A visão do universo nos guia para a visão de Deus, em que vemos, na criação o Criador, e no Criador a criação. Indiscutível se torna uma estreita relação entre os dois que devem formar uma só unidade, porque, qualquer cisão anularia essa unidade do todo. Deus nos aparece como o aspecto ou pólo transcendência do todo, o universo como o aspecto ou pólo imanência do todo. Examinemos agora, separadamente, a natureza e a atividade desses dois pólos. Dado que a criação está no limite do finito, observemos o ponto de partida e o caminho por eles seguido para voltar a conjugar-se ao completar-se do processo. Comecemos pelo pólo transcendência.

Aqui nos encontramos diante do mistério dessa limitação que o infinito se impõe para se exprimir no finito, do absoluto para se manifestar no relativo. É uma inversão de valores, de natureza involutiva, é a fragmentação do uno no múltiplo, é o equilíbrio desfeito num movimento sem trégua, um desequilíbrio que procura através de um incessante vir-a-ser reencontrar o equilíbrio, é o início do transformismo no relativo, é um fechar-se em outra ordem de leis que não são as do absoluto, um fechar-se no limite, mas com a ânsia de sair dele, com o instinto de transpor o limite, um fechar-se no ciclo vida-morte, mas para alcançar a imortalidade, no esforço, na dor, mas para subir até à felicidade. Mas por que o absoluto Deus perfeito quis descer assim na imperfeição? Por que quem tudo tinha e de nada precisava quis livremente submeter-se a esse trabalho? Para criar, através dele, uma criatura semelhante a si, e pois, para amá-la e ser amado, fazendo-a participe da sua felicidade. No pensamento de Deus que cria há, pois, dois conceitos fundamentais que depois reencontraremos em todo o universo como base da gênese em todo o campo e nível: esses conceitos são amor e dor. Eles se sintetizam num só: sacrifício. Ora este dar-se em sofrimento não é estéril, mas é um meio para alcançar uma multiplicação de alegria. O sofrer, então, é logicamente justificado, porque é criador dessa alegria, primeiro em outros seres para os quais é irradiada e que depois resplandece e irradia de retorno, para quem sofreu para gerá-la, para quem, pois, o sacrifício se resolve, no fim, em multiplicação de felicidade. Assim a dor se torna genética, terminando num aumento de alegria e é aceitável por ser geradora de alegria.

O universo responde, do caso máximo ao mínimo, a esse conceito. É por haver verificado em todos os casos o principio de analogia, que nos sentimos autorizados a ver presente no pensamento de Deus, ao criar, a mesma lei de amor e dor que preside a qualquer menor ato de gênese no universo. A lei do sacrifício está na base da gênese da vida, sacrifício no qual se funde no mesmo tormento criador a alegria do amor e o espasmo da dor. Olhemos para o mundo que nos é acessível e o encontraremos como raiz de toda a criação, seja na carne, seja no espírito; somente do sacrifício, que é juntamente amor e dor, nasce alguma coisa, a criatura nova, seja filho, seja obra do trabalho, seja conquista heróica, seja intuição de gênio. É o esquema geral do universo, que vemos repetir-se e reproduzir-se em todos os seus momentos e pontos. O caso particular nos fala do universal, pois que ele é ligado pela lei única que rege o todo, que é uno. A lei que todos aplicamos, porque é inerente á vida, nos indica qual foi o primeiro, máximo ato da gênese, que depois todos os seres vão repetindo à imagem e semelhança do primeiro: o sacrifício. Esta é a voz de todo o criado, que continua a gerar, e não pode gerar, senão no amor e na dor, único caminho, seguindo o primeiro impulso semelhante e máximo exemplo. Se a criação é o resultado do inefável sacrifício do criador infinito que se limita na forma para se manifestar na gênese de outros seres, a criatura não pode continuar a ser senão a expressão daquele primeiro ato, repetindo-o ao infinito. Mas é sempre Deus que, na criatura, repete o Seu ato originário, continuando assim a gênese. A Sua criação não é devida a um só sacrifício inicial, mas à perene renovação desse sacrifício. Uma vez que a criação não se sustenta senão por uma gênese contínua, porque manter é criar, também aquele sacrifício é continuo. Toda forma de existência é devida a esse imolar-se com um ato de amor. Se essa irradiação suspendesse, por um só instante que fosse, o seu fluir, a vida ficaria parada e a criação pereceria. Tudo, em todo movimento, é regido pelo centro que, irradiando, se encontra presente e age em todo ponto do criado. É essa fonte que alimenta tudo e quem dela se separa vai ao encontro da morte. A nossa vida, como a de todo ser, é devida a essa presença de Deus. Senti-la, comunicar-se com essa fonte, é a vida. Ignorar, negar, repelir essa imanência de Deus, é a morte. Nenhuma filosofia pode mudar essa realidade biológica. Deus é a atmosfera vital do espírito, de onde, depois, tudo nasce. O universo é um organismo em função, dirigido na sua infinita multiplicidade por esse centro que tudo mantém unitariamente compacto, como a alma rege o corpo humano. Como toda célula do nosso organismo possui uma pequena consciência sua, dirigida, nutrida, coordenada por um Eu central que a supera e como toda célula só pode viver em função desse Eu, do mesmo modo os seres estão em contínua comunicação com o Eu do universo, Deus.

O    universo é regido por essa radiação de amor que os seres recebem, que os mantém em vida, os atrai e incita a subir. No centro há o pensamento que, vemo-lo ainda nas nossas pequenas coisas, é a máxima potência criadora. essa potência que, irradiando, cria continuamente. A Lei não é escrita e morta, mas é a presença viva do pensamento divino em ação. É essa irradiação que torna imanente, entre nós, o Deus transcendente, unindo-nos a Ele. O universo é dirigido, isto é, continuamente criado, por essa irradiação que é o resultado de amor e dor e que não se pode cumprir senão em sacrifício. E então o ser deve, analogicamente, repetir, pelo princípio da unidade em esquema único, o próprio ato do criador e a gênese deve continuar-se através do sacrifício da criatura transformada em operário de Deus e instrumento de criação. Assim a evolução nos leva a Deus, mas através de provas e lutas, erros e dores; assim no esforço fadigoso se opera o desenvolvimento da consciência. O universo transborda de alegria, mas ela há de ser conquistada; há entre o ser e ela o diafragma da dor que é preciso saber superar. Salutar diafragma que nos impõe aprender para subir. É assim que a alegria chega escassa, porque escasso é o esforço que se realiza para a conquistar e dessa maneira, tristemente, se vai bebendo aos goles o oceano. É assim que o ser, conquanto lento e preguiçoso, deve responder, por conta própria, ao sacrifício de Deus. Essa é a atmosfera necessária para toda ascensão. Trata-se de romper as formas, o egoísmo que as sustenta, trata-se de se expandir do finito para o infinito, de superar o limite no qual Deus se fechou, mas de onde quer que surjamos para chegar até Ele. Dar, não tomar, crescer da pequena vida individual separada, para a grande vida universal. Tudo isto se opera com o sacrifício. Ele é dor, mas é também amor e conquista de felicidade. Quem toma e não dá fecha as portas da vida, limita-a, perde-a. O dar é sacrifício, mas, sacrifício que cria. Assim a lei da dor torna-se a lei do amor e da ascensão. É difícil caminhar-se por essa estrada; os primeiros passos são penosos; difícil é compreender esse íntimo mecanismo da vida. E no entanto é assim: somente o sacrifício abre as portas da vida, os caminhos de Deus de onde flui toda a riqueza. Devemos, para obter, possuir a força de renunciar, mas renunciar, não para nos sufocar e nos destruir, mas para superar o menos, porque podemos além alcançar o mais. Eis o valor da renúncia: conquistar no alto. Eis o significado da inversão evangélica dos valores humanos. A dor não se elimina, fugindo-se dela loucamente, sem a compreender, como faz o mundo de hoje, mas domesticando-a, utilizando-a como um instrumento de ascensão, aprendendo a lição que a dor tem por qualidade ensinar-nos. Estas são as leis da vida, nem se pode de outro modo subir a escada da evolução. Não se pode criar senão com o sacrifício.

Reencontramos continuamente, nas religiões esse princípio do sacrifício, nas relações entre o homem e Deus, de ambas as partes. Sacrifício que o homem faz para Deus e Deus se sacrifica pelo homem. Esse princípio lentamente evolui nas religiões até tornar-se base do conceito da redenção que significa sacrifício de Deus para o retorno da criatura a Deus. E eis que, de um golpe, vejo esta visão lampejar diante de mim o significado profundo da Eucaristia, instituída por Cristo. Vejo a cena da última ceia: "Accepit panem in sanctas manus suas et elevatis oculis in coelum, benedixit, panem in fregit, deditque discipulis suis dicens: Accepite et manducate ex hoc ombes: hoc est enim corpus meum"9 . Eis que o Cristo parte o pão, "fregit", entendendo que com "hoc est enim corpus meum" Ele partia a sua vida e dava aos homens, como dava aquele pão aos seus discípulos. E é com este sinal, o partir do pão, que Cristo se faz reconhecer pelos discípulos de Emaús, como por um gesto seu próprio. E qual pode ser a significação desse ato, se não a de nos querer exprimir e repetir a gênese através do sacrifício, o gesto de Deus do qual nasceu a criação? Naquele tempo o mundo espiritual caía. Eis o novo impulso criador, que não podia ser dado senão através da dor. Aí está a necessidade da paixão. E como Cristo expressa na Eucaristia o princípio genético do ser, como na Sua dor Ele o viveu, e aquele sacrifício eucarístico se repete ainda agora, continuamente na terra, assim ao homem que quer subir, o próprio Cristo no Evangelho indicou o caminho criador da ascensão conforme o mesmo princípio por Ele vivido, "Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á e o que perder a sua vida por minha causa, achá-la-á". (Mat. XVI - 24, 25). É assim que o sacrifício e a paixão devem ser bilaterais, não somente em Cristo, mas também no homem, que repete continuamente o sacrifício da Eucaristia não para ser gratuitamente redimido, mas para se lembrar que, por sua vez, deve na dor e paixão abraçar a sua redenção, repetindo, de sua parte, para com Deus, o que Deus fez para com ele! É evidente que o ciclo não pode fechar-se nem as duas correntes reunir-se se, paralelamente à corrente do sacrifício que desce do Criador para criatura não se completar com a da criatura que dela sobe para Ele. É sempre o mesmo princípio que deve atuar nas duas direções, dualismo e duas metades inversas e complementares.

A atividade do homem deve refletir a atividade de Deus conforme a mesma e única lei pela qual, para ambos, é sempre o sacrifício que dá e multiplica a vida. O que significaria, de outro modo, a encarnação de Cristo na terra como condição da redenção e como podia cumprir os desígnios do Pai, se tudo isto não correspondia à suprema lei de vida, desejada pelo Pai? Cristo desceu à terra para pô-la em atividade, formando assim o anel de conjunção entre o Pai e o homem. A descida de Cristo se deu nos planos densos da matéria, no limite dos sentidos; é um entregar-se com dor para viver em contato com seres involuídos entrando na mesma vida, submetendo-se até ao Calvário, às suas leis ferozes; e isto, para os elevar, mostrando que existe uma lei superior à da luta: porque existe uma outra vida que não é a do corpo. A descida de Cristo à terra está conexa ao ato da criação. Ele sacrificou-se para dar a vida; a cruz tornou-se o centro de atração da humanidade, como o Pai o é do universo por Ele criado conforme o mesmo princípio. Cristo é a tangível expressão da imanência de Deus no criado, da Sua intervenção e presença no desenvolvimento da vida. Assim, do extremo transcendente do universo ao outro extremo da forma, atua a mesma lei de sempre, e em qualquer parte, para demonstrar a realidade do monismo do todo. O homem para subir deve romper (como foi rompido o pão da Eucaristia para ser dado a outros) o seu egoísmo em favor do próximo. "Ama o teu próximo como a ti mesmo". Não há senão essa dura via de renúncia de si mesmo, para subir. Somente assim Cristo parte o pão, dizendo: “Este é o meu corpo partido para vós”. É a gênese. O sacrifício do Gólgota nos revela a lei da criação, o princípio do universo. É a gênese que se opera numa atmosfera de destruição, mas que é destruição somente da forma, é condição necessária à renovação de um universo em que Deus, no seu aspecto imanente, opera uma criação continua.
   
Dissemos acima que o todo resulta constituído de dois pólos: o extremo-transcendência e o extremo-imanência Deus é o universo. Não podemos separá-los sem quebrar o todo-uno, num dualismo insanável. Agora vimos que os dois pólos não são estáticos e inertes, postos um diante do outro, mas que, dado o princípio do amor, eles se movem um para o outro, isto é, tendem para o amplexo: transcendência para imanência e imanência para transcendência. Então não vemos somente Deus projetar-se na sua manifestação-universo, penetrando-a inteiramente, mas vemos ainda o processo inverso e complementar, segundo a conhecida lei do dualismo constitutivo de toda unidade e de todo circuito que a determina. Agora havemos observado sobretudo aquela metade do circuito que forma o todo, que do transcendente, ou Deus, ou causa, ou Pai, vai para o imanente, o universo, o efeito, o filho. Observamos agora o movimento oposto que, do imanente, vai ao transcendente, por onde o universo volta a Deus. Somente assim o sistema podia ser equilibrado e o circuito fechar-se, formando a unidade do todo. Isto nos diz que Deus não criou um universo estranho a Ele, mas um universo no qual Ele se transfere e vive, exprimindo a si mesmo. Sem universo, Deus era perfeito, mas era sem manifestação e também sem amor, porque, sozinho, conquanto perfeito, não se pode amar. E tudo isto nos mostra ainda que o universo não pode viver sem Deus e nos explica aquele seu grande movimento que é a evolução, isto é, que o escopo de tudo o que existe é o fechar do circuito e o retorno a Deus, de quem o ser descende e foi gerado. Os dois movimentos: criação, que significa involução (primeira metade do circuito) e evolução (segunda metade do circuito), se condicionam e se completam um no outro. Nenhum dos dois é concebível e pode existir desacompanhado. Eles são estreitados, presos um ao outro, como dois movimentos de um mesmo único processo, num sistema absolutamente unitário. Somente assim se salva a unidade do todo. Eis o significado do monismo Deus-universo.

Observamos o completar-se de um no outro, dos dois inversos, inseparáveis movimentos. Em um primeiro momento o Deus transcendente deu-se através do seu sacrifício na veste exterior da forma, pulverizando a sua unidade no multíplice e o seu absoluto no relativo; deu-se pelo amor que quer criar uma nova criatura, para amar e ser por ela amado, transmudando-se da transcendência na imanência. Em um segundo momento o processo se completa, continuando-se na sua inversão, que pode reequilibrá-lo e fechá-lo. Então a forma, ou criatura, expressão do transcendente no imanente, o segundo modo de ser do todo, deve cumprir o mesmo sacrifício, isto é, a mesma dação de amor, que tornando a subir em direção inversa, restitui ao Criador, por amor, o que Ele por amor deu: porque amor é o princípio unitário do todo que rege ambas as fases, a de ida e a de retorno, descida e subida, involução e evolução, que formam as duas posições opostas do mesmo único respiro do todo. É nesse segundo momento que o aspecto imanente deve voltar transcendente; que o universo descido de Deus para Ele torna a subir, evoluindo. É evidente a correspondência das posições, movimentos e atos inversos. O sacrifício do Criador, dando-se na descida, se compensa, assim, se equilibra e se completa com um paralelo sacrifício da criatura que, é da lei, se deva dar na ascensão. O mesmo princípio se deve repetir em posição invertida, harmonizando, assim, a mais férrea e exata justiça que está na ordem da lei, com o princípio próprio do amor, da doação gratuita. O ser para reencontrar Deus lhe deve restituir o Seu sacrifício, a que deve a vida, mas somente assim a pode n‘Ele reencontrar. Dessa maneira a destruição torna-se um meio de realização; da morte renasce a vida. Torna-se, pois, lógico o absurdo que a dor crie e que a conquista se alcance rompendo o próprio egoísmo centralizador, num altruísmo que, dispersando o Eu, parece antivital. É assim porque não fomos criados para viver sós, cada um por si, mas para os outros, porque o escopo é unificar-se e somente quando todo o universo voltar a ser uno, ele terá reencontrado Deus, o efeito terá voltado à causa, fechando o circuito. Somente então Deus se sentirá todo realizado com o Seu universo, e a criação, hoje em marcha, estará completa.

Com esta visão de conjunto, tudo se compreende e justifica. Na fase involutiva é a dor de um Deus que opera a gênese; na fase evolutiva é a dor do ser que a continua e conclui. É assim que a dor do homem é criadora. O sacrifício de todas as criaturas, em todo o universo, deve compensar e equilibrar o sacrifício do Criador. Mas a esse seu sacrifício elas devem a existência, dom supremo de amor. Para que ele seja completo no todo, porque recíproco, é fatal que o sacrifício seja restituído por amor da criatura ao Criador, é necessário que esta rompa a sua forma em gênese, se dê dolorosamente em amor, como Ele se dividiu e sacrificou dando-se em amor para a gerar. Eis por que evolução é dor. É duro, mas o resultado compensa tudo. A dor do ser estão confiadas funções construtivas; é nessa fadiga da ascensão que ele se torna colaborador de Deus. O sistema é equilibrado e a lei de justiça aí reina soberana. A nós, situados em um ponto particular do ciclo, ele não oferece senão uma vista parcial. Julgamos, portanto, conforme perspectivas relativas e incompletas. A dor pode, pois, aparecer-nos como condenação e não como é, um instrumento de felicidade; o mal como um inimigo do bem e Satanás um anti-Deus. Mas quem possui a visão completa, neste monismo encontra tudo lógico e perfeito. No seu conjunto o todo permanece, também na sua expressão de imanência, idêntico à sua substância transcendente; se olharmos profundamente, no absoluto, ele não nos aparecerá mais cindido, mas na sua imutável unidade, o que constitui uma visão mais avançada de Deus, que aqui não é possível expor.

Tornemos, pois, para o relativo da nossa fase e observemos com olhar relativo, especialmente do lado humano, a segunda parte, evolutiva, do movimento do todo. Aqui há reabsorção em Deus da Sua irradiação. Vimos porque toda criação, mesmo humana, não possa ser separada da dor e fadiga. Assim é para a mãe, como para o gênio, para Cristo como para o homem. Mas que maravilha se olharmos o produto dessa dor e fadiga! O mundo não pode progredir senão por esse caminho. Esse é o esquema único que reencontramos nas nossas pequenas conquistas quotidianas, assim como na ascensão do todo para Deus. Mas junto à força negativa da dor constitutiva do esquema da evolução, há ainda uma outra força, e é a positiva do amor. Se a primeira repele, a segunda atrai. E a conquista está além da nossa fadiga, de modo que a evolução necessariamente implica em que do encontro, ou conúbio, das duas forças, nasce um contínuo ato de sobrepujamento de limites. Mas eis o terceiro termo, a criação. Daí a luta pela vida, o princípio da seleção, a ascensão biológica ao longo de planos evolutivos. Se em qualquer parte encontramos, em formas diversas, segundo o grau do ser, a luta e a fadiga do ato de superar, encontramos ainda o amor, seja ele invertido ao negativo nos planos involuídos como ódio, seja levado ao positivo, nos planos evoluídos, como sempre maior amor. Força que é sempre amor, o princípio que une e prende um ser ao outro, seja no ódio, numa ligação que mata, seja no amor, num amplexo que gera. Ninguém pode viver só no todo, mas é sempre ligado ao outro, do extremo involutivo, inferno ao extremo evolutivo, paraíso, ou por vínculos de ódio, feitos de dor e destruição, ou por vínculos de amor, feitos de alegria e criação. Na unidade da vida nenhum ser pode ficar indiferente ao outro, e se deve ligar ao longo da via positiva, por atração, ou ao longo da via negativa, por repulsão.

Amor é a grande lei universal, é o ímpeto animador do todo. Não é o amor a si mesmo, que pode ser culpa. Esta não está no amor, mas na involução do amor, na sua limitação egoísta, porque o egoísmo representa verdadeiramente o limite em que o Eu se fecha na descida involutiva. A virtude não está na supressão do amor, mas na sua elevação, na sua expansão altruísta, pois que o altruísmo representa o abrir-se do Eu, na sua ascensão para Deus. Por isto, nunca deve ser destruído este divino impulso unitário do universo, mas deve ser dirigido para a sua alta meta que é a reunificação; deve, assim, ser liberado das suas formas inferiores, egoístas, para alcançar as superiores, altruístas. A culpa para o homem está na animalidade do amor e o progresso está na sua espiritualização. Quanto mais o amor é involuído, tanto mais está longe da unidade, quanto mais é fragmento disperso encarcerado no egoísmo, tanto mais se distancia de Deus e da alegria. No plano animal, o amor, aqui somente pequena laceração de egoísmo, não gera senão os corpos, mas no mais alto ele possui funções criadoras imensas. Assim se explica como, dado o egoísmo separatista humano e a relativa dominante psicologia do "do ut des", seja necessário um prazer imediato para induzir o ser, ainda inconsciente, a um início de unificação para a gênese física, seja necessário um gozo que lhe pague logo o sacrifício de dar parte vital de si mesmo no ato sexual, porque nesse nível o egoísmo que prevalece, sem uma compensação, não faria nada. Mas também aqui temos sacrifícios pessoais, dando, ainda que o ser acredite tomar, enquanto dá. Dá o pai à mãe, dá a mãe aos filhos. Sacrifício que evolui e se completa na educação deles, dando-lhes alimento e defesa, instrução e elevação moral. Desta forma a família, com os seus deveres, representa um amor mais evoluído do que o do animal e, ainda, uma criação muito mais profunda, que acomete o espírito, a criação de uma primeira célula para a unificação. Assim, de plano em plano o amor guia o ser para a unidade. Tanto mais o amor é involuído, quanto mais é isolado, e tanto menos é criador; quanto mais ele é evoluído, tanto mais criaturas ele abraça, maior é a sua potência criadora. Esse é o caminho que nos conduz sempre mais para perto de Deus. É grave erro o combater, para aniquilar as formas involuídas de amor, todo amor é forca indestrutível e motriz da evolução. Uma virtude, assim entendida, em forma destrutiva, representa a negação, o mal. Jamais destruir por destruir, sem primeiro haver edificado. Geram-se, de outro modo, as piores contorções desse insuprimível impulso da vida. O amor que desce em vez de subir, nos distancia, ao invés de nos conduzir para a alegria, porque, então, o egoísmo o inverte, levando-o para o ódio e a dor. Quanto mais se reduz o amor em prazer, tanto mais ele se torna traição; quanto mais lhe tiramos o elemento sacrifício, tanto menos ele é criador de vida para os outros e, pois, de felicidade. Porém, não por essa razão, se conceba a virtude como ódio a si mesmo, que o amor nunca deve ser invertido em ódio, mas se conceba como amor pelos outros num campo sempre mais vasto. Essas são as leis da vida. O amor que quer somente tomar e não dar, não pode gerar alegria. O universo é sabiamente equilibrado e a vida se dá em alegria a quem se lhe dá em sacrifício, e se nega a quem egoisticamente se nega. Muitas vezes pelo homem o amor é desviado para falsos objetivos. Amar a criatura antes que o Criador, as coisas mais que o espírito, os fragmentos em vez do todo, agarrar-se avaramente à posse, fechando em seu benefício o fluir dos bens para todos, amontoar e adorar o tesouro, amar assim, em forma contorcida e invertida, não pode gerar alegria, mas somente dor. Por isto a vida nos oferece ilusões e traições.

A verdadeira realidade da vida é outra. Tudo nasce de uma forma que se rompe. O rebento se abre na flor perfumada que perece gerando o fruto saboroso, que morre dando a semente que encerra. E esta cai na terra e brota novamente, rompendo a sua forma de semente, em uma nova vergôntea. Toda forma se dá e, ao se dar, caminha para a morte. Mas se assim na vida há morte, na morte há também vida. Assim a beleza da virgem floresce na maternidade, finalidade da beleza, que deste modo se deve romper para gerar seres novos. Os melhores indivíduos, na sociedade, são perseguidos ou abandonados, e eles se devem dar, criando na solidão e no tormento. O homem mata os seus profetas, para se apressar, depois, a exaltá-los e a colher, como preciosas relíquias, o que não conseguiu destruir. Então o que resta se torna sagrado, pelo sacrifício do grande que se imolou. Este é venerado pelo mesmo involuído que não pode deixar de sentir nele um pioneiro da evolução de todos. Também os involuídos, agressores dos mestres, são necessários para que esses possam criar, sacrificando-se. Assim toda civilização desabrocha, floresce, frutifica e depois cai, deixando sobre o terreno humano as suas sementes. Desse modo, através do amor e da dor, se desenvolve a grande sinfonia criadora do universo.

O romper da forma, expresso na Eucaristia pelo partir do pão, representa o doloroso rompimento do Eu e a reabsorção do egoísmo separatista no altruísmo ascendente para a universal unificação em Deus; significa o reconstituir-se em unidade, por parte de um universo egocêntrico em Deus. E de fato toda criatura, no seu egoísmo, repete em escala menor, em toda altura, o mesmo esquema. Mas, egoísmo e altruísmo não são mais que posições diversas e questões de amplitude. Também Deus é egoísta no Seu universo. Mas o Seu egoísmo é tão altruisticamente amplo, que compreende todas as criaturas. O egoísmo destas, ao contrário, não compreende senão o seu Eu isolado, além do qual não há compreensão e harmonia, mas estridor e luta. Quanto mais se sobe, tanto mais o egoísmo é compreensivo e unificador. O Eu involuído ignora o vizinho, é desorganizado e belicoso, desagregante e destruidor. De baixo ao alto, esse egoísmo rompe-se, pouco a pouco, de círculo em círculo, e isto é dor, amor e conquista. Sobe, sobe, em Deus o egoísmo alcança a sua infinita dilatação, que a tudo e a todos abraça, coincidindo, assim, com o absoluto altruísmo. Em Deus, egoísmo e altruísmo se fundem, sendo uma coisa só. O universo, subindo para Deus, vai de um egoísmo separatista a um egoísmo sempre mais unitário e altruísta, para reencontrar assim, em Deus, a sua unidade. Dessa forma, conforme o princípio das unidades coletivas desenvolvido em A Grande Síntese, os seres se unem em organismos sempre mais complexos e completos, do núcleo, que no átomo rege os seus elétrons, aos agregados de miríades de átomos que formam a matéria, ao núcleo do protoplasma, à sociedade de células, ao organismo animal, humano, à família, à classe social, à nação ou povo, à humanidade, à organização progressiva de todas as humanidades do universo. Tudo, na química atômica às estruturas orgânicas, dos sistemas solares e galácticos às coletividades animais e humanas, tudo nos fala de associação. Nela o egoísmo se expande em amor para o semelhante, porque nele vê a si mesmo. Neste sentido a hodierna psicologia coletiva de classe já é um progresso, porque é uma tentativa de nova unificação, antes não sentida. Quando o homem chega a sentir em toda criatura o seu semelhante, tanto de ver aí a si mesmo, como fazia São Francisco, então ele compreendeu e sentiu Deus. Assim o egoísmo torna-se amor e no egocentrismo absoluto de Deus encontramos o absoluto altruísmo e o absoluto amor. Nele todos os seres são compreendidos. Por isto toda criatura não pode viver senão em Deus. Para ela só existe um mal e prejuízo: involução, que significa estar distante de Deus; e só existe um bem para ela: a evolução que significa estar perto de Deus.
   
O    homem que acredita que o romper da forma seja perda de vida, na sua ignorância se engana. Essa destruição não é morte, mas é condição de vida. Essa é a técnica da evolução, pois que, sem o fim da vida velha, a nova não pode nascer. O egoísmo que avaramente se agarra à forma para conservar, não vai para a vida, mas procura deter o seu fluir. O homem assim procede porque ignora a infinita, inexaurível riqueza da fonte divina. A destruição da forma não é perda, é libertação. O homem não sabe que é eterno, indestrutível, centelha de Deus, destinado a subir sempre mais para Ele em alegria e potência. A forma não é a vida, mas é o invólucro que, embora exprima, também aprisiona a vida. Evoluindo, não temos mais necessidade do corpo para nos exprimir, nem dos seus sentidos limitados feitos para um meio denso. O porvir está no ato de superar a forma, o que é expansão de vida. É, justamente, através da sua espiritualização que ela adquire um dinamismo sempre mais intenso, uma agilidade e uma potência, um conhecimento e uma liberdade antes ignorados Cristo veio ensinar-nos essa indestrutibilidade da vida, com a Sua ressurreição. Assim o homem que se sacrifica pelo bem dos outros não se danifica ou se mata, mas conquista uma vida maior. O altruísmo absoluto, destruidor do Eu, não compensado por uma correspondente conquista, não existe no universo. O que é antivital é absurdo no seu sistema. O sacrifício é admitido na economia da vida porque, quando se deve verificar, ele representa uma real vantagem, uma conquista, uma ascensão. O homem atual está fechado num utilitarismo restrito, imediato e não compreende esses outros utilitarismos amplos e de realização remota. E muitos dos seus erros e, portanto, dores, são devidos à sua ignorância. É inerente ao seu estado involuído o não saber viver senão as suas pequenas verdades parciais, de superfície. Todavia, até que não tenha amadurecido para uma verdade mais ampla e completa, a verdade precedente, inferior, é sempre útil para percorrer o precedente trecho de evolução. Percorrido este, a velha verdade cai por si, e a nova desponta na compreensão humana. O mundo avança desse modo. Hoje o homem crê enriquecer agindo egoisticamente e, ao contrário, ele empobrece, porque se fecha no egoísmo como em uma gaiola de ferro que o sufoca, lhe impede a expansão, o isola das fontes da vida. Amanhã ele compreenderá mais e compreenderá o mais amplo utilitarismo do altruísmo.

O homem, fundindo-se no próximo, amando-o como recomenda o Evangelho, provoca o processo da reunificação que reconduz o ser a Deus. Enquanto o movimento centrífugo, que distancia o ser de Deus, tende a reforçar o egoísmo, fazendo do Eu um centro independente que se levanta contra Deus, um centro em torno ao qual o Eu tende a atrair e a ligar quanto mais criaturas e coisas possa, o movimento centrípeto, que conduz o ser a Deus, tende a romper o egoísmo, reconhecendo Deus como cada vez mais centro universal, fazendo convergir para Ele, tudo e toda criatura. O egoísmo representa a rebelião de Satanás, o princípio separatista, anti-unitário do anti-Deus. A criatura gerada pela separação do Uno, que se deu em sacrifício por ela, em vez de reencontrar a plenitude dada pela unidade, a Ele retornando em sacrifício pelo mesmo amor que a gerou, procura reencontrá-la naquele reflexo da unidade que tem em si e, para não querer enfrentar a fadiga de tornar a subir, detém a vida na limitação, pretendendo, com um só fragmento, poder reconstituir o todo. É assim que nasce o mundo luciferino, a paródia, uma unidade partida, um mundo às avessas como todo fragmento, negativo, contraditório, inquinado nas próprias raízes, por essa subversão central, pelo que o amor se torna ódio, o sacrifício, prazer efêmero e traidor, a construção torna-se destruição, a ascensão para a unidade torna-se descida para uma sempre maior separação. Essa é a mecânica do sistema, o que explica como tantos que se aliam no mal acabam em guerra entre si, como as suas construções são feitas para ruir, como quem opera nessa direção esteja de tal modo embebido pela própria atmosfera de negação, que não pode construir senão às avessas, isto é, destruir tudo e, no fim, a si mesmo. E eis, então, que o ego smo que parecia a mais segura das conquistas, fica sendo, ao contrário, a via da perda, e o altruísmo, em que aquele egoísmo se rompe e que parecia uma perda, se torna uma conquista. Tal é a estrutura do nosso universo.
   
Essas realidades estão presentes em qualquer parte, esses princípios funcionam em qualquer lugar. Em nosso mundo involuído, portanto ignaro e inconsciente dessas verdades, predomina o segundo aspecto luciferino da verdade invertida, consequentemente a cegueira, a ilusão, a traição em tudo. Não há senão uma salvação, seja para o indivíduo, seja para a sociedade: inverter a direção, reencontrar o caminho da ascensão, desfazer a ilusão que nos faz parecer utópico o Evangelho, ver e aplicar a sua suprema sabedoria. Quem compreende, tem a sensação clara que ao mundo de hoje ficou cortada a via das fontes da vida. Ele se faz sempre mais desapiedadamente egoísta e ávido e está, todavia, sempre menos satisfeito de tudo; para se fazer mais rico ele se torna sempre mais pobre, não aspira senão a possuir e, no entanto, isto se torna sempre maior mal, quer gozar a todo custo e com isto não consegue senão ligar-se a um tormento sempre maior. E no entanto esse tormento é a única salvação do mundo, porque o obrigará a mudar de rumo, em direção oposta. O instinto de expansão, que é próprio da vida, nunca poderá saciar-se, assim invertido no domínio material que, ao contrário, é uma servidão. Aquela necessidade não pode ser satisfeita senão no espírito, indo para Deus e não para as coisas. Assim, por pouco para nos enriquecermos matamo-nos em grande escala; os imperialismos, que deveriam conquistar, se resolvem em guerras de destruição para todos, especialmente para os chefes que as quiseram. E também a nossa ciência, maravilhosa conquista, arrisca fazer naufragar o mundo que queria elevar, e isto, justamente, por essa fundamental direção invertida. Como se vê, as leis do universo são tão onipresentes, que penetram a nossa tangível realidade quotidiana. Os meios de que o homem dispõe hoje, o seu domínio sobre a natureza, são infinitamente maiores do que os dos velhos tempos. E, no entanto, jamais ele foi tão inquieto como hoje é; a celeridade para poder satisfazer-se, não faz senão com que aumente essa inquietude. O homem sente que, do outro lado das suas conquistas, há para ele o vácuo, falta a meta para onde dirigi-las e que a direção atual é para a destruição. Aquelas conquistas não são positivas, mas negativas, avançam em descida, não em ascensão, para a separação e não para a unificação. Na nova hodierna potência construtiva da ciência, tudo se despedaça nas mãos do homem. Ele, ao contrário, tem fome de unidade, sempre mais. A vida quer ir para sempre maiores unidades. Essa é a idéia que fascina as almas, embora oneradas pela nostalgia, de poderem se realizar conforme os planos do universo. Mas somos divergentes em tudo, não sabemos nos exprimir senão em forma de luta, procuramos dominar, impondo-nos em vez de compreender e conhecer, a ciência tende a pulverizar-se na especialização e o conhecimento se torna instrumento de guerra. A conquista, ao contrário, não se pode exercer senão por vias convergentes para a unidade, em todo campo, unidade política, religiosa, filosófica, científica, social.

A grande lei do progresso é: unificar-se. A vida não pode ascender senão por essa via. A ordem prepotente para a unidade grita em nós. É Deus uno que nos impele a fraternizarmo-nos e a compreendermo-nos. É a vida una que nos diz que somos, cada um, parte de um mesmo organismo e que o separatismo egoísta o mata. É  o princípio uno do todo que quer que a célula-indivíduo funcione na humanidade e esta no universo, harmonicamente. Tudo isto clama da profundidade, fala de dentro de nós; a todo passo, a realidade inimiga nos adverte que estamos em falso caminho, mas o mundo continua impávido. Então o poder de Deus nos mandará golpes tais, que quem sobreviver será obrigado a render-se à sabedoria, única salvação. Pois que o amor é lei suprema e deve triunfar custe o que custar. O mal e quem o segue, é destinado à autodestruição. De fato, tal é o desespero de quem o personifica, que ele muitas vezes tende a matar-se, coisa que não acontece em quem, mesmo sofrendo igualmente, representa o bem. Quem compreendeu o funcionamento do universo, sabe que Deus não pode ser vencido e que ao Bem cabe o triunfo final. E Deus nos incitará sempre a alcançar a nossa felicidade na harmonia. O método do separatismo é antivital, obstrui o caminho da fonte de Deus; não se pode reger, pois, senão por desgaste do ser que não pode atingir senão as suas reservas, que cedo ou tarde deve exaurir, do ser que não pode existir senão por seu esforço sempre maior, tendente à agonia. Quem segue esse método, ou inverte o caminho, ou vem a ser destruído por esgotamento. Esse, por suicídio ou esgotamento, é, para quem não se quer emendar, o fim do mal no sistema do universo. Assim vemos que, no sistema desejado por Deus, já está assegurada a vitória final do Bem. Tudo pois, no fundo, é perfeito, mesmo o mundo de hoje que não pode impedir absolutamente a Deus de alcançar os seus fins

O indivíduo é livre de encontrar a plenitude do ser em Deus ou de encontrar a anulação na direção oposta. O fim do mal, por sua natureza, negação de tudo, é no nada, não no sentido que a substância se possa anular, mas no de que, por esta via, ele involuindo, se despe da vida em favor de quem está do outro lado e que dela se enriquece sempre mais. O ser é livre de seguir o mal, mas ele é, por essa via, sempre mais despojado em prol do bem. Dessa maneira o mal é destinado, pela sua própria negação e, portanto, falência, a alimentar o bem e, assim, a desenvolvê-lo. Os malvados, ou se redimem voltando para Deus, para subir, ou, precipitando-se em uma dor crescente e sempre mais desesperada, se anulam, de acordo com a liberdade e a justiça. Assim, o dualismo, temporânea cisão com escopo criador, será reabsorvido na unidade, através da ascensão, de um lado, e da anulação da vida, do outro, em favor da vida. Uma dor e punição eternas, num eterno reino de Satanás, seria a vitória deste e a derrota de Deus. É a dor — escola que provê a salvação. Mas, se a criatura livre não quisesse senão o mal, este, através de um intensificar-se de autodemolição, a levaria à perda da liberdade e consciência, numa catarse invertida ou dissolução, cujos produtos, transformados de negativos em positivos, reentram no bem. De tudo isto o universo atual não nos pode mostrar senão a tendência. Mas toda tendência é destinada a se resolver em realização. Este é o impulso que rege a vida e ele deverá alcançar a meta que a sua trajetória nos indica.

Por outro lado, quem evolui se libertará sempre mais da forma, por graus, espiritualizando-se. Libertar-se-á do relativo, do limite, sempre mais achegando-se a Deus. O ser, depois de haver percorrido as fases do nosso universo, matéria, energia, espírito, ainda muito mais terá de caminhar. A anulação da forma por reabsorção em Deus será o fim do universo atual, Sua manifestação. O respiro, de dois tempos, involução e evolução, separação e unificação, estará completo, o circuito será fechado, o ciclo dualístico estará concluído em unidade. Isto não impede que Deus não possa iniciar, da imobilidade, outros movimentos em dimensões para nós inconcebíveis e que não os haja já iniciados. E, então, não nos encontraremos somente diante da atual criação limitada, mas de uma pluralidade de criações de quem sabe quantos e quais tipos, por parte de um Deus absolutamente transcendente que, mesmo fundindo-se em sua manifestação total, permanece sempre acima, distinto e independente de cada uma delas. Neste sentido, aquela imanência que hoje verificamos em nosso universo desapareceria como fato acidental, na relatividade e transição de toda a criação, reduzida assim a um dos tantos momentos da manifestação da absoluta, imóvel transcendência de Deus.

Neste ponto a nossa mente se perde, a vertiginosa visão desaparece e a alma se prostra diante de Deus, em prece, amando e adorando.

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9 “Tomou um pão em suas santas mãos e, levantando os olhos para o céu, deu graças, abençoou-o, partiu-o e disse aos seus discípulos: Tomai-o e comei dele todos – isto é o meu corpo”.




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