Estas simples afirmações nos oferecem a chave do fenômeno da ascese mística e dos respectivos corolários espirituais. Vibração, ressonância, sintonização, afinidade, unificação são-lhe as fases lógicas e evidentes. Mais no alto teremos, como já disse na "Técnica das Noúres", equivalência  superiores da vibração, embora seja idêntico o princípio. Quando se pensa que, na ascese mística, o segundo termo é verdadeiramente a Divindade, pode imaginar-se desde já que vertigem da exaltação de consciência podo aquela ascese representar para a personalidade humana que a empreende. Segue-se imediatamente daí que a ascese está nas vias do aperfeiçoamento espiritual, segundo o modo mais elevado, e que os vórtices das conquistas morais lhe são a meta natural e necessária.

Os místicos falam sempre de Deus e de amor, de união, de núpcias espirituais da alma com Deus. Cumpre-nos chegar, racionalmente, a explicação dessa nomenclatura e psicologia que eles não explicam. Aí vemos funcionar todo o mecanismo vibratório do pensamento, dos sentimentos, das paixões.

Através de sinais positivos e negativos, vemos formarem-se simpatias e antipatias, harmonias e dissonâncias, atrações e repulsões. Aí estão as grandes forças do amor e do ódio, que se encontram nas bases da vida.

Mas, a ascese é fenômeno de evolução e, portanto, de harmonização e unificação; é sobretudo amor. Na ascese mística, estabelece-se esta corrente de atração entre o alto e o baixo e entre o baixo e o alto e, com isso, revela-se, em termos de razão, o maior mistério, que é a descida, até o homem, do amor de Deus. Veremos que maravilhoso jogo de luzes espirituais nascera desses fenômenos. O princípio de sintonização e de afinidade impõe o processo de purificação, a necessidade de fazer o vácuo em baixo, no mundo da matéria, que se relega ao passado, a fim de que em nível mais alto haja espaço por ceder à vida. Nasce então a luta interior da renúncia, a fadiga da virtude, a dor que dilacera os vínculos do espírito, o superamento das paixões, a destruição do eu humano e a ressurreição em Deus do eu super-humano.

O princípio vibratório em que se baseia o fenômeno induz-nos a compreender as vias da liberação, a compreender porque se devem guiar e não destruir as paixões, porque seja necessário alcançar-lhes o domínio e não esterilizar-se na sua simples destruição. É necessário reconstruir a vibração que se detém, reconstruí-la em um movimento mais intenso, para que seja vida e não morte. É necessário transformar, reedificar, renascer continuamente, afirmar vigorosamente e, direi mais, gozar, viver, amar no alto e não apenas sofrer e morrer em baixo. O meu misticismo é alegre, construtivo, dinâmico. É absurdo certo misticismo conventual, feito só de árida renúncia, que nega, mata, destrói e nada mais deixa além do vazio. É absurda certa contemplação, que às vezes encontramos no Oriente, que insula o homem no seu egoísmo de espírito e o segrega do mundo, sem torná-lo ativo, agente do bem na vida de todos.

Compreendemos, assim, o mecanismo da renúncia e da conquista. Cada um se torna escravo daquilo que ama e, quando se trata de coisas materiais, o coração se liga ao caduco e ao ilusório, condena-se a novos dilaceramentos, até compreender, a fim de dirigir-se a metas mais seguras. É o princípio vibratório, pelo qual se estabelece uma corrente de atrações entre os dois termos, o eu e o objeto de seu amor, que nos explica a gênese da ligação. São potências sutis e, todavia, reais que depois se faz preciso demolir. Real também é a do.r O homem é vinculado, arrastado de todos os lados, tormentosamente, por esses liames imponderáveis criados por ele mesmo. Também aqui se nos deparam os mesmos termos do fenômeno, isto é: vibração, sintonização, afinidade, unificação E o nosso coração experimentará a sorte do objeto de sua unificação. A comunhão de vibrações nos torna semelhantes ao que amamos: põe-se no Alto o objeto e a alma o serve. Eis a razão mecânica pela qual se faz preciso desprender-se da terra, que nos faz compreender como os sentimentos, as paixões, as atrações geram fusões que podem, segundo a natureza do objeto, tornar-se vínculos de alegria e de dor.

Compreendemos, assim, o fenômeno e o significado da fé. Concebo a consciência como unidade radiante, o eu evolvido como noúre que tende perenemente à difusão, à dilatação de si mesma, que é centro de emanações contínuas. Como, pois, se rompe o círculo fechado da razão e se penetra no céu da intuição e da visão? Como se conquista, com os limitados meios de uma dimensão conceptual inferior, o domínio da dimensão superior? Com a fé. A técnica vibratória nos dá a chave do mistério.

A razão é objetiva. Quer, antes de crer, assegurar-se e, só debaixo de seu controle, confiar. Mas, o método da prudência e da segurança não é o método do vôo. E aqui ressurge o incessante antagonismo entre minha forma de pensamento e do racionalismo científico, em contínuo, estridente e inconciliável contraste. E, todavia, o primeiro é o sistema dos místicos, dos gênios do Evangelho, das grandes criações de espírito, é o método que se baseia no aperfeiçoamento do órgão central da concepção, a consciência, fato fundamental, de que a ciência se afasta. Se não rompermos, por evolução, o círculo em que se fechou a razão, esta jamais sairá dele e dentro dele, impedida de evadir-se, retorna sempre sobre si mesma. E é impossível rompê-lo por evolução, a não ser mediante a introdução na consciência de fatores novos, capazes de lhe dilatarem a potencialidade. Fé é como se designa o ato psicológico com que se introduzem esses fatores novos.

Para que serve permanecer no campo da positividade e da segurança, se este é tão limitado e não oferece possibilidade de expansão? A verdade universal já está totalmente pronta e presente, escancarada diante de nossos olhos. Criá-la não é o que nos compete fazer, mas sim desenvolver a vista para vê-la. Retoma-se, pois, todo o problema, mediante uma transformação de consciência. Esta chegará somente até aquela zona em que será capaz de existir. Aí encontra uma barreira pacífica, mas inviolável, que detém os imaturos, os indignos. A lei põe-lhes um véu diante dos olhos e sua violência permanece impotente; a verdade permanece fora do campo de sua consciência.

“Cumpre-me saber subir qualitativamente”, cada qual deve dizê-lo, porque o conhecimento é um estado vibratório de sintonização que se alcança harmonizando-se pelas vias da bondade, da ascensão espiritual. Ora, aquele que, em vez de seguir estas vias e pôr-se em estado positivo de confiança que estabelece ressonância, se põe no estado vibratório negativo de dúvida e de desconfiança, que se afasta na dissonância, a si mesmo fechará automaticamente as portas do conhecimento.

Apliquemos sempre os mesmos conceitos: vibração, ressonância, sintonização, afinidade, unificação. Por essas vias, o espírito consegue fundir-se tranqüilamente na verdade. Ora, pode compreender-se que o problema do conhecimento na sua essência e integridade consiste num problema de unificação entre o eu humano e a Divindade, representa um problema de ascese mística, de revelação, porque em nossa consciência aquela Divindade é limitada somente por nossa capacidade de conceber e se entrega à nossa alma em relação à sua potência de harmonização. Mas, quando é atingida a sintonização e completada a unificação, a verdade então se torna um cântico divino, uma harmonia suprema, um incêndio de amor em que a alma já não se sente a si mesma como coisa distinta.

Esta concepção vibratória nos revela mecanicamente que no amor de Cristo reside a grande via das ascensões humanas. O Evangelho é o método da harmonização universal; nele, como em nenhuma outra parte, transparece a Divindade, na poesia sublime do Seu Amor. Trata-se precisamente de transparência e esta se conquista na ascese mística.

Se nos pusermos em posição de resistência, em estado vibratório fechado, qual se nos recusássemos a subir, então nós mesmos nos deteremos e nos privaremos da recepção amplificadora que desce das correntes vivificantes difusas no todo. A razão é um círculo de forças fechadas, é um egoísmo conceptual que a si mesmo não sabe ultrapassar, não se dá por simpatia e não conhece as vias vibratórias da atração que levam à fusão com o não-eu e, portanto à sua dilatação até ele. Necessário se faz subjugar este equilíbrio e reconstruí-lo em mais alta e completa forma, embora seja mais instável e, não obstante, mais dinâmica. E a fé é o primeiro salto para a frente.

No duvidoso tormento, tenho interrogado o mais profundo de mim mesmo, dizendo-me: "como posso eu confiar-me a um imponderável que em mim ainda não existe e ao qual devo eu mesmo criar?" E o profundo me tem respondido:  crê, porque só a tua fé, base de impulsos ascensionais, tornará objetivas e tangíveis aquelas realidades mais altas que hoje te escapam".

Não se trata de fé louca, do credo quia absurdum10 , desesperada capitulação da razão que, sem embaraço, pretende ser sempre a única a falar, até fora de seu campo. Que esta se extinga para sempre, dobre-se em suas expressões caricatas e permaneça fechada em seu âmbito, como rainha, mas sem pretender outros reinos. A fé não é uma renúncia às faculdades de pensar, como pode parecer a quem seja incapaz de atingir esse nível; ela é antes um estado de graça que vê e conhece por outras vias e conserva em si a sua alegria infinita; é uma doação em que nada se perde, porque àquele amor e àquela confiança responde o Universo, retribuindo com novas doações; não é cegueira senão para os cegos, porque naquela cegueira se abre a visão e se revelam os céus e aparece fulgurante o pensamento de Deus.

A fé é, pois, ato criativo por excelência que acompanha a realidade em formação, que voluntariamente pode e sabe antecipar os futuros estados da evolução. Dentro de nós, em nossa profundeza, já reside o germe dos infinitos desenvolvimentos do divino. Faz-se mister alimentá-lo em nosso íntimo e nossa deve ser a primeira impulsão. Há no eu a potência de levantar esses eixos dinâmicos, de ampliá-los como turbilhões de forças, atraindo e assimilando infinitas correntes universais. Com a fé, podemos crer antes de sentir, afirmar antes de conhecer, querer antes de ser. Absurdo, dirão. Assim é, no entanto, que sentimos, conhecemos e existimos; com antecipação, voamos onde outros caminham. Daí emerge uma criação, impossível de outra forma. Dessarte, forma-se, com antecipação, o estado vibratório, e excita-se-lhe a ressonância que, amplificando-se em contínua vibração, nos transportará àquele modo e àquele plano de vida, aonde queremos subir, e nele nos transformará.

Assim como o Sol é uma torrente de luz e força, que se irradia por toda parte, mas que só se utiliza e valoriza quando incide sobre um germe receptivo, assim também Deus é torrente de pensamento e de energias que frutifica somente quando vem recolhido pela ressonância de uma alma preparada. A fonte é um todo e dela fluem, não só conhecimento, mas bondade, ação, poder. Mas, é o eu que, mediante um ato de fé, deve abrir os braços, escancarar as vias da absorção conceptual e dinâmica em todas as suas modulações, executar o trabalho de projetar-se para aprender, cingir e assimilar. Fecundado assim pela divina ressonância, nutrido dessas respostas, o estado vibratório estabilizar-se-á e formará a aptidão, a qualidade, o modo espiritual de ser, que depois se fixará com a repetição, se tornará hábito, instinto, necessidade. Assim, o influxo divino representa uma potência eternamente ativa na obra da criação.
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10 - "Creio porque é absurdo". Frase de origem desconhecida, diz Paulo Rónai. Possivelmente adaptação de palavras de Tertuliano. Impropriamente atribuída a Santo Agostinho, essa expressão define a fé, em oposição à  razão, conforme conceito generalizado na Idade Média. (N. do T.)




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