Parece este um argumento para sermões quaresmais Pode ser, ao contrário, um argumento científico, se por ciência entendermos um conhecimento mais vasto e profundo que o aceito pela ciência moderna. Se a concepção dantesca arrastou por séculos tantas gerações, enchendo-as de admiração, se em correspondência com aquela concepção existe no mundo um consenso expresso de vários modos nas diversas religiões, se essas coisas que parecem sonhos tiveram a força de convencer tantos povos por tantos séculos, isto significa que elas devem representar alguma coisa de biologicamente verdadeiro e real, ainda que não visível e não provado com os métodos da ciência atual. Trata-se evidentemente de uma biologia que não é a de hoje, limitada a espécies vividas ou viventes no planeta, mas de uma mais ampla biologia sub-animal e super-humana, biologia também espiritual e transcendental, que a ciência ainda não conhece A existência de mundos, seres e condições de vida inferiores ou superiores ao nosso ambiente conhecido, é coisa instintivamente sentida por todos os povos e em todos os tempos. A universalidade dessa intuição não pode deixar de ter um significado. Quem são esses outros cidadãos do universo, de cuja presença, quem sabe onde e como, nos, vagamente, temos a intuição? Quais são as suas formas de vida?

A hipótese astronômica da pluralidade dos mundos habitados, se é extremamente lógica e provável, não é suficiente para exaurir a questão, porque uma biologia completa deve compreender não somente as formas materialmente organizadas no plano físico, mas ainda as imaterialmente organizadas no plano dinâmico e psíquico-espiritual. No sistema do universo é lógico que a vida continue do lado de cima e do lado de baixo do plano que conhecemos e em que vivemos. O mesmo principio da evolução nos indica que devem existir no universo seres mais involuídos e outros mais evoluídos do que nós. E que esse princípio seja universal, não há dúvida. Nós o reencontramos em qualquer parte em nosso mundo fenomênico e, como já verificamos que tudo é analógico, funciona monisticamente, por esquemas únicos e simples, repetidos em inumeráveis alturas e combinações, devemos concluir, pela universalidade do princípio de evolução, que ele atue ainda onde não podemos experimentalmente fazer comprovação. O conceito de marcha ascensional indica que hão de existir formas de vida e indivíduos que estão mais adiante de nós no caminho evolutivo, isto é, mais no alto, e formas de vida e indivíduos que estão atrás de nós, mais embaixo. A evolução, sinônimo de progresso, menos para os desorientados, presa do pessimismo, é um fato evidente. Em toda raça, seja vegetal, seja animal, seja humana, verificamos existirem indivíduos de tipo biológico mais avançado e outros de tipo mais atrasado. Mas aqui se trata de descobrir com o método da intuição, já que o objeto foge à observação sensória experimental, quais são essas formas de vida sub e super-humana. Não é possível observar a estrutura de organismos, cuja constituição celular e permuta se baseiam em uma química atômica dada por outras relações diversas das nossas, nem é possível definir a anatomia desses organismos de forças, receptores e radiantes, que chamamos espíritos, organismos vibrantes, cujo funcionamento vital e permutas se dão em um plano com prevalência dinâmica e uma física diversa da nossa. Teremos aqui de nos contentar com algumas observações gerais de orientação.

O homem chamou sempre paraíso àquele estado biológico em que existem os seres mais elevados e inferno, o dos menos elevados. Em termos modernos, poder-se-ia dizer: paraíso, o mundo dos evoluídos, e inferno, o mundo dos involuídos. Certo é que a escala é infinita e as posições não são absolutas, mas relativas a cada um, pelo que o paraíso é aquele ambiente de vida mais ampla e feliz que está biologicamente mais no alto, e inferno aquele mundo mais áspero e atormentado que está relativamente mais embaixo Qualquer coisa de semelhante vemos, em escala mais reduzida, na terra com o enobrecimento dos costumes logo que se pode elevar o teor da vida por força de condições econômicas melhores. Nos animais o vemos na domesticação, e nas plantas com a cultura, pelo que verificamos a perda daqueles caracteres de ferocidade e instrumentos de agressão que prevalecem no estado selvagem. Mas, também aqui, tudo é relativo, é questão de posição em relação ao ambiente e próprio grau evolutivo, ao ponto de partida e de chegada ao longo da escala evolutiva.

A nossa ciência ignora o que há, biologicamente, acima e abaixo do nosso plano de vida. Este conceito de diferentes planos de vida é uma direta conseqüência daquele de evolução. Se se admite este, deve-se admitir também aquele. Ora, é evidente como, para a solução desses problemas transcendentais, o conhecimento que a nossa ciência nos oferece, de um só plano de vida, não possa ser suficiente. Nem o pode ser, para satisfazer à racional forma mental moderna, o conhecimento empírico da filosofia, ou instintivo, intuitivo das religiões. Dado que as revelações dessas religiões não são precisas, nada mais resta para a exploração científica do transcendental senão a investigação por intuição, que, em alguns sujeitos sensíveis por evolução e ao mesmo tempo racionalmente disciplinados, pode adquirir valor de método científico. Somente assim o transcendental pode ser submetido à observação e se pode entrar e penetrar no mundo do espírito com métodos objetivos. O homem de amanhã compreenderá certamente estas afirmações, mas dificilmente as entenderá o homem médio de hoje, que não encontra em si nada que as consolide, por não ter alcançado por evolução, o grau de sensibilidade necessário.

 Neste sentido, falar de inferno e paraíso não significa falar de coisas longínquas que não nos dizem respeito, ou de argumentos de fé em que não se pode crer. Trata-se do nosso futuro biológico, individual e coletivo, que não é quimera; trata-se da escolha do caminho da ascensão ou da descida que conduzem à alegria ou à nossa dor. Trata-se de preparar o amanhã que nos aguarda e de compreender como prepará-lo no bem, e não no mal, para a nossa utilidade ou para o nosso dano. E para compreender, é preciso resolver, ainda, este particular problema no seio da fenomenologia universal em relação e em função da qual eles se desenvolvem. É necessário darmo-nos conta de que as leis sobre as quais baseamos a nossa vida são relativas ao nosso ambiente terrestre, devem, pois, ser tidas como válidas somente nele e em relação a ele; e que elas poderiam não ser mais verdadeiras em outros ambientes onde podem vigorar outras. Certo é que sendo tudo conexo e os planos de vida contíguos, devem existir, também, afinidades e analogias que sirvam de pontos de passagens que possam permitir o transformismo da evolução e a comunicação, seja em ascensão, seja em decida, de um plano a outro; coisas que em ponto menor verificamos também no plano biológico terrestre, isto é, uma passagem das formas inferiores às superiores e ao contrário. Os seres nunca estão fechados em um plano de vida, em um dado nível evolutivo, mas para que ocorra a grande marcha evolutiva do universo é necessário que eles se possam deslocar para alto ou para baixo, possam emigrar sempre para novas pátrias, gradualmente, em correspondência com as experiências adquiridas, os valores conquistados, o peso específico e a destilação espiritual, atingidos, conforme a responsabilidade, a consciência, o mérito, a perfeição amadurecida, para colher segundo a justiça o fruto do que tenham semeado.

Estabelecida a relatividade da nossa biologia, mesmo admitindo que ela esteja conexa por analogia com a biologia universal, devemos admitir que as suas leis dizem respeito somente e particularmente ao nosso ambiente terrestre. Neste sentido devemos entender  a lei que aqui vigora da luta pela seleção do mais forte, não devemos dar a este princípio um valor universal, mas somente relativo ao ambiente humano que ainda é de prevalência animal. Se aqui esta lei pode ter função evolutiva, e isto em proporção ao baixo grau do ser ao qual ela se aplica, em planos superiores tudo isto pode parecer, ao contrário, uma atividade destrutiva e infernal, ilógica e bestial, tendente ao retrocesso e não ao progresso. E assim para todas as expressões da nossa vida, como as formas de amor, de reprodução, de nutrição, a atividade regida, não pelo conhecimento mas pelos instintos .

Mas, é possível verificar uma diferença de desenvolvimento evolutivo em nosso próprio mundo humano. Se bem que o grosso das massas sociais seja formado por. indivíduos da mesma conformação psíquica, mais ou menos com os mesmos instintos e necessidades, tanto que resultam praticamente quase iguais no conjunto, como as ovelhas, e construídos em série como as  bicicletas, todavia acima e abaixo dessa zona média e medíocre em que a vida, pouco a pouco, estabelece os seus equilíbrios, emerge ou aprofunda um número de casos fora de série, que se faz sempre mais exíguo quanto mais subimos para o alto ou descemos para baixo. Se bem que a maioria venha a funcionar por imitação e a marchar em bando (bem o sabem os governantes), às margens deste há um número restrito de mais evoluídos da média ou de involuídos, incapazes, uns e outros, de se enquadrarem nela, seja por excesso, seja por defeito. Mas embaixo da média há o bruto, o delinqüente, mais no alto há o gênio e o santo. O primeiro tipo representa formas de vida inferiores, às quais ainda pertence e se vem a encontrar na terra em um ambiente a ele superior, paraíso para ele, lugar de alegria. O segundo representa formas superiores de vida, pelas quais desceu à terra, um inferno para ele, lugar de dor. Mas se o primeiro se encontra bem e se lança a gozar, ele representa um peso a ser arrastado pelos demais, uma resistência sobre o caminho da evolução. Os outros devem tomar a seu cargo a fadiga da sua educação e as repercussões dos seus erros. Ao contrário, se o segundo se encontra mal e é constrangido a sofrer, ele representa um motor que arrasta os demais, um impulso no caminho da evolução. Ele toma a seu cargo a fadiga da educação dos outros e as repercussões dos seus erros. A vida que sente tudo isso exprime através do sentimento popular, tornando o involuído, detestável, odioso e arredio, e o evoluído, admirado, amado e procurado. A veneração das massas pelos santos  não é imposta por nenhuma autoridade, mas é a expressão de leis biológicas que falam através do instinto e falam alto, porque nenhuma autoridade poderia criar tão universais. consensos; falam claro, porque elas bem sabem quanto o tipo biológico seja necessário aos fins da evolução, para onde converge todo o dinamismo da vida. Bem sabendo a que suprema função esse tipo corresponde, ela o fustiga na incompreensão e na dor, assim o robustece e o experimenta; e se ele vence, o exalta depois sem restrições.

Que triste sorte aguarda na terra esses pobres caídos de mundos superiores ao nosso, mas que grande função biológica eles representam, que missão desempenham! Eles são, verdadeiramente, o sal da vida. Quais seres pertencentes a formas mais progressivas, representam um organismo com prevalência espiritual e secundariamente físico, enquanto os assim ditos seus semelhantes representam um organismo prevalentemente físico com funções secundárias espirituais a serviço daquele. No normal domina o corpo, no evoluído domina o espírito. Enquanto os demais tendem a ficar indolentes nas funções animais da carne, ele se inflama e se entrega. Se as forças da vida não o protegessem, ele, explorado por todos, empobreceria até à morte ou ficaria queimado no seu incêndio. Somente Deus protege o evoluído, não os homens. A notória pobreza dos gênios nos prova que na terra os serviços materiais são muito mais prezados e compensados do que os serviços espirituais. Está provado que o tipo dominante não é o do evoluído, mas de um semi-evoluído ou involuído. O super-homem é um anjo que desceu à terra para trabalhar, lutar, sofrer. Os demais se fazem arrastar pelos seus esforços, exploram-lhes as obras, espremem o seu sangue, dele se nutrem. Mas, para a vida, a exploração é também absorção e ambas se fazem mais intensas depois da sua morte, enquanto ele não é mais um rival humano e como morte não pode mais defender-se. Então a vida bebe avidamente o sangue dos seus mártires e a dor dos seus gênios. Os homens deles se apoderam com a glorificação, se nutrem com a narração daqueles tormentos que eles causaram, gozam o patético romance daqueles dramas, e, não saciados ainda, têm até a desfaçatez de chorar sobre suas desventuras, das quais jamais se ocuparam em tempo, e de lhes elevar monumentos para sustento e bandeira das próprias ambições.

Eis, pois, também na terra anjos e demônios, paraíso e inferno estão frente a frente. Esses exemplares mais perto de nós, para os quais é possível a vida e o seu trabalho na terra, nos indicam a existência e as características dos planos evolutivos mais distantes de nós que não nos podem oferecer representantes para a nossa observação na terra, por não serem proporcionados às suas condições de ambiente. O involuído representa a primeira propagação embaixo do nosso plano, o evoluído a primeira para o alto. Mas eles se prolongam de ambos os lados e representam, respectivamente, o nosso passado e futuro biológico. Inferno e paraíso constituem a nossa própria história. Baseando-nos na observação das formas somáticas e psíquicas dos tipos evolutivos, em excesso ou defeito, que encontramos na terra, acentuando os seus caracteres, podemos chegar a uma aproximada representação das notas dominantes nos tipos biológicos verdadeiramente inferiores e superiores, das criaturas demoníacas dos ambientes denominados inferno e das criaturas angélicas dos ambientes chamados paraíso.

De um lado o bruto. De uma potência toda física, rico dos atributos animais e das características somáticas e psíquicas da besta, ele nos aparece como o demônio maciço na estrutura material, fornido de pelos, de artelhos, cauda, chifres, desenvolvidos os caninos e a queixada devoradora e todos os meios de agressão. Psiquicamente correspondem a tudo isto os instintos mais sanguinários, egoístas e ferozes, paralelos a uma proporcional obtusidade mental, correspondentes a uma alma ainda fechada para os grandes problemas do conhecimento e surda para as vibrações do infinito. Do outro lado, o tipo biológico do super-homem se apresenta com caracteres somáticos e psíquicos opostos. De uma potência toda espiritual, rico dos atributos imateriais e psíquicos do anjo, ele nos aparece como um organismo dinâmico sensibilizado e radiante, receptor e transmissor, vibrante no oceano infinito das radiações da vida mais elevada do universo. Psiquicamente a tudo isto correspondem os sentimentos mais harmônicos, altruístas e refinados, paralelos a uma proporcionada luminosidade de intelecto, correspondentes a uma alma que se abriu aos grandes problemas do conhecimento e se despertou para as vibrações do finito Os caracteres são naturalmente opostos, justamente porque a vida se move em direções opostas.

A arte, as religiões, a fé, o instinto humano já intuíram a realidade dessas formas que fogem à observação direta de nossa ciência, e assim no-las descrevem. Nessas descrições ecoa o terror deixado impresso em nosso subconsciente, pelo contato espantoso com seres ferozes, inferiores, semeadores de dores; e vibra em nosso superconsciente o pressentimento do avizinhar-se da vida de formas superiores e da presença invisível, mas real, junto de nós, de seres elevados e bons, semeadores do bem. Assim a escala da evolução continua no alto e em baixo, nessas inversas direções, sempre mais acentuando ditos caracteres, até e além dos limites do imaginável. Certo é que uma biologia, para ser completa, deveria compreender também a do demônio e do anjo, mas isto não se pode pretender de nossa ciência atual, dados os seus meios de investigação e orientação. Ela não conhece senão a biologia animal do involuído terrestre e do semi-evoluído. Poderia começar a ocupar-se da biologia do evoluído que, sob a forma de gênio ou de santo, por vezes aparece entre os homens. Compreender cientificamente o super-homem, em vez de o r legar aos anormais, somente porque está fora de série, e de enquadrá-lo no patológico, significaria começar a penetrar naquela biologia transcendental que é a biologia do futuro.

Na terra vivem materialmente vizinhos, mas espiritualmente distantes seres relativamente involuídos e evoluídos por  necessidade de recíproca elaboração. Com o homem a evolução entra em  um plano de diferenciação espiritual, a qual não é mais organicamente expressa por formas físicas e por isto não é materialmente visível e manifesta. Como tal ela foge à avaliação sensória, mesmo constituindo fortes diferenças naquele novo organismo espiritual, dinâmico-radiante, acima referido, que no homem médio começa a sua construção com a formação da psique. Começa, pois, em nosso próprio plano humano, a existir essa biologia transcendental, embora ainda escondida no íntimo do ser, por força de maturação subterrânea, mas não por isto menos pronta a explodir logo haja amadurecido. O que notamos em nosso mundo não corresponde a essa realidade espiritual mais profunda. A estrutura orgânica ou a posição social nada nos diz dela. A riqueza, o verniz da educação e da cultura, a máscara civil ou forma de mentira sob a qual o indivíduo se esconde para a luta pela vida, não pesam na balança. Debaixo de todas essas aparências que os homens amam, dadas a entender por verdadeiras, há uma realidade natural interior dada pelo grau de evolução alcançado pelo indivíduo ao longo da escala biológica.

Ora, o que revela o homem, o que o dá a conhecer, não é o que ele diz, mas o que ele faz. É observando a sua verdadeira conduta que poderemos olhar atrás das cenas da comédia que ele representa na vida e ver a realidade. Não interessa, pois, escutar quais são as idéias professadas, mas observar o método com que elas são praticadas. Então veremos que independentemente de todos os programas, teorias e profissões de fé, a nota característica que revela o involuído é o espírito de agressão e de mentira, e a que revela o evoluído é o espírito de altruísmo e de sinceridade. Nos fatos eles estão nos antípodas. Também o primeiro sustenta os mais altos princípios de justiça e de bondade, mas ele começa sempre pelos seus próprios direitos e pelos deveres dos outros; não pensa, absolutamente, que se possa corrigir o vizinho antes de tudo com o próprio exemplo e sacrifício, e é levado, por isto, a aplicar o bem movendo guerra ao próximo, pelas vias da luta até ao ódio e não pelo caminho do exemplo, do sacrifício e do amor. Quando encontramos esses métodos, debaixo de qualquer credo que seja, podemos seguramente dizer tratar-se de involuídos. Tanto para os indivíduos, quanto para as nações. Saltar ao pescoço do vizinho para o despedaçar, crer somente nos exércitos e na bomba atômica, este é hoje o real modo de agir no mundo, esta é a hodierna psicologia dominante, que revela quão involuída é a nossa humanidade. As teorias são palavras e não entram em ação. Nos fatos os imperialismos são todos iguais, todos usam o mesmo método, estão no mesmo nível biológico. Involuído quer dizer inferior, infernal.

Ora, o problema atual do mundo não é o de continuar o milenário jogo de vencer e perder, de invadir e servilizar, do patrão e do servo, mas é o de evoluir do atual plano do involuído para o do evoluído que vive com métodos diversos. Hoje estamos no reino da besta. É bem natural que o mal e a dor formem a atmosfera desse reino. Em face do que o homem é, não pode ser de outro modo. Essa é a expressão do seu real grau evolutivo. Quando se concebe a autoridade, não como função e missão, mas como vantagem pessoal ou meio de exploração, quando se usa a riqueza egoisticamente e não como serviço social, quando toda classe e todo povo baseia a sua posição sobre a conquista e o abuso e não sobre o equilíbrio, então tudo se torna agressão e depois destruição, e o universal grito de justiça, por culpa do homem, tornar-se-á uma vã invocação. Que adianta fazer distinção entre chefes e súditos, se uns são dignos dos outros, entre vencedores e vencidos, quando a corrente é única e arrasta todos? Os chefes que mais acreditam mandar, são mais que todos encarcerados no sistema e são obrigados a segui-lo sem possibilidade de evasão, até o fundo. Há na vida um lógica desapiedada, dada por um férreo concatenamento causal, que, iniciado, de qualquer ordem que ele seja, não deixa evasão possível, até às suas últimas conseqüências. E no fim da concatenação do atual sistema do involuído há uma proposição terrível também para ele: a destruição universal. Não se trata hoje de querer, aparentemente, redimir-se de uma série de erros e abusos que são de todos; assim as contas nunca são quitadas. Mas trata-se de  mudar radicalmente o sistema, e todos desse sistema. Essa é a lei da nossa hora histórica. Quem não compreender, perecerá.

Como se vê, não havemos de ir muito longe para procurar os motivos dominantes no ambiente infernal, que eles nos são postos sob as vistas pelo reino humano do involuído. A dor é a nota dominante desses mundos inferiores. Ela está em relação direta com o grau involutivo, periférico e caótico do ambiente. Se observamos bem, no inferno, a dor é causada pelos próprios sofredores. Nesses mundos distanciados do centro, a divina potência central não intervém enviando agentes próprios. A Sua ação, nesses ambientes de treva e tristeza, é de todo negativa e consiste no retrair-se, no negar-se, deixando o ser na atmosfera que ele faz. Para subir ao Paraíso, é necessário que o ser, evolvendo, crie uma atmosfera melhor para si. Deixai os involuídos sozinhos e eles farão logo um inferno. Deixai os evoluídos sozinhos e eles farão logo um paraíso. Nos primeiros, a distância do centro faz com que a unidade do todo se despedace no egoísmo, a ordem se decomponha na desordem, de modo que as relações coletivas são, sobretudo, de agressão e de ódio. Lá onde Deus está, longe como está o sol do planeta Netuno, é natural que a Sua luz chegue apenas sensível e Sua luz significa inteligência consciência, amor ordem, harmonia, felicidade. Então todo ser torna-se um demônio. Longe de sua fonte a vida se contrai. Em vez de se expandir, fértil, ela se faz magra, hostil, feroz, qual é a dos abrolhos na rocha. Estes não produzem senão espinhos. Toda doçura e beleza desaparece. O mal triunfa e é conduzido pela Lei à sua autopunição, é levado a infligir na própria carne os aguilhões da ofensa para sua redenção. A tendência periférica do universo é, no mal, uma dor sempre mais intensa até à autodestruição. Eis a gênese e o significado daquilo que em nosso planeta se chama luta pela vida e seleção do mais forte. Este conceito, desenvolvido ainda em direção involutiva, nos leva ao super-homem de Nietzsche, que é o verdadeiro tipo biológico do superbruto, o rei campeão de um mundo de demônios. É assim que a rainha Isabel da Inglaterra, ligada ao sistema do seu mundo é "obrigada" a fazer matar a sua real irmã Maria Stuart, e exclama: "Aut fer aut feri; ne feriare feri". (É preciso ferir para não ser ferido; se não ferires, serás ferido). Toda vida e posição é dominada pelo seu sistema Todo jogo tem as suas regras e com elas é preciso jogar até o fim.

Eis, pois, o que acontece na periferia. À medida que o ser se distancia do centro-Deus, da gravitação pela qual o universo é mantido compacto em um organismo unitário, começa e se acentua sempre mais a dispersão pela fragmentação no particular. Sempre mais debilmente sustentadas pelo poder central, as células do organismo não funcionam mais juntas, organicamente e coordenadas em harmonia, mas começam a lutar uma contra a outra. Então no lugar do único centro-Deus, formam-se infinitos centros infinitesimais que tentam suplantá-lo. Eis a rebelião luciferina. Começa a degradação. Toda célula não é mais a companheira que colabora com a companheira, mas a rival que agride a rival. Tudo vai para a decomposição, para a destruição. O ser é livre de seguir um ou outro caminho: ou a grande marcha ascensional dos seres, representada pela evolução, segundo a tendência centrípeta do universo que segue para Deus, ou o caminho da descida, representada pela involução, segundo a oposta tendência centrífuga que se distancia de Deus. Então Deus se nega a quem o nega e isto significa morte. Cortados da fonte que tudo alimenta, os seres, tornados inimigos, sem nada receberem e gastos por uma luta contínua, devem perecer. Com esse processo automático de autodestruição, Deus alcança, longe de si, a eliminação do mal na periferia, isto é, na parte do universo que segue o caminho negativo que se distancia d‘Ele. Reencontramos, ainda aqui, a intima estrutura dualista do sistema monístico do universo. No caso limite, o mal absoluto coincide com o nada e o bem absoluto coincide com Deus. Satanás nega e destrói o que toca. Ele, que vive de destruição, não se pode alimentar, senão consumindo. Ele é ávido, porque é paupérrimo. Deus é generoso, porque é riquíssimo. E assim, para as criaturas que tendem para um lado ou para outro. A plenitude de Deus é o ser, a plenitude de Satanás é o não-ser.

Podemos observar essa desagregação periférica também em nosso mundo, logo que um poder político central perde a sua potência, que rege um povo compacto. Multiplicam-se então os partidos, isto é, as separações e as lutas interiores. Mas, em todo caso, conquanto o ser se queira distanciar do centro e perder-se, a divina justiça fica perfeita em qualquer parte, porque em qualquer posição em que ele queira estar, todo ser tem sempre o que merece. Quem desce segue para a ignorância, o erro, e, portanto, a dor. Alcança-se a própria verdade e ela é possuída em relação à unidade; ela está conexa com a harmonização, é um produto da evolução e se encontra caminhando para o centro. É harmonizando-se com a ordem divina que se descobre a verdade, muito mais que através da observação experimental. Eis toda a nossa história. Quem sobe e quem desce — cada um colhe o que semeia. Fazendo o bem, enquadrar-nos-emos na ordem divina e avançaremos para mundos mais harmoniosos e mais felizes; fazendo o mal, distanciar-nos-emos da ordem divina, retrocederemos para mundos inferiores, estaremos mais longe de Deus, onde a luta é mais feroz e a dor mais aguda. Se descermos embaixo, teremos demônios por companheiros, se subirmos ao alto, teremos por companheiros os anjos, dependendo de nós o nosso estado de tormento ou de alegria. Todavia, conquanto queiramos estar longe de Deus, Ele nos chamará sempre através das mil vozes da vida, sempre um Seu raio nos alcançará qual convite para a nossa ascensão, porque livre e nosso deve ser o esforço, como nosso será o resultado. Há quem aceite e há quem se rebele. Tudo o que pensamos e fazemos permanece indelevelmente escrito e assim nos construímos e ao nosso destino. O que está escrito, poder-se-á corrigir com acréscimos ou retificações em direção contrária, mas não se cancela. O presente uma vez tornado passado, não pode ser mudado nem mesmo por Deus. Ele e Lei e não capricho como o homem pode crer.  Todo homem tem nas mãos esse material fluido do presente, que sempre escorre como um fio e pouco a pouco se vai solidificando. Assim ele pode construir-se para o alto ou destruir para baixo. Todo homem traça, com as mãos, no livro da sua vida, o seu caminho, que vai para o inferno ou para o paraíso.

Observemos, para concluir, como se irradia a luz divina do centro para a periferia, quais os caminhos que ela, num estupendo milagre de amor, segue para atingir também esses mundos inferiores, que parecem abandonados por Deus e não o são. Qual é o canal que o centro segue para fazer chegar o seu raio vital até os mundos inferiores, quais os operários colaboradores da sua potência que, levando-a longe,freiam o desagregar-se periférico, retomam o ser que se perde na fuga, mantém assim, não obstante tudo, o. universo compacto? Esses operários, emissários de Deus, são os evoluídos. Em cada mundo há uma contínua descida de seres superiores, que baixam de esferas mais altas, sacrificando-se numa vida de martírio entre seres, para eles demoníacos, e, suportando infinitas dores, ensinam, educam, revelam, dão testemunho de Deus. De Cristo para baixo, quantos profetas, gênios, heróis, mártires, têm trazido à terra a voz dos céus! Muitos se escandalizam diante de um inútil martírio Mas, como se pode, sem martírio, proclamar na terra uma verdade? Não são a agressão e a ferocidade as características dos mundos involuídos? Mas, justamente este é o estupendo milagre do amor: enquanto os involuídos assaltam por cego egoísmo, os evoluídos se sacrificam por iluminado amor. A vida nos diz que a troca é genética, e isto porque ela deriva do amor, e Deus é Amor. Mas, se a fecundação da carne se dá pelo caminho da carne, a fecundação do espírito se da pelas sendas do espírito. Quanto mais se desce para baixo, tanto mais a vida se contrai em uma dura casca de egoísmo, que não abre as portas ao amor. Quanto mais se sobe para o alto, tanto mais a vida se oferece abrindo a porta ao amor. Embaixo o Eu se fecha em si mesmo e aí fica encarcerado. No alto o Eu se abre e se expande. O primeiro recebe sempre menos da nascente central; o segundo recebe sempre mais. Ai dos que seguem uma virtude negativa, entendida apenas para sufocar o amor e não para elevá-lo! Virtude significa sobretudo afirmação, muito mais que negação. Esta pertence a Satanás, aquela a Deus.

A vida tem necessidade, não somente da fecundação da carne, mas também do espírito. A primeira forma a massa, a segunda lhe dá a alma. Corpo e espírito, involuído e evoluído são, como a fêmea e o macho, complementares. Por isso se atraem. No caminho da evolução o crescimento da carne é senão um meio para crescer no espírito. A carne tem os seus limites e somente o espírito a pode ajudar a superá-los. O espírito, é o seu raio vivificante. A carne é fraca, o espírito é potente. Assim a fecundação espiritual se sobrepõe, por outros caminhos, à fecundação orgânica, a eleva e a completa. Os dois termos da fecundação espiritual não são macho e fêmea, mas involuído e evoluído. Este é o fecundador, de sinal positivo. Aquele é o fecundado, de sinal negativo. Como a semente e a terra, eles têm necessidade um do outro. Um é rico, porque está mais perto de Deus e então dá, o outro é pobre, porque está mais distante, e recebe, seja embora massacrando o seu benfeitor. Esta é a sua forma de achegar-se ao próximo. Ele recebe, com reserva, assimila para tornar a brotar conforme a semente fecundadora. Explicam-se assim tantas frases do Evangelho. Eis algum outro elemento de biologia transcendental. Os dois termos opostos, portanto, se atraem. Os inferiores são atraídos pelos superiores e naturalmente com a própria forma negativa de destruição. O involuído mata os seus profetas para venerá-los depois Por outro lado, os superiores são atraídos pelos inferiores e, naturalmente, com a própria forma positiva de construção. O evoluído sacrifica-se pelos homens para os melhorar. Uns e outros se exprimem em formas de bem ou de mal, quais eles são. Eis o mistério do amor que mantém o universo, por infinitos liames entre os seres, seja quando ele se manifesta, pelo lado positivo, como amor, seja quando pelo lado negativo, como ódio. Assim o martírio é lei de amor para os mais evoluídos, cuja superioridade na divina economia do universo não é ociosa, é antes por justiça repleta de deveres. Somente assim se pode compreender Cristo. Abre-se diante dos nossos olhos a visão da ordem divina, que se torna hino de amor e de bondade também nos remos inferiores da treva e do mal. Eis a procura afanosa da ovelhinha desgarrada, à procura do pecador em vez da dos justos, que já estão salvos. Que orquestração de amplexos para o universo em todas as direções e alturas! Que real fraternização opera o amor de Deus, ainda lá onde parece não reinar senão ódio! Que contínua descida de anjos para os mundos inferiores, em procura das obscuras criaturas irmãs a serem iluminadas. E que alegria no desempenho dessas missões, também no martírio, que regozijo para os anjos de Deus o se tornarem mensageiros do Seu Amor! Em nosso baixo mundo se admira e se exalta o dinamismo do macho atual, dinamismo involuído, cego e destruidor, semeador de dores. Saber ele quanto sacrifício de seres mais evoluídos será necessário para educar e elevar este seu dinamismo, para torná-lo construtivo, isto é, semeador de alegria? Que encontro angustioso, mas que centelhas emanam dele! O inferior goza da dor dos outros como de uma vitória e a procura com indiferença. O superior toma a seu cargo a dor dos outros como coisa própria e a sofre. Que importa? Ele sofre na luz do amor divino. Quanto são diversas, a dor do mártir que vê o seu fruto e é confortado na comunhão com Deus, que lhe vem desse martírio, e a dor cega e desesperada, que nasce, não da proximidade das fontes da vida, mas do afastamento delas! Quanta distância entre uma dor bendita, carregada de amor, e uma maldita, carregada de ódio! O homem mais evoluído de amanhã compreenderá que inferno o homem involuído de hoje faz da sua terra. É necessário avizinhar-se do paraíso. Estamos no limiar de uma nova civilização. A luta é apocalíptica, mas raios potentes se projetam sobre nós. Dos mundos superiores, infinitos seres nos olham.




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