Para penetrar mais profundamente no problema da ascese mística, retomemos os conceitos já expostos, fixando-os tanto quanto possível, em um diagrama. Dessarte, poremos em evidência, graficamente, o fenômeno, em suas linhas mais expressivas, e obteremos sua definição em forma mais sintética e intuitiva — uma estrutura gráfica que nos dará a sua técnica funcional. Temos colocado o fenômeno da ascese mística no seio do fenômeno da evolução, como sua parte integrante e central.

Assim, a ascese mística se projeta sobre o fundo grandioso do maior fenômeno do universo. Temos visto como o princípio vibratório, individuando o espírito, permite, por ressonância, a sintonização e como, pela estabilidade desta em um estado de afinidade, guia o ser ao último termo da ascensão — a unificação com Deus. Portanto, no seio da evolução, chegada à sua superior fase espiritual, a ascese mística é o fenômeno em marcha progressiva para a unificação Procuro, assim, guiar gradativamente o leitor à  compreensão racional, depois à sensação deste supremo vórtice de ascensões a que esta presa minha alma. Nesta concepção atinjo o conhecimento por sintonia com correntes noúricas, operando com o método da intuição.

Observemos o diagrama anexo e expliquemo-lhe o significado e o desenvolvimento, imaginando construí-lo qual efetivamente ele surgiu em minha mente (fig. 1).

O diagrama exprime, por coordenadas ortogonais, a lei de variação da evolução em função do tempo. Mais exatamente, temos gradações de evolução sobre o eixo vertical das ordenadas e gradações de tempo sobre o eixo horizontal das abscissas. Por tempo, entendo, não a dimensão temporal, que nas superiores zonas de evolução é superada, mas o ritmo do transformismo fenomênico, que é fato universal e subsiste por toda parte, qual passo assinalador do caminho do eterno vir-a-ser. Especificaremos mais adiante quais são os graus de evolução.

Dai resulta um V de progressiva abertura, cujos ramos são tangentes aos círculos sobrepostos. Supondo a coordenada vertical, indicadora da evolução, repetida mais à  direita e elevada, ao contrário, ao longo dos centros dos círculos, teremos um diagrama simétrico, isto é, um diagrama cuja metade direita se repete na metade esquerda, nos lados da referida linha, aparecendo na forma muito mais expressiva de um V que se abre para o alto.

A série dos círculos e tangentes que se repetem lateralmente exprime a repetição do fenômeno no seu andamento em individuações idênticas e contemporâneas, isto é, expressas no mesmo âmbito de desenvolvimento Esta repetição do diagrama em casos colaterais é necessária para estabelecer as relações entre as várias individuações do fenômeno.

(Veja figura 1 na próxima página)

ascese mistica -figura 1


A progressão ascendente dos círculos não passa de um diagrama inserto no precedente, segundo os mesmos eixos de desenvolvimento e cujas mesmas coordenadas poderiam repetir-se, partindo do centro de cada uma das sucessivas circunferências. Obtemos, assim, a expressão do desenvolvimento interno do fenômeno, qual é compreendido na abertura coniforme das duas tangentes divergentes, e a expressão da causa determinante desta abertura, à proporção que se ascende para as mais altas zonas da evolução. Compreender-se-á este diagrama interno, observando-se que ele nada mais exprime que o progressivo abrir-se de uma espiral, cujo centro, por comodidade de observação e de evidência de expressão, se desloca progressivamente para o alto ao longo do mesmo eixo, e recordando que este diagrama mais não é que o desenvolvimento da trajetória típica dos motos fenomênicos (fig. 2)11  aplicado e repetido neste caso particular, com o supracitado deslocamento de centros. É evidente, com efeito, que também este particular fenômeno da evolução de consciência ou ascese espiritual, que aqui estamos estudando, deva exprimir-se na mesma linha espiritual que é a trajetória típica tomada como expressa o abstrata e universal do andamento de todo fenômeno. Assim, o diagrama da figura 1 indica a mesma progressiva cobertura de zonas (tracejadas), como no diagrama da figura 2 (nesta é, ao contrário, concêntrica), cobertura que indica, num como noutro desenho, as zonas sucessivas de expansão do fenômeno.

ascese mística figura 2


Esta a explicação analítica que, no entanto, em sua originária fase intuitiva, foi em mim instantânea. Vejamos agora o significado destes sinais. Temos, pois, três diagramas fundidos conjuntamente: o primeiro é dado pelas duas linhas divergentes em forma de V que se abre para o alto; o segundo é dado pela abertura da espiral com cobertura de sucessivas zonas, o que exprime a expansão do fenômeno (seu aspecto dinâmico) permitindo a um tempo fechar-lhe e insular-lhe as várias fases (aspecto estático); o terceiro é dado pela repetição lateral dos dois diagramas precedentes, o que permite estabelecer as relações entre os vários casos e transforma o simples fenômeno individual em fenômeno coletivo. Tríplice é pois o significado do diagrama: primeiramente, exprime ascensão do ser ao longo dos vários planos de evolução; em seguida, traduz a correspondente dilatação (espiritual) de consciência (zonas tracejadas); enfim, significa progressiva superposição de individuações e fusão de consciência em forma de existência coletiva. Assim, a música das ascensões dilata progressivamente as suas ressonâncias, estende-as na complexa sinfonia das harmonizações coletivas. A harmonia gráfica do diagrama mais não é que a expressão ótica de um ritmo musical de conceito em que está divinamente contido um desenvolvimento lógico de forças.
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11 - Confronte A Grande Síntese, cap. XXVI (A trajetória  típica dos motos fenomênicos) e fig.   nº 1 de As Noúres (N. do A.)
Veja-se ainda o cap. II de As Noúres (O Fenômeno). (N do T.)

 




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