No silêncio da noite imensa eu escuto o cântico de minha alma: um cântico que vem de muito longe e traz Consigo o sabor do infinito.

As coisas dormem e a voz canta.

Estou desperto e escuto; parece que a noite escuta comigo.

O mistério que está em mim é o mistério das coisas: dois infinitos olham-se, sentem-se e compreendem-se.

Lá embaixo, pelas margens distantes, além da vida, o canto responde, despertam-se as sombras e todos os seres, das profundezas, estendem-me os braços: "Não temas a dor, não temas a morte, a vida é um hino que jamais tem fim"

Observo-os; e perdôo à sarça a inocente ferocidade de seus espinhos, à fera sua garra, à dor sua investida, ao destino seu assédio, ao homem sua ofensa inconsciente.

"Perdoa e ama", diz o meu cântico.

E eis que ele apresenta uma estranha magia: todos os seres me olham fascinados e cai o espinho, a garra, a ofensa.

E devagar, devagar, ignaros e cheios de espanto, a magia os vence e comigo, lentamente, recomeçam o cântico; a harmonia se dilata, difunde-se e ressoa em todo o Criado.

Sobre cada espinho nasceu uma rosa, sobre cada dor uma alegria, sobre cada ofensa uma carícia de perdão.

Abro meus braços ao infinito e falanges de seres me estendem seus braços.

"Canta, canta",  — falam-me — "cantor do infinito; nós te escutamos. O teu cântico é a grande Lei, é a grande festa da vida. O teu cântico é luz da qual o ódio e a dor fogem. Canta, canta, cantor do infinito".

E eu canto.

Meu corpo está cansado e eu canto; meu corpo sofre e eu canto; meu corpo morre.... e eu canto.




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