A NOITE

Condensam-se sobre a terra vapores estranhos, subindo levemente como uma maré. A Lua branca resplandece no céu, criando-nos fantasias.

Do alto de Assis observo a noite — olho com os olhos profundos da alma — olho as estrelas vivas e o seu frêmito puro proporciona-me grande nostalgia.

Vejo a Terra adormecida embaixo; parece também cheia de pureza na noite longa.

Esta inteiramente envolta em diáfanos véus e parece que repousa inocente como na aurora da vida. Parece que aguarda ainda a sua criação; parece que no afluxo ascendente dos vapores estranhos dormem ainda as formas dos seres e tudo se recolhe, quase tremendo, num silêncio sacro, para venerar o grande mistério da vida nascitura.

Distante, na névoa, perdem-se os perfis das coisas e ondulam como formas que lentamente saem do nada.

Parece que vagueia no ar uma até então indecisa forma de existir e, na incerteza do ser ou não ser, afigura-se-nos que as coisas tentam exteriorizar-se.

Sob a luz suave da Lua estranhos fantasmas endireitam a fronte das névoas, e depois se dissolvem, aflitos. Formas que se vão.

Formas que se vão, em longa fila, procurando a vida. Nasceram e a evolução, num relance, pôs o dilema e a morte; a evolução acossa sem dar trégua, sempre para mais alto.

Em paz, as estrelas do céu observam o grande apocalipse e sorriem tranqüilas, sem se admirarem, porque, para elas, o espetáculo é velho, tantas vezes visto e revisto.

A eternidade não se perturba mais.

A  AURORA


Aproxima-se o amanhecer. Tênues luzes tremem no oriente enquanto no horizonte oposto desce lentamente a Lua vencida pelo dia nascente. As estrelas puríssimas ainda observam do alto e possuem a cor do céu. Das trevas emergem os coloridos como uma vez o arco-íris se tingiu na aurora da luz.

Desperta a vida lá embaixo na planície extensa e invade-me imensa ternura pelo homem e por seus padecimentos.

Saio de uma noite insone e o amanhecer surpreende-me ainda desperto e decidido a perseguir a idéia.

A meditação profunda não tem a noção de tempo e é intensa como uma dor.

Oh! a vigília do pensamento Benditas sois vós, desejaria gritar, almas rudes, mudas ao misterioso encanto da terra e do céu, benditas porque podeis viver sem saber e sem perguntar.

O    mistério me persegue e não me dá trégua.
   
O que é, no infinito, este meu espírito que não tem paz? Para onde me impele o turbilhão dos séculos? Para onde me leva, para onde nos conduz, esta nunca saciada vontade de viver? Em noite de insônia, num turbilhão, vi, cheio de espanto, a esfinge revelada olhando-me suavemente no rosto para apontar o cume distante

Destruir-me-á o corpo, não importa, mas morrerei contente porque conquistei uma vida ainda maior.

Por que deverão ser extintas as grandes forças biológicas que em milhões de anos plasmaram a forma da vida material?

Não. A evolução sempre surge de baixo e sempre avança em direção às mais altas formas, em movimento incessante; não pode parar e então prossegue em nível mais elevado, o nível humano da psique.

Também em mim a evolução pôs o dilema do ser ou não ser, prosseguir ou findar?

Procurei compreendê-lo e o misterioso turbilhonar dos séculos começou a fermentar dentro do meu espírito.

O meu passado elevava-se como ondas, e surgiam rápidas as lutas e as provas superadas; por fim, eu estava mudado e maduro para a grande revelação.

Vi a minha eternidade: um amadurecimento lento culminando num estrondo como o raio na estrada de Damasco.

Cheguei. Assim transpus o limiar e vivi uma nova forma de vida.

O universo tremeu dentro de mim; no entanto, tudo seguia igualmente calmo e sem perturbação.

Quando a evolução criou a primeira asa ou guiou o primeiro olhar à luz, a eternidade não se alterou.

A vida opera, sem se encher de admiração, grandes milagres de maneira tão natural, com a paz eterna de quem sabe e, sem pressa, alcança.


O  DIA


O que é que, lá embaixo, emerge da névoa matutina, estranho monumento voltado para o céu? Ruínas de Tebas antiga ou muros de castelos indianos no vale do Ganges, ou a glória de Paris pelas planícies do Sena? Não! É a linda cúpula de Vignola que surge ao Sol. Desejaria também que a idéia que a criou resplandecesse ao Sol.

São Francisco, a tua bela imagem está tão distante, não mais te compreendemos!

Homem, ergue-te e vive; segue as, pegadas dos grandes na grande estrada da libertação; levanta-te e edifica a ti mesmo, plasma em ti o super-homem. Vi o    teu futuro reino, durante as vigílias, miragem bela como uma visão. Por que não o conheces? Por que demoras na estrada do teu progresso? Tu que, entre tantos seres, venceste na terra a grande luta da evolução e agora, chegado ao ápice da vida animal, dominas o planeta, por que ainda tardas tanto em prosseguir? A evolução biológica está completa. Aguarda-te a evolução espiritual. Supera o animal do qual ainda és feito; torna-te grande na alma!

Observa quanto a natureza percorreu para produzir em ti a sua obra máxima. Parece que tentou todas as formas para uma única mais excelsa: o homem. Quanto esforço nas tentativas, quanto imenso trabalho de formas abandonas para trás a fim de deixar sobreviver uma única maravilha para o futuro: o homem! Observa nos tipos vegetais e animais, as imagens deixadas no meio da estrada desta nunca saciada vontade de te criar. Elas se inclinam para ti, e parece que te apoiam para te manter no alto.

Por que vacilas ainda em superar a vida? Não sentes fermentar na alma a história dos séculos vividos, não sentes subir a maré das lutas e das provas superadas, não sentes, vinda do túmulo, a voz dos mártires e dos grandes que te chamam para uma espiritualidade mais elevada?

Homem! Também em ti a evolução pôs o dilema do ser ou não ser, avançar ou findar. Não sabes que não se pode jamais parar? Se é da própria Natureza do universo o movimento e o progredir, pretendes tu mesmo, oh! pequenino homem, barrar a grande corrente? Acima da tua vontade seguem decisivas as grandes leis e surge a dor: a sua própria sanção. Qual novo cataclismo esperas, que novo sofrimento te obrigue a evolver, até que sintas o fulgor do raio da estrada de Damasco, e tu, constrangido, transponhas a soleira do reino do super-homem?

Oh minha sede de ascender vertiginosamente, a anelante ânsia de construir minha alma, a luta para vencer e superar a fase das paixões e repousar depois na consciência liberta, tu não a sentes!

Não, tu não desejas o entendimento. Amas viver na brutalidade, amas a terra e satisfazes as tuas paixões para viver. Deixas-te guiar pelo instinto, satisfeito com isto, não tentando compreender aquilo que fazes.

A revelação divina e a ciência humana, dando-se as mãos, entenderam-se e se harmonizaram para os que as quiseram aceitar. Os mártires de todas as religiões deram o exemplo, para os menos inclinados ao entendimento. O homem ainda não entende. Pobre homem!

Falará a dor, último recurso da lei justa e boa para conduzir o cego para ,sua estrada fatal do seu bem e do seu progresso; a dor abalará a inércia. Pobre homem! Vejo-te desanimado e deprimido.

O meu corpo choca-se contra uma enorme muralha de tantas e tantas mentes iguais, inertes, satisfeitas em viver a sua vida miserável. Eu, só e esgotado. Tu não me escutas.


FECHO

A aurora transformou-se em dia. A planície adormecida, lá embaixo, está fumegaste sob a aurora. Do lento vaguear da névoa, parece que se desperta a voragem do tempo. A manhã está feliz, alegre e cheia de juventude; no ar leve e calmo vibra a promessa de vida.

Mas, dissipa-se com o dia a pureza das horas matutinas; não mais olham para baixo as estrelas sorridentes e calmas. E enquanto morre a última claridade da aurora, dentro de mim um eco me repete: ser ou não ser, evolver ou findar.

E vejo na dor a estrada da evolução.

Somente na dor, livremente amada, vejo a estrada do ser, a única força que torna a alma grande.

E no desejo intenso de prosseguir sem repouso, grande sede me assalta de querer sofrer. Eu apelo para a dor com os braços abertos e o eco repete-me ainda: "ou sofrer ou morrer".




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