Nos capítulos precedentes observamos o principio da unificação e a sua atual atuação no mundo, que representa a fase presente do seu progresso. Trata-se da coordenação de múltiplos elementos antes heterogêneos em novas unidades-sínteses, o que significa uma ascensão na hierarquia do ser, dado que este é um momento de reordenação progressiva do caos, através do qual tudo tende a voltar a Deus. Qualquer que seja a atitude que o homem queira presentemente assumir, no bem ou no mal, o fato novo que exprime o progresso atual é que tudo hoje começa a suceder em escala sempre crescente, em razão de que as homens se compreendem a distâncias cada vez maiores, agrupando-se, consequentemente, em unidades mais amplas.

Falando em A Grande Síntese (Cap. XXVII) da lei das Unidades coletivas, constatamos simplesmente esta estrutura analítico-sintética, isto é, coletivista, através de reagrupamentos orgânicos no universo. Aqui estamos observando alguns casos particulares situados no campo social da presente fase histórica, analisando algumas unidades coletivas, sobretudo no seu processo de formação, ou seja no aspecto, não estático, mas dinâmico de sua transformação.

No capítulo anterior verificamos assim o fenômeno hodierno das grandes unificações mundiais na fase de interesses econômicos.

Passamos agora a observar o mesmo fenômeno no campo político e finalmente no religioso. No estudo destes casos particulares de unificação, encontramos ainda uma explicação e uma confirmação do monismo que sempre nos guiou, nesta obra Por este estudo o leitor verá que todos os problemas são sempre orientados para o mesmo princípio universal. Mesmo agora, partiremos tendo um ponto de referência de caráter universal.

A criação não é o resultado da intervenção exterior por parte de um Princípio transcendente que do nada cria tudo de uma vez. A realidade fenomênica nos mostra universalmente que a criação é o resultado de uma contínua e íntima atividade de um princípio imanente, cuja faculdade criadora deriva do fato de dispor de um modo permanentemente novo e diverso de formas transitórias e caducas, numa substância que é indestrutível. O que muda e se destrói é apenas a forma. É apenas esta que nasce do nada, e não a substância. Esta é envolvida por uma cadeia de contínua composição e decomposição, segundo modelos diferentes. Tudo se individualiza em tipos definidos. Compondo-se, passa a existir. Depois desintegra-se, para recompor-se de novo, em uma existência mais completa e perfeita, consoante a marcha da evolução. Através deste florir e fenecer para reflorir, nascer e morrer para renascer, a vida avança — movimento que, se é esforço e parece instabilidade, é meio de inexauríveis conquistas. Por isso é certo que quem toma por realidade definitiva a forma transitória e a ela se fixa, abraça apenas uma aparência e se perde na ilusão. Isto não acontece a quem se fixa na substância.
   
Dito isto, vejamos a aplicação. A nova era, na qual o mundo esta para entrar, não é uma criação nova do nada, mas somente uma forma diversa e mais elevada de vida, em que os elementos individuais e sociais da humanidade, hoje existentes, serão dispostos diversamente, isto é, mais harmônica e organicamente, com maior amplitude e profundeza de fusão, com a supressão de tantos atritos dolorosos, de modo a que se possa formar uma individualidade biológica coletiva mais harmônica, extensa, complexa e perfeita, ou seja, uma civilização mais avançada.

Há milênios que os indivíduos sofrem uma elaboração dentro das mais variados acontecimentos históricos, que de modo nenhum se podem repetir igualmente. Ainda não existe a compreensão, mas há a possibilidade de ser alcançada. Indiscutivelmente o homem é na maioria dos casos, um involuído. Mas dois fatos novos surgiram: a extensão das suas faculdades racionais, mercê da ciência e da cultura, e o progresso mecânico, que libertou o homem do trabalho material e lhe facultou fáceis e rápidos meios mundiais de comunicação. Formou-se, pois, na humanidade, a capacidade e o meio para que ela se sinta em qualquer dos seus pontos. Não existe ainda o senso da organicidade, mas as suas premissas já estão plantadas. O mundo esta maduro para começar a compreender movimentar a idéia nova de unidade.

A velha mãe Europa completou grande parte da sua tarefa irradiando a própria civilização para as duas Américas, as suas duas filhas, a latina e a anglo-saxônica, nas quais se expandiram e revivem as duas grandes raças européias. O mundo esta dividido hoje entre as duas únicas grandes potências: Rússia e América. De qualquer maneira deverão defrontar-se e decidir da supremacia mundial, alcançada a qual, tudo girara em torno de um único centro, aquele que demonstrar como potência, justiça e inteligência, ser o melhor. Somente a formação de um único governo central poderá estabelecer uma ordem que isole e elimine a violência bélica dos Estados separados. Os idealismos antibélicos podem exprimir um desejo e preparar o terreno à  paz, mas não são por si sós suficientes para eliminar a guerra.

No nosso século de movimento e velocidade, assistimos a um contínuo desmoronar de barreiras. As paredes divisórias, erguidas pela ignorância humana, por mais que resistam, vão sendo paulatinamente demolidas. No campo político revela-se absurda e ofensiva para os excluídos a idéia de uma superioridade racial, como o é também a de uma absoluta superioridade racial, como o é também a de uma absoluta superioridade individual. Tanto mais perniciosa é semelhante idéia, quanto ela tende à  escravização e ao extermínio de outras raças ou povos. Toda raça possui qualidades que não se formaram ao acaso e que têm uma função coletiva Cada povo pode oferecer uma contribuição útil à formação do novo organismo da humanidade. E se existe uma raça mais evoluída, esta tem, por isso mesmo, o dever de educar e fazer evoluir, e jamais o direito de esmagar e desfrutar.

A mentalidade moderna, especialmente depois das últimas experiências bélicas, é impelida a fazer a crítica do velho conceito de nacionalidade, que dividiu e prejudicou o mundo por milênios. Então interroga: que interessa a qualquer um, matar, por motivos de estratégia política, homens que não conhece? Em face de qualquer afirmativa o espírito crítico moderno vai espiar por trás dos cenários, originando-se então a dúvida de que as exaltações heróicas, as honorificências bélicas podem ser criações artificiais dos governos ou classes sociais, a serviço dos seus objetivas egoísticos, e que efetivamente não interessa aos povos assim conduzidos ao massacre, para vantagem de alguns. O racionalismo moderno abalou a confiança simples de antanho. Os últimos desmorona mentos de grandes potências e os rápidos transtornos que sofreram as pregações e os ideais, puseram a mostra o desgaste de muitos políticos que em geral antes se mantinham ocultas. O lamentável aspecto dos governos desnudados desacreditava a idéia de Estado. A proclamação feita aos quatro ventos do abusos praticados pelos dirigentes soou aos ouvidos do cidadão, inimigo natural de seu patrão estatal não mais como uma reivindicação de justiça, mas como uma simples acusação pública contra toda autoridade, razão e justificativa de desordem e conseqüente incentivo à rebelião. Degringolou assim o prestígio da autoridade em si mesmo, personificada em quem quer que fosse. O homem, tornado o mais astuto e suspicaz pela constatação de tantos enganos, começa a compreender os truques de todos os governos, de todos os programas, de todos os partidos e sabe agora por que método a imprensa fabrica a opinião pública, e em meio a tantos mestres, aprendeu a desconfiar de todos. O homem de vida privada quer os seus negócios, a sua paz. Os povos estão cansados de guerra. Eles não admitem hoje senão uma guerra: a guerra contra aqueles que pretendessem desencadear novas guerras. Por este motivo, quem deseja fazer a guerra, antes desempenha o papel inocente do agredido, proclamando ao mesmo tempo que é o defensor da paz.

No entanto, murmura-se: o pacifismo abre as portas ao inimigo. É verdade, mas o atual transtorno e relatividade de fronteiras e com os meios aéreos que os podem superar, com a moderna tendência a grandes unidades mundiais, tal frase perde dia a dia em significação. A guerra se faz, cada vez mais, com capitais e indústrias, e, cada vez menos, com patriotismo e espírito heróico; cada vez mais com a capacidade técnica e cada vez menos com o valor militar Por isso tem mais ação protetora para o povo o senso orgânico industrial do que sentimento bélico. O mundo se transforma, caminha para a fase orgânica coletiva. Ora, o coletivismo é, pela própria natureza, colaboracionista, anti-agressivo e pacifista. Pelas suas naturais destruições, a guerra encaminha-se para destruir a si mesma. A técnica a tornará tão destruidora que o mundo entrará em coalizão, em autodefesa, contra quem quiser recorrer a ela. E assim o espírito belicoso de virtude se transformará em culpa. Tudo isto hoje pode parecer desmoralização mas, com a evolução, as necessidades e os valores éticos sociais mudam. A vida avança e abandona os valores que não mais a servem. O que servia em um mundo de paz temporária, permitida por um equilíbrio instável entre tantas nacionalidades distintas e rivais, não serve mais para um mundo que gravita em torno do único poder central, para um mundo orgânico ligado assim ao pacifismo. Os meios técnicos conquistados, assim como o emancipam dos esforços animais, o levam a aplicar as suas energias em lutas mais elevadas, para servir a uma seleção espiritual e não material.

O  patriotismo, sentimento tão fundamental no passado, para a defesa nacional, ressente-se da mutação condicional da vida e se transforma. Ao invés de surgir como exaltação heróica,  ele se nas revela em outros aspectos que lhe são peculiares, em conexão com sentimentos de. intolerância, rivalidade, agressividade, guerra e destruição. Cada um desses sentimentos encadeia-se com outro, numa seqüência de raízes profundas. A elevação do nível de vida, a progressiva evolução do ser humano, tornaram este mais sensível a tudo, especialmente em face da destruição cujas dores se tornam cada vez mais insuportáveis Se o patriotismo é belo dentro dos limites pátrios, no exterior constitui uma ameaça, e a cada exaltação patriótica interior, corresponde uma recrudescência de ódios nos países vizinhos. Estes isolamentos egocêntricos se tornam gradativamente mais absurdos em um mundo tão intercomunicante nos seus interesses e relações de qualquer gênero.

Hoje sentimos o peso das barreiras às quais nos sujeitávamos no passado, resignados como a um fato inevitável. Tem-se sede como nunca de liberdade, de uma liberdade mais ampla que a precedente, de mais espaço, porque o mundo de crianças transformou-se em adulto. Como nunca, hoje o homem sente que a vida é tanto mais bela quanto mais livre. A intensificação do dinamismo moderno e dos meios de movimentação que satisfazem a este dinamismo, exige liberdade. E uma maior liberdade não se pode obter senão com uma tolerância e compreensão proporcionalmente maior. Do princípio de que é grande quem ama apenas a própria pátria, odiando todas as outras, chegar-se-á ao de que é grande quem ama ao próximo como a si mesmo. Aquilo que perante a velha mentalidade parece desmoralização e, inversamente, uma queda de barreiras. O patriotismo do futuro abraçara todo o mundo, e um homem não será cidadão a não ser da nação humanidade. O tipo biológico do futuro, senhor do planeta, o vencedor da luta pela vida nas suas novas formas, não será o homem belicoso, violento e feroz de antanho, mas um ser orgânico, "o homem social", célula de um imenso organismo humano, cuja vida nada mais terá a ganhar com a extorsão do indivíduo pelo indivíduo até agora praticada, mas se baseará no desfrutamento das inexauríveis riquezas e energias que transbordam da natureza.




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