Ascensões Humanas

Continuemos a passar em resenha os erros modernos. Uma das maiores conquistas do nosso tempo foi sem dúvida,  a ciência. Mas, bem que mostrasse uma atitude agnóstica, que queria ser filosófica e religiosamente imparcial, esta ciência, sem filosofia e religião, visto que a alma humana não pode fazer nada sem uma orientação qualquer, na realidade possuía a sua era materialista. O seu absenteísmo no campo ético, campo que é impressionavelmente conexo à vida, significaria, efetivamente, negação dos valores morais. O maior dos erros moderno é, pois, o erro moral, que orientou e utilizou mal uma ciência de per si benéfica. Erro profundo este porque fez das conquistas da técnica um meio de destruição material, erro grave, porque, no espírito das massas que, mal sabendo pensar por si, sempre seguem a orientação da classe culta dirigente, ele resultou em espírito de revolta, desordem e destruição. Em nosso século acreditou-se, em nome da ciência, poder se libertar dos tradicionais conceitos de Deus e de Sua Lei, que regulam toda a vida, até o campo ético humano. Isto pareceu uma conquista e uma liberação. Podia sê-lo com respeito às concepções filosóficas e religiosas que, tendo sido vividas e tendo dado seus frutos, reclamariam uma superação Mas superação quer dizer atingir um conceito de Deus e de Sua lei superior, e não a destruição desse conceito. É certo que muitas idéias haviam envelhecido e não correspondiam mais a novas formas mentais. Mas é perigoso destruir não reconstruir, produzindo apenas ruínas, perigoso sobretudo no campo ético e ideal, onde se encontram as diretivas das nossas ações. O orgulho humano exagerou na destruição e, enquanto a incumbência estava em progredir no relativo, alçou a bandeira do ateísmo e da desordem moral e, ansioso pela auto-afirmação, substituiu ao velho um novo dogmatismo, demonstrando com o mesmo espírito parcial que o homem. não muda. A verdadeira ciência continuou, com os seus gênios e os seus heróis, o trabalho tenaz, rígido objetivo, que produziu as maravilhas que contemplamos. Mas um fruto tão belo caiu em um mundo negador de Deus e de Sua lei, que fez péssimo uso daquele fruto. E a ciência foi que arcou com a culpa Em si mesma inocente tanto que hoje, continuando seu tenaz caminho, é justamente ela, que a princípio se tornara um estandarte do materialismo, progredindo sempre, que acabou por nos indicar o espírito e. levar-nos de novo a Deus e à  Sua lei.

Quantas coisas esta ciência ainda nos demonstrará, é impossível suspeitar! Mas é certo que os séculos futuros, bem mais evoluídos, demolirão muitos erros do nosso tempo. E são muitos, conseqüentes da orientação supra mencionada, cujos efeitos práticos ainda se farão sentir. Esses erros foram graves e o mundo de hoje lhes paga as acerbas conseqüências. A Lei de Deus que guia o universo não se pode destruir. Hoje o homem é ainda tão criança que acredita poder, com o seu arbítrio e vontade, substituir-se a ela. Mas só os jovens, os ignorantes e os inconscientes são em geral presunçosos. Os evoluídos são sábios. O grande pecado do homem presente é o pecado de Lúcifer — o orgulho. O mundo atual é todo um tremendo grito de rebelião a Deus e a Sua Lei. Tentada a substituição de comando, de conseqüências terríveis, que vemos na paz como na guerra? Tal mundo se desfaz. Por que? Porque o orgulho cega, faz perder a límpida visão das coisas, destrói o poder diretor e assim acumula erros. Porque o orgulho, afirmação do eu, é negativo defronte a Deus, logo defronte a vida, de cujas fontes o homem, desta maneira se afasta. Resulta disso uma ação desequilibrada, contraditória, descendente ao invés de ascendente. O que é contra Deus e a Sua Lei só pode operar destruição. Então o espírito rebelde a ordem divina volta-se para a forma, com sensualidade e avareza, e se perde no relativo do particular. Eis o mundo de hoje feito de avidez mórbida, de rivalidade sanguinária, de mente destruidora e caótica, caindo sempre, até atingir o fundo. Todo sistema possui uma lógica de proposições em cadeia, a qual, uma vez iniciada, deve desenvolver-se elo por elo, até as últimas conseqüências.

O homem, acreditando poder desorganizar a Lei de Deus, pelo menos na terra, para depois refazê-la a seu modo, com esse orgulho, não desorganizou senão a si mesmo e ao próprio mundo A causa não esta em Deus, mas no homem. A lei é perfeita, é ordem e não falha. Ao homem, operário de Deus, foi cometido, a imagem e semelhança da obra do Criador, um trabalho de criação na terra. A Lei deixa-o livre de errar mas depois o constringe a pagar na mesma proporção do erro, para que possa compreender. A dor e o mal não estão em Deus, mas na ignorância, na vontade, no erro do homem e são eliminados através da sua dura experiência. Assim, pois, tudo isto diz respeito ao homem e é relativo a sua atual fase de evolução. O mal não esta em Deus e na Sua Lei, que não se altera de modo algum, apesar de todos os erros humanos. Pelo contrario, tudo orienta maravilhosamente, não obstante eles. Por isto se vê como o homem é guiado pela sabedoria divina e protegido pela divina bondade, mesmo quando se rebela, se cega e se arrisca a perder-se. Enquanto o homem, abusando da sua liberdade, tenta na própria insipiência transtornar tudo, a Lei de Deus esta sempre intimamente presente e ativa na reconstrução. A destruição age do exterior, a reconstrução do interior. A primeira é explosiva, desordenada cega e violenta; a segunda é tenaz, metódica, sábia e boa, sempre atenta a reparar as faltas. Desta maneira o homem, sempre sofrendo, deve aprender como ser livre e consciente e, por conseguinte, responsável, a saber usar com prudência o poder que Deus lhe concedeu. Mas hoje, dada a ordem do universo e visto que nesta ordem o homem age e pensa devidamente, a sua dor é lógica e plenamente justificada. Justificada não só como conseqüência punidora mas também como condição providencial, porque com o dor se aprende a eliminar o erro e assim com a dor de hoje diminuirá a dor de amanhã, isto é, com a dor se elimina a dor visto que com ela se evolui.

Esses princípios gerais e sintéticos estão presentes na sua conseqüência até nas menores coisas de nossa vida contingente, dizendo-nos respeito muito de perto. Esta está saturada, em todos os seus particulares, de soluções falsas, que, por conseguinte, produzem o mal e a dor. Não sabemos agir ordenada. e harmoniosamente e por isso, através do pensamento e ação, errados, semeamos em cada dia a nossa pena. Na procura tresloucada de gozo e liberdade, tornamo-nos cada vez mais escravizados de mil necessidades artificiais. Sofre com isso a nossa saúde, os nossos interesses, a nossa paz. Para elevar nosso nível econômico, em substancia nos empobrecemos cada vez mais. A supressão da disciplina moral não é liberdade, como se acredita, mas é escravidão. Pode-se rir dos emancipados, mas as eternas leis da vida não se alteram e nela a ordem de elevação moral constitui a base do poder. O poderio se conquista harmonicamente evolvendo e não desequilibrando com a violência que tende a reequilibrar-se, retomando o mal, excitando uma proporcionada reação oponente. O hodierno grito satânico contra Deus, expresso pelo orgulho do ser e pela adoração da força e da matéria, é servidão do espírito livre para com esses senhores. Na realidade o homem perde todo o poder de autodomínio e quem não for senhor de si não pode ser senhor das coisas; quem não possui disciplina em si, não pode determinar e não o caos em derredor de si. Não basta, como se supõe, para obter felicidade e prosperidade, apenas posse das coisas. Se nos aproximamos delas animados de egoísmo e avidez, elas virão a nós envenenadas e por isso nos envenenarão. Desta forma, ao invés de obtermos o gozo, do qual a condição precípua é a paz, chegaremos à  violência, à guerra e, consequentemente, à  miséria e à dor.

Todavia a vida está imersa em um oceano de. substância e nós, com tais atitudes, impedimos que esta nos alcance. Esta substância nutridora, esta atmosfera vitalizadora em que o homem se move e por toda parte, inexaurível, pois que é a onipotente divindade de que tudo nasce. A sua vitalidade e fecundidade são dadas pela circulação, pelas trocas, pela comunicação e pela fraterna comunhão entre os seres. Quando egoisticamente nós contemos o seu livre fluxo, procurando o entesouramento exclusivista, erguemos barreiras que a tornam inerte e estagnante e então a sua potência dinamizante se extingue, Deus se nega e o homem é afastado da fonte vital. Não se enriquece, pois, com a avareza, mas com a ilimitada e benéfica generosidade. Como o mundo faz o contrario, naturalmente empobrece. A Lei de Deus colocou uma riqueza inexaurível à livre disposição dos sábios, que dela sabem fazer uso, mas a exclui dos estultos, que agem em contrário à Sua ordem. Efetivamente não vemos nós o mundo tornado miserável justamente em razão da doida procura da riqueza, enfraquecida pela loucura do poder, escravo por motivo do desejo absurdo de domínio egoísta e, como conseqüência, da procura da mais indisciplinada liberdade? A vida possui leis muita sabias, que favorecem o prudente e frustam o tolo para que aprenda.

Mesmo a prosperidade material tem as suas leis, mas quem as segue? Elas são continuamente violadas. A conseqüente e contínua constatação da geral carência, enraíza nas almas o terror da falta do necessário e se estabelece então uma psicose de carência e uma angústia perpétua. Desta maneira nos acreditamos escravos do trabalho, sem o qual não se vive, e fazemos dele uma condenação na vida. Mas o trabalho é um ato criador, que nos põe na condição de operários de Deus, colaboradores da Sua obra de criação! Ele exprime o nosso eu nas formas que Deus plasma consoante a Sua vontade e potência. Ele representa a nossa realização, e constitui o meio pelo qual adquirimos experiência para evoluir e é o sinal de fraternidade entre os seres. A potência do trabalho esta na cooperação que exprime a harmonia e a ordem do universo. Em vez disso, hoje temos um trabalho rancoroso, rebelde, rival do capital em lugar de seu colaborador, um trabalho desagregante e feito de atritos, mais destinado a destruir do que a criar. Ao contrario, a força esta na colaboração e não na desordenada concorrência. Como todas as coisas, também o trabalho, para ser fecundo e criador, deve estar saturado de amor. Ele deve assim ser executado, não para produzir de qualquer forma, qualquer seja a conseqüência, uma vantagem egoísta, pouco lhe importando o interesse alheio, mas executado de modo a ser verdadeiramente útil ao próximo e de tal sorte que seja executado da melhor maneira possível. A tendência moderna, contrariamente, é a de executá-lo mal e a palma da vitória cabe a quem melhor tenha, sabido utilizar o próximo em seu benefício. Não se baseiam sobre tais princípios a propaganda e os métodos de tanta produção moderna? O objetivo não é de fato o de criar uma legião de consumidores, e de orientar as massas neste sentido, considerando-as um meio de ganho e o homem como um elemento de usufruto, fingindo-se servi-lo? Ora, qualquer seja a meta e a astúcia, é lei que quem viola o princípio do serviço amorável deve colher o que semeou.

O mundo econômico e comercial não pode fugir à atuação da lei universal, pela qual quem faz o bem o faz a si mesmo, quem faz o mal é quem principalmente o recebe. Uma economia agnóstica, que prescinde dos fatores morais é um outro dos erros modernos. A lei moral esta acima de todas as outras leis humanas e, por conseguinte, domina-as e penetra-as todas. O mundo de hoje não avalia nem ao menos quais sejam as verdadeiras fontes do bem-estar, mesmo material e não supõe que este derive de íntimos equilíbrios espirituais em relação à  Lei de Deus.

A nossa economia moderna se baseia inteiramente sobre o "do ut des". Mas a lei do dar e do receber é mais ampla na economia da vida e não se limita a recompensar quem nos deu e na medida em que nos deu. Na divina atmosfera alimentadora de tudo, as trocas são vastas e infinitas e não nos devemos preocupar se não recebemos de quem foi por nós beneficiado e na proporção do benefício. Dá e te será dado. A compensação não se sabe de quem, nem como nem quando virá, mas vira. É necessário compreender que a divina economia do universo é vasta, sempre comunicante, automática e inevitavelmente compensadora. O benefício que fazemos a um anônimo, que depois não se verá mais, tanto circulará pelas vias da vida, que devera voltar a nós. Mas se nós não nos enriquecermos com tais créditos, mas pelo contrario, acumularmos débitos em face aos equilíbrios da lei de Deus, o que então pretenderemos que obtenhamos de retorno?

Eis de que maneira é movido o mecanismo da assim chamada Providencia. Sem mérito como poderemos, pois, esperá-la? Então não nos resta senão a escassez de meios e contínua preocupação que, como se vê, não se elimina de modo algum, antes aumenta por se ter sabido acumular riquezas.

Por tudo isto se compreende como existe um mundo imenso que está além do nosso e que rege e penetra a nossa realidade contingente. Na nossa pequena vida cotidiana, vivemos, sem suspeitá-lo, o infinito. No relativo vivemos o absoluto, no átomo, a eternidade; nas pequenas alternativas de cada hora cumprimos o nosso destino, já por nós preparado no passado, enquanto que forjamos um novo, pois que, ainda que o não saibamos, estamos em comunhão com Deus. Bem-aventurados os que sabem e o sentem. Esses são os dominadores, que ultrapassam a ilusão humana, pela qual a maioria se conduz. Estes últimos permanecem miseramente encerrados na prisão feita pela própria natureza, afligidos pela necessidade em meio a uma riqueza infinita, ansiosos por tudo onde há superabundância de tudo e tudo Deus provê, escravos da matéria, quando o homem é feito para ser dela o livre senhor. Mas que mundo se abre a quem sabe sair de tal prisão Trata-se de imponderáveis que também possuem peso decisivo e podem mudar a vida. Trata-se de sentir essa contínua presença de Deus, alimentadora de tudo. Se em verdade Deus é de tal modo transcendente, que nos foge para o super-concebível, tanto que definir, isto é, encerrar no finito, tal infinito, não é possível sem mutila-lo de tal forma que a Sua definição é um absurdo —  Ele está ao mesmo tempo na outra extremidade do ser, tão imanente que se encontra presente e ativamente criador em cada momento particular da Sua manifestação, que é o universo. É verdade que nós vivemos na caducidade da forma, no relativo e periférico. Mas esta zona exterior da manifestação está sempre em comunicação com a substância eterna, com o absoluto central, de que tudo deriva e permanentemente floresce, fonte vital que é, sem a qual tudo se extinguirá. Para isto também a ciência se encaminha hoje para compreender e amanhã o demonstrará. O orgulho e a revolta ao divino princípio que tudo rege, não importando a imagem que cada um, segundo o seu poder intelectual pode fazer de Deus, constituem o mais grave erro moderno, cuja conseqüência é que o mundo tenta isolar-se das fontes da vida e, assim, praticar o próprio suicídio. Mas a sabedoria de Deus supera a ignorância do homem e o salvará a despeito dele, através de uma dor proporcionada, a fim de que o bem triunfe.

Observemos alguns dos grandes erros do nosso tempo, devidos a sua desorientação.

Uma das graves conseqüências do pecado mortal dos nossos tempos — o orgulho, é a incompreensão do problema da dor, do seu porquê e dos seus fins. Em nossa terra hoje uma parte esta tendente a infligi-lo a uma outra parte, que vive sob a angústia dele. Assim os piores, os involuídos, mais ferozes, não se cansam de organizar aquilo que pode fazer sofrer tantos outros, que formam a outra parte da humanidade, os quais ainda, quando não cheguem a sofrer, vivem sob a psicose do terror de vir a sofrer. Tudo isto acreditou-se que poderia ser justificado por meio da teoria da seleção do mais forte. Mas esta é a força do bruto, que se sobrepõe a todos pelo próprio egoísmo. Não se pode compreender que proveito de um tal forte possa tirar a vida em virtude da base social já atingida no nosso planeta!

Respondamos a pergunta: como é possível existir uma semelhante condenação de dor em um mundo regido por uma lei divina que é  perfeita, boa e justa? Certamente nada poderemos compreender, se não houvermos concluído por aquilo que todos os fenômenos revelam, isto é, que uma lei regula tudo, e se não estabelecermos uma conexão do nosso estado presente com a série de fatos precedentes que se ocultam em nosso passado. Se antes não decifrarmos o enigma do nosso destino individual e coletivo, não poderemos decifrar o enigma da nossa dor. O princípio de seleção do mais forte abandona o vencido a dor, sem nada explicar das causas e finalidades do seu sofrimento. Mas, para quem compreendeu não é possível acreditar que isto não possua uma razão e um objetivo. Nasce assim a dúvida de que, em um regime de ordem, como é indubitavelmente o universo, o fraco esmagado, o vencido na luta pela vida, não seja na realidade um inferior derrotado, de modo a ser eliminado, porque efetivamente é um indivíduo que paga o seu débito à  justiça divina, enquanto que o vencedor o é apenas momentaneamente, visto que, se não fizer bom uso da sua passageira posição, pode suceder-lhe que venha por isso a endividar-se, tendo de pagar caro amanhã, uma vitória de que abusou. Qual nada a seleção dos mais fortes! Vê-se por aí a que aberração pode conduzir a concepção materialista hodierna que regula o mundo.

Na realidade as coisas se passam muito diversamente. Aqui devemos relembrar alguns conceitos já expostos. Comecemos por Deus. Se bem que seja impossível definir o infinito e na Sua essência. Ele permaneça para nós um super-concebível, a Sua lei que O exprime e que nós vemos funcionar a cada passo em todos os fenômenos, diz-nos claro que Ele é ordem, justiça, bondade, amor. Mercê da inteligência  diretriz e vontade construtiva dessa lei, em que se manifesta a presença de Deus em todas as coisas, nós e tudo o mais nos encontramos imersos em uma atmosfera continuamente saneadora e criadora. Na verdade, queiramos ou não, Deus está realmente presente em toda parte, a todo o instante. Esta é a potência interior que rege a vida e as coisas e, se ela cessasse, judo desapareceria subitamente. Todos podem dizer: ela esta presente no meu organismo cujo desenvolvimento regula, bem como as funções que por certo não são produtos do meu querer e da minha consciência. Está presente no desenrolar do meu destino cujos acontecimentos coordena para um fim, ainda que eu o ignore em particular. Esta presente no encadeamento da história, cujos eventos guia para contínuas superações fazendo o homem progredir segundo a lei da evolução. Está presente no ritmo que caracteriza e define todo o fenômeno, do mundo físico ao mundo moral, fazendo do universo uma sinfonia. Deus esta presente como disciplina de cada instante no movimento universal, disciplina da qual nasce a bandeira que no campo do espírito significa felicidade.

Quando tivermos compreendido isto, deveremos compreender que Deus esta sempre tão presente e operante em nós, que de modo nenhum podemos nos separar d‘Ele. Dado que Ele e amor, só Ele representa para nós a felicidade, cuja via esta, pois, escrita na divina lei e cuja consecução só é possível seguindo esta, isto é, fazendo nós o que entendemos por vontade de Deus. É difícil fazer com que o homem comum, subjugado pela ilusão dos sentidos, compreenda que a felicidade, ao invés de se encontrar na satisfação destes, consiste na adesão a vontade divina. É necessário que ele comece a observar e compreender a lei de Deus. Nós carregamos conosco o germe e o instinto da felicidade, que é também um nosso direito absoluto. Por que, pois, estamos tão longe de atingi-la? Será talvez, como poderia dizer o cético, por um refinamento tantálico de crueldade da parte da chamada bondade divina? Não! E por um refinamento do amor de Deus para com as suas criaturas.

O universo esta baseado em dois princípios: amor e liberdade. Tudo o que existe, inclusive nós mesmos, mantêm-se a todo o instante, estando o Deus transcendente dos céus presente e ativo, isto é, imanente em toda a Sua plenitude. Ele, pois, se encontra também aqui na terra a lutar e a sofrer conosco. O amor, que tudo gerou, tudo sustém e regenera a cada momento. Mas Deus não nos ama apenas, porquanto Ele nos quer livres, e nos quer livres como Ele isto é, feitos à sua imagem e semelhança, elevados à  dignidade de seres que possuem uma consciência para saber o que fazem e poderem escolher livremente a via que preferem entre o bem e o mal.

Observemos esses dois princípios.- Do princípio de Amor deriva o de dualidade, pelo qual toda individualização da existência é dada por duas metades inversas e complementares que se atraem e se completam e não se satisfazem enquanto não se fundirem na unidade. Em todo plano, desde o mais material até o mais espiritual, encontramos sempre esse mesmo princípio, que em essência é o amor. Isto se verifica desde o mínimo particular até o máximo: Deus — criação, tudo segundo o esquema dualista. Deus, e a criação em todas as suas infinitas formas, os dois termos contrários e complementares, o perfeito e o imperfeito, o absoluto e o relativo, o centro e a periferia, atraem-se e tendem irresistivelmente a unir-se e não se satisfarão, enquanto não se fundirem na unidade. Deus e criatura são, por conseguinte, feitos para amar-se. E a criatura, pela mesma lógica do sistema, não pode encontrar felicidade senão em Deus. Explicar isto ao homem atual, filho dos sentidos, fazê-lo compreender que a felicidade deve consistir em amar um super-concebível, ou pelo menos a tremenda abstração que é Deus, é empresa difícil. Isto deriva do exagero do conceito do Deus transcendente, o que conduz ao erro contrário de ter então que humanizá-Lo, reduzindo-O a uma reprodução antropomórfica, que a bondade divina nos perdoará. Deus é também imanente em todas as suas criaturas. Podemos assim nelas, que são a Sua manifestação, sempre encontrá-Lo e amá-Lo Nelas podemos verificar como Deus pensa e age, como dirige e faz mover o funcionamento orgânico do universo. A lei pela qual Deus se exprime não é um segredo e, mesmo na terra é sensível. A própria ciência esbarra com ela a cada instante e a perscruta cada vez mais, procurando aprofundar o seu conhecimento. Toda descoberta científica só é absoluta para o homem, porquanto é uma lei eterna já feita por Deus. Não nos faltam, pois, maneiras de encontrar Deus também na terra E para a nossa felicidade, O encontraremos, sobretudo, no mundo moral, derivando deste aspecto da lei todos os sábios preceitos. Nas relações sociais ela diz: amor, ou seja: “ama o próximo como a ti mesmo”. Eis a chave da felicidade. Eis o meio prático para fundir-se em Deus, atingindo-O através das Suas criaturas. Eis como se realizam, até as suas últimas conseqüências práticas, no nosso mundo, o princípio do amor.

Observemos agora o princípio da liberdade. Ele é princípio absoluto, inviolável, precioso dom, porém, arma de dois gumes, que, se mal aplicada, pode resolver-se em grande dor. Aqui o problema do amor se complica com o da liberdade, pois que, sendo o homem livre, pode refutar o amor e escolher o ódio, preterir o bem e preferir o mal, ainda que desta maneira recuse com Deus a felicidade e aceite a dor com Satanás. É um dom, pois, perigoso, mas necessário para que o homem não se transforme em autômato do amor, mas um ser que busca espontaneamente Deus, como assim o quer o amor, que não pode e não deve ser forçado; um ser que conquiste, livremente experimentando, essa consciência de si mesmo e. a sabedoria da vida que Deus pôs na Sua lei q que o homem obedece vivendo. Deus, pois, deixa ao homem a liberdade de amá-Lo ou repudiá-Lo. Não o constringe. Ele quer ser amado espontânea e livremente, não por coação, mas por compreensão. Quer o reconheçamos como Ele é — Pai bom e previdente. Como proceder então, nessas condições,  para persuadir de tudo isto um ser que é livre e que quis escolher as vias do mal? A intervenção de Deus onipresente é indireta. Ele então se afasta do pecador, não se vinga ou pune como se costuma dizer: por que tais conceitos são absurdos em Deus, mas apenas se nega. Na verdade, não é bem mesmo Deus que se nega, porque Ele continua a proteger e assistir ao rebelde, mas é este que em si mesmo negou a Deus. Ora, Deus é a fonte da vida e quem O nega de qualquer forma nega a si mesmo, expelindo-se da vida real e permanecendo então abandonado a si mesmo, fora da lei. A lei não pode manter em suas fileiras ordenadas um núcleo de desordem, um semelhante bubão pestífero e o isola, como o faz igualmente no plano orgânico para qualquer foco de infecção.

O rebelde mantém-se então sob o jugo da lei que o seu eu, que se substituiu a Deus, pretendeu criar para si, logo na miséria da sua ignorância. A conseqüência é desarmonia e por conseguinte, dor. Se Deus não estivesse sempre pronto a operar indiretamente a salvação do pecador, esse seria o caminho da sua destruição.

Essa revolta do homem livre e a sua conseqüente queda na dor não é um sonho, mas uma realidade. Nisto se baseia a vida humana e o destino do homem. Este destino nos é narrado, desde a pré-história, pelo mito da queda dos anjos capitaneados por Lúcifer pela narração bíblica de Adão que, tendo comido o fruto proibido da arvore do bem e do mal, foi expulso com dor do paraíso terrestre, depois pelas vicissitudes do filho pródigo que, reduzido à situação de saciar a fome com bolotas para porcos, volta arrependido ao pai que o perdoa, e assim por diante. Nos tempos modernos esse destino de revolta e de dor é uma realidade tangível que o mundo deve viver. O motivo do passado e do presente é sempre o mesmo: o ser é livre, mas quando se rebela e abusa da sua liberdade surge então a necessidade da dor. Mas não da dor pura e simples, em si mesma uma idéia estéril; e sim de uma dor que não possui, e não pode possuir outro sentido que o de instrumento de redenção, isto é, de uma dor que nos reconduza a Deus e à nossa felicidade. Eis a dor, que não é vingança ou punição ou apenas injustiça indiferente, mas que é ato de amor de um Deus cioso do nosso bem, ansioso para que nós nos decidamos por contínuas superações, e evoluídos, tornarmo-nos assim aptos à união com Ele, em seu amor como é o Seu ardente desejo. Eis que surge assim a idéia central da história do mundo: a redenção. Eis de como a dor se santifica e se sublima como força criadora que nos conduz a Deus. Eis o significado da paixão de Cristo. Estamos assim bem distantes e bem mais acima do conceito terreno da dor que marca o insucesso do ser vencido na luta pela vida.

Assim sendo, ainda quando a dor nos fere, Deus continua sempre bom. Nada devemos jamais temer da parte d‘Ele. Mesmo no erro ele está perto de nós e nos auxilia a conquistar a nossa felicidade, ainda quando a nossa insensibilidade e ignorância clamam pelo azorrague. Tal método foi querido por nós e desaparece mal nos elevemos um pouco mais, porque então ele deixa de ser necessário. Mas, dado o nível em que vivemos, ele prova sempre o amor de Deus, ainda que assumindo essa forma severa, mas que é necessária. Ele prova o desejo de Deus de atrair-nos para unir-nos a Ele, de fazer-nos felizes em uma felicidade que não pode estar senão nele. Na dor que redime, na dor de que se compreendeu a grande função, sente-se o amor de Deus, que a mitiga e a dulçora, até torna-la o alimento do santo, sente-se Deus que envolve a alma na Sua ação salvadora, confortando a dor com o amor. Sente-se então, ainda que sofrendo, que Ele bate às portas da alma para poder entrar, trazendo vida e alegria, sente-se que Ele não pune, mas que faz pressão para erguer-nos até Ele onde, e só onde, poderemos ser felizes. Esta dor, que na primeira fase mosaica foi definida como vingança e punição, na nossa fase, mais evoluída, revela-se como um ato de amor, um dom providencial de Deus, que Ele nos envia somente para fazer-nos compreender o erro cometido e que não tem mais razão de existir, logo que se tenha completado a sua função educadora. Desta maneira o homem experimenta a vida e constrói, através dos seus ensaios e conseqüências, a própria consciência, e aprende que é necessário saber agir com justiça e disciplina, como esta escrito na lei. Quando tivermos compreendido isto, ter-nos-emos unido a Deus e felizes. Então a dor não terá mais motivo de existir e nem causa que lhe dê nascimento.

A vitória sobre a dor não se obtém, pois, atirando-a com ódio sobre o próximo, infligindo mal a outrem, mas rebatendo as suas causas com causas contrárias, isto é, irradiando bem e amor. Na terra, inversamente, acumulam-se as reações maléficas, que se fortificam por meio de um vesgo senso de justiça, pretendendo santificar a vingança. Desta maneira fez-se a vida depender apenas da força e do predomínio, quer moral quer econômico. Assim acreditamos liberarmo-nos da dor, mas, ao invés, constatamos que esta aumenta. As culpas então aumentam e a terra tornada lugar de pena, se transforma no reino do mal. Então impreca-se contra Deus, como causa deste. Mas a causa está no homem e é a fatal conseqüência  do seu espírito de revolta e de sua ação tresloucada. Naturalmente a dor é a providência de Deus e constitui a única via de redenção e salvação. Esta tão vasta dor humana deve ecoar bem longe dos restrito: confins terrestres, chegando até criaturas colocadas muito acima, mais aprimoradas do que nós, que por amor vêm se imiscuir, auxiliando-nos por todas as formas no nosso esforço de redenção. Por intermédio delas parece que o próprio Deus padece da nossa dor e com isto se queira unir a nós, numa comunhão fraternal de amor. Por certo Ele esta presente em qualquer estado do ser, na alegria como no pesar. A paixão do Cristo e a cotidiana repetição do seu sacrifício no rito eclesiástico, não nos dizem exatamente isto? Porque, em verdade, no grande vínculo do amor, nós estamos n‘Ele e Ele esta em nós.

A grande lei da vida é o Amor. Em toda manifestação jamais devemos seguir o caminho do egoísmo que divide, mas o do amor que unifica. Só este último nos conduz a Deus e à alegria. Não devemos resistir a Deus, à Sua potência onipresente; não devemos rebelar-nos com o orgulho, mas tornar nosso. a Sua vontade. Não é possível fugir de Deus. Ele é a atmosfera que todo o universo respira e de que tudo se nutre e vive. De Deus não se foge e Deus não se pode destruir. Estar com Deus significa participar da Sua potência. Estar contra Deus significa estar perdido em um deserto de trevas. Sem Deus nem mesmo o pecador pode viver, e se ele continua vivendo, isto significa que Deus ainda opera nele. O remorso, a dor, exprimem a necessidade de reencontrá-Lo. A revolta a Lei, obstáculo à atuação dele, gera um pequeno atrito na contínua obra criadora de Deus. A Lei não muda, mas algo no universo deve sofrer. Esta rebelião origina uma convulsão em alguma parte. O plano da Lei é tornar o homem livre e consciente colaborador da divina obra da perene criação, um operário, um ministro de  Deus. Como podemos maldizer uma dor que nos permite voltar a ser elementos desta ordem, que nos reconduz à harmonia com a Lei, para participar da grande obra de Deus? Como temer uma dor que nos constringe permanentemente a subir? A nossa insatisfação frente a qualquer conquista humana exp ime essa necessidade de ascensão.

O plano da vida é o de nos conduzir para as grandes unidades. É necessário, pois, que o egocentrismo humano se dilate no altruísmo. Está no instinto do nosso tempo a alegria da superação mecânica dos limites de esforço e tempo, superamento das desilusões da nossa atual fase de vida. Com esse superamento tudo tende a uma maior unificação. A vida social avia-se hoje, mais do que nunca, a funcionar por grandes unidades. Devemos procurar, em todo campo do pensamento e da atividade humana, tudo o que unifica, evitando tudo o que divide, insistir sobre os pontos que possam favorecer a coligação, fugindo de todos aqueles que podem determinar cisão. As vias de Deus são as que tendem à  unificação. O progresso esta em uma delas. Tudo o que nos divide e nos isola, qualquer forma de separatismo, ainda que procedamos em nome de Deus e da verdade, leva-nos para a cisão, que é a obra de desagregação de Satanás. Os homens se revelam sobretudo pelos métodos que usam, mais do que pela verdade que professam. Quando o método é perseguição, terror, ódio e vingança, é certo que estamos na via de Satanás. É um grave erro acreditar que semelhante método facilite a vitória. Na realidade ele é desagregador e conduz à derrota. A rebelião na luta contra uma disciplina moral não significa tornar-nos livre para melhor vencer, mas colidir com a resistência da lei, usando uma estratégia de péssimo resultado. Deus obra pelas vias opostas da convicção, do perdão e do amor. Quem verdadeiramente é de Deus não resiste ao mal com o mal, mas o neutraliza difundindo o bem. A universal religião do espírito, que compreende todas as outras, pede apenas que se ame a Deus amando o próximo como a si mesmo. E bastaria isto para transformar o mundo. O grande erro de Satanás e de quem o segue, consiste em acreditar em que a vida possa basear-se no egoísmo e no ódio e que o triunfo possa assentar-se na força, quando, na verdade, a vida se baseia no altruísmo e no amor, e o triunfo, finalmente, pertence à justiça. Nenhum homem, par mais poderoso que seja, pode alterar esta lei.

 

Existiam muitos homens em uma certa terra e cada um deles, segundo a própria natureza, elaborou um plano de vida. Um se propôs a triunfar no mais baixo e primitivo plano da vida, tornando-se o rei segundo a lei da fome e da egoísta conservação individual, isto é, vitorioso no mundo econômico dos bens e na posse da riqueza. Para isto tudo sacrificou. Não viu outra coisa, nada mais quis e de nada mais se ocupou. E nesse campo venceu. Trabalhou de corpo e alma, sem tréguas, em prol dessa única meta. Casou-se pelo dinheiro, subordinando-lhe o amor. Não teve filhos. Como fruto do seu esforço obteve extraordinário bem-estar. Chegou a ser mesmo estimado e respeitado, mas porque era rico e poderoso e só por isto. Como reflexo, ganhou igualmente autoridade honrarias e louvores. Mas foi pouco amado e na realidade foi apenas invejado. Durante a vida muitos lhe invejaram as riquezas e procuraram arrebata-las. Na velhice muitos desejaram seu fim, para apoderar-se dos seus bens e desfrutá-los. Ele morreu sem filhos, rico e só, nem amado nem pranteado e, mercê do fruto dos seus sacrifícios, outros gozaram. Tal foi a sua vida. Mas ele não tinha possibilidade de escolha, porque esse era o seu tipo biológico, e não podia explicar-se porque era assim.

Um segundo propôs-se a triunfar em um mais elevado plano da vida, tornando-se rei segundo a lei do amor físico e da conservação da raça, isto é, o vitorioso no mundo biológico da multiplicação da carne. A proteção dos filhos e da família o compeliu ao mesmo trabalho e argúcia do primeiro homem, mas com uma finalidade que transcenderia a sua própria pessoa, dado que esta se dilatara de modo a compreender em si todo o grupo família, do qual ele era o centro. Casou-se por amor, teve muitos filhos, lutou, sacrificou-se por eles, trabalhou de corpo e alma sem descanso por essa sua única meta. E nesse campo venceu. Foi por eles amado, mas o seu patrimônio e o seu trabalho não bastaram para tanta gente e a pobreza dominou em seu lar. Teve grandes afetos, mas pouca estima e honrarias nenhuma porque não era rico e poderoso. Durante a vida não foi muito invejado. Na velhice ninguém desejava a sua morte, porque nada havia a herdar. Morreu pobre mas amado e pranteado. Tal foi a sua vida, mas ele não tinha possibilidade de escolha porque esse era o seu tipo biológico, e não podia explicar-se porque era assim.

Um terceiro homem propôs-se a triunfar em um plano ainda mais elevado da vida, tornando-se rei, não segundo as leis da fama e do amor, mas segundo a da evolução, isto é, da conservação e criação dos valores morais que regem a vida. Quis ser o vitorioso no mundo espiritual do amor fraterno do bem e da justiça. Tudo sacrificou para isto. Nada mais viu, outra coisa não quis e só disso se ocupou. Não cuidou de bens materiais e não se casou. Lutou, trabalhou de corpo e alma, sem quartel, em prol dessa única meta. E neste campo venceu. Porém, ele foi espoliado por todos e empobreceu. Não teve filhos e afetos e vagou solitário e triste. Não desfrutou nem estima ou honrarias, porque era humilde e pobre. Durante a vida foi desprezado, quando muito deplorado. Mas ele lutou pelo bem do próximo e sacrificou-se pela justiça e pela verdade. Por toda a parte difundiu luz e amor em derredor de si. A gente que em público o desprezava, intimamente o admirava. Por ocasião de sua morte não deixou mais que as próprias dores, mas acabou amado e pranteado por todos. Após a morte foi compreendido e venerado, e reviveu no amor de uma grande família, a família dos seus filhos espirituais. Tal foi a sua vida. Mas ele não tinha possibilidade de escolha, porque tal era o seu tipo biológico, e não podia explicar-se porque era assim.

Esses três homens haviam trabalhado em três níveis diferentes, cada qual segundo uma das três leis fundamentais biológicas que alicerçam o funcionamento da vida e que se exprimem pelos três instintos: 1) a fome; 2) o amor; 3) a evolução. Essas três leis, assim expressas, são os três planos ascensionais do edifício biológico do nosso mundo. Cada um dos três tipos situa-se segundo sua natureza e com uma correspondente e diferente função. O homem da primeira lei pensa na conservação individual com egoísmo. O da segunda lei pensa na conservação coletiva com a reprodução. Mas nem um nem outro cuida do progresso, do qual só se ocupa o homem da terceira lei. Aqui os vimos agir desorganicamente, como é o caso do mundo de hoje. São rivais e mantém-se separados. Cada qual possui a sua personalidade, o seu instinto, a sua função, a sua recompensa, cada um agindo por sua própria conta. As atividades não estão ainda coordenadas. Cada um dos três tipos se acredita tudo e é levado a operar com espírito de exclusivismo e domínio, ainda que à medida que o homem evolui, passe da primeira a segunda e desta a terceira posição, superando assim a posição precedente inferior. Por isso, cada um, permanecendo no próprio plano, aí encontra a recompensa que lhe cabe. O separatismo não impede a justiça. No primeiro caso a recompensa foi medida e restrita ao usufruto pessoal dos bens; no segundo caso dilata-se mais, polarizando-se na vida dos filhos; no terceiro caso foi ainda mais além e ampliou-se mais alcançando a vida espiritual da coletividade. Porém, quanto menos o resultado for imediato e restrito, tanto mais se expande e dura. Cada um obteve segundo o critério, segundo o tipo, plano evolutivo de ação e função biológica. As leis da vida são sempre justas, mas. no mundo humano egoísta e involuído do estado de separatismo que oferece, elas não podem funcionar senão isoladamente.

Esses três homens morreram e passaram. Depois de vários milênios, retornaram ao mundo, que, entrementes, havia progredido de modo a conduzir a mente humana a ponto de compreender o Evangelho e aplicá-lo seriamente como prática individual e cooperação social, realizando aquela coordenação fraterna de toda atividade, com a qual somente se pode realizar na terra um bem-aventurado reino dos céus. Cada um dos três homens volveu ao mundo com as qualidades do seu tipo biológico e, dada que não podia manifestar-se senão como era, tornou a agir como antes, isto é, cada qual procedendo de acordo com a natureza da sua função. Porém, como se encontraram em um mundo mais evoluído, agora podiam funcionar organicamente.

Então o primeiro homem, utilizando a sua qualidade de trabalhador, e a sua capacidade técnica, torna-se um produtor útil, não apenas para si, mas também para a sociedade. As condições mais conscientes da vida do novo mundo não o constringiram mais a sacrificar tudo para poder alcançar a realização de sua personalidade, o rendimento das suas qualidades. o cumprimento de sua função pôde realizar-se plenamente em seu próprio benefício e em benefício dos outros Ele se tornou assim o rei do mundo econômico dos bens e extraiu dele benefício para si e para todos. Foi também estimado e honrado mas não porque era rico e poderoso, e sim porque era capaz de poder formar e conservar a riqueza. que não possui valor coletivo. Ele pôde assim desfrutar também o amor dos outros, porque a riqueza que antes dedicara a si, agora a dedicou também aos outros. A sua morte não foi esperada para que se apossassem dos bens, que agora, já eram de todos. Ele morreu amado e pranteado porque representava um valor útil a sociedade e porque era verdadeiramente estimado, não pelo que possuía mas pelo que valia e produzia.

O segundo homem tornou-se. o rei do amor terreno, utilizando o espírito, adquirido de sacrifício e de dedicação a família, a sua capacidade de economia e parcimônia, de trabalho fecundo, não no campo diretivo, mas no executivo. Ele representou a carne honesta e pacífica, que animada do espírito de bondade ativa, fez frutificar a terra e as fabricas e multiplicar as coisas com a sua atividade abençoada por Deus. Assim a carne, ávida de multiplicar-se como quer a vida, na o foi constrangida. a maldizê-la e a. resvalar para o vício e para o mal.. Então produzir-se e multiplicar-se não constituiu mais um delito ou um perigo, mas a. alegria de viver. Mas tudo isto foi possível porque quem possuía a capacidade diretora, organizadora ou economicamente genética não monopolizou mais apenas para si o fruto das. próprias qualidades e. reservou o seu rendimento em vantagem da coletividade. Então o amor são e fecundo. não se tornou uma couraça. ou uma incógnita; a família não representou. mais um peso insuportável e um agrupamento de. lobos esfaimados, prestes a destruir os vizinhos; a classe operária não mais se arvorou em uma dinamite pronta a explodir em revoluções. Assim também esse tipo de homem pôde, recebendo o que lhe faltava, dar o que possuía Morreu tranqüilo sabendo que o futuro dos filhos estava assegurado.

O    terceiro homem se tornou, segundo o seu tipo e capacidade, ainda esta vez, o rei do mundo espiritual, o vencedor segundo a lei da evolução. Assim atingiu um maior rendimento para o progresso coletivo com as suas qualidades, podendo manifestá-las, então, em um mundo fraternalmente compreensivo! Quantos atritos, mal-entendidos, dores profundas, quanto auxílio na mais facilitada possibilidade de multiplicar, por meios técnicos e econômicos, a expressão de si mesmo, para que a luz e o conselho, o amor e a bondade chegassem a todas as partes Quanto tempo e energias ganhos para poder ele eximir-se do trabalho inadequado e ingrato de ter de se ocupar de bens materiais e, por conseguinte, quanto maior rendimento espiritual A negligência de riqueza não produziu mais as desastrosas conseqüências de antes. Ele não foi roubado nem se empobreceu, mas pelo contrario não lhe faltou o necessário, que considerou mesmo demasiado, ele que era a negação personificada da avidez. Naturalmente era já tão rico em um nível superior, que não sentiu a necessidade de tomar na terra, do fruto do trabalho alheio, mais que o mínimo indispensável. Quem é do espírito já possui a medida das coisas. Ele não foi desprezado e aviltado, porque negligenciava a posse. O estado de mais elevada consciência do mundo estava finalmente em grau de apreciar um homem, não mais pelo critério da força ou da riqueza, mas pelos valores espirituais. Desta maneira ele foi compreendido e estimado. Não aceitou honrarias que não lhe serviam, mas com infinita alegria essa nova atmosfera de simpatia, que afetuosamente o aquecia e lhe enchia a triste solidão de antanho. O desenvolvimento da gratidão, a concreta manifestação da resposta da vida ao seu impulso na forma de confraternização com as suas criaturas espirituais, a confirmação exterior da consciência intima da própria utilidade coletiva, proveniente de um. consenso amplo, não só multiplicaram, para o bem dos outros, os recursos e rendimentos dele, mas o transformaram, não mais num peregrino ou mártir, operário da dor e sim em homem satisfeito e feliz de ser um trabalhador do espírito, em plena eficiência. Ele não foi assim obrigado a esperar pela morte para atingir nos outros a realização de si mesmo e dos seus ideais de bem.

O que é que tivera tanto poder para alterar a posição desses três homens? Apenas uma atitude da alma, um fraternal espírito de compreensão e colaboração. Essa é a chave da felicidade que esta no reino dos céus. E este espera apenas uma forma de boa vontade dos homens para descer à  terra. No fundo, cada um segundo o seu tipo biológico, não pede senão para realizar-se a si mesmo. Trata-se de uma sã e fecunda lei biológica Mas hoje essa realização, para poder efetuar-se, deve assumir formas involuídas, violentas e caóticas. Assim, o útil fornecido pelo rendimento da própria personalidade, não. pode ser conseguido senão à custa de sacrifícios e danos individuais e coletivos. Assim, pois, na terra está o inferno e o reino dos céus está longe. E os homens de boa vontade são raros e esmagados. Bastaria muito pouca coisa para tudo melhorar: ao invés de combater-se, os homens deveriam auxiliar-se reciprocamente!

Por esta parábola se vê como os mesmos três tipos biológicos, segundo os quais se pode agrupar os homens, somente com a mudança da sua conduta recíproca, permanecendo os mesmos como capacidade e atividade, se transformaram de modo a poder dar. um maior rendimento, para cada um e para todos. Isto significa criar a alegria, e eliminar a dor. A evolução só pode levar-nos à felicidade. E tudo isto está explicado pela presente parábola.

 

Continuemos a descer das místicas alturas atingidas atrás, para vagar agora no nosso mundo, observando-lhe as condições atuais  já dissemos no princípio do capitulo X: “Paixão”, que aqui nos encontramos na fase descendente do fenômeno da personalidade oscilante, o que leva o autor a ver as verdades mais materiais da terra e a focalizar, com respeito a elas, a própria psicologia.

Uma das principais características do nosso tempo é a desorientação, qualidade negativa, expressão da atual fase involutiva. Enquanto a palavra de ordem do nosso tempo se mostra nas diretivas conceituais: razão e analise, a da época que se seguirá: intuição e síntese. Se se atentar para a palavra dos nossos homens de pensamento observar-se-á que ela esta carregada de erudição e ciência, sendo complexa e difícil, mas que lhe falta orientação da suprema simplicidade da sabedoria e do verdadeiro. É uma complicação crescente, que marcha para a confusão babélica, com que no fim desse século se encerrará, mesmo no cérebro do dirigente, a nossa assim chamada civilização, para que, desta decomposição possa nascer uma nova civilização, baseada em outros princípios, sustentada por outros cérebros, próprios de um tipo biológico diferente.

O    corpo social desta corrente de pensamento que a exauriu o seu ciclo e completou a sua tarefa, com a atual civilização, esta se desfazendo. Nesta decomposição prosperam todos os princípios patogênicos que têm função biológica de acelerar a destruição. Em todo campo hoje tudo é destruição. Mas é na putrefação do corpo morto que a vida depõe a semente das suas novas formas. Os grandes criadores, pois, nascem e operam agora, lançando essa semente.

A civilização futura não é muito compreensível aos espíritos de hoje. Pela observação de algumas normas mentais do nosso mundo atual, verificamos que este, se é indiscutivelmente muito forte no campo da desorientação e da destruição é, de outro lado, fraquíssimo no campo da compreensão. Como é possível dirigir povos, provocar e desencadear guerras, Legislar, impor isto ou aquilo, agir em qualquer campo sem ter compreendido o que seja a vida e a morte, a finalidade de cada coisa, o próprio plano do universo? O instinto que tudo guia, basta para o bruto, e ainda que em grande parte o homem esteja embrutecido, o problema da vida se tornou, atualmente, muito complexo para que esses instintos possam bastar. No mundo político, social, econômico, religioso, cultural, movemo-nos em um mar de contradições. Falamos de matéria, espírito, eletricidade, justiça, liberdade, direitos e deveres etc., sem compreender o que exatamente sejam e sem saber colocar cada conceito no seu devido lugar, como parte integrante de um plano que logicamente tudo engloba. Na cultura somos muito fragmentários e divergentes, perdidos em particularidades e em sutilezas inconcludentes. No campo prático se mata, rouba-se, age-se para o bem ou para o mal, sem saber a exata conseqüência das próprias ações. Não o sabe nem quem faz o bem nem quem pratica o mal. Apenas névoas. Existe a fé mas a fé não é exata, é vaga. E a razão de muito pouco vale. Impõe-se tudo esclarecer e tudo demonstrar, para que o homem tudo possa compreender seriamente.

Estranha transformação esta sofrendo o materialismo! Escava e escava na matéria e eis que encontra o espírito que havia negado E as religiões que clamam pelo triunfo porque vêem na ciência uma confirmação, encontrarão uma alma individualizado, designada com aqueles termos e conceitos que antes lhes pareciam tão adversos e demolidores. Hoje todos se encontram divididos sem conhecer a verdade pela qual lutam. Quem realmente luta pela verdade, que e una, simples, única, não pode estar dividido. Quem esta dividido, está nas seitas, nos partidos, nos agrupamentos e interesses humanos, no próprio egoísmo, mas não na verdade. Quanto ainda estamos longe de a haver compreendido A unidade esta no amor recíproco, filho da compensação que ainda falta. Deus e a vida estão na unidade. No exclusivismo e separatismo esta Satanás, isto é, a involução e a morte.

O ridículo e o horror da nossa atual situação serão compreendidos pelas gerações futuras. Então se verá a imensa estupidez de matar, porque se concluía que não se mata uma pessoa destruindo-lhe o corpo. Os chamados mortos permanecem junto a nós mais vivos do que antes e, segundo foram por nós tratados, assim também nos tratarão. Aqueles que se arvoram em juizes e justiceiros, não o são mais do que por um momento, desempenham, para fins que ele mesmos o ignoram, uma dada função biológica. Eles serão, por sua vez, de acordo com o que fizeram, julgados e mesmo justiçados. O papel de rico e pobre é instável, e o de vencedor e vencido, é, como nos demonstra a história, transitório para os povos. As revoluções quase sempre devoram os próprios autores e filhos. Quem utiliza a espada perecerá pela espada. Trata-se de equilíbrios de forças, equilíbrios que obedecem a leis invioláveis que se resolvem em esquemas que o homem ignora e contra os quais nada podem. Como é efêmero para quem quer que seja, em tal ordem de coisas, exclamar vitória.

Os próprios imperialismos dissimulados sob mascaras diversas, sempre iguais, não constituem senão uma forma de obediência a Lei, que concede a palma ao vencedor, apenas para confiar-lhe o encargo de, dominando, coordenar, nutrir e permitir a evolução de outras nações menores. E estas, pela mesma lei, se deixam dominar, nutrir, guiar e instruir até se tornarem adultas, para então rebelar-se e se tornarem, como se diz, livres. É o mesmo que se dá com os novos rebentos que crescem sobre o velho tronco, nutrindo-se da sua ruína. Sempre o mesmo esquema: dualismo, centro e periferia, núcleo positivo e elétrons negativos que giram em seu derredor, pai e filhos. Crescidos os filhos, o pai nada mais tem a fazer. O mesmo se passa com as nações imperialistas. E todos, servos da mesma lei, todos enquadrados no desenvolvimento dos ciclos históricos do tempo. É fatal.

Mas hoje não estamos numa época de compreensão e sabedoria. As idéias são magras e poucas, freqüentemente erradas; há trevas nas mentes e enormes vácuos. Que terríveis provações serão necessárias par a apenas chegar-se a compreender pouca coisa Mas é necessário, porque a sabedoria não se pode conquistar com a eficiência alheia, mas apenas com a própria dor.

Assim progride lentamente o caminho da história. O destino é um desenvolvimento lógico e, quando se lhe conhecem todos os elementos, visto que o efeito esta fatalmente ligado à causa, pode-se então o rever o futuro, para o indivíduo e para os povos. Então a história estará toda presente e o tempo assinala por si só a sucessão de quadros conhecidos, e então também o tempo estagna no pensamento, a intuição supera essa dimensão e tudo aparece permanentemente no presente. O problema está em se conhecer todos os elementos construtivos do sistema de forças formado pelo eu individual, como pelo coletivo de um povo.

Hoje se age ao acaso, em geral por interesses materiais e imediatos, pouco se cuidando do depois que se ignora. Ouçamos as últimas palavras de Buda aos seus discípulos:

"Semeia um pensamento e colheras uma ação.
Semeia uma ação e colheras um hábito.
Semeia um habito e colheras um caráter.
Semeia um caráter e colheras um destino.

Hoje sabe-se pouco ou nada da realidade do imponderável em que se registra tudo quanto pensamos ou fazemos e do qual tudo renasce. Mas hoje domina o involuído e este tipo biológico vive na periferia, não procurando o poder senão na matéria, na força, no dinheiro. O evoluído de amanhã viverá mais em demanda do centro e procurara o poder no espírito, no mérito, na convicção das almas. Ele será mais rico, porque estará mais vizinho da fonte da vida que esta no interior, no centro — Deus. Então a conquista imperialista pela guerra será substituída pela conquista das almas, pelo exemplo, pela iluminação, pela paz.

Que imensos continentes inexplorados serão alcançados pela ciência e pela mente de amanhã! É a descoberta feita com espírito de verdade e não com o utilitarismo de hoje, que cumprira o encargo de arredar todas as barreiras do medievalismo espiritual, que ainda nos asfixiam dentro do exíguo âmbito de suas paredes. O pensamento moderno está ainda encerrado em castelos torreados que fazem guerra entre si. O futuro forçará as portas e derrubará os muros. A vida esta a céu aberto. As arquiteturas lógicas do passado são agora prisões e não casas. Quando se houver experimentalmente provado aquilo que agora a intuição me diz, isto é, que o espírito é um organismo de forças individualizáveis por onda, freqüência e potencial, e que a sua vida se exprime em oscilações dinâmicas ou vibrações de um comprimento de onda que se situa além dos raios ultravioletas, então se poderão construir aparelhos radio-receptores de tais ondas, que revelarão o pensamento incorpóreo humano e super-humano. Então se poderá fazer mecanicamente tudo aquilo que hoje poucos sensitivos o fazem, sós e incompreendidos. Para penetrar-se cientificamente no mundo do espírito, é necessário atingi-lo através da decomposição do sistema dinâmico nas zonas de máxima freqüência, assim como para atingir o mundo da energia se decompôs o sistema atômico da matéria nas zonas mais evoluídas, mais velhas e mais complexas. No fundo da matéria,além da energia que já encontramos nela, encontraremos o espírito. Isto é lógico e análogo no físio-dínamo-psiquismo, trino-monismo do universo. As descobertas já feitas serão comparadas, com as do amanhã, a coisas pueris. Eis o imenso futuro.

 

Ainda urna vez olhemos em derredor de nós. No atual momento histórico existem dois estados: um aparente, superficial, transitório, que todos vêem e que constitui a base de julgamento da maioria; outro real, profundo, dado pelo eterno desenvolvimento das coisas. O primeiro é de destruição, de miséria, de mentira e de ódio, em suma, um estado bestial, involuído. Os melhores, que sendo mais evoluídos conquistaram os valores mais elevados da vida, que não são os materiais, única meta dos involuídos, mas os espirituais, bem preciosos e poderosos — os melhores, repetimos, são hoje perseguidos e deslocados pelos piores. Hoje e exatamente a hora do mal, cuja característica é a negação e a subversão Assim os melhores se tornaram perseguidos, quase que obrigados a esconder-se, enquanto os piores conquistaram tudo. Mas é natural que os revolvimentos necessários para passar de um estado de equilíbrio a outro, evolutivamente superior, sejam também convulsivos. É natural que para passar de um estado de legalidade ao de uma legalidade mais completa e perfeita, seja necessário atravessar uma fase de ilegalidade, que depois se refaz e coordena em uma nova ordem. Também durante a revolução francesa que teve os seus fins históricos e sociais, verificou-se a ascensão da escória. Mas é uma posição falsa, porque não lhe corresponde um valor intrínseco e, por conseguinte, ela não pode durar. Então, ou os filhos de qualquer revolução demonstram estar a altura da posição conquistada, ou é a própria revolução que os mata, como na França ela fez com Robespierre e companheiros. O que, inversamente, encontramos em profundidade? Toda a verdade, pela lei do dualismo universal, não esta completa se não foi vista em seus dois temas antitéticos e contraditórios, dos quais ela se compõe na totalidade. No extremo do fenômeno histórico atual, como aparece na superfície, temos um estado oposto, de preparação subterrânea, de espera e maturação. Assim como se diz que sob a neve está o pão, assim também é sob a tempestade que estão amadurecendo os germes de uma nova civilização. Para compreender isto, seria necessário conhecer não só as leis históricas, mas também as leis biológicas, das quais a história humana não é mais do que uma parte. Quem compreendeu essas leis, não discute mais com os homens que em geral não sabem o que fazem nem por que o fazem. Mas discute com as leis biológicas que o movem e as quais eles, que crêem tanto como o andar, não fazem mais do que obedecer, movidos pelos instintos mais ou menos lúcidos e conscientes, instintos que são as forças por meio das quais as leis os manobram. Isto porque o caminho da história não se faz ao acaso, não está entregue ao capricho ou vontade dos povos e, muito menos, dos seus dirigentes Quem faz a história são as correntes de pensamento coletivo, que são inconscientemente sentidas e expressas pelas massas. E os dirigentes serão tanto mais capazes, quanto melhor souberem sentir essas correntes, interpretá-las, exprimi-las, encarná-las. Mas queiram eles seguir outra via, substituindo-se as profundas impulsões biológicas para desviá-las do caminho, estas se rebelarão e se libertarão deles como de um trambolho. O poder de manter-se não pode possuir finalidades egoísticas individuais eu de classe,. finalidades de domínio, mas deve representar uma função biológica, ser compreendido como uma missão a serviço da vida. De outra forma esta reage e qualquer poder humano se esboroa.

Eis, pois, que no fundo das coisas há algo de bem diferente; estão aí o pensamento e a vontade diretora de Deus, que não são apenas transcendentes nos céus, mas também imanentes em nós e em nossas coisas, presentes com a sua incessante obra criadora. Na direção da história há, portanto, uma obra bem outra do que a pobre e ignorante sapiência humana. Há a sabedoria de Deus. Que isto seja de grande conforto aos melhores, mais evoluídos, hoje expulsos e esmagados.

Quem está habituado a olhar com humildade e amor, pedindo e entregando-se a esse pensamento divino que tudo rege, constata experimentalmente a existência de uma lei de ordem e de amor que está no centro das coisas, que as alimenta e as mantém em vida, ainda que deixando que na periferia, na forma e na matéria, dominem a desordem e o mal. Assim como nas grandes tempestades oceânicas, a poucos metros abaixo da superfície das águas se observa a calma, assim também na história. Sob o grande rumor das revoluções, a queda das classes sociais e dos tronos, o desmoronamento de enormes construções políticas, se verifica a calma das grandes Leis da vida que, lentas mas seguras, vão preparando o futuro. Futuro garantido, como garantida é a primavera que deve (deve pelas leis da vida), trazer consigo a germinação das novas massas. Não podemos, de fato, presumir que a continuação da vida seja confiada aos homens e aos seus expedientes. E, se ela triunfa sempre, e sempre triunfou, como o demonstra o fato de que durou até aqui, isto é porque ela é protegida justamente por essa sabedoria divina que a guia, a nutre e a mantém.
   
Abordemos agora a parte mais importante da questão. O que é que a sabedoria das leis biológicas e, por conseguinte, também históricas e sociais, nos esta preparando para o futuro? A história jamais caminhou uniformemente, mas sempre por ações e reações, por impulsos e contrachoques, progredindo no tempo não como um rio canalizado em margens feitas pelo homem mas como um curso d’água que, deixado livremente vagar pela planície, por ela serpenteia da maneira que o seu dinamismo lhe permite. Logo, ação e reação. Logo, contrariamente ao que presume o cálculo das probabilidades, de modo que amanhã pode suceder o contrário de hoje. Essa é a lei da vida que está baseada, não na continuação indefinida de estados idênticos e constantes, mas na compensação de contrários e no seu equilíbrio. Sabemos que a oscilação entre contrários, isto é, entre um extremo positivo e extremo negativo, em que cada fenômeno se inverte no seu oposto, é a base da luta, da evolução, da própria percepção. O fato mais inverossímil e fantasista para o observador superficial, hoje dominante, é, pois, exatamente o mais verossímil e lógico ao observador profundo. Por isso nos encontramos precisamente em uma noite que precede um novo dia, pois que na vida é exatamente a noite a preparação do dia, é a morte que anuncia o renascimento, é o mal, a destruição, o martírio que anunciam o bem, a construção, o espírito. Encontramo-nos no fundo do vale da onda histórica, que deve necessariamente depois reascender, como tornam a subir todas as ondas. Conclusão: caminhamos para uma nova civilização do espírito, para a nova civilização do terceiro milênio.

Trata-se agora de saber como se conseguirá essa nova civilização. Naturalmente porque é nova, por razões de equilíbrio e compensação ela deve estar nos antípodas do que hoje denominados a nossa civilização. Trata-se, não de retoques do que é velho, de novas ordenações políticas, com a habitual substituição, com vantagem para novas figuras ou classes, não se trata de continuar, mas se trata de iniciar, com princípios diferentes. Expô-los aqui é tarefa muito grande para um capítulo. Bastam-nos alguns acenos.

Os valores atuais, os que se projetam acima do nível comum, pertencem mais ao plano animal do que ao plano que deveria ser humano. O homem atual é involuído, é mais animal do que homem. Hoje vale a forca e a astúcia. A honestidade e o mérito, valores superiores, têm importância mínima. A bondade e a inteligência voltadas para o bem são as qualidades menos úteis na vida social de hoje e chegam a ser mesmo nocivas. Hoje o preço é medido pela capacidade de prejudicar e pela utilidade extraída, não propriamente do valor. Isto acontece justamente porque a balança dos juízos humanos é a do animal, mais que a de um ser superior. Hoje o poder não é compreendido como uma função biológica, como missão a serviço do povo, mas e conquistado como qualquer meio com objetivos de vantagem individual. A seleção biológica de um tal tipo tido como o mais forte, corresponde a estados primitivos, involuídos. A evolução impõe a passagem para formas de luta e de seleção biológica mais elevadas, dirigidas a formação de um tipo menos inconsciente, menos egoisticamente isolado. A vida caminha para a formação de grandes unidades coletivas humanas, em que é necessário compreensão e colaboração, e não mais subjugação e proveito. A época do senhor e do escravo já passou. Marcha-se para novas formas de liberdade que, porém, não significam como acredita o homem de hoje, abuso e licença, mas significam uma nova disciplina, mas elevada, uma ordem mais férrea e uma consciência que compreenda a utilidade disto e lhe obedeça, ainda que seja por espírito utilitário.
   
Hoje se crê no número. Basta uma maioria, não importa de que elementos, para formar uma verdade, um direito, para estabelecer uma norma de vida, urna lei. Ora, como pode a quantidade fazer a qualidade? Nós não podemos formar nem ao menos uma única unidade reunindo um número de zeros que seja mesmo infinito. Isto é elementar. Hoje a matéria é tudo Ela é apenas meio e se arvorou em fim. A riqueza é o objetivo da vida. Troca-se o continente pelo conteúdo. O trabalho material vale mais do que o intelectual. O que decide na difusão de uma idéia não é o seu valor, mas a posse de meios materiais que podem difundi-las. As opiniões fabricam-se mecanicamente. Basta possuir a imprensa e o radio. A grande floração de meios de que se enriquece a nossa pseudo-civilização mecânica e utilitária, nos fez esquecer o melhor. Eles absorveram toda a nossa atenção, sujeitaram o nosso espírito, invadiram tudo, substituindo-se a tudo e pretendendo bastar a tudo. Mas já sentimos o vazio terrível que está em nós, a carência de diretivas, porque sentimos cada vez mais que somos incapazes de dirigir esses meios sempre mais poderosos. E o perigo é grave, porque se não soubermos dirigi-los com sabedoria, eles se constituirão em nossas mãos um instrumento de destruição universal. Isto o mundo já viu e fez nestes anos. Basta continuar um pouco ainda nesta loucura e a humanidade será destruída, ou pelo menos, reduzida ao estado de barbárie. Mas dir-se-á: para alcançar isto, urge um homem novo, consciente, justo, o que foi e será sempre uma utopia. Ora, a história nos mostra com freqüência que é justamente a utopia que será a verdade de amanhã. Um exemplo disso é o Cristianismo. Além do mais, há um fato positivo: a evolução. E necessário evoluir. Essa é a lei da vida, que sempre fez pressão no íntimo das coisas, não só para manifestar-se, mas também para subir a manifestações sempre mais perfeitas. Mas se luta tanto, sofre-se, experimenta-se, e tudo por esse motivo? O amanhã deve, por lei, superar o hoje. Ademais, o homem atual alcançou um ponto crítico em que não é possível continuar com os velhos sistemas, impondo-se uma mudança de rota. Os poderes de hoje em suas mãos são muito superiores àqueles que ele possuía no passado. Isto implica a necessidade de uma proporcional sabedoria, para saber como empregá-los bem. O homem que possui a bomba atômica não pode agir com a mesma inconsciência e psicologia de ferocidade com que agia o guerreiro medieval, que não dispunha senão de uma lança ou pouco mais. Com essa psicologia, o homem moderno destruiria a humanidade.

Como se vê, a utopia de uma nova civilização não se apoia em sentimentos de bondade e de altruísmo. Conhecemos o homem e sabemos o que se pode obter dele e quais são as molas que o movem. Faz-se, pois, apelo ao terror que lhe inspirará a perspectiva certa da autodestruição. Faz-se depois apelo ao seu senso utilitário. Pede-se somente que o novo homem seja suficientemente inteligente para poder compreender a enorme vantagem que pode advir para todos, da valorização do fator moral e espiritual na vida social, porque só assim se pode obter paz., confiança e aquela segurança que é a única garantia de qualquer fruimento do fruto das próprias fadigas. Se não se compreender isto, é inútil reconstruir. Com a psicologia do homo homini lupus, com o sistema do revólver em punho pode-se também fazer um inferno para os. demônios e para os danados que vivem na terra e um purgatório para os justos, que. assim se apressarão para procurar mundos melhores. Mas para a terra, para quem nela trabalha, nela possui e prolífera, só haverá desesperação. É necessário compreender verdades elementares como estas: se se semear violência e mal, não se pode senão recolher violência e mal, e a reconstrução não se pode operar senão recorrendo-se ao trabalho, que é o ato criador pelo qual o homem se torna operário colaborador de Deus; não convém jamais fazer mal aos outros, porque quem faz o mal, nunca o faz aos outros como parece, mas o faz realmente a si mesmo.

Há leis na vida. Para se obter determinados resultados, como por exemplo o nosso bem-estar, é imprescindível seguir normas. Cada ato tem as suas normas, como cada fim tem o seu caminho para ser seguido. Todos nós desejaríamos viver em um jardim, porém, não deixamos de contribuir para um campo minado. Que poderemos esperar, pois? Mas cada um pensa: eu vencerei e me refarei à custa do vencido. Não! Os vencedores não vencem desta forma. Apenas, através da sabedoria divina desempenham uma função biológica diferente da dos vencidos. Funções opostas, que se devem compensar e equilibrar para consecuções comuns que a vida colima, para todos, em formas diferentes, segundo as diferentes capacidades O homem do futuro deverá ser mais inteligente, a tal ponto que possa superar as ilusões psicológicas e não cair nos erros em que estas os induzem.

Concluímos. O materialismo, fruto dos últimos séculos, fruto espiritual e material, já deu todo o seu rendimento. Como filosofia já se esgotou e agora é posto a margem pela vida Como técnica, deixou um produto útil que é o domínio sobre as forças naturais, postas em parte a serviço do homem. Este produto útil é o produto do nosso tempo e vai ser transferido (reduzido, porém, de fim que é hoje a meio que será amanhã), ao seio de uma nova civilização de tipo diferente A nossa já atingiu os seus fins. A nova atingirá outros mais elevados e complexos, servindo-se dos produtos do trabalho executado pelo nosso tempo. A vida hoje diz: basta, por este lado. E acrescenta: operemos a compensação, completando o edifício de um outro lado. Um vazio tremendo se formou exatamente do lado espiritual. É uma multidão, uma atrofia perigosa para o equilíbrio, uma carência patológica que urge remediar. E as forças da vida se apressam hoje a preencher a falha, convergindo a sua ação precisamente nessa direção, semelhantemente ao que fazem na defesa orgânica. Essas forças propõem-se agora a construir o novo homem do espírito. Atualmente nos encontramos na profunda noite da matéria. O mundo está desorientado, sem guia e com muito pouco senso. O espírito parece morto. Não existe mais arte. A música é um pandemônio de rumores irritantes. Hoje a vida está tentando a construção de novos e grandes organismos coletivos, especialmente de colossais unidades biológicas, de que o indivíduo é uma célula. Este novo ser, do qual as massas constituem o corpo, ainda vaga incerto à procura da sua alma diretora, como se fora um antediluviano monstro paleontológico. Aturdido pelo rumor de quem mais grita e fere os sentidos e os seus instintos, desconfiado e crédulo, arredio e esperançoso, rebelde e fraterno; esse corpo social das massas, ainda informe, procura auscultar no seu instinto a longínqua voz da vida, seu único guia. E a vida está pronta para gritar nesse seu instinto uma palavra nova e as massas estão prontas para ouvir e a seguir. Jamais como hoje, entre tanto esfacelo e atabalhoamento os espíritos  estiveram tão preparados para se incendiar sob o influxo de uma palavra ardente, feita de verdade verdadeira, sentida, vivida, dita com seriedade. E a esperamos. Virá ao certo. Disto cuidam as sapientes leis da vida.




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