Problemas do Futuro

De quanto dissemos resulta a inegável presença de uma inteligência nas coisas. Como podemos então perguntar se uma tão profunda sabedoria pode às vezes falir como na morte, na dor, no aborto e não ser capaz, assim, de alcançar os seus fins? Como é que tanta potência pode aceitar tanta limitação? Mas será isto verdadeira limitação, ou toda barreira depois vem a ser igualmente sobrepujada e a vida, portanto, pode ficar indiferente a essas falências? E tudo isto não poderia ser ao contrário uma forma de vitória e um meio de conquista? Então é possível, quando tudo rui em torno de nós, que Deus funcione também através da nossa esperança desiludida? Sinto que, então, alguma coisa se moveu com a fé e que esta permanece, embora não se alcançou imediatamente a realização, e que dessa forma a fé não ficou vã. O Deus imanente e recôndito parece que não tenha pressa de se manifestar e que saiba realizar os seus fins, mesmo através da falência e além da nossa desilusão. Mas nós queremos e procuramos a via mais direita e segura para conseguir, porque, em nós, a vida procura e quer o êxito. Porém, devemos verificar que os cálculos da razão, na prática, podem falir como os impulsos da fé. Nenhum dos dois métodos sabe dar-nos uma segurança, um não é mais válido do que o outro. Fracassam os grandes calculadores prudentes e previdentes e, por vezes, alcançam êxito com métodos opostos, homens que só têm fé, que arriscam tudo, e ao contrário. Tal é a complexidade da vida e tais incógnitas da contém, que nela nunca há algo de seguro. Mais não nos resta que confiar-nos a essa imanente, sim, mas tão recôndita sabedoria que tudo rege, limitando-nos a fazer de nossa parte o que pudermos, pois que, seja como razão, seja como fé, sempre podemos muito pouco no seio de um universo sem limites, também como pensamento. Parece que este Deus, que tudo sabe e sem quem nada pode existir, procura tornar-se inacessível para nós. Tão logo os fenômenos nos dizem que Ele não é antropomórfico, como ingenuamente imaginávamos, acredita-se haver descoberto alguma coisa e de saber algo mais, quando percebemos, então, que sabemos menos, porque, suprimindo o antropomorfismo, Deus desaparece do nosso concebível e não sabemos como procurá-lo. E a tão declamada sensação de Deus que o místico obtém, é verdadeiramente sensação de Deus ou é o resultado de quem sabe quais processos psicológicos subconsciente:? Porém, nem por isto eles ficam menos verdadeiros. Todavia que sabemos nós da sua verdadeira função biológica criadora e em que relação eles estão com Deus?

É certo que esse nosso corpo e a sua psique, aliados num conjunto para viver a todo custo contra tudo e contra todos, podem pregar-nos boas peças e dar-nos perspectivas ilusórias. Mas é certo, ainda, que a vida dificilmente se deixa enganar nos seus escopos de vencer. E então é lícito suspeitar que toda derrota não seja senão uma vitória transferida, porque para a vida o tempo não falta; é lícito pensar que a derrota seja a condição de uma vitória maior. Certamente o instinto nos indica muitos caminhos para vencer e, através deles, Deus sempre presente, nos impele a salvar-nos. Ele se manifesta como uma espécie de recuperação contra os assaltos, como uma reação nossa defensiva e protetora que parece, automaticamente, fazer-se tanto mais forte quanto mais forte foi o golpe arremetido pelo exterior. Então Deus parece dar-nos força e falar muito mais potente para nos dizer: vai, vive, luta, resiste, age, mas vive!

A vontade de Deus é que a vida viva a todo custo, utilizando todos os seus recursos, aprendendo todas as coisas, boas e más, conquanto se viva. Ora, quando a fera mata para não morrer de fome ou o involuído esmagado se rebela e rouba e se torna delinqüente porque não tem outro meio para viver, é a voz de Deus que diz: vive. Quando o santo tudo sacrifica, até a vida, pelo ideal, é a voz de Deus que diz: vive. Essa voz nunca se resigna definitivamente à morte. E diante desta revive, renovando-se em novas vidas. Também a fera e o homem-fera querem viver. Mas cada um tem a sua vida. O involuído não tem outra e se apega à vida animal que é tudo para ele. E se o santo a entrega, é porque ele viu uma outra vida a ser conquistada, da qual o primeiro nada sabe. O santo se rebelava com a mesma potência, se bem que em planos e com métodos diversos daqueles com os quais se rebela o involuído, quando lhe viesse a ser tirada a sua vida de santo, como aquele reage quando se lhe tira a sua vida de besta. Porém, se bem que ele tenha razão no seu plano inferior, o seu modo de comportar-se o qualifica e o revela como ser inferior. E esta marca é a sua mais grave condenação, porque isto implica em estar ele ligado a for-mas de vida inferiores. Mas a vida quer viver em todo plano e quando lhe falta o necessário procura-o por todos os meios. Com lobos saciados poderemos sempre viver tranqüilos, em paz, mas nunca com lobos esfomeados. Ora, a vida nos faz compreender, pelo modo como incita os lobos esfomeados contra os seus esfomeadores, que ela é necessidade para todos, é dever e direito ainda se os esfomeadores, somente por.. que são mais fortes, classificam como culpa a defesa de quem é esmagado e como justo direito o seu próprio esmagamento. Assim se explica como, em dado momento histórico, quando chega a maturidade das classes inferiores despertadas, a vida, como vontade de Deus, possa impeli-las a conquistar por si aquele bem-estar que dois mil anos de Evangelho aconselharam em vão aos de mais posses repartir fraternalmente.

Quando o evoluído fracassa no seu plano, ele sente que está tentando realizar um tipo de vida super-humano, mas que por enquanto aquela tentativa fracassou. Não conseguir por enquanto o que deseja não constitui derrota, mas faz parte da estratégia de conquista. Então, se o homem é maduro, a fé que parecia aniquilada pela desilusão, ressurge mais forte por outro lado, como se potenciada pela derrota, mais aguerrida para melhor poder vencer novas batalhas. Porque a verdadeira fé não é um estado inerte e passivo, mas uma arma que deve ser refinada, uma posição de vanguarda que deve ser consolidada, que pode vacilar e que se pode perder, mas que se pode reconquistar. A fé sentida é uma força útil na grande batalha para a evolução, para a conquista no espírito e para a ascensão para Deus. A alma sente a utilidade da fé nessa luta e, conhecendo-a, não a abandona mais. Quando a vida provou a fé e conquistou essa força, não se decide a deixá-la, pois que nunca deixa o que lhe é útil. A fé é um novo sentido, um tentáculo estendido para o ignoto, num poder de intuição, que pode errar, mas que, errando, se corrige, se aperfeiçoa, se consolida. Ela é um meio positivo de defesa da vida, apto a progredir sempre. Para quem provou uma vez a fé, há, ainda quando esta fracasse e pareça nos haver enganado, um instinto que conduz à sua salvação, porque ela possui a grande função de ser a última âncora de salvação sem a qual toda derrota não pode ser senão desespero. A esperança que a vida nos impõe, ainda quando tudo pareça perdido, é um instinto que vem do Deus presente, que quer que vivamos ainda, instinto que irracionalmente parece saber que, não obstante tudo, derrotas, dores, a própria morte, a vida continuará. É este instinto em que fala o Deus imanente, que nos faz crer na vida além da morte. Além de todas as aparências contrárias, esse instinto nos diz que a vida não pode acabar.

Estranho, misterioso mundo este, que somente a fé no-lo pode abrir! Por momentos ele se abre de par em par; depois se torna a fechar. Ele nos enceguece com seus raios e, no entanto, parece feito de treva profunda. Na fé está o porvir da vida. Há um pressentimento de divina indestrutibilidade em todas as coisas. Não é essa a voz de Deus que nos fala das profundezas? É a eternidade da essência das coisas que nos fala, revelando-se do profundo de tudo o que existe, dizendo-nos, através de um indomável instinto nosso que, não obstante toda a aparência contrária, segundo a qual tudo é lábil e transitório, tudo parece poeira e ilusão, tudo ao contrário, é estável e real. E o que é esta voz senão a revelação da universal presença de Deus? Então levanto a vista para o céu e digo: "Deus, perdoa-me se no momento em que as coisas fracassaram, a minha fé caiu e assim te reneguei. Eis que Tu novamente surges diante de mim, mais vivo e mais presente do que antes. Nenhum fato contrário nunca poderá eliminar a Tua presença. Tu estás aqui e eu Te escuto".

Será ilusão, mas podem operar-se muitas coisas com a fé que de outra maneira não se podem fazer. O fato é que ela é útil, serve-me e eu a utilizo para a vida. A desilusão escava-se mais profundamente, com o resultado de demolir uma fé mais superficial e encontrar uma mais profunda. Porém, é preciso ser prudente também na fé, que também ela oferece os seus riscos. Quem se aventura loucamente, confiando na imaginação, fanatizando-se e crendo que a fé consista nisto, pode estragar esse mecanismo maravilhoso e, então, a fé não pode funcionar em suas mãos. A culpa, então, não é da fé, mas de quem não soube crer justamente. E renegando-a, distanciando-nos de uma via salutar que conduz para nós forças boas e amigas.

Disse que Deus desaparece da nossa mente quando O desantropomorfizamos. E, no entanto, Ele ressurge em nosso pensamento e diz a cada um de nós: "Olha em torno: em toda parte, Eu estou". E tudo volta a falar-nos d‘Ele que volta a olhar-nos de uma miríade de rostos diversos. E nós, que julgávamos havê-Lo perdido, por não O virmos mais localizado numa forma, vemo-Lo ressurgir diante de nós em todas as formas. Verdadeiramente para tantos pode essa imanência tornar-se amedrontadora e, então, eles se afanam em enclausurar Deus nas igrejas e em distanciá-Lo no transcendente, para ficarem mais livres de Sua presença, que os preocupa em seus negócios quotidianos. Mas quem sofre e tem ânimo puro, o justo, goza dessa imanência e se lhe agarra com todas as suas forças, como única defesa, e não há condenação espiritual que o possa destacar dessa sua fé.

A nossa rápida corrida através da ciência nos confirma sempre mais a idéia não só da existência, mas ainda da imanência de Deus. Se essa sabedoria por vezes parece fracassar e ser contrastada pela dor e pelo mal, trata-se de uma aparência. Para quem vê em profundidade, esses desequilíbrios são reabsorvidos em equilíbrios maiores e no fim são eliminados. Certo é que o universo aparece diferente segundo o olho que o vê e o plano de onde se vê. Então nós vem a propósito perguntar como apareceria o nosso mundo visto de um plano macroscópico. Talvez do mesmo modo como a nós aparece o mundo submicroscópico. E se tivéssemos uma mente e sentidos  adaptados a perceber o mundo submicroscópico, não poderíamos perceber o mundo do nosso plano, como destes nos escapa o universo macroscópico. Uma consciência submicroscópica, quem sabe com que esforços chegaria somente a alguma aproximação daquele mundo sensório que forma a nossa realidade concreta! Avizinhar-se-lhe-ia, como fazemos com os universos galácticos, com tais e quais observações, hipóteses, teorias, cálculos, controles experimentais e por sínteses progressivas. Uma consciência assim formada deveria fazer estudos, quem sabe quais, para distinguir a água da pedra e nunca poderia perceber e compreender um ocaso, uma flor, um quadro. De seu próprio plano, o homem, portanto, sabe muito mais. Se ele pertencesse a mundos menores, não compreenderia nada desta que chama ilusão e que, no entanto, relativamente a ele, no seu plano, é uma realidade. Todo mundo é real no seu nível, e ilusão se visto de outros planos, e todo ser é dotado da sabedoria que lhe serve para a sua vida. Se o homem vai conquistando o conhecimento do universo, é porque a sua vida se dilata em proporção e aquele conhecimento lhe deverá servir. Tudo é relativo em nosso universo, que é relativo. Sem ir tão longe, observando casos menores, ainda em nosso mundo vemos que existem, entre os homens, diferenças profundas, dadas pelos diversos planos biológicos em que vivem, conforme o seu grau de evolução. A ciência médica, como as ciências sociais, se dirigem para o tipo médio e aplicam, para todos, normas estandardizadas e adaptadas àquele tipo. Assim, quem é menos ou mais evoluído naquele tipo, deve adaptar-se à medida comum, ou elevando-se para um tratamento superior à sua natureza, ou abaixando-se para um inferior. Bem dura será na terra, entre os normais tipo "standard", a vida do ser que alcançou no espírito formas biológicas superiores.

O    primeiro obstáculo que se põe diante desses puros pesquisadores da verdade, a esses ascetas do pensamento e sacerdotes do espírito, é a humana intransigência e mania do enquadramento, pelo que tudo já está aprioristicamente catalogado segundo os interesses de cada grupo. Quem procura seriamente a verdade tem necessidade de ser livre e não preso a pontos fixos e soluções já dadas. Assim ele se encontra de maneira a não poder dar um passo sem encontrar muro divisório e, atrás dele, um inimigo armado. O involuído é separatista, agressivo, absolutista. O evoluído é universal, pacífico, tolerante. Como tal não pode ser enquadrado nos grupos humanos, na base de interesse ávidos de se destruírem para dominar E desta sorte o evoluído não encontra senão tentativas de encarceramento da sua universalidade, em limitações humanas. Disto resulta o seu sufocamento e o secar-se daquela fonte espiritual da qual o tipo inferior, mais do que todos, tem necessidade. A esses seres que emergem do tipo biológico normal se impõe a luta de todos, de modo que eles devem saber viver como anjos entre demônios e produzir no espírito, no meio de turbas de encarniçados ventres ambulantes.

Sem dúvida o método da luta é útil à vida para os seus fins seletivos, mas nessa forma o é só nos graus inferiores, onde o ser não sabe explicar mais elevado gênero de atividade evolutiva. Mas, em planos superiores, essa forma de atividade é perfeitamente estúpida e inútil para os fins seletivos. O ser superior dela foge completamente com a tolerância e o perdão. O inferior, que não sabe fazer melhor do que faz, para aprender a evoluir, tem necessidade do egoísmo, da rivalidade com o vizinho, de agredir e ser agredido, da fome e da resistência de um ambiente hostil. E tudo lhe é fornecido em proporção. Mas para o evoluído a seleção se realiza em forma totalmente diversa. A sua atividade se dirige para criações muito mais profundas. Para ele é perfeitamente estúpido se matarem uns aos outros, quando para viver há na terra sobra para todos. Mas, se comem uns aos outros, os seres que ainda não têm compreendido o rendimento utilitário do trabalho fraternalmente orgânico, e por isto lutam e sofrem, justamente para aprender tudo que é a meta da sua evolução, à qual o evoluído já chegou. Ele está só e deve viver entre os que ainda não podem compreender.

Mas para o homem normal é coisa diversa. Para o animal, se não fosse a agressão, quem lhe ensinaria a astúcia e quem lhe formaria a inteligência? Qualquer coisa, escreve-se sempre em nosso Eu: onde e como não sabemos, mas permanece escrito. O evoluído que não tem necessidade de reforçar a inteligência porque já a formou, pelo menos nesse plano sabe esquivar o golpe, porque é inteligente. O néscio que tem necessidade de reforçar a inteligência, porque ela ainda lhe é escassa, é o que menos sabe defender-se e o que mais se expõe. Apanha, pois, todos os golpes. Ele é o bom bocado dos espertos dedicado à caça ao parvo; ele é o que mais vai à escola. Quem mais sabe, por mais ter aprendido, não freqüenta mais as aulas. Não se pode impedir, porque essa é a vida, que no mundo social, a cada passo, exista uma armadilha e um lobo pronto para dilacerar. Tudo é lógico e equilibrado no plano normal e tem o seu justo escopo. Tudo é proporcionado à necessidade de evoluir e à sensibilidade dos homens que, para compreender, têm necessidade de duros golpes. Mas para o evoluído ficar imerso nesse mundo e exposto a esse gênero de luta é coisa inútil e antivital, enquanto ela é útil e vital para os outros. Ele deve gastar tempo e energia para não ficar ferido, enquanto desejaria cumprir o seu fim, para o qual el está na terra, fim bem diverso daquele egoístico dos demais, e que é o bem dos outros.

A incompreensão da posição do evoluído por parte do mundo chega ao ponto de considerá-lo um anormal e o seu estado é tido como patológico pela medicina que não admite senão um modelo estandardizado, baseado no tipo biológico médio dominante por número. Todo o resto é definido como patológico. Não se admite o tipo biológico transcendente, supernormal, imerso no duro trabalho criador que se opera naquela fase de transmissão evolutiva que os demais ignoram. Por razões de prática atuação, hoje, os princípios terapêuticos, econômicos, sociais, são todos estandardizados, enquanto nenhuma coisa é igual a outra e nada é mais absurdo na natureza do que o igual para todos. Dever-se-ia chegar, ao contrário, a um novo ramo de medicina do supernormal, cujas perturbações evolutivas sejam entendidas como normais e salutares, e não como hoje patológicas, como não são patológicas para a mulher as dores do parto. E, no entanto, muitas vezes, no caso do evoluído, esses princípios são considerados patológicos, qualificados com nomes que dizem bem pouco, como histerismo, neuroses e semelhantes. Como se daria o parto de uma mulher que visse o seu feto considerado como um tumor a ser operado e devesse suportar intervenções nesse sentido? Todavia assim acontece com o futuro tipo biológico que hoje, excepcionalmente, começa a formar-se, tipo que deverá sempre mais se generalizar, porque é no espírito que está o porvir único da vida. É preciso compreender que certos desequilíbrios são necessários corno condição de equilíbrios mais altos que assim se vão conquistando. Formou-se desse modo uma pseudo-patologia. Entretanto, quando o novo tipo biológico de amanhã começar a formar-se com maior freqüência de casos, deverá nascer essa nova medicina que contempla os distúrbios evolutivos e as perturbações orgânicas e psíquicas geradas pelo transformismo biológico, que tende para mais altas formas de vida.

A progressiva evolução humana está transformando tudo na terra, e o involuído ainda não se apercebe dela. A ciência está para abater muitas portas do mistério, derrubando muitos ídolos, e iluminará muitas mentes modificando, em conseqüência a nossa vida individual e social. O ultramicroscópio eletrônico (utilizável somente com a fotografia) pode alcançar aumentos de 40.000 diâmetros. Mas, com isto, estamos bem distantes de poder penetrar a alma das coisas. Atrás do mundo das aparências há um outro mundo o das potências. Entretanto tudo já está escrito e resolvido no pensamento universal e tudo está somente em o saber ler. A solução de todos os problemas está em idéias ou ondas pensamentos, que já existem e circulam na atmosfera espiritual do cosmo. Nada há a descobrir; é só saber evoluir e, consequentemente, sensibilizar-se e tudo se tornará visível e evidente. Trabalho este que cabe ao evoluído, àquele que os demais consideram o grande imbecil da vida, porque ele não rouba, não esmaga, não mente. Trabalho que deve equilibrar o de uma ciência que o involuído não sabe utilizar senão para a morte e a destruição. A descoberta da bomba atômica nada parece diante daquela dos raios letais que teriam um efeito infinitamente superior ao produzido pela desintegração de um núcleo de plutônio ou de urânio. São conhecidas as reações em cadeia na desintegração dos átomos. Nesse processo se formam radiações gamas que interrompem a cadeia desintegradora. Se essas radiações podem causar distúrbios na desintegração em cadeia completa, esses raios podem criar zonas letais. Acelerando-se essas radiações e regulando-se-lhe a velocidade e a direção, poder-se-ia canalizá-las a uma velocidade teórica de 300.000 km por hora e um objetivo até 100.000 km. Nesse campo toda vida deveria cessar Como se vê, a ciência do mal não está em ócio.

Os homens aninhados nas suas posições, conquistadas com esforço quereriam, para as conservar, que nada caminhasse no mundo e tudo ficasse imóvel. Mas a vida não pode parar Não é o revolucionário louco ou egoísta que mente, em vantagem própria, mas o revolucionário sábio, que trabalha em contato com o pensamento de Deus, em harmonia com as leis da vida, que faz parte dos insuprimíveis ímpetos evolutivos. E pense-se que a ascensão em todo campo é a grande lei do ser, o principio fundamental do universo, sustentado pelas maiores forças da vida. Pode-se matar o homem que personifica essas forças, mas elas estão acima de todo poder humano e não se podem destruir. Deus está com os homens que se sacrificam por esses escopos de ascensão humana e para cada um deles que se mate, renascem cem.

Há mais de um século que o mundo se orientou para a esquerda, para o materialismo, que em seu tempo também teve a sua função. É o fenômeno equilibrado das oscilações do pêndulo ou do retorno cíclico, dominante na vida, também social, que agora impõe um oposto impulso para a direita, isto é, para o espiritualismo. Isto é elementar. A vida harmônica e equilibrada está para dizer o seu "basta" aos homens da matéria Isto significa a sua liquidação. Tudo é periódico e equilibrado na natureza. Estamos sujeitos a retornar a uma ordem, estamos sujeitos a uma vontade cósmica contra a qual o homem nada pode. E este, que se concluí, é o nosso oitavo volume que estuda o que pensa e comanda essa vontade cósmica, da qual o homem quase não faz nenhuma conta. Ela fala sempre e a andamos escutando em todas as suas expressões, das seguidas pelo cientista às percebidas pelo místico. Escutar, para eles, constitui espasmo, porque aquela voz é terrivelmente potente e fala do inconcebível. Para a compreender é preciso enfrentar o martírio da mente e do coração, porque somente então ela responde, porque somente através desse martírio o homem se torna digno de ouvi-la.

O esforço da vida é fugir à paralisação dos mundos inferiores e evadir da imobilidade e do determinismo das leis dos planos mais involuídos, para conquistar liberdade e domínio. Contra a morte, o ambiente hostil, as forças do mal, o egoísmo do involuído, a vida quer subir para Deus. Esta é a Lei. Por isso a vida arrisca o novo, imola tantos exemplares, para explodir da forma para o espírito, para evadir da matéria, para elevar-se, sempre insaciável de superamentos. Assim a vida lança os seus campeões e para esse fim, também, os sacrifica, mesmo sabendo que arrisca a sua parte melhor. O Pensamento criador, concentrado nas formas inferiores, não está morto. Ele está aí prisioneiro, mas pronto a se desencadear em energia e a energia em psiquismo, porque quer se libertar e retornar a ser ele próprio. E eis que, no fundo de todo conceito, reencontramos sempre a vertigem do infinito.

Quando subimos para os mais altos planos do conhecimento, nos avizinhamos do centro em que se dá a unificação de todas as coisas, para a qual tudo tende, evoluindo. Então acontece que o cientista e o místico se aproximam tanto um do outro, que chegam quase a tocar-se no mesmo terreno. E eles representam tudo o que chamamos ciência e fé, que assim também se avizinham até se fundirem; trabalham ambos num mundo invisível, em que têm valor experimental positivo e objetivo, fatos de natureza imponderável, subjetivos, os fenômenos da consciência. Esta parece feita não somente para registrar os dados da experiência sensória, mas, ainda, os resultados de outras impressões espirituais de caráter todo diverso. Trata-se de uma ordem de experiências das quais a ciência não conhece absolutamente nada, mas com que acaba tendo de se avizinhar, logo que ela progrida para as grandes profundidades do conhecimento. Então, cientista e místico entram no mesmo mundo do transcendental em que todas as formas superiores de consciência se aproximam para se fundirem; ciência e fé não nos aparecem senão como dois diversos modos de ver a mesma verdade, senão duas vias para chegar à mesma realidade última. A separação e a luta entre ciência e fé não são senão questões de involução. Evoluindo, segue-se para o universal, para o abstrato, para a unidade. O pensamento imaterial que rege e constitui a matéria torna-se a mesma coisa que o pensamento imaterial que constitui o espírito. No alto tudo se acorda e harmoniza. Então tudo se unifica num mesmo plano onde trabalham juntos e concordes o cientista e o místico, o matemático, o musicista, o poeta, o santo, onde a ciência é arte, a matemática é filosofia, a pesquisa é prece, onde tudo se funde e é o mesmo impulso para o mesmo único centro, Deus.

A mente humana, percorrendo a circunferência do relativo, tenta alcançar o centro do absoluto que ela reencontra projetado em todo ponto daquela circunferência. As suas experiências analítico-objetivas são dispersas ao longo dessa circunferência. Mas progredindo com a evolução, a mente humana penetra nas circunstâncias sempre mais restritas e vizinhas do centro, sempre mais assim aproximando-se da unificação. Como a fase criação-involução representa uma projeção na forma, distante do centro, assim a evolução significa um reconstituir-se para o centro, em unidade, daquele universo, antes cindido no particular. Isto também pelo conhecimento que assim se torna sempre mais unitário. Dessa maneira, progressivamente se elimina o separatismo humano que divide o conhecimento em mil afirmações antagônicas em luta entre si. Assim, aos poucos caminha-se para a verdade única, que é luz, e que, dada a estrutura do universo, não somente é tanto mais verdadeira quanto é mais abstrata, mas também quanto mais é unitária. Essas são as características que devem ter as maiores verdades futuras, mais progressivas das atualmente concebidas pelo homem. Tanto mais se progride, quanto mais se tornam pesados e insuportáveis todo muro divisório, o separatismo de todos os enquadramentos humanos, a luta entre verdades que são diversas e rivais só por razões de involução.

Quando se alcançam os mais altos planos do conhecimento, todas as formas de investigação se dispõem em paralelo e todas as formas de experiência, da científica à mística, avizinhando-se da proximidade ao centro, se igualam e, concordando colaboram para o mesmo fim. Evidentemente, a substância do mundo em que vivemos representa algo que transcende tudo quanto pode ser medido com os instrumentos da física e até o que é descrito com os símbolos métricos do matemático. Se, portanto, o místico vê com modo próprio as realidades profundas e nos revela um aspecto delas, não podemos, "a priori", excluir essa forma de investigação, nem podemos dizer que ela não esteja mais perto da verdade do que as outras; de qualquer modo ela possui sempre um significado e tem alguma coisa a levar para a ciência. Não se pode excluir nada. Não se pode negar que também os nossos sentimentos e impulsos espirituais não possam atingir alguma revelação dessa realidade. Esses resultados em vez de serem repelidos como desprezíveis, porque não são positivos, deveriam ser coordenados com os do físico e do matemático para obter uma compreensão sempre mais completa da realidade das coisas. Não se pode absolutamente dizer que só pelo fato de que, em vez de usar os meios sensórios do corpo, relativos e ilusórios, usamos os do espírito, por isto caímos no erro e no irracional. Pode dar-se que se trate só de um racional diverso, porque mais profundo, mais potente da corrente racional científica, e pode também o que resulta da observação e contemplação mística ser positivo e importante para o conhecimento

Sem dúvida a ciência chegou hoje à concepção de uma realidade do todo transcendental, que antes lhe escapava, e com isto veio a se debruçar sobre o campo das experiências do místico. Chegamos ao ponto em que isto pode fornecer algum aviso à ciência e em que esta pode receber uma contribuição de uma fonte tão inusitada. Nos capítulos precedentes, vimos como a concepção einsteiniana possa ser orientada e continuada no campo filosófico. Agora, aquela concepção pode continuar também em forma mística, numa visão universal. Neste volume, diante dos últimos problemas, ciência, matemática e misticismo aparecem fundidos numa única síntese, convergindo para ela harmonicamente. A intuição mística encontrou confirmação na mais recente físico-matemática e esta nos conduz àquela.

Mas diremos ainda mais. Pondo-nos diante da última realidade, poderemos perguntar se não seja o cientista que, em vez do místico, mais se mova entre as sombras do irreal. Se observarmos a fundo os dados experimentais, eles perdem muito da sua valia. O místico que alcança a sensação de Deus, alcança a prova completa e não procura outras. E quando se chega à sensação, como se repete em tantos casos e temperamentos diversos, se tem o mesmo direito de negá-la, que se pode ter pelas sensações da investigação física. Se as examinarmos a fundo, estas não nos dão nenhuma garantia absoluta. Se atrás de toda sensação há de existir uma realidade, por que umas devem ser falsas e as outras verdadeiras? É lógico que ambas sejam verdadeiras. E então eis que para o místico o Deus que tudo invade poderá ser a mesma lei onipresente e perfeita que para o físico tudo regula. Por ambas essas vias, tão distantes e opostas, se apresenta a mesma imanência de Deus, logo que a consciência se eleve mais para o centro do ser. O místico, porém, quando queremos nos avizinhar da mais profunda e verdadeira realidade, tem muito mais que dizer do que aquele escuro mundo de símbolos com o qual a matemática, já que a representação mecânica e antropomórfica diz bem pouco, procura hoje ver no mistério do universo físico-dinâmico. O cientista mesmo sabe que tudo isto não o põe em contato com a última realidade, sabe que as suas são puras interpretações e são bem outra coisa do que absolutas e definitivas. O místico pode, ao contrário, nos ensinar que, além dos sentidos dirigidos para a análise objetiva, o homem possui um senso interior dos valores e do caminho para os atingir; que, além daqueles puramente racionais do cientista, há meios intuitivos mais rápidos e sintéticos; que além daqueles sensórios imediatos, existem meios diretos aptos para as apreciações que se estendem até aos campos inacessíveis para o raciocínio. Por outro lado, no fundo da observação sensória, há a premissa axiomática, a apriorística e não demonstrada de que os nossos sentidos constituam um canal para o conhecimento, apto a revelar o significado real das coisas. Os primeiros momentos da ciência racional são indemonstráveis, super-racionais e intuitivos como os últimos. O matemático puro não tem uma opinião elevada dos métodos de dedução usados pela física e desaprova a fragilidade do que é aceito como prova pela própria ciência física. Isto autoriza a contribuição que pode dar a intuição do mundo invisível por parte do místico, ainda que, do ponto de vista da ciência, possa parecer inconsistente, porque imprecisa.

Concluindo, nenhum caminho deve ser desprezado para enfrentar o mistério: ele é tão profundo e complexo que todo auxílio nos é necessário; o mistério é tão vasto e múltiplo, que todos os caminhos podem conduzir à sua solução. Na própria ciência positiva que acredita ter base sólida, vemos que os resultados conseguidos por uma geração não valem mais para a seguinte. É tudo um fazer e sobrepujar contínuo, em todo campo. E então vem a ocasião de perguntar se essa contínua mudança do nosso conhecimento em todo campo não seja antes o efeito da evolução psíquica humana de que depende tudo o que pensamos e não seja senão o seu índice; se toda objetividade científica não esteja senão em função dos nossos meios sensórios e psíquicos; se o nosso conhecimento não dependa sobretudo da evolução daquele instrumento que é a nossa mente. É certo que, em principio, para uma inteligência nata e feita para os fins imediatos da vida, o ingresso nesses campos de investigações abstratas pode dar o sentido de uma aberração biológica, de uma atividade anormal O intelectual que avança nesse terreno poderá parecer uma monstruosidade para a classe média, alguma coisa que vai além da vida para a qual primeiro interessa a nutrição e a reprodução, coisas que o homem normal bem conhece, do mesmo modo como elas estão também no fundo da vida do pensador. O primitivo, normal, para viver, não tem nenhuma necessidade de conhecer a estrutura do universo. E no entanto, um futuro da evolução não é sequer imaginável senão nessas atividades supernormais, hoje aberrações biológicas, amanhã criações de novos tipos de existência. O conhecimento é sobretudo resultado da evolução. O intelecto se desenvolve e floresce como toda coisa no todo. O que verdadeiramente tudo rege é a imanência de Deus, o que tudo guia é a Sua constante obra criadora. Vemo-nos pelo fato que antes, sem o sabermos, se construiu o olho. Com este e outros sentidos formados do mesmo modo debaixo do estimulo da luta que instrui e seleciona, o homem descobriu depois as leis ópticas, pelas quais, já há tempo, sem que ele as houvesse analisado e compreendido, o seu Olho já funcionava. Assim se ascende para o atual super-concebível, pouco a pouco, com a formação e o aperfeiçoamento do órgão psíquico, e somente este fato poderá permitir, com uma mente mais perfeita, penetrar a sua estrutura e aquele conhecimento que hoje não se alcança. Toda a nossa incompreensão dos últimos problemas é questão de imaturidade biológica.

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Termina por ora a nossa corrida no campo da ciência moderna. Temos comprovado e desenvolvido muitos conceitos sumariamente expostos no começo de A ‘Grande Síntese. Reunimos ainda as conclusões filosóficas e místicas do capítulo "Deus e Universo" com as da mais moderna ciência físico-matemática. Assim a nossa concepção da estrutura espiritual do universo concorda com a atômico-dinâmica dos maiores físicos e matemáticos hodiernos. A ordem moral, em que se movem as forças espirituais, funciona em harmonia com a ordem dínâmica-física concebida segundo as últimas teorias da relatividade de Einstein, dos "quanta" de Planck, da física estatística e quantística, do "contínuo" quadridimensional e do espaço-curvo. Aqui vimos como essas teorias se podem desenvolver, no campo filosófico, nas teorias conexas, desenvolvidas na primeira parte de A Grande Síntese, pelas quais o mundo físico-dinâmico é conjugado com o mundo moral. Assim aparece o todo-uno que denominamos monismo.

Tudo isto converge para a demonstração que esse todo-uno é, realmente, um físio-dínamo-psiquismo, o conceito central destes escritos. Estes três modos de ser da mesma substância única são conexos por um transformismo que os muda um no outro, seja um respiro de ida, de involução ou centralização, seja em um inverso respiro de retorno, de evolução ou expansão, que é o atual. Trata-se de uma viagem através de progressivas dimensões, de uma viagem que, em nossa fase, é uma íntima auto-elaboração em que Deus está presente e ativo e pelo que tudo volta a Ele. Hoje o tudo se dirige para o puro pensamento.

A visão da ciência é mais circunscrita. O ponto de vista científico mais ortodoxo é que a entropia do universo aumente e deva aumentar até ao seu valor máximo final. Ela é rapidamente crescente. Mas a ciência pára na atual fase evolutiva que, justamente, enquanto se encaminha para o espírito e representa a reconstrução dessa forma do todo (Deus, pensamento), deve representar a morte da matéria, como a involução representa a morte do espírito Assim, isolada a entropia numa só direção, sem ver o transformismo oposto, não se pode compreender esse transformismo. Foi na precedente inversa fase involutiva que foi concentrada aquela potência que agora se manifesta e que vai gastando-se, nivelando-se como entropia. Ela não é senão um desenvolvimento que, se anula a forma-matéria, cria a forma-espírito, que é o retorno a Deus na ascensão evolutiva atual.

 A técnica da criação, que foi um inverso transformismo equilibrante, psíquico, dinâmico, físico, criação do universo sensível, da forma, por um ato do pensamento puro. Este, a ciência hoje o verifica, ficou em toda parte como emaranhado, revelando-se presente na estrutura íntima da matéria, tanto é verdade que a reduzimos a uma fórmula matemática, uma vez que esta é a representação que mais está perto daquela realidade, que é abstrata. James Jeans, como homem de ciência, diz que o ato da criação é uma materialização do espírito Mas também vários outros cientistas hoje reconhecem que o nosso universo dinâmico-físico pode ser uma formação involutivamente descida na 4.ª dimensão ou "contínuo" espaço-tempo, da 5.ª dimensão que é a consciência. E o que quer dizer isto, senão o físio-dínamo-psiquismo evolutivo atual, na sua inversa fase criadora? Esta consistiria, justamente, numa emanação do pensamento de Deus, de que, também pela ciência, derivaria toda a formação do nosso universo.

O    esquema desse universal transformismo cíclico, em toda parte se reproduz debaixo de nossas vistas, nos casos menores que nos são acessíveis. Em um universo conexo, harmônico e analógico em toda parte, isto é uma prova. Tudo é cíclico no universo, tudo renasce das radiações em que tudo se dissolve. Diz o mesmo James Jeans: "As estrelas atuais se volatilizam em radiações que de novo tomarão consistência, tornando-se matéria". "Assim o nosso universo se pode representar como cíclico, isto é, enquanto numa região ele morre, em outra os produtos de sua morte são capazes de produzir novas vidas".

Eis traçado aqui, no âmbito físico-dinâmico, o inverso respiro criador-evolutivo do universo. A ciência já viu esse traço do dúplice transformismo. Teremos, pois, a formação, primeiro, dos núcleos de matéria no espaço, dinamizados pelo pensamento criador, e depois irradiação dinâmica desses núcleos altamente dinamizados até o seu esgotamento (entropia), mas em conseqüência, formação de planetas e sobre eles de vida, incumbida da transformação da energia em consciência e pensamento. Assim se cumpre o ciclo de ida e de retorno do ser, de Deus para Deus. Tudo é cíclico e volta ao ponto de partida. Hoje a direção do tornar-se é evolução. Ou avançar ou morrer. A vida está a caminho do espírito.

Porque é cíclico, tudo é curvo no universo. O átomo é esférico como os sistemas planetários. Curvo é o espaço, dimensão do universo físico, que hoje, em fase evolutiva, está em expansão; curvo é o "contínuo" quadridimensional em que, com o espaço, se funde o tempo, dimensão da energia; curvo é o conceito criador-evolutivo, que assim cumpre o ciclo e torna ao ponto de partida. Curvatura universal, expressa pelo universal esquema do ciclo, curvatura de todas as dimensões do ser, em que finito e infinito se fundem. Curvatura expressa pela lei de causalidade, pelo que causa e efeito, efeito e causa, se ligam em cadeia num circuito que se completa, tornando às origens. Esse é o esquema do universo.

Eis a grande e sim les idéia que tudo explica e contém. A explicação quanto mais simples, tanto mais é convincente. Nesta, que tudo enquadra e na qual tudo torna a entrar, tem-se maior probabilidade de reencontrar a mais fiel interpretação do verdadeiro. Ela é hoje a mais completa e exauriente. A conclusão deste nosso trajeto, levado a termo com a ciência que caminha para a descoberta de Deus, é que o universo não é uma realidade inconsciente e mecânica, onde reina o acaso, mas que ele é sempre mais como um grande pensamento que sabe melhor do que um grande maquinismo autômato, ignaro de si. Também no universo físico e dinâmico se revela a inteligência e a consciência. Elas regulam tudo através de uma lei perfeita que se distingue das leis humanas, enquanto não sofre exceções e nunca é violada. Ela determina o ser e  lhe define as propriedades. No mundo físico, os símbolos matemáticos indicam essa irrevogabilidade absoluta. Na matéria e energia ela é uma regra íntima, tão inserida na essência das causas que está em sua natureza o segui-la, de modo que ela é espontânea, não forçada, é livre e nunca é desobedecida. Enquanto nas leis humanas é a realização que é difícil, aqui é a não realização, que é impossível. Acontece o que deve acontecer, conforme a lei. Entre os mundos involuídos da matéria e energia e os planos mais evoluídos do espírito, há a diferença que essa obediência se torna de inconsciente, consciente; mas a Lei sempre domina, e a vida, ainda através do erro e da dor, serve para ensinar a se tornar consciente, isto é, a segui-la livremente, como o próprio e máximo bem. Ela é o pensamento de Deus, de que tudo depende. O espírito, pois, é universal, porque hoje também para a ciência ele não parece mais um intruso nem mesmo no reino da matéria, mas fundido nela, emergindo evidente das suas profundidades. O espírito que denominamos Deus aparece hoje também para as grandes mentes diretivas da ciência, como o criador e o governador de todo o universo. Tudo isto prova que, hoje, verdadeiramente caminhamos para a nova civilização do espírito.

Uma outra concepção da ciência moderna é a do espaço-curvo, que assinalamos acima, problema que melhor poderemos enfrentar agora que, filosoficamente, havemos enquadrado numa concepção universal o conceito de "contínuo" espaço-tempo e observado alguns dos possíveis desenvolvimentos filosóficos da teoria da relatividade. Estabelecida, como acima, a evolução da matéria em energia e depois vida e consciência; estabelecida a correspondente evolução das dimensões, cada uma própria para cada fase, a dimensão-espaço permanece limitada à  fase matéria, como sua propriedade e unidade de medida. O espaço existe, enquanto ali nasce matéria. que estabelece os pontos de referência. Sem matéria, e, portanto, sem esses pontos, um espaço vazio e infinito se confunde com o nada, é, como realidade objetiva, um não-existir. E poderemos dizer que a energia se transmite no espaço e a correspondente dimensão-tempo existe, enquanto há matéria, isto é, enquanto as concentrações estáveis de energia que ela representa nos podem dar pontos de referência. Se o que forma o espaço é a involução da dimensão-tempo na sua dimensão inferior, por via do congelamento de radiações ou seu aprisionamento cinético na forma de matéria, ao contrário o que forma o tempo é a evolução da dimensão-espaço na sua dimensão superior pelo livramento cinético da forma matéria, das radiações aí concentradas e fixadas. Pelo que, superada a fase-matéria na de energia, o espaço como espaço não existe mais. Uma quantidade de radiações navegando sempre num espaço sem matéria não nos pode dar um ponto de referência e sem ponto de referência o espaço nos escapa no indeterminável e se anula. Não haveria mais ponto de partida ou de chegada. É o espaço que funciona como ponto ao longo da linha tempo, que o torna mensurável, onde a simples radiação não daria senão um indeterminável tempo sem medida, eternamente fluente. É sempre função da dimensão inferior marcar com o seu limite a dimensão superior, dando-lhe com isto medida, enquanto é a dimensão inferior que, sendo mais involuída e por isto periférica, é muito mais fechada no separatismo do relativo, que tanto mais aumenta quanto mais nos distanciamos da central unidade do todo, o absoluto.

O espaço não é um elemento indestrutível, mas ele, como também o tempo para a energia, pode ter fim com a forma-matéria do qual ele é a medida. Como matéria e energia são modos de ser relativos, assim são relativas as suas dimensões de espaço e tempo. E com o transformar-se por evolução ou involução daquelas formas do pensamento de Deus, que denominamos matéria e energia, também as sua dimensões desaparecem. Conceitos estranhos estes, que fogem ao concebível normal, para os quais não encontramos em nossa consciência meios de representação fornecidos pela experiência passada. E procuramos expô-los da melhor maneira, como no-lo permitem as palavras e as idéias hoje normalmente disponíveis. É bem difícil reduzir o conhecimento das últimas realidades à nossa dimensão conceptual: consciência. Mas é certo que somente assim se pode compreender um pouco mais esse estranho espaço que se pode contrair ou expandir, conforme se forma ou se desagrega a matéria da qual ele é função. Em suma, por represamento cinético não somente nasce a matéria, mas também a dimensão que lhe é relativa, o espaço, pois que são os centros desse represamento que fornecem os núcleos de matéria, isto é, os necessários pontos de referência. Em outros termos, o fenômeno do represamento cinético na forma matéria ou da libertação cinética em forma de energia, fenômenos verificados, implicam também os da formação como da extinção do espaço. É assim que o espaço, enquanto é função da matéria, se pode, gradativamente, formar por centralização de radiações, ou se pode dissolver por descentralização dinâmica; é assim que o espaço se pode contrair ou expandir. Isto é difícil de imaginar porque a realidade atual não o oferece às nossas vistas, isto é, o fenômeno está fora da nossa experiência e concepção comum, nem encontramos jamais matéria ou energia isoladas, mas sempre fundidas em conjunto como, ainda, as suas respectivas dimensões de espaço e tempo. Estamos situados com o nosso universo em determinados planos evolutivos e não podemos sair deles nem fisicamente, nem conceptualmente.

Por espaço entendemos aqui a dimensão da matéria e a sua medida e do que está em relação com ela, em sentido objetivo, independente da consciência humana. Dado que esta o pode traduzir na sua própria dimensão, numa abstração subjetiva independente da realidade, o espaço pode existir também como idéia em nossa mente, mas então não temos o espaço, mas o conceito de espaço, isto é, um espaço abstrato, na realidade um vácuo, porque de si é um não-espaço e uma não-matéria, que, porém, é um germe de onde  pode nascer por involução criadora das superiores dimensões conceptuais a matéria e, pois, o espaço, sua dimensão. Tudo pode nascer do que está nas dimensões superiores, nas inferiores, em direção involutiva à guisa de condensação do pensamento, e tudo pode ser restituído evolutivamente das inferiores às superiores, à guisa de expansão. Esta é a técnica criadora pela qual todo o concreto se pode desenvolver da potência que está na idéia, para depois a ela retornar.

No sentido objetivo, um espaço vazio não teria dimensões nem medida, é um indefinido e um indefinível, em que nada se pode distinguir até que aí não se gere alguma coisa. Um espaço vazio é somente uma possibilidade em potência, em que nada está ainda realizado, em que o ser não tem ainda tomado forma no plano material, mas é somente um germe no regaço da idéia geradora. O espaço real, existente em sentido objetivo, é dado pela matéria e nasce com ela por concentração dinâmica. Disto decorre que, quanto mais concentração de matéria se gera, tanto mais o espaço, centraliza, se acentua, isto é, se torna restrito. Eis como ele se pode contrair ou expandir, e isto conforme a matéria, que forma naquele espaço sua dimensão, se concentra ou se rarefaz, condensando-se (matéria) em determinados pontos ou se expandindo (energia) com o se precipitar distante deles. A expansão do sistema cinético da substância representa a nossa fase evolutiva do universo (expansões das espirais galácticas, arrefecimento por irradiação, formações planetárias, desintegração atômica, para energia e espírito). A concentração do sistema cinético da substância representa a precedente fase involutiva (gênese dinâmico-física, proveniente da primeira potência criadora do espírito). No primeiro caso temes concentração de matéria e progressiva contração do espaço, no segundo temos expansão da matéria e progressiva dilatação do espaço. E assim que a concentração em forma de matéria faz diminuir as dimensões do universo e ao contrário, no sentido de que quanto mais matéria se formou no universo, tanto mais o espaço se há encurvado, isto é, tanto mais rapidamente ele se fecha em si mesmo e menores se tornam as suas dimensões espaciais. Isto se dá na fase involutiva ou criadora, quando o universo vai para o pólo ou centro-matéria, enquanto na sua fase inversa evolutiva ou expansionista (a nossa), ele vai para o pólo oposto ou centro, espírito, ao qual tudo o que dele (Deus) foi gerado, a ele tende voltar. Já dissemos que pelo dualismo universal, tudo é bipolar, como é também cíclico. As dimensões do universo físico dependem assim da quantidade de condensação que nele se dá em forma de matéria e o espaço relativo está em função da sua curvatura, dada por essa centralização cinética. Daqui o conceito de espaço-curvo e contrátil, único conceito que nos pode explicar o seu aparecer e desaparecer como dimensões de um sistema cinético que se centraliza ou se expande.

Procuremos esclarecer ainda melhor esses conceitos difíceis. O. nosso concebível dificilmente pode separar do todo a idéia de tempo da de espaço e ao contrário. Procuremos isolar na nossa concepção um mundo dinâmico sem condensações físicas, feito de radiações, de energia vagando somente ao longo da linha do tempo, à espera de condensação e represamento cinético em forma de matéria ainda não nascida. Vimos que o tempo é linear. Ora o espaço começa a aparecer logo que se inicia a curvatura aquela dimensão linear, ou, em outros termos, o estado cinético linear da energia radiante começa a encurvar-se sobre si mesmo, andando para aquela forma diversa do ser, que é dada pela prisão cinética que constitui a matéria. De modo que a gênese do espaço poder-se-ia conceber toda como um processo de curvatura do tempo. E a descida da terceira dimensão (volume) à segunda (superfície), à primeira (linha), até à anulação do sistema do espaço tridimensional, no ponto, poder-se-ia conceber como um processo de curvatura. E, semelhante, no lado oposto, poder-se-ia imaginar a gênese do tempo como devida a uma curvatura da dimensão-consciência, e esta a uma curvatura da dimensão-superconsciência. De modo que o processo involutivo criador seria devido a esse fenômeno de curvatura. Certo é que faltam as palavras porque os conceitos comuns não são mais suficientes. Curvatura é um termo espacial, como o são os conceitos de condensação, concentração — aprisionamento, os que o nosso relativo nos pode dar com as imagens tomadas em nosso mundo relativo. Podemos, porém, compreender que, se tivéssemos capacidade de dar a essas representações um valor universal, válido em todos os planos de existência, poderíamos chegar muito mais perto daquela recôndita realidade que, em verdade, nos escapa completamente, porque os meios comuns de concepção são absolutamente inadequados para penetrá-la.

O inverso, o nosso período atual, o evolutivo, pode ser concebido invertendo-se as posições precedentes, isto é, distendendo-se a curvatura com a ascensão de fase em fase e de dimensão em dimensão, ao longo da escala e isto da primeira à segunda e terceira dimensão do espaço, à primeira, segunda e terceira dimensão conceptual. Agora o escopo destas nossas observações não é o de tornar concebível o inconcebível, mas de tornar mais compreensível o problema da curvatura do espaço, da sua contração e expansão, enquadrando o fenômeno, como é de nosso sistema, no esquema do funcionamento universal. Assim o conceito de espaço-curvo é mais lógico; harmonizando-se no todo, ele resulta racionalmente mais provável e explicativo.

Estendemos assim o conceito de curvatura além do seu comum valor espacial, dando-lhe um significado universal, como já fizemos com os conceitos de "continuo" quadridimensional e de relatividade. Neste sentido universal, o que no plano matéria significa espaço curvo, no plano conceptual significa ciclo e ao contrário. Esse princípio que denominamos, com termos espaciais, de curvatura, mas que tem um valor universal, bem mais que espacial, nos reporta ao princípio geral do circuito ou ciclo, que reencontramos em qualquer caso, reproduzido a cada passo, porque ele está no esquema unitário do todo. Reencontramos o princípio da curvatura na trajetória típica que nos traça o desenvolvimento dos movimentos fenomênicos (cfr. A Grande Síntese). Mas, se a curvatura é um conceito universal, chegou agora o momento de perguntarmos se na natureza, a reta existe de fato em sentido absoluto. Muito provavelmente ela não existe senão no relativo, no finito, no particular. Então devemos chegar a esta conclusão: que o infinito é curvo, isto é, não se o tem senão com o retorno do finito sobre si mesmo. O infinito não é, pois, senão o ciclo, circuito do finito, o absoluto pode coincidir com o infinito retorno do relativo sobre si mesmo. Somente assim se concebe a compacta reunificação no uno por parte de um Todo fragmentado no multíplice e particular da forma, enquanto o separatismo do relativo é conexo com um contínuo retorno a si mesmo. No finito em que vivemos, das massas gravitacionais às boas e ruins obras e pensamentos, tudo retorna sobre si mesmo, à origem. O próprio universo, nascido de Deus retorna a Deus. Aí está o que, visto como síntese, é infinito, visto como análise, é finito. O infinito e finito, absoluto e relativo, não são senão dois aspectos do mesmo Todo uno, Deus. Eis que tudo permanece sempre uno, embora o uno se haja pulverizado, o infinito no finito, o universal no particular.

Certo que assim, concebendo tudo segundo um esquema curvo, podemos compreender muito melhor o universo. A circunferência na superfície e a esfera no volume são de fato as únicas formas geométricas que podem conciliar em um mesmo princípio o infinito e o finito. Mas então, se tudo é curvo, podemos ainda perguntar-nos como é que pudemos dizer que a gênese do espaço é dada pela curvatura do tempo antes definido como linear, qual primeira dimensão, a reta. Só agora podemos precisar melhor. Sendo tudo já curvo, por curvatura, não podemos entender senão uma curvatura maior do que a precedente. E então devemos concluir que também o universo dinâmico, na dimensão-tempo, era curvo, fechado sobre si mesmo, retornando sobre si mesmo. Há somente que ele era muito mais expandido, menos curvo, que o universo físico, enquanto nele não se haviam ainda formado concentrações dinâmicas por represamento cinético. Naquele universo de energia, todo impulso, mesmo propagando-se ao infinito. dada a curvatura daquele sistema cinético, retornava ao ponto de partida, fechando o circuito, assim um percurso infinito em espaço-curvo fechado. A passagem para o universo físico é dada, pois, não pela curvatura de uma reta mas  por aumento de curvatura de uma curva. Assim, o universo físico é dado por uma contração das vastíssimas trajetórias dinâmicas no fechado dos sistemas circulares atômicos, que continuam a representar o mesmo esquema, isto é, o universal princípio da curvatura, mas com uma intensidade muito maior.

Mesmo nos aproximemos do inconcebível, no entanto todas essas concordâncias falam claro. A estrutura espiralada das galáxias, esferoidal das estrelas-planetas, dos sistemas planetários como dos sistemas atômicos, nos fala do principio da curvatura. Conforme este, a criação não é senão uma progressiva curvatura, enquanto a atual inversa fase evolutiva é uma progressiva distensão daquela curvatura. Com esse princípio se pode compreender como o espaço possa ser finito e infinito ao mesmo tempo e pela mesma razão, como o espaço possa ser finito porque, enquanto é curvo. é fechado em si mesmo; e possa ser infinito porque, enquanto é curvo, retorna sobre si mesmo sem qualquer fim. Assim, pode-se conceber o espaço finito e infinito ao mesmo tempo. Por essa via se consegue alcançar o conceito de infinito, a que não se chega pela estrada comum que nunca resolve, qual é habitual do contínuo sobrepujamento de um limite, que sem pausa ressurge e sem pausa se supera. Mas também essa psicologia exprime o curvo, pelo qual o. relativo percorre no finito um ciclo infinito, de que não pode sair porque ele o conduz sempre sobre si mesmo.

Deste modo, chegamos ao conceito de espaço-curvo. Assim como, seguindo para o infinitamente pequeno, onde a observação macroscópica nos indicava uma física mecanicista, chegamos com a observação submicroscópica a uma física estatística e quantística, assim, agora, seguindo para o infinitamente grande toda reta do nosso mundo finito, observada em dimensões ainda mais macroscópicas, torna-se uma curva. Em A Grande Síntese, cap. LIII, se diz que na natureza qualquer reta é uma curva. Eis, pois, que na gênese, sobre o plano físico nos encontramos diante de um universo dinâmico muito expandido, em que se acendem focos de condensação de energia em forma de matéria, a qual representa uma cinética igualmente fechada em si mesma, porém muito mais contraída, como a estrutura do átomo de Bohr mostra com evidência. O sistema cinético dinâmico curvo não faz, passando da onda livre à represada num circuito tanto mais restrito senão acentuar as suas características curvas. Assim, o circuito vastíssimo da energia, de amplíssimo espaço se há restringido no circuito da matéria, de espaço muito mais concentrado. Hoje que vivemos na fase oposta e complementar da criadora, isto é, na evolutiva, o nosso universo está na fase de expansão pela qual tudo foge do centro, e o espaço, paralelamente, se dil ta. Esses conceitos de contração e dilatação do espaço não se podem alcançar senão admitindo o espaço-curvo. Observemos o que dele diz a ciência.

Calcula-se que a velocidade de distanciamento dos universos galácticos chega aos 144 milhões de quilômetros por hora. Os astrônomos do Mount Wilson calcularam que, no seu conjunto, o nosso universo não contenha de matéria, senão uma fração de grama expressa por uma unidade precedida de 29 zeros, (10-29) e que o raio deste universo seja de 35 bilhões de anos-luz. Um raio de sol, viajando através do espaço, conforme dizem os cientistas, descreve um grande circuito cósmico e retorna à sua origem depois de pouco mais de 200 bilhões de anos terrestres. Hoje se conseguiu transformar a matéria em luz, calor, som e movimento, isto é em energia e se admite a sua equivalência pelo que, se a matéria expande a sua massa e viaja com a velocidade da luz, nós a denominamos radiação dinâmica e, se ao contrário, a energia se congela e torna, com isto, inerte e se pode pois estabelecer a sua massa, então a denominamos matéria. ("The Universe and Dr. Einstein", por Lincoln Earnett, 1949).

Essa equivalência nos indica a possibilidade acima mencionada de uma descoberta, talvez mais próxima do que se. pensa, isto é, da transformação da energia em matéria, o que permitiria ao homem realizar um trecho, conquanto pequeno, do processo criador. Trata-se de fazer o processo inverso daquele que gera a energia atômica por desligamento do movimento aprisionado na matéria. A equivalência matéria-energia em direção evolutiva nos deve dar, também, a inversa equivalência energia-matéria. Se a matéria é radiação congelada e, hoje, a ponte se abriu pela libertação daquela radiação, é bem lógico que amanhã, se possa abrir a ponte que, em direção oposta, leva, com o aprisionamento da energia, à síntese da matéria. Talvez para o homem não haja conveniência utilitária em consumir uma grande quantidade de energia para produzir somente algum fragmento de matéria, de que há tanta abundância. Talvez que, com a desintegração atômica, ele possa ter também a energia em grande abundância, podendo ser-lhe útil a síntese de particulares tipos raros e preciosos de matéria. Ficará, além disso a importância científica de uma tal descoberta, rica de, quem sabe quais, conseqüentes descobertas afins, também utilíssimas. Tudo isto é logicamente possível.

Estamos num universo fechado, cuja forma mutável é dada por essa sua contração e de suas dimensões em direção involutiva, e dessa sua expansão e das suas dimensões, em direção evolutiva. O princípio cíclico universal é expresso do átomo aos sistemas planetários, aos ciclos telúricos, biológicos e históricos, em qualquer parte e sempre, para nos mostrar que ele está no sistema do todo. E se tudo funciona por circuito, por movimentos espaciais relativos que, em substância, não são deslocamentos, mas só a auto-elaboração do transformismo fenomênico, é lógico que também o universo e o espaço sejam curvos.

Se tudo isto não é imaginável, facilmente, pela nossa forma mental, que é o resultado de outras experiências biológicas, é certo que o porvir da ciência está em concepções abstratas do todo, insusceptíveis de representações concretas reduzíveis às idéias comuns sobre a realidade. Tendo sempre visto o espaço com a matéria, isto é, sempre conexo a um ponto de referência, não nos damos conta de que ele é para nós concebível só relativamente. A nossa experiência biológica não conhece o fenômeno da condensação de matéria partindo da energia e lhe escapa todo o processo centralizador involutivo, criador, que está nos antípodas daquele evolutivo, expansionista, que hoje se percorre. A vida, vinda depois, encontrou o espaço já formado e centralizado na matéria.

Naquela fase de concentração se formam ilhas de matéria, num universo que se tornava sempre menor. Mas, a um dado momento, o processo involutivo converteu-se no evolutivo. Aquelas ilhas incandescentes e irradiantes iniciaram o caminho oposto. Desde então os corpos que se haviam formado como matéria, em vez de precipitar-se um contra o outro (fase de contração) fogem, distanciando-se um do outro (fase de expansão) e universo e espaço hoje se dilatam. Desde então, realiza-se o gasto da matéria como tal, por irradiação Assim o sol perde peso em razão de 250 bilhões de toneladas por minuto, de modo que ele chegará a se consumir todo. Acrescente-se que essa radiação o repele, porque exerce uma pressão sobre a superfície em que cai. A radiação conduz massa consigo. Um feixe de luz contém massas que se movem com a velocidade da luz 300.000 km. por segundo. Assim uma placazinha pode ser vista oscilar sob golpe da radiação da luz como se fosse ferida por um projetil. Mas essas não são senão pressões mínimas. Tudo seria, ao contrário, repelido potentemente apenas se avizinhasse do sol, pela tremenda radiação que deverá vir dos 50 milhões de graus, que é a temperatura no seu centro.

A ciência admite que o nosso universo haja começado a se expandir somente há poucos milhares de milhões de anos, o que indica que ele está numa fase juvenil. Agora, quando alguns cientistas, verificando que em confronto com o total das estrelas há quantidade escassa de sistemas planetários e dado que a vida é possível, somente nesses, concluem que as condições dominantes são hostis à vida. Por tê-la tanto como um caso secundário fora do plano do universo, os cientistas não se dão conta do seguinte: é verdade que os espaços astronômicos, como os cúmulos estelares, são lugares onde a vida é impossível e que estes são predominantes; é verdade que, para a vida, não restam senão pouquíssimas ilhas em zonas temperadas em torno dos focos estelares, além das quais tudo morre imediatamente, é verdade que essas zonas privilegiadas constituem menos de um milionésimo ou mil milionésimos de todo o espaço. É verdade, ainda, que é bem raro o acidente de uma estrela, por atração de outras estrelas que passem perto, vir a entumecer levantando tais marés de matéria líquida de modo a formar planetas lançando-os no espaço; é verdade que é bem improvável que o sol seja a única estrela com planetas, todavia se admite que esse desenvolvimento seja extremamente raro; provavelmente, somente uma estrela em 100.000 tem um planeta; é verdade que essa passagem de uma estrela tão perto de outra de modo a produzir gêneses planetárias, com a progressiva expansão do cosmo, se torne sempre mais improvável; se tudo isto é verdade, se os planetas são tão excepcionais, não se pode, por isto, deduzir que a vida não seja o escopo da evolução, somente porque ela nos aparece hoje como um subproduto sem importância, mínimo diante do todo, como um descuidado acidente fora do plano geral, não seje um escopo da evolução.

Não. Considerado-se que a ciência julga que, até onde alcança, hoje, o mais potente telescópio, haja 75 milhões de universos semelhantes ao nosso. Em tão grande número deve bem existir um complexo de muitos milhões de estrelas com planetas, dos quais quem sabe quantos são habitáveis também para o nosso tipo de vida. Depois não é dito que, por vida, se deva entender somente a forma que ela tomou na terra e ninguém pode excluir a existência de outras tantas formas, de todo diversas da nossa, embora incorpóreas.
   
Não. O nosso universo é simplesmente jovem. A vida nele se encontra ainda, em grande parte, na fase matéria e energia. Mas ela deverá alcançar a fase biológica que se iniciou na terra, para se tornar depois psíquica e espiritual, para voltar, assim, à fase pensamento ou espírito como era na sua gênese, antes da descida involutiva, conclusões estas a que não se pode chegar senão tendo enquadrado o atual conhecimento científico no plano do todo. Podemos, enfim, acrescentar que, hoje, o homem não vê o universo atual, mas o da época em que a luz que lhe chega partiu e foi transmitida pelas fontes. É assim que lhe atribuímos uma estrutura diversa e mais jovem. em que tantos sistemas planetários não nasceram ainda.

Se o universo atual está em via de se gastar por radiação e, pois, por expansão no espaço, se os átomos que formam a matéria desaparecem, nessa sua forma, anulados, e a sua massa é representada pela massa das radiações emitidas em milhões de anos, nada se anula por isto. Já vemos, em nosso planeta, que as radiações solares se tornam vida e que a vida se torna consciência, verificamos que a ciência mais recente ainda mais profundamente confirma o físio-dínamo-psiquismo de A Grande Síntese. Compreende-se, assim, a criação partindo de um nada relativo e se vê o lógico e equilibrado duplo respiro do universo, antes em fase criadora e, depois, em inversa fase evolutiva. Podemos assim apanhar um pouco da maravilhosa técnica da criação, pela qual tudo pode nascer do pensamento de Deus e tudo deve a Ele retornar. A ciência atual confirma estas visões filosóficas. Depois de todas estas comprovações e controles científicos, racionais e analógicos, temos motivo para crer que as afirmações de A Grande Síntese correspondem à real estrutura do universo.

A ciência moderna mais progressiva se está orientando justamente em sentido monista, unitário, como foi sustentado em A Grande Síntese, embora essa afirmativa haja sido julgada errônea por alguém. Propriamente nesta direção aponta a última teoria de Einstein anunciada pela imprensa nos começos de 1950, com o nome de "teoria generalizada da gravitação" ou "teoria do campo unificado" com que se haveria encontrado o elo que faltava para a concepção unitária do universo. Haver-se-ia alcançado uma mais profunda realidade fundamental que, compreendendo-os, teria unificado os fenômenos da gravitação e do eletromagnetismo numa mesma lei superior universal. Dela resulta, entre eletricidade e gravitação, uma afinidade que as torna duas forças irmãs, derivadas de um único princípio unitário. A isto tudo se pode reduzir a energia radiante, da qual derivariam todos os fenômenos, todos reconduzíveis a uma única idêntica lei fundamental do universo. Ter-se-ia dado assim demonstração matemática da relação entre todas as forças cósmicas e, portanto, sua unidade.

Eis que aparece também para o olhar da ciência uma harmônica construção de leis cósmicas, o plano orgânico do universo em que se manifesta o pensamento de Deus. Ora, tudo isto dito 18 anos antes em A Grande Síntese, publicada antes, em revista, em 1932, foi afirmado não só em linhas gerais, de princípios unitários, mas ainda no particular da afinidade entre gravitação, eletricidade, luz etc., explicando a íntima natureza da força de gravitação como protoforma do universo dinâmico. Isto, de modo particular foi exposto no cap. XXXVIII de A Grande Síntese: "Gênese da gravitação" e precisamente no antepenúltimo parágrafo desse capítulo. Aí se especificou que os conceitos da teoria de Einstein, então conhecidos, deviam ser completados, como aconteceu, o que se devia fazer pelo cálculo, como se fez. Todo leitor pode verificar quanto acima ficou exposto.

Deixando de lado o problema psicológico de como a intuição filosófica haja conseguido captar os mesmos conceitos a que os processos racionais teriam, depois, conduzido os grandes matemáticos; percorrendo assim os tempos e antecipando-se às suas descobertas, e o problema de haver um pensamento não tanto no indivíduo quanto na vida, que o alcança quando houver uma sua maturação, uma nova verdade se revela somente por uma maturidade biológica que dá à vida uma transparência por sensibilização, o que é certo é que, hoje, a ciência, que não se discute, confirma em cheio o monismo, o conceito unitário que é a base de A Grande Síntese, e também nos pormenores que o provam.

Essa nossa corrida pelo mundo físico-matemático tem o escopo de desenvolver as suas conclusões científicas no campo filosófico, para levá-las até ao plano espiritual e moral, onde estão as grandes diretrizes da ascensão humana. Num universo unitário todas as verdades parciais e relativas do homem se devem fundir em uma só. Assistimos hoje a um grande acontecimento no pensamento humano: a própria ciência está contribuindo para a queda do materialismo e se dirige com os seus. próprios métodos para a descoberta de Deus. A ciência está para desembocar no espírito e com meios próprios; as suas velhas negações caem pela sua própria maturação. O espiritualismo, religioso ou leigo, parece não perceber que essas portas vêm a ser abertas pela própria velha inimiga, a ciência continua, ainda, por inércia, a verberar como negação do espirito, enquanto ela se prepara com os meios positivos que lhe são próprios a descobrir o novo mundo. Essa é a mais poderosa apologética das religiões, a da ciência que nos conduz a verificar uma consciência diretriz do universo e à descoberta da imanência de Deus.

No campo da própria ciência o universo dá sinais manifestos de um poder inteligente que o guia e controla, de um pensamento que tanto se assemelha ao que e a nossa mente, especialmente no campo das concepções matemáticas abstratas. A inteligência não é um fato isolado do homem, mas preenche todo o universo. Há um pensamento que rege tudo, com o qual temos afinidade de natureza e estamos conexos por compreensão. Se podemos compreender um pouco da estrutura do universo, assim ocorre somente por essa afinidade, enquanto também somos semelhantes àquele pensamento que o ordena e penetra em qualquer parte. Há pontes e comunicações a cada passo. O pensamento não é estranho à matéria, que é feita mais por conceitos do que por uma simples e aparente solidez sensória. O seu dualismo antagônico é superado no monismo universal e isto não porque a matéria e dissolva em um nada, mas porque ela se tornou a expressão de um pensamento com o qual está estreitamente conexa e sem o qual não pode existir. Eis que as velhas concepções materialistas são invertidas e a ciência tende a concordar com alguns postulados da fé, explicando-os em grande parte. O século passado disse a grande palavra: evolução. O nosso tempo diz: relatividade. O próximo futuro dirá: síntese.

Chegamos a compreender um espaço em função da matéria da qual é a dimensão, portanto um espaço finito como a matéria, mesmo sendo, porque curvo, ilimitado. Admitimos hoje que o que existe fisicamente não é senão uma propriedade do próprio espaço, uma distorção do "contínuo" espaço-tempo a quatro dimensões e que a gravitação é uma distorção levando à curvatura do "continuo". Concebemos um espaço que se dilata; continuamente a lei de probabilidade substitui a de causalidade. Este universo não tem mais representação material. Ele não se lhe adapta mais, hoje que vemos mais profundamente. Com o progredir do nosso conhecimento, começamos a compreendê-lo em uma sua mais verdadeira realidade, que é puro conceito. E a nossa visão que avança e com isto o universo se torna para nós sempre mais pensamento. A ciência viu nele primeiramente uma simples máquina, porque essa ciência era mecânica. Hoje ela vê a inteligência que está atrás da máquina. Assim o universo nos aparece quase consciente de si mesmo, como se uma parte conhecesse o que fazem as outras partes distantes, por ele age em relação harmônica. Os fenômenos não se podem interpretar senão como projeções dessa inteligência que tudo coliga e guia para fins precisos. Cada movimento tem a sua lógica, como se dependesse do pensamento de um matemático puro.

A sabedoria que está em cada coisa existente é tão profunda que nela a nossa pequena inteligência se sente confundir. Basta pensar no que cada um de nós é, simplesmente, como organismo físico. Este, para o homem, se calcula composto de 10 mil quatrilhões de átomos, em uma colônia orgânica de 60 trilhões de células, que têm tarefas diversas, com funções especializadas e sincronizadas em perfeita coordenação hierárquica. Pense-se que uma célula-ovo é constituída de 8.640 quatrilhões de átomos, recolhidos em 1.728 trilhões de moléculas e que o menor organismo vivente é constituído, pelo menos, por 4 trilhões de moléculas. Que vertiginosa visão é, pois, a simples vida física, sem se cogitar da psíquica e espiritual! Pense-se que o átomo lá é um microcosmo, um sistema solar planetário, mas do diâmetro de cerca de um décimo milionésimo de milímetro, enquanto o núcleo e os elétrons oscilam entre cem bilionésimos e um trimilionésimo de milímetro. Para imaginar essas medidas, pense-se que o número dos átomos contidos em um grama de matéria resulta de cifra da décima à vigésima quarta potência,  (1024) cifra vertiginosa que é igual à que exprime o número dos centímetros cúbicos de água contida em todos os oceanos. Somente um centímetro cúbico de hidrogênio contém 54 bilhões de átomos. E todo átomo é composto de um núcleo positivo em repouso ou rotativo sobre si mesmo, em torno do qual com uma velocidade de 30 km por segundo, se move uma miríade de elétrons de carga variada, de número diverso conforme cada único elemento. Ora, esse microcosmo não é senão o primeiro elemento do edifício molecular, que não é senão o primeiro do edifício celular, que não é senão o primeiro do edifício orgânico, que não é senão um caso único do edifício biológico. Sobre o plano físico, a mesma progressão hierarquicamente construtiva se estende do átomo à molécula, aos cristais ou cúmulos, às grandes estratificações geológicas, aos planetas, aos sistemas solares e galácticos, aos sistemas de sistemas galácticos.

A nossa mente se perde não só pela extraordinária grandeza ou pequenez, mas também, pela complexidade da organização que mantém em tão vastas e complexas estruturas a ordem mais precisa. Num centímetro cúbico do ar que respiramos cerca de 30 bilhões de moléculas se precipitam com velocidades fantásticas, chocando-se e mudando rumo cerca de 10 milhões de vezes num segundo. Respiramos esse mundo cinético e, assim formamos inúmeras outras combinações de movimentos, das quais deriva o nosso funcionamento orgânico e a nossa vida. Assim vemos tudo desfazer-se na velocíssima dança de infinitos elementos imponderáveis, não somente para a matéria, mas também para o nosso corpo. E este, na sua profunda realidade, torna-se um imponderável dirigido pelo pensamento, o mesmo que rege também a matéria. Então, esta e o espírito se podem reduzir à mesma substância, uma Lei, e o corpo, chamado a prisão do espírito, torna-se da mesma natureza deste. Pense-se que o aspecto físico da matéria, como também do nosso corpo, é devido simplesmente a vertiginoso movimento dos elementos dos átomos que o constituem, e que dessa forma se regem porque são guiados por um pensamento inteligente, embora escondido em nosso inconsciente; e então, que significa a presença dessa inteligência que, através do nosso inconsciente, nos plasma e nos mantém a vida, à nossa revelia, senão a imanência de Deus? A própria matéria não representaria senão uma das formas do pensamento, a que tudo se poderia reduzir, como substância universal, elemento último e fundamental, gerador de tudo. Quando essa substância toma a forma atômica, então ela se torna ponderável e chama-se matéria, quando toma a forma dinâmica se chama energia, quando a forma não é, nem atômica nem dinâmica, se chama pensamento Entre a matéria e o espírito não haveria então senão esta diferença, que a primeira é substância atômica (ponderável) e o segundo é substância não atômica (imponderável). Dado isto, não é absurdo o conceito aqui exposto de criação, entendida como gerada a partir de um nada relativo à fase criada, e como uma forma particular do pensamento de Deus.

Da compreensão dessa imanência de um pensamento diretivo do mundo fenomênico deriva a compreensão da técnica criadora que nos mostra como opera o pensamento de Deus. Tudo o que existe em forma de matéria é dado por laços no espaço vazio, melhor que por massas de partículas rígidas laços dados pelos desenvolvimentos cinéticos regulados e derivados de puro pensamento. Isto nos faz pensar que aquelas zonas de determinismo, que na nossa vida formam o que nela há de destino fatal, não são senão laços cinéticos formados como os conjuntos de ondas que constituem o elétron; não são senão concentração de forças, por nós operada com os nossos pensamentos e atos do passado e assim fixada à guisa de semente. Esta, como toda semente ou germe (que, também, é alguma coisa de semelhante) deve desenvolver o que nele foi concentrado, tudo restituindo na forma típica com a qual ficou concentrado, exatamente como, agora, o nosso universo, em fase evolutiva, restitui o que nele foi concentrado no estado de germe no precedente período involutivo-criador. Não se trata, talvez, de vários casos particulares, em que se aplica sempre o mesmo e único princípio?

Eis, assim, a possibilidade de imaginar e admitir uma criação, emanada do pensamento de Deus, partindo de um estado que, diante da matéria, de que será depois formado o criado, é o nada. "No princípio era o Verbo". O Verbo se faz ação e tudo deriva do dinamismo que dela nasce na forma de matéria, radiação congelada em ondas aprisionadas. Assim a criação procede da onda-pensamento, à onda dinâmica, até à transformação do sistema cinético no circuito fechado da matéria. Hoje a ciência já está trabalhando nesse sentido, começando daquela matéria-energia. Mas essa passagem deverá ser aberta ainda além, em fases superiores, e também em direção inversa. Então a ciência chegará a fazer a síntese da matéria, usando a energia. Depois da síntese dos conceitos, a síntese física. E, talvez, num dia mais longínquo, o homem, como mente feita à semelhança de Deus, poderá derivar a energia do seu pensamento e, dessa maneira, poderá realizar todo o percurso do caminho criador: espírito, energia, matéria. A atual técnica, em realização da desintegração atômica, se bem que situada no período oposto do ciclo, nos indica essas possibilidades. Ela representa a técnica evolutiva e não a criadora, isto é, a nossa atual de desenvolvimento partindo da concentração-matéria e não a fase involutiva criadora que vai para a dita concentração. Ao contrário, as materializações espiritistas, ectoplásmicas, são construções ideoplásticas que provam a possibilidade do ato criador psíquico-dinâmico-físico, também nos limites do campo humano Já vimos que no universo, esse ato diz respeito à fase de descida por emanação de Deus, ato que se equilibra, depois, na oposta fase de ascensão ou realização de cada ser em Deus.

Assim se compreende como o universo se torna cada vez mais explicável, quanto mais o reduzimos ao que é a sua origem e a sua essência, isto é, um conceito puro. Certamente ele é uma grande incógnita a ser interpretada e a sua representação é bem outra que a antropomórfica. A última realidade do universo é um conceito abstrato, sem possibilidade de uma figura, não redutível para nossas aparências sensórias. Toda redução nesse sentido é uma deformação, de modo que quanto mais a representação é antropomorficamente acessível, tanto mais ela se torna um desvio da realidade. Se pois quisermos fazer modelos para explicar o conteúdo dos conceitos abstratos e fórmulas matemáticas que exprimam o universo, poderemos fazê-lo, mas com nosso risco e perigo, porque sabemos que, assim, nos distanciamos e não nos acercamos da verdade. A última realidade não é suscetível de representação e quanto mais nos avizinhamos daquela realidade, tanto mais a sua representação se torna impossível. Toda imagem nos distancia mais do que nos conduz para perto do real, toda forma, ao invés de nos dar a idéia da essência das coisas, é apta a traí-la com aparências ilusórias. Isto demonstra que a última realidade é pensamento puro e que o absoluto é, para a mente humana de hoje, um inconcebível, do qual ela não pode obter senão aproximações sucessivas.

O fato é que somos relativos, inexoravelmente situados no relativo, isto é, contidos em dimensões particulares das quais não é fácil sair. Desse modo, não podemos formular um julgamento senão em relação a alguma coisa, em função de um ponto de referência. Se sairmos do relativo, este nos vem a faltar, e, com ele toda possibilidade de juízo. Uma vez que concluímos por confrontos entre quantidades e entre qualidades, não podemos proceder senão no âmbito das dimensões que nos são próprias e conhecidas, onde também o objetivo em exame é situado. Nesse âmbito, a nossa psique está fechada e, fora dele, não compreende, e, como instrumento de conhecimento, vem a ficar inadequado e falido. Agora, para conceber a substância das coisas, se trata justamente de sair desse âmbito, de abandonar os velhos para encontrar novos pontos de referência. É natural que a nossa mente fique impotente de todo até que, pouco a pouco, aprenda a individualizar e a conhecer os novos pontos de referência, hoje situados no inconcebível, transferindo-os assim ao seu concebível.

A concepção hoje alcançada da energia como uma abstração matemática: "a constante de integração de uma equação diferencial", significa haver tornado a subir o caminho criador, seguindo para a abstração. E é por essa via que mais podemos chegar perto da mais profunda realidade, o espirito, isto é, concebendo as coisas em forma sempre mais imaterial. A representação sensória nos conduz ao caso particular, enquanto somente a fórmula abstrata é universal, capaz de abarcar todos os casos particulares. Com isto parece que o real nos escape, porque ele está para nós no relativo e particular, que são o irreal, e não no absoluto e geral, que são o real. Mas tudo é relativo e para nós o irreal é real e o real é irreal. Assim, na abstração de uma fórmula matemática, não podemos saber o que é o objeto sob exame, com termos sensórios completos, mas só como ele se comporta. Vemos agir esse "quid" desconhecido que, na ação, se projeta em nosso conhecível e só assim podemos apreendê-lo como uma cognição de relação; isto porque, sendo relativo, ficamos no relativo. Sendo essa a nossa condição, o absoluto nos foge no inconcebível. Conquanto o nosso conhecimento possa progredir para o absoluto, o homem não pode conceber senão a sua projeção no próprio plano de conhecimento, isto é, uma representação a ele relativa. O antropomorfismo é um limite e o progresso consiste justamente em saber superá-lo. Por isto, a ciência moderna renuncia, por ora, à representação do real e pára naquela do seu comportamento, limitando-se a este derivado do absoluto.
   
Isto parece coincidir com o velho "ignorabimus"10 , ou seja constituir uma renúncia ao conhecimento. No entanto, esse é um progresso com que a ciência hoje chegou mais perto da realidade última, pois compreendeu que esta não é suscetível de representação; a ciência já não cai mais na ilusão dadas pelas representações antropomórficas, ilusões que, até ontem, ela tomara por realidade. Num terreno que parece renunciar a conhecer o real, estamos ao contrário, num mais sólido e mais verdadeiro, justamente porque quanto mais imaterial e abstrato é ele, tanto menos é suscetível de representação. Chegamos, assim, ao ponto de achar que se possa dar a essa formulação, de todo abstrato, do universo, aquele conteúdo em que cada um crê, pelo fato que se há compreendido que cada conteúdo de representação é um relativo e um irreal, uma pura interpretação ilusória diante da realidade. Isto significa havermos chegado racionalmente mais perto de Deus com o haver compreendido que Ele, na sua essência, é um incognoscível. Já dissemos que suas definições são reduções e mutilações. Desse modo, a ciência admite que os valores concretos das suas formulações abstratas possam ser diversos e aí está a sua nova universalidade. O real é tanto mais verdadeiro quanto é mais abstrato, distante do concreto, é princípio universal distante do particular. Conduziu-nos perto da realidade o fato de não dar-lhes mais uma representação ou pelo menos, se a damos, de não atribuir-lhe senão um valor relativo e fictício. Dessa maneira, do real se há co preendido, ao menos, isto: que as nossas representações não valem senão pelas necessidades do contingente, e que é erro dar-lhe um valor absoluto. Elas não podem servir para esse fim. É assim que o homem saiu do antropomorfismo e se acercou mais da realidade, compreendendo ao menos que esta já tem característica segura, isto é, de estar situada no atual super-concebível. É a primeira tentativa para começar a definir a realidade. Já se encontrou um primeiro atributo não imaginário. Com isto o homem compreendeu, pelo menos, que Deus, o absoluto, última realidade, não é redutível ao seu atual concebível. É importante haver já saído um pouco do velho inconcebível, enquanto, superando o antropomorfismo que tornara o homem medida das coisas, se desmantelou a ilusória representação que ele fazia do real.

Quanto aqui é exposto decerto é um sistema de compreensão mais complexo que os precedentes, e os sistemas, muitas vezes, encontram favor em  proporção da sua possibilidade de compreensão A facilidade de representação tem importância na divulgação da teoria. A liberalidade com a qual foram aceitas tantas explicações mais elementares do universo, foi obtida pela sua aceitação psicológica, isto é, facilidade de representação e compreensão por aderência à forma mental humana. A nossa psique se formou por vias sensórias que a tornam mais apta a entender o mundo relativo que a circunda, ainda que irreal, e não um mundo absoluto que ela nunca concebeu diretamente. Quando aquela mente é usada para essa finalidade tão distante, certo é que então se faz dela um uso bem diverso daquele para o qual nossa mente se formou para os fins imediatos da vida. Diante da investigação abstrata, a única mais aderente ao real, a psique formada para outros escopos, os do contingente, tende a se confundir e se torna inadequada. Acontece-lhe como ao rapaz que vai à escola, o qual, em geral, já possui, no instinto adquirido no passado, todas as astúcias e prepotências necessárias à luta pela vida e deve fazer um grande esforço para usar uma tal mente no trabalho lógico e abstrato da cultura. No rapaz, que é hábil sem esforço no primeiro trabalho, a vida repele a nova e diversa atividade para a qual não está acostumada e de que não cuida porque não é imediatamente útil. Mas a evolução consiste justamente nessas transformações.

Para enfrentar o problema do conhecimento devemos antes fazer as contas com o que somos e o que podemos. Hoje, finalmente, compreendemos que tanto mais nos acercamos do real, quanto mais nos distanciamos do imaginável; compreendemos que o verdadeiro está situado no inconcebível e que tanto mais chegamos perto dele quanto mais nos distanciamos do nosso normal concebível. Decerto que o sistema atual é mais difícil, mas ele demonstrou a capacidade de penetrar, muito mais a fundo, na natureza das coisas e de as saber explicar. As novas interpretações que fazemos da ignota realidade e que parecem mais capazes de harmonizar-se com ela, não são materiais, mas matemáticas Esta abstração vence, por potência explicativa, precisão e aderência aos fatos, as precedentes representações materiais. É certo que, também, esta é uma representação e não a última realidade, mas é uma aproximação maior do que as precedentes, uma interpretação mais vizinha do verdadeiro. Compreendeu-se que as coisas não estão mais como antes se acreditara, se bem que não se saiba ainda como verdadeiramente estão. Porém, a explicação em termos matemáticos resolve muito mais do que as precedentes representações mecânicas. A última realidade possui, sem dúvida, um significado que transcende a nossa atual capacidade de compreender. Porém é certo que se caminhou nessa compreensão e que hoje a velha está inadequada.

As ondas que representam um elétron na mecânica ondulatória, hoje se julga que são ondas de probabilidade, cuja intensidade em cada ponto dê a medida da probabilidade de que um elétron esteja naquele ponto. A nova representação é simbólica e se exprime somente em termos de probabilidade. Agora, quando falamos de ondas no espaço-tempo, formamos simples visualizações de uma fórmula matemática de natureza ondulatória, mas de todo abstrata. Assim o "contínuo" quadridimensional da teoria da relatividade não admite representação espaço-temporal. Temos visto, porém, que há dimensões superiores, e a primeira é a consciência, que está fora desse "contínuo". E já a ciência imagina que os fenômenos desse "contínuo" espaço-tempo são a projeção, a quatro dimensões, de uma realidade de mais de quatro dimensões. A ciência mesma caminha para a aceitação dos conceitos acima expostos acerca das dimensões superiores e para admissão de vários planos de existência, como há graus de evolução na matéria, na energia e na vida.

Se tudo isto para a ciência é chegar mais perto do real, para o filósofo é acercar-se do verdadeiro e, para o crente, de Deus. A ciência indica uma Natureza que parece estar muito versada nas matemáticas puras, entendendo com isto aquela matemática que é criação do pensamento puro, sem se contaminar com a observação. Agora, se é propriamente essa criação do pensamento puro a que mais nos faz avizinhar da íntima realidade das coisas, significa que essa realidade, isto é, a substância do universo, é afim do que no homem é pensamento do espírito. Se é com o espírito que nos avizinhamos da essência das coisas, quer dizer que essa essência é de caráter espiritual Eis a grande descoberta da ciência. Já não é mais materialista, mas espiritualista. A essa certeza chegou com os seus próprios meios. Com estes, hoje, a ciência moveu-se e mais se avizinhou da descoberta de Deus, de quem, assim, ela poderá racionalmente nos dar uma certa aproximação, que poderá, como a da fé, ser obrigada a representações antropomórficas para poder ser utilizada pelas massas.

A grande mudança está na orientação do pensamento científico. A verdade é hoje enfrentada, não mais com o simples método experimental, mas com os métodos da lógica pura, tipo Aristóteles, mas transferidos para o plano das matemáticas. Está, então, superado o ciclo do método experimental? Ou ele não é mais suficiente? Certo é que hoje se recorre com sucesso e se justificam também outros métodos. Hoje se admite acercar-se da realidade também com os meios do pensamento abstrato, não influenciado pelo mundo exterior, nada tirando da experiência. Eis-nos na via do método da intuição, já sustentado e explicado nestes escritos. Os fenômenos objetivos, que parecem tão certos, nos aparecem somente como uma projeção de um mundo que os gera, um mundo diverso que demonstra conhecer muito bem esses processos de pura matemática. A ciência chega, assim, a sentir atrás dos fenômenos, a presença de uma mente diretriz que, por certo, conhece muito bem as regras que os geram. Decerto que as matemáticas não chegam a descrever a natureza da última realidade, porém sabem estabelecer as relações que regulam as várias partes, o seu funcionamento, isto é, o pensamento que tudo rege e guia. E que mais é isto, senão o espírito, a Lei, Deus?

Há, pois, uma afinidade entre nosso espírito e esse espirito regulador do universo. Torna assim a valorizar-se o método dedutivo do passado. Entramos na era da síntese, em que o método indutivo e dedutivo coexistem e se fundem num plano conceptual superior: a intuição. Eles não são senão duas direções do mesmo pensamento. Pode-se caminhar num sentido ou em outro, porém, por vias opostas, sempre para o conhecimento da mesma realidade. A involução do passado as mantinha separadas e antagônicas, não as sabendo percorrer senão uma por vez (involução = separatismo). O homem novo do terceiro milênio delas fará uma perspectiva bifronte para a mesma realidade, com o método da intuição que conduz à síntese.

A última e mais profunda interpretação do universo nos diz que ele parece pré-ordenado pela mente de um matemático puro. E então devemos admitir que, se é essa matemática que nos conduz para a realidade do universo, nesta realidade deve haver aquela matemática, isto é, uma abstração, pura qualidade do espírito. E se esta realidade nos é revelada por graus, devemos admitir que ela já existe e tão vasta e completa que nos escapa no inconcebível, mas, nem por isto, menos real e perfeita em si mesma. E então podemos concluir que a descoberta do desconhecido não é senão o resultado de uma maturação do meio, psique humana, cuja compreensão é limitada e dada pelo grau da sua evolução. Em outros termos, o limite do conhecimento está somente na natureza humana e ele se desloca porque esta evolui; daí a progressão na conquista da verdade. De maneira que o homem  não descobre o universo, mas a si mesmo. Ele deve descobrir sempre novas expressões na sua linguagem, em lugar das precedentes que se tornam inadequadas, à medida que as suas capacidades intelectuais lhe revelam mais profundos aspectos do real. Por último, toda representação pode significar uma limitação ou deformação dele. Então, a verdade se avizinha sempre mais do inexprimível e é propriamente isto que nos diz da sua verdadeira natureza. E o homem, cansando na subida para sair do antropomorfismo, livra-se da ilusão só para se avizinhar do inexprimível. Cabe-lhe saber, na ascensão, exprimir o inexprimível, isto é, evoluir a sua psique para saber introduzir nela uma representação do real, hoje inimaginável. E assim o inconcebível é gradualmente conquistado no concebível.

A natureza não é antropomórfica. Começa-se a compreender hoje, que o homem está superando o seu velho ser. A realidade não pode absolutamente ser reduzida a esquemas antropomórficos. Ao contrário, ela mostra-se aderente a esquemas puramente matemáticos, pelos quais se deixa interpretar melhor. A realidade mais profunda está mais estreitamente ligada aos conceitos da matemática pura do que aos da biologia ou da mecânica, que permanecem mais exteriores. O universo fenomênico adquiriu um sentido muito mais claro e profundo quando ele foi visto com o olhar da matemática pura. Isto é lógico; porque quanto mais soubermos ser abstratos, tanto menos seremos materiais e antropomórficos, e tanto mais chegaremos perto da realidade, que é de natureza abstrata. Dado que a visão matemática é mais abstrata, espiritualmente mais elevada do que a mecanicista, é lógico que ela explique melhor as coisas. Dessa forma, o homem se acerca da compreensão da verdadeira natureza do real, desmaterializando o seu concebível, espiritualizando a sua psique, dando dessa maneira a escalada para o inconcebível. Assim a ciência, tornando-se sempre mais abstrata, caminha no conhecimento de uma realidade que, por sua vez se torna sempre mais abstrata, mas, com isto, mais verdadeira. Hoje só podemos dizer que para nós, lá onde está o absolutamente inconcebível, está o absolutamente verdadeiro.

Hodiernamente, quando a ciência chegou a esse grau de espiritualização, os modelos do passado mecanicismo são considerados mais um obstáculo que um auxilio para a compreensão do real, que está atrás dos fenômenos. Assim, a ciência moderna prefere os símbolos abstratos das equações matemáticas, o que nos limita a um conhecimento das relações que pelo menos nos diz como as coisas funcionam, embora não nos diga o que elas realmente são, o que virá depois. Com isto o modelo mecânico, a idéia adaptada à forma mental do velho cientista materialista, cai e prevalece uma ordem psicológica de todo diversa. Ela nasceu da verificação que a estrutura da matéria se rebela à visão concreta. Mas essas mudanças não são coisa nova, porque a forma mental muda em cada século com o seu progredir, não obstante ela tomar sempre uma posição axiomática e dogmática, pois que tudo está em função do subjetivismo, ainda que na investigação mais objetiva. Se a velha forma mental subjugada pela prevalência do método experimental, via tudo materialisticamente, a nova, ao contrário, vê espiritualisticamente. Hoje a concepção mecanicista-materialista, que não enxergava o real senão no concreto, está superada. Começando do alto das mentes que dirigem a cultura humana, haverá uma nova orientação a todo o pensamento moderno, e as massas que ainda revolvem no materialismo, pois que elas chegam sempre por último, amanhã seguirão também o seu novo caminho e formará uma civilização nova, a do espírito. A ilusão sensória e a filosofia materialista que dela decorria hoje estão desfeitas. E já foi dada a partida numa nova direção. O método objetivo-experimental que criou a ciência moderna, por esta mesma já foi superado e agora está em segundo plano. Em suma, se pede mais ao fenômeno o respectivo conhecimento, e o fenômeno não é tomado mais, como antes, como ponto principal, mas passa aos segundos planos, em posição subordinada.

Esta inversão, pela qual o real se tornou irreal e o irreal, real, renovará as diretrizes do pensamento moderno, diretrizes que dão a orientação ao próprio século. Os aspectos espirituais da vida não são mais considerados ilusórios, somente porque não são concretos. Eles assim se nos avizinham e se valorizam, entram a iluminar a nossa vida de cegos. O concreto tornou-se irreal e o espiritual, real. Assim, a nossa vida alcançou outras realidades, além dos velhos horizontes, com meios mais sutis do que as velhas vias sensórias. As portas da ciência se abrem hoje para o espírito, para cujas conquistas ela poderá ser uma grande aliada. Logo que a ciência começou a observar atentamente a realidade concreta, esta se desfez e pareceu que, o que se tomava por indiscutível solidez, não era senão um dos sinais sensórios que uma misteriosa, distante e íntima realidade nos transmitia. Então se compreendeu que aqueles sinais, qualquer forma que assumissem, eram somente uma expressão simbólica de alguma coisa de completamente diverso que estava atrás das cenas, uma representação do todo relativa, eram a expressão de uma realidade ignota, exprimível somente com o símbolo matemático "X".

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10 Ignoraremos. (N. do T.)

Os conceitos desenvolvidos no capitulo precedente, observando-se as últimas conclusões da ciência, nos permitem pôr em relação com a concepção central de A Grande Síntese o físio-dínamo-psiquismo. Escrevendo esse volume em 1932 (começando a publicação em janeiro de 1933), não tinha nenhum conhecimento das mencionadas teorias científicas, que somente agora examino para fins de controle, confrontando as conclusões com aquela visão do universo. De certo, naquele tempo elas eram ainda pouco divulgadas e para mim não teria sido fácil conhecê-las. Hoje a transformação da matéria em energia está realizada. Esse fenômeno da ciência permanece, porém, isolado e não enquadrado no funcionamento orgânico do universo, não está por isso orientado no seu verdadeiro significado filosófico, que o põe no primeiro entre os três graus da fase evolutiva do ser, à qual corresponde a fase involutiva inversa. Hoje a ciência demonstrou a passagem físico-dinâmica, mas a seguir poderá provar também as outras. A mais provável descoberta que a espera é do processo inverso, isto é, da transformação da energia em matéria. A ciência se colocará no caminho do processo criador, que representa o caminho inverso do nosso atual evolutivo, isto é, o processo involutivo espírito-energia-matéria, cujo resultado é a criação da forma concreta. O haver aqui enquadrado filosoficamente o problema, pode representar uma direção útil para orientar as pesquisas.

Crer hoje que amanhã a ciência chegará a descobrir e a poder usar o processo da assim chamada criação a partir do nada, não é mais absurdo, como o era há poucos anos atrás, crer que se pudesse anular a matéria para a transformar em energia. Esses processos já existem no universo, existe o progresso, lei de Deus; os problemas do conhecimento não estão fechados senão por barreiras relativas e superáveis, o espírito humano não é construído para ficar eternamente excluído do mistério, mas para o penetrar e saber usá-lo para o triunfo do bem. Deus estende os braços ao nosso contínuo desejo de ascensão.

Aqui não podemos, nem repetir, nem explicar as últimas teorias científicas no campo físico-matemático. Basta-nos presumir o conhecimento, sobretudo em suas conclusões. Basta-nos aceitar como provados os resultados alcançados, com os seus cálculos e experiências, pelos grandes físicos e matemáticos do nosso tempo, e deste, que é o seu ponto de chegada, fazer o nosso ponto de partida.

Eis o que lemos, por exemplo, em James Jean, em "The mysterious Universe" (1948); (....) "a matéria sólida se volatiza em radiação (....). Matéria e radiação constituem duas formas de onda e uma pode mudar-se na outra (....). Estamos bem perto da verdade, se da matéria e da radiação fazemos idéia como de duas espécies de ondas, uma que gira descrevendo círculos, e outra que segue em linha reta (....). Assim a matéria não seria senão uma espécie de radiação congelada. A tendência da física moderna é resolver todo o universo material em ondas e nada mais que ondas. Essas ondas são de duas espécies: ondas, por assim dizer, prisioneiras, que denominamos matéria, e ondas livres, que denominamos radiação ou luz"

Recordemos agora somente poucas linhas de A Grande Síntese, reenviando para esse volume o leitor que quiser aprofundar o argumento: "Para compreender bem a transmutação de matéria nas formas dinâmicas, é necessário ter bem presente a sua natureza cinética (....). A matéria é pura. energia. Na sua íntima estrutura atômica é um edifício de forças (....). A evolução é a exteriorização de um movimento que por involução se concentra e por evolução se expande (....). A espiral, o sistema atômico, portanto, .continua a se abrir até o ponto em que os elétrons não voltam mais a girar em torno do núcleo, e em que, quais cometas e não mais como satélites, se lançam nos espaços com trajetórias independentes (....) (cap. 46). Os elétrons lançados para fora do sistema planetário atômico, em desfazimento devido à abertura da espiral e ruptura do equilíbrio atrativo-repulsivo do sistema, conservam em sua nova trajetória ondulatória a recordação do movimento circular de origem (....) (cap. 48). As infinitas possibilidades concentradas num anterior processo involutivo se manifestam neste inverso e compensador movimento centrífugo evolutivo (....). Na profundeza está o movimento; quando ele muda de trajetória, então externamente à vossa percepção corresponde-lhe uma mudança de forma (cap. 52), as órbitas atômicas dos elétrons girando em volta do núcleo e abrindo-se para gerar a energia pela expulsão de elétrons (....) (cap. 53).

Estamos aqui, sem dúvida, entrando na técnica do processo criador, mas para poder trabalhar mais profundamente nele é porém necessário saber em que direção se opera. A hodierna desintegração atômica se dá em sentido evolutivo, que é a nossa fase de existência, o que é o oposto da fase precedente, da assim dita criação, que representa o inverso processo involutivo. Mas aqui a ciência passa para a filosofia, e, da primeira, não podemos pretender conclusões tão vastas.

Está, ao contrário, de pleno acordo com a ciência de hoje, A Grande Síntese quando afirmava que "ainda quando decompuserdes a matéria naquilo que vos parecer serem os últimos elementos, nunca vos encontrareis em face de uma partícula sólida, compacta, indivisível (....), nunca tendes aí um corpo, no sentido comum (....), assim na substância não existe matéria no sentido em que a compreendeis; apenas há movimento (.....) (cap. 46). Tínhamos já visto que pela ciência o elétron é concebido como um conjunto de ondas, pura concentração de energia ondulatória, localizável somente por diferença de freqüência diante do ambiente. Para a ciência mais recente, todo o problema da realidade se refere a formas de energia e esta é concebida como uma abstração matemática: "a constante de integração de uma equação diferencial". Eis que a ciência, por fim, não nos deixa senão um conceito absolutamente abstrato, alguma coisa que é mais pensamento que matéria ou energia.

*   *   *

Observemos agora o que nos diz a ciência quanto às dimensões do espaço-tempo, comparando com o que diz A Grande Síntese sobre o mesmo assunto. O último resultado pela teoria da relatividade de Einstein, é a concepção de um espaço quadridimensional em que as três dimensões do espaço estão soldadas com uma dimensão temporal. De modo que o universo é concebido como tendo uma estrutura quadridimensional, que é definida com o termo novo de "contínuo". Este conceito substitui hoje o anterior de éter, consistindo num espaço quadridimensional em que as três dimensões do espaço são conexas e fundidas no tempo, que age como quarta dimensão. Em outros termos, esse "contínuo" exprime uma realidade em que as três dimensões do espaço e a quarta do tempo entram como fatores absolutamente iguais na manifestação das leis cósmicas. Até agora a experiência tende a demonstrar que o universo funciona justamente nesse sentido e que esse é o seu sistema de medida, o que tende a provar que as leis naturais não isolam o tempo do espaço, o que confirma a referida teoria.

Concebendo os fenômenos em referência a esse "continuo" quadridimensional, vieram a ser explicados muitos deles que, antes, não eram encarados nem resolvidos. Assim não é mais absurdo que haja dois diferentes valores para as quantidades de energia em uma dada região do espaço, como não o é que existam dois tempos diferentes no espaço. Hoje no "continuo" espaço-tempo, um raio de luz não se representa mais como uma propagação de algo concreto e objetivo, através do espaço separadamente do tempo, como se fez até agora, mas se concebe como um fenômeno que se verifica num "continuo" quadridimensional, em que espaço e tempo não se podem separar. Então o tempo aparece como um elemento que tem a função de manter unidos os outros, isto é, o tempo seria a última dimensão que liga conjuntamente todas as outras do espaço tridimensional.

Assim, os princípios de Einstein explicam fenômenos que a famosa lei de gravitação de Newton não havia sequer imaginado, nem podia resolver. As próprias afirmações de Newton se deve dar hoje uma interpretação diversa. O efeito de uma massa de gravitação não é como pensou Newton, o de produzir uma “força”, mas o de produzir uma distorção do “contínuo” quadridimensional no seu interior. Um planeta que se move não é mais desviado do seu movimento retilíneo uniforme pelo ímpeto de uma força, mas pela curvatura de um "contínuo". É preciso imaginar antes um "contínuo" a quatro dimensões não distorcido, depois pensar nas suas distorções. Agora a combinada distorção do "contínuo" quadridimensional, produzida por toda a matéria do universo, tem por efeito, que o universo se torna a fechar sobre si mesmo, de modo que o espaço se torna "finito". Mas antes de nos envolvermos na concepção do espaço-curvo, resolvamos o problema do "contínuo" quadridimensional.

Partindo dessa conclusão matemática de Einstein continuemo-la no plano filosófico, enquadrando-a numa concepção universal de que aquela teoria não se ocupa. Façamos isto em relação aos vários sistemas tridimensionais do nosso universo, como foram expostos em 1932 em A Grande Síntese, quando, quem escreve, havia sentido somente por intuição, sem ainda haver aprofundado racionalmente esses problemas, nem conhecido a teoria de Einstein, se bem que percebesse o conhecimento dela. Em A Grande Síntese se disse: "Não tendes um tempo e um espaço em sentido absoluto, isto é, existentes por si mesmos (....), mas eles são relativos (....). Assim, cada fenômeno tem um seu tempo próprio (.....), invertem-se a física e a clássica mecânica newtoniana. (....) (cap. 34) Na realidade não encontrais senão um tempo e um espaço relativos, cujo valor não ultrapassa o sistema a que dizem respeito (....). Se o vosso universo é finito como vórtice sideral, o sistema dos universos e o sistema de sistemas de universos é infinito (....) (cap. 35). Como melhor veremos mais adiante, aqui damos à teoria da relatividade um valor universal, tanto para o tempo como para o espaço. Assim como toda coisa se move num espaço relativo ao ponto de referência, assim também todo fenômeno ou ser se move no seu tempo relativo ao ponto de referência

Resumamos agora como é concebida em A Grande Síntese (cap. 38): a sucessão das dimensões. Em nosso universo-trifásico (matéria, energia, espírito), a matéria se nos apresenta como volume, isto é, na sua terceira dimensão de espaço (linha, superfície, volume) completa. A matéria representa a evolução do ponto à linha, à superfície, ao volume. Mas se nela o desenvolvimento da dimensão espacial é completo, o da sucessiva e evolutivamente contígua dimensão que denominamos "conceptual", é nulo, isto é, eqüivale àquilo que no espaço é o ponto. Aqui nasce a quarta dimensão einsteiniana, o tempo, concebido porém como o primeiro termo de um novo sistema tridimensional, porque este é o esquema do universo. Se o tempo é antes dimensão linear, deste segundo sistema tridimensional que evolutivamente sucede ao sistema tridimensional espacial, a matéria com o seu espaço a três dimensões representa, diante desse novo sistema dito "conceptual", o ponto, um puro germe. Dada a estrutura cinética da mais profunda realidade, é sempre através de um novo movimento, em uma nova direção, que se passa para a dimensão superior. A nova direção do novo movimento do volume, ou espaço completo, é justamente hiperespacial, é no tempo. Por essa razão Einstein pôde ligar espaço e tempo. Ora o tempo é sempre linear e nada mais que linear. Não pode ser de outro modo. Ele exprime exatamente a natureza e comportamento da linha, em que o ponto a que na nova dimensão é reduzido o espaço completo até à sua terceira dimensão, se move e, com o seu movimento, forma a primeira dimensão, a linha do novo sistema. É natural que este evolua e se complete do mesmo modo do primeiro, isto é, com um movimento ou vir-a-ser em uma nova direção, e, progredindo por três etapas sucessivas, paralelas e semelhantes àquelas através das quais se maturou até à sua plenitude o precedente sistema tridimensional: linha, superfície, volume. Agora todo o transformismo fenomênico move-se nessa dimensão linear-tempo, a primeira do sistema e dela não pode sair. O volume é completo, mas as unidades espaciais da matéria não se podem mover na nova dimensão tempo senão um instante depois do outro. Desta sorte nasce o vir-a-ser, o transformismo fenomênico; assim, da matéria completa em que se conclui o ciclo involutivo criador, inicia-se o inverso ciclo evolutivo que retorna ao espírito, do qual tudo veio. Essa dimensão tempo começa a aparecer na evolução estequiogenética em que a matéria se transforma e se revela plenamente no fim da evolução física, lá onde esta alcança os corpos radioativos, quando a matéria começa a se transformar em energia e nasce o universo dinâmico. Gerado assim o tempo, ele permanece como dimensão da energia, como o espaço representa a dimensão própria da matéria (volume).

Passemos à dimensão sucessiva, a segunda do sistema conceptual, correspondente à superfície do sistema espacial precedente. Todo fenômeno vive somente o seu tornar-se, toda transmissão dinâmica vive o seu próprio curso, no "contínuo" espaço-tempo. Para evoluir na dimensão sucessiva é necessário acrescentar um movimento em uma nova direção, não mais fechada na mesma linha, mas colateral, isto é, a contemporaneidade de mais um vir-a-ser. Somente um fenômeno nos pode dar essa sensação: a consciência. Somente ela, que corresponde no sistema conceptual à superfície do sistema espacial, pode dominar um mais vir-a-ser (linhas) isto é o desenvolver de mais movimentos no tempo contemporaneamente. A consciência é a segunda dimensão conceptual.

Se a mente de Einstein pôde conceber a teoria da relatividade, é que ela justamente como consciência (superfície) podia melhor confrontar os diferentes vir-a-ser fenomênicos, dominando como superfície todas as linhas que podem passar ali, isto é, podendo observar todos os fenômenos. A sua teoria nasceu, exatamente, desses confrontos, possíveis pelo fato que se podiam contemplar, como somente uma dimensão superior pode permitir, os vários movimentos lineares na dimensão-tempo, fenômenos já completos no sistema tridimensional do espaço. Isto é, não o movimento de um só caso, mas os movimentos reciprocamente relacionados de mais casos, isto é, a contemporaneidade de mais vir-a-ser, domínio que somente a consciência pode alcançar, como somente a superfície o pode fazer diante da linha.

Qual será agora a sucessiva dimensão conceptual correspondente ao volume do sistema-espaço? A consciência comum é racional, analítica, finita, relativa. Ela representa somente uma primeira fase da superação do devenir linear, com a contemporaneidade de mais vir-a-ser, mas não além. Ela é filha da observação, isto é, aderente aos fatos porque não está ainda fora do plano onde se movem as várias linhas. Assim, para alcançar o princípio geral diretivo, ela deve percorrer infinitos casos particulares e não atinge senão sínteses parciais, e cansativamente, por tentativas. Ela se ressente de sua posição periférica, aderente ao concreto. Seja indutivamente, seja dedutivamente, ela concebe sempre por sucessão, no vir-a-ser e no tempo. Ela é superfície, isto é, uma impotência diante do volume, a menos que intervenha um movimento numa nova direção. Eis como isto acontece. A consciência humana não é linear, isto é, limitada a si mesma ou a um só fenômeno, mas pode mover-se em todas as linhas da superfície. É necessário agora elevar a perpendicular sobre o plano para formar o volume e isto é representado pela superconsciência ou intuição, uma faculdade que hoje poucos possuem, mas para a qual amanhã a evolução biológica levará o homem. Enquanto a consciência racional comum somente por multiplicação de análises pode alcançar alguma síntese particular, a intuição, como terceira dimensão conceptual, volumétrica, concebe naturalmente, não mais por análises, mas por síntese, e se move como num elemento seu próprio, no absoluto e no infinito. A sua posição no universo é mais central, mais distante do concreto e mais perto do abstrato, dos princípios diretivos, do absoluto. Ela não percebe mais analiticamente, em sucessão, por concatenação racional, como com o método, seja indutivo, seja dedutivo, no tornar-se do tempo, mas concebe intuitivamente, instantaneamente, fora do tempo, por síntese. A razão permanece então como uma impotência diante dos clarões conceptuais da visão. Então não há mais a nossa ciência de relações, mas uma ciência de substância, a única que poderá fazer-nos compreender a profunda e última realidade das coisas, o absoluto, inatingível de outro modo com a razão. Assim também o segundo sistema tridimensional é completo. Aqui começa, para o homem atual, o inconcebível, pelo que para ele tudo desaparece em dimensões superiores.

Dessa maneira, o sistema tridimensional conceptual que, na matéria, já é tridimensional espacialmente, não tem dimensão (o ponto); depois, no campo do transformismo fenomênico (o acordar dinâmico) ele alcança a primeira dimensão (linha) e no campo da vida (consciência) a segunda dimensão (superfície); desse modo, o sistema conceptual, no campo abstrato do espírito (intuição) realiza a sua terceira dimensão (volume). Assim como a superfície absorve a linha (tornar-se, tempo) e a consciência absorve o tempo e o domina, assim a intuição domina a análise e a razão, com os seus lampejos sintéticos. Vemos a ciência se tornar dessa forma sempre mais abstrata, o que deve acontecer se se quiser se avizinhar sempre mais da realidade profunda da essência das coisas. Somente assim enquadrado é possível compreender o significado e o porte filosófico das conclusões matemáticas de Einstein.

Observemos, agora, que desenvolvimentos filosóficos se podem dar à sua teoria de relatividade. Vimos, há pouco, que o espaço é a dimensão da matéria. Como esta, por desintegração atômica, se pode modificar gerando a energia (implícita em todo transformismo fenomênico), assim a sua dimensão-espaço pode ser (em direção evolutiva) o elemento genético (ponto   não dimensão) do tempo (linha   primeira dimensão conceptual). Daqui a logicidade da teoria de Einstein que viu espaço e tempo estreitamente conexos, correspondendo a uma realidade estrutural trifásica do universo, conseguindo-se hoje explicar fenômenos e problemas antes sem solução. Mas não basta. Talvez um ulterior progresso das matemáticas será dado pela introdução nas suas equações também da dimensão-consciência. Isto poderá parecer uma linguagem estranha, pois que nos avizinhamos ainda mais do inconcebível e faltam aqui as palavras para exprimir esses conceitos. Trata-se de continuar o caminho já empreendido pelas matemáticas, caminho de progressivas abstrações, sempre menos suscetíveis de representação concreta. Mas é lógico que quanto mais se avança para o real, tanto menos ela seja possível. É provável que, para explicar outros fenômenos e resolver outros problemas, para compreender mais a fundo o universo na sua íntima realidade, será necessário chegar à concepção de um "contínuo" a cinco dimensões, em que fique fundida, também a que hoje, por falta de outros termos, chamamos consciência, não somente um "continuo" espaço-tempo, mas um "contínuo" espaço-tempo-consciência (3.ª, 4.ª, 5ª dimensões). Trata-se de introduzir em nossas equações um novo elemento, exprimindo a dimensão consciência, fazendo-o entrar no conceito do "contínuo", de modo a conceber as relações que ligam não somente espaço e tempo, mas a estes, também a consciência. Trata-se em suma de continuar a teoria de Einstein em mais altas dimensões, de dilatar ainda o conceito de relatividade, chegando assim a uma mais vasta relatividade universal, que, desse modo, viria a ser por ora estendida da 3.ª e 4.ª até à 5ª dimensão. É lógico, de mais a mais, que, na estrutura do universo, que para nós está situado no relativo, tudo deva aparecer na forma de relatividade, isto é, em função de um ponto de referência, do qual tudo depende e isto em todo campo, até no moral.

Poderá parecer insensato essa continuação dos conceitos das matemáticas, levando-os a contato com elementos que parecem de natureza diversa. Entretanto, num universo unitário, todos os fenômenos, também os aparentemente distanciadíssimos, devem ser conexos e podem ser concebidos como contíguos. Sendo intercomunicantes, eles são ligados em conjunto por esse monismo que tudo rege compacto, tudo reconduzindo, em todo ponto e instante, à unidade. Esta é a lógica do esquema, conforme o qual é constituído o nosso universo. E nenhuma coisa, nem mesmo as matemáticas, que vão indagando o absoluto, podem fugir dessa lógica. De modo que desenvolvendo ainda os precedentes conceitos, pode-se concluir que o "contínuo" do absoluto, o que coliga todos os fenômenos do universo, de toda ordem, é um "contínuo" de infinitas dimensões e, para um determinado universo, um "continuo" que compreende todas as suas dimensões Dele deriva um conceito de relatividade, pelo qual todo o valor de qualquer natureza depende, para sua  avaliação e determinação, do ponto de referência, isto é, do plano de existência ou grau evolutivo de onde a observação é feita. Eis como logicamente se pôde levar a teoria da relatividade até o campo espiritual e moral e também aqui falar de valores relativos, determináveis somente em função do próprio ponto de referência.

Como se vê, hoje o mundo se prepara para um modo todo novo de conceber o universo. Modo muito estranho para a nossa velha forma mental e, no entanto, só ele nos permitirá resolver alguns problemas que de outro modo permanecem insolúveis. Na matemática é inaudita a concepção que se deva introduzir nas suas equações como elemento de cálculo também o fator espiritual, pelo que não só os sentidos, mas ainda a psique e a orientação conceptual do matemático devem ser avaliados. Em outros termos, o próprio matemático deve colocar-se e entrar como elemento determinante nas suas equações. É verdade que a matemática não é uma opinião, o que significa que ela é a conseqüência de uma racionalidade absoluta e não relativa à mente que raciocina. Todavia, quanto mais se sabe matemática, tanto mais se faz filosofia, assim, quanto mais se sabe, tanto mais ela vem a depender de toda a orientação intelectual do matemático que a usa.

O novo pensador de hoje, pela necessidade de caminhar ainda, deve fatalmente encontrar-se com a explosão das velhas formas mentais, sendo o momento psicológico atual no progresso do pensamento humano particularmente crítico. Herdamos, por exemplo, por concepção atávica, representações de espaço e tempo que hoje se começa a perceber que não mais correspondem à realidade. Esses conceitos, como a geometria euclidiana, foram uma grande conquista do mundo grego, e nós os fizemos nossos com um sentido de absoluto. Agora se percebe que eles não foram senão uma interpretação, não falsa, mas incompleta, não absoluta, mas relativa, não definitiva, mas transitória, uma interpretação que pode ser superada. A nova visão caminha em um mundo sempre mais abstrato. Se é lógico que assim seja, já que a ascensão vai da matéria ao espírito, todavia, disto resulta para a nossa forma mental habitual uma crescente dificuldade de visualização conceptual. Em outros termos não conseguimos mais transportar as mais transportar as mais profundas realidades alcançadas para o mundo das nossas representações sensórias comuns, de modo que as mais profundas realidades de que hoje nos acercamos, permanecem para nós inimagináveis, pelo menos até que aprendamos melhor a senti-las. Assim dar-se-á agora com o conceito de espaço finito que desenvolvemos. Ele nos foge porque, além do espaço, não vemos senão espaço e, com os conceitos habituais, um nada do espaço não o sabemos conceber. Para compreender o espaço-curvo e finito é necessário mudar o nosso modo de imaginar o espaço, como veremos, numa forma curva, pelo que com o contínuo retorno sobre si mesmo se pode conciliar o que até hoje ficou inconciliável: o finito e o infinito.

Hoje, na ascensão para o abstrato, a física se torna sempre mais matemática e a matemática, filosofia. Se, no último vértice da racionalidade, vemos aparecer também na matemática o irracional super-racional, é evidente que andamos precisamente para aquela 3.ª dimensão conceptual volumétrica, que denominamos intuição e que se move, como em seu elemento natural, no infinito. Somente ela poderá dar a possibilidade da visualização conceptual do abstrato que está evolutivamente mais no alto e que hoje, visto da inferior dimensão da consciência normal, representa um inimaginável. Na grande aventura do espírito, explorador das zonas virgens da mais alta evolução, a racionalidade representa um método velho, estabilizado e seguro, porque experimentado. Mas ele é limitado e diante de alguns novos problemas, é impotente. A experiência intuitiva é um processo novo, não comprovado, não estabilizado, com todos os perigos que dele derivam. Ele está ainda inseguro, porque em formação, e, no entanto, lhe pertence o porvir, porque será o único meio para avançar, com a solução de problemas novos, explorando o inexplorado.

O homem inicia hoje um grande colóquio com esse universo que, em qualquer nível, sempre mais se demonstra pensante. Não pode haver verdadeira compreensão senão imergindo-se na profunda realidade da coisa que se examina, senão estabelecendo uma sintonia no espírito, entre o Eu pensante humano e o eu pensante que está em todo ser ou fenômeno. Agora, essa forma de compreensão, não por observação, como no velho método exterior racional (superfície), mas por sintonização, como com o novo método da intuição (volume), é a única que nos poderá abrir as portas do infinito e o acesso à solução de novos mistérios. Não se poderá chegar até lá senão por maturação evolutiva daquele elemento que dissemos ser preciso introduzir nas equações da nova matemática, dado pela natureza psíquica do observador. Em outros termos, a solução de tantos novos problemas não será alcançável senão por maturação biológica do instrumento humano. Hoje não é mais a inteligência humana emergente no universo que o observa de alto a baixo, mas é ela que começa a se sentir sempre mais pequena diante de um universo que, sempre mais, demonstra saber pensar também sem ela e sempre mais profundamente do que ela. Quem verdadeiramente sabe, não é o homem, mas aquele oceano de pensamento de onde o homem capta o que lhe é possível. O pensamento e fenômeno extra-humano, cósmico, é um pensamento universal em que se acha contido também o homem. De modo que uma descoberta, a solução de um enigma cientifico, que de fato verificamos se operarem contemporaneamente em diversas mentes que não se conhecem, é mais um problema de captação que de investigação racional, e o maior cientista será aquele cuja mente sabe oscilar na faixa da freqüência de onda mais elevada.

Cremos, havê-lo repetido sob todo ponto de vista, ter tornado claro o conceito fundamental em que se baseiam estes escritos. A crise moderna não está situada fora do homem, de modo que possa ser solucionada especulativamente, mas está situada no homem e não é resolúvel senão biologicamente. Não se trata hoje de crise de um sistema em favor de outro, mas de crise de evolução, pela qual se deve mudar a estrutura cerebral do homem e com isto a sua natureza espiritual e a sua forma mental. Trata-se de uma crise de encarceramento nas velhas formas que não podem ser suportadas, e de explosões fora delas, de transposição de limites. A crise é dada pela maceração do ser empenhado na metamorfose que já observamos e que o deve conduzir para formas de vida superiores. A autosuperaçáo, que está no instinto humano, não deve ser entendida como uma multiplicação do próprio Eu, como ele hoje é e como hoje se crê. Essa concepção hodierna é errada completamente. Na concepção materialista, Lúcifer subverteu o mundo. É preciso subverter Lúcifer, isto é, inverter o materialismo cego, abstrato e negativo de hoje, para o espiritualismo iluminado, concreto e positivo de amanhã. O homem hoje deve compreender que o universo não é acaso como ele acredita, um caos do qual ele deve tornar-se senhor, mas é Lei, a antítese do acaso, uma lei que já sabe tudo e tudo faz, diante da qual não há comando, mas compreensão e aplicação. Conquanto nos escapem as equações, é certo que também em nosso contingente vivemos em condições matemáticas. O universal ressoar analógico em todo campo nos fala da unidade dos esquemas de funcionamento. A medida, recorrente em todas as periodicidades, exprime um ritmo de natureza matemática. Há uma lei em todo campo; é isto que o homem deve compreender Se ficarmos fora da lei, o fenômeno não mais se verifica. Mas sabemos que, se seguimos a lei, o fenômeno se deve verificar (por exemplo, a síntese química). Nessa lei, o homem bem pouco pode mandar, conquistar, impor, como hoje pretenderia. A sua melhor posição é, ao contrário, obedecer depois de haver compreendido. O universo não é matéria, como ele julga ser, mas é um pensamento que tudo rege e de que tudo depende. O pensamento do homem não é senão um momento infinitesimal deste todo pensante. Não resta a este outra coisa senão enquadrar-se nesse pensamento, muito maior do que ele, harmonizar-se com ele e realizá-lo.

A grande moral da vida, posta aqui como alicerce destes escritos, é que a nova posição do homem civilizado dos futuros milênios não pode ser senão a do inteligente colaborador de Deus na obra da Sua criação.




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