Ascensões Humanas

Detenhamo-nos ainda um pouco antes de deixar este volume, ao fim desta sétima etapa, e primeira da III Trilogia. Este novo trajeto também esta cumprido. Assisto a este meu caminhar fatal que calma e constantemente avança em direção à meta proposta Quando antes se escolheu espontaneamente e se decidiu livremente, o caminho é depois fatal. Mais como espectador do que como ator observo esse desenvolvimento de forças que, uma vez postas em ação, querem, como que possuídas de uma vontade própria alcançar a meta prefixada. E a maturação continua em mim, nos escritos, no mundo.  Já por estas três vias o meu olhar, do caminho percorrido, projeta-se para a sua continuação. É a ânsia de subir e a cada etapa a alma se lança para diante em direção à  seguinte, escruta o horizonte de amanhã, ávida de explorar ainda o ignoto, que esta sua apocalíptica aventura no infinito sempre lhe reserva.

O    corpo segue a sua trajetória em descida, o espírito segue a sua marcha em subida. Neste ascende-se cada vez mais uma juvenil alegria de viver, que o envelhecimento de um invólucro físico perturba cada vez menos, porque a distinção e o destaque entre os dois acentuam-se cada vez mais. Pelas vias da ascensão espiritual a independência do corpo se faz sempre mais acentuada do seu invólucro, de sua morte. Os sentidos físicos se embotam. Estas portas da alma abertas ao mundo da matéria se atravancam de detritos que obstruem a rápida passagem das vibrações. Os sentidos intensivos, porém, mais aguçados, estremecem de todo lado da prisão corpórea, produzem novas passagens nos muros deste e se lançam ávidos para outros mundos que começam a provar Uma das minhas maiores alegrias, confesso, esta em repousar do duro labor de viver na matéria e entrar em comunicação com o mundo do espírito, sentir e infinito, auscultar em nosso contingente, tão vivida e próxima, real e tangível, a imanência de Deus, tão distante para nós na Sua transcendência, e então mirar fascinado esse universo tão saturado de pensamento, a fim de que eu ouça alguma coisa de tudo que ele diz e que sabe o que eu não sei, a fim de que me ensine a resolver tantos problemas que Ele resolve a cada momento por vias que eu não sei compreender. Então não posso deixar de ouvir a voz tonitruante de Deus, que fala da profundeza de todas as coisas. E então vejo que todos os seres têm a face voltada para Deus e que quem a volta ao contrario, morre. E assim desperto e ressurjo em uma consciência maior, em uma vida que é eterna. É uma lenta ressurreição, viva e sensória, mas em outra parte, mais distante, quem o sabe onde e como, no infinito. É como que um abrir-se da alma para novas realidades inexploradas. Ela, com outros olhos, fixa estupefata as novas maravilhas e por elas é arrebatada, porque em sua nova audição ouve cantar o divino, música indefinida, feita de silêncio. Assim de fadiga em fadiga, mas de alegria em alegria continua a sua marcha que não pode ser contida.

Neste novo trajeto, que vai da Páscoa de 1945 (fim do volume precedente), a Páscoa de 1950 (fim do atual), a minha experimentação evangélica me demonstrou cada vez mais, no laboratório da minha vida, em que analiso os fenômenos espirituais e aplico experimentalmente as teorias expostas, a verdade da doutrina do Cristo, tida por loucura pela maior parte do mundo. Verifiquei que quando a inversão evangélica dos valores é realmente aplicada, então funciona a economia do evoluído, a Providência, como descrito no 3.º volume da II trilogia, isto é, funciona até em nosso contingente esta nova técnica a que nós, porque não a compreendemos, chamamos milagre. Neste período, desde que terminei o referido volume   A Nova Civilização do Terceiro Milênio — submeti os princípios aí afirmados a controle experimental, obtendo resultados plenamente satisfatórios que me encorajaram crescentemente na difícil via de aplicação integral do Evangelho. Em uma estrada que humanamente parece desastrosa, o prodígio da salvação se deu regularmente no momento mais oportuno. Jamais poderei desmentir esta confirmação experimental por mim obtida, até hoje, na realidade do contingente. Em face de tais provas o meu mais precioso e agudo espírito de observação e de autocrítica, que me é tão necessário para controle lado a lado a fé mais ardente, teve que se render. O risco do momento, como a todos, também a mim pareceu mui grave, às vezes terrificante. Mas a coragem conferida pela fé apaixonada em Cristo desfez todas ao barreiras que, uma vez afrontadas, esbarrondaram-se. Cristo, com O qual eu me encontro sempre em contato, salvou-me a todo o instante. Tudo quanto foi afirmado no mencionado volume, é, pois, realmente verídico e o tempo nada mais fez do que confirmar. Cada vez se torna mais verdadeiro tudo quanto pretendi explicar analítica e racionalmente sobre a técnica de tais salvações, a fim de que outros pudessem experimentá-los.  Os princípios do Evangelho são leis biológicas de planos mais elevados de existência. Essas leis são realmente atuantes quando nós as pomos em funcionamento pela aplicação. De outra forma, não sendo aplicadas ou sendo mal aplicadas, como sucede no mundo, é natural que elas permaneçam no campo do utópico. E compreensível que todo o mecanismo de forças, para por-se em movimento, tenha que ser tocado nos pontos motores, a fim de que funcione. É lógico que nas mãos do involuído ignorante isto não possa suceder.

Fortalecido pelos resultados experimentais por mim obtidos, não somente no campo moral, mas também no psicológico, quis expor nesses volumes estas novas realidades para que o leitor as descobrisse depois a seu modo, de si e por si, como eu as descobri de mim e por mim. Descoberta é esta que, se feita em larga escala, poderia revolucionar o mundo. Guiar o homem em larga escala, poderia revolucionar o mundo. Guiar o homem para elas creio que seja a maior contribuição que se possa dar para a ascensão, em demanda da nova civilização do espírito. São descobertas práticas, porque de resultados úteis, uma vez que facilitam o convívio humano, isto e, a coletivização da vida, que é a sua atual tendência. São úteis também no sentido de que elas não fazem apelo senão ao natural desejo humano de um proveito. Trata-se daquelas idéias-mães, extremamente genéticas, porque representam uma centelha criadora da grandeza do pensamento. Elas têm o poder de gerar uma nova civilização, porque já estão escritas no livro da vida e fazem parte do divino plano da sua ascensão. Eu quis fixar as profundezas para lê-las ensinar os outros a lê-las por si mesmos nas profundezas. Como estas verdades se revelaram a mim porque busquei, podem revelar-se a todos os demais que queiram realmente buscá-las. Cada volume representa para mim um dado trajeto psicológico no caminho de minha vida. Este último que se completa em 195033 , teve, ademais, por seu particular conteúdo, também esta característica: que o meu pensamento quis aproximar-se dos problemas do espírito pela via de uma diversa experimentação de caráter abstrato, especulativo, resultante das conclusões de processos lógicos da mais moderna físico-matemática. Essas conclusões, aceitas pela ciência, forneceram-me uma base sólida, um elevado ponto de referência e de partida sobre o qual se pudessem construir as teorias do espírito que depois se encontram no Evangelho. Com alegria constatamos que mesmo a ciência, antes materialista, esta despertando e se prepara para fornecer uma séria contribuição à nova civilização do Espírito. Esta nova ciência me impressionou e nela vi a nossa melhor aliada. Os próprios cientistas que a divulgaram não puderam compreender a importância do grito que eles, imersos nos cálculos, deixaram escapar, como também não atinaram ainda com as suas conseqüências no campo espiritual. O mundo não compreendeu esses grandes sintomas que nos dizem que o caminho da vida está mudado de direção, mudança pela qual as mentalidades de vanguarda são levadas a dirigir-se da matéria para o espírito.

Assim, com o volume Problemas do Futuro, desenvolvemos e aprofundamos a parte abstrata e científica de A Grande Síntese, como no precedente a ele o fizemos no que tange à  parte prática e humana. Desta maneira, aquele pensamento que poderia parecer não ortodoxo, esclareceu-se e tornou-se sempre melhor demonstrado como científica e racionalmente corresponde à realidade dos fatos. Destes novos volumes, A Grande Síntese sai sempre mais reforçada. Eu mesmo, penetrando-lhe cada vez mais o pensamento em profundidade, encontro novas provas na vida e confirmações por todos os lados, quer experimentando no campo moral, quer aprofundando-me no campo científico. Compreendo assim o que antes havia intuitivamente escrito, mas que não havia racionalmente compreendido. Se o volume A Nova Civilização do Terceiro Milênio confirmou A Grande Síntese, no plano moral e social, os volumes Problemas do Futuro e Ascensões Humanas a confirmam no plano psicológico e científico.

Podemos assim agora dizer, no fim deste novo volume, que foram aplicadas as palavras de A Grande Síntese (capítulo XLII): "A minha meta é a compreensão de uma lei mais elevada, de amor e colaboração, que a todos vos una num grande organismo animado por uma nova consciência universal e unitária. Não se trata, fundamentalmente, de uma sabedoria nova, pois apenas repito a boa-nova que já foi trazida há milênios aos homens de boa vontade. Repeti-la-ei toda idêntica na substância, mais ampliada para se ajustar ao campo mais vasto de vossa mente mais amadurecida, a fim de que finalmente vos abale, vos ilumine, vos salve. Eis o meu objetivo: a palavra eterna, a alimentação que satisfaz, a solução de todos os problemas. "E chegarei ao Evangelho de Cristo pelas veredas da ciência, isto é, chegarei ao Evangelho pelas mesmas sendas do materialismo para fundir os dois pretensos inimigos: ciência e fé; para vos demonstrar não existir caminho que ao Evangelho não conduza; para impô-lo a todos os seres racionais, tornando-o obrigatório, como o é todo processo lógico. Ele é a nova lei super-humana, a superação biológica que a evolução da humanidade impõe neste momento histórico, em que está para surgir a civilização nova do III milênio. Soou a hora em que estes conceitos, olvidados e incompreendidos, pregados e não vividos, explodem, pelo seu próprio poder, no momento decisivo da hora do mundo, fora do âmbito fechado das religiões, na vida onde o interesse luta, a dor sangra, a paixão dementa".

Os presentes volumes continuam a confirmar essa promessa que eu havia registrado e que não havia avaliado, ignorando que ela pudesse ter conduzido aos desenvolvimentos atuais. Depois de uma semelhante acumulação contínua de confirmações, é evidente que se torne sempre mais absurdo renegar esta A Grande Síntese, cuja verdade desde há tantos anos estou controlando a cada instante na vida cotidiana do mundo físico e espiritual e que, cada experiência da vida confirma no plano prático, como moral, lógico e científico. Jamais logrei encontrar, na mais desapiedada crítica, um fato sequer que desminta esse livro. Quanto mais procuro os pontos fracos, tanto mais ele se fortalece. A Grande Síntese fez-me compreender tudo, deu-me forças para superar muitas provas, sustentou-me na dor, inculcou-me esperança e fé, iluminou-me a mente e aqueceu-me o coração Centenas de cartas, repletas de gratidão, chegam-me de todas as partes do mundo, repetindo-me essas mesmas afirmações. Não se podem negar tais fatos. A minha vida, assim como a vida de muitos outros, é um deserto de espinhos e agora possui oásis floridos, refúgios de paz. Pervagamos por tantos problemas, todos se orientam e encontram a sua solução em Cristo... que é a luz de A Grande Síntese, e para O qual esta está sempre apontada, em ascensão.

Uma outra prova da verdade vem-me da sua automática divulgação no mundo, com a minha quase nenhuma disponibilidade de meios. Ademais, sem nenhum plano de preparação cultural científica, tenho em mãos um organismo conceitual, que progrediu compacto até hoje, já ao décimo volume34 , que se encontra no nascedouro, em seguida a este. Tenho a sensação de uma coisa que quer avançar quase que por vontade própria, porque o destino assim o quer, porque ela esta engastada como força em um sistema de forças que se encontra em pleno desenvolvimento e que por conseguinte deve fatalmente caminhar para a meta proposta. Então tudo parece caminhar por si mesmo, tudo tende automaticamente ao êxito. Conheço por experiência uma outra ordem e coisas que, por mais queridas e estudadas que sejam, procuradas e impelidas, não conseguem atingir o objetivo e, por mais que se faça com todo o empenho, irresistivelmente tendem a imergir em um mar de obstáculos. Se A Grande Síntese parece querer avançar por si mesma, devo supor que a força que a mantém não esteja em nada mais que no fato de que ela é segundo a Lei e não contra esta, isto é, esta conforme a verdade e não em erro.

Tenho a sensação como que de uma maturação do momento histórico, que fez com que ele esteja faminto de soluções universais e apto a compreendê-las e, por isso, eu me encontro na posição de ter sido inconscientemente o intérprete de uma necessidade da mente moderna e de ter oferecido, sem querer e saber, precisamente o alimento necessário a vida e por ela exigido. O que foi que falou em mim, tão experiente de tudo isto e como pude sentir a forma mental da hora histórica? Não há processo lógico que possa dizer porque hoje domina uma corrente de idéias e amanhã uma outra, e qual seja a corrente que vá dominar. Isto obedece a razões profundas, só conhecidas do pensamento que guia a vida. Ninguém sabe por que hoje se pensa de modo diverso de ontem e ninguém poderá saber como se pensará amanhã. Cada tempo tem a sua linguagem. O pensamento dos vários períodos históricos parece assim funcionar no subconsciente coletivo e o homem parece sofrer mais do que provoca os resultados. Há certamente na vida um outro pensamento situado algures, mas não na consciência humana, que dele nada conhece. Há um desenvolvimento automático e fatal no pensamento coletivo, com seus períodos, formas e leis, de que o homem, que o cumpre, não se dá conta e cujos resultados ele aceita. Há uma maturação que não está na vontade humana determinar e guiar.

A compreensão destes escritos tendentes a ritualidade, demonstra uma mudança da forma mental, é um sintoma da real aproximação do novo modo de conceber a vida, na nova civilização do Espirito. Isto sucede em meio ao desfazimento dos valores da atual civilização da matéria. Nesta, todos os princípios foram falseados e, por isso, cada vez mais estão perdendo as suas significações precisas. A força de mentir a respeito de tudo para daí extrair vantagens na luta pela vida, a avalanche dos valores falsos postos em circulação em todos os campos esta poluindo a atmosfera de todos. As idéias mais santas são aproveitadas para camuflar os seus baixos valores. A delinqüência e o vício apresentam os seus mártires, arvorados em vítimas do ideal. Tudo se adota apenas com um objetivo utilitário de aproveitamento. Estes escritos correspondem à necessidade vital da reposição dos mais altos, que na inversão verificada passaram a situar-se no fundo.

Entre tantas cisões e partidos, mentiras e interesses, a palavra imparcial e universal, sincera e desinteressada, reconstrutora de valores elevados, conexa a verdade eterna, ainda que pareça fora da psicologia do tempo, justamente porque cada vez mais rara, torna-se sempre mais procurada. Quanto mais se difunde a injustiça, mais se tem fome de justiça; tanto mais o ódio campeia, mais se tem sede de amor; quanto mais a malvadez nos atormenta, tanto. mais se valoriza a bondade. Especialmente os jovens, que ainda devem viver uma vida na terra e, mais do que todos os outros, têm necessidade de um amanhã — sentem-se asfixiados pelo vácuo resultante mais pela destruição moral do que pela material e econômica, da última guerra, e assim procuram reconstruir a alma devastada. Eis aqui um alimento de verdades eternas que nenhuma derrocada humana poderá destruir.

É verdade que estes escritos, pela sua imparcialidade, podem ser olhados com desconfiança por quantos não se vêem por eles part cularmente representados, dado que esses se encontram encerrados nos castelos das próprias verdades particulares Quem não representa nenhum grupo humano, não sendo o expoente de nenhum interesse, não é mantido e impelido por ninguém e deve progredir sem auxílios terrenos. Está só. Mas somente assim pode-se alcançar uma verdade universal com a que requerem as grandes unificações sociais do nosso tempo, as quais não se pode atingir por meio de extensões imperialistas de centros particulares. Esta só. Mas justamente por isto pode dizer a verdade de todos e não apenas a do grupo, da classe social ou do partido ao qual se encontre exclusivamente ligado. Está só. Desta forma, ele pode, melhor do que um conjunto de homens, representar a vida, as suas leis, traduzir-lhe a voz, ter para sua sustentação e defesa, mais que as forças de um grupo humano, as mais poderosas da evolução. Em nosso caso tudo o que parece produto da inspiração de uma inteligência não humana deve também difundir-se por forças e meios que não são os dos homens. Estranho método de conceber e de operar! E no entanto, é aquele que vemos em plena ação. Estranho, porque está nos antípodas do método adotado pelo mundo. Este age de fora, reputa de primeira necessidade a publicidade e os meios econômicos, operando por vias exteriores, sensórias, superficiais. Aqui, inversamente, se age de dentro por vias interiores, de modo que publicidade e dinheiro de nada servem. E o método de Cristo.

Tudo o que vem de Cristo parece estar impresso nesse método, que repudia os meios humanos. Mas por que — poder-se-ia objetar — sente-se justamente hoje a necessidade de uma demonstração racional do Evangelho, como a que aqui se oferece, isto é, a necessidade de um diverso método de divulgação, quando Cristo, ao Seu tempo, não sentiu necessidade de recorrer a ele? Ele com isto nos demonstrou que para conquistar o mundo não há nenhuma necessidade de demonstração racional. O mundo de hoje, porém, não é o mundo de então e esse novo meio é agora adotado porque possui na atualidade maior eficiência. Se o Evangelho é hoje assim apresentado, idêntico na substância mas diferente nas palavras, é para que permaneça vivo na alma moderna, transformada por evolução, e isto é uma concessão à  forma mental dos nossos tempos. Assim, oferecido a esta o alimento espiritual na forma que ela exige, não terá ela mais o direito de recusa-lo. É uma concessão que implica uma grande responsabilidade para o mundo, porque se ele não quiser aceitar o Evangelho racionalmente demonstrado, não poderá valer-se de pretexto que mascare a sua má vontade. A vida abre hoje à humanidade as portas de uma nova grande civilização. As tremendas conseqüências de uma recusa, que já não pode ser senão conscientemente querida, terão que fatalmente ser sofridas.

O produto oferecido por estes escritos é global, unitário, como é o desenvolvimento sempre orientado para o mesmo centro. Unitário, porque os mais variados problemas, díspares e distantes permanecem ligados por esta constante centralização, que os funde em uma única lei. Tudo aqui é regido por um universal senso unitário, pelo qual toda particularidade é sempre reconduzida ao mesmo centro. Unitário também porque se oferecem juntamente prática e teoria, o princípio e a experimentação, sendo a lei exposta, vivida por quem a expõe, uma vez que todo verdadeiro filósofo deve crer na própria filosofia e vivê-la. Aqui, pensar e escrever significam viver. E assim como para o autor, também para o leitor a palavra deve possuir um mesmo significado de vida, e não pode ser compreendida, senão transformada em vida. Ler sem viver significa poder compreender bem pouco. Isto porque a compreensão é dada pela confirmação exterior da experiência e interior da voz da vida, que deve dizer ao leitor no seu íntimo: Sim, é verdadeiro! Estes livros requerem, pois, esse novo modo de ler que não é comum. Ler para compreender não significa aqui apenas uma penetração do pensamento, um árido processo racional, como é hábito no mundo cultural, mas significa compenetrar-se desde as profundezas, assimilar e viver os conceitos, fazer deles a própria vida, para desenvolver em si uma maturação biológica, a mesma que eles produziam em quem os escreveu. A dialética, as investigações, a potência de argumentação lógica e polêmica, pertencem a outros planos. Aqui a luta, no sentido humano de supremacia ainda que intelectual, é destituída de senso.

O grau de evolução do indivíduo revela-se rapidamente pelo método. O involuído polemiza, o evoluído organiza. O primeiro é levado a firmar-se dominando, o segundo construindo. Um é particular, egocêntrico, separatista; o outro é universal, harmônico, altruísta. O primeiro compreende apenas pequenas verdades parciais, em função de si mesmo; o outro abarca verdades universais, em função de todos. O primeiro é exclusivista e não admite senão as próprias verdades, declarando falsas todas as outras. O segundo sente a possibilidade de uma infinidade de outras verdades, todas verdadeiras no universal, quais aspectos do absoluto. O evoluído pode compreender o involuído. Este pode agredir aquele, mas não o compreende. A dialética é corrosiva, divide e não convence. A fé e o amor, a bondade e o exemplo convencem. Mais do que com a razão e a discussão, a verdade se conquista com impulso da mente e do coração. Semelhante conquista é sobretudo um abandono em Deus. Assim como nós não criamos a vida, mas se a vivemos é porque a vida vive em nós, assim também se nós compreendemos não é porque nós tenhamos criado e descoberto a verdade, mas é porque a verdade entrou em nós.

Chegamos assim ao termo deste novo labor. Eis uma nova série de experiências morais e materiais, vividas e realizadas nas vicissitudes cotidianas, alinhadas ao longo do caminho da vida. Elas formam uma nova série de conceitos expostos neste volume. Pode-se agora frear este pensamento? No passado, cada ponto de chegada precedentemente atingido, tornava-se para mim um ponto de partida para novos empreendimentos. Diz-se muita coisa e no entanto nada se diz. É verdade que o passado se distancia cada vez mais, mas o futuro permanece no infinito. Olho, com uma sensação de temor, esse vertiginoso infinito que nos espera a todos.

Como não se pode frear a vida, para a qual existe sempre um amanhã, como não se pode frear uma maturação biológica, assim também não se poderá frear esse pensamento que em mim continuamente nasce. E ele continuará a nascer assim como a vida continuará sempre a nascer em mim e em todos. Sinto a atmosfera do meu aposento carregada de vibrações conceituais, ali já impressas de maneira imponderável, não perceptível senão aos sentidos da alma. E esta, depois de ter feito suas essas vibrações, assimilando-as ao próprio sistema de forças, deve transmiti-las ao cérebro para que as registre em formas racional e analítica, depois as configure em palavras e, por fim, por meio da mão comandada pelo cérebro e sistema nervoso periférico, materialize-as em forma escrita. Eis o meu trabalho! Assim este pensamento continuará a desenvolver-se em novos volumes, carreando-me para novos horizontes, na direção em que sou impelido, isto é, desenvolvendo cada vez mais o processo de sublimação, que é o conteúdo desta III trilogia. Esta sublimação opera o que pode parecer também uma estranha transformação da personalidade Antes de tudo transformou-se em mim o método de registro conceitual e é natural que o progresso evolutivo conduza a essas transformações. Enquanto que nos meus primeiros escritos como Mensagens Espirituais e A Grande Síntese, tratava-se de recepção direta, por via inspiratória, de uma fonte de pensamento da qual eu era puro instrumento ainda que em plena consciência, isto é, tratava-se do registro de um pensamento já formulado, que eu simplesmente recebia (não era mediunidade ou ultrafania passiva em transe), agora, progredindo, tendo-me assenhoreado da técnica do método da intuição, a recepção sucede não apenas como simples recepção, mas pela livre observação da substância das coisas, pela leitura do pensamento diretor dos fenômenos, por visão direta, com uma nova capacidade visual interior, dos conceitos que presidem ao funcionamento orgânico do todo. É assim que os quadros dos últimos volumes se apresentam, não em forma inspirativa, mas como visões em que simplesmente descrevo as minhas observações hipersensórias. Assim se explica a substituição da linguagem dos meus primeiros escritos, que não era minha, mas de natureza transcendental, por uma linguagem racional e normal. Assim poderá parecer que a segunda parte, mais recente, da minha produção, não passe de uma explicação racional da primeira. Não. Nenhum dos meus escritos é produção minha pessoal ou criação da minha mente. Apenas se dilatou e aperfeiçoou a via da minha percepção. Se antes eu era instrumento, agora sou espectador quando muito observador, mas jamais criador da minha obra, que é de Deus e somente de Deus.

Mas a sublimação opera no meu caso também uma outra transformação. Efetivamente devo atravessar, com a minha sensação, a grande revolução biológica representada pela demolição do próprio eu como unidade egocêntrica. O altruísmo e o sacrifício de si mesmo, além da lei de vida, em plano moral, o é também no biológico. A vida é uma transformação e querer paralisá-la em uma existência separada, encerrando-se no próprio egoísmo conservador, ao invés de abrir-se em um altruísmo inovador, isolar-se na corrente, o ser acarreta punição com o estiolamento até à extinção. A vida é feita de tal maneira que enquanto tende egoisticamente a conservar-se, compensa essa tendência com a oposta, pela qual ela se empobrece ao desejar conservar-se e se enriquece ao dar-se. O egoísmo mata, o altruísmo é genético. O Evangelho diz que quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á e quem tiver perdido a sua vida (por causa do Evangelho que é amor), a encontrará. A vida, fonte de tudo, nega-se a quem se nega a ela, entrega-se a quem se lhe entrega. Ela é uma troca. Tudo isto nos é dito pela célula que nos mostra que a vida que dura é a impessoal. Isto nos revela uma grande lei do ser que nos diz que para sobreviver é necessário não isolar-se com o fito de conservar-se, mas perder-se lançando-se na grande corrente da vida. E necessário assim, desindividualizar-se, despersonalizar-se. como sucede no amor que se dá. Quem se coloca como centro, separa-se e morre. Poderemos, pois tanto mais usufruir da vida, quanto menos pensarmos em nós mesmos.

Sendo o universo construído em esquema de um único tipo, encontramos essa lei verdadeira, quer no reprodução como no amor evangélico pelo próximo. Em ambos os casos a vida se recusara a nós, se nós nos recusarmos a ela e não revivermos, quer no primeiro como carne, quer no segundo como espírito. Em biologia é o não-indivíduo que permanece e não o isolado. O amor é a voz da vida total; que exige altruísmo para. substituir em um eu mais vasto, do qual o ser vivente é uma célula e a sua vida um momento, de modo que, como indivíduo separado, como eu isolado o ser parece mais uma negação, um limite à  vida toda, que é eterna e universal.

Eis o conteúdo da sublimação. A um certo grau de evolução o eu se despersonaliza e se funde na humanidade. É na imensa dilatação de si mesmo em todos, um egoísmo que se torna tão amplo, que abarca a todos. Parece que se perde, mas na verdade conquista-se uma vida maior, que é dada pelo eu impessoal, o qual não pode perecer. Não se concebe mais. o eu agressivo, que combate para vencer e esmagar, porque os outros se tornaram ele mesmo. Só se conceberá inversamente o eu que ama, luta e sofre para ajudar os outros, porque ele se tornou eles mesmos. Então o eu separado morre, desaparece e passa-se a sentir como própria a dor, a responsabilidade e o dever de ascensão do mundo. É inútil rebelar-se contra essa lei de vida, que a um dado ponto do nosso caminho nos prende, como jovens são presos pelo amor. É a vida que assim quer. Tudo é biologicamente lógico. Então a existência só pode ser missão.


GUBBIO, PÁSCOA DE 1950

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32 A presente conclusão refere-se a este volume e ao anterior: Problemas do Futuro. (N. do A.)

33 Aqui o Autor também se refere ao volume anterior: Problemas do Futuro. (N. do A.)

34 Aqui o Autor refere-se ao volume Deus e Universo. (N. do T.)

 

No sistema do nosso mundo biológico, em que a sexualidade possui fundamentais funções de continuidade de vida, a castidade representa certamente uma posição negativa. E assim é de fato nos casos de frigidez, patológicos, nos casos aberrantes em que a natureza excepcionalmente falha em seu objetivo. Mas não é desses particulares casos da falha no plano animal que aqui queremos falar. Ocupar-nos-emos de uma outra castidade, daquela praticada pelo santo, pelo gênio, pelo herói da caridade, pelo místico, com sacrifício necessário em vista de maiores realizações. Ora, essa castidade não se pode mais considerar como falha e negação de vida, visto que esta conexa a uma superação, a uma afirmação mais alta e poderosa. Cumpre-nos, no entanto, indagar como é possível que ela possa deixar de ser negativa, frente aos fins da vida, como renúncia que mutila esta na sua fundamental necessidade de continuar-se e saber como pode ela justificar-se em organismos físico-psíquicos normais, em que a sexualidade é representada por todo um sistema orgânico nervoso, base da personalidade.

Respondemos que, antes de mais nada, semelhante renúncia não diz respeito senão a tipos de exceção e que, por conseguinte, não compromete de modo algum os fins da vida, pois que esta alcança esses fins, plenamente íntegra, na grande maioria dos casos. Tudo isto faz, ao contrário, parte do seu plano, pois que ela assim não fez mais que inteligentemente distribuir encargos e funções, confiando as massas a incumbência de multiplicar-se na carne e a poucos eleitos, o trabalho de formá-las e guiá-las espiritualmente. Esses eleitos, verdadeiros evoluídos, só podem sentir o amor de uma forma supersensível, universal, base de uma fecundidade toda espiritual e de especial missão que lhes confiou a vida. Esta não se esgota inteiramente no plano animal humano a que se limita hoje a observação científica. Outras formas de existências há acima desse plano animal. E é no ingresso do ser em superiores fases de evolução que a natureza transforma, com o tipo biológico, também o fenômeno da sexualidade. Tudo isto corresponde perfeitamente a economia da vida, que não renuncia a algumas das suas atividades e manifestações, senão para que essas cedam o lugar a outras que colimam fins que pela importância superam os precedentes.

O que já dissemos com respeito ao Amor pode ajudar-nos muito a compreender o que diz respeito ao super-homem, para o qual, se no plano animal humano domina a renúncia, na castidade, no plano espiritual sobre-humano, triunfa a maior afirmação no Amor universal. A castidade que o caracteriza é algo bem diverso de simples negação e renuncia. Ela é, ao contrário, condição de afirmação e superação, é um abandono do inferior, visando a conquistas em níveis superiores. Na harmônica distribuição das atividades vitais, uma exígua minoria pode e deve subtrair-se à lei da maioria, para cumprimento de missões que esta não poderia assumir. Não se pode, pois, confundir a castidade negativa, verdadeira mutilação, quando ela se aplica ao involuído destinado a viver no plano animal, com essa castidade positiva do super-homem, que se liberta das penas animais de sexualidade, para conquistar novas formas. Não falecem na história exemplos eleitos de semelhante castidade positiva, que não é morte, mas triunfo do Amor, casos de seres que ardem, não nas paixões animais da carne, mas na sobre-humana do espírito. Eles, evolvendo, passaram além das alegrias e obrigações, desejos e lutas do comum amor sexual e familiar. O egocentrismo do amor humano, que não supera em amplitude um egoísmo dilatado, ao máximo, ao grupo familiar, abraça aqui toda a humanidade, todas as criaturas, todo o universo. O Amor desses seres e demasiado elevado e vasto para que possa caber nas formas limitadas e egoístas do amor humano.

Ate aqui tudo vai bem: cada um palmilhando o seu caminho, com o seu tipo de amor e proporcionada função biológica, segundo a natureza que lhe e própria. No entanto, sucedeu que o tipo biológico supranormal foi tomado como modelo e proposto à imitação, especialmente no campo religioso. E também isto é em parte justo, visto que a educação só pode provir do melhor. Porém sucedeu que, para tornar tal imitação possível, tentou-se impor de fora um processo de assimilação da perfeição, e de forçada evolução, e, com isto uma disciplina de castidade, adaptada somente a temperamentos de exceção e jamais a tipos biológicos muito afastados do supranormal. Ora, cabe então aqui perguntar em que se tornará essa disciplina e quais serão os seus efeitos quando aplicada em tipos imaturos, em tipos involuídos normais, desprovidos até de uma maturidade inicial, despidos mesmo de um positivo instinto ou germe do superação biológica? O que haverá se tamanha carga se aplicar, artificialmente, quaisquer sejam os motivos invocados, sobre os ombros de semelhante tipo biológico, incapaz de suspeitar no seu íntimo, diga-se o que se disser, sequer a existência da vida espiritual? Evidentemente criar-se-á assim um ergástulo em plena vida, gerar-se-á uma opressão própria para gerar tipos aberrantes e as paixões mais baixas. É um grave erro acreditar, como às vezes se acredita, que a virtude atinja os seus limites extremos somente com o seu aspecto negativo de renúncia e que uma tal vontade assim aplicada possa criar o bem. Assim encarada ela se transforma numa fonte de dor inútil e prejudicial. Quanta infelicidade surgirá, se lhe faltar o seu complemento afirmativo criador de conquista e de amor! Infeliz daquele que tenta suicidar-se no plano animal se é incapaz de ressuscitar no plano espiritual! Virtude dessa ordem é prejudicial. Qualquer negação da vida só é lícita em vista de uma afirmação mais elevada. Deus não quer a vontade que disseca e mata, mas a virtude fecunda, que caminha para a vida. Os super-homens, os verdadeiros eleitos são poucos e que sucederá então? Os indivíduos que no monaquismo de todas as religiões se isolam na castidade dos conventos em comunidades monosexuais, serão todos eles seres superiores, capazes de utilizar tal mutilação em vista de uma superação no amor universal? Ou em verdade esse tipo biológico será absolutamente incapaz de atingir, pela própria altura, a essa compensação de ordem superior e então a que distorções, contradições e mentiras será ele obrigado pela própria disciplina que pretendia melhorá-lo? E assim esta, ao invés de elevá-lo, inutilizá-lo-á. A evolução não se força e não se precipita. Impondo um ímpeto evolutivo com esforço desproporcionado ao grau e possibilidades existentes, provoca-se, como reação, a involução e não a evolução. E então presenciaremos o triste espetáculo de seres destinados somente a mutilar-se e a diminuir-se, a sufocar a vida e a descer, forçados a submeter-se a tristes adaptações e a viver em compensações

Bem diferentemente sucede com o indivíduo biologicamente adaptado, de qualquer modo pelo menos preparado. Então a castidade pode desempenhar a função de obrigá-lo a procurar desafogo em nível superior, uma vez que lhe estejam cerradas as portas de baixo. A paixão sexual representa normalmente no plano animal a manifestação de uma força e a descarga de um impulso, e através do qual a vida se exprime e busca atingir determinados fins. Quando artificialmente é imposto um dique à natural manifestação dessa energia, dá-se com ela como que uma compressão, uma concentração que implica um aumento de potencial, levando o nível de suas manifestações a formas biológicas mais evoluídas. Passa-se o mesmo que em um recipiente que recebe água, à qual é impedida a saída por baixo. O nível tende a subir para sair por cima Eis para o que pode servir a castidade: elevar o nível da água, isto é, do potencial nervoso, de maneira a determinar a gênese de manifestações de vida e formas de paixões mais elevadas.

Esse é o problema, mas estará a maioria dos indivíduos modernos que praticam esta disciplina, amadurecida para semelhante evolução? Nisto reside a dificuldade. Se o indivíduo não estiver amadurecido, isto é, apto a subir, poderemos verificar, ao invés de um aumento de pressão que eleva, um aumento que oprime e comprime, tendendo, não a se escapar por cima, mas a romper impetuosamente por baixo. Assim se vê como é difícil o uso sábio de tais virtudes. Quando o indivíduo atinge, por evolução, a uma nova criação e conquista, ele se depara logo com uma bifurcação ou seja, com a possibilidade de encontrar-se de um lado com o são e, de outro, com o reverso patológico Arrisca-se assim a descer, ao contrário de subir, a criar o vício em lugar da virtude, a contrair a vida, em vez de expandi-la para Deus. A cada indivíduo é aplicada a lei do respectivo plano evolutivo e a regra a altura de sua compressão. Para os não chamados, que constituem a imensa maioria, já é muito que possam seguir o amor carnal disciplinado no matrimônio e nobilitado pela família.

Abordemos agora um outro aspecto da questão. Esta diz respeito a conduta do evoluído para o qual a castidade terá um significado, quando posto em contato com a massa dos involuídos, cuja psicologia é bem diversa. Aqui, no plano animal do amor sexual encontramo-nos em pleno regime de luta e rivalidade. O princípio vital anseia por individualizar-se na carne. Mas existe a concorrência, pela qual todo indivíduo desejaria inteiramente a expansão criadora para si, sobrepujando os demais, de modo que, se uma única espécie, por ser melhor dotada pudesse vencer, logo invadiria tudo, suplantando os outros. Ciúme e domínio fazem parte do amor animal. O conceito da virtude, na prática, ressente-se de tais instintos. O involuído pode, por isto, facilitar as limitações terrenas do evoluído, porque estas significam um rival de menos, em vantagem da própria satisfação e expansão vital. O involuído pode estimar o evoluído por que este vivendo em um outro plano de vida, não pode ser o seu natural inimigo. É verdade que, no consenso coletivo de veneração pelos seres superiores, que vivem de sacrifício, existe no instinto das massas também algo de origem diversa, que é uma intuição instintiva do seu valor e da sua função biológica. Mas isto não impede que o senso utilitário leve em apreciação a ausência do rival. E não se tem nunca motivo de odiar senão o rival. O nosso mundo está mais apto a compreender, no santo, o lado negativo da renúncia a terra e é levado quase a compensá-lo por isto, dado que lhe é útil, com louvores pela sua virtude. Tal exaltação residiria no universal "do ut des" da vida, como uma compensação que o homem dá a quem não o molesta na qualidade de antagonista e lhe poupa um pouco do árduo trabalho de lutar. O místico é sempre um inimigo a menos e por isto, é inofensivo. Um inconsciente calculo utilitário preside a todos os juízos humanos, assim quem é da terra, está predisposto a um tributo de consolação que pouco custa, e que por conseguinte é um bom negócio, dado o baixo preço que lhe paga pelo que parece a outrem pesada renúncia. Mas o santo se compensa com algo bem diverso. No egoísmo, porém, o involuído sente-se então em pleno direito de exigir virtude no evoluído, isto é, qualquer forma de sacrifício que lhe limite a expansão vital do plano humano-animal e procura sempre enxotá-lo fora deste, porque é nesse que se encontram os seus tesouros, dos quais é cioso. Assim é que, enquanto o santo vive, o indivíduo normal suspeito de orgulho e de qualquer afirmação, só se decidindo a render-lhe pleno tributo de honra quando morre, porque só um morto o torna seguro de que não haja mais um rival na terra.

Como se vê, tudo se baseia em um mal entendido derivado do ponto de vista do involuído, inteiramente diverso do evoluído. O primeiro acredita que este último se sacrifique por ele, em sua vantagem e esta é uma das primeiras condições para que ele o aprove, pois que lhe serve o egoísmo. Pragmático, não vai além. Porém um altruísmo absoluto, todo ele absurdo num universo que é egocêntrico em Deus e a quem o desfruta, é um desperdício antivital, é um absurdo num universo que é egocêntrico em Deus e em tudo que se assemelha a esse princípio. O santo, mesmo quando se torna um mártir, não renuncia de modo nenhum ao próprio eu, não o desperdiça, mas é no próprio eu cada vez maior, que ele compreende e abraça fraternalmente homens e criaturas. O santo vive em um outro plano biológico, sob leis que o normal não compreende, e, se cede muitas coisas a este, é porque delas não tem mais precisão. Isto mostra como nas concepções dos ideais existe na terra, por utilitarismo egoísta, uma certa percentagem de inquinamento, até o ponto de considerar instintivamente a virtude no próximo como meio de sufocar-lhes as manifestações vitais no plano humano-animal.

Após haver considerado a função evolutivo da castidade e a psicologia com que o homem comum a julga no evoluído, segundo o seu ponto de vista terreno, abordemos agora, para concluir, um aspecto que a evolução do fenômeno sexual pode assumir em indivíduos em processo de maturação mística. Vimos já as relações entre sexualidade e misticismo. O momento de mais intensa manifestação da vida do místico está no êxtase. Trata-se de um arrebatamento, de um particular estado que é afim com o transe mediúnico, mas do qual se distingue nitidamente, porque o grande transe dos médiuns é inconsciente e passivo, enquanto que o rápido transe dos sensitivos deixa intacta a personalidade e desperta a consciência. Isto deriva em parte do conteúdo teológico e transcendental divino que o transe do místico pode assumir no êxtase. Ora, no momento culminante do êxtase místico, pode verificar-se o fenômeno do angor místico, que parece relacionar-se ao fenômeno sexual. Já observamos o significado profundo do Amor e as fortes razões pelas quais ele é alegria. A ciência nos diz que o angor místico é um fato pseudo-anginoso-cardíaco, um espasmo das artérias coronárias como sucede nos casos patológicos de angina pectoris luética ou artério-esclerótica. Ele não difere dos outros espasmos fisiológicos que se acompanham de prazer como o orgasmo sexual, se não pelo móvel e pela sede anatômica. Em um temperamento espasmo-fílico. em caso de libido insatisfeita, pode-se sensibilizar o plexo simpático cardíaco por hormônios genitais espasmogênicos, que em tal caso agem como excitantes sobre os nervos e fibras cardíacas. Tudo, pois, é devido à projeção de tais hormônios no mecanismo cardíaco. É um fato, pois, natural, ainda que supranormal. Fato debuxado alegoricamente pela "Kundalini Yoga" hindu, em que a serpente "Kundalini" (libido) se desperta e, do períneo, ascende sublimando-se através dos diversos Chacras (gânglios do simpático, centros nervosos medulares), que se sensibilizam até alcançar o supremo Chacra no cérebro. Ora, se a ascensão do fogo "Kundalini" e o angor místico se explicam fisiologicamente, a intuição, a fé e a experiência mística nos dizem que em tal fenômeno concorreram também certos elementos de caráter transcendental, embora esses escapem à  perquirição da ciência. Esses especiais estados orgânicos e nervosos estão conexos a particulares estados psíquicos, em que sentimos a presença espiritual de correntes de pensamento e de afetividade, as quais admitimos que sejam provenientes de seres extraterrenos com os quais, em tais sublimes momentos, o místico conseguiria por-se em sintonia e, por conseguinte, em condições de ressonância e comunicações espirituais. Assim o fenômeno do Amor se nos apresenta com um aspecto bem diverso do sexual, alcançando os mais excelsos estados espirituais. Eis que transformações orgânicas e nervosas podem se unir a evolução da sexualidade, que alturas pode a vida alcançar, enquanto no interior plano animal ela parece mutilar-se na castidade. Então, enquanto tudo emudece no plano passional humano, ascende-se no plano espiritual, ardência de um Amor diverso, sublime, agindo em formas diferentes, em mais altos níveis de vida. E assim o fenômeno orgânico parece que se torna amortecido pelo fenômeno místico e que o espírito domine tudo. E então também aquilo que, visto pela fase biológica atual, pode parecer anormal e patológico, observado de uma fase de evolução mais elevada, pode parecer uma tentativa de estabilização e fixação nas formas da vida humana, um novo ipo de Amor supersexual, ativo somente em seu nível e não mais naquele humano animal do presente. O lançamento de hormônios no mecanismo cardíaco não seria, assim, um desvio patológico, mas apenas um meio e repercussão no plano orgânico, paralelamente à transformação do fenômeno do Amor, por evolução. Eis qual pode ser, em alguns casos, a justificação e o significado biológico da castidade. Do contraste entre o psicologia normal e a do evoluído, vimos de quanta incompreensão é circundada a laboriosa ascensão biológica do místico, que, vivendo em um plano diverso, defronta-se com leis de vida diferentes. É assim uma renúncia que para a maioria não é adequada e se imposta por força, pode ser prejudicial, no homem superior constitui a primeira condição para o saciamento de paixões mais elevadas e para manifestação de um Amor divino, mais amplo e poderoso.

Observemos agora as funções e o significado do amor nos planos biológicos mais elevados, onde tudo e também ele se transforma com a ascensão do plano vital.

Em face das graves afirmações de Freud, hoje em moda, segundo o qual a sexualidade constitui a base da personalidade e qualquer forma de amor, não passa de uma extensão direta oriunda do amor sexual, propomos as perguntas que se seguem: dado que o amor dos místicos apresenta características de afinidade com o amor sexual, do qual conserva as mais das vezes até as expressões, existirá realmente parentesco entre as duas formas e por que? Que relação haverá entre elas? Será o misticismo uma forma patológica, ou mesmo supranormal, do amor sexual? Entendemos aqui por misticismo aquele fenômeno que não pertence somente ao cristianismo, mas às religiões, ou melhor, à vida, pelo qual qualquer indivíduo isolado experimenta em si, como fenômeno vital presente, a imanência do divino, do transcendente. Queremos aqui falar do misticismo verdadeiro fenômeno biológico real, e não de certos pseudomisticismos que podem dar razão a Freud. Esse misticismo verdadeiro é algo que a ciência deve encarar com seriedade É ele tão sério que ao dia em que os problemas que lhes são atinentes tiverem passado do campo teológico, religioso e especulativo ao cientificamente objetivo e racional, poder-se-á dizer que o materialismo científico terá ruído.

Aceitamos a orientação dos psicanalistas freudianos que ao estudo da personalidade emprestam grande valor ao elemento sexual. Mas teremos o direito de exagerar, como eles fazem, a importância desse elemento, a ponto de definir o místico como um grande amoroso que, por involuntária ou imposta renuncia, vendo cerradas as vias normais do desafogo erótico, busca satisfazê-lo anormalmente pelos atalhos do misticismo, que assim se reduz a um sub-rogado sexual? Sem dúvida o misticismo casa-se mal com a frigidez dos sentimentos, pois que representa o desenvolvimento da potência do coração em polo oposto ao da razão. O fato de que os místicos teriam podido ser grandes amorosos também no plano sexual. fez pensar que eles não ajam sido senão libidinosos frustrados. Acreditou-se então poder colocar o fator sexual na base do fenômeno místico e do seu desenvolvimento, podendo-se assim contrapor à  sexualidade normal uma sexualidade mística, interpretada esta como um desvio, isto é, como uma sexualidade malograda e deformada.

O problema que nos propomos aqui é este: o caso do místico será patológico, será um desvio degenerado do normal, um sub-rogado qualquer compensatório e de valor inferior, ou realmente é uma verdadeira e própria tentativa de evolução que a natureza, em dadas circunstâncias e certos casos, cumpre para chegar, através de uma superação biológica, a formas mais evoluídas de sentir e de amar? É certo que misticismo e renúncia na realidade se associam como ligados por uma mesma lei, pois que as duas formas de amor, o sexual e o místico, parecem rivais e com tendência a se excluírem reciprocamente. Mas o problema esta em estabelecer se a renúncia, ao invés de ser a causa, não seja senão o efeito do misticismo. Sem dúvida o amor é um dos impulsos fundamentais da vida, e sabemos também que a natureza, grande e ecônoma, não desperdiça nada e utiliza tudo. Assim como ela utiliza a própria moléstia para robustecer e imunizar, poderia também utilizar a renúncia, derivada de qualquer causa, para elevar as manifestações do amor, e assim, em temperamentos mais adaptados pela maturidade biológica, tentar uma sublime ascensão a nível superior, utilizando o desafogo não empregado no plano sexual animal para dirigir o seu impulso em demanda de vias mais elevadas. Dada a potência criadora do amor e a grande importância do fenômeno evolutivo, não é verossímil que a sabedoria da natureza se deixe tão facilmente fraudar em face do cumprimento dos seus maiores objetivos, que são: criar, conservar, evoluir. E assim não é verossímil também que antes de recair em uma distorção patológica, não tente abrir caminho a suas forças e saída aos seus impulsos maiores por vias superiores, realizando-se igualmente ao ensinar a amar em formas biológicas mais evoluídas.

Ora, entre fazer da renúncia um fato concomitante ao misticismo e dela fazer a causa deste, ocorre uma imensa distância. É verdade que a natureza pode utilizar a renúncia para auxiliar no desenvolvimento místico. Mas a renúncia apenas não basta para criar o místico. A elasticidade dos instintos, que faculta a adaptação, tornando suportável a substituição e a transposição de objetos, é limitada. Visto que os instintos têm um fim a atingir e se vêem dessa maneira fraudados na consecução deste, o desvio do impulso não pode superar um certo grau de deformação, quaisquer sejam as necessidades impostas pela adaptação. Estas formas derivadas se conhecem por características de semelhança, mas de uma semelhança tendente a degenerescência e não a superação no sublime. Não nos induz essa semelhança a erro, fazendo-nos confundir o anormal com o supranormal. A faculdade de adaptação não nos autoriza a acreditar possível um salto, como o que seria necessário para superar o abismo que separa o amante carnal do amante místico. Amar espiritual e altruisticamente a Deus e em Deus o próximo, é muito diverso de amar sexual e egoisticamente a um semelhante. Se existem afinidades é porque o Amor no universo é uno. Mas elas não bastam para fundir os dois fenômenos. Em verdade a escala evolutiva é a mesma e tudo é unitário em um universo monista, mas demasiada distância existe entre a fase humana e a fase sobre-humana, a fim de que, para superá-la, baste apenas o impulso de um desejo insatisfeito. No misticismo não atua apenas o elemento negativo de renúncia, mas age um elemento positivo que se distancia do mundo sexual na inversão dos valores e que esta implícito em tal superação. No indivíduo há um fato evolutivo novo, uma maturidade que o eleva e potência. A renúncia poderá ser um fato concomitante colateral e mesmo uma negação inferior, necessária para que possa agir a superação. Mas daqui a ser ela a causa determinante do misticismo vai muita distância. É muito mais lógico admitir o contrário, isto é, que a renúncia se una ao misticismo no quanto este estado representa um tal esforço evolutivo, que por si absorve todas as possibilidades do indivíduo. No gênio, como no santo, que tanto se assemelham ao místico, vemos que a vida que neles cumpre um trabalho excepcional supranormal, propõe os fins da reprodução e da sexualidade aos seus maiores objetivos criadores.

Para poder julgar um ser é necessário compreendê-lo, e para compreendê-lo, é necessário saber viver no seu grau de evolução. Ora, a ciência e o pensamento humano da atualidade têm como tipo biológico modelo o involuído de hoje, possuidor de insensibilidade ilimitada e animado por instintos animais. A moderna orientação materialista e utilitária não pode conceber outro super-homem que não seja o de Nietzsche, isto é, o superbruto, egoísta, violento e antisocial. Tudo depende da forma mental e da medida com que se julga. É natural que o materialismo freudiano não possa ver no homem senão o animal. É certo também que num mundo assim o super-homem do espirito não possa deixar de aparecer como um anormal um degenerado. Para julgar faz-se mister ter compreendido o pensamento da lei que rege o universo e os fins da vida. Que o escopo desta seja evoluir, é também uma hipótese que corresponde a observação e satisfaz a lógica das coisas e a razão humana. É lógico que, se existem seres que se movem em fase animal no campo das leis da fome e do amor, ocupando-se somente das funções vegetativas da conservação individual e coletiva, podem existir igualmente indivíduos que se movem no campo das leis da evolução, ocupando-se da função de progredir Eis o herói, o gênio, o mártir, o santo, o místico, o super-homem do espírito, e precursor da evolução, o pioneiro do progresso, tipo biológico que não é o produto de um tempo, de um lugar, de um povo ou de uma religião, mas é universal, como produto da vida.

Tudo depende, pois, do ponto de observação e conseqüente perspectiva. Para o homem involuído atual, que se coloca como modelo da vida, a sublimação das próprias qualidades não parece ter muita importância, enquanto que tem muitíssima para o homem que dele começa a destacar-se por evolução. Pode existir um modo de ver as coisas observando-se da terra, Isto é, evolutivamente de baixo para cima; assim como um modo de ver as coisas observando-se do céu, isto é, de cima para baixo. No primeiro caso seremos levados a desprezar, relegando o fenômeno ao campo patológico e anormal. No segundo coso se admirará o grau de sublimação a que o misticismo conseguiu levar, fazendo-os evoluir, os primitivos impulsos biológicos do instinto bestial. É natural que a visão egocêntrica que coloca o homem atual como produto e modelo de vida, lhe faça considerar um afastamento desse tipo, ainda que determinado pela evolução, como um desvio que é encarado com desconfiança, sem interesse, quando não o seja com menosprezo. É natural também que da posição biológica do mais evoluído as coisas pareçam bem diversas e se olhe o homem atual com piedade, como a um pobre ser inferior que não suspeita ainda que infinitas possibilidades contém o seu futuro desenvolvimento. Por isso, os problemas do místico, para ele fundamentais, não podem interessar à  maioria, que se aflige com a explicação do futuro e da evolução, coisas para ela distantes, em face do homem atual. Este, todavia, não poderia negar que à vida também deve interessar a evolução, pois que, se ela efetivamente produz indivíduos com tal função precípua, quer dizer isto que esses indivíduos são igualmente indispensáveis ao trabalho do conjunto.

Mas muito longe nos levaria o desenvolvimento desses conceitos. Devemos aqui, pois, concluir o aspecto atual. Se o Amor universal é o fenômeno que liga sexualidade e misticismo e nos permite estabelecer as relações que vigoram entre eles, com isto se estabelece a imensa distância evolutiva que os separa. Se é certo que eles sejam duas formas do mesmo Amor universal, importa no entanto reconhecer em que grau diverso estejam pela pureza, alegria e potência. Isto nos diz também que os dois fenômenos podem ser comunicantes e entre si se influenciarem, mas também que esse parentesco distante, que de resto existe em todas as formas da vida, não basta para passar do amar sexual ao amor místico. Para se chegar a este faz-se mister uma maturação evolutiva, a manifestação de qualidades novas, na verdadeira catarse biológica, uma superação de si mesmo. No misticismo, se existem lembranças da sexualidade, há infinitamente algo mais. Isto verificado, a orientação freudiana é absolutamente inadequada para explicar um semelhante nascimento fazendo que o mais surja do menos. Somente o fenômeno sexual, não é causa suficiente para determinar o verdadeiro fenômeno místico. Se só bastasse uma forte sexualidade, por mais contrariada que fosse, para gerar e explicar o fenômeno místico, os casos de misticismo seriam muito mais freqüentes. A maior parte dos que renunciam forçadamente encontram uma compensação bem diversa, desviando-se para o patológico e para o anormal. O verdadeiro misticismo só é atingido pelas almas eleitas. Milhões que renunciam isolam-se nos conventos ou alhures no mundo, mas quantos deles se tornam verdadeiros místicos? A maior parte dos exuberantes nem ao menos pensa nisto. O tipo biológico normal imaturo, em tal caso, ou se rebela destroçando os freios, ou se adapta à deformação do instinto, ou enlouquece e se suicida. Para poder atingir o sublime, para tornar-se um santo, devem interferir elementos bem diferentes que de modo nenhum pertencem à sexualidade própria do plano animal humano. Para biologicamente atingir-se tão alto, faz-se mister coisa bem diferente que uma deformação do tipo biológico normal! Para se conseguir viver a vida do tipo biológico supranormal, não são suficientes exuberância e renúncia, mas é necessário ter-se percorrido a longa via que conduz à  própria maturação. E necessário ser evoluído, e não involuído.

Que significado tem a alegria na vida? O que é o amor e por que ele em qualquer grau evolução, desde a forma sexual até à mais elevada, a do misticismo, é prazer? Que relação há entre as duas formas? Pode esta pergunta levar-nos à descoberta do seu denominador comum, se é que este existe? Será o amor talvez o grande motor da vida? E, em grau evolutivo mais ou menos elevado, trata-se sempre do mesmo Amor? E como evolve e ao que tende esse Amor universal que alcança a Deus? E como pode ele permanecer em prazer quando ainda se nos apresenta como renúncia a qualquer alegria terrena, como dor e negação da vida animal normal? Como pode ele permanecer criação e sublimação, ainda quando humanamente pareça destruição e insucesso?

Respondamos a estas interrogações. É indiscutível que a vida procure a alegria. Por que? Porque ela foi criada para isto, indicando a alegria onde esta o bem. O bem é caracterizado pelo nível da alegria, o mal pelo indício da dor. Alegrias momentâneas e fictícias poderão induzir-nos a erros, mas se elas mascaram o mal, logo descobrem a dor de que são feitas. Alegria existe em tudo o que evolui, que caminha para Deus, que é o supremo bem. A vida é feita para evoluir, ainda que o faça através da dor, para uma alegria cada vez maior. Todas as vezes que seguimos a Lei de Deus, semeamos a alegria, ainda quando dela nos separe um abismo de provas e de dores. Todas as vezes que agimos contra a Lei de Deus, semeamos para nós mesmos a dor, ainda que dela estejamos separados por um mar de vantagens e de prazeres. Assim, há o prazer da mesa que nos diz que se deve nutrir o corpo porque ele deve viver. Um pouco mais acima está o prazer sexual, que nos diz que é necessária a reprodução, porque a espécie deve viver. Mas há ainda, muito mais acima, o gozo do trabalho e do pensamento que criam, o gozo do espírito e da ascese, para indicar-nos que se deve progredir, porque o homem não necessita apenas de viver e multiplicar-se, mas também de evoluir. A cada fim a ser atingido, a Lei propõe um gozo adequado. Cada coisa em seu lugar, segundo uma hierarquia funcional, que guia as nossas ações. Mas observemos ainda. Se o homem possui uma consciência relativa, racional, refletida, transitória, limitada e adaptada aos escopos da vida e á evolução, é um fato que o universo funciona regido por um outro pensamento que o homem mal conhece, lei absoluta, eterna, iluminada, divina. A mente humana de fato não guia o universo, que sabe muito bem funcionar por si mesmo. Ao contrário, a mente do universo guia o homem, sem que este o sinta e está de tal forma inculcada em cada ser, esta é tão onisciente e onipresente, que sem ela nada viveria. É um fato que a mais simples das células do nosso corpo sabe executar, á nossa revelia, tais milagres de bioquímica, que nós não apenas somos incapazes de reproduzir, mas nem ao menos conseguimos conhecer e compreender. Uma pequena célula é mais sábia do que o maior dos cientistas. Essa consciência do universo aparece no homem sob forma instintiva, não refletida, intuitiva, não racional. A consciência humana está ligada aos sentidos e constitui um sistema, um esquema lógico, uma forma mental em que o homem se encontra encerrado. É o seu corpo mental  Ora quando, por maturação evolutiva, o eu consegue ultrapassar esses confins, penetrando, ainda que por pouco, a consciência universal, isto é, enquanto constituir superação, distensão e expansão em uma vida maior, constitui também alegria. Esta, repetimos, é índice de bem e de ascensão. Tudo na vida é uma contínua luta entre a necessidade de conservação, a que preside o instinto do egoísmo, e a necessidade de expansão, a que preside o instinto altruísta do amor. Poder libertar-se da acanhada consciência  individual, para entrar no imenso consciente universal, que para o homem se encontra no inconsciente, poder senti-lo e atingi-lo, representa tocar o sobre-humano, avizinhando-se de Deus. Correspondendo isto aos mais elevados fins da Lei, que é o de progredir para o Alto, constitui também a maior alegria do ser.

Isto só se consegue por meio do Amor. Mas compreendamos bem, amor com A maiúsculo, o amor universal, que caminha da forma sexual a mística, até atingir Deus. Não é o racional cálculo egoísta, mas é o abandono cego a Deus, a submissão a vida, que nos abrem as portas a esses contatos com o infinito  e as alegrias que dele deriva. O fundo do supremo gozo místico como de qualquer amante terreno, reside em deixar-se absorver além de qualquer lógica de interesse individual, está em submergir-se no abismo divino, por mais irracional que possa parecer um tal naufrágio do egoísmo. Mas por que motivo, se é o eu que preside à conservação, é tão doce renegá-lo e por que é tão agradável à mente humana perder-se na contradição, no irracional? Em todo grau de amor, será tanto maior o gozo, quanto maior for a renúncia ao egoísmo. Eis que no fundo de todo amor, do sexual ao místico, existe o mesmo motivo de renúncia. A razão está no fato de que a alegria é dada pelo evolver, subindo para Deus, que é amor, e isto não se pode obter senão pelas vias do amor, que, se de um lado é jubilosa expansão altruísta, de outro e também o oposto do egoísmo, negação de si mesmo, renuncia. Todas as vezes que nos entregamos, superando as barreiras do egoísmo, a lei de Deus nos aprova e no-lo diz, compensando-nos com uma alegria íntima. Isto é verdade para qualquer nível, o do amor sexual como o do amor místico. Então o eu se perde e a vida triunfa. O eu acredita então morrer mas na verdade renasce na sua expansão, nos filhos ou no espirito, pois que Deus dá a quem dá, e nega a quem nega. Ao sacrifício e ao gozo segue-se a criação, multiplicação material ou espiritual, que é manifestação de Deus. O princípio é único. Eis o denominador comum dos dois fenômenos entre si tão distantes: Amor. Em um como em outro caso, a alegria é dada pelo mesma expansão, ainda que em forma e graus diversos, da mesma adesão a lei divina de amor, que é base da vida. Então fala, além da consciência humana a divina consciência universal e, sem que o homem o saiba, ela se constitui na sua própria consciência, indo além da razão, do cálculo egoísta e aos interesses da sua conservação, e mesmo se opõe a estes. Essa superação, esse abandono a um inconsciente instintivo, em que opera uma outra consciência mais elevada que nos escapa, esse extravasamento além dos confins do egoísmo, para viver no todo e para o todo, representa o sacrifício que está conexo ao amor com o qual cria em qualquer nível e sem o qual não existe nem verdadeiro amor, nem gênese. É isto que provoca o delíquio da alma. Eis também por que motivos encontramos nos dois fenômenos, no da sexualidade e do misticismo, os mesmos elementos, ou seja, amor, sacrifício e gozo.

Enquanto o egoísmo contrai e disseca, o amor dilata e cria. O primeiro, se impelido além da função conservadora, inverte-se em forma destruidora. Assim se compreende como o Amor determina a inversão dos valores estabelecidos pelo egoísmo, e como o amante possa esquecer a si mesmo em favor do ente amado e o místico possa viver de renúncia. Então a perda se torna ganho, ordenar se transforma em obedecer e o inconsciente triunfa. A vida passa a uma fase evolutiva mais alta e a lei de conservação do eu se sacrifica para que vença a lei do ensimesmamento em um outro ser. Deus é unidade e tudo que irmana e unifica conduz a Ele e d‘Ele se aproxima. Dado que o amor é prazer, o homem pode abusar dele, eliminando o sacrifício que o eleva e o torna criador; e faz dele um estéril instrumento de gozo. Não resta então senão ruína, um amor egoísta e ainda como alegria, amor mutilado, infecundo e traidor dos fins da vida. E no entanto, entre todas as culpas, as que menos se distanciam de Deus são as culpas de amor, já que o Amor é sempre a Sua lei suprema. As piores são as do egoísmo, do ódio, da destruição. Dante coloca os luxuriosos sempre distantes de Lúcifer, que constitui o centro do ódio e do mal e que é a negação de Deus ou seja, do amor, para colocá-los junto às portas do inferno e no ponto mais alto do purgatório, na saída deste, próximo ao Paraíso.

Tudo isto nos permite melhor definir as relações entre sexualidade e misticismo. Se, dada a unidade da vida, não se pode desconhecer uma necessária semelhança entre estas suas manifestações, isto nada impede a superioridade espiritual do fenômeno místico, que assim nos aparece bem diversa de uma simples sublimação dos instintos sexuais, bem diversa de uma espécie de sucedâneo determinado por derivação compensadora, como quiseram que o fosse os psicanalistas freudianos. Não obstante a grande distância entre as duas formas, o seu elemento comum e fundamental  — o amor, faz com que em ambos os casos se encontre o sentimento do pudor. Cuidemos o seu significado. Este estado próprio do ato sexual estado que significa proteção do mesmo e de modo nenhum consciência de pecado, encontra-se também no artista no momento da concepção, em quem quer que cumpra com consciência um ato nobre e altruísta e, por conseguinte, sobretudo no místico, nos seus contatos espirituais. O pudor se manifesta na vida todas as vezes que se desempenhe um ato importante que é defeso, quase sacro, aos olhares dos profanos. Isto nos conduz ao seguinte: quanto mais se sente a fé que se carrega viva, menos se é levado a exibi-la, mais repugnando as exterioridades, e vice-versa. É raro que gostemos de pôr à mostra o mais precioso tesouro, e quando o exibimos isto significa, geralmente, que pouco o amamos. É sobretudo no caso) do verdadeiro misticismo que a natureza procura pudicamente proteger, ocultando-lhes as manifestações aos normais involuídos, destruidores, e o misterioso processo da gênese do super-homem do espírito. Então é a vida que protege o indivíduo que se lhe entrega, porque o eu abandona as próprias defesas e, esquecido de si, permanece inerme. Tanto no fenômeno sexual, como no místico, a consciência refletida fica em suspenso para perder-se na consciência cósmica com o qual se funde. A individualização do ser se anula na fusão com o objeto do próprio amor, seja ele criatura ou Criador A vida permanece arrebatada por esse fato, tanto mais quanto mais ausente estiver a vontade individualista e egoísta do eu. O amor, em qualquer nível, é uma exultação da vida cósmica porque representa o cumprimento da sua primeira lei. Deus é amor e cria no amor, em qualquer nível, desde o amor da carne, quando compreendido com pureza, elevando-se sempre, até ao amor do espírito. O próprio cristianismo fez do primeiro um sacramento colocando-o na base da família, com missão social

O amor é o estado sublime em que aparece e age a divina vontade que está em todas as coisas, como onisciente e secreta alma do  cosmo Então ela se substitui ao eu e à sua razão e, à sua revelia, manobra-o para os próprios fins, submete-o ao seu comando, absorvendo-o na sua oceânica potência. O eu, sentindo o extravio, percebe o perigo que envolve a sua segurança de indivíduo ao entregar-se sem refletir e desejaria calcular, defender-se, retirar-se. Mas o fruimento de um supremo gozo o fascina e o arrasta para o sorvedouro, em que é tão doce deixar-se naufragar, que o egoísmo se esfrangalha desfeito pelo amor. Então, quer no amante terreno, quer no místico amante sobre-humano, um fato se apodera do ser, que não pode mais resistir e é assim arrebatado. Desta forma assim como o enamorado da criatura terrena afronta qualquer risco e sacrifício por ela, assim também o enamorado de Deus, tresloucadamente ousa a inversão evangélica dos valores humanos. na renúncia E assim o místico, que não cria na carne mas no espírito, funde-se, sem reservas, na vontade de Deus. A divina potência criadora se manifesta neste impulso evolutivo do amor que nos constringe a esfrangalhar com perigo da nossa própria segurança as barreiras do egoísmo feitas para a proteção do eu. Este luta e se defende a fim de permanecer no campo seguro da sua pequena consciência racional. Mas a um certo ponto, o inconsciente instintivo e irracional, anelando os próprios fins, que o indivíduo ignora, e metas superiores bem diversas, emergindo com imensa sabedoria e. potência da profundidade do cosmo, para revelar o pensamento e a vontade de Deus, se arroja sobre a criatura e a arrebata. Esta se debate ignara e desorientada, desejaria resistir, mas não sabe como, cede por fim, triunfando mais acima, no sacrifício de si mesma que é a derrota do seu egoísmo. Essa derrota do eu egoísta dá nascedouro a uma vida nova, que é um dom que Deus concede a quem obedece ao Amor.

Esta é a hora criadora, em que a vida triunfa sobre a morte e o bem sobre o mal, a hora em que o indivíduo mortal se torna imortal e a vida se santifica, posta em contato com Deus. Hora sublime esta de Amor, em que a natureza, tão parcimoniosa, se torna pródiga, porque então ela se sente tanto mais rica, porque se abre nela a potência geradora de Deus. Então a vida se exalta no triunfo da sua maior festa, os sentidos comumente usados para a luta embotam-se como em um transe, a luz perturba e a palavra emudece. Nisto se assemelham tanto as manifestações sexuais, como os estados de inspiração artística, os mediúnicos e es místicos. Parece que e fenômeno de transe verifica-se todas as vezes que ocorra uma transmutação, mais ou menos acentuada, da consciência racional à cósmica, isto é, toda vez que se saia de si mesmo para confundir-se, entregando-se, no que há de maior, ao que está acima de si. Nota dominante é a de desinteresse, a abnegação, a renúncia de si mesmo, a expansão do humano ao divino. Assim se compreende como as mais elevadas atividades do ser se cumprem além da vontade da consciência, por instinto e intuição. Atingem-se então planos de consciência superindividual e super-racienal,. como é a divina consciência cósmica. Se em verdade isto contrasta com o egoísmo que nos defende e, por isso, parece trair-nos, se nos parece um perigoso abandono, é, no entanto, a maior e mais irresistível alegria da vida. Então a consciência normal permanece atrás, impotente para medir com a sua exígua unidade, e deve curvar-se ao que não compreende. E é assim que se vence na derrota e se torna rico na miséria, poderoso na obediência e douto na loucura, porque o centro da vida se deslocou, alterando com o ponto de vista todas as perspectivas enquanto que a consciência dá um salto em direção a Deus.

Eis, pois, porque Amor é alegria Isto é verdade em qualquer nível, mas será tanto mais, quanto mais elevado ele for. Porque ele é superação de egoísmo separatista, é fraterna unificação cem o todo através da unificação com o próprio semelhante, é a essência daquela evolução que nos aproxima de Deus. Amor, alegria suprema do ser, porém continuamente negada e contrastada pela dor que se origina do esfrangalhamento do nosso egoísmo. O universo está divinamente invadido e transbordante dessa alegria pela qual todos anseiam. Ela está sempre pronta a nos alcançar com a mesma ânsia com que nós queremos alcançá-la. Mas este é exatamente o grande drama da vida: uma barreira de dor nos separa dela e esta mesma barreira é dada pelo despedaçamento de nosso egoísmo. Daqui a trágica ilusão do mundo e o seu erro na procura da alegria. A, verdadeira felicidade não está no prazer, mas além da dor, que é necessário atravessar e superar. Este é o significado da inversão evangélica dos valores do mundo, da conseqüente e fatal necessidade de que a redenção de Cristo só poderá ser cumprida através da dor. Para se transpor o fatal linde além do qual está a felicidade, é necessário inverter o egoísmo, desfazê-lo no amor, dilatá-lo e expandi-lo no altruísmo pelas criaturas, até Deus. Isto pode parecer uma perda, mas não o é, pois que não é destruição, mas sim dilatação e evolução do egoísmo. O universo, que é egocêntrico em Deus, é, segundo um mesmo e único esquema, fundamentalmente egoísta em qualquer das suas formas e criaturas. Esta é a lei pela qual tudo se conserva e se protege. Quando o egoísmo evolve nós o chamamos altruísmo, mas aquele nada mais fez que dilatar o seu círculo. O egoísmo permanece sempre. Só que agora ele é um egoísmo mais amplo que se dilatou até abraçar um maior número de seres. É a evolução que leva o egoísmo a expandir-se m seu egoísmo relativamente mais extenso e que em relação ao primeiro chama-se altruísmo. Esta expansão toma o nome de amor e ela nos faz subir. Evolver é, pois, dilatar o nesse eu, progressivamente, cada vez mais próximo de Deus. Quanto mais nos avizinhamos d‘Ele, tanto maior será a unidade coletiva em cujo seio saberemos harmonizar-nos, tanto mais vasto e profundo será o irmanamento que saberemos realizar. É necessário, em suma, sacrificar o eu ao Amor, não importando e que isto possa custar-nos. E sempre nos custa! Mas só são verdadeiras as alegrias determinadas pela fadiga da ascensão. As comodidades de descida constituem uma miragem... E é lógico que e seja. Deus, que é justo, não pode conceder felicidade não merecida. O homem desejaria a via mais fácil. Mas, queira ou não, não existe outro caminho que a vereda estreita e difícil, para alcançar a verdadeira alegria.

Hoje o mundo prefere as vias do ódio às do amor. E isto se dá pelos bens materiais. Odiai, odiai, mas sereis infelizes, porque o ódio é dor. Sem amor, por mais rica que seja a vida, ela é estúpida, sem objetivo, destituída de sentido. Não há bem estar material que nos possa compensar da dor que e ódio nos acarreta. Não é com o ódio, mas com amor que se cria o bem estar. Na terra não nos resta senão o amor venal, prostituído pele interesse.

Esse fato nos torna desesperados, porque o amor não é apenas uma necessidade da carne, mas é sobretudo uma exigência do espírito. Hoje procura-se matar este, sufocar-lhe o grito no prazer da carne. Mas e homem, ainda que involuído, não é apenas o bruto, a libido satisfeita não basta para saciá-lo. Além da carne está a alma que clama pelo amor. E a alma, que não se sacia apenas com e prazer, que pede mais e que se debate quando não lho damos. Ela se ergue do leito de prazer, cheia de náusea e de asco e chora anelando pelo Alto. É sede de Amor, isto é, de qualquer coisa de santo e de sacro, daquela conjunção mística que é a única centelha que vibra entre as almas. É a necessidade do divino que nos falta e que é necessário à vida. O materialismo acreditou poder libertar-se de fastidiosos e supérfluos liames e pretendeu nos arredar das fontes da vida O mundo, hoje saturado de ódio, procura afogar o tormento dessa sua insatisfação no prazer. Mas isto é ilusão, porque sem e verdadeiro amor não pode haver alegria.

Passemos uma vista de olhos sobre o grande problema individual e social da sexualidade e do amor, das suas funções reprodutivas até as mais elevadas do misticismo, funções biológicas tão diversas e também tão necessárias a vida. Comecemos pelo amor como procriação.

Quanto mais baixo for o grau biológico ocupado pelo ser na evolução, tanto mais o problema da proteção da prole se reduzirá a mais simples expressão. Então a natureza protege o ser, menos valorizado como qualidade, com a quantidade e se exime assim de particulares funções protetoras, mesmo para que a seleção possa melhor cumprir-se. A medida que se sobe na escala evolutiva e se alcança a formação de um tipo biológico mais perfeito, o problema da justiça se torna mais importante. Trata-se de um produto mais precioso, fruto de um longo processo evolutivo: de função mais laboriosa, e por conseguinte, mais rara nos atuais exemplares. E lógico que a natureza protege com cuidado maior um valor maior. No homem, o recém-nascido devendo desenvolver-se até alcançar funções superiores, tem necessidade de assistências ignoradas nos planos inferiores, das quais o procriador involuído se exime. Das condições de civilização se segue, pois, que a procriação não é mais aquele ato simples e instintivo como é entre os primitivos no estado animal, mas se torna um ato complexo e reflexo, pejado de conseqüências e responsabilidades.

Enquanto no animal e no homem inferior a procriação se exaure quase toda com o ato físico da geração, no homem que não vive no plano animal ela penetra no campo moral e abrange também uma longa educação destinada à formação da personalidade. No plano animal os procriadores podem logo desinteressar-se da prole e dela libertar-se, no homem, não no estado animal, os liames e serviço de assistência e de guia duram dezenas de anos. Daí a necessidade de organizar e prever.

É assim que nas sociedades civis o fenômeno da procriação se encontra estreitamente conexo e unido ao fenômeno econômico que veio assim influir no biológico da reprodução. Segue-se dai que quanto mais alto for o nível de vida de uma civilização, mais difícil se torna, por conseguinte, a manutenção de um indivíduo e mais severamente se estabelece o controle da natividade. Dada a economia da natureza, grande administradora, a qualidade se obtém a expensas da quantidade. Então as condições mais refinadas e complexas de civilização se tornam um freio à reprodução e se pagam com a pobreza demográfica. Para voltar à quantidade, é necessário então descer na qualidade. Tudo de uma vez não se pode ter. Ou a potência ou o domínio. Se um povo for rico e dominador, será povo numeroso, com tendência a rarefazer-se cada vez mais. Se for pobre e dominado, invadirá o mundo com seus filhos. Sábios equilíbrios da lei, que nenhuma coação política pode alterar. A luta assim entre a inteligência que alcançou o predomínio econômico e a carne, expressa pela massa demográfica, reduz-se a uma distribuição de funções, até que a carne das massas amorfas, educada pela inteligência dos dominadores, subindo ao plano destes os substituirá no grau biológico e nas funções. Entrementes, a qualidade dos povos dominadores, o seu elevado nível de vida, constituem uma conquista da evolução, constituem um trabalho da vida e por isto este defende o produto do seu labor. Sabendo o que ele lhe custa, por leis do sua economia, a vida tende a mantê-la a todo custo e por isso está disposta a sacrificar a abundância da sua produção. É assim que, para proteger a qualidade, conquista preciosa, sacrifica a quantidade, que lhe constitui uma ameaça. Tudo se paga na natureza. Paga-se assim a mortalidade menor, a cultura, a segurança, a proteção social, o bem-estar, tudo enfim. Mas poder-se-ia assim atingir um nível de desenvolvimento do qual os povos mais prolíferos e numerosos estão excluídos, até que lhes tocará o seu turno de se elevar, e então, sutilizando-se, substituir os mais evoluídos, repetindo o mesmo ciclo igual para todos.

O progresso se desloca assim em vantagens dos filhos, que cada vez mais pesam sobre os genitores e a sociedade. É natural, pois, que, pelo egoísmo protetor do indivíduo, este se esquive a uma procriação que se torna cada vez mais agravada de deveres e responsabilidades crescentes. Dadas as suas conseqüências, sempre mais pesadas, com o progresso da civilização a procriação se torna mais estreitamente controlada, fazendo-se depender de cálculos. Ela é submetida à luta pela vida, que pode gravá-la, até comprimi-la e sufocá-la. Assim o fator econômico se substitui ao biológico que, devendo ser o principal passa dessa forma a ser relegado a um segundo plano prejudicando, assim, a seleção sexual e, por conseguinte, os próprios filhos. Para uma procriação sã e selecionada, o amor deveria permanecer livre do fator econômico e de outras pressões sociais de todo gênero, para obedecer as suas próprias leis. A necessidade de disciplinar o amor cada vez mais para a proteção dos filhos, de um lado, e do outro, a luta do indivíduo para evadir-se dessa disciplina que o grava, pesam crescentemente sobre a procriação, e por conseguinte, sobre os próprios filhos, que assim, com o seu sacrifício em qualidade e quantidade vêm a pagar todos os maiores cuidados que eles custam aos pais e à sociedade. Também aqui não se pode ter tudo e tudo se paga.

Também o amor esta sujeito nas nossas sociedades civis à  necessidade do cálculo e o cálculo é o primeiro passo da prostituição. Do outro lado é natural que a sociedade humana, tomando em consideração que o ato procriativo é a base de sua constituição, tenha pretendido discipliná-lo. E as religiões, antes do Estado, enquadraram e ordenaram o amor, equilibrando direitos e deveres na instituição do matrimônio. Mas isto é lei, disciplina exterior, em que o homem permanece até onde quer e sabe. E quando o homem não sabe e não quer, as mais excelentes instituições e a coação das leis não lhe podem impedir a evasão. E assim, em perfeito regime de indissolubilidade, em que a integridade da família é mantida intacta, não se pode impedir que o matrimônio possa transformar-se em um mercadejamento qualquer e constituir a mais vantajosa forma de prostituição. Divórcio, pois? A resposta é uma só: qualquer lei é inútil quando os indivíduos são corruptos; toda lei é boa quando eles são prudentes, e desde que o homem quer fugir, evade-se, e toda regra é inútil. Pior para ele, mas evade-se desde que o queira, porque é livre. Pagará, mas, apesar disso evade-se. Então compreenderá, mas por ora não compreende. O que decide é a vontade individual antes da lei! Em todo campo é sempre assim: às leis humanas, por mais providas de armas de coação, obedece quem quer. O valor das leis depende inteiramente de quem as maneja e de como são manejadas. Se a elas, exteriores, não corresponde o sentimento de uma maior lei interior, toda lei humana é inútil e de escasso efeito. Assim, a questão do divórcio se reduz à legalização exterior de um fato que, sem divórcio, existe já de há muito. Negá-lo valerá como afirmação teórica e de princípio, mas efetivamente cada um já resolveu o problema por própria conta, segundo a sua natureza e suas convicções. A negativa será um obstáculo que tem por objetivo impedir que a atual geração de involuídos se lance desesperadamente para a anelada desordem a que dão o nome de liberdade, de modo a impedir que esta desordem seja exibida e fixada em palavra juridicamente legalizada. Mas neste caso, como em todas as coisas, a substância, o móvel, as conseqüências a pagar, são todas pessoais e interiores e as leis só alcançam ali até um certo ponto. A questão não é tanto jurídica quanto moral.

Observemos em dois casos típicos o que pode tornar-se na nossa sociedade o amor, quando submetido às pressões dos fatores econômicos e da luta pela vida.

Primeiro caso: uma esforçada jovem, religiosa, obediente aos sábios conselhos paternos, fiel às normas sociais, prudente calculadora e ciosa da sua posição social, que não quer perder, buscando muitos proveitos ao mesmo tempo, não consegue esposar-se senão tarde. De outro lado, isto sucede porque a moça é pobre e quer antes garantir uma posição, que consegue naturalmente depois que a juventude fenece. Ela e o marido se unem com reflexão, com todos os cálculos relativos, com plena permissão e consenso dos pais e parentes, das leis religiosas e civis, e absoluto concordância com todos e com tudo. Esposam-se, mas o amor não existe ou, em face de tantas reflexões, não se sabe onde esteja aí colocado. Mas em compensação o equilíbrio esta assegurado, os cônjuges estão tranqüilos, a proteção dos filhos garantida, posição ideal, fruto de sacrifícios previdentes, bem ganha também para os filhos. Ela foi prudente e honesta, soube esperar, sacrificar o instinto e se apresentar ilibada. Finalmente, diante de todas as exigências sociais, tudo esta em ordem. A sociedade aplaude, estima e respeita. Tudo é conforme as regras e com todas as suas vantagens. A reflexão, isto é, o calculo, triunfou. A batalha pela vida foi vencida e todos se inclinam. Há somente um pequeno fato, secundário no nosso mundo civil: as leis da idade do amor foram violadas, o frescor vital feneceu e o amor, dada a necessidade de adaptação, não se sabe o que se tenha tornado. Os corações, desiludidos pela longa espera, atiram-se aos últimos passos da juventude com voracidade inútil, os filhos ou não nascem mais, ou se nascem, são fracos, filhos de descontentes e de velhos, seres que não podem amar e gozar a vida, nascidos cansados, que não poderão afrontar e vencer a luta. Ganhou-se a batalha econômica, mas perdeu-se a batalha biológica. Esta é a história de tantos matrimônios de luxo, em que dois patrimônios se casam, não importando as pessoas que se ligam. Os filhos desvitalizados, para os quais justamente se pretendera tudo preparar, pagarão por essa excessiva preocupação. Certamente eles crescerão em meio aos confortos, protegidos pela riqueza e, em razão desta, estimados. Arredados artificialmente da luta, acabarão por enfraquecer-se e imbecilizar-se. E automaticamente perderão a riqueza que lhes proporcionou a inépcia. Assim vem-lhes custar bem caro quanto lhes foi fornecido gratuitamente. A vida deve ser um campo de exercitações e a natureza desaninha os parasitas e os protegidos. A riqueza só vale quando ela representa uma nossa atividade para conquista-la. Mas desde que se torne instrumento de ódio e de parasitismo, passa a constituir um perigo. Nos casos mais graves a natureza chega mesmo a negar a reprodução. Mas em todo caso, a vitória econômica é uma derrota biológica.

Segundo caso; uma outra jovem, rebelde aos conselhos dos pais e ás normas sociais, temperamento passional, pouco pendor calculador, não se preocupando consigo e com a sua posição social, disposta a tudo sacrificar pelo amor, esquece a autodefesa, deixa-se conduzir pelo instinto e, contrariamente aos prudentes preceitos religiosos, morais e sociais, ama e concebe nova, realizando um matrimônio de amor, mas economicamente desastroso, quando não fica só e abandonada. O seu destino esta selado por uma vida dura de trabalho e sacrifício. Não possui mais direitos e deverá tudo aceitar. Nenhuma proteção está assegurada aos filhos. Ela não soube esperar, sacrificar o instinto, ser prudente e honesta. Pais e parentes consternados e descontentes, as leis religiosas e civis violadas. Formalmente tudo está em desordem. Tudo esta contra os preceitos e dominam as desvantagens de uma posição péssima. A sociedade condena e despreza. Aqui triunfaram a sinceridade a espontaneidade do amor, mas a luta individual pela vida se perdeu e todos desaprovam. Ela não foi hábil, não soube valorizar-se, protegendo-se legalmente com contratos na vida, não soube utilizar a lei em sua defesa. É uma falida, é um refugo econômico e assim justamente todos se rebelam porque há um erro a ser pago e ele pesará sobre ela justificando a necessidade de uma sua adaptação. Somente que o erro não foi de caráter biológico, mas econômico e a sociedade parece que vê antes este do que aquele. Não obstante tudo, aqui também existe um pequeno fato, secundário em nosso meio civil e este consiste em que as leis da idade e do amor foram respeitadas. Os filhos, conseguidos no vigor da idade e sob o impulso do amor, são robustos, feitos para amar e gozar a vida, talhados para enfrentar e vencer a luta pela existência. Perdeu-se a batalha econômica, mas venceu-se a batalha biológica. Se a sociedade despreza, em compensação a vida aprova. Parece que esta pensa de modo muito diverso daquela. Os pontos de vista e os objetivos são muito diferentes. Onde um condena o outro premia. Certamente os filhos serão pobres mas bem munidos pela natureza para lutar, e a ausência de bens protetores os adestrará desde pequenos e os robustecerá ainda, de modo que lhes será depois fácil levar a melhor sobre os entibiados filhos da riqueza, arrebatando-lhes os meios de proteção. Desta forma a natureza restabelece os desequilíbrios, enfraquecendo os protegidos e fortalecendo os deserdados e assim também os filhos que parecem afortunados se tornam desventurados e os que parecem deserdados acabam vitoriosos. Assim a natureza justa restitui a esses às expensas daqueles quanto haviam recebido a mais e a derrota econômica se resolve em uma vitória biológica.

Estes não são senão dois típicos e opostos casos limites. Na pratica as combinações são inúmeras. Eles demonstram que a nossa civilização, sob o tormento econômico, que é o seu produto, tende a tornar-se um movimento antivital, e como é necessário para os fins da evolução libertar o fenômeno biológico dessa sua danosa dependência do fenômeno econômico. É um fato que hoje este último elemento influi na seleção sexual e na reprodução, nos sentimentos do amor e em todas as suas conseqüências. Sem dúvida o tormento econômico é um assalto que a luta pela vida move contra a própria vida, assalto que antes era. praticado pelas feras e pelos elementos. Mas como o progresso atenuou esta forma de luta nas atuais menos cruas e bárbaras, assim também a assistência estatal devera desenvolver uma contribuição cada vez mais intensa à sociedade na defesa da sua procriação. Os casos do primeiro tipo descrito explicam-se pela pressão universal que exercem as necessidades materiais em tudo. O homem sabe bem que a natureza não brinca e se defende apegando-se a tudo que pode. Em nosso grau de evolução a luta se tornou incruenta, menos física e muito mais psíquica mas nem por isto é menos feroz. Ao homem que não enxerga senão a si mesmo e à própria família e à sua exígua vida, a natureza, que objetiva fins complexos e distantes, parece desapiedada e é por isso que ele sacrifica a remota vitória biológica da raça à mais vizinha vitória econômica individual. No amor nós vemos a vida em conflito consigo mesma, porque ela pretende alcançar duas finalidades que neste momento entram em conflito: a conservação do indivíduo e a conservação da espécie. E o egoísmo que defende o indivíduo defende-se do egoísmo da espécie e este tende a esmagar aquele.

O homem desejaria o mais possível eximir-se do grande esforço de evolver, enquanto a natureza quer o seu trabalho para fazê-lo progredir. O progresso custa tanto trabalho, tanta dor e sacrifício de vidas que o instinto de conservação individual se retrai. O homem desejaria a vida fácil de gozador e ao invés o espera a vida dura da ascensão. A sociedade se agita para escapar a esse impulso e assume alternativamente atitudes, diversas, mas em vão. Nos períodos de bem-estar, quando dominam os regimes de ordem, a família é sã e a filiação protegida e estimulada, determina-se o incremento e a pressão demográfica, a consciência coletiva se desperta na força e com isto o sentimento nacional, o amor pátrio, a fé, a disciplina. Esses períodos e regimes terminam todos em guerras de conquista com os objetivos de expansão. Se houver vitória, o povo que a conquistou torna-se grande às expensas de outros povos vencidos, se houver derrota, ele se reduz em vantagens de outros povos vencedores. Neste caso, despontam os regime fracos de desfazimento e de desordem, reina a miséria, a família se desgasta e se desfaz, a filiação não protegida diminui, retarda-se o des nvolvimento demográfico, a consciência coletiva se atormenta e com ela o sentimento nacional e o desejo de guerras expansionistas. Atinge-se assim a paz, mas ao preço do próprio deperecimento. A natureza colima um só fim: a vitória. É por esta via que ela lança os povos mal se verifique uma exuberância de forças e, por mais que este capital custe ao homem, não lho permite gozar, mas fá-lo despender tudo para tentar a vitória. E se perde, pior para ele. Se, no entanto, um povo se recusa a desempenhar esse jogo, então a vida o pune liquidando-o através do entibiamento, da servidão e da extinção. E o indivíduo, movido pelo próprio instinto egoístico de conservação, ligado às necessidades da própria defesa pelo peso de mil necessidades, repele para longe de si, o mais que pode esta avalanche de outras necessidades biológicas, de que cuida bem pouco e desta forma sacrifica e distorce o sentimento de amor e procriação, sobre os quais a aspereza da luta pela vida vem assim a fazer incidir os seus signos funestos. De quem neste estado é a culpa? Quando não há margem, é natural que o indivíduo pense primeiro na própria conservação do que na qualidade da sua procriação, antepondo a sua vitória individual e negligenciando a biológica, menos urgente, da raça.

O amor, efetivamente, não é um sentimento somente para uso da prole, mas também o é para a satisfação dos genitores. Se é um fenômeno biológico demográfico e social, de interesse coletivo, é também um fenômeno eletromagnético, hormônico e genético, de interesse individual A troca de radiações de sinal elétrico oposto é um excitante do dinamismo nervoso, constitui um "do ut des", em que as duas cargas opostas reciprocamente se descarregam do supérfluo e se carregam do necessário. A troca hormônica, fenômeno ainda não bem compreendido pela ciência e que aqui não é possível ilustrar, realizando-se através das mucosas, abastecendo a célula, influi como regulador e ativador do metabolismo. Tudo isto é necessário e útil a vida dos genitores, independentemente da procriação. Por último e conexo aos precedentes, aparece o fenômeno genético, pelo qual, através da nossa vida individual, uma outra vida se individualiza, até tornar-se autônoma, destacando-se dos procriadores. É impossível explicar aqui a maneira pela qual o princípio espiritual se encarna no feto e como se liga a sua, forma física, segundo determinadas leis, orientado por forças e afinidades. Entramos aqui no campo espiritual em que se maturam os fins da vida e do qual o organismo físico não passa de um instrumento de experimentação. Pode-se dizer que não é possível compreender verdadeiramente o amor, se não se compreenderem todos os problemas do universo. Considerado o mesmo apenas como fato individual, ele é um fenômeno tão vasto que alcança as raízes mesmas da vida. Aqui podemos apenas explorar a sua complexidade. O homem tem a pretensão de dominá-lo com as suas leis e nem ao menos o conhece. Ele é regulado nas suas funções e conseqüências por uma sabedoria bem diversa da humana.
   
A medida que o ser evolui, o seu amor se torna cada vez mais espiritual. O involuído não sabe compreender o amor senão na sua forma inferior, egoísta e carnal A potência, a beleza, a liberdade, a alegria do amor espiritual constituem para ele um inconcebível, porque estão fora das suas possibilidades perceptivas. Só no alto, onde os seres não amam carnal e egoisticamente, pode-se ter um amor que se sobreponha à  traição, à desilusão, à morte. Indiscutivelmente é trabalhoso subir, mas se se pretende possuir esses resultados, é necessário enfrentar a ascensão. É árduo ascender, mas é lei que quem sobe caminha para a alegria e quem desce caminha para a dor. Infelizes dos que, iludindo-se em poder gozar precipitam-se para baixo. Instintivamente sentimos o paraíso no alto dos céus e o inferno nas tenebrosas profundidades da terra. Hoje a humanidade é presa de um frenesi de evasão e deliberação. E acredita-se que se possa alcançar a liberação da dor, evadindo-se de toda norma. Formou-se assim um conceito invertido de liberdade, em descida ao invés de ascensão. Mas o que não está invertido nessa era de involução? A verdadeira liberdade só se pode alcançar com a ascensão e com a luta por ela. Este é o século das palavras falsas, feitas para enganar, para que tudo se transvie e se distorça. Hoje se difunde um pendor doido para negligenciar todos os deveres, de libertar-se de todas as disciplinas, acreditando-se que com isso se aliviem todas as cargas. O resultado é um egoísmo cada vez mais feroz, semeador de danos para todos, na luta cada vez mais acirrada e, pois, na vida cada vez mais dura. E esta queda na barbárie se chama evasão e liberdade. Cada qual nega ao próximo o tributo do próprio dever e todos se empobrecem. Evadir das normas da moral, embrutecer-se no prazer, pode parecer ascensão para a alegria, mas na realidade é descida para a dor. Toda manifestação humana exprime a atual fase negativa, destruidora, involutiva, de descida. Caminha-se assim para uma dor sempre maior e, desta forma, com a ruptura a que se chama liberdade, descer-se-á cada vez mais, até um tal estado de desesperado sofrimento, que a própria desesperação imporá a reação, isto é, o retorno à fadiga da ascensão. Não se pode conter a evolução. As massas de hoje estão presas no vórtice e não podem enxergar além deste Deverão percorrer todo o ciclo da hora histórica. Cada um possui e sabe o que merece. Deus guia tudo. Poucos isolados e oprimidos seguem em dor e silêncio o caminho oposto, unindo-se a Deus em uma luta desesperada para salvar, nesta hora de destruição universal, especialmente os valores espirituais, aquilo que de mais precioso e com trabalho imenso as civilizações conquistaram. A luta é desigual e desesperada. Mas Deus, que tudo guia, está com eles. A vida, pela sua salvação, está também com eles. A evolução, que não se pode frear está igualmente com eles. São profundas as trevas, mas com eles se encontra a luz. Em uma hora de inconsciência eles possuem a consciência de ser os depositários e os guardas dos mais altos valores da vida e, por conseguinte, os senhores do futuro.




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