NOVEMBRO


Adeus, bosque solitário, que tanto amei.

Como é amargo teu hálito nesta tarde, enquanto te olho dizendo adeus

O inverno te cinge no seu sono, a voz queixosa da chuva lenta docemente te adormece.

Repousa entre as névoas o vento, repousa no silêncio a grande voz da Vida, no abandono lento das folhas mortas repousa a expressão de ser das árvores.

Triste e doce mês de novembro, no qual tudo morre lentamente por cansaço, dá-me o teu repouso.

Caminha, caminha minha alma sem parar. Donde vens, para onde vais, na eternidade, oh! alma filha do mistério? Anda, anda! Quão longe está a meta no infinito!

Quanta paz, oh! bosque, neste teu recolher em silêncio, nesta tua obediência as leis da vida, nesta tua tranqüila expectativa da ressurreição da primavera

Como este sentido de morte tranqüila se harmoniza suavemente em ti, nas cores esmaecidas, nos mínimos sons, nas calmas profundas!

Qualquer coisa se apagou no Sol, no céu, no ar; o frêmito da vida acalma-se em vagarosa sonolência. Algo se extingue em mim como um longuíssimo lamento, uma dor se desalenta porque é a dor do mundo, um pranto que é o pranto da vida.

Observo e relembro.

A festa do verão, os divinos colóquios com a alma misteriosa da natureza, os êxtases dos silenciosos arcanos e a solene quietude na qual repousa o turbilhão do tempo. Na voz das coisas mais humildes, ouvia tremer o mistério do infinito

E tu me olhavas, doce criatura da qual o bosque é feito, escutando comigo a longa sinfonia dos ocasos. E a sinfonia se desenvolvia suave, de luz em luz, até desaparecer o último esplendor nas trevas, qual uma voz que morre no silêncio.

A terra em paz contava-me calmamente, à luz da tarde que se esvai, do sustar da luta, do repouso da vida exausta e como o dia, velho ao anoitecer, era mais sábio por tê-la vivido.

Adeus, bosque solitário, pensativo como eu; adeus, caminho que vai para o ocaso; adeus, árvores amigas que tanto amei.

Agora o entardecer é frio e lívido; o teu perfume, oh! terra, tem um sabor de pranto.

O teu respirar esgotado, que eu sinto nas mãos, parece que me responde tristemente: adeus!

O inverno já te abala com um arrepio de frio. O uivo do vento sumir-se-á em teu meio, em longas ululações, sibilando na tenebrosa tempestade da noite.

Pobre arvore amiga, adeus! Sofrendo, irei para outras plagas levando a tua lembrança querida; do vento receberei as tuas notícias, para ti confiarei ao vento as minhas.

O vento me trará da primavera distante a carícia das novas frondes; desfolhá-las-ei com o meu sopro para que a carícia te enlace lá longe.

Adeus!

O bosque responde-me: Paz!


O SINO DOS MORTOS


Soa melancolicamente um sino ao entardecer. É a voz dos ciprestes e dos túmulos, um som triste de pranto, um lamento que se perde ao longe pelas campinas e, entre as folhagens mortas, plangentemente morre.

O ar repousa. A neve inerte se condensa em gotas de ramo em ramo. Existe neste entardecer uma sensação de grande abatimento na vida e a terra esta estranhamente absorta. Parece que se recolhe para meditar sob o manto da neve sempre igual.

No silêncio imenso não escuto senão o pulsar do meu pensamento que desce profundamente, de região, em região para despertar não sei onde, sobre o limiar do mistério.

Olho dentro da terra e parece-me desejosa de oferecer-me o amplexo que tantas vezes lhe pedi com os braços estendidos, chamando-me para repousar entre os seus torrões.

Amei tanto as suas belezas, penetrei tanto em seus segredos, vivi tanto no misterioso palpitar do sua vida, trocando amores, como almas amigas.

Uma tristeza comum nos domina e nos aproxima neste entardecer.

E como tu, oh! terra, te demoras nesta tepidez outonal, quase retrocedendo para recordar o verão, e tão afável e melancólica és nesta tua recordação; assim também eu me demoro no meu outono, e melancólico e afável volto-me sem magoa a recordar a vida.

Dá-me o abraço, oh! terra, que tantas vezes pedi para ter repouso.

E parece que a terra me olhou e me escutou, abrindo-me o seu seio. Entrego-te o meu corpo. O drama da vida esta findo. O que aconteceu ao convulso turbilhão das paixões, às tormentosas tempestades do pensamento? Será tudo disperso, como folhas ao vento, o tremendo trabalho de uma vida?
Tudo esta acabado. Em lenta paz o corpo se dissolve.

Repousa a sua vida, adormecida em longa sonolência.

E as estações passarão, e a vida se transformará em corpos, docemente golpeada, através dos torrões, ora de um calafrio de gelo, ora de uma igual umidade de chuva, ora de uma tepidez das tardes ensolaradas.

Não morrera; e todavia, sentindo-se mudar, cantará nela as grandes notas de cada sensação. Apertada no amplexo tenaz da terra, nela mergulhara vibrando, fundindo-se na sua alma potente.

Daquela minha vida, que se dá, os seus braços subterrâneos sustentarão as grandes arvores amigas, tateando no escuro para sorver vida; e o seu grande espírito pensativo exigirá sob a terra aquilo que da terra o corpo tomou e deve restituir ao ciclo das coisas.
   
E surgirá lenta pelos braços subterrâneos a força da minha vida, retomada as árvores amigas, para levá-la ao Sol, onde reviva lá em cima.

A morte ressuscita.

Toma. Os meus despojos dou-te sem mágoa. Retoma, ser irmão, tu que não conheces outra vida a não ser esta, aquilo que me deste por um dia, para a minha missão. A minha é outra vida. A minha alma, renascida na sua dor, desejosa de fugir da crisálida, sonha com os espaços imensos de uma vida mais vasta.

Distante, em outras plagas que tu não conheces, eu aporto.

O túmulo é a minha ressurreição.

Soa sempre lá em baixo o sino dos mortos, não mais como lamento que morre entre as folhas mortas. É hosana da vida que ressurge.

Já sorriem no alto, para mim, as estrelas na doce e suave luz matutina. Vejo um outro mundo, não mais de formas que vão lançadas no turbilhão. Estas seguem como um canto imenso, equilibrando-se em ciclos alternados de vida e morte, avançando para o bem e para a felicidade; estas seguem, criando mesmo na dor uma alegria maior, contida e construída numa única força: amor.


RESSURREIÇÃO


Ressuscita, alma, a tua dor está vencida.

Sorriem distantes as árvores na doce primavera, sorri na sua liberdade o meu espírito ressurto como a vida ressuscita dos despojos mortos do inverno.

Morta entre as coisas mortas esta a tua dor lá embaixo, inútil utensílio atirado ao longe, nas plagas desertas de uma triste vida. Mas, o seu fruto está aqui e a alma o vê: trabalho, criação e glória.

No infinito, o universo canta: ressuscita, a tua dor esta vencida.

Numa nuvem de espíritos em hosanas eu vejo resplandecer Cristo.

A sua cruz é luz, a dor é redenção. Pelo Calvário elevamo-nos ao Céu, pela Cruz a Deus.

Ressuscita. Aquela dor inimiga é agora a tua força e a tua grandeza. O espírito a amava como suave amiga sentindo a sua libertação. A mesma lei que te oprimia agora te salva e te eleva. A meta esta atingida e o mal cai, instrumento do bem; a pequena desordem temporária é reabsorta na imensa ordem suprema.

Triste e longo é o caminho de lagrima e sangue; mas, superada a prova, o destino atinge a meta.

A dor que tanto amaste com teu olhar voltado ao Cristo não é negação e treva, mas criação e luz. A cruz não é uma condenação da vida, mas é sua maior força; não é punição ou vingança, mas e uma festa da alma e uma bênção de Deus.

Vejo no alto o resplandecer do CRISTO.

Um raio me atinge, uma beatitude me domina e em êxtase eu grito:

"Senhor, agradeço-te por isto que é a maior maravilha da vida; que a minha dor seja a tua bênção".




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