, e são a via comunicante com o princípio negativo e destrutivo que personificamos em Satanás. Se aos malvados, pois, esta confiado o encargo de tudo massacrar, espiritual e materialmente, aos bons esta cometida a incumbência de tudo salvar e construir. O terreno de seu encontro e luta é o nosso mundo.

Estas paginas se dirigem imparcialmente a todos os bons, que representam na terra a obra divina do bem. Os outros não podem compreender e obedecem a outros impulsos e encargos.

Palmilham a sua estrada. Agora, quem compreendeu a vida, sabe, com absoluta certeza, que só as vias do bem são as que conduzem à felicidade e que as forças do mal, prometendo-a, em verdade traem depois a promessa e, cedo ou tarde, acabam infalivelmente na dor. O escopo desta obra é de ajudar, ensinando os espíritos evoluídos a alçar-se sempre mais para o alto, de modo que a felicidade, que esta no bem, com a qual Deus permanentemente quer nos inundar, contanto que saibamos e queiramos, possa, por caminhos inteiramente independentes das coisas terrenas, baixar e entrai neles para neles permanecer, instaurando a sua paz interior. Ajudar as almas dispostas a alçar-se sempre mais para o alto, tem, pois, também por escopo, multiplicar os canais de comunicação com o divino, ampliar as estradas, verificar os meios para que, mais rápida, ativa e abundante, por eles flua e possa descer a linfa vital do bem, único meio de salvação.

Como se vê, aqui se fala em termos de psicologia utilitária, pois que sabemos bem que o homem não compreende e não se move senão em função de uma dada vantagem. E a vantagem neste caso é, para cada um, um estado de felicidade dependente apenas de si mesmo e não das condições ambientais e da vontade alheia. Para o mundo, a vantagem está em receber a mais válida contribuição hoje possível para conseguir a sua solução em uma hora histórica de tremenda gravidade.

O nosso mundo de hoje é materialista. Projeta-se pelas vias sensórias, a que chama objetivas, completamente ao exterior e só aí procura a solução dos seus problemas. Nós seguimos uma via oposta. Ao invés de agir sobre os efeitos, penetramos nas causas, na substância espiritual das coisas e dos problemas, havendo antes bem compreendido como tudo funciona. Trata-se de compreender, para depois agir de maneira inteiramente diversa da habitual. As fontes do conhecimento e do poder, da riqueza e da saúde não estão, como a maioria crê, no mundo material, exterior a nós, mas no mundo espiritual. E tudo o que se realiza naquele não é mais do que uma conseqüência  daquilo que primeiro se realizou neste. Tudo deriva de um centro do universo, que tudo rege, e se chama Deus.

Colocar-se e manter-se por vias espirituais em contato com Deus, significa poder atingir tesouros mantidos e alegrias desconhecidas. Nós somos livres e podemos, se quisermos, alcançar a felicidade. Mas tudo provém do interior e nada poderá andar bem no exterior, se antes não tiver marcado bem no nosso interior. Só nos mudando para melhor é que poderemos transformar para melhor toda a nossa vida. Não se pode pretender que negócios, saúde e os acontecimentos se tornem nossos amigos ao invés de inimigos, se antes não tivermos estabelecido a ordem dentro de nós, em harmonia com Deus e a Sua lei.

Quando as coisas vão mal, ninguém quer admitir ter sido ele próprio a causa disso. Não compreende que atribuir isto ao próximo de nada serve, que este desafogo a que tantos recorrem na dor não só não a elimina, mas, pelo contrario, agrava-a pelo novo mal que se lhe acresce, pois que quem faz o mal aos outros o faz a si mesmo e, para fazer o bem a si mesmo, necessário se torna praticá-lo em primeiro lugar com outros. A vida provém de Deus e é irradiada desse centro em forma universal. Para que ela possa ser fecunda de alegria, tudo deve circular livremente com espírito fraterno. O egoísmo atualmente dominante, com o seu separatismo, é antivital. Ele obstrui os canais da linfa vital, e as barreiras que desta maneira opõe produzem congestões e estagnações aqui superabundância inútil e ali dolorosa miséria, e por toda a parte tristes diferenças e penosos desequilíbrios de todo o gênero, econômicos, demográficos, orgânicos, espirituais.

Aqui procuramos orientar-nos de maneira diversa, procuramos compreender que a vida funciona de modo inteiramente diverso daquilo que se crê e que se segue, e que a maior parte das nossas desventuras depende de não sabermos comportar-nos. Procuramos a felicidade onde ela está verdadeiramente e a encontraremos se soubermos pensar e agir. Poderão, desta maneira, começar a formar-se no oceano das dores humanas ilhas de felicidade e no espinheiro universal tufos floridos. Na tempestade do mundo, algumas almas poderão, desta maneira, formar em derredor de si uma atmosfera de bondade e de paz, e nela repousar. Nesses castelos, protegidos por forças espirituais, ainda mesmo que isolados, o princípio, no inferno terrestre, poder-se-á ter, aqui e ali, uma antecipação do paraíso. Deste estado de ordem e harmonia interior, não pode deixar de derivar espontaneamente, um símile estado de ordem e, por conseguinte, de bem-estar nas próprias coisas terrenas também.

Cada um desses indivíduos reequilibrados dentro de si, não poderá deixar de irradiar em torno de si mesmo equilíbrio e paz, carregar consigo para onde quer que vá a sua atmosfera de harmonia, e assim ela saturar o que quer que toque, sanando o mal e a dor em seu derredor, depois do havê-lo sanado dentro de si mesmo. Formar-se-ão, desta maneira, na desordem geral do mal, núcleos de atração de bem, do Alto para a terra e de irradiação neste, para o bem de todos. Isto permitirá  formação de correntes benéficas e salvadoras, uma gradual reordenação do caos, uma progressiva transformação da infernal dissonância terrena, na música divina do paraíso. A vida poderá então, cada vez mais, expandir-se pelas largas estradas do amor. A vida tem necessidade, para prosperar, não das barreiras do egoísmo, mas dos canais abertos do altruísmo. E é lei de Deus que nestes canais ela se atire triunfante apenas eles formem, para levar nutrição vital onde existe mal, amor onde domine o ódio, paz onde predomine a guerra, alegria onde reine a dor. É  a bondade de Deus que fez pressão para verter-se nestes canais e por eles circular. São as forças do bem que por eles querem descer até nós, para, entre nós, contrapor-se as do mal e vencê-las, esparzindo a felicidade. As graças divinas procuram as portas abertas e requerem almas dispostas para poder chegar até nós e salvar-nos.

É a estas almas que aqui nos dirigimos, a fim de que atinjam o centro divino e sirvam de canal à terra e, desta maneira, não só conquistem a felicidade para si mesmas, mas também a irradiem em derredor de si cumprindo a sua missão, que é a de receber do Alto e de irradiar para baixo. Elas formarão uma rede de correntes benéficas que envolverão o mundo e, vencendo as influências maléficas, que ao funcionar em sentido contrário querem transtorná-lo, salvá-lo-ão dos cataclismos que hoje o ameaçam.

 

Tudo isto é possível, mas é necessário saber alcançar as fontes da vida que estão em Deus. Para tal conseguir, começaremos procurando compreender algumas coisas elementares. Ei-las. O universo é um movimento contínuo que não se desenvolve ao acaso, mas segundo normas precisas, estabelecidas por uma lei que representa o pensamento e a vontade de Deus.

Quanto mais avança a ciência, tanto mais deve constatar em todos os fenômenos um princípio orgânico que rege o universo e que revela a presença de uma mente diretriz. Segue-se daí que o nosso livre arbítrio não é absoluto, ilimitado. Se podemos agir como loucos, praticando o mal e, consequentemente, provocando para nós mesmos a dor, enquanto a lei de Deus quer o bem, para a nossa felicidade, esta nossa possibilidade de violação, em um sistema universal de ordem, está providencialmente confinada dentro dos limites dados pelas necessidades de nossa experimentação. O homem vive para aprender. Ele deve construir-se espiritualmente, conquistar, não como um instrumento cego e autômato de Deus, mas em plena consciência. É-lhe, pois, feita a concessão de agir em plena liberdade. Mas, para que esta liberdade não possa redundar em sua destruição, ela é regulada pelas reações da própria lei, que permanece inviolada, e que, com a dor, fere o homem com o único escopo de corrigi-lo e iluminá-lo para o seu bem mal ele se aparte da referida lei pelo erro ou pela culpa. Se ele é livre, é, pois, também responsável deve fatalmente sofrer as conseqüências de suas ações.

No mundo atual o homem, na sua ignorância, engana-se, tomando como poder absoluto esta limitada liberdade de agir, que Deus lhe concedeu apenas para os referidos escopos. Ele não compreende que se trata de uma liberdade enquadrada nas férrea reações da lei de Deus, que lhe inflige dor quando ele erra. Assim o homem engana-se ao crer-se árbitro de tudo, quando na realidade não é, senão, árbitro do próprio destino. O homem atual efetivamente não compreende a vida e por isso a emprega quase que inteira a cometer erros e a provocar dores. É natural então que na terra a dor seja dominante, pois que o homem se dedica hoje, sobretudo, a sua construção intensiva.

Quem guia tudo não é o homem, mas Deus. E como poderia o homem guiar em um mundo em que ele procede tão mal, tão pouco pode e de que nada sabe? Se lhe fosse confiada a direção, por orientar-se mal, por impotência ou por incapacidade, o desastre dar-se-ia de imediato. O homem é relativo na evolução, imperfeito e contingente. A Lei é eterna, perfeita e resoluta. O homem é capricho inconsciente, a Lei é disciplina sábia. O homem é desordem, a Lei é ordem e harmonia. A primeira coisa, pois, que devemos compreender é que, acima da vontade do homem, está esta norma que tudo regula, feita de bem, de liberdade e de amor, representando a perfeição. Nada há que se lhe possa acrescentar e nada a modificar; Então, quando o mal triunfa e a dor nos fere, ao invés de culpar a Deus e a Sua Lei, devemos compreender que isto não é Sua obra, mas da criatura que sendo livre e ignara, enganou-se no caminho, e que é justamente por meio da dor que Deus fá-la compreender que errou e a induz a procurar o caminho certo, onde encontrará alegria. Assim, pois, ao invés de rebelarmo-nos ou maldizer, o certo é procurarmos compreender qual foi o nosso erro para corrigir. Se se pudesse chegar ao absurdo de suprimir a dor, como desejaria o homem, a vida se frenaria no seu caminho ascensional, que a conduz à perfeição e à  felicidade, porque então viria a faltar a sua maior mestra e o seu mais poderoso corretivo. A grande coisa a compreender é que nós não vivemos num caos mas sob a guia de um Pai sábio e amoroso que, com a Sua Lei, tende a conduzir-nos, com todos os meios compatíveis com a nossa liberdade, também necessária a nossa felicidade. É necessário compreender que Deus não nos faz sofrer por egoísmo ou vingança, mas para o nosso bem, porque nos ama; que a Lei não faz mal, e inflige dor a quem a transgride, e isso para ensinar que ela é a única e verdadeira via da felicidade. Certamente o homem é tremendamente ignorante e se atira de um lado e de outro, iludido por miragens, cuja falsidade ainda não conhece. Somente sofrendo pode compreender onde foi que errou. É justamente a dor nos mostra quão amorosamente Deus vela por nós, como ele nos guia e age sempre, ainda quando nos fere para o nosso bem Em vista disto, compreende-se agora que não só a felicidade é possível, mas que nós somos realmente feitos para ela e que o nosso instinto, que no-la faz procurar em toda parte, não nos engana. Compreende-se também que há uma via para corrigi-la, mas que não bastando isto, Deus emprega todos os meios compatíveis com a nossa liberdade para fazer-nos enxergar esta via e forçar-nos a atingir essa felicidade. A Lei de Deus indica esta via. E então, a melhor posição possível na nossa vida, a que exprime o máximo grau de perfeição atingível para cada um, relativamente ao que ele é e deve ser, é dada pela vontade de Deus e pela fusão da nossa vontade na d‘Ele, numa adesão tão completa que ambas se fundam numa só. E que mais se pode desejar se não aderir a uma vontade que só procura o nosso bem? Se o homem compreendesse Deus, veria claramente que Ele deseja o seu benefício muito mais do que ele mesmo o desejaria

Muitos se quedam, todavia, perplexos, porque não sabem qual possa ser para eles a vontade de Deus. Antes de tudo, nós, mais ou menos dependentes de nosso grau de evolução, possuímos todos o senso do bem e do mal. A vontade de Deus está sempre sobre as sendas do bem. Uma regra mais precisa é esta: cumpramos o nosso dever, como nos é ele apresentado pelas condições da nossa vida, e teremos leito a vontade de Deus. Mas o que é que se entende por dever? Para estar de acordo com Deus e assim aproximar-se do infinito, não são necessários atos heróicos. Trata-se de estabelecer uma harmonia e isto se pode atingir muito bem pelos meios mais simples e humildes. Para cantar a música divina não é necessário aquela altissonância que fere os sentidos e na terra faz tanto efeito, mas basta apenas executar bem o próprio trabalho, com amor e com consciência. Tudo consiste em saber enquadrar a própria atividade no funcionamento orgânico da vida e do universo. Nós nos valorizamos ao máximo apenas se soubermos desincumbir-nos da função que nos toca. Desta maneira, a corrente vital nos impelirá, pois de outro modo ela estará contra nós e procurará destruir em nós o rebelde e o inimigo.

Não é, pois, a importância e a nobreza de trabalho que decide, mas é o modo pelo qual ele é por nós executado. Este trabalho pode até assumir a forma apenas de dor, isto é, algo que pareça não apenas improdutivo, mas mesmo prejudicial. Na sábia organização da vida, tudo e todos são úteis em seu lugar, cada um ocupa a posição mais justa, segundo a capacidade e o mérito que lhe é peculiar, a mais adaptada para sua vantagem, a mais útil para o seu bem, ainda que seja a mais humilde, desprezível e dolorosa. Observando-se, verifica-se que a concepção do mundo é exatamente inversa de tudo isto, e que tantos males derivam justamente do fato de que ninguém quer executar bem o próprio mister, qualquer seja ele. Todos se sentem deslocados e querem muda-lo, tornando o mundo cheio de descontentamento e de luta. Cada qual pretende valer muito mais do que realmente vale e acredita que o mais certo esteja em mudar de posição, enquanto uma realidade se impõe: mostra saber mais e acaba ficando melhor, aquele que sabe permanecer fiel no lugar que lhe cabe. Hoje considera-se falido quem não triunfa de qualquer modo, não importam os meios que utilize; admite-se que a dor seja um insucesso e uma perda enquanto há possibilidade de uma vitória e de um ganho, não se trabalha senão com o espírito de avidez, reputando-se bravura saber fazer o menos possível dentro do próprio dever, em aparente vantagem própria e prejuízo dos outros. A vida, ao contrário, é para todos uma missão, com objetivos, realizações e mercês ultraterrenas. Antes que operários humanos, somos operários de Deus, igualmente grandes, qualquer seja a posição social. Desincumbir-se da própria função no imenso concerto universal, qualquer seja ela, como nos é oferecida por Deus e executá-la bem, eis a perfeição, porquanto isto é fundir-se na perfeita Lei de Deus.

Este é o segredo da felicidade: enquadrar-se na ordem divina. Quando tivermos desempenhado nosso posto todo o nosso dever, teremos feito o suficiente para que tudo caminhe bem por si mesmo. Podemos então repousar tranqüilos. Quando tivermos obedecido em tudo a Deus, conformando-nos à Sua Lei, propriamente deixamos de ser responsáveis, porque na realidade não agimos por nós mesmos e também não somos passíveis de reações dolorosas como quando nos substituímos a Deus e Sua lei, agindo independentemente. É natural que quando a escolha seja nossa também as conseqüências e males sejam nossos. Mas é natural também que, quando não sejamos senão executores da vontade de Deus, tenhamos direito à Sua proteção e providência. A nosso vida encontra então de novo um equilíbrio, uma sensação de segurança que o mundo de hoje ignora. Desta maneira, fluiremos aquele profundo sentimento de paz que é o primeiro passo em direção a felicidade interior, que é a substância do paraíso. E assim a nossa vida se torna rica, e a nossa obra coordenando-se em um plano universal, torna-se infinita. Se, ao invés, nos isolarmos em nosso egoísmo, permaneceremos destacados e sós e, distanciados de Deus, parecemos perdidos. É necessário abdicar do separatismo e, através da caridade para com o próximo, tornar-se uma só coisa com o todo. E abraçando os nossos irmãos que conquistamos a unidade. Em um universo de princípio unitário é a via da unificação que conduz a Deus. É indispensável olhar com amor todas as criaturas irmãs, porque cada uma delas é um canal através do qual Deus se exprime e nos fala. Para chegar a abraçar Deus, o caminho mais fácil é o de começar por abraça-Lo nas Suas infinitas manifestações da Criação. Em toda parte e sempre, devemos ser executores da vontade de Deus que é bondade e amor. Só nisto é que está a vida. Assim como um órgão ou célula não pode ter uma vontade diversa da de todo o organismo, assim também nós não podemos ter uma vontade diferente da de nosso Pai. E assim como o organismo provê, através de uma sábia distribuição, a que cada célula e órgão execute o seu trabalho e auxilie os outros elementos com os quais está em conexão para a vantagem de todos, assim igualmente Deus proverá a que cada indivíduo quando este tenha cumprido o seu dever, isto é, tenha desempenhado as suas funções com relação aos seus semelhantes.

Esta é a economia da criação. Bem-aventurado é o que sabe amoldar-se a ela. Nessa economia o trabalho é remunerado com justiça e o parcimonioso pode depositar o fruto desse trabalho em caixas seguras, que lhe proporcionarão uma renda garantida para a hora da necessidade, em proporção ao mérito que adquirir. Só assim se pode encontrar uma forma de investimento seguro, que assim é, porque depende apenas de Deus, que é justo, e não dos homens, nos quais não se pode depositar confiança alguma. Consegue-se dessa maneira um pecúlio tranqüilo e pacífico, porque é harmônico, e harmônico porque está contido na sua verdadeira função, que é a de ser um meio aos fins da vida. O homem, universalmente, coloca a riqueza fora do lugar, fazendo dela um fim e não um meio. E assim se torna ambicioso e ansioso pelo dia de amanhã, e, em meio à abundância acaba por debater-se em tormentos. Deus não nos quer ávidos e ansiosos, mas confiantes n‘Ele. “Para cada dia baste a sua pena”. Por que haveremos nós de pretender dominar o amanhã, se dele nada sabemos? Não é pelo vontade que poderemos nos impor a ele, mas pelo obediência à Lei, merecendo. Poderemos assim formar em nós um oásis de paz, não importa qual seja o inferno que nos circunde na terra. Não é o mundo que no-lo poderá dar, com as suas fascinantes mentiras, mas somente a adesão á vontade de Deus. Obedeçamos á Lei e o auxílio está garantido, porque a vida foi querida por Deus e com ela ganhamos o direito aos meios para vivê-la. Todos temos direito ávida perfeita, mas somente quando tivermos antes cumprido os nossos deveres para com Deus. Se não fizemos isto, este direito deixa de existir ou existirá apenas na medida pela qual tivermos atentado para os deveres. O mundo não quer compreender tudo isto, está destorcido e fora dos trilhos. É lógico que sofra e caminhe para a ruína.

Mas para tantos tudo isto ainda não basta para conhecer a vontade de Deus no seu caso particular. Se Deus está presente em toda a parte, no entanto não o vemos jamais manifestar-se por ação direta, mas apenas por meio do pensamento e ação das suas criaturas, por meio dos eventos, e agir, mais do que no exterior, no profundo ou pela profundeza das coisas. É a isto que é necessário atentar. Quando Deus faz uma flor, cria um órgão, matura um fenômeno; não age com as próprias mãos, como nós o faríamos; pelo exterior, mas opera silenciosamente do interior, justamente porque, se Satanás é exterior e periférico e age em superfície, Deus é interior e central e opera em profundidade. A vontade de Deus reside, pois, no interior da vida e daí aflora nos fatos. É uma tácita e lenta transformação que só por fim aflora à realidade sensória, quando todo o processo da gênese estiver completo. Por isto a maioria não a percebe e assim acredita que Deus não esteja presente na Sua obra contínua. É, pois, necessário saber enxergar profundamente com olhos não materiais, mas espirituais. É necessário permanecer com ouvidos vigilantes para ouvir como falam os fatos em derredor de nós, sobretudo como significado espiritual, que não é quase nunca aquele significado próximo e utilitário que nós lhes damos. Se soubermos ouvir, perceberemos que realmente Deus nos fala. Ele se manifestará indiretamente, através de outras bocas e outras ações, mas se manifestará. Efetivamente, através dos infinitos seres viventes e pensantes não lhe falecem as vias para exprimir-se em qualquer linguagem e caso.

Nós nos fazemos iludir pela voz do mundo. Esta é muito diferente. É verdade que fere muito mais os ouvidos, mas não atinge a alma. O mundo tem sempre pressa, porque está encerrado no tempo. Deus fala calmo, porque é senhor do tempo. Por mais que a mundo corra nunca chega exatamente. Deus com a paz das coisas eternas, jamais se engana na hora. O mal clama estertorante nas praças, faz-se ouvir bem materialmente e, por isto, parece prevalecer. O bem, que vem de Deus, enxerga-se mais dificilmente, porque está oculto no interior, onde silencia e espera, mas amadurece na raiz das coisas. As vias de afirmação são opostas, mas as interiores produzem efeitos bem maiores. Os homens escrevem na superfície, mas Deus esculpe nas profundezas, de onde tudo nasce. Assim os bons não aparecem, porque não fazem ruído. O bem move-se mais lentamente, mas produz transformações mais substanciais, por conseguinte mais duradouras. Ele se propaga pacificamente, quase invisível, ramifica-se, infiltra-se no interior sem aparecer, porque obedece aos tenazes e profundos impulsos da vida que o quer. Aflição, alarido e também instabilidade estão no exterior, no reino periférico de Satanás, não nas fontes, onde se encontra Deus. Ali há paz e silêncio: uma atividade imensa e silenciosa que só surge, por fim, quando tudo está feito. Deus opera sem rumor. A Sua ação é tranqüila, igual, segura e tenaz e em paz tudo vence, como uma lenta inundação. Diferentemente da afanosa evolução do mundo, Deus “É” e silencia, e, no entanto, está sempre presente com a Sua ação íntima, constante, benéfica. Só com essa Sua silenciosa presença, Deus alimenta e renova o universo, não da periferia ou superfície, mas do centro, não da forma, mas a esta chegando pela substância onde Ele é fonte da vida. Por isto é que Deus se nos revela em uma sensação de grande paz. É nesta direção, pois, isto é, na profundidade, no espírito, que devemos procurar ouvir as vozes que nos dizem qual é para nós, no nosso caso e em cada momento, a vontade de Deus

O mundo atual não caminha apenas no sentido da unidade política internacional em que está implícita, numa relação de causa e efeito — a unidade econômica, mas avança também para a unidade religiosa. Neste campo igualmente tao importante como o político e econômico, lavra uma tendência, em meio a tantos grupos distintos e hostis, a unidade! isto é, a formação de um só rebanho com um só pastor mas é necessário frisar que isto não se deve interpretar, como não se interpretava para as raças e nações, como supremacia de uma religião e seus representantes, com exclusão das outras religiões e seus representantes. Assim como a futura humanidade será uma unidade racial e nacional acima das diferentes unidades raciais e nacionais, assim também a religião do futuro será uma unidade espiritual acima das diferentes unidades religiosas. Em outros termos, da mesma forma que no campo político, social e econômico, igualmente no campo religioso a unidade não pode ser dada senão pela compreensão e fusão em um todo harmônico das verdades religiosas existentes. Compreensão não significa sujeição do superior ao inferior e, muito menos do inferior ao superior, mas coordenação, segundo o valor intrínseco e peso específico de cada unidade, para a formação de um todo orgânico e único. Cada religião na sua justa posição, consoante a sua elevação espiritual. Ha lugar, pois, para os budistas, maometanos, hebreus cristãos de toda a espécie, inclusive os católicos. Há. lugar para cada religião, para cada seita que supere o espírito sectário, para cada forma de fé, filosófica ou científica, contanto que seja livre e que tenha tendência sincera para o espírito e para o divino.

Também isto pode parecer desmoralização. Mas tantas subdivisões humanas do mesmo sentimento de adoração a Deus, com as quais acredita-se, ciosamente, conservar a fé; são mais questões de forma do que de substância e atingirão a unidade quando souberem superar a forma, atendo-se precipuamente a substância. Dê-se a forma o valor que merece e não mais. Quantos delitos se cometeram por ela, quantos massacres se fizeram em nome do mesmo Deus, que a cada qual parecia tão diverso, sendo sempre o mesmo. É evidente que tudo quanto divide é satânico e que os caminhos de Deus, que são amor, conduzem a unidade. O espírito egocêntrico e sectário é uma expressão do mal. O espírito de compreensão, altruísta, é expressão do bem. Em todas as igrejas se adora Deus, e é o mesmo Deus. E, entretanto, queremos dividir-nos com a pretensão de definir o indefinível infinito, de conceber o inconcebível, de dar ao relativo uma forma a quem, podendo assumi-las todas, está acima de todas as formas! Se a Verdade absoluta é uma só e jamais muda, é natural que no relativo humano não possa caber senão uma Verdade relativa, limitada e em evolução. É natural que a capacidade humana de compreensão não possa abarcar a Verdade absoluta, que está além de toda a inteligência humana e que, pois, a esta Verdade, não se pode subir senão por graus, por aproximações sucessivas. Na livre atmosfera espiritual do universo, todo isolamento fechado de uma verdade particular, é estiolamento e morte. Cada profeta, cada fundador de religião, levou a sua mensagem do mesmo Deus, em formas diversas adaptadas ao homem e proporcionada aos tempos. Não confundamos a forma com a sua essência. As diversas mensagens de Deus não são Verdades diferentes e inimigas, mas sim as formas sucessivas com as quais se exprime a palavra de Deus aos homens em um mesmo progressivo plano de educação.

Não basta a tolerância , que é atitude passiva. É necessário alcançar a compreensão, isto ó, a fraternidade entre as várias religiões. Não se trata de suportar um inimigo tolerando-lhe o erro com um tácito espírito  de condenação, mas se trata de ir ao encontro de todas as formas de fé, de coração aberto, procurando mais do que aquilo que os divide, aquilo que as pode unir. É necessário compreender que elas não são mais que diferentes estádios históricos, fases evolutivas ou formas étnicas de uma mesma religião  única, que evolve paulatinamente e se completa de período em período. Por que deve o adulto ser inimigo do jovem ou da criança, o fruto inimigo da flor ou do botão ou da semente, se é sempre o mesmo eu que marcha no tempo, evoluindo? A atual mania separatista no campo espiritual, torna-se dia a dia mais ilógica e prejudicial. As barreiras que dividem o mundo são ainda grandes, mas na época atual elas deverão desmoronar. A luta entre as religiões esteve até agora unida à luta racial, política, econômica e nacional. É evidente que, conseguindo-se a unificação nesses últimos campos, deve-se conseguir a unificação também no campo religioso. Visto que a realidade fundamental das religiões é uma e a mesma, e que a luta religiosa é freqüentemente a expressão de rivalidade de outro gênero, é certo que, desaparecendo esta, a tendência a unidade em todo campo acarretará a fraternidade também no campo religioso. Esta fraternidade fará com que o mais evoluído compreenda e ajude o menos evoluído, ao invés de condená-lo e combatê-lo. Não é nociva a disputa inteligente quando acarreta cisão e ódios? Não é a essência da religião a união, a fraternidade, a aproximação de Deus amando o próximo? A mais profunda erudição sem o ardor de sacrifício e de fé é puro farisaísmo. É evidente, já o dissemos, que em nosso tempo assistimos a um desmoronamento de barreiras em todos os campos. O instinto expansionista, sempre fundamental e ativo ria vida, jamais como agora, atira uns nos braços dos outros, ainda mesmo que o seja por instinto de violência bélica e um amplexo de ódio. Não importa. Os fins da unificação  em um mundo involuído se manifestam, sobretudo, em forma de luta, que é a primeira fase, do avizinhamento. A vida é sempre expansionista em todo nível, desde as invasões bárbaras, que reduzem os povos á servidão até aos imperialismos políticos, econômicos e á ordem evangélica que diz: "Ide e pregai a toda a gente”. Tudo tende sempre a dilatar-se e, por conseguinte, á unidade.

No campo religioso ocidental esta dilatação não é exeqüível, pela segregação dos dissidentes, mas pela expansão além das formas atuais. É necessário encontrar, para lá do Cristo, chefe de uma única religião, o Cristo universal, conexo a todos, no qual, pois, pode concentrar-se o consenso de todos os justos que seguem os princípios do Evangelho, ainda que formalmente se filiem a outros ritos e hierarquias. Uma verdadeira expansão não pode verificar-se a não ser neste sentido, porque é o único que não gera reações de defesas naturais. Os obstáculos nascem do que é material e terreno. As cisões religiosas nasceram, com freqüência, das rivalidades nacionais e raciais. Quando a idéia assume forma concreta de homens, hierarquias e interesses terrenos, entra-se no campo biológico, com seus absolutos antagonismos. Quanto mais a religião assumir forma material, tanto mais ressentir-se-á das lutas que dominam a vida terrena e delas dependerá. Se esta pode ter sido uma dura necessidade do passado, pela qual a religião, o poder temporal, a força e a guerra tiveram que misturar-se, é também verdade que tudo evolui e que, com o tempo, tudo se espiritualiza. Quanto menos a idéia penetrar no árduo terreno biológico, tanto mais independente ela se torna de todas as limitações que daí derivam e tanto mais possível se lhe torna a expansão e a conseqüente unificação. Estas estão a serviço da espiritualização.

Tal é o processo evolutivo das religiões, que nas suas formas exprimem as etapas seguidas pela ascensão biológica dos povos. Essas formas são o efeito da formação mental dominante nos vários séculos. As culpas e erros que se atribuem a uma hierarquia humana, não passam de culpas de um século, mais ou menos de todos os homens. Quando a evolução biológica tiver civilizado o mundo, a religião ter-se-á libertado da forma terrena e então poderá expandir-se sem reações da parte de outras formas terrenas, rivais apenas porque são formas terrenas. Quando a religião se fundamentar no céu, não haverá, como não há para os santos, razão de rivalidades na terra e desaparecerão todos os males que dela derivam. Céu e terra são dois opostos. Toda potência terrena é uma impotência no céu e toda derrota na terra é uma vitória no céu. Assim, quando a religião for apenas espírito, então automaticamente será universal. A unificação só pode vir fora da terra no único Deus universal que, acima de todas as divisões humanas, domina-as todas.

Em outros tempos, não maduros para tais conceitos, era uma necessidade histórica fixar o verdadeiro na forma, restringindo a liberdade de pensamento no campo da fé, para impedir o seu fracionamento em heresias. O misoneísmo possui funções conservado-as também necessárias. O cisma era o terror de toda a unidade religiosa que representava uma laboriosa e precisa construção, custara milhares de mártires para formar-se e exigia uma plêiade de pensadores e uma legião de ministros para manter-se. Insurgiu-se contra tal espírito conservador. Mas ele em a sua função e de fato não freia a evolução. Não obstante a sua aparente imobilidade, as religiões caminham em relação com o progresso humano. De outra forma teriam perecido. Elas avançam com a psicologia dominante. Idéias que há poucos anos pareciam heresias, como o conceito de evolução, hoje são admitidas. Assim será também amanhã para estas páginas. Deixemos que no homem o finito caminhe gradativamente para o infinito, pois que jamais o atingirá. Deixemos que o homem faça de Deus a representação admissível pelo seu poder de concepção. Tudo quanto ele disser de Deus jamais será Deus, mas a Sua limitação para uso humano. A essência da divina realidade é para nós inconcebível, e qualquer especulação filosófica e teológica não pode nos dar dela mais do que uma longínqua aproximação. O homem não pode ver Deus senão em Seus espelhos. Passam pela terra seres como o poeta, o gênio, o santo, o herói, tão avançados nos quais podemos ver um reflexo de Deus; alguns tão perfeitos que nos aparecem como semelhantes a Deus. Se a Essência divina não é cognoscível. as manifestações da Sua qualidade são visíveis por toda a parte, e nada existe que não nos fale d‘Ele. Então poderemos vê-Lo em todo rosto e forma, amá-Lo em toda criatura, encontrá-Lo em toda parte. Então compreenderemos que Deus não se atinge senão amando o próximo e que, se agredirmos e detestarmos ainda que seja em nome de uma fé, estamos nos distanciando d‘Ele. Acima das diferentes formas religiosas está, pois, a substância da verdadeira religião de Deus, que só pode ser única.

Hoje vivemos ainda em um mundo de cisões se pode dar um passo sem tropeçar numa parede divisória. Nenhuma fé verdadeira pode existir com o espírito sectário de domínio e entretanto é este que se encontra em todo campo. É o mesmo espírito humano de luta e exclusivismo que impera. Deus, o bem, o justo, estão sempre desse lado; Satanás, o mal, a culpa estão sempre no lado oposto. É sempre o homem que age por si e não o homem que se faz instrumento de Deus. Os métodos de Deus são opostos: aqueles que o seguem, antes de pregar, praticam; convencem com o amor e com o exemplo antes de constranger com as argumentações, ameaças de sanções e de condenações morais. A guerra santa é uma contradição. Matar é sempre um delito, mesmo que se cumpra em nome de Deus. A guerra religiosa não se faz com a espada, mas com o exemplo e o martírio. Jamais puderam as perseguições sufocar a verdade, tornando-se, pelo contrário, instrumento de divulgação. Para cada crente, morto pela sua fé, formam-se centenas de novos crentes. É uma estratégia de guerra esta também, ainda que oposta á estratégia bélica humana.

No limite extremo do nosso ciclo histórico os conceitos se tornaram mais ásperos. Se ciência e fé não estão de acordo, significa isto que em alguma delas deve existir algum conceito errado e, por conseguinte, uma delas deve não ter razão. Isto porque uma religião e uma ciência que sejam verdadeiras e completas não podem deixar de acordar, devendo ambas dizer de maneira diferente o mesmo pensamento de Deus. É necessário que essas duas asas do espírito humano se movam sincrônica e harmonicamente, sem o que o vôo não será possível. Não se voa com uma asa só. Com a religião apenas, se cai na superstição, só com a ciência, resvala-se para o materialismo.

Hoje, Oriente e Ocidente estão divididos, não comunicam, não se compreendem. Entretanto, o primeiro tem necessidade dos conhecimentos científicos do Ocidente e este precisa dos ideais espirituais do Oriente. Um simples intercâmbio preencheria as duas lacunas Presentemente as religiões e as várias formas de fé são, com freqüência, causa de separações e de ódio. Quem professa qualquer religião ou fé com estes sentimentos é anti-religioso e toda a religião que não gerar amor, harmonia e união não é verdadeira religião. A verdade que se fundamenta em anátemas e acusações recíprocas de falsidade está muito longe do espírito de verdadeira religiosidade. O progresso do conhecimento exige colaboração em todos os campos, porque cada um está conexo ao outro e toda descoberta, qualquer seja ela, ilumina a todos. Assim, o astrônomo, o químico, o físico, o biologista o psicólogo, o sociólogo, o filósofo, o teólogo etc. se auxiliam constantemente. É necessário que eles se compreendam e se completem fraternalmente. A síntese universal do saber só poderá surgir de tal unificação, em que o intérprete da divina revelação dos textos sagrados concorde com o intérprete do mesmo pensamento de Deus, escrito na realidade fenomênica.

Todos esses dissídios constituem um contínuo óbice às pesquisas e manifestações do pensamento. Cada seção, cada fé, possui uma terminologia própria com que pretende enclausurar a verdade nos limites do seu monopólio. Apresenta as formas, que constituem simplesmente as vestes da própria Verdade, acreditando com isto apresentar a própria verdade. Quem tiver espírito de separatismo se escandaliza com quem, possuindo espírito de unidade, diz a mesma Verdade indiferentemente, de qualquer maneira. Este último, na realidade, acredita dar um bom exemplo de unificação, quando, no campo religioso, animado de fé fala e escreve sobre as mais disparatadas questões como se fossem uma coisa só, quando demonstra que se sente igualmente bem entre crentes de qualquer fé, sejam católicos, protestantes, hebreus muçulmanos, budistas etc., contanto que sejam sinceros, e que sabe venerar a Deus tão bem em uma igreja como em uma sinagoga ou em uma mesquita ou num templo hindu, ou mesmo a céu aberto. Deus, em toda parte, não é o mesmo? Quem possui espírito de unidade, que é muito mais do que tolerância, desfruta dessa confraternização, que ofende o espírito de exclusivismo e intransigência de tantos. As vezes acontece mesmo que uma verdade aceita por uma crença é condenada por ela porque exposta com a terminologia de uma outra e divulgada com a configuração desta. E assim surgem estranhas contradições: um livro ou uma idéia são exaltados, sobretudo porque condenados pela parte oposta, que é sempre de Satanás, e o mesmo livro ou idéia são expulsos como satânicos mal sejam aceitos e subscritos por essa parte. Pobre verdade! Efetivamente, quando se expõe um conceito é necessário manter-se no princípio abstrato, no qual todos estão de acordo porque ele não toca em pessoas e interesses. Mas se se entrar em particulares, até alcançar os representantes terrenos dessa idéia, então a controvérsia é inevitável e a condenação da parte oposta é certa. Isso demonstra que aprovação e condenação são com freqüência frutos de interesses e preconceitos. Muitos concordam hoje em seguir o Cristo da história porque pode parecer estar longe e afigurar-se teórico, mas quantos o seguiriam se Ele voltasse à terra e ferisse os interesses terrenos?

Aqui esboçamos a unificação, sobretudo no aspecto religioso, porque a religião é a base da civilização. Mas neste aspecto estão implícitos todos os outros Os sinais dos tempos nos revelam a aproximação de uma nova era para o mundo Esta será a era da unidade. Isto quer dizer era do espírito, do amor, da consciência. E só quando tudo isto existir, poderá haver também liberdade. Esta é algo que o homem pr cura e que ainda não aprendeu a conseguir. A nova civilização nascerá da substituição progressiva da animosidade recíproca pela ajuda recíproca.

É lei de vida que a crisálida se transmude em borboleta, que a criança se torne adulto e que a flor desabroche e origine o fruto. Tudo deve fatalmente maturar. É verdade que sempre estivemos e todos já nos encontramos unidos em um organismo universal, ainda que muitos não o saibam. Mas hoje estamos unidos mas por vínculos de ódio e de luta do que de amor e compreensão. Que vínculos duros e tristes são estes O homem do futuro será consciente desta unidade que hoje não compreende.Presentemente estamos unidos mais pela dor do que pela alegria, unidos sem querê-lo, unidos sem compreendê-lo, unidos pela força. União suportada, não sentida e conhecida, vivida sem a co-participação consciente desta divina unidade de tudo quanto existe no universo, a qual é a mais evidente expressão de Deus e a maior maravilha da vida.

 




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