Eis que, partindo de uma visão cósmica e de conceitos universais, chegamos agora a aplicação destes nas mais longínquas conseqüências  no nosso mundo e no momento atual. Referimo-nos as condições da hora histórica presente, as quais ainda que sejam conseqüências de princípios universais, na sua essência são transitórias e relativas. O mundo está atualmente dividido em duas partes separadas por um abismo intransponível: o oriente comunista e o ocidente liberal. Cada uma apoia-se em seu princípio idealístico. Eles são reciprocamente exclusivistas e irreconciliáveis. Isto porque por trás dos ideais esta o os interesses, que são irreconciliáveis. Os verdadeiros ideais são verdades universais, e não particulares e sobre esta base o acordo é natural. Se há conflito e porque as duas partes são rivais no mesmo terreno humano e os homens que o compõem pertencem ao mesmo tipo biológico e ao mesmo plano de vida. Cada uma delas pretende esconder atrás dos ideais apregoados os próprios interesses. Por isso eles se acusam reciprocamente sem cessar, cada uma tendo razão enquanto esta no campo do ideal e, tendo culpa, quando na prática aplica este ideal apenas em vantagem própria. O quanto de razão cada uma possua, ainda que pareça sacrifício, constitui a sua força e a parte de culpa que cada uma tem, embora pareça vantagem, forma a sua fraqueza. Apliquemos sempre os princípios acima expostos, ou seja: evolução para a unidade é crescimento em potência, involução para a cisão é decréscimo em potência.

Observemos. A Democracia possui uma parte de razão que lhe é dada pelo princípio de liberdade. Isto representa a sua força, pela qual ela pode acusar o parte contraria. Mas também possui uma parte de culpa representada pela injustiça econômica, pelo egoísmo capitalista e pela desigualdade na distribuição dos bens. E isto representa a sua fraqueza, pela qual ela se expõe as acusações da parte contraria. O Comunismo, de outro lado, por sua vez tem uma parte de razão dada pelo princípio da justiça econômica, da igualdade e solidariedade social. Aqui está a sua força, que lhe faculta acusações a parte contrária. Mas também exibe uma parte de culpa, dada pelas limitações a liberdade e ao individualismo, expressas pelo absolutismo e pelo capitalismo de Estado. Nisto esta a sua fraqueza, que o expõe as acusações da parte contrária.

Assim cada um dos dois sistemas encontra justificação no fim a atingir, mas também possui as suas culpas e, por conseguinte, os seus pontos fracos no modo com que procura atingir este fim, visto que em ambos os casos realmente só existem em mira vantagens próprias. Trata-se, no fundo, em todos os quadrantes da terra, do mesmo homem involuído, que age com idênticos critérios. Assim, se um dos dois tem as suas reivindicações teóricas a fazer, com o que se justifica, possui também as vítimas que o acusam: de um lado as vítimas do cárcere e dos trabalhos forçados, de outro, as silenciosas e "livres" da miséria, aquelas que geraram a revolução comunista.

O que leva um sistema contra o outro é a sua parte de culpa e isto justamente porque a vida quer destruir esta parte, valendo-se dos dois antagonistas como um meio de recíproca depuração, de modo que deles não sobreviva senão a parte em que ambos têm razão. De um encontro entre os dois resultará a destruição daquilo que cada um possui de egoísmo separatista, anti-vital para a coletividade! pela qual, efetivamente, todos trabalham. É inerente à  natureza humana que culpa e razão, méritos e defeitos se apresentem conjuntamente imiscuídos, e é lei de vida que, embora o homem seja separatista, tudo seja comum entre os homens. A solução não pode estar senão em uma recíproca depuração que elimine em cada um a parte de culpa. Sobreviverá aquilo que de melhor existe nos dois. Deste modo vencedora será unicamente a vida, que conseguira o seu fim de fazer progredir a humanidade e com este objetivo utiliza ambos os antagonistas, confiando a cada um deles um princípio a ser afirmado. Neste sentido o Comunismo possui uma função vital, que é a de lançar no mundo uma idéia de justiça com métodos de tal ordem que ela possa ser lembrada bem claramente por aqueles que, embora tendo-a recebido do Evangelho há 2.000 anos, acharam mais cômodo não tê-la posto em pratica. Neste sentido o Ocidente começa hoje, queira ou não, por prevenir o inevitável que ia esta iminente pela imposição das massas em plena arremetida, a aplicar vários princípios do Comunismo, ainda que sob bandeiras diferentes. E assim caminha no mundo a idéia da justiça social.

Cristo pregou há tempos, mas visto que a palavra d‘Ele continuava letra morta e as gerações não pensavam de modo nenhum em atuá-la, a vida teve necessidade de servir-se para isso de inferiores meios de coação. Há maturações biológicas que não se podem conter.
   
O  atual movimento do mundo, que caminha em demanda da justiça, concentrou-se em um dado país que se fez dele promotor em virtude de contingentes razões históricas. Mas ele é um movimento de toda a vida humana planetária e, se não se tivesse configurado em um país, te-lo-ia feito em um outro Não importa que seção política do globo assuma o encargo, contanto que este seja desempenhado. É natural que um agregado de. interesses logo enquadre e limite qualquer movimento. Mas este se propaga além dos confins do enquadramento, porque tudo é comunicante e universal na vida. E assim o inimigo absorve  as idéias do inimigo, que ultrapassa os confins políticos; e assim estas se purificam, se adaptam e se tornam vida em toda a parte. Desta forma a idéia nascida em um ponto, sendo pela própria natureza universal, avança e alcança até onde não se sabe, intensifica-se, expande-se e os mais diversos agentes são chamados a desempenhar cada qual a sua parte de trabalho. Eis por que a idéia de uma justiça social ganha corpo atualmente, desenvolve-se e floresce, na realidade mais como um princípio geral da vida, do que como uma particular idéia política além de todas as barreiras, para alcançar as finalidades da vida e não apenas as de um só povo ou partido, cada qual devendo rejubilar-se da contribuição que deu para o avanço de uma idéia que é de todos.

Encontramo-nos em verdade, atualmente, na maturidade dos tempos e está próxima a aurora de uma nova civilização, em que o Evangelho deverá ser aplicado plenamente. Quem dirige a história são as forças da vida e não o homem. O Comunismo não foi criado por uma doutrina econômica, por um partido ou povo que o tenha proclamado e aplicado. Ele não é senão o efeito da maturidade dos tempos que conduz ao Evangelho. Tudo o mais não passa de meios materiais, e por conseguinte transitórios, que cairão, uma vez preparadas as vias para a referida realização.

Assim ficarão neutralizadas pela recíproca eliminação as duas zonas de culpa e se fundirão as duas zonas de razão, em uma nova formação, em que nenhum dos dois contendores do momento sobreviverá íntegro e exclusivo na forma que cada um pretende. Assim também se exaurirá a tarefa de ambas as partes, que é o de elaborar e ativar no contingente, uma idéia universal já expressa pelo Evangelho, que está acima do contingente e de suas lutas. Este já contém, numa fusão conjunta, quanto de razão há nos dois princípios opostos sem aquilo que de errado existe presentemente na sua aplicação. O Evangelho também encerra comunismo, mas de amor e não de força e sustenta a: liberdade individual, com a justiça do: "quod superest date pauperibus"3 . Compreende-se que se deve tratar de um Evangelho vivido e não apenas teoricamente pregado. O movimento atual é de ascensão biológica e a vida trabalha com fatos e não com palavras. Não se trata, pois, de um Evangelho situado em uma religião particular, utilizado como substrato de uma hierarquia de homens. Cristo é universal e, como o ar e o sol que devem vivificar tudo, não podendo encerrar-se em divisões humanas, supera todas as barreiras. Algumas poderiam dizer: nós representamos Cristo oficialmente. Ninguém o nega, se por ventura o Evangelho for vivido. E muitos de vós vivem-no de fato, porém Cristo é realmente representado somente por quem vive a Sua lei. O resto possui escopo diverso e uma função que não é a de fazer representantes de Cristo.

Assim, o Comunismo depois de trazer a‘ lembrança dos homens o Evangelho, sobreviverá como Evangelho, pelo qual trabalha sem saber, e cairá como Bolchevismo, que é contingente; sobreviverá como justiça econômica e, com isto, esgotada a sua missão cairá como absolutismo de Estado e escravidão coletivista. Também a Democracia, após haver defendido a liberdade humana e salvo o individualismo nas novas e grandes unidades coletivas, sobreviverá nestes princípios do Evangelho e cairá como injustiça econômica e egoísmo capitalista. Tudo passara, exceto o Evangelho. Quem está cego pela luta vivendo no particular não pode perceber estes equilíbrios. A vida ressurgirá no Evangelho, agora não mais apenas pregado, mas vivido. O homem hoje não se contento mais apenas com palavras e quer olhar os quadros que estão atrás. Para isto foi educado por duras lutas de milênios, de modo a ver atrás de cada verdade uma mentira. Tem sido uma escola constante, a única forma de educação que todos os dirigentes, em todos os tempos e lugares, em todos os campos, concordaram, durante séculos e séculos, em conceber.

Não sabemos se o Evangelho vivido coincidirá com a Igreja de Roma que o professa, e com a sua forma atual, ou se poderá coincidir com uma outra forma que venha a revestir, ou também com um Cristianismo mais vasto e não apenas católico, ou simplesmente com os homens de boa vontade, aos quais foi anunciado. A hora histórica do momento é apocalíptica e tudo está abalado desde os alicerces. A verdade é que as duas grandes forças ora em ação, Democracia e Bolchevismo, tornaram-se fracas pela reciproca inimizade, pois que cada um dos dois impulsas é neutralizado, quando se defronta com outro igual e contrário. É este antagonismo que pode destruir a ambos, deixando somente aquilo que eles possuem de Evangelho. É certo também que o ciclo da matéria está para esgotar-se, encaminha-se para a morte e, na ânsia de sobreviver, recorre aos meios extremos da desesperação. A matéria vive no tempo e o tempo não pode parar. Vimos que pelas leis da vida, o materialismo é um sistema fatalmente autodestruidor. Isto significa a destruição dos valores materiais, únicos aos que hoje se tributam reverências. Só os valores superiores espirituais, que são inatingíveis pela destruição, serão salvos. Salvar-se-á também unicamente quem vive neles. Os que se apegarem a tudo que for terreno, em qualquer campo serão tragados. Tais são e assim querem as leis da vida atualmente e ninguém poderá contê-las.

É interessante observar a sutil mecânica que um sábio jogo de impulsos, na luta entre o bem e o mal, conduz ao triunfo do primeiro.

No Comunismo, as forças do mal, dada a sua natureza negativa, operam naturalmente as avessas e, consequentemente, aplicam o Evangelho desfigurado. Elas não sabem agir senão com inversão de valores. Efetivamente não há nada mais antievangélico que o método com que é o Evangelho aplicado, ou seja pela força, dado que a essência do Evangelho é o amor. É lamentável que na terra não se procure atingir a justiça senão através da injustiça E isto macula tudo. Que faz então a vida destes impulsos negativos? Se os deixa agir é sinal que de qualquer modo eles são construtivos, porque todos convergem para um centro diretor que é Deus, e não para um segundo centro anti-Deus, Satanás. O fato é que o mal em última análise é enganado, porque esta inversão depois se retifica em favor do bem. O mal é ignorante e querendo imperar pela força, excita reações, por toda a parte, de modo a levar todos a se unirem contra ele. Ele gera mártires que depois formam a potência e a grandeza moral do inimigo. Sempre foi assim, e o mal, que é cego, recai permanentemente nos mesmos erros. E assim faz o jogo do inimigo, o bem, que ele combate. Ei-lo, desta forma, a desempenhar a  função social de purificação da Igreja e a de vivificar a fé. O mal é assim utilizado para divulgar o Evangelho com a idéia da justiça social e aquele pobre mal, que tanto se esfalfa para conseguir os seus fins, nada mais faz do que preparar, sem compreender, os fins que o bem colima. Depois disto as forças da vida o liquidam em favor do bem que ele acredita desfrutar e que o deixa agir somente enquanto é uni meio para o próprio triunfo.

Na sabedoria divina o mal está a serviço do bem. É natural que para mover o homem de hoje, indispensável se torna impelir a mola do seu egoísmo. É preciso que ele creia agir em seu imediato interesse. Por esse meio a Lei o manobra para seus próprios fins mais sábios, fazendo-o em benefício de todos porque o tipo biológico atual jamais seria levado a trabalhar por tais fins se conhecesse o real funcionamento da história. E assim, sem sabê-lo, uns e outros dos dois grandes inimigos, Capitalismo e Comunismo, trabalham concordes pelo louvável fim comum do progresso humano. Eles crêem que dirigir-se ao povo seja urna mentira útil e astuta, de que habilidosamente se valem para conseguir os próprios fins egoísticos e não compreendem que, inversamente, é este o verdadeiro escopo pelo qual, a sua revelia, a vida os põe em movimento, e será o único que conseguirão enquanto que a consecução do próprio interesse é muito problemático que se verifique. Quem participa só de um ou de outro destes dois pólos na luta comum pelo progresso, não pode ser senão o dominante tipo biológico involuído que só pode pensar em  função do contingente. O evoluído está acima do embate  admira a perfeição da obra divina, na qual a Lei mobiliza para conseguir os grandes fins evolutivos da humanidade, homens aos quais é necessária a forma de luta para que eles se ponham em ação.

Tudo que presentemente acontece no mundo é simplesmente a conseqüência natural do grau de evolução em que o homem Vive. Se ele fosse mais evoluído a sua vida seria inteiramente diversa. Mas evolverá e, evolvendo, tudo mudará.

Os grandes imperialismos. atuais do mundo com poderosa tendência expansionista, que se tornou possível em tais proporções em virtude dos novos e grandes meios de comunicação, se reduzem a manter em contato, quer em paz, quer em guerra as nações e raças mais distanciadas. Entrar em contato significa o início da unificação. A humanidade está para tornar-se una. Assistimos a um esboroamento universal de barreiras. Transpõem-se todos os velhos limites. O contato, na posição de vencedor ou de vencido de senhor ou de escravo, leva sempre ao mesmo resultado: a fusão. Tudo termina sempre com a unificação. Esta é a essência das tendências políticas modernas: a formação de unidades cada vez maiores. Essa será a conclusão do nosso período histórico. Parte-se para conquistar e acaba-se com irmanar-se hodierna tendência universal em todos os campos. Assim como no fim da Idade Média as cidades transbordaram com alegria da angústia das estreitas muralhas circundantes, estendendo-se desafogadamente além de confins acanhados e de barreira, desfrutando um senso de liberdade onde antes ninguém podia circular sem esbarrar a cada passo em obstáculo inimigo, assim também hoje, no fim do II milênio, a humanidade jubilosa começa o transbordar com alegria das angústias psicológicas que a asfixiam. Cairão as barreiras que dividem partidos, filosofias, religiões, isolando e sufocando em absolutismos que paralisam a circulação da vida do espírito. São superações que redundarão em benefício de todos. Cada atrito social pesa e custa. Então a máquina coletiva poderá funcionar mais desembaraçada, sem atritos e conflitos econômicos, políticos, religiosos, filosóficos, demográficos, raciais etc. É um grande obstáculo à vida ter de, a cada passo, esbarrar com uma parede divisória. Hoje os homens vivem agrupados em castelos inimigos, prontos a combaterem-se. Se isto é útil para a sua seleção, que outro não é o objetivo, também torna a vida bem fatigante. A nossa época quer abater estes obscuros castelos medievais do espírito que, se são defesa, são também prisão Esta é outra forma de expressão vital que acabará na unificação.

Entrementes toda força social presentemente em ação possui uma função na vida. O Comunismo tem a função que em todas as assembléias tem a oposição: a do controle que induz aos exames de consciência perante a opinião pública e a história, e determina o aperfeiçoamento das armas, elemento de luta para a seleção. De um modo particular, o Comunismo desempenha a tarefa de despertar o espírito de massa e de educação ao funcionamento coletivo. A luta enquanto não se torna cruenta, será pelas conquistas das massas e, nesse sentido, as duas partes colaborarão na educação delas, obrigando-as a pensar. Estas, feitas de carne insensível, serão obrigadas á fadiga de compreender para saber escolher um guia, qualquer que seja. Toda luta se reduz a uma escola e os tempos de luta são tempos de aprendizagem e, consequentemente, de progresso.

O Comunismo serve para forçar o Capitalismo a admitir alguns princípios de justiça, pelos quais, de outra maneira, jamais se decidiria. Dado que a criatura humana é por natureza egoísta e a mesma em ambas as partes, se a justiça não fosse imposta, jamais seria obtida. Esta é a razão biológica pela qual a vida atira o Comunismo contra o Capitalismo. Sem a violência não se teria dado a Revolução Francesa e o mundo estaria ainda na fase feudal das privilégios da aristocracia e do clero. A violência por certo o que revela o involuído porque o evoluído jamais recorre a ela. Mas é preciso recordar que nos encontramos no plano biológico animal-humano, e não além, plano em que as coisas só se podem resolver desta maneira primitiva. Certo é também que se não tivesse ensejado motivo para o surgimento desta violência, e isto por uma injustiça inicial que está no fundo dos atos de todos os homens deste plano, então esta violência não teria oportunidade de se formar.

Como se vê, trata-se de um jogo de forças que, contrastando-se, concorrem ao mesmo fim: o progresso. A carne é preguiçosa e a maioria dos homens é carne e não espírito. Eles se furtam ao trabalho de evolver. Então a Lei os alcança, envolve e agita, lanando-os uns contra os outros, iludindo-os com miragens de interesses pessoais que jamais conseguirão e que desaparecerão logo que seja atingido o escopo prefixado pela Lei e que eles ignoram. Assim age a Lei. Por isto os animais possuem uma carne que, se para um é corpo, para outro é alimento. E por isso eles são levados a contender, o que é útil para que aprendam na luta a formar a inteligência, postos na contingência de empregá-la no ataque e na defesa. foi assim que surgiu o homo sapiens e desta maneira foram conseguidas as finalidades evolutivas da Lei.

Como a química e a física, também a vida possui as suas leis e os seus fins dos quais não se pode fugir. Essa necessidade de luta é imposta pela Lei, em vista de suas finalidades seletivas e evolutivas. Tal finalidade têm as guerras, que estão antes no instinto dos povos do que no comando dos chefes. É tão forte esse instinto de guerra que, não podendo satisfazê-lo na verdadeira luta cruenta, as massas dão desafogo ele no sucedâneo das competições esportivas. Assim graças às contínuas competições necessárias ou supérfluas,  sanguinolentas ou incruentas, o homem se manteve sempre vigilante ao assalto de qualquer rival, que pode surgir a qualquer instante, movido pela miragem de um benefício pessoal. E assim também se cumprem os fins de evolução.

O atual antagonismo entre os dois grandes imperialismos do mundo é problema seletivo. Eis o verdadeiro jogo mundial da história do momento. Jogo inerente ao plano do tipo biológico atual. Dado o que ele é, os problemas só são solúveis através da luta e da destruição recíproca. Nesse plano a substância da vida é de natureza econômica. Nele domina a economia limitada e egoísta do “do ut des”4 , isto é, interesse e materialismo, armamento e destruição. Mas já dissemos que existe para cada plano de vida uma biologia e uma economia diferente. Ambos os antagonistas terrenos ignoram que existe uma biologia e uma economia mais elevada, em que nenhum dos dois penetra, porque ambos pertencem a um plano de vida inferior. O ser encontra-se encerrado em sua forma de consciência. Além desta existe o infinito, rico de poderes, de bens ilimitados, ao alcance da mão. Mas separada desse infinito está a impossibilidade de compreender, pelo menos enquanto não evolva. Explicar a este tipo biológico que os seus problemas serão rápida e automaticamente resolvidos, logo que se eleve em evolução é obra inútil. Ele não poderá compreender enquanto essa ascensão não se der, razão pela qual realmente ele hoje vive e luta, destrói e sofre. Observado de um outro plano, toda esta luta se torna unidade e o problema se transforma completamente, pois que cada problema é verdade sempre em função da inteligência que o propõe e dos limites da mesma. Mais acima, vê-se a luta entre o bem inteligente e o mal estúpido, luta em que este, pela sua estupidez, cumprida a função que lhe cabe, é vencido e eliminado como um mal, restando dele apenas os efeitos, que ele, sem saber e querer, produziu para o bem.

Então a visão se perde naquela que configurou as tentações do Cristo. Ele, após haver jejuado 40 dias, sentiu fome, e Satanás, o tentador, acercando-se, lhe disse: "Se és filho de Deus, dize a estas pedras que se transformem em pão" Mas Jesus respondeu: "Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de cada palavra saída da boca de Deus". (Mateus, 4: 3-4). Eis em que se torna o problema econômico que atormenta o mundo de hoje, se visto de um plano mais elevado. O diabo então conduziu Cristo ao cimo de um monte assaz elevado e, tendo-lhe mostrado todos os reinos da terra e sua magnificência, lhe disse: "Eu te darei tudo isto, se te prosternares e me adorares". Mas Jesus respondeu: "Arreda-te, Satanás, porque está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a Ele servirás". O diabo então o deixou e os anjos o rodearam e se puseram a seu serviço". (Idem, 4: 9-11). Com isso estão fixados os limites ao mal, que nada pode além deles. E todas as grandes lutas terrenas pelo domínio material e pelo bem-estar econômico se reduzem a agitações de um mundo inferior, além do qual a vida é completamente diferente. Então desaparecem os temas relativos da luta moderna, Comunismo e Capitalismo. Eles se reduzem ao que são todas as coisas humanas: uma transitória e ilusória forma exterior, neste caso, de um único e idêntico movimento de progresso, para o qual concordemente colaboram. Assim quer a unidade da vida. Somente que, dada a psicologia do homem atual, esta colaboração não pode encontrar outra forma que a da luta. O que realmente se dá hoje é uma formação de consciência coletiva e um despertar de massas   movimento universal de maturação biológica, que na vida se coloca acima das divisões humanas. Pouca importância tem que ele hoje se vista de Comunismo ou Capitalismo. O movimento existiria mesmo sem estes nomes e teorias, vestido com outros nomes e teorias. De tal maneira ele de fato se iniciará e continuará, ainda que estas vestes desapareçam. Deste modo pode-se concluir que as novas ideologias e as concepções modernas não constituem tanto a causa dos presentes e grandes movimentos coletivos, mas que aquelas são a forma relativa e transitória que, no atual momento histórico, assume no nosso mundo o eterno movimento ascensional da vida.

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3 "Dá aos pobres o que te sobra". (N do T.)

4 Dou para que dês. (N. do T.)




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