Ascese Mística

Como, então, resolveremos o problema do conhecimento?

É neste ponto que de novo ele se conjuga e funde com o da ascese mística, porque o método da unificação pode manifestar-se apenas quando a evolução da consciência atinge a fase mística. Nesse plano ocorre o grande fenômeno da unificação, que a seguir aprofundaremos. Isto não podia deixar de ter reflexos e repercussões também no campo gnoseológico. A evolução altera os métodos e dilata a consciência. E, como havia anulado a psicologia racional na psicologia da intuição, passando da fase lógico-científica à fase que poderemos chamar inspirativa, assim a intuição continua e completa-se na unificação conceptual, do mesmo modo que a recepção inspirativa continua e completa-se, como veremos, na fusão unitária na dos dois termos daquela recepção.

Atingido esse plano, desaparece na consciência o dualismo do método objetivo. Aproximam-se os dois termos —sujeito e fenômeno — reabsorvida é a distância, até desvanecer-se, soldada é a cisão, sanado o dissídio entre os dois antagonismos e aberta a compreensão. Aqui não nos ocupamos deste fenômeno da unificação, a não ser pelo que dele se reflete no problema do conhecimento. Quando a consciência, na catarse mística, não só se comunica, quase radiofonicamente, com a fonte noúrica, como na mediunidade inspirativa, mas tende, por um processo que examinaremos, a sobrepor-se e identificar-se com a fonte mesma, então o contato é tão íntimo e integral, que se adquire espontaneamente o conhecimento, mediante novo sentido de visão, e a verdade transborda de todas as categorias da razão, reduzem-se os esquemas racionais a prisões insuficientes para conter os conceitos. A consciência transcende os confins da lógica e, com um senso de imensa dilatação, o pensamento humano é abalado desde os fundamentos, numa revolução e renovação tão completas, que permanecem incompreensíveis e inadmissíveis para quem não os tenha experimentado. A compreensão existe, efetivamente, em função da amplitude e profundidade do campo de consciência e de seu grau de sensibilização.

Para resolver o problema do conhecimento é necessário atingir a universalidade do eu. Faz-se mister escancarar, mediante um ato de fé e de amor, mediante um senso de completa submissão, as portas da alma, para projetar-se fora de si e para que o infinito nela penetre. Certamente, é este um novo comportamento na hodierna psicologia; contudo, é ele necessário a consecução de resultados novos. Somente a identificação do eu com o fenômeno pode permitir a dilatação do primeiro até os limites do segundo; e, quando o fenômeno se tornar o universo, sua expansão não terá limites, como não os tem a DIVINDADE. Abrangerá o infinito o amplexo de almas. Atiram-se fora, então, as velhas muletas da observação e voa-se. É somente através da evolução do sujeito, através de renovações de consciência, que se podem obter superamentos tão substanciais. Resolve-se então o problema do conhecimento. Em o novo modo de ser está implícito o conhecimento; a verdade revela-se automaticamente, por visão, e atinge-se uma síntese espontânea, simples, completa. Deixa-se, para trás, a observação sensória, a presumida segurança objetiva, como método rasteiro, inadequado, incapaz de verdadeira síntese; abandonam-se as tortuosas vias da razão pela nova sensação do verdadeiro, direta, imediata, exauriente. Verdadeira e palpitante é a visão; já não é a fatigante conclusão oriunda de uma destilação cerebral, mas conclusão vivente; nela o universo vibra e exulta de pensamento e de ação.

Como o dissolver-se o separatismo da fase egoística na unificação da fase altruística, caem as barreiras do dualismo do método objetivo. A verdadeira única e radical solução do problema do conhecimento só pode ser obtida mediante a transferência da consciência para um plano superior de evolução. O problema filosófico não pode ser insulado, nem resolvido independentemente da realidade biológica e psíquica. Ele reside na personalidade humana e com ela adianta-se; seu progresso não pode ser mais que um momento do progresso desta. É necessário romper o círculo dos impulsos instintivos, como os vínculos da psicologia racional e das concepções habituais. Assim como o mistério da unificação, na ascese mística, é fenômeno natural que se desenvolve segundo urna técnica própria de desenvolvimento, assim também é a conquista do conhecimento.

Aparece, então, um dualismo psicológico entre as duas formas de pensamento — a racional e a intuitiva — ao surgir a visão. Diferentes são as duas visões: a maior compreende a menor, mas a menor não compreende a maior. Quem estiver fora desta mais alta realidade tomá-la-á seguramente por ilusão, até que a conquiste por evolução. Considera-se irreal o que está fora da própria experiência. Os dois olhares atingem profundidades diversas e, consequentemente, vêem na mesma verdade aspectos diferentes. Discriminar-se-ão necessariamente, os dois pontos de vista, sob o pretexto de incompreensão, porque as duas consciências são diversas e a extensão das recíprocas sensibilidades é a única medida do respectivo cognoscível. Todavia, se a psicologia superior pode penetrar a inferior, e não inversamente, esta última, ainda que a negue, não pode deixar de voltear em torno da outra, por um vago pressentimento da verdade, por um desejo que, incessante, clama na alma por descobrir o mistério. Pois que a treva não satisfaz à vista nem o silêncio ao ouvido, nem a ignorância ao intelecto, e ninguém pode estar satisfeito com sua negação, nem sentir-se contente com a realidade que possui, sem jamais desejar mais amplas realizações, também a incompreensão do ignoto constitui vago tormento que estimula a sair dele.

O método da unificação contém em si os elementos aptos a compensar aquilo que pode parecer um ponto fraco, isto é, o subjetivismo. Como poderemos compensar a pluralidade das concepções e a dissonância das contradições que derivam daquele subjetivismo? A filosofia, precisamente aí onde o pensamento, elevando-se e abstraindo da simples averiguação objetiva, chega a ser necessariamente subjetivo, é um mar de inconciliáveis divergências que desorientam o espírito, dando sensação de ser absurda a pesquisa da verdade. E, contudo, una é a verdade. Será, então, incapaz de atingi-la o subjetivismo divergente?

Foi exatamente, como reação a tudo isso, que a ciência se mutilou na objetividade de compreensão, com o fim de alcançar uma verdade igual para todos. Mas, é evidente que o conhecimento ganha em profundidade e potencialidade, à medida que passamos do mundo exterior ao interior. Não é baixando-se ao primeiro, mas elevando-se ao segundo, que se ganha em verdade. É precisamente aí, quando mal nos separamos da superfície sensória e progressivamente nos aproximamos da íntima substância, que começa o subjetivismo, isto é, a variedade e a divergência das expressões individuais: as vias do conhecimento estão na subjetividade e as vias da subjetividade constituem as vias do separatismo intelectual que parece distanciar-se da unidade do conhecimento. A conquista da verdade deve, portanto, passar através desta contradição e saber conciliá-la. Uma verdade igual para todos não pode ser senão uma verdade de superfície. A procura de uma realidade mais profunda conduz à divergência. Pois bem. Importa, então, saber compreender antes, e depois coordenar e reorganizar aquela divergência.

É natural que as apreciações mudem, à medida que subimos, porque tanto mais, então, se desperta e movimenta o eu pessoal, isto é, o múltiplo individualismo em que se reflete a unidade do absoluto. Este permanece simples e monista e nada perde de seu caráter unitário, exprimindo-se na infinita variedade do relativo. Devemos recordar que o eu que concebe é um relativo e está em evolução.

Preciso, então, se faz que superemos essa divergência e reconstruamos a unidade da substância. É necessário que não nos intimidemos em face dessa aparente inconciliabilidade, dessa dissonância de interpretações; devemos empenhar-nos, através da coordenação das expressões do relativo, em reconstruir a trama unitária do absoluto. A cisão está na manifestação humana, não na substância. Reorganizemos os reflexos particulares e reconstruiremos os aspectos da única luz. Da fusão das visões unilaterais sairá um mosaico que nos fornecerá os delineamentos do modelo divino. E as variadas intuições do subjetivismo escalonar-se-ão, por amplitude e profundidade; as verdades relativas coordenar-se-ão, as menores atrás das maiores, até às mais compreensivas e mais puras — aquelas que mais tiverem podido avizinhar-se da substância e houverem conseguido torná-la de maior transparência. Serão consideradas como tantos jatos de luz, cada um dos quais representa o sinal de uma linguagem eterna e infinita, a palavra de um sermão divino. Serão consideradas sucessivas aproximações da alma humana, que ascende entre trevas e lutas ao longo do mesmo caminho da verdade, do relativo para o absoluto, da análise para a síntese, galgando, por seu próprio esforço, as vias da unificação. E, por unidades de medida e índice de verdade, tomar-se-á, não a objetividade ou o juízo do número, mas o grau de purificação do ser que, em sua evolução, se aproxima de Deus.

Deixe-se também florescer em mil formas o jardim da intuição. Cada flor diversa será igualmente bela e exprimirá uma revelação. Ver-se-á, então, que, em essência, cada flor, em sua variedade, traduz a mesma eterna beleza e canta a mesma infinita sapiência. A flor mais perfeita e mais pura falar-nos-á docemente, com transparência mais evidente; a mais rude e primitiva mal saberá balbuciar. Una, porém, é a palavra, porque unos são o plano da criação e o pensamento de Deus. E, então, através da multiplicidade, bela, porque rica, do subjetivismo, espontaneamente se volverá à unidade, em que o separatismo de novo se unifica e o eu se funde no Todo, sem se destruir, como colaborador que se deu a si mesmo para a reconstrução do grande edifício do conhecimento. Nessa altura, ver-se-ão coincidir na profundidade, no mesmo cântico, que é a voz de Deus, as cindidas intuições pessoais

Então, a multiplicidade e diversidade dos juízos mais não são que o índice assinalador da distância entre a intuição e a única fonte central. Quanto mais se aperfeiçoa o ser, tanto mais sensível e potente se torna o instrumento consciência e tanto mais evidente se torna a unidade conceptual do verdadeiro. A dissonância das contradições é, pois, devida unicamente ao embaçamento do espelho refletor e é dada pelo grau de impureza do meio receptivo; as cisões nas conclusões indicam o grau de corrupção do pensamento e a distância que aquela cava entre este e Deus. A harmonia, que é perfeita no Centro, corrompe-se à medida que se afasta na imperfeição de ressonância da periferia. E a ignorância humana que irradia desordem, é a involução que gera o caos.

Existe, portanto, solução para o problema: basta que progridamos, que superemos a zona das primeiras desordenadas aproximações da intuição. Encontraremos, então, espontânea e automaticamente, a unidade do verdadeiro. A evolução e somente a evolução pode dar-nos e dar-nos-á, necessariamente, a unificação. Somente pela evolução se pode passar da ignorância ao conhecimento, da separatividade à unidade. A involução é treva que divide, a evolução é luz que unifica. Na involução, emudece-se a verdade, sufocada no meio denso, que não permite transparências. A evolução coordena, reorganiza, harmoniza e com isto reabsorve as divergências e torna mais evidente a realidade do verdadeiro.

Não se deve, pois, condenar e abandonar o subjetivismo intuitivo, mas fazê-lo evolver, purificá-lo, conduzi-lo sempre mais para o alto, até reencontrar nele a unidade. Assim, ele permanecerá sempre a via mestra do conhecimento. Coordenar, pois, as atuais intuições para reconstruir a verdade, mas, acima de tudo, subir, fazendo evolver a consciência, para aproximar-se da verdade. É necessário subir, também por humildade de coração, por pureza de intenções, por sublimação de paixão. É necessário, para fazer evolver a consciência, atravessar a catarse mística, que está no centro deste estudo. Num coração corrompido não pode nascer outra coisa além de soberba linguagem de vã sabedoria, além de dissídio, confusão, incompreensão. Eis as estéreis logomaquias de alguns filósofos.

Una e simples é a verdade. Mas, para vê-la toda, em sua unidade e simplicidade, importa saber alcançar-lhe a altura; não se pode pretender trazê-la para baixo, para nosso nível humano, sem inquiná-la e falsificá-la. A verdade, a solução dos mistérios, a visão do pensamento de Deus não se conseguem mediante poderosas argumentações, por laboriosas pesquisas ou através de prepotência de lógica e de razão, mas seguindo as vias das ascensões do espírito, que são as da catarse mística.

 

Ao enfrentar o problema gnoseológico, partimos de princípios decisivamente novos no pensamento moderno. O conhecimento, creio, não se alcança com os métodos chamados objetivos de projeção para o exterior, mecânicos, iguais para todos e acessíveis a todos, mas por métodos subjetivos, de introspeção, peculiares somente a determinados tipos de superconsciência Creio que os limites do conhecimento sejam dados e medidos prevalentemente segundo o grau atingido pela consciência humana na escala da evolução psíquica, o que quer dizer que a amplitude do campo fenomênico dominado é condicionada à extensão conseguida pelo eu, em sua evolução, que é sua potenciação e dilatação. Eis porque o fenômeno místico, que é a fase superior de evolução do espírito, se apresenta conexo com o problema do conhecimento e coincide com sua solução.

Coloco-me, assim, como antípoda da hodierna forma mental adotada pela ciência, ao mesmo tempo que, sobrepondo-me à psicologia objetiva, elevo para os primeiros planos o subjetivismo.

Indiquei, no princípio, o caráter subjetivo deste escrito, que é também o de toda a minha orientação psicológica. Poderão argüir-me de subjetivismo, qual se fora isso um defeito. A objeção, que pode ser global e insurgir-se contra a minha personalidade e o valor que atribuo ao método da intuição, parece grave, mas não o é.

Como pode a ciência racional opor-me, como defeito, a arbitrariedade do subjetivismo e suas bases intuitivas, quando ela mesma se funda sobre bases axiomáticas, igualmente intuitivas e arbitrárias, porque ainda passíveis de demonstração? Os fundamentos daquele organismo conceptual, de que pode provir esta acusação, considerados embora absolutamente seguros, são axiomas gratuitos, de valor transitório é extremamente relativo. Isto pode dar a alguns espíritos autônomos a sensação de que o pensamento humano, em toda a sua esmagadora congérie de construções ideológicas, filosóficas e científicas, se agite sobre bases convencionais. Ignora a ciência o que sejam, substancialmente, os fenômenos sobre os quais ópera. Averigua e combina os efeitos, porque tem experimentado que as coisas ocorrem deste e daquele modo. Mas, por que causas e de que maneira isto ocorre, não o sabe. No campo abstrato, se penetrarmos até os bastidores desataviados da construção ideológica e pusermos a nu o jogo com que se tece e desenvolve a cadeia da silogização humana, verificaremos, subindo de concatenação para concatenação e de relação para relação, que se deve necessariamente chegar ao ponto fixo de partida, à pedra basilar de todo o edifício. Ora, esse ponto fixo, que é precisamente o que rege a construção e por cuja falta toda ela se esboroa, é simplesmente um axioma do qual não se sabe dizer outra coisa além de que é assim porque é assim, axioma cuja demonstração se reputa supérflua, pela simples razão de o declararem evidente; e enquanto, para aceitação de um pormenor, se exigem mil provas, para aceitação do princípio-base nada se requer, somente porque ele já existe na qualidade de aceitação indiscutida na grande maioria humana. E então a garantia dessa verdade fundamental é confiada única e exclusivamente a um fundo de intuição coletiva que instintivamente apoia um mínimo de verdade. Instintivamente, isto é, além de todo o controle racional. Deixada à parte a ciência utilitária, a verdadeira ciência, abstrata, filosófica, matemática, de conteúdo conceptual, volve e revolve, reincide e apoia-se toda sobre rudimentos de intuição. Intuições mínimas, mas seguras, somente porque garantidas pelo estender-se a grande número de pessoas. Ou intuições maiores, de gênios, videntes insulados, posteriormente desenvolvidas, analítica e racionalmente, pela cadeia do raciocínio.

Há, pois, nas raízes do pensamento moderno, uma zona daquela arbitrariedade e daquela intuição que viriam exatamente inquinar meu subjetivismo. O método da intuição consiste apenas numa extensão do mesmo sistema a todo desdobramento ideológico; significa estender o mesmo contato intuitivo a todo desenvolvimento e manter-se constantemente no sistema axiomático, sem pedir apoio racional. Se “o axioma é o contato intuitivo com o absoluto”, estendo esse contato e o torno contínuo e universal. Não condeno, pois, a ciência; considero-a, antes, centelha de pensamento, até onde não está demonstrada e onde não chega sua atividade racional. Amplifico, antes, seus fundamentos num método que, embora acessível somente a quem, por evolução, ali chegou, é o único que verdadeiramente pode atingir o conhecimento.

O método da intuição não é aceito pela ciência positiva moderna, porque é antiobjetivo. Não é aceito porque, enquanto o mundo fenomênico, segundo o método da observação e da experimentação, é aproximadamente igual para todos e é suscetível de ser entendido e construído, o método intuitivo, sendo extremamente pessoal e subjetivo, não possui força para subir e elevar-se a altura maior do que a de uma interpretação pessoal.

Existe ai uma idéia preconcebida e esta consiste em o número, isto é, em admitir que a extensão numérica do juízo seja garantia de verdade. Dá-me isto a idéia de cegos que se dão a mão para guiar-se reciprocamente. Ora, o resultado da observação exterior é, se não total, pelo menos parcialmente igual para todos, somente porque é exterior, ou por outra, é conjugado à forma mais simples de percepção sensória, a mais rudimentar e também a mais difusa e fundamental no mundo biológico. O valor da objetividade apoia-se, portanto, somente na, extensão de uma identidade de juízo, que é, por sua vez, filha de uma identidade de construção fisiológica, nervosa e psíquica. A objetividade, então, revela-se tanto mais evidente, quanto mais depende da estruturação sensória mais primitiva, qual é primeiramente o tato (sabemos quão ilusória é esta indiscutível realidade sensória em face da constituição cinética da matéria), e depois a vista, o ouvido etc.. Eu estaria em dizer que é função direta da inferioridade do nível evolutivo, pois quanto mais evolve o ser, necessariamente tanto mais penetra, graças à lei de diferenciação, no subjetivismo

Ora, o método objetivo, embora apresente a vantagem de chegar a conclusões e interpretações mais universais, parece construído, por sua natureza, precisamente para permanecer aderente, sem poder superá-las, às aparências mais exteriores, às estruturas e interpretações fenomênicas mais rudimentares e superficiais. Esta unidade de juízo é vantagem aparente, porque nos deixa na superfície, tende a reconduzir-nos sempre para o relativo, o particular, e não constitui, absolutamente, unidade de orientações e de conclusões, universalidade de concepções que alcancem a substância das coisas. O objetivismo nasceu fatalmente sem asas. Efetivamente, a ciência hodierna é incapaz de construir um sistema que contenha a explicação de todos os fenômenos e evidencie, por meio deles, o funcionamento da lei universal.

O método objetivo é, em suma, a negação do método da penetração na profundeza e na substância das coisas; parece-me quase um lastro que se detém em baixo e intercepta, automaticamente, as vias do conhecimento, capaz de resultados utilitários, mas impotente em face de resultados mais profundos. O valor da objetividade reside inteiramente nesse consenso humano que certamente não contém a chave do absoluto, nem pode ser tomado como medida das coisas. O verdadeiro consenso pode consistir apenas na voz dos fenômenos, que somente o subjetivismo intuitivo sabe ouvir e fazer ouvir, fazendo-a emergir do silêncio do mistério. Não pode deixar de nascer, no ânimo de quantos hajam ouvido esta voz, uma confiança em provas outras, que não são as dos sentidos e dos instrumentos, nem as fornecidas pela aceitação da normal psicologia humana.

Mas, não é tudo. O método objetivo baseia-se totalmente sobre um erro fundamental de situação, que lhe impede a penetração conceptual dos fenômenos. Esse erro consiste na distinção entre o eu e o não-eu, entre o sujeito e o objeto, entre a consciência e o mundo exterior. Sobre esse individualismo, filho do egoísmo, baseia-se toda a psicologia científica hodierna. Ora, faz-se mister admitir que as duras necessidades da psicologia de luta, que a vida impõe não podem ser definitivamente superadas. Enquanto no método intuitivo, a consciência, fazendo-se humilde, mas sensível, logra transportar-se, por vias interiores, do seu íntimo à íntima essência dos fenômenos, com o método objetivo, a consciência, permanecendo autônoma e volitiva, suprime sua sensibilidade e sufoca a voz dos fenômenos, choca-se contra eles, sem neles penetrar, detendo-se à sua superfície, por forma que não toca senão aparências e ilusões. O pensamento de DEUS, que está no íntimo das coisas, se retrai, se enfrentando com uma psicologia de dúvida e de violência, ao passo que se revela espontaneamente aos que se aproximam com amor e fé. Tal é a lei da vida.

O objetivismo é, pois, filho de um preconceito: um fundamental instinto humano. Que valor terá ele quando transportado para a atmosfera rarefeita da concepção? É daí que procede essa orientação psicológica de destruição. A distinção entre sujeito e objeto não é somente separatismo que distancia e cava insuperável abismo de incompreensão entre observador e fenômeno, mas, em rigor, é também antagonismo, porque a observação parte, precisamente, da negação e da dúvida e, como garantia de verdade, toma precisamente a desconfiança, opondo-se à confiança e à fé, isto é, assume-se uma atitude mental que fecha, a priori, todas as vias de comunicação. Com essa psicologia de agressão e negação, apenas se podem obter destruição conceptual e, diante do mistério, trevas e silêncio.

Oposto é o método do subjetivismo e da intuição. Enquanto o objetivismo distancia, este aproxima; enquanto o objetivismo diverge e separa, o subjetivismo converge e unifica. Este é verdadeiramente o método da unificação conceptual na demolição absoluta do dualismo do método objetivo.

 

 

Entraremos, mais adiante, nos pormenores deste desenvolvimento. Basta-nos, por agora, traçar as linhas de orientação. A sucessão destas fases não a apreendi de livros, que não leio, ou de textos, que não consulto, mas de minha experiência direta. Quis conservar aqui minha virgindade de pensamento, permanecendo em contato direto e exclusivo com o fenômeno, da maneira que depois a eventual coincidência com os resultados de outros estudos e de outras experiências se tornasse, para mim e para os outros, mais surpreendente e comprobatória.

Fica assim definida a amplitude do fenômeno da ascese mística, objeto deste estudo, que pode ser expressa nestes termos e ser compreendida dentro destes limites: por ascese mística entendo o desenvolvimento do fenômeno psíquico, desde a fase de metafania lúcida ou de inspiração consciente, até a sua fase de misticismo que se consuma com a unificação integral entre receptor e transmissor. O presente estudo, assim como minha experiência, que lhe serve de guia, move-se entre esses confins.

A essência do fenômeno consiste sempre na universal e insuprimível evolução do espírito. Mas, certo é que nesses níveis o simples fenômeno mediúnico se espraia sobre tal mar de conquistas e de grandiosas afirmações, que aquele fio de revelação supranormal e primeiro lampejo de transparências transcendentais, que é a simples metafania, se perde na vertigem de luz, que é o estado místico, de tal modo que, longe de diminuir a personalidade na inconsciência, a arrebata consciente até o superconcebível. Ouço a voz interior exprimir-se num cântico de harmonias universais: — “Contempla, — diz-me a voz, — a substância espiritual das formas do ser. O todo é um turbilhonar de esferas. Este movimento representa a mais doce música, a mais maravilhosa harmonia de luzes, a mais gigantesca construção, na mais ampla exatidão de relações, e é também cântico de conceitos e sentimentos. Observa e, na harmonia deste amor infinitamente múltiplo, esquece a dissonância de tua dor que se encontra fechada no tempo. Deixa teu espírito explodir, além de todas as medidas, no incomensurável, além de todos os limites, no infinito, além de todos os ritmos menores, no ritmo divino do todo. Verás e ouvirás. Toda alma é feita para ver e ouvir.”

“Repara. Os seres dividem-se e reúnem-se, segundo hierarquias. Cada qual se põe, por virtude de seu peso especifico, em seu nível natural, inviolavelmente. Eles se vêem e se falam e se escutam. Vozes e luzes, de plano a plano, descem e sobem: porque o Alto tem sede de se dar, como o plano inferior tem sede de ajuda. Esta é a Lei, imperante em toda parte e em todo nível. Assim, tudo se distingue por individuações inconfundíveis e tudo volta a reunir-se e irmanar-se na mesma luz e no mesmo cântico. Ao apelo do fraco responde um eco bondoso; graças à bondade do Alto, há sempre uma dádiva por fazer. Auxiliar-se reciprocamente, eis a lei.”

“A luz irradia do Centro e transparece de esfera a esfera, através dos seres que a compõem. O metafânico é alma desperta à escuta e ouve aquilo que para os outros é silêncio. Conceito, harmonia e potência consubstanciam aquela luz; ela é sinfonia do pensamentos e ações, é também corrente de amor e de força a enxertar-se no espírito, que é a causa única da vida. E reforça as motivações e fecunda vossas obras.”

A percepção noúrica é um contato com a irradiação divina, que é a linfa vital do universo.

“Por isso, digo-vos: Escutai e purificai-vos, para que tudo seja ascensão. Não ausculteis vãmente, por simples curiosidade, porque sagrada é a voz do Alto. Não dissipeis a potência substancial da vida. Sirva-vos tudo isso para subir. Jamais atendais às tristes vozes dos planos inferiores, a não ser para ajudar a sofrer e a subir.”

“A lei de ascensão moral, conduzida através da bondade e do amor, é a lei do centro, que por ela sustém o universo.”

Relembro aqui as palavras de Goethe a Eckermann: “Nenhuma produção de ordem superior, nenhuma invenção jamais procedeu do homem, mas emanou de uma fonte ultraterrena. Portanto, o homem deveria considerá-la um dom inesperado do Alto e aceitá-la com gratidão e veneração. Nestas circunstâncias, o homem é somente o instrumento de uma Potência superior, semelhante a um vaso julgado digno de receber um conteúdo divino.”

* * *

Sentiremos, depois, mais de perto, o incêndio daquelas sublimações de espírito, pelas quais se passa da fase de inspiração consciente à de unificação mística. Mas é necessário, antes, compreender e explicar racional e cientificamente o fenômeno. Antes de abandonar-se ao impetuoso lirismo da visão, é necessário seguir o fenômeno em cada uma de suas manifestações, apreendê-lo, em sua realidade nua, com as tenazes do analista. Cumpre, antes de tudo, dar completa satisfação à razão.

Na evolução do fenômeno mediúnico, do plano físico ao plano psíquico inconsciente, depois consciente, até a unificação mística com a fonte, é nota fundamental a progressão de consciência, de intervenção da vontade e, ao mesmo tempo, de desmaterialização. E nela se encontra uma progressiva conquista do fator moral, uma ascendente realização de acrisolamento espiritual, uma transformação em peso específico, cada vez mais livre e mais leve. Todo o vasto fenômeno da evolução da mediunidade se conjuga, assim, em suas zonas de desenvolvimento, através de características constantes. Enquanto a mediunidade de efeitos físicos se move prevalentemente por força de causas barônticas5 e com técnica ectoplasmática, e a mediunidade intelectual inconsciente pode abrir-se por todas as portas e fazer-se órgão de recepção de todo pensamento, desde o mais nobre até o mais vil, assistimos aqui a um processo de progressiva purificação do fenômeno e do médium. Na recepção inspirativa consciente, o fator moral, como tantas vezes tenho insistido, ocupa o primeiro plano e no misticismo não constitui somente condição prevalente, mas absoluta e irrevogável, tanto que ele representa o vértice da perfectibilidade moral e religiosa. O fenômeno transborda, pois, em suas mais altas maturações, além dos limites das possibilidades e da competência da ciência, no campo da fé e da religião. Para mim, todavia, não existe antagonismo, a não ser de relatividade de perspectivas e de unilateralidade de pontos de vista. Devemos, contudo, elevar a ciência ao nível da fé e empreender, sem transviar-nos, a penetração nos domínios do supersensório. É chegada a hora de estes antagonismos entre ciência e fé, hoje destituídos de sentido, porque filhos de visões unilaterais e de momentos históricos superados, caírem para sempre, relegados ao passado, assim como caem todas as coisas superadas.

O fenômeno místico deixa assim para trás, na via das ascensões humanas, os fenômenos mediúnicos e, conquanto se origine destes, é de se ver que destes se liberta completamente. Ingressamos, assim, em um campo supermediúnico, resultante, embora, do mediúnico. Chegamos às superiores fases, a que ascende o fenômeno e nas quais ele se intensifica e liberta, e ingressamos nesta zona, que é de suprema purificação.

Ainda não pude elevar a níveis mais altos, hoje pelo menos, minha capacidade de penetração. Parece-me haver tocado o vértice de minhas possibilidades e do meu sonho de realizações humanas.

____________________________________________________

5 - Neologismo formado de elementos gregos: "baros (gr. báros, ous) - pesado, denso, e "ontos" (gr. ón, óntos) - ser, entidade. Barônticas: provenientes de Espíritos de constituição densa (Entidades inferiores) Esse problema de correntes barônticas é amplamente explanado no livro As Noúres, do mesmo Autor e já republicado por esta Editora. (N. do T.)

 

O fenômeno místico pode ser também concebido, na mais ampla acepção, qual momento das ascensões espirituais humanas. Inclui, pois, o problema do conhecimento e pode ser considerado, como o considero, uma verdadeira técnica do pensamento e método particular de indagação, de superlativo rendimento. Alhures, já insisti nestes conceitos, quando do estudo do fenômeno inspirativo. Prosseguindo a análise do mesmo fenômeno, em suas fases superiores, é natural que aqueles conceitos também encontrem aqui seu ulterior desenvolvimento.

É a evolução do espírito que traça e supera os limites do conhecimento, que diversamente o situa no seu progredir, até o ponto em que a unificação com a fonte de emanação, que encontramos no vértice do fenômeno místico, se torna também unificação dos divergentes aspectos, sob que se contempla o relativo, numa única verdade humanamente absoluta. Assim, às diferentes fases da evolução espiritual correspondem diversos graus de conhecimento e diferentes aproximações de revelação da verdade.

Nos albores de sua vida espiritual, o homem não sabe elevar-se além das imediatas conseqüências de suas impressões sensórias. Seu julgamento detém-se, pois, na superfície dos fenômenos, limitando-se a uma interpretação empírica e desconexa, pura projeção, no cosmo, das reações de seu pequeno mundo interior.

Em mais avançado momento, a consciência, mais amadurecida, qual tem acontecido até hoje, no seio da civilização, quer dar-se conta do valor das próprias reações, procura e exige uma verdade menos aparente e mais substancial e vai ao encontro dos fenômenos, não mais exclusivamente com a fantasia do primitivo, mas com o olhar objetivo do observador. Tem, assim, aprendido a catalogar fatos, coordena-los segundo planos hipotéticos, e tenta compenetrar-se da lógica e fixar a lei de progressão dos fenômenos, para chegar a estabelecer gradualmente os princípios, cada vez mais abstratos e gerais, que regem o funcionamento orgânico do universo. Tal é a presente fase científica. O homem moderno sente, justamente, a sua superioridade diante do homem supersticioso, que se impressiona antes de saber observar, e sente-se orgulhoso de não se deixar invadir por vãos temores, diante de fenômenos cuja causa pode surpreender com seu poder de análise. E isto já é muito. O homem tem conseguido a racionalidade, esta potência arquitetônica, que permite as construções ideológicas; ele é poder de escolha e de coordenação, é visão de relações e unificação; é indução, dedução, sistematização, que guiam para a reconstrução do pensamento originário da criação.

A ciência tem recolhido todas as pedrinhas do grande mosaico, tem procurado reconstruir o grandioso painel, sem todavia lograr outra coisa que delinear alguma figura. Mas, ai de mim! — longo é o caminho, extremamente prolixo é o método, tanto que pode ser considerado inadequado à consecução da síntese máxima. Evidencia-se, dessarte, a inépcia da ciência, consequentemente uma fundamental questão de método; este, tal qual é concebido, nada mais pode ser que um eterno caminhar, incapaz de síntese.

Da maturação evolutiva da consciência humana decorre, porém, uma fundamental mutação. Sinto por experiência pessoal, por observação de tipos históricos do movimento das leis biológicas, a verdade desta afirmação. O fenômeno da catarse mística representa uma tão completa elevação da consciência, que se lhe escancaram as vias do conhecimento. É este um importante aspecto do fenômeno místico, que aqui estamos estudando. Antes de lhe enfrentarmos os maiores aspectos psicológicos, éticos e religiosos, examinemo-lhe o científico e gnoseológico.

Os três graus do conhecimento, isto é, a fase sensória, a fase racional-analítica e a fase intuitivo-sintética, correspondem aos três tipos de homem e de consciência por mim descritos noutra obra 6, a saber: o homem vegetativo, físico, sensório, de ideação concreta, movido pelos instintos primordiais da vida; o homem racional, submetido à educação, psíquico, nervoso, utilitário; enfim, o super-homem, dono de si, das forças da vida, do conhecimento. O fenômeno da ascese mística representa a maturação biológica deste novo tipo de homem.

Acontece agora, neste momento da evolução humana, uma renovação tal da consciência que seus efeitos são incalculáveis no campo psicológico e merecem, pois, particular exame. Trata-se de nova e autêntica técnica de pensamento, de completa reconstrução dos métodos de pesquisa e de orientação científicas. Devo, por isso, retornar a esses conceitos, já precedentemente esboçados7 , para aqui levá-los mais além, na continuação lógica de seu desenvolvimento. Devo retornar a eles porque, se naqueles escritos o método da intuição começa a revelar-se na fase de mediunidade inspirativa consciente, aqui ele se manifesta plenamente, na fase mística que lhe constitui a continuação. Neste nível de evolução, completa é a maturação daquele método, cujo rendimento se nos apresenta com plena eficiência.

_______________________________________

6 Em A Grande Síntese, cap. 78 (As vias da Evolução Humana). v. também cap. 37 (consciência e Superconsciência.
Sucessão dos Sistemas Tridimensionais) (N. do T.)
7 v.  As Noúres, do mesmo Autor, particularmente os capítulos V (Técmica das Noúres) e VI (Conclusões). (N. do T.)
 
 

Coloco, assim, o fenômeno místico na seqüência evolutiva do fenômeno inspirativo.
Precisemos, pois, com maior exatidão.


Em meu livro precedente, classifiquei em várias fases a mediunidade que tenho considerado um fenômeno em evolução, momento e expoente da maior evolução biológico-humana, a qual, superadas as formas orgânicas se aventura hoje, desmaterializando-se progressivamente, nas formas psíquicas. Aqui não demonstro, mas apenas relembro esta evolução biológico-psíquica, alhures já por mim exaustivamente tratada 3 .


Em seu primeiro nível inferior, o fenômeno mediúnico manifesta-se em forma física, de efeitos materiais. Em plano mais alto, aparece uma mediunidade superior, mais evolvida, de efeitos mentais. Formas demasiado conhecidas, para que nelas eu insista. Se, em seu primeiro nível, a mediunidade intelectual é simples mediunidade passiva e inconsciente, em que vontade e consciência do médium se afastam do fenômeno, como elementos estranhos e inúteis, chegando por evolução a nível mais elevado, transforma-se em sentido ativo e consciente, no qual, como tenho demonstrado, a consciência do médium está desperta e do qual é parte integrante. Em verdade, ocupei-me longamente dessa mediunidade inspirativa, isto é, mediunidade intelectual ativa e consciente, limpidamente operante na viva personalidade do sujeito. Delineei a lei de ressonância do fenômeno, pela qual, entre o centro de emanação, transmissor, individualizável como noúres ou correntes de pensamento, e a consciência desperta do médium, pode estabelecer-se, pela sintonia de vibrações, uma comunicação, que é base da recepção inspirativa.


E, neste ponto, havia-me detido, porque ontem este constituía o último termo de minha realização; mas, já não o é hoje. Aquelas afirmações continham, porém, as razões para esta continuação.


A mediunidade inspirativa 4  já e imensamente superior à comum mediunidade passiva e inconsciente, porque vem a ser ativa e tende a fixar-se na personalidade do médium, como sua normal emanação. Mas, não pode o fenômeno interromper aqui o seu desenvolvimento. Certo,ele nos levará para altitudes vertiginosas, sobretudo para a ciência que não esta acostumada a tratar de fenômenos cuja progressão evolutiva os leva a uma normal desmaterialização, que os subtrai à comum percepção sensória e psíquica; progressão que os leva a desvanecer-se aparentemente num mundo que, por imponderável, é contestado pela ciência. Mas, esta não constitui razão bastante para que eu deva deter-me, máxime quando em mim encontro o guia de uma experiência vivida. Prossigamos, portanto, ainda, como durante um ano prosseguiu em mim o fenômeno; releguemos ao passado aquela fase conhecida e superada e aventuremo-nos na zona superior de evolução do fenômeno mediúnico inspirativo.


Temos visto que os pois termos do fenômeno inspirativo, à semelhança de uma transmissão- recepção radiofônica, representam o centro emanador e a consciência do médium, receptora e registradora. Os dois termos são distintos, embora comunicantes, isto é, ligados por fenômeno de ressonância. A captação noúrica baseia-se nesse princípio, ou seja, no estado de sintonia ou harmonização vibratória, que se alcança mediante duas recíprocas aproximações: primeiro, a entrada na fase de superconsciência por parte do eu do médium que se põe em tensão; em outros termos deslocamento ascensional de seu centro, ao longo da escala evolutiva das dimensões, até a mais alta fase psíquica e superconsciência; segundo, descida ao longo da mesma escala evolutiva, isto é, involução de dimensão conceptual por parte do centro emanador e de sua Os que estiverem habituados a denominar estes fenômenos com outra nomenclatura, a menos que substituam a palavra pelo conceito e a forma pela substância, saberão igualmente, estou certo, compreender, ainda que as expressões por mim adotadas sejam insólitas para eles. (N. do A.) irradiação, de modo que, através de recíproca propensão de um para outro, seja possível o encontro e o amplexo dos dois termos.


Tendem essas faculdades mediante contínuo exercícios a estabilizar-se, desde a zona instável de fadiga e de conquista, até a zona de assimilação, completada na personalidade do médium, isto é, até a zona de instinto e qualidade normal (automatismo).


Forma-se um hábito da consciência, através da respiração sutil nas zonas rarefeitas dessa estratosfera do pensamento. A aproximação dos dois termos tende assim a tornar-se cada vez mais estreita, mais constante, mais normal. Com o andar do tempo, a sintonização vibratória estabiliza, por constante repetição, aquele estado de afinidade entre transmissor e receptor, que é simpatia e atração, estado reconhecidamente básico, sobre o qual tanto insisti no estudo do fenômeno da recepção noúrica.


Evidente é o resultado deste processo. Contém ele um campo de forças convergentes para o mesmo ponto que deverá necessariamente, ser tocado, ou antes, ou depois. A comunicação anormal do pensamento tornar-se-á na consciência do metafânico uma espécie de educação e, consequentemente, de hábito para viver em superior zona espiritual, onde tenderá a normalizar- se, em forma cada vez mais estável, o equilíbrio de seu novo peso específico psíquico. E a comunhão não lhe estabilizará somente as vias, mas dilatar-lhe-á as fronteiras; se antes invadia somente as zonas da inteligência e era somente luz resplandecente, porém fria, inundara agora as zonas do coração e será também calor que inflama de paixão.


Extremamente férvido de maturações é, pois o fenômeno e intensamente ativo é o Alto na transfusão de forças para a transumanização do ser. Tende pois para uma gradual, progressiva e total elevação, de si para si da consciência receptora, de todo o eu humano do sensitivo, com todos os seus recursos e potencialidades. Daí resulta um como incêndio que reduz a cinzas o homem velho e o faz ressurgir em forma completamente nova, em que se apresentam totalmente renovadas a concepção, a orientação psicológica e a visão do fenômeno e de suas leis.


Vemos, assim, o fenômeno da mediunidade inspirativa amadurecer e transformar-se, naturalmente, por lógico desenvolvimento, naquilo que se pode chamar, em seu primeiro tempo, metafania mística, no sentido de recepção cada vez mais total, isto é, de emanações, não mais exclusivamente conceptuais, mas também afetivas etc. A medida, porém, que esse fenômeno se encaminha para sua maturação, transcende de tal modo o simples fenômeno inspirativo, num arrebatamento de todo o ser, que acaba por se encontrar diante deste, como a luz solar diante da luz lunar.


Tal é o fenômeno místico de que agora nos ocupamos.

____________________________________________________

3 - Em A Grande Síntese (passim) e As Noúres (N. do T.)

4 - Os que estiverem habituados a denominar estes fenômenos com outra nomenclatura, a menos que substituam a palavra pelo conceito e a forma pela substância, saberão igualmente, estou certo, compreender, ainda que as expressões por mim adotadas sejam insólitas para eles. (N. do A.)

 



  • pesquise na obra
  • avancemos
  • palestras e estudos
  • livro a lei de Deus
  • congressos
  • livraria